Alinhamento Sinfônico

Sabemos algumas vezes quando estamos, ou não, no momento certo ou perto de estar. Porque algo dentro da gente acende uma luz de sabedoria e, para alguns casos, de esperança sobre o que pode vir acontecer em breve, como em uma ópera ou em uma orquestra que sentimos que a música está chegando ao seu momento de grande ápice, sejamos nós espectadores ou músicos no palco.

Já disse uma vez que a caixa de Pandora é uma metáfora muito questionável com relação à interpretação, porque saem dela todas as maldades do mundo e fica dentro apenas a esperança. Esperança é algo que, dependendo do ponto de vista, também pode ser um mal e por mais que saibamos disso, não deixamos de acreditar que pode acontecer de ser totalmente o oposto, ser um bem que não liberamos.

Eu conhecia Jonathan há muitos anos e desde o primeiro momento em que o vi eu senti uma leve atração por ele. Nunca passou, porque sempre o encontrava em festas e ele sempre foi o melhor amigo do meu irmão, mas eu aprendi a esperar. Esperar o meu momento e o momento dele. Não digo que está muito próximo de acontecer, mas tenho a esperança de que podemos estar chegando perto. Se tocarmos uma melodia de Tchaikovsky, como a “Valsa das Flores”, por exemplo, podemos dizer que estamos logo próximos à parte em que a orquestra está quase completa e o que sobressai é o som dos Cellos, quase perto da parte mais conhecida por leigos. Temos muitos empecilhos ainda que me impedem de tentar avançar um sinal claramente fechado, mas no fundo eu sinto que falta pouco para esse semáforo se abrir tanto para que eu vá, quanto para que ele venha.

Alguém que não me vem à memória agora, me disse um dia que não basta um de nós estarmos em sintonia, os dois precisam estar, como astros que se alinham em raras vezes para os humanos e sinto que nossos astros podem estar perto de se unir. Prescreva e escreva. Se quisermos mesmo que algo aconteça escreva nas estrelas que o universo se encaminha de uma parte, e eu tinha medo de prescrever algo assim nesse nível tão profundo de um sentimento que nem mesmo em mim está fortalecido, é mais como um objetivo que sinto que preciso cumprir e a parte boa é que, apesar de ser uma meta antiga, vai beneficiar ambos os lados.

Percebi há pouco tempo que ninguém pode me completar, sempre serei uma das partes instáveis que tem suas inseguranças e seu lado tóxico de enjoar facilmente, percebi que a vida das fanfics que lia e das histórias de amor em séries e filmes, são apenas dedicadas ao papel, ou às telas de um lado completamente irreal vindo da minha imaginação, destinada às outras pessoas que não eu, pessoas abertas por completo para o romance, para serem completadas. Eu sou completa sozinha e isso tem seu lado bom e seu lado ruim. Ninguém me completa, mas eu o completo. E ele preenche os requisitos que eu preciso para ser feliz ao lado de alguém, mesmo que possa viver perfeitamente sozinha.

Nossos astros estão se alinhando, ou como gosto de usar minha profissão: nossas sinfonias estão entrando em ligaduras de notas. Jonathan vai ser meu e eu serei dele e seremos juntos. Pode demorar, mas nada é feito quando queremos, então estarei pacientemente aguardando o alinhamento das nossas estrelas, a montagem completa da nossa orquestra. Quando esse momento chegar, ele vai perceber que eu o completo, vai entender, vai me aceitar.

+++

Era mais um happy hour com os amigos em uma sexta-feira qualquer na capital. Era quase como uma lei nos reunirmos depois do horário de serviço, esperar que o trânsito diminuísse para podermos voltar para nossas casas e aproveitar o início do curto final de semana. Mas nossas reuniões de amigos tinham mudado e agora mais pareciam grandes encontros de jovens casais que se encontravam para mais uma sexta pacata, rindo, bebendo uma cerveja, fazendo o que quer que fosse.

Aquilo me pareceu extremamente exaustivo, principalmente depois do dia que tive na clínica, seguido de um plantão hospitalar. Aproveitei e me desliguei, não estava mais acompanhado, não namorava mais e o assunto girava em torno do mais recente par de noivos da mesa, de como estavam os preparativos para a grande festa e coisas que eu não estava querendo saber no momento. Peguei meu celular, abri o instagram discretamente e me deparei com um story de uma pessoa que conhecia há anos, mas que, até aquele momento, não tinha me chamado tanta atenção como estava me chamando.

Ela tinha publicado um reels em que cantava e tocava piano. Aumentei o volume do celular para escutar e foi então que trouxe as atenções para mim na mesa do barzinho.

— Que som maneiro! – Phelipe disse, me fazendo bloquear a tela do celular na hora e ficar um pouco constrangido por preferir ver as redes sociais ao prestar atenção nos detalhes do casamento de um dos meus melhores amigos.

— Conheço essa voz, é a Esther? – Kaio perguntou curioso e eu assenti com a cabeça, derrotado por ter sido descoberto nos meus devaneios e por ter que dividir a tela do meu celular com os três casais que conversavam felizes naquela noite.

— Desde quando ela toca piano? – perguntei observando o vídeo, como a música ficava perfeita em sua voz e como ela sincronizava perfeitamente com as teclas do piano.

— Desde sempre! – Kaio disse rindo como se fosse óbvio, o que para ele seria, já que Esther era sua irmã mais nova, mas reparei que todos ali tinham a mesma expressão no rosto, todos ali sabiam que Esther tocava piano.

Aquele fato me pegou de surpresa. Conhecia Esther há tantos anos quanto conhecia Kaio, Phelipe, Vitor, Daniel e Murilo, sempre estávamos juntos, principalmente na casa de Kaio e Esther, sabia que eles tinham um piano, sabia que Esther cantava, mas ligar aqueles dois argumentos me deixou desconcertado. Como eu nunca tinha percebido que Esther tocava piano? Por que aquilo estava me deixando tão reflexivo?

— Acha que Esther toparia tocar na festa? – Vanessa perguntou olhando primeiro para Phelipe e depois para Kaio. Dava pra ver o brilho nos olhos da noiva com a possibilidade.

— Provavelmente ela vai cobrar. – Kaio disse e riu.

A conversa voltou a ser o casamento de Phelipe e Vanessa e eu resolvi conectar um dos meus fones para ouvir melhor o vídeo de Esther em seu piano. Ainda estava perplexo com minha falta de atenção a um detalhe que sempre esteve ali.

Depois de ouvir pela terceira vez, em um looping infinito que era se conectar com uma boa melodia e uma boa voz, um impulso me veio e quando percebi estava mandando uma mensagem no direct de Esther.

“Acredita que descobri hoje que toca piano?”

Pensei em apagar no momento em que a mensagem foi enviada, mas quando tomei aquela decisão, Esther já tinha visualizado e digitava alguma resposta que poderia ser bem uma patada, já que eu estava sendo o desatento daquela situação.

“Acredito.”

Ela respondeu e não consegui identificar que tipo de tom era aquele naquela singela palavra.

“É absolutamente normal ser ofuscada pelo carisma de um irmão hetero top!”

Esther se sentia ofuscada por Kaio? Eles sempre pareceram como unha e carne, claro que sempre tiveram conflitos normais de irmãos, mas era algo que todos os irmãos tinham.

“Não sei como Kaio poderia te ofuscar, já que nem tocar triângulo ele deve saber…”

Em todos os anos que conhecia aquela família, aqueles irmãos, nunca parei para perceber se já tive alguma conversa normal com Esther. Ela sempre esteve lá, mas sempre pareceu distante, talvez o fato que acabara de descobrir de que, talvez, ela se sentisse ofuscada por Kaio, a fez ficar distante da gente, dos amigos que todo final de semana se reuniam na mansão dos dois.

“Isso é verdade, mas irmãos mais velhos têm esse poder.”

Estava entretido. Algo dentro de mim não queria parar aquela conversa, por mais desrespeitoso que fosse mexer no celular em um encontro com amigos.

— Chamei Esther pra vir pra cá e aí você faz a proposta pra ela! – Kaio disse olhando para Vanessa, depois de guardar o celular no bolso.

Esther iria para o happy hour? Seria algum sinal dos céus de que eu poderia manter uma conversa com Esther, saciando minha curiosidade sobre coisas óbvias dela que eu não sabia ao mesmo tempo em que me livrava de conversas matrimoniais e, como bônus, não seria desrespeitoso por ficar mexendo no celular?

Não sei por que contei os minutos que levaria para Esther sair de onde quer que ela estivesse e chegar ao bar que quase sempre nos reuníamos toda sexta-feira. Aquilo poderia levar horas, tendo plena consciência de que era o horário em que as ruas e rodovias na cidade paravam. Pensei em mandar outra mensagem, mas não sabia o que falaria, o que perguntaria. Talvez ela estivesse dirigindo e nem iria ver. Minutos depois um carro estacionou de frente para o bar e de dentro dele saiu Esther com um rapaz. Esther namorava? Era outro detalhe óbvio que nunca reparei? O que mais eu não sabia sobre a irmã de Kaio?

— Pro Kaio ter me chamado pro rolê de vocês, imagino que alguém queira me pedir algo… – ela riu. Era um alívio saber que pelo menos alguma coisa óbvia eu sabia sobre Esther, seu senso de humor e sua ironia com o irmão – Gente esse aqui é o Rodolfo! – ela apresentou o rapaz, mas não deu títulos para ele, aquilo me gerou um pequeno incômodo, qual era o problema de titular as pessoas?

— Prazer! – Rodolfo parecia simpático ao cumprimentar um por um naquela mesa lotada de pares.

— Esther, eu vou ser sincera, quero te pedir algo! – Vanessa disse rindo assim que Esther se acomodou em uma cadeira ao lado da minha.

— Oi, John! – ela me cumprimentou sorrindo. Pelo menos eu sabia que ela sempre me chamou de John ao invés de Jonathan – Eu não sei se fico preocupada ou animada com um pedido vindo de você… – Esther sorriu. Ela sempre teve um sorriso largo, pelo menos aquilo sempre foi óbvio e lindo de se observar.

— Não sei como pedir, mas o Jonathan estava vendo seu vídeo agora a pouco e eu pensei: será que a Esther toparia cantar no nosso casamento? – Vanessa estava animada.

— Por um cachê, eu topo tudo… – ela riu.

— Eu disse que ela cobraria. – Kaio se manifestou.

— Mas tem que cobrar mesmo, e não estou pedindo como um favor, eu vou pagar! – Vanessa estava empolgada.

— Sendo assim, que dia é mesmo? – todos na mesa riram, e eu não conseguia parar de prestar atenção na dinâmica entre Esther e Rodolfo.

— Como assim? Já mandamos os convites há décadas, Esther! – Vanessa era a típica noiva clichê, que arrumava qualquer desculpa para falar do casamento.

— Estou zoando! – Esther gargalhou – Depois a gente conversa direitinho sobre isso… – ela disse e o assunto foi naturalmente se dissipando entre os casais, até que me dei conta de que Esther olhava pra mim.

— O que foi? – não quis parecer rude, mas aparentemente não foi a impressão que dei ao perguntar.

— Dia cansativo? – ela perguntou depois do choque inicial com a minha pergunta.

— Como sempre é… – por que eu não conseguia desenvolver uma conversa com Esther? Estava travado, não sabia o motivo.

— Eu imagino, pra dispensar um happy hour com os amigos de sempre, no bar de sempre por um reels no instagram… – ela riu mais baixo.

— Como que eu nunca soube que tocava piano? – sorri.

— Já disse, ter um irmão mais velho pode ser ofuscante.

— Isso não é justificativa, a gente se conhece a… Sei lá quantos anos…

— Uns 16 anos. – ela sorriu.

— Exatamente! E desde quando toca piano?

— Desde os seis, eu acho…

— Como que eu nunca percebi isso, Esther? – eu me sentia culpado.

— Tá tudo bem, John! – ela riu – Não era como se você sempre tivesse sido melhor amigo pra saber…

— Mas eu sempre estive na sua casa, eu sempre fui melhor amigo do Kaio…

— Exatamente, voltamos ao ponto de que ter um irmão mais velho pode ser ofuscante! Mas tá tudo bem, não é como se eu sempre mostrasse essa habilidade com as teclas, ou me exibisse!

Era mentira. O piano sempre esteve na casa deles. Começava a desbloquear memórias de um passado distante de que Esther sempre teve a veia artística daquela família e por aquele fato, era mais extrovertida do que qualquer outra criança que cresce em uma elite, convivendo com pessoas da classe alta que só sabem falar de negócios e dinheiro, como sempre foi com os pais dela, com os meus pais também. Esther sempre tocou piano, assim como sempre se destacou, mas eu não conseguia entender como e por que eu só estava vendo aquilo naquela hora.

— Você tocou piano na minha festa de vinte anos, não foi? – estava querendo desenterrar o baú de memórias, devo ter ficado um bom tempo reflexivo, tentando resgatar qualquer coisa que fosse útil.

— Não lembro o que fiz ontem, como espera que eu saiba o que aconteceu sete anos atrás?

— Tocou… – disse revivendo a minha festa – Não se lembra mesmo? – ela me olhava com aqueles olhos grandes e escuros como duas jabuticabas. De repente, minha memória foi invadida por um flash daquele evento.

— Lembro de beber, então pode ser que eu tenha tocado piano e tocado o terror… – ela riu.

Esther tinha bebido. Era raro vê-la bêbada, ela sempre teve muito controle da situação, até porque, ela sempre cuidava de Kaio no final das festas, mas na minha festa de vinte anos, Esther estava perturbada com alguma coisa e minha memória me lembrava de que ela tinha bebido muito além do que conseguia, atingindo um nível de álcool no sangue e na cabeça que a fazia ser sincera com tudo e com todos.

Ela tocou piano no meu aniversário. Ela passou mal naquele dia, eu a ajudei a se limpar e foi quando ela começou a chorar sentada no chão do banheiro do segundo andar da minha casa. E quando tentei ajudá-la, ela me empurrou. Seus olhos escuros estavam com uma tonalidade de vermelho e cheios de lágrimas quando ela disse que era um inferno saber que eu era melhor amigo do irmão dela. E quando a questionei sobre o porquê daquilo, ela se ergueu do chão e saiu correndo do quarto.

— Sim, você bebeu… – a olhei nos olhos, tentando identificar do que ela se lembrava e o que aquela fala dela significava na época.

— Esther, eu vou indo… – Rodolfo tinha se entretido com meus amigos, o que foi bom, pude conversar um pouco com Esther – Vai comigo? – ele perguntou e fui trazido à força de volta para a realidade.

— Vou! – ela disse sorrindo para o rapaz. Ainda não sabia se eles estavam juntos.

— Já?! – Vitor perguntou.

— Vamos viajar amanhã, só passei aqui porque fiquei curiosa com a mensagem do Kaio! – ela e Rodolfo iam viajar?

— Eu vou te mandar mensagem direitinho, tá? Quando que volta de viagem? – Vanessa perguntou, todos ali sabiam da relação de Esther e Rodolfo? Por que todos ali agiam como se nada de anormal estivesse acontecendo? Rodolfo brotou do nada e todos aceitaram aquilo?

— Em dez dias! – Esther disse e olhou para Rodolfo – Vamos? – ela sorria para Rodolfo.

— Vamos! – os dois se despediram de todos e entraram no carro estacionado na frente do bar.

— Esther tá namorando? – não consegui esperar um momento mais discreto para perguntar aquilo. Assim que os dois saíram do meu campo de visão, perguntei para Kaio enquanto abria o perfil de Esther no instagram em busca de algo que eu não tinha reparado.

— Não tenho ideia. – Kaio disse tomando a cerveja no copo.

— Ela é sua irmã, como assim você não tem ideia? – estava entretido no perfil de Esther, demorei pra perceber que Bárbara me olhava com um sorriso estranho no rosto.

— Por que quer saber? – a namorada de Kaio perguntou.

— Curiosidade, só… – respondi para Bárbara que ainda me olhava da mesma forma.

— Ela é minha irmã, mas isso não quer dizer que ela me conta todos os casinhos dela. – ouvir aquela palavra, vinda da boca de Kaio me deu um pouco de ânsia.

— Casinhos? – perguntei tomando a cerveja que já estava quente.

— A sua irmã te conta sobre todos os caras que ela dorme? Não né… E é até melhor nem saber! – Kaio gargalhou.

— Ela tá dormindo com Rodolfo? – não achava nada no perfil de Esther.

— Não tenho ideia! – Kaio riu, ele parecia muito tranquilo com aquela informação, todos pareciam. Por quê?

— Bora lá fora, vou fumar. – Bárbara disse pra mim, a olhei confuso, eu não fumava há tempos e ela sabia daquilo – Vamos… – ela insistiu e eu fui, ainda processava as novas informações sobre a mulher que deveria conhecer como se fosse minha irmã, mas não era o que estava acontecendo.

— Tá tudo bem? – Bárbara perguntou acendendo o cigarro.

— Foi um dia cansativo só, estava de plantão… – já tinha fumado anos atrás, fumava por ansiedade e tinha conseguido parar, mas a vontade de pedir um cigarro para Bárbara estava bem forte naquele momento.

— Quer falar sobre? – algo em seu tom de voz dizia que não era sobre meu dia de plantão que ela queria saber.

— Você sabia que Esther tocava piano? – eu ainda olhava para o cigarro na mão de Bárbara.

— Por que essa repentina curiosidade na vida da Esther? – ela sorriu – Não devo oferecer, mas acho que talvez você esteja precisando de um cigarro… – ela ergueu a caixinha pra mim.

— São coisas óbvias, como que eu nunca reparei? – resisti à tentação de fumar.

— John, você nunca reparou na Esther e isso que está me deixando intrigada hoje… Por que seu repentino interesse na vida dela?

— Como que eu nunca reparei na Esther? Eu sempre estive na casa dela, eu praticamente morava lá!

— Por causa do Kaio e não por causa dela. – Bárbara me olhava séria.

— Lembrei hoje de uma memória da minha festa de vinte anos que ela passou mal e eu meio que cuidei dela, até ela gritar comigo e dizer que era um inferno eu ser melhor amigo do Kaio.

— Imagino que tenha sido, mesmo… – por que as mulheres se comunicavam por códigos?

— O que isso quer dizer, caralho?!

— Kaio sempre recebeu mais atenção que ela… – ela ainda falava por códigos. Aquilo me irritava.

— Eu preciso ir embora, tomar um banho e dormir, tô cansado demais pra brincar de enigma. – disse frustrado, consegui ver Bárbara sorrir antes de voltar para o bar pra pagar a conta.

+++

— Animados? – Rodolfo perguntava para o grupo de amigos que se reunia na ala de embarque do aeroporto.

— Ir pra Nova York, em um evento em que vamos nos apresentar com a orquestra de lá? Como ousa perguntar isso?! – Sabrina ria e quase dava pulinhos de empolgação.

— Ei, Terra para Esther, está tudo bem? – Rodolfo percebeu que a mulher estava concentrada demais no celular para sequer pular de alegria com o restante dos amigos.

— Estou confusa, o que isso significa? – Esther levantou e se juntou ao grupo, mostrando o celular para todos.

— Notificações no instagram? – Sabrina perguntou olhando para a tela – Do… Jonathan…

— Eu finalmente conheci esse Jonathan! – Rodolfo disse rindo – O cara que tirou todas as minhas expectativas de ter a Esther só pra mim…

— Quando conheceu? – Sabrina perguntou maliciosa.

— Ontem. Fui num barzinho com a Esther e ele estava lá, junto com toda a elite da capital.

— Os padrõezinhos estavam reunidos, é? – Luana se juntou aos amigos para participar da fofoca.

— Era tanto padrão que me deu até crise de ansiedade! – Rodolfo falou rindo.

— Está falando assim porque tá com inveja… – Esther olhou para o rapaz.

— Estou mesmo, você sabe…

— Bom, aparentemente, Jonathan resolveu tirar o atraso nas curtidas que não deu nas suas postagens… – Sabrina percebeu o clima que ficou entre Rodolfo e Esther e voltou à pergunta da amiga.

— Talvez, finalmente ele vai perceber que você é perfeita pra ele! – Luana se animava.

— Talvez, ele só esteja entediado. – Esther bloqueou a tela do celular.

— Quanta autoconfiança! – Luana riu.

— Não estamos na sintonia, ainda… – Esther disse sorrindo – E, eu não quero ficar me iludindo de novo como todas as vezes que ele tem um surto de consciência e resolve conversar mais comigo, pra depois aparecer com uma padrão qualquer.

— Temos aqui uma mulher que guarda um certo rancor… – Sabrina disse.

— Temos aqui uma mulher que sabe ser paciente e sabe que o mais importante agora é ir pra Nova York arrasar no festival de música! – Esther disse assim que ouviu anunciarem o voo que os levariam para outro país.

+++

“John, você nunca reparou na Esther.”

Talvez eu não tenha reparado que ela tocava piano, mas eu sempre reparei na Esther. Nos conhecemos há dezesseis anos, é claro que eu reparava na irmã do meu melhor amigo. Eu só não conseguia entender como que nunca percebi de fato como ela tocava piano tão bem.

Um final de semana só pra mim era o que eu precisava. Descansar. Dormir o que não tinha dormido. Ver filmes e séries que estavam pendentes em minha lista. E foi o que fiz naqueles três dias que consegui tirar para mim. Foi tão relaxante que me desbloqueou outras memórias que eu não sabia que tinha. Memórias com Esther.

Eu já tinha tido conversas além de festas com a irmã de Kaio. Já trocamos algumas mensagens, já tivemos assuntos mais profundos quando eu passava o dia, e a noite, na casa deles. Sempre de madrugada, quando as festas ainda estavam acontecendo na parte da piscina, Esther surgia na cozinha com pijama e cara de sono para pegar o famoso “lanchinho da madrugada” e eu coincidentemente estava por lá também. Tentando encher meu corpo com glicose e qualquer comida para não dirigir bêbado para casa, mesmo que, no final, eu sempre acabava dormindo no sofá.

Eu reparava em Esther e lembrava perfeitamente de uma época em que, por algum devaneio, eu cheguei a acreditar que gostava dela para algo além da amizade. Quase podia ter certeza na época que era recíproco, mas então ela surgiu com a notícia de que iria fazer faculdade fora e aquilo nos afastou. O que foi bom, seria totalmente estranho ficar com Esther sendo que ela era irmã do meu melhor amigo.

Os anos passaram e eu continuava vendo Esther quase sempre, mas não conversávamos como antes. Também, eu estava ocupado demais com a faculdade de medicina, entrar para esse mercado de trabalho e preocupado com meu relacionamento com Letícia, que estava fadado ao fim desde os primórdios, mas como eu poderia imaginar?

“Ela deu em cima do Kaio!”

Lembrei de Bárbara chorando e gritando comigo, bêbada e completamente enciumada, vendo coisas onde não tinha nada. Cheguei a recorrer a Esther nesse dia, não queria acreditar em Bárbara, por mais que ela também fosse uma grande amiga de longa data.

“Eu sabia que era lerdo, mas não sabia que era burro.” 

Esther disse assim que a questionei sobre a acusação de Bárbara contra Letícia.

“Lerdo?”

Foi a palavra que mais ficou na minha cabeça e a maneira como Esther disse aquilo, era quase como se ela tivesse uma tristeza no olhar.

“Você não perceberia nem mesmo se a pessoa perfeita pra você estivesse na sua frente agora, John, como vai perceber que sua namorada está dando em cima do meu irmão? O que ela claramente está.”

Lembro que usei o argumento mais machista que poderia ter usado e me arrependi profundamente depois, aquilo foi mais uma estremecida que tive na minha relação com ela, com Bárbara e principalmente com Kaio, mas tudo passou. Tudo voltou ao normal, como sempre foi: Kaio sendo um dos meus melhores amigos, Esther sendo sua irmã. Todos vivendo suas vidas, cheios de afazeres de adultos e relacionamentos para cuidar.

“Na minha festa de vinte anos, quando a Esther disse que era um inferno saber que eu era melhor amigo do Kaio, ela não estava falando de ser ofuscada por ele, não é?”

Mandei a mensagem para Bárbara. Não sabia por que estava tão impregnado com aquela dúvida e curiosidade.

“De novo esse assunto? São 5h da manhã, John!”

E daí? Custava me responder?

“Teve uma época que achei que gostava dela, doido né?”

Mandei e ri, aquilo era muito doido de se pensar. Imaginar.

“Achou?”

Bárbara respondeu.

“É que lembrei agora o quanto a gente conversava antigamente… Você disse que eu nunca reparei na Esther, mas éramos praticamente confidentes nas festas, ou seja, reparei nela sim.”

Não entendi o motivo de ter que me justificar para Bárbara.

“Teve uma época que achei que vocês estavam tendo alguma coisa e fiquei bem triste quando você surgiu com aquela vaca.”

Bárbara tinha todo o direito de falar aquilo.

“Achou que tínhamos alguma coisa?”

Talvez minha aproximação com Esther tenha causado essa impressão nas pessoas.

“Você é realmente lerdo, John. Sorte sua que tô de plantão na clínica e com zero sono, se não ia te matar por me chamar às 5h da manhã pra essa conversa…”

Ri, podia imaginar o exato tom de voz de Bárbara ao falar aquilo.

“Esther também me chamou de lerdo naquele incidente…”

Me referia ao dia que Letícia quase colocou um chifre em minha cabeça.

“Você é. Sempre foi e quando se trata da Esther, você é lerdo e cego. Não sei o que está te fazendo refletir tanto assim sobre ela, mas tente lembrar de todas as vezes que já esteve com ela, de todas as vezes que ela sorriu largamente quando você puxava algum assunto. E agora eu preciso ir. Emergência com meus bichinhos.”

O que ela queria dizer com aquilo?

+++

— Mudança de planos. – Rodolfo apareceu no teatro em que os musicistas se preparavam para um pré-ensaio antes da primeira apresentação daquele festival.

— Boa ou ruim? – Sabrina perguntou.

— Depende do ponto de vista. – Rodolfo disse e mantinha o suspense – O violinista solo está com virose, não vai poder apresentar hoje. – o rapaz falava, o grupo de amigos se reunia em uma rodinha perto do palco – Chamaram os líderes de equipe para uma conversa.

— Desde quando você é líder de equipe? – Luana riu.

— Desde quando sou o único que toca Cello! – Rodolfo sorriu.

— E desde quando tocar Cello te faz líder? – Sabrina questionava.

— Gente, foco, não é isso que importa. – Rodolfo queria mudar de assunto – Fizemos uma breve reunião e indicamos alguns nomes como substitutos pro violino hoje. Esther esteja preparada!

— O quê? – Esther estava desatenta, digitava no celular quando ouviu seu nome.

— Vão fazer uma breve audição com os violinistas pra ver quem pode fazer o solo hoje. – Rodolfo falou animado.

— Ué, e eles não têm mais um milhão de violinistas da orquestra? – Esther perguntou confusa.

— Aparentemente, nenhum que alcance o nível de solista. – Rodolfo sorriu e se aproximou da mulher.

— E se ninguém alcançar? – Esther estava atônita – Como espera que eu faça uma audição se nem meu violino eu trouxe?

— Isso eles te arranjam! – Luana estava animada pela amiga.

— Não é simples assim, todos aqui sabem que os instrumentos precisam estar conectados com a gente. – Esther falou o óbvio.

— Apenas faça a audição. – Rodolfo pediu.

— Mas quem vai tocar o piano?! – Esther tinha muitas perguntas na cabeça.

— A sua substituta. – Sabrina disse rindo.

— E desde quando eu quero ser substituída no piano? – Esther fechou a cara. Amava todos os instrumentos que tocava, mas tinha um apego muito maior com o piano.

— Faz a audição e espera. – Rodolfo disse e acariciou o rosto de Esther.

+++

Esther postou um story em que dizia que estava participando de um grande e renomado festival de música em Nova York, que ela e sua equipe estavam lá para compor a orquestra e que ela seria a pianista principal. E minha memória ainda queria me pregar peças de que eu não lembrava que Esther tocava piano.

“Quer dizer que ‘não era de se exibir’, não é?”

Mandei a mensagem. Passei três dias dentro de casa, revivendo memórias da infância e da juventude e, na maioria delas, Esther brotava como um popup de computador.

“Eu amo piano, mas uso ele pra tocar e cantar meus bons e velhos rocks! Não era como se na época vocês gostassem de ouvir música erudita…”

Ela respondeu quase na hora, naquela segunda-feira. Estava no hospital, ficaria de plantão na emergência, mas por enquanto tudo estava calmo.

“Eu gosto de música erudita, mas nada como um bom rock n’ roll!”

Lembrei que Esther amava Guns n’ Roses, era um dos assuntos que mais tínhamos em comum. Não sabia como continuar o assunto que claramente estava perto de morrer. O que ela poderia responder com aquele meu comentário? Mandar um emoji, curtir a mensagem? Eu não queria aquilo, queria continuar a conversa. Esther começou a digitar, mas parou. Fiquei aguardando para ver o que ela poderia mandar, já que eu não tinha ideia de como prosseguir no assunto, mas nenhuma resposta veio. O coração da curtida apareceu na minha última mensagem e eu sabia o que aquilo significava.

Como se percebessem que eu estava à toa, as emergências começaram a surgir no hospital, me lembrando de que o breve recesso de três dias que eu tinha tirado estava oficialmente finalizado.

+++

Chamaram o nome de Esther ao palco, entregaram a ela um violino que a mulher afinou com o ouvido e pediram que tocasse algum solo de sua preferência. Esther vivia a arte, vivia a música, era um dos momentos mais difíceis para ela, saber que conseguiria atingir uma boa performance com o violino e possivelmente ser substituída, por um dia, no piano.

— Preciso do acompanhamento do Cello. – Esther disse com seu inglês impecável e olhou para Rodolfo que já esperava por aquilo. Ele sabia exatamente o que Esther queria tocar naquela breve audição.

— Pois bem, comece. – O maestro disse e a dupla se posicionou no palco. Rodolfo começou a solar primeiro, dando início a “Summer in G Minor” de Vivaldi.

Esther se conectava com qualquer instrumento que sabia tocar e transcendia enquanto solava nos dois minutos e trinta e sete segundos daquela música que dividiu com Rodolfo.

— Obrigado. – o maestro disse e todos no teatro aplaudiram, mas ainda havia mais candidatos para aquela vaga temporária.

— Ainda ressentida de abandonar o piano por hoje? – Sabrina perguntou sorrindo, tinha filmado todo o breve espetáculo de Esther e Rodolfo e marcado a amiga no instagram.

— Bom, ainda não disseram que eu vou precisar fazer isso, então vamos esperar… – Esther desceu do palco em êxtase e voltou a se sentar na plateia para aguardar o que quer que fosse.

Abriu o instagram e repostou o vídeo de Sabrina, momentos depois recebeu uma nova mensagem no direct.

“Não ia tocar piano?”

Jonathan perguntava e Esther tentou disfarçar o sorriso.

“Pois é, surgiu um imprevisto e acabei de fazer uma audição pra solar o violino hoje…”

— Sorrisinho bobo… Eu conheço muito bem esse tipo de sorrisinho bobo… – Sabrina se sentou ao lado da amiga.

— Eu estou bem confusa, já disse. – Esther sempre foi sincera com seus sentimentos – Parece que do nada eu voltei a existir pra ele, ou ele tá carente, ou sei lá o quê… – Esther mostrava a conversa para a amiga – Antes eu que iniciava as conversas, lembra? Agora é ele que está puxando o assunto.

— Minha cabeça fanfiqueira já está nos planos do casamento… – Sabrina sorriu.

— E quando sua cabeça não está? – Esther riu – Eu só estou confusa, mas vou responder por educação, lembrando sempre que talvez, na verdade, muito provavelmente ele tá carente.

“Estou torcendo para que consiga, então!”

Jonathan respondeu e Esther sorriu ainda mais.

“E a propósito, eu sabia que tocava violino, isso você sempre fez questão de exibir…”

Era verdade. O piano foi o primeiro instrumento pelo qual Esther tinha se apaixonado, mas depois de um momento de rebeldia infantil e de breve desistência das aulas, a mulher se interessou ainda criança pelas cordas, o que impulsionou sua paixão em aprender tudo o que podia. Tentou a harpa, já que era apenas um piano sem teclas. Partiu para o violão e então, se apaixonou pelo violino. Quando sua paixão por música erudita aflorou com o agudo das quatro cordas do violino, ela usava qualquer desculpa para tocar em alto e bom tom em seu quarto, sempre que sabia que teria visita em casa.

“Gosto de torturar os outros, apenas isso…”

Ela respondeu se lembrando do dia que tocou sua primeira música de Beethoven sem errar e reparou que na porta de seu quarto estava Jonathan, boquiaberto. Depois Kaio apareceu e gritou com a menina falando que era para ela parar de atrapalhar com aquele som irritante.

“Já disse, gosto de música erudita. Nunca foi uma tortura pra mim…”

— Esther, vão fazer mais uma audição pra definir entre você e mais duas violinistas! – Rodolfo chegava esbaforido perto das amigas – Eles pediram para que tocasse o solo sem acompanhamento agora.

— O que eu vou tocar?! – Esther estava um pouco nervosa, nada vinha à sua cabeça.

— Chopin? – Rodolfo sugeriu.

— Não, muito óbvio… – Luana disse pensativa – Fuja do óbvio, Esther.

— Eu só consigo pensar nos óbvios agora! – Esther estava tendo uma crise de ansiedade.

— Consegue Paganini? – Sabrina disse quase pulando de empolgação.

— O violinista do diabo! Isso vai ser de arrasar! – Rodolfo também vibrava.

— Vocês estão doidos? É claro que não! – Esther disse ainda mais em pânico.

— Você é uma das únicas pessoas que conheço nesse mundo que é capaz de tocar Paganini! – Luana disse sorrindo – Não custa nada tentar…

— Bom, de todo jeito, eu ainda tenho meu piano. – Esther disse e voltou ao palco, esperando o aval para fazer mais um solo.

— Pode começar. – o maestro disse e Esther mais uma vez saiu de seu plano com uma música que, em outras épocas, a igreja considerava uma invocação da própria morte pelo diabo, 24 Caprices de Paganini. Mas ao se aproximar do final, Esther sentiu um incômodo na boca do estômago e acabou errando algumas notas, nada que fosse perceptível para leigos, mas em se tratando de uma orquestra mundialmente conhecida, aquilo lhe custaria alguma coisa.

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Entre uma emergência e outra, acompanhei o que Esther repostou de suas próprias audições para solar o violino no festival. Era viciante assistir e ouvir sua habilidade com as cordas. A primeira vez que a ouvi tocando violino pra valer, fiquei em choque. Esther era um ano mais nova que eu, mas parecia mais velha quando tinha algum instrumento por perto. No bom sentido. Estava na casa dela e de Kaio, como de costume, e Esther começou a tocar timidamente alguma música que eu sabia que era famosa, mas não sabia exatamente qual era. Não resisti à tentação de subir para o segundo andar e espiar o que ela fazia no quarto com aquele som agudo e estridente, mas perfeitamente afinado.

Quando terminou e sorriu orgulhosa para si mesma, ela notou minha presença. Eu provavelmente estava com o queixo no chão, pronto para enchê-la de elogios, mas Kaio apareceu e, como todo irmão mais velho, disse que Esther estava numa missão particular de irritar ele. O sorriso dela saiu do rosto. Kaio, quando era menor, sabia ser um mala com a irmã.

“Eu achei que você tocou muito bem.”

Disse pra ela bem baixo, para que Kaio não escutasse e vi seu sorriso voltar para o rosto. Eu sempre reparei em Esther, sempre reparei que o rosto dela ficava sempre mais cheio de vida e bonito quando ela sorria.

Esther postou que continuaria no piano e aquilo, segundo a foto no story, parecia não ter abalado em nada sua alegria.

“Nada de violino em Nova York?”

Perguntei. Será que eu estava parecendo desesperado em mandar mensagens logo quando ela postava alguma coisa? O que ela iria entender?

“Digamos que não, mas pelo menos, ninguém vai me substituir no piano!”

Ela respondeu quase na mesma hora. O que mais eu poderia falar com ela? Por que sentia aquela urgência em não deixar o assunto acabar? Daquela vez, sem que nada viesse à minha cabeça, eu que curti sua última mensagem.

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— Voltamos à rotina! – Esther disse assim que recebeu um coração na mensagem que mandou para Jonathan.

— Ótimo, pode focar agora no festival e esquecer o padrãozinho? – Rodolfo disse aliviado.

— A gente pode conversar? – Esther disse séria para ele e se levantou da cadeira, faltavam alguns minutos para o ensaio geral, tempo suficiente para a conversa que ela queria ter com o rapaz – Eu sei que gosta de mim, Ro. A gente já tentou e não deu certo, qual é a sua dificuldade em entender isso?

— Ele é um padrão, Esther. – Rodolfo não tinha argumentos.

— Como se você fosse muito diferente. – Esther revirou os olhos – Tocar Cello não te faz ser menos padrão do que ele é e isso nem é um argumento decente.

— Quando você vai entender que esse cara não quer nada com você porque ele é melhor amigo do seu irmão e provavelmente ele te vê como uma irmã?

— Gosto de manter minha esperança intacta. – Esther estava levemente irritada.

— E vai esperar por ele por uma eternidade? Esther, já passou pela sua cabeça que realmente ele não te vê do jeito que você quer que ele te veja? É sério, isso tá te impedindo de conhecer outras pessoas.

— Isso nunca me impediu de conhecer outras pessoas, de alguma maneira sei que ele um dia vai se tocar que sou ideal pra ele, até lá você precisa entender que eu só não quero nada sério com você.

— Essa doeu. – Rodolfo disse sério.

— Eu sei, mas era o único jeito de você entender que não vai rolar mais nada entre a gente além da amizade que construímos.

— Você sabe ser perversa quando quer… – Rodolfo estava cabisbaixo – Mas é melhor amizade do que nada. – ele conseguiu sorrir e viu Esther dando um leve sorriso antes de abraçá-la.

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Mais uma sexta-feira, mais um happy hour, dessa vez, só com os meninos.

— Os primeiros a escapar do trânsito? – Kaio tinha chegado, já fazia sinal para o garçom trazer a gelada que ele gostava.

— Pelo jeito, sim… – disse percebendo que eu estava um pouco desconfortável com Kaio ali, não sabia dizer o motivo.

— Tá tudo bem? – Kaio pareceu notar.

— Tá sim. – ele não ia comprar aquela minha mentira, mas como eu poderia conversar com ele? Tudo o que queria era falar das novidades e conquistas de sua irmã mais nova, que provavelmente ele já sabia.

— Fala logo, sabe que não aguento esses joguinhos de mistério.

— Você ama sua irmã, não ama? – ele me olhou confuso.

— Mais do que tudo, mas se você falar isso pra ela, eu nego até a morte e depois te mato. – Kaio não demonstrava os sentimentos com facilidade, mas sabia que Esther era o ser mais precioso pra ele – O que tem a Esther?

— Nada… Você viu que ela arrasou essa semana no festival em Nova York?

— Minha irmã sempre arrasa, o que tá pegando, Jonathan? – Kaio riu e tomou um gole da sua cerveja.

— Só isso, ela tá arrasando… – ficamos em silêncio.

— Você tá estranho… – Kaio notava tudo.

— Tô não.

— Tá sim.

— E aí, baitolinhas! – Vitor era o mais sem noção de todos nós, às vezes irritava, mas fazer o quê, era como um irmão – Que caras são essas?

— Jonathan tá estranho e não quer falar o motivo. – Kaio disse me encarando, bebendo mais um gole de cerveja.

— Pois vai falar. – Vitor me encarava também.

— Gente, eu tô cansado, tô quase sempre de plantão, querem que eu fique com cara feliz o tempo todo? – disse querendo desviar o assunto.

— Cara de bunda que não dá pra ficar, né? Sextou, John! – Vitor falou e pegou o celular – Essa é a Esther?! – ele tinha aberto o instagram e Esther tinha acabado de publicar uma foto que tiraram dela no piano. Como de praxe, ela estava a caráter com um vestido de gala, naquele dia era vermelho e decotado nas costas – Cara, ela continua gostosa!

— Estamos falando da minha irmã, seu imbecil! – Kaio percebeu a malícia na voz de Vitor e uma memória desagradável me invadiu a cabeça.

— Que eu já peguei, não se esqueça, e pegaria de novo… – justamente aquela memória.

— Mais respeito, por favor. – disse sem paciência para aquelas piadinhas de mal gosto de Vitor.

— Ih, qual foi? Tá com ciuminho? – Vitor riu – Relaxa, irmão, Esther é linda e gostosa, infelizmente ela só tinha olhos pra você.

— Quê? – aquilo não fazia o menor sentido, mas de alguma maneira evitou que eu socasse a cara do meu amigo.

— Isso é verdade, não sei como ela pegou um bicho feio que nem você, Vitão! – Kaio riu e seu celular tocou, ele saiu do bar pra atender.

— Esther nunca demonstrou interesse em mim… – precisava de memórias e elas não vinham à minha cabeça.

— Meu Deus, você é muito cego, então! – Vitor falava alto – Desde sempre ela sempre foi apaixonadinha por você, acho que ainda é, não lembra como ela ficou toda felizinha quando você apareceu na festa de aniversário do Kaio recém separado da Letícia pela primeira vez?

— A gente conversou mais aquele dia, mas isso não quer dizer nada…

— Não? – Vitor riu.

— Os meninos não vão conseguir vir, somos só nós três hoje! – Kaio voltou a se sentar na nossa mesa – Qual é o assunto?

— Sua irmã ser apaixonada pelo John desde sempre. – Vitor disse.

— Isso não tem nada a ver… – dizia, procurava por evidências nas lembranças, mas só vinha à minha mente o rosto sorridente de Esther.

— Lembra quando o John terminou pela primeira vez com a Letícia e você deu sua festa de aniversário? – Vitor repetiu o tópico para Kaio.

— Ela bebeu demais esse dia… – Kaio se lembrava – Porque toda hora ela te pedia pra fazer um drink pra ela. – ele me olhou.

— Faço ótimos drinks… – de fato, Esther me pediu vários drinks, eram os momentos em que mais conseguimos conversar durante a festa. Conversar como antigamente. Eu preparava a bebida e Esther esperava conversando.

— E diz aí, Kaio, como ficou sua irmã quando essa mula aqui – Vitor apontou pra mim – voltou com a Letícia uns dias depois?

— Eu não sei, ela ficou normal, eu acho… – Kaio estava pensativo – Se bem que…

— Se bem que… – estava curioso.

— Foi uma semana que nossos pais viajaram e, juro pra vocês, foi a semana com mais rotatividade de homens lá em casa! – ele gargalhou.

— Rotatividade de homens? – perguntei sem saber se de fato queria a resposta para aquilo.

— Esther e os casinhos dela… – eu de fato não queria saber, aquilo me gerou ânsia – Ela fez isso algumas vezes na vida, sempre que terminava um namoro ou se decepciona com alguma coisa… Foi horrível, eu juro que na terceira noite eu peguei minhas coisas e fui pra casa da Bárbara! – ele ria. Kaio ria como se fosse engraçado ele quase detalhar a vida sexual de sua irmã mais nova. Da Esther!

— Viu, ela ficou boladona que você voltou pra Letícia, nessa época. Ou seja, ela sempre foi apaixonadinha por você. – Vitor concluiu a história.

+++

Esther acordou no meio da noite com uma dor aguda no peito, a respiração descompassada e tentava assimilar que tudo não passou de um sonho.

“Kaka, tá online?”

Sempre que tinha um pesadelo ela recorria ao seu irmão, era ele quem a acalmava, mas a quilômetros e quilômetros de distância, só o que podia fazer era esperar por uma mensagem de volta. A mensagem não chegou na hora que ela queria, então Esther precisou se distrair com outras coisas. Resolveu verificar as redes sociais e viu que Jonathan estavam online no instagram.

“Plantão?”

Ela mandou e viu que ele já digitava uma resposta.

“Sim, mas e quanto a você?”

Esther conseguiu, aos poucos, acalmar sua respiração.

“Sem sono…”

Ela mandou e aguardou.

“Bom, então vamos conversar! Como está sendo a semana?”

Esther sorriu, já quase não lembrava mais do que tinha sonhado.

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“Uma loucura, mas já está acabando, volto depois de amanhã…”

Esther voltaria em dois dias e aquilo me fez sentir uma repentina empolgação.

Sabia que algo tinha acontecido para ela estar acordada de madrugada em Nova York, mas tinha receio de perguntar. Conversar com Esther estava sendo prazeroso, mas infelizmente o trabalho me chamava naquela hora.

“Preciso atender uma emergência, já volto!”

Consegui mandar e guardar o celular no armário antes de correr para a ala de emergências hospitalar. Quando acabei o plantão, voltei para casa como um zumbi e caí na cama de sono e cansaço. Dormi a manhã seguinte toda e quando acordei me dei conta de duas coisas: Esther voltaria no dia seguinte. Eu queria ver Esther mais do que qualquer coisa nesse mundo.

“O que significa quando a gente não consegue tirar uma pessoa da cabeça, mesmo?”

Mandei a mensagem para Bárbara.

“Não é possível, finalmente percebeu que Esther é a mulher perfeita pra você?”

Aquilo não era tão óbvio quanto Bárbara fazia parecer.

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O voo de volta foi cheio de turbulências. Esther morria de medo de avião e de altura. Quando precisava andar em um, se dopava de remédios e torcia para não sentir nenhuma trepidação das nuvens. Aquele não foi o caso. Ela esqueceu o comprimido e passou o voo todo apreensiva, colocou seus fones de ouvido e tentou relaxar como sempre fazia com uma playlist de músicas clássicas, mas as sugestões das músicas eram tão turbulentas quanto o voo estava sendo.

Quando aterrissou, quase agradeceu aos céus, mas algo em seu peito ainda a deixava angustiada. Enquanto pegava a mala na ala de desembarque, voltou a sentir uma pontada no coração.

“Esther, eu sempre tive seu número e a gente se falando pelo insta…”

Assim que recebeu sinal de internet, Esther viu a mensagem de Jonathan na barra de notificações. Sorriu.

“Já chegou? Podemos nos encontrar?”

Ela foi pega de surpresa com aquelas mensagens seguidas, mas só conseguia sorrir de orelha a orelha, ainda sentindo um incômodo no peito. Não sabia o que aquilo significava, já que já estava em terra firme.

“Bom, o aeroporto fica perto do hospital…”

Ela mandou e viu Jonathan digitar.

“Vou até aí!”

Esther estava ansiosa em todos os sentidos da palavra, mas tentava se animar.

“Te espero na saída do aeroporto.”

Ela disse, pegou suas malas, respirou fundo e pôde sentir que sua sinfonia estava muito mais próxima de um ápice do que imaginava. Aquele seria o dia que ela tanto esperou.

— Ei! – uma senhora gritou perto das portas da saída, Esther passou por ela e viu que alguém saiu correndo com uma mala na mão.

— Ei, volte aqui! – Esther quis ajudar, detestava ver injustiças e não entendeu porque os seguranças daquele lugar não estavam fazendo nada. Sentiu outra pontada no peito, mas continuou correndo atrás do rapaz que não devia ter nem dezoito anos, era só mais um dependente químico que fazia pequenos furtos em troca de mais um pouco de drogas – Você não vai escapar! – Esther o alcançou na calçada.

A sinfonia de Esther chegava a seu momento mais caótico quando, para surpresa até a musicista, o rapaz com a bolsa furtada na mão, apontou uma arma para a mulher. Esther tinha a alça de couro na mão e a soltou como se tivesse levado um choque quando viu o cano de metal sendo apontado em sua direção. Mas todos ali estavam assustados. Seja Esther surpresa, seja o rapaz inexperiente que, sem saber como reagir, disparou a arma engatilhada.

O final turbulento de uma ópera como “Toccata and Fugue in D minor” de Bach era o que definia o momento, quase em câmera lenta, de Esther ao sentir que algo invadia seu peito, enquanto um líquido se espalhava por sua roupa.

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Ela estava lá, em todos os momentos, mas era apenas como uma voz suave e melódica que me chamava como se estivesse bem distante. E sempre que eu olhava para sua direção, via um rosto desfocado, como quando estava sem lentes ou sem meus óculos. Respondia a alguns comandos básicos, mas era como se tudo estivesse turvo e abafado. Algo como um véu me impedia de vê-la por completo.

E foi de repente, sozinho com meus pensamentos que sua imagem chegou ao meu cérebro e sua voz se tornou mais forte e mais próxima, ainda mais melódica e sonora do que eu conseguia ouvir antes, e nesse momento soube que estava cego. Estava surdo. Estava mudo. Mas iria mudar a situação. Iria vê-la, mostrar a ela que a via, que a ouvia em alto e bom tom, iria gritar para que ela também me ouvisse, para que ela também me visse, mas o burro na história fui eu. Ela sempre me viu, sempre me ouviu.

Corri sem direção até parar e pensar para onde estava indo. No meio da rua tentei traçar minha rota até ela, até o aeroporto. Já tinha perdido tempo demais, a ansiedade me consumia em um nível desesperador, olhava para todos os lados, estava perdido, precisava dela para me encontrar por completo e então a ouvi.

Reconheci seu grito que soou assustado e quando me virei a vi. A vi pela primeira vez depois de estar enclausurado. A vi caindo na calçada depois de tentar defender uma senhora de um assalto. Corri. Corri e não saí do lugar, senti meu coração pulsando forte enquanto o dela devia estar se enfraquecendo depois do som alto de disparo. Corri mais rápido e parecia que estavam me puxando para trás. Se fecharam ao redor dela, tentei empurrar todos, corria, corria porque sabia o que tinha que fazer, eu sabia que se corresse mais rápido saberia ajudá-la. Tropecei até estar ao seu lado e ela olhou para mim, nos víamos simultaneamente. Eu a via. Ela sorria apesar de piscar cada vez mais lentamente. Pressionei a ferida, gritei para que ela ficasse acordada, olhei para todos os lados na busca por algo que pudesse me ajudar numa cirurgia a céu aberto, eu sabia como salvá-la, só precisava de alguns instrumentos.

— Não ouse me deixar. – eu sussurrei – Não ouse. – encostei minha testa na dela. Estava gelada – Não ouse.

Ela fechou seus olhos. Podia lembrar de um dia, em uma de nossas conversas na madrugada de festas, em que ela me disse que morremos de olhos abertos e que para quem vê deve ser assustador esperar por uma piscadela e ela não vir. Ela juntou as forças que não tinha e fechou os olhos escuros.

— Abra. Pisque! – aquilo era um pesadelo.

Uma ambulância chegou, alguém do aeroporto deve ter chamado, ou era a ambulância do próprio aeroporto. Seu pulso estava tão fraco quanto uma brisa quente num dia de verão.

— Eu sei ajudar, eu sei o que fazer! – dizia desesperado – Preciso de um bisturi, preciso que entubam ela, preciso de uma assistência! – a ambulância atravessava a cidade a toda velocidade – Eu consigo mantê-la aqui comigo, só me deixem ajudar!

Querem me afastar dela, não acreditam em mim.

— Esther! Não ouse me deixar! – aquilo era um pesadelo, eu tinha que acordar, eu precisava acordar.

Quando nascemos marcam nossa hora, o que facilita a vida dos astrólogos.

Pego seu braço, seu pulso não dá mais pra sentir apenas com os dedos. Pego o estetoscópio do enfermeiro na ambulância.

— 13h47. – alguém diz.

— Não, Esther! Não ouse me deixar!

— Parar compressões…

— Ninguém vai parar nada, continuem! – eu mesmo fazia as compressões, ela precisava chegar até o hospital, eu conseguiria salvá-la.

Uma mão está em meu ombro e tudo fica embaçado, turvo, abafado de novo.

— Sinto muito… – a voz soa distante como era a voz dela, como voltou a ser.

— Hora da mor…

Eu não queria escutar, não queria ver, não queria ter percebido ela tão tarde.

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