
(Necessária a leitura de Eu Tenho Câncer)
Nicholas
Todas as tardes passava por aquela academia de balé. Todas as tardes uma música em sintonia perfeita era tocada no piano, todas as tardes olhava para cima e via em uma das janelas uma linda garota pulando e girando conforme a música era tocada. Seus cabelos presos em um coque bem apertado, seu colã azul, sua meia calça branca e suas sapatilhas cor de rosa me deixavam com vontade de entrar naquele lugar só para apreciar de perto aquela perfeição.
Tinha dezesseis anos e havia acabado de voltar do hospital. Era rotina. Para quem tinha câncer, ir ao hospital era como ir à padaria. Meu câncer era nos olhos. Talvez tivesse que retirar o único olho que me restava e torcer para o tumor sair e me deixar livre.
Todas as tardes passava por aquela academia de balé.
Parava por alguns minutos em frente aquele prédio, olhava para cima ainda quando tinha um olho, e observava aquela garota morena dançar. Em seguida ia para qualquer lugar, mas retornava ao final do dia para vê-la saindo da academia sorridente esbanjando beleza com aqueles cachos definidos e pretos.
Ela era mais jovem que eu. Uma criança ainda. Talvez nem tanto, mas algo me dizia que ela amava aquilo que fazia e o futuro dela no balé era promissor. Como eu queria ter coragem para falar com ela, ela parecia nem me notar. Não sabia o que dava em mim para me interessar por uma criança praticamente, mas ela não aparentava ser criança. Esbanjava maturidade. Queria ter coragem.
Alguns definem coragem errado, confundem coragem com falta de medo e super confiança. Coragem para mim é quando você faz algo mesmo com medo. Isso é coragem. O resto é história, mito ou qualquer coisa parecida.
Desenvolvi câncer nos olhos aos dez anos. Um choque para a família e principalmente para mim. Todos os médicos diziam que eu morreria muito cedo, retiraram um olho meu e continuei meus tratamentos para impedir que o câncer permanecesse. Meus pais trabalhavam muito, por isso a maioria das vezes ia para o hospital sozinho, certa vez mudei a rota e acabei passando por uma rua diferente. Naquela rua tinha uma academia de dança. E tocava uma bela melodia no piano em uma sala do segundo andar.
Parei em frente aquele lugar e olhei para cima, ainda enxergando com meu olho de verdade. Ao fazer aquilo vi saltando perto da extensa janela uma linda garota. Ela pulava com suavidade. Fui para o outro lado da rua, para enxergá-la melhor. E fiquei alguns minutos observando ela pular, girar e sorrir com cada movimento que fazia. Me encantei com aquela garota, mas tinha que ir ao hospital.
Chegando lá, mais alguns exames, sessões de quimioterapia e eu estava liberado. A noite começava a surgir no céu de verão do Rio de Janeiro. Resolvi passar pela mesma rua que havia ido de tarde. Tinha esperanças de que a garota ainda estivesse lá. Mesmo achando que não, ninguém treina durante tanto tempo assim, mas a esperança passou a fazer parte de mim desde o diagnóstico do câncer.
– Muito bem, Sue! Ótimo ensaio! Não querendo puxar o saco, mas sua apresentação semana que vem será perfeita se você continuar se dedicando assim! – uma mulher dizia sorrindo para a garota que eu havia me encantado. Ela estava diferente. Bem diferente. Havia se trocado e soltado seus cabelos, ela tinha cachos, perfeitos cachos pretos que chegavam até o meio de suas costas. Podia ser jovem, mas era alta e esbelta e sorria com cada palavra dita por aquela que deduzi ser a professora.
– Obrigada, Karen! – ela dizia corando – Espero que esteja certa! Posso te perguntar uma coisa? – eu observava as duas um tanto escondido atrás do poste perto da academia e conseguia escutá-las.
– Mas é claro, querida! – a tal de Karen disse para aquela que foi chamada de Sue. Seria aquilo nome ou apelido? De todo jeito, era lindo como ela.
– É verdade que vai ter olheiros no espetáculo? – ela dizia e via seus olhos brilhando.
– Não consigo esconder nada de você, não é mesmo? – Karen disse para a garota – Não queria que você soubesse para não se sentir pressionada, para não ficar nervosa, mas sei que você é muito inteligente…
– Você me conhece, Karen! Praticamente me criou aqui na academia… Então é verdade? – ela perguntava sorrindo. Como aquele sorriso era incrível!
– Sim, alguns olheiros estarão lá! – Karen disse e a garota pulou de felicidade.
– Darei o meu melhor! – Sue disse.
– Vai ser uma tristeza ter que te deixar ir para outra academia com mais renome… – Karen disse entristecida, mas sorria para a garota.
– Ah Karen não fique assim, se sou assim foi graças a você!
– Não querida, o mérito é seu! Você se esforçou! Você vive o balé!
– Não seria nada disso sem uma excelente professora! – Sue disse.
Um carro parou na porta da academia.
– Melhor ir, querida! – Karen disse sorrindo e beijando a testa da garota.
– Tchau, Karen! Até amanhã! – Sue disse e entrou no carro indo embora.
Sue. Aquele era o nome da garota. Ou talvez apelido. Não importava, era lindo. Daquele dia em diante eu mudara minha rota para ir a qualquer lugar que fosse, principalmente ao hospital.
Todos os dias no mesmo horário eu passava por aquele lugar. Ficava observando do outro lado da rua aquela garota dançar. Céus como ela dançava bem!
Certo dia, passei pela academia de balé de Sue. Não havia melodia, não havia o barulho dos saltos dela no segundo andar. Era véspera da tal apresentação, achei estranho, geralmente bailarinas na véspera treinavam até não poder mais. Esperei mais algum tempo e uma ambulância havia chegado até o local. Minutos depois uma maca saiu do lugar levando Sue deitada. O que havia acontecido?!
Sue chorava, mas algo me dizia que não era por conta da dor que provavelmente sentia em sua perna imobilizada.
– Sue, calma… – Karen dizia tentando acalmar a garota.
– Por quê?! Por que comigo, Karen?! – Sue derramava lágrimas grossas de seus olhos – Me diz que posso adiar a apresentação Karen, por favor! Amanhã sei que já vou estar boa…
– Sue… – a professora olhava para Sue e voltou seu olhar para a perna imobilizada, inchada e roxa da garota.
– Karen… – Sue não acreditava.
– Vou avisar as meninas lá dentro e já vou indo para o hospital…
– Karen… – Sue dizia e chorava – Moço, diz que não foi nada… – ela implorava para o médico.
– Criança… – o médico começou a dizer.
– Moço… – ela chorava.
Durante meses não tive notícias de Sue, continuava passando todos os dias pela academia, a sala no segundo andar naquele horário estava sendo ocupada por outras pessoas, Sue não estava entre essas pessoas. A melodia era diferente, parecia aula para iniciantes. Não via Sue saindo e indo embora.
Nesse tempo conheci Clarisse em um tratamento no hospital. Ela tinha câncer pancreático, linda. Loira, olhos azuis, esbelta. Digamos que não sou de se jogar fora também, tenho uma boa aparência apesar do olho de vidro. E Clarisse se interessou por mim. Começamos a namorar, eu a amava, ou pelo menos achava isso. Mesmo namorando passava todos os dias pela academia de dança. Meses e meses e nada de Sue voltar. Achei que ela havia mudado de academia, não queria pensar que ela não poderia mais dançar, o que aconteceu na perna dela parecia ter sido grave.
Havia passado um ano desde o ocorrido com a garota. Nesse meio tempo Clarisse me trocou. Peguei ela em um quarto do hospital inutilizado com um cara alto, forte, atraente. Antes fossem beijos, mas óbvio que nunca eram só beijos. Ninguém beija o outro sem roupas. A menos que não sejam apenas beijos.
Clarisse havia me trocado. E como se não bastasse, um exame que havia feito constou que o câncer havia passado para o outro olho, eu iria ficar cego de vez. No auge dos meus dezessete anos aquilo era o fim do mundo. Naquele dia eu só queria morrer. Voltei para a casa passando sempre em frente à academia de balé. Estava destruído. Ficaria cego, havia pegado minha namorada com outro, o pior de tudo, por outro cara absurdamente saudável, coisa que eu jamais seria. Realmente, naquele dia eu queria a morte.
Ao passar pela rua da academia de balé escutei uma melodia que há tempos não escutava.
– Cinco, seis, sete e oito! – uma voz conhecida contava os passos da bailarina devagar – Calma Sue, vai com calma, pode ter se recuperado, mas ainda é perigoso…
Fui para o outro lado da rua e olhei para a janela do segundo andar assim que escutei aquele nome. Ela saltava como antes, um tanto mais lenta, mas saltava e sorria, rodopiava e movimentava seus braços como uma bailarina movimenta. Suavidade e destreza perseguiam aquela garota e naquele momento havia esquecido completamente meus problemas. Havia esquecido que ficaria cego, havia esquecido tudo.
Resolvi pela primeira vez sair da rotina de voltar para casa para de noite voltar para aquela rua e esperar Sue sair. Fiquei encostado naquele muro, olhando para aquela janela a tarde toda vendo Sue dançar e se dedicar ao máximo em cada movimento que fazia.
Estava escurecendo e já fazia alguns minutos que o ensaio de Sue havia acabado, provavelmente ela estava se arrumando. Mais algum tempo e ela saiu da academia seguida pela professora.
– Por favor, Karen! – ela implorava.
– Sue, da última vez você…
– Karen estou recuperada, fiz um ano de fisioterapia, o médico disse que já posso voltar para o balé, por favor, não me impeça de fazer o que amo… – Sue dizia e olhava para a professora igualmente magra e definida.
– Já disse que não consigo esconder nada de você, não é mesmo? – Karen disse sorrindo.
– O que está dizendo…? – Sue tinha o brilho nos olhos de sempre.
– Ia fazer surpresa, mas te coloquei no espetáculo da semana que vem, o mesmo festival, ainda estava incerta disso, por mais que você tenha pegado a coreografia perfeitamente, você acabou de voltar para a dança e poderia ser puxado demais…
– Karen isso é sério?! – a garota sorria com aquele sorriso maravilhoso que eu não sabia, mas sentia saudades.
– Falei com seu médico hoje e ele liberou, mas… – ela se apressou em dizer antes da garota gritar de felicidade – Não quero que se mate de dançar semana que vem, vamos diminuir os treinos, não quero que aquilo aconteça de novo e acredito que você também não quer…
– Ok, ok! Eu concordo com tudo! – ela sorria e pulava na calçada. Queria que ela olhasse para mim, me enxergasse uma vez, mas ao mesmo tempo não queria. Não queria que ela visse que era caolho e que em breve seria um cego. Sorte ou azar, ela não me viu naquele dia.
Um carro parou na frente da academia e Sue entrou no mesmo. Fiquei observando o carro até ele sumir completamente de minha vista.
– Professora Karen! – um grupo de garotas de aparentemente nove anos, descia as escadas da academia rumo à rua e chamava pela professora.
– O que foi, meus amores? – a professora perguntou para as garotas.
– A gente quer levar pessoas de fora para o festival… Tem como? – uma menininha perguntou.
– Pessoas que não tem ingresso… – a outra falou.
– Claro que tem meus amores, falem para eles que temos ingressos à venda, mas para correrem antes que acabem! – Karen disse e a coragem se encheu em mim. As menininhas foram embora com seus pais que já as esperavam do lado de fora da academia e eu atravessei a rua.
Entrei na academia respirando fundo. Subi as escadas até um balcão de atendimento. A tal de Karen estava lá naquela hora.
– Boa tarde, ou melhor, boa noite! – ela disse sorridente.
– Boa noite! – disse sorrindo também.
– Posso ajudá-lo? – ela perguntou me analisando – Te vejo sempre por aqui, tem alguma irmã, conhecida ou namorada que estuda na academia? – ela perguntou.
– Na verdade… Não… – disse envergonhado por saber que ela já tinha me visto – Nicholas! – estendi a mão para cumprimentá-la.
– Karen! – ela me cumprimentou – Rotina passar por aqui e observar minha melhor aluna? – ela perguntou sorrindo e erguendo uma sobrancelha.
– Me pegou… – disse rindo timidamente – Além de querer comprar o ingresso, posso te pedir um favor? – perguntei para a professora que ao que tudo indicava sabia que eu observava a tal de Sue.
– Claro! – ela disse.
– Não conte a ela…
– O que? Por quê?
– É complicado… Não conte a ela sobre mim, que eu a observo sempre, que eu me preocupei demais quando ela desapareceu, que eu a acho linda, que eu me interesso por ela, não conte… – pedi.
– Por que, Nicholas? – Karen perguntava curiosa.
– Ela é linda, jovem e tem um futuro pela frente, e eu não…
– Você é bonito, jovem e…
– Posso morrer agora… – disse antes que ela repetisse a última parte. – Olha… Estou prestes a perder a única visão que me restou… Posso morrer a qualquer hora por causa de um câncer, no auge da minha juventude, ela merece algo bem melhor e saudável que vá viver por anos a fio junto com ela, não conte a ela sobre mim, prefiro assim, mas ainda gostaria de comprar os ingressos para vê-la dançando e sendo aplaudida por centenas de pessoas antes de perder completamente minha visão…
– Nicholas eu entendo tudo o que está me dizendo, vou fazer o que você me pediu, mas lembre-se sempre: tendo câncer ou não todos podemos morrer agora. A vida não é justa com todos, a vida não é fácil, temos que aproveitar cada segundo como se fosse o último, não se arrependa do que fez e sim do que deixou de fazer… – ela esperou que eu fizesse algo, mas apenas sorri para ela e abaixei minha cabeça – Sue é sem dúvidas minha melhor bailarina em anos e olha que ela só tem catorze anos… Ano passado ela fraturou seriamente a perna e quase a perdeu, por sorte se recuperou… O balé para a Sue é como oxigênio para todos… Praticamente criei essa menina, ela entrou aqui com três anos e meio e vai sair antes do previsto porque tenho certeza que nesse festival irão chamá-la para outra academia, terão olheiros lá e Sue é muito boa na dança… Uma garota incrível e assim como você ela gosta de observar…
– Ela já me viu? – perguntei assustado.
– Se viu foi despercebido, ela sempre me conta tudo, Nicholas você vive isso da maneira mais frustrante que possa existir, mas às vezes é preciso que te lembrem: amanhã pode ser tarde demais… – ela disse e mais uma vez fiquei pensativo – Acredito que vai querer olhá-la de perto, não é mesmo? – ela disse sorrindo.
– Com certeza! – disse retribuindo o sorriso.
Comprei o ingresso e finalmente voltei para a casa. Minha cirurgia seria na semana seguinte a da apresentação de Sue e fiquei feliz que a veria dançando para várias pessoas uma vez na vida.
Durante a semana toda eu ainda passava em frente à academia de dança para ver a morena dos cachos negros dançando e sorrindo como só ela fazia. Aquela nova rotina de ficar a tarde toda observando ela era um tratamento muito melhor do que ir ao hospital e ter que encarar Clarisse com o outro cara.
Um dia antes da apresentação fiz mais uma vez meu caminho para o hospital. Passei pela academia e Sue treinava como sempre. Karen estava encostada de costas para a janela, ela olhou para o relógio em seu pulso e se virou para a rua. Ri tímido assim que ela me viu, ela fez um gesto com a mão indicando que eu estava pontual como sempre e logo em seguida segui meu caminho para o hospital.
Chegando lá, antes de entrar para a sala de quimioterapia encontrei Clarisse chorando no corredor. Nessas semanas que se passaram ela havia piorado, estava magra demais, quase sem cabelos. Passei por ela, mas perguntei a uma enfermeira o que tinha acontecido. A mesma disse que o bonitão do namorado dela havia terminado. Fiquei com pena de Clarisse, mas não fui consolá-la. O feitiço se virou contra o feiticeiro. Sei que era uma coisa horrível de se pensar ou falar, mas era a verdade.
Havia chegado o grande dia, de Sue e meu também, iria vê-la dançando, uma das visões mais perfeitas que viria, com certeza era algo que guardaria sempre na memória.
Minha mãe sabia de tudo. Sabia do meu interesse por Sue e agia como Karen, mas eu não era corajoso o suficiente para fazer uma pessoa que eu amava platonicamente ficar com pena de mim. Minha mãe me ajudou a me arrumar para o festival de balé e me levou até o lugar. Cheguei com uma hora de antecedência e fiquei esperando.
As luzes do teatro se apagaram e uma música começou a tocar. Não era Sue, ela seria uma das últimas. O festival começou com grupos de dança e terminaria com os solos. Estava ansioso para ver Sue dançando, mas observei atento cada apresentação, tudo foi maravilhoso. Olhei no panfleto que me deram indicando quem e quando a pessoa iria se apresentar, Sue seria a penúltima.
Era tarde da noite e finalmente chegou a vez de Sue. Uma melodia magnífica começou a tocar no piano e de repente Sue começou a dançar. Foi a apresentação mais incrível que já vi, foi perfeita, Sue estava linda, Sue estava magnificamente linda. Ao final da apresentação todos levantaram e a aplaudiram de pé, ela sorria corada e tímida, mas agradecia sempre. Foram quatro minutos de aplausos para Sue, e ainda achava que ela merecia mais.
Enfim chegou o final do festival e antes do pessoal começar a ir embora o apresentador chamou todos os bailarinos no palco. Mais alguns minutos de aplausos e aí ele anunciou que havia alguns olheiros na platéia e depois de ver todas as apresentações eles decidiram escolher alguns para se profissionalizar em outra academia, uma do exterior que depois fui descobrir ser uma das melhores que existe, Julliard.
Mesmo tendo certeza que escolheriam Sue, fiquei apreensivo assim como todos. O nome de Sue foi chamado e a alegria dela não poderia ser maior. Minha Sue iria para o exterior, viveria sua vida como uma bailarina profissional. Iria sentir muito a falta dela. Ao mesmo tempo que estava feliz, estava triste. Mas é como Karen havia me dito: a vida não é justa para todos.
Na semana seguinte fiz minha segunda cirurgia e fiquei cego de vez, nunca gostei de ser pejorativo, então eu falo que sou cego mesmo. Foi o momento mais depressivo de minha vida, nunca quis tanto a morte como naquela época.
Estava cego, não via mais Sue, e mesmo que ainda pudesse enxergar não a veria tão cedo. Ela estava em outro país, seguindo a carreira, brilhando nos palcos do mundo e eu estava no Brasil esperando a morte que parecia demorar a chegar. Aquilo era frustrante.
Depois de Clarisse ainda namorei mais algumas meninas, Joana a qual eu chamava de Johnny, Roberta e a Bárbara, mas eu a chamava de Tutty, ela amava bala de tutty-fruit e por isso a apelidei daquele jeito. Mas todas elas morreram. Todas tinham algum tipo de câncer.
Ter câncer na juventude te faz namorar muitas pessoas, ou ser mais uma na lista de alguma pessoa que tem mais tempo de vida que você. Realmente a fila andava rápido. Mas nunca me esqueci de Sue, e nunca soube se aquilo era um nome ou apelido. Parecia apelido, porque sei lá, Sue parece ser nome americano e ela é brasileira, estranho, mas sempre fiquei com essa dúvida na cabeça.
Vivi muito mais do que os médicos acreditavam e tive vontade inúmeras vezes de esfregar isso na cara deles, mas me contive.
Dez anos haviam se passado. Era um cego bom, se é que existe isso, por exemplo, aprendi a andar com aquela vareta, aprendi a ler aqueles pontinhos em relevo, podia perfeitamente andar sozinho, contanto que fosse no Rio e nos lugares que eu já conhecia, óbvio.
Não tinha rotina, peguei o hábito de caminhar sempre no parque e sentar em um banco específico e esperar passar o tempo, apenas escutando as pessoas. Um belo dia, e como dia estava belo, fui caminhar no parque. Depois que fiquei cego, meus outros sentidos com o tempo foram se aperfeiçoando. Cheguei até meu banco específico e percebi a presença de alguém naquele lugar. Perfume de mulher.
– Olá, posso me sentar aqui? – perguntei para ela que nada disse – Sou cego, não um monstro… – disse sorrindo para a pessoa, adorava quebrar o gelo fazendo piadas comigo mesmo, ela não disse nada – Pelo seu perfume, deduzo que é uma mulher… – estava de pé e esperava realmente uma resposta daquela mulher – Está me analisando… – disse deduzindo – Quer que eu faça pose? – fiz uma pose significativa para ela e ela riu – Então você pode rir… – disse assim que escutei uma risada baixinha – Estou realmente querendo sentar, mas se quiser eu fico aqui de pé… – disse.
– Não precisa pedir minha permissão para sentar… O banco é público… – ela disse por fim.
– Mas faço questão de pedir, gentileza gera gentileza, e então… Me permite sentar ao seu lado? – disse esperando a resposta.
– Claro. – ela respondeu.
– Muito agradecido! – disse e caminhei até perto do banco batucando a vareta de cegos – Me chamo Nicholas. – me apresentei sentando ao lado da mulher.
– Sue. – escutar aquele nome fez uma explosão de sentimentos surgir dentro de meu corpo. Era ela, só podia ser ela, quantas Sues existiam no mundo? Ok poderia existir mais, mas qual é! Era ela!
– Sue? – perguntei contendo minha alegria.
– Algum problema? – ela disse.
– Sue. – disse por fim, aquele era o nome mais lindo do mundo! – Seu nome parece um apelido. – disse indiretamente querendo tirar minha dúvida que durou dez anos.
– Isso seria algo bom ou ruim? – ela perguntou.
– Nick. – disse sorrindo.
– Seu nome tem um apelido. – ela disse.
– Apelidos são dados às pessoas como forma de carinho e intimidade.
– E você disse o seu para uma estranha… – Sue disse pensativa.
– Você não é uma estranha. – com certeza ela não era uma estranha, aquele era o dia mais perfeito que poderia existir.
– Ah não? – ela disse irônica, mas ela não sabia de nada.
– Não. Você é a Sue! – disse e ela riu. Ela era a Sue, minha Sue.
– Ainda quero que me responda se ter um nome que parece um apelido seria algo bom ou ruim…
– Com o tempo te falo, Sue! – disse para minha paixão secreta e platônica.
Com o tempo eu iria respondê-la, Sue já era minha há dez anos e ela nem sabia, mas a partir daquele dia saberia, não era um galanteador e muito menos um cara que joga cantadas baratas, mas ao escutar aquele nome de novo e depois do interrogatório que fiz a ela, depois de sentir o corpo dela e ver que ela era minha Sue, minha Sue que tinha ido para o exterior… Meu mundo se encheu de alegria de novo, meu tratamento contra o câncer era Sue, e mesmo ela estando com medo e desconfiada eu iria tê-la como sempre quis.
Havia esperado dez anos para reencontrá-la e daquela vez seria corajoso. Daquela vez não me arrependeria de nada como dez anos atrás. Podia estar cego, podia não enxergá-la, mas ela era minha Sue. Continuava linda. Continuava dançando.
Minha Sue.
A vida não é justa com todos, não foi justa comigo ao me revelar que tinha câncer, mas foi muito generosa ao me fazer conhecer o amor da minha vida, dez anos até reencontrá-la e mesmo cego a teria para mim. Também foi generosa ao me devolver a coragem, no geral ela não foi justa, mas soube ser caridosa. Aproveitaria o máximo dessa caridade. Ao lado dela. Da minha Sue.
Afinal, não tinha muito tempo de vida, nunca tive, nunca terei, mas cada segundo ao lado dela seria precioso, muito mais que precioso.
Por que o exagero?
Porque eu tenho câncer.

(Necessária a leitura de Eu Tenho Câncer)
Nicholas
Todas as tardes passava por aquela academia de balé. Todas as tardes uma música em sintonia perfeita era tocada no piano, todas as tardes olhava para cima e via em uma das janelas uma linda garota pulando e girando conforme a música era tocada. Seus cabelos presos em um coque bem apertado, seu colã azul, sua meia calça branca e suas sapatilhas cor de rosa me deixavam com vontade de entrar naquele lugar só para apreciar de perto aquela perfeição.
Tinha dezesseis anos e havia acabado de voltar do hospital. Era rotina. Para quem tinha câncer, ir ao hospital era como ir à padaria. Meu câncer era nos olhos. Talvez tivesse que retirar o único olho que me restava e torcer para o tumor sair e me deixar livre.
Todas as tardes passava por aquela academia de balé.
Parava por alguns minutos em frente aquele prédio, olhava para cima ainda quando tinha um olho, e observava aquela garota morena dançar. Em seguida ia para qualquer lugar, mas retornava ao final do dia para vê-la saindo da academia sorridente esbanjando beleza com aqueles cachos definidos e pretos.
Ela era mais jovem que eu. Uma criança ainda. Talvez nem tanto, mas algo me dizia que ela amava aquilo que fazia e o futuro dela no balé era promissor. Como eu queria ter coragem para falar com ela, ela parecia nem me notar. Não sabia o que dava em mim para me interessar por uma criança praticamente, mas ela não aparentava ser criança. Esbanjava maturidade. Queria ter coragem.
Alguns definem coragem errado, confundem coragem com falta de medo e super confiança. Coragem para mim é quando você faz algo mesmo com medo. Isso é coragem. O resto é história, mito ou qualquer coisa parecida.
Desenvolvi câncer nos olhos aos dez anos. Um choque para a família e principalmente para mim. Todos os médicos diziam que eu morreria muito cedo, retiraram um olho meu e continuei meus tratamentos para impedir que o câncer permanecesse. Meus pais trabalhavam muito, por isso a maioria das vezes ia para o hospital sozinho, certa vez mudei a rota e acabei passando por uma rua diferente. Naquela rua tinha uma academia de dança. E tocava uma bela melodia no piano em uma sala do segundo andar.
Parei em frente aquele lugar e olhei para cima, ainda enxergando com meu olho de verdade. Ao fazer aquilo vi saltando perto da extensa janela uma linda garota. Ela pulava com suavidade. Fui para o outro lado da rua, para enxergá-la melhor. E fiquei alguns minutos observando ela pular, girar e sorrir com cada movimento que fazia. Me encantei com aquela garota, mas tinha que ir ao hospital.
Chegando lá, mais alguns exames, sessões de quimioterapia e eu estava liberado. A noite começava a surgir no céu de verão do Rio de Janeiro. Resolvi passar pela mesma rua que havia ido de tarde. Tinha esperanças de que a garota ainda estivesse lá. Mesmo achando que não, ninguém treina durante tanto tempo assim, mas a esperança passou a fazer parte de mim desde o diagnóstico do câncer.
– Muito bem, Sue! Ótimo ensaio! Não querendo puxar o saco, mas sua apresentação semana que vem será perfeita se você continuar se dedicando assim! – uma mulher dizia sorrindo para a garota que eu havia me encantado. Ela estava diferente. Bem diferente. Havia se trocado e soltado seus cabelos, ela tinha cachos, perfeitos cachos pretos que chegavam até o meio de suas costas. Podia ser jovem, mas era alta e esbelta e sorria com cada palavra dita por aquela que deduzi ser a professora.
– Obrigada, Karen! – ela dizia corando – Espero que esteja certa! Posso te perguntar uma coisa? – eu observava as duas um tanto escondido atrás do poste perto da academia e conseguia escutá-las.
– Mas é claro, querida! – a tal de Karen disse para aquela que foi chamada de Sue. Seria aquilo nome ou apelido? De todo jeito, era lindo como ela.
– É verdade que vai ter olheiros no espetáculo? – ela dizia e via seus olhos brilhando.
– Não consigo esconder nada de você, não é mesmo? – Karen disse para a garota – Não queria que você soubesse para não se sentir pressionada, para não ficar nervosa, mas sei que você é muito inteligente…
– Você me conhece, Karen! Praticamente me criou aqui na academia… Então é verdade? – ela perguntava sorrindo. Como aquele sorriso era incrível!
– Sim, alguns olheiros estarão lá! – Karen disse e a garota pulou de felicidade.
– Darei o meu melhor! – Sue disse.
– Vai ser uma tristeza ter que te deixar ir para outra academia com mais renome… – Karen disse entristecida, mas sorria para a garota.
– Ah Karen não fique assim, se sou assim foi graças a você!
– Não querida, o mérito é seu! Você se esforçou! Você vive o balé!
– Não seria nada disso sem uma excelente professora! – Sue disse.
Um carro parou na porta da academia.
– Melhor ir, querida! – Karen disse sorrindo e beijando a testa da garota.
– Tchau, Karen! Até amanhã! – Sue disse e entrou no carro indo embora.
Sue. Aquele era o nome da garota. Ou talvez apelido. Não importava, era lindo. Daquele dia em diante eu mudara minha rota para ir a qualquer lugar que fosse, principalmente ao hospital.
Todos os dias no mesmo horário eu passava por aquele lugar. Ficava observando do outro lado da rua aquela garota dançar. Céus como ela dançava bem!
Certo dia, passei pela academia de balé de Sue. Não havia melodia, não havia o barulho dos saltos dela no segundo andar. Era véspera da tal apresentação, achei estranho, geralmente bailarinas na véspera treinavam até não poder mais. Esperei mais algum tempo e uma ambulância havia chegado até o local. Minutos depois uma maca saiu do lugar levando Sue deitada. O que havia acontecido?!
Sue chorava, mas algo me dizia que não era por conta da dor que provavelmente sentia em sua perna imobilizada.
– Sue, calma… – Karen dizia tentando acalmar a garota.
– Por quê?! Por que comigo, Karen?! – Sue derramava lágrimas grossas de seus olhos – Me diz que posso adiar a apresentação Karen, por favor! Amanhã sei que já vou estar boa…
– Sue… – a professora olhava para Sue e voltou seu olhar para a perna imobilizada, inchada e roxa da garota.
– Karen… – Sue não acreditava.
– Vou avisar as meninas lá dentro e já vou indo para o hospital…
– Karen… – Sue dizia e chorava – Moço, diz que não foi nada… – ela implorava para o médico.
– Criança… – o médico começou a dizer.
– Moço… – ela chorava.
Durante meses não tive notícias de Sue, continuava passando todos os dias pela academia, a sala no segundo andar naquele horário estava sendo ocupada por outras pessoas, Sue não estava entre essas pessoas. A melodia era diferente, parecia aula para iniciantes. Não via Sue saindo e indo embora.
Nesse tempo conheci Clarisse em um tratamento no hospital. Ela tinha câncer pancreático, linda. Loira, olhos azuis, esbelta. Digamos que não sou de se jogar fora também, tenho uma boa aparência apesar do olho de vidro. E Clarisse se interessou por mim. Começamos a namorar, eu a amava, ou pelo menos achava isso. Mesmo namorando passava todos os dias pela academia de dança. Meses e meses e nada de Sue voltar. Achei que ela havia mudado de academia, não queria pensar que ela não poderia mais dançar, o que aconteceu na perna dela parecia ter sido grave.
Havia passado um ano desde o ocorrido com a garota. Nesse meio tempo Clarisse me trocou. Peguei ela em um quarto do hospital inutilizado com um cara alto, forte, atraente. Antes fossem beijos, mas óbvio que nunca eram só beijos. Ninguém beija o outro sem roupas. A menos que não sejam apenas beijos.
Clarisse havia me trocado. E como se não bastasse, um exame que havia feito constou que o câncer havia passado para o outro olho, eu iria ficar cego de vez. No auge dos meus dezessete anos aquilo era o fim do mundo. Naquele dia eu só queria morrer. Voltei para a casa passando sempre em frente à academia de balé. Estava destruído. Ficaria cego, havia pegado minha namorada com outro, o pior de tudo, por outro cara absurdamente saudável, coisa que eu jamais seria. Realmente, naquele dia eu queria a morte.
Ao passar pela rua da academia de balé escutei uma melodia que há tempos não escutava.
– Cinco, seis, sete e oito! – uma voz conhecida contava os passos da bailarina devagar – Calma Sue, vai com calma, pode ter se recuperado, mas ainda é perigoso…
Fui para o outro lado da rua e olhei para a janela do segundo andar assim que escutei aquele nome. Ela saltava como antes, um tanto mais lenta, mas saltava e sorria, rodopiava e movimentava seus braços como uma bailarina movimenta. Suavidade e destreza perseguiam aquela garota e naquele momento havia esquecido completamente meus problemas. Havia esquecido que ficaria cego, havia esquecido tudo.
Resolvi pela primeira vez sair da rotina de voltar para casa para de noite voltar para aquela rua e esperar Sue sair. Fiquei encostado naquele muro, olhando para aquela janela a tarde toda vendo Sue dançar e se dedicar ao máximo em cada movimento que fazia.
Estava escurecendo e já fazia alguns minutos que o ensaio de Sue havia acabado, provavelmente ela estava se arrumando. Mais algum tempo e ela saiu da academia seguida pela professora.
– Por favor, Karen! – ela implorava.
– Sue, da última vez você…
– Karen estou recuperada, fiz um ano de fisioterapia, o médico disse que já posso voltar para o balé, por favor, não me impeça de fazer o que amo… – Sue dizia e olhava para a professora igualmente magra e definida.
– Já disse que não consigo esconder nada de você, não é mesmo? – Karen disse sorrindo.
– O que está dizendo…? – Sue tinha o brilho nos olhos de sempre.
– Ia fazer surpresa, mas te coloquei no espetáculo da semana que vem, o mesmo festival, ainda estava incerta disso, por mais que você tenha pegado a coreografia perfeitamente, você acabou de voltar para a dança e poderia ser puxado demais…
– Karen isso é sério?! – a garota sorria com aquele sorriso maravilhoso que eu não sabia, mas sentia saudades.
– Falei com seu médico hoje e ele liberou, mas… – ela se apressou em dizer antes da garota gritar de felicidade – Não quero que se mate de dançar semana que vem, vamos diminuir os treinos, não quero que aquilo aconteça de novo e acredito que você também não quer…
– Ok, ok! Eu concordo com tudo! – ela sorria e pulava na calçada. Queria que ela olhasse para mim, me enxergasse uma vez, mas ao mesmo tempo não queria. Não queria que ela visse que era caolho e que em breve seria um cego. Sorte ou azar, ela não me viu naquele dia.
Um carro parou na frente da academia e Sue entrou no mesmo. Fiquei observando o carro até ele sumir completamente de minha vista.
– Professora Karen! – um grupo de garotas de aparentemente nove anos, descia as escadas da academia rumo à rua e chamava pela professora.
– O que foi, meus amores? – a professora perguntou para as garotas.
– A gente quer levar pessoas de fora para o festival… Tem como? – uma menininha perguntou.
– Pessoas que não tem ingresso… – a outra falou.
– Claro que tem meus amores, falem para eles que temos ingressos à venda, mas para correrem antes que acabem! – Karen disse e a coragem se encheu em mim. As menininhas foram embora com seus pais que já as esperavam do lado de fora da academia e eu atravessei a rua.
Entrei na academia respirando fundo. Subi as escadas até um balcão de atendimento. A tal de Karen estava lá naquela hora.
– Boa tarde, ou melhor, boa noite! – ela disse sorridente.
– Boa noite! – disse sorrindo também.
– Posso ajudá-lo? – ela perguntou me analisando – Te vejo sempre por aqui, tem alguma irmã, conhecida ou namorada que estuda na academia? – ela perguntou.
– Na verdade… Não… – disse envergonhado por saber que ela já tinha me visto – Nicholas! – estendi a mão para cumprimentá-la.
– Karen! – ela me cumprimentou – Rotina passar por aqui e observar minha melhor aluna? – ela perguntou sorrindo e erguendo uma sobrancelha.
– Me pegou… – disse rindo timidamente – Além de querer comprar o ingresso, posso te pedir um favor? – perguntei para a professora que ao que tudo indicava sabia que eu observava a tal de Sue.
– Claro! – ela disse.
– Não conte a ela…
– O que? Por quê?
– É complicado… Não conte a ela sobre mim, que eu a observo sempre, que eu me preocupei demais quando ela desapareceu, que eu a acho linda, que eu me interesso por ela, não conte… – pedi.
– Por que, Nicholas? – Karen perguntava curiosa.
– Ela é linda, jovem e tem um futuro pela frente, e eu não…
– Você é bonito, jovem e…
– Posso morrer agora… – disse antes que ela repetisse a última parte. – Olha… Estou prestes a perder a única visão que me restou… Posso morrer a qualquer hora por causa de um câncer, no auge da minha juventude, ela merece algo bem melhor e saudável que vá viver por anos a fio junto com ela, não conte a ela sobre mim, prefiro assim, mas ainda gostaria de comprar os ingressos para vê-la dançando e sendo aplaudida por centenas de pessoas antes de perder completamente minha visão…
– Nicholas eu entendo tudo o que está me dizendo, vou fazer o que você me pediu, mas lembre-se sempre: tendo câncer ou não todos podemos morrer agora. A vida não é justa com todos, a vida não é fácil, temos que aproveitar cada segundo como se fosse o último, não se arrependa do que fez e sim do que deixou de fazer… – ela esperou que eu fizesse algo, mas apenas sorri para ela e abaixei minha cabeça – Sue é sem dúvidas minha melhor bailarina em anos e olha que ela só tem catorze anos… Ano passado ela fraturou seriamente a perna e quase a perdeu, por sorte se recuperou… O balé para a Sue é como oxigênio para todos… Praticamente criei essa menina, ela entrou aqui com três anos e meio e vai sair antes do previsto porque tenho certeza que nesse festival irão chamá-la para outra academia, terão olheiros lá e Sue é muito boa na dança… Uma garota incrível e assim como você ela gosta de observar…
– Ela já me viu? – perguntei assustado.
– Se viu foi despercebido, ela sempre me conta tudo, Nicholas você vive isso da maneira mais frustrante que possa existir, mas às vezes é preciso que te lembrem: amanhã pode ser tarde demais… – ela disse e mais uma vez fiquei pensativo – Acredito que vai querer olhá-la de perto, não é mesmo? – ela disse sorrindo.
– Com certeza! – disse retribuindo o sorriso.
Comprei o ingresso e finalmente voltei para a casa. Minha cirurgia seria na semana seguinte a da apresentação de Sue e fiquei feliz que a veria dançando para várias pessoas uma vez na vida.
Durante a semana toda eu ainda passava em frente à academia de dança para ver a morena dos cachos negros dançando e sorrindo como só ela fazia. Aquela nova rotina de ficar a tarde toda observando ela era um tratamento muito melhor do que ir ao hospital e ter que encarar Clarisse com o outro cara.
Um dia antes da apresentação fiz mais uma vez meu caminho para o hospital. Passei pela academia e Sue treinava como sempre. Karen estava encostada de costas para a janela, ela olhou para o relógio em seu pulso e se virou para a rua. Ri tímido assim que ela me viu, ela fez um gesto com a mão indicando que eu estava pontual como sempre e logo em seguida segui meu caminho para o hospital.
Chegando lá, antes de entrar para a sala de quimioterapia encontrei Clarisse chorando no corredor. Nessas semanas que se passaram ela havia piorado, estava magra demais, quase sem cabelos. Passei por ela, mas perguntei a uma enfermeira o que tinha acontecido. A mesma disse que o bonitão do namorado dela havia terminado. Fiquei com pena de Clarisse, mas não fui consolá-la. O feitiço se virou contra o feiticeiro. Sei que era uma coisa horrível de se pensar ou falar, mas era a verdade.
Havia chegado o grande dia, de Sue e meu também, iria vê-la dançando, uma das visões mais perfeitas que viria, com certeza era algo que guardaria sempre na memória.
Minha mãe sabia de tudo. Sabia do meu interesse por Sue e agia como Karen, mas eu não era corajoso o suficiente para fazer uma pessoa que eu amava platonicamente ficar com pena de mim. Minha mãe me ajudou a me arrumar para o festival de balé e me levou até o lugar. Cheguei com uma hora de antecedência e fiquei esperando.
As luzes do teatro se apagaram e uma música começou a tocar. Não era Sue, ela seria uma das últimas. O festival começou com grupos de dança e terminaria com os solos. Estava ansioso para ver Sue dançando, mas observei atento cada apresentação, tudo foi maravilhoso. Olhei no panfleto que me deram indicando quem e quando a pessoa iria se apresentar, Sue seria a penúltima.
Era tarde da noite e finalmente chegou a vez de Sue. Uma melodia magnífica começou a tocar no piano e de repente Sue começou a dançar. Foi a apresentação mais incrível que já vi, foi perfeita, Sue estava linda, Sue estava magnificamente linda. Ao final da apresentação todos levantaram e a aplaudiram de pé, ela sorria corada e tímida, mas agradecia sempre. Foram quatro minutos de aplausos para Sue, e ainda achava que ela merecia mais.
Enfim chegou o final do festival e antes do pessoal começar a ir embora o apresentador chamou todos os bailarinos no palco. Mais alguns minutos de aplausos e aí ele anunciou que havia alguns olheiros na platéia e depois de ver todas as apresentações eles decidiram escolher alguns para se profissionalizar em outra academia, uma do exterior que depois fui descobrir ser uma das melhores que existe, Julliard.
Mesmo tendo certeza que escolheriam Sue, fiquei apreensivo assim como todos. O nome de Sue foi chamado e a alegria dela não poderia ser maior. Minha Sue iria para o exterior, viveria sua vida como uma bailarina profissional. Iria sentir muito a falta dela. Ao mesmo tempo que estava feliz, estava triste. Mas é como Karen havia me dito: a vida não é justa para todos.
Na semana seguinte fiz minha segunda cirurgia e fiquei cego de vez, nunca gostei de ser pejorativo, então eu falo que sou cego mesmo. Foi o momento mais depressivo de minha vida, nunca quis tanto a morte como naquela época.
Estava cego, não via mais Sue, e mesmo que ainda pudesse enxergar não a veria tão cedo. Ela estava em outro país, seguindo a carreira, brilhando nos palcos do mundo e eu estava no Brasil esperando a morte que parecia demorar a chegar. Aquilo era frustrante.
Depois de Clarisse ainda namorei mais algumas meninas, Joana a qual eu chamava de Johnny, Roberta e a Bárbara, mas eu a chamava de Tutty, ela amava bala de tutty-fruit e por isso a apelidei daquele jeito. Mas todas elas morreram. Todas tinham algum tipo de câncer.
Ter câncer na juventude te faz namorar muitas pessoas, ou ser mais uma na lista de alguma pessoa que tem mais tempo de vida que você. Realmente a fila andava rápido. Mas nunca me esqueci de Sue, e nunca soube se aquilo era um nome ou apelido. Parecia apelido, porque sei lá, Sue parece ser nome americano e ela é brasileira, estranho, mas sempre fiquei com essa dúvida na cabeça.
Vivi muito mais do que os médicos acreditavam e tive vontade inúmeras vezes de esfregar isso na cara deles, mas me contive.
Dez anos haviam se passado. Era um cego bom, se é que existe isso, por exemplo, aprendi a andar com aquela vareta, aprendi a ler aqueles pontinhos em relevo, podia perfeitamente andar sozinho, contanto que fosse no Rio e nos lugares que eu já conhecia, óbvio.
Não tinha rotina, peguei o hábito de caminhar sempre no parque e sentar em um banco específico e esperar passar o tempo, apenas escutando as pessoas. Um belo dia, e como dia estava belo, fui caminhar no parque. Depois que fiquei cego, meus outros sentidos com o tempo foram se aperfeiçoando. Cheguei até meu banco específico e percebi a presença de alguém naquele lugar. Perfume de mulher.
– Olá, posso me sentar aqui? – perguntei para ela que nada disse – Sou cego, não um monstro… – disse sorrindo para a pessoa, adorava quebrar o gelo fazendo piadas comigo mesmo, ela não disse nada – Pelo seu perfume, deduzo que é uma mulher… – estava de pé e esperava realmente uma resposta daquela mulher – Está me analisando… – disse deduzindo – Quer que eu faça pose? – fiz uma pose significativa para ela e ela riu – Então você pode rir… – disse assim que escutei uma risada baixinha – Estou realmente querendo sentar, mas se quiser eu fico aqui de pé… – disse.
– Não precisa pedir minha permissão para sentar… O banco é público… – ela disse por fim.
– Mas faço questão de pedir, gentileza gera gentileza, e então… Me permite sentar ao seu lado? – disse esperando a resposta.
– Claro. – ela respondeu.
– Muito agradecido! – disse e caminhei até perto do banco batucando a vareta de cegos – Me chamo Nicholas. – me apresentei sentando ao lado da mulher.
– Sue. – escutar aquele nome fez uma explosão de sentimentos surgir dentro de meu corpo. Era ela, só podia ser ela, quantas Sues existiam no mundo? Ok poderia existir mais, mas qual é! Era ela!
– Sue? – perguntei contendo minha alegria.
– Algum problema? – ela disse.
– Sue. – disse por fim, aquele era o nome mais lindo do mundo! – Seu nome parece um apelido. – disse indiretamente querendo tirar minha dúvida que durou dez anos.
– Isso seria algo bom ou ruim? – ela perguntou.
– Nick. – disse sorrindo.
– Seu nome tem um apelido. – ela disse.
– Apelidos são dados às pessoas como forma de carinho e intimidade.
– E você disse o seu para uma estranha… – Sue disse pensativa.
– Você não é uma estranha. – com certeza ela não era uma estranha, aquele era o dia mais perfeito que poderia existir.
– Ah não? – ela disse irônica, mas ela não sabia de nada.
– Não. Você é a Sue! – disse e ela riu. Ela era a Sue, minha Sue.
– Ainda quero que me responda se ter um nome que parece um apelido seria algo bom ou ruim…
– Com o tempo te falo, Sue! – disse para minha paixão secreta e platônica.
Com o tempo eu iria respondê-la, Sue já era minha há dez anos e ela nem sabia, mas a partir daquele dia saberia, não era um galanteador e muito menos um cara que joga cantadas baratas, mas ao escutar aquele nome de novo e depois do interrogatório que fiz a ela, depois de sentir o corpo dela e ver que ela era minha Sue, minha Sue que tinha ido para o exterior… Meu mundo se encheu de alegria de novo, meu tratamento contra o câncer era Sue, e mesmo ela estando com medo e desconfiada eu iria tê-la como sempre quis.
Havia esperado dez anos para reencontrá-la e daquela vez seria corajoso. Daquela vez não me arrependeria de nada como dez anos atrás. Podia estar cego, podia não enxergá-la, mas ela era minha Sue. Continuava linda. Continuava dançando.
Minha Sue.
A vida não é justa com todos, não foi justa comigo ao me revelar que tinha câncer, mas foi muito generosa ao me fazer conhecer o amor da minha vida, dez anos até reencontrá-la e mesmo cego a teria para mim. Também foi generosa ao me devolver a coragem, no geral ela não foi justa, mas soube ser caridosa. Aproveitaria o máximo dessa caridade. Ao lado dela. Da minha Sue.
Afinal, não tinha muito tempo de vida, nunca tive, nunca terei, mas cada segundo ao lado dela seria precioso, muito mais que precioso.
Por que o exagero?
Porque eu tenho câncer.
