Cada ano que se passava, uma nova temporada de bailes e encontros grandiosos acontecia para que as moças em idades de se casar fossem introduzidas aos pretendentes com intenções de sustentá-las e exibi-las como suas esposas. Todos os anos meninas recém-chegadas à idade adulta eram apresentadas a rapazes mais velhos, outros já quase com idades para serem seus bisavôs e todos os anos grandes casamentos ocorriam na sociedade.
A intenção era deixar que todas as moças acreditassem que, durante essas temporadas de casamentos, elas encontrassem o verdadeiro amor, algumas conseguiam tirar a grande sorte de achar um rapaz bonito e jovem cujo interesse fosse grande o suficiente para que os dois começassem uma vida conjugal, outras, no entanto, deveriam se contentar com casamentos com senhores mais velhos. Na realidade, pretendentes havia aos montes, jovens e bonitos, ricos e elegantes, velhos e acabados, com grandes posses, mas cabia aos chefes das famílias decidirem se dariam ou não a mão de sua filha, ou irmã, ao rapaz que propusesse o matrimônio.
Na casa de Rúbia, seu pai já havia decidido pelo casamento de suas duas irmãs mais velhas, Alma e Evita. Ambas conseguiram bons partidos, jovens, ricos como era sua própria família, e conseguiram casar durante a temporada social. Era já considerada uma tradição na família de Rúbia que todas as moças conseguissem bons casamentos na época determinada para aquilo. Tinha sido assim com sua mãe e suas respectivas tias, assim como foi com sua avó, e como estava sendo com Alma, a mais velha das mulheres, e Evita, que nasceu dois anos após Alma, e como a família pretendia que fosse com Rúbia naquele ano, assim como queria manter a tradição com Dulce, a caçula daquela casa com cinco mulheres e dois rapazes: Zenon o primogênito e Javier, o terceiro filho da família.
A temporada chegava junto com a primavera, trazendo o frescor de uma nova estação que pretendia florescer não apenas as flores, mas todas as meninas que sonhavam apenas com aquela data, principalmente as que seriam oficialmente introduzidas ao ambiente formal. Modistas de todas as regiões da grande capital da temporada se desdobravam como podiam para proporcionar às damas da cidade vestidos lindos para cada ocasião que enfrentariam até finalmente achar seus tão esperados pares.
A casa de Rúbia ficava cheia com apenas as pessoas da família, mas assim que a temporada de casamentos começou, empregadas e modistas ajudavam a preencher cada canto vazio do casarão. As irmãs mais velhas de Rúbia tinham permissão de seus maridos para acompanharem a tão esperada saga de Rúbia para finalmente encontrar um esposo. Elas passariam a temporada na casa da mãe e ajudariam a irmã com todos os preparativos para todos os eventos. Era uma algazarra, uma bagunça e histeria de mulheres que mal viam a hora de receberem os convites para o baile inaugural.
A sala estava repleta de pessoas, mas uma em particular preferiu se esconder o quanto podia no conforto e quase silêncio de seu quarto.
— Rúbia! A mamãe está chamando por você! – Dulce tinha apenas doze anos, mas já se encantava com toda aquela festa que ocorria na casa.
— Diga que estou indisposta. – Rúbia disse de dentro do quarto, não seria de todo uma mentira, estava se sentindo tonta, com o estômago embrulhado e seu coração batia tão acelerado que podia explodir a qualquer hora.
— Rúbia, essa indisposição é nervoso. – a mãe das meninas abriu a porta do quarto – Todas nós passamos por isso, é normal, querida… – ela tinha um sorriso sereno e se aproximou da filha – Venha, a modista está esperando por você…
— Por que não podemos atrasar um ano minha apresentação? Eu imploro, minha mãe! – e de joelhos Rúbia pedia, segurando o choro.
— Para quê? Você nunca esteve tão bela, Rúbia, está com a forma adequada, está com a altura adequada, está perfeita para ser apresentada esse ano! – a mãe da moça olhava para a filha que se levantou e foi se encostar à janela, a luz do sol entrava no quarto o iluminando quase por completo – Nunca estive tão certa quanto seu nome… – ela disse e Rúbia olhou confusa para a mãe – Quando você nasceu estava amanhecendo, depois que te limparam do sangue eu vi seus fios loiros como os do seu pai, mas então o sol bateu neles e, por uns momentos, os vi ficando vermelhos, como agora…
— Eu imploro, minha mãe… – Rúbia voltou a se ajoelhar como sendo sua última esperança.
— Venha, você vai ver que vai passar, temos muitos preparativos para ver antes do grande baile, desça para que a modista faça os ajustes nos vestidos. – a mulher estava um pouco impaciente, mas ainda estava serena.
Todas as moças da alta sociedade sonhavam com apenas uma coisa: a temporada social. Desde pequenas eram instruídas por suas famílias para que nada saísse do planejado, apesar de alguns casamentos inusitados e um ou outro escândalo pelas ruas mais ricas, tudo sempre saía como os conformes, mas a realidade de Rúbia sempre se mostrou distinta, a moça, dos cabelos louros avermelhados e olhos claros como os de sua mãe, sonhava apenas com uma coisa: não se casar.
Rúbia gostava da companhia de livros e cadernos para escritas, gostava de desenhos e artes em geral, se interessava por cada novidade e tinha uma tendência para investigar e pesquisar pequenas coisas nos arredores apenas como passatempo e curiosidade, tinha o sonho de estudar como seus irmãos, mas aquele era um sonho impossível. Quando a temporada social começou para ela, Rúbia só tinha certeza de que não queria nem sequer ter nascido como mulher, não iria aguentar enfrentar bailes e receber pretendes, torcia para que ninguém a quisesse, torcia para que ninguém a propusesse, mas seu pesadelo estava apenas começando.
As ruas ganhavam cores com a primavera, ganhavam vida e sorrisos, as ruas se enchiam de preparativos e ansiedade das moças que mal viam a hora do baile de apresentação. Em poucos dias o grande palácio já estava preparado para recebê-las. Carruagens chegavam de todos os cantos da cidade, meninas desciam delas com vestidos coloridos, enfeites por todos os lados, sorrisos largos e expectativas criadas. Desde o momento em que colocavam os pés para fora da cabine, já começavam a olhar ao redor na busca de pousar seus olhos em algum belo rapaz que fosse retribuir aos seus olhares apaixonados.
As carruagens da família de Rúbia adentravam os jardins reais, Rúbia estava ofegante, mas não era apenas por conta do espartilho apertado, o vestido um pouco pesado e os acessórios que quase a impedia de movimentar até a cabeça, ela estava ofegante porque sabia que tinha falhado em adiar seu pesadelo.
— Calma, querida, ficar ansiosa é normal, lembre-se, hoje é apenas o baile inaugural, mas quem sabe daqui já não saímos com algum pretendente ao seu nível? – a mãe de Rúbia a desencorajava com cada palavra que dizia, aquilo não podia ser pior para a menina.
— Mamãe, acha que quando for minha vez eu vou conseguir um marido na minha primeira temporada? – Dulce perguntava ao lado de Rúbia na carruagem.
— É o que esperamos, minha querida, faremos o possível para que você consiga isso! – Rúbia sentia que podia vomitar a qualquer hora com aqueles sorrisinhos das duas.
A festa já acontecia quando Rúbia entrou no palácio sendo anunciada aos quatro cantos de sua chegada. Havia sempre uma pausa dos convidados já presentes que apreciariam a mais nova moça introduzida na temporada, olhares que admiravam Rúbia de cima a baixo, de todos os ângulos. A garota sentia que podia desmaiar a qualquer momento, mas conseguiu caminhar para dentro do salão, sua mãe a acompanhava ao lado, dando sorrisos orgulhosos para todos que apreciavam sua filha. Depois de alguns minutos todos já voltavam suas atenções para o que estavam fazendo anteriormente, e o ciclo se repetia sempre que uma nova dama era apresentada.
No meio do baile as portas do grande salão se abriram, todos ficaram surpresos ao ver entrando Belinda Santiago, acompanhada de sua mãe. Belinda era famosa na sociedade, não apenas pela sua beleza quase divina que traziam aos seus olhos pretos um brilho diferente, assim como aos seus cabelos longos e castanhos, curvas que podiam dançar sozinhas, a beleza de Belinda era muito comentada, mas sua fama não vinha apenas disso, Belinda entrava no salão com olhos baixos, era sua sétima temporada social, dava para ver na expressão de todos os presentes que ninguém poderia imaginar que levariam Belinda para mais um ano de possíveis decepções.
— Estou começando a pensar em me arriscar esse ano… – Javier disse ao lado de Rúbia e suas outras irmãs enquanto Belinda entrava no salão e era alvo dos mais variados cochichos.
— Você não é louco, Javi! – Alma disse assustada para o irmão.
— E nem tem idade para se casar ainda, tem muito o que viver. – Zenon falava, mas seus olhos e seu pescoço acompanhavam cada passo de Belinda, ela era como um belo chamariz para todos os rapazes que quase chegavam a suspirar encantados.
— Coitadinha… – Evita olhava para a mulher com pena – Espero que esse ano dê certo, dá para ver nos olhos dela o quanto ela está se sentindo triste por ter que enfrentar mais uma temporada…
— Seis noivos, essa menina deve ter sido amaldiçoada quando bebê, algum parente invejoso deve ter jogado alguma praga para ela, é muita crueldade trazê-la para outra temporada… – Alma falava com pesar.
— Queria eu essa maldição… – Rúbia falou baixo e por sorte ninguém de sua grande família ouviu.
O baile teve prosseguimento, mesmo com todos os boatos e falatório sobre Belinda estar em sua sétima temporada, muitos rapazes com espíritos aventureiros se aproximavam da moça e a convidavam para dançar. Javier foi um deles, não conseguiu evitar ser atraído pela beleza de Belinda, dançou com a moça como se estivesse certo que morreria em seguida, mas mesmo assim, estava disposto a enfrentar aquela aventura.
Zenon também ficou tentado, mas conseguiu se controlar, ficou atento a todos que se aproximavam de Rúbia, avaliava cada pretendente e conversava com seu pai a respeito de todos os rapazes que lançavam olhares para sua irmã em época de casamento.
— A senhorita me daria a honra da próxima dança? – Juarez era um rapaz com a idade de Zenon, eram amigos de infância e aos poucos criou coragem para se aproximar de Rúbia – Por favor? – ele insistiu ao ver que a moça o olhava sem expressar nenhuma reação.
— Vá, Rubi! – a mãe da menina a incentivava, gostava de Juarez, sempre foi um bom amigo de Zenon e sempre frequentava a casa da família.
— Está bem. – Rúbia não tinha alternativa, aceitou a dança com Juarez que não podia estar mais sorridente.
— Preciso comentar que esse ano você está deslumbrante, Rúbia… – ele puxava assunto durante a dança – Quero dizer, você é bonita, sempre foi… – Rúbia o olhava séria, dançava automaticamente, não via a hora da música acabar.
— Grata. – ela disse forçando um sorriso, olhou ao redor do salão enquanto dançava com Juarez e viu Belinda dançando com seu mais recente par.
— Fico com pena dela… – Juarez disse após observar para onde os olhos de Rúbia tinham ido – Seis noivos que morreram, tudo bem que os dois últimos a gente já esperava que fossem morrer, pela idade que tinham, mas deve ser triste, não acha?
— Não. – Rúbia disse, mas ao ver a reação de Juarez se corrigiu – Digo, pelo menos ela é bonita a ponto de que, por mais que carregue essa maldição dos noivos, todo ano ela volta para a temporada e ainda assim consegue vários outros candidatos. Tem medo de tentar a sorte com ela?
— Belinda é uma mulher linda, Rúbia, mas confesso que tem um tempo que só tenho olhos pra você… – Rúbia, pega de surpresa, abria e fechava a boca sem conseguir pronunciar nenhuma palavra, foi salva pela música que havia chegado ao fim.
— Grata pela dança, se me dá licença… – e quase correu para longe de Juarez.
O baile continuava com todo o seu fervor, as moças da temporada dividiam seus tempos em andar pelo salão para olhar os mais bonitos rapazes, e dançar com os pretendes que as chamavam. Com Rúbia teria sido igual, mas a menina na primeira oportunidade saiu do grande salão para se refrescar daquela histeria toda.
— Já cansada? – uma voz falou com Rúbia no parapeito de uma das sacadas do palácio que dava vista para o jardim, era onde a menina tinha ido se esconder o quanto podia sem gerar falatórios. Rúbia olhou para trás e viu Belinda, não pôde evitar que seu corpo tivesse uma reação de espanto, não só pelo pequeno susto que levou, mas por ser Belinda e toda sua fama.
— Sim, um pouco… – ela respondeu educadamente e viu Belinda se aproximar.
— Calma, eu juro que não tem nada de errado comigo, nada de contagioso… – Belinda disse ao ver que Rúbia disfarçadamente se movia para o lado oposto.
— Não, é que… – Rúbia não tinha como desfazer aquilo – Desculpa, eu nem percebi, para falar a verdade…
— Não tem problema… – Belinda sorriu e o sorriso da mulher era tão lindo quanto ela inteira, Rúbia sem perceber admirava o perfil da moça que ficava ainda mais divino com a luz do luar – Sente que vai casar nessa temporada?
— Espero que não. – Rúbia disse rápido – Quero dizer… Eu não me sinto pronta…
— Entendo, é normal… – Belinda falava com serenidade – Não posso te dizer como é uma vida conjugal, ainda não tive a sorte… – ela riu.
— Acha que seria sorte casar? – Rúbia se aproximou um pouco da mulher.
— Depois de seis temporadas, sorte é algo que menos tive, não concorda? O que vier eu aceitarei de bom grado e se conseguir dizer “sim” ao altar, vou me considerar muito sortuda…
— Você já é sortuda, senhorita Santiago… – Rúbia disse.
— Belinda… Me chame de Belinda! – Belinda estendeu a mão para Rúbia que hesitou antes de cumprimentá-la.
— Rúbia… Pode me chamar de Rúbia… – ela disse e conseguiu dar um sorriso espontâneo para a mulher com a maldição.
— Você me acha sortuda? – Belinda ergueu uma sobrancelha, sua expressão facial misturava o riso e a confusão.
— Não… Digo… Casar deve ser apavorante, e quanto mais a gente puder adiar, melhor, não acha? – Rúbia teria dito tudo o que pensava, mas não conhecia Belinda além de sua triste fama.
— Vendo por esse ponto de vista, eu acho que sim, mas eu já estou na minha sétima temporada, só o que quero é paz para minha vida e se isso significa casar com o primeiro que me propuser, eu vou aceitar…
— Bom, Belinda, você terá muitos pretendentes, eu tenho certeza… – Rúbia sorriu – Melhor voltar para o salão antes que fuxiquem sobre meu sumiço…
— Boa sorte, Rúbia, foi um prazer te conhecer… Posso ansiar para te reencontrar nos outros eventos?
— Acredito que sim… – Rúbia disse corando um pouco e voltou para o grande salão para o término da noite.
A manhã que se seguia ao baile inaugural era repleta de expectativas das moças introduzidas na mais recente temporada social de casamentos. Se uma delas havia fisgado a atenção de algum rapaz ou senhor, era no dia seguinte ao baile que os possíveis pretendentes deveriam começar algum cortejo. Não era uma regra, mas a moça que não recebia pretendente na manhã pós-baile ficava devastada até o próximo evento.
— É extraordinário como a casa dos Santiago está lotada! – Alma entrava na sala da casa de sua família comentando com todos o que tinha acabado de ver depois de um passeio pelo centro.
— Eu pretendo passar lá depois que a fila diminuir… – Javier dizia rindo da expressão de sua irmã mais velha.
— Javi, já te disse, aquela menina tem má fama que diz respeito direto aos pretendentes que ela arranja, você de maneira alguma vai cortejá-la! – Alma se desesperava.
— Vocês estão tornando a senhorita Santiago em um demônio, do jeito que falam… – Rúbia disse sentada no sofá enquanto lia um de seus livros.
— Longe de mim, mas a fama que ela carrega, coitadinha… – Alma batia três vezes na boca quando falava algo considerado pecaminoso.
— Coitada ela seria se nunca ninguém a quisesse depois de tantas temporadas… – Rúbia se lembrava da conversa com Belinda na noite anterior e de como sentiu que a mulher só precisava de alguém para conversar, assim como Rúbia só queria alguém para falar o que realmente achava de tudo aquilo.
— E eu acho que está na hora de eu correr o risco! Tentar essa grande aventura de ser noivo de Belinda Santiago! – Javier provocava a irmã.
— Zenon! Dá um jeito nele! – Alma implorava para o irmão mais velho.
— Irmã, ele só está brincando com você, não é, Javi? – Zenon levantou os olhos do jornal e olhou sério para Javier.
— Isso vocês nunca saberão… – Javier gargalhou e pegou seu chapéu.
— Aonde vai? – Zenon perguntou.
— Melhor não saber… – ele piscou para o irmão e estava saindo da sala quando a empregada entrou esbaforida – Calma, respira! – ele disse tentando acalmar a mulher.
— Um rapaz veio ver a senhorita Rúbia! – ela dizia e quase dava pulinhos.
Todos na sala se levantaram esperançosos. Zenon já estava mais sério, quando seu pai não estava, era ele quem fazia as vestes de chefe de família e, naquele momento, era ele que avaliaria o primeiro pretendente de Rúbia. A garota respirava descompassadamente, não conseguia raciocinar, não conseguia sequer rezar para que fosse alguém novo e não um senhor com idade para ser seu avô.
— Deixe que entre, Telma. – Zenon disse e aguardou assim como todos naquela grande sala de convivência. Os passos do rapaz eram ouvidos no corredor, cada passo que ele dava para perto da sala era um salto no coração de Rúbia. Ela queria fingir indisposição, mas já não havia mais tempo para qualquer desculpa. Tirando o chapéu em sinal de respeito e educação, o rapaz entrou na sala com um buquê de flores – Juarez?! – Zenon estava confuso.
— Olá, bom dia a todos… – ele disse um pouco sem jeito. Juarez já conhecia muito bem a família de Rúbia, sempre frequentou a casa porque seu melhor amigo era Zenon.
— Veio cortejar minha irmã?! – Zenon estava perplexo.
— Bom… – Juarez era branco como neve e naquele momento estava corado como uma pimenta malagueta, tinha adquirido uma timidez imediata devido ao seu mais recente motivo de visitação à casa – Rúbia está na temporada social e eu venho lhe entregar flores… – ele disse caminhando para perto de Rúbia que mais parecia uma estátua.
— Querida! – a mãe da menina estava empolgada, gostava muito de Juarez, o achava um excelente partido em todos os requisitos, como beleza, inteligência, cordialidade e dinheiro – Aceite, aceite! – ela via que Rúbia não expressava nada além de surpresa. Rúbia pegou as flores em um gesto automático.
— Juarez, se importa de vir até o escritório? – Zenon chamava pelo amigo.
— Claro… – Juarez seguiu Zenon e assim que ele fechou a porta do ambiente viu a expressão de seu amigo de infância mais séria do que nunca.
— O que pretende?! – Zenon o interrogava.
— Bom, eu pretendo cortejar a Rúbia…
— Ela é minha irmã! – Zenon demonstrava sua indignação.
— E há alguma lei que me proíba de fazer isso?
— Eu o proíbo! – Zenon estava furioso – Ela é minha irmã, Juarez! Nós crescemos juntos, eu e você, você sempre conviveu aqui em casa e agora vem me dizer que quer cortejar minha irmã?! Ela é praticamente sua irmã também, visto que você é como um irmão pra mim!
— Acontece, Zenon, que eu não sou parente seu, não temos o mesmo sangue, não somos irmãos apesar de nossa forte ligação e eu sempre tive um interesse na Rúbia…
— Sempre?! Desde quando? Você nunca me contou isso! – Zenon andava de um lado para o outro, tentando entender aquela situação.
Na sala, as irmãs de Rúbia e a mãe estavam mais histéricas que o normal. Javier até tinha desistido de sair e ficou para ver o que aconteceria agora que a paixão secreta de Juarez estava sendo exposta para a casa toda.
— Eu não poderia pedir genro melhor para você, Rubi! – a mãe das meninas dava pulinhos de felicidade – Quem poderia imaginar que o Juarez estaria esperando para te cortejar, todos esses anos! Que rapaz maravilhoso! Que rapaz paciente!
— Eu nunca imaginaria… – Evita falava perplexa, mas sorria por Rúbia que ainda estava de pé como uma estátua, segurando o buquê de flores.
— Ele poderia esperar por mim! – Dulce se manifestava um pouco chateada, sempre achou Juarez lindo e fantasiava com um futuro em que ela estaria na temporada de casamentos e Juarez finalmente a notaria.
— Você é muito pequena, Dulce, ainda têm anos para sua temporada e é óbvio que Juarez não te notaria, você é uma criança. – Alma consolava a irmã caçula.
— Bom, eu sempre soube do interesse de Juarez… – Javier dizia se vangloriando.
— Pois então, me explique isso. – Zenon voltava para a sala com Juarez, os dois estavam sérios depois da conversa.
— Sempre foi nítido! – Javier dizia o óbvio – Vai me dizer que nunca notou que ele sempre olhava encantado pra Rubi?!
— Eu disse, achei que soubesse… – Juarez disse baixo para o amigo que respirou fundo.
— Está bem… – Zenon disse por fim – Terá sua oportunidade, mas saiba que se fizer qualquer coisa com minha irmã, pode considerar nossa amizade terminada e se considerar um homem morto.
— Obrigado, Ze… – Juarez se permitiu sorrir e olhou para Rúbia ainda de pé no canto da sala – Rúbia, como vai? – ele se aproximou da menina.
— Rúbia, responda! – a mãe dos jovens dizia para a filha. Rúbia ainda não sabia como reagir, estava se sentindo péssima, seu pior pesadelo estava se tornando realidade, mas ela precisava fingir que estava bem.
— Grata pelas flores. – foi a única coisa que ela conseguiu falar.
— Eu sei que gosta de lírios… Fiz questão de te trazer os mais bonitos… – Juarez estava tímido, era um momento novo para todos naquela sala.
— Bom, tudo às claras, vou cortejar a senhorita Santiago… – Javier disse rindo e olhando para Alma que revirou os olhos impaciente.
— Boa sorte, Javi, a casa dos Santiago está abarrotada de rapazes… – Juarez disse, mas logo voltou sua atenção para Rúbia – E então, Rubi, como está se sentindo na temporada social?
A resposta que a menina queria dar ficou oculta no silêncio que se seguiu. Ainda sem entender o que estava de fato acontecendo, Rúbia respondia às perguntas de Juarez por educação, não via a hora do rapaz ir embora, pensou que talvez, se fosse um pretendente menos conhecido, já teria saído da casa há tempos, mas Juarez era como se fosse da família desde pequeno e agora pretendia ser da família oficialmente através do matrimônio com Rúbia, a garota não poderia estar mais desesperada.
Toda a temporada social se iniciava na primavera e tinha seu término oficial no último baile que daria início ao outono. Muitos casamentos aconteciam ao final do período, mas um e outro aconteciam ainda na primavera, geralmente ocorriam às pressas para evitar escândalos maiores. Os bailes eram realizados semanalmente e nos dias restantes as moças se dividiam em passear com os pretendentes, ou esperar que algum rapaz aparecesse para tirá-las de um vexame por não serem escolhidas logo nos primeiros eventos, e participar de celebrações e encontros casuais.
No segundo baile daquela recente temporada, Rúbia estava ainda mais enfeitada que no primeiro, mas daquela vez, toda a sua família já imaginava que, durante toda a noite, a menina teria bons olhos apenas para Juarez enquanto Zenon e seu pai avaliariam outros possíveis candidatos para ela. No entanto, Rúbia tinha planos de aparecer, sumir por alguns minutos e fingir alguma indisposição para poder sair daqueles salões o mais rápido possível, sentia que seu pesadelo só teria fim com o pior evento que ela poderia imaginar para ela: o casamento.
Depois de uma dança com outro rapaz que insistiu muito, Rúbia viu Belinda Santiago deixar o salão discretamente, percebeu que sua família não estava prestando muita atenção nela e seguiu a mulher que caminhava para fora do palacete, entrando no jardim todo decorado. Belinda escutou passos atrás dela e se virou para verificar quem a seguia.
— Rúbia! – o sorriso da mulher se alargou – Fugindo para respirar ar puro?
— É… Se eu pegar algum resfriado vai ser lucro… – Rúbia disse e se aproximou.
— Você está disposta a ficar doente só para não participar da temporada? Calma, sempre há a possibilidade de esse ano não dar em nada, aí você vai ter mais um ano para se preparar… – Belinda sorria, as duas passaram a caminhar juntas por uma trilha de flores.
— E se eu nunca estiver preparada? – Rúbia não conseguiu guardar aquilo em sua mente.
— Bom, todos esperam que algum dia a gente esteja, ou vamos ter que aprender de maneiras mais difíceis e práticas… – tinha algo na voz de Belinda que fazia Rúbia ficar sempre atenta a tudo o que ela falava, o tom de voz da mulher era doce e suave, mas carregava uma certa sabedoria, não como uma mãe ou irmã, mas uma amiga.
— Conseguiu algum pretendente? – Rúbia perguntou querendo mudar o foco do assunto.
— Alguns rapazes me visitaram esses dias… – Belinda tentava amenizar o óbvio e viu Rúbia disfarçar a risada – Algum problema?
— Alguns rapazes? Belinda, sua casa esteve lotada esses dias… Eu disse que não seria problema você arranjar algum rapaz…
— Eu sempre acho que a maioria está ali para viver uma aventura, você sabe… Minha fama… – Belinda abaixou o olhar, mas continuava sorrindo – Mas e você? Vi que dançou algumas vezes com um único rapaz…
— Ah… – Rúbia se entristeceu – Juarez é o melhor amigo do meu irmão mais velho e, aparentemente, quase todo mundo na família sabia que ele nutria uma paixão por mim, todos com exceção de mim e de Zenon…
— Então tem um pretendente?! – Belinda se empolgou – Isso é ótimo, não acha?
— Não. – Rúbia disse seca – Eu não sei… Casar me apavora tanto que eu… – ela parou um momento, Belinda a olhava curiosa – Eu preferia ter sua fama, sabe…
— Noivos que morrem antes de casar? – Belinda ergueu uma sobrancelha – Desde quando isso é algo bom?
— Eu sei que parece horrível falar desse jeito, mas eu não suporto a ideia de casar, fui criada para gostar e não gosto… – Rúbia desabafava – Por mim eu não casaria nunca! – o silêncio pairou sobre as duas por alguns momentos.
— É a nossa vida, Rúbia… – Belinda disse por fim – E acredite, essa fama não é boa nem para mim, nem para ninguém… São famílias que perderam seus filhos, um que sumiu sem deixar rastros e… Tudo bem que os dois últimos eram tão velhos que eu nem sabia como eles se aguentavam em pé… – Rúbia observava Belinda falando – Mas é triste pra eles e pra mim…
— Você quer casar?
— Se isso vai acabar de uma vez por todas com a minha fama e eu vou poder sossegar dos falatórios, sim, eu adoraria…
— Não sabe a sorte que tem… – Rúbia disse baixo.
— Então, você não se importaria se seu pretendente ou noivo morresse contanto que você esteja livre de casar? – Belinda estava séria, Rúbia não respondeu, mas em sua mente disse “sim”.
— Melhor eu voltar para o salão, já vão notar minha falta… – Rúbia se virou para voltar pela trilha de flores do jardim iluminado com a luz da lua.
— Rúbia… – Belinda puxou o braço da menina que se surpreendeu com o toque inesperado – Aproveite que tem um rapaz que gosta de você, que vocês já se conhecem e que pode construir uma amizade com ele… Você, Rúbia, não sabe a sorte que tem… – Belinda disse desviando o olhar e soltando o braço da menina. Rúbia voltou para o baile em silêncio.
Todas as manhãs, desde o início daquela temporada, a casa da família de Rúbia ficava cheia, não apenas pelos parentes já presentes, mas porque Juarez sempre aparecia para cortejar a menina, levar presentes e a convidar para um passeio ao ar livre. A histeria que se juntava àquela aparição diária deixava Rúbia sempre sem ter o que falar e fazer, ela só esperava o anoitecer para se trancar em seu quarto e chorar as lamúrias de que tudo em sua vida estava dando errado.
Já tinham se passado três bailes e no terceiro, finalmente, Rúbia conseguiu convencer a todos de sua indisposição e falsa moléstia para ficar em casa. Mas a garota não conseguiu seu tão sonhado período de paz e sossego sem que alguém a recordasse a cada minuto que ela estava indo muito bem em sua primeira temporada. Só piorou o fato de que Zenon e o pai dos jovens estavam mais suscetíveis a permitir que os cortejos de Juarez evoluíssem para algo mais sério.
Na manhã seguinte ao terceiro baile, a cidade aparecia fervorosa, os mais variados comentários se espalhavam por todas as bocas e o assunto era um só: Belinda Santiago havia sido pedida, oficialmente, em casamento. Todos estavam curiosos para saber o nome do mais novo aventureiro que se arriscava em fazer aquele pedido à mulher amaldiçoada. Rúbia foi acordada por sua ama e a mulher que cuidava da garota já começou a comentar todas as mais recentes notícias.
— E quem sabe, logo não será você, Rubi? – a ama amarrava o espartilho na menina que mal conseguia respirar.
— Já sabe quem é o rapaz, ou senhor? – Rúbia ficava pensando se Belinda estaria feliz, se estaria aliviada, ou não.
— Carlos Afonzo, da família dos García! – a mulher se animava.
— Oh… – Rúbia sabia de quem se tratava, sabia que Carlos era jovem e que era muito apreciado por quase todas as meninas da cidade – Eles vão formar um belo casal… – os pensamentos de Rúbia estavam a mil.
— Se ele conseguir casar, não é? – a ama disse dando uma risadinha maldosa – Será uma pena se ele morrer, tão jovem, tão bonito…
— Credo, Telma… – Rúbia disse pensativa, tinha um pouco de pena de Belinda, pela fama que carregava, mas, involuntariamente, deseja que algo acontecesse com Juarez para que ela não se casasse.
— Está lindíssima para um passeio matinal! Fiquei sabendo que terá um piquenique, é um lindo dia para que o senhor Juarez a corteje ao ar livre, não acha? – Rúbia não respondeu.
A cidade possuía lindos parques e campos para passeios tanto a pé quanto a cavalo. Eram nesses extensos jardins públicos que, durante a temporada de casamentos, as moças desfrutavam de piqueniques e caminhadas com seus pretendentes ou mesmo suas amigas. O clima fresco contribuía para que o parque estivesse cheio. Rúbia estava sentada com suas irmãs em uma tenda reservada para a família e percebeu que os olhares de todos naquele ambiente aberto se voltaram para uma única direção: a trilha de entrada.
Belinda caminhava ao lado de seu mais novo noivo, segurava no braço do rapaz e sorria tímida conforme se aproximavam de onde estava a maioria das pessoas. Os cochichos não tardaram a começar, Belinda sabia que era mais uma vez um alvo de comentários, mas já estava acostumada. Rúbia observava cada passo que a mulher dava ao lado de seu futuro esposo, tentava decifrar alguma coisa naquele caminhar, no sorriso, alguma coisa que mostrasse que Belinda estava mesmo aliviada por achar um noivo, ou se estava arrasada.
— Carlos já me cortejou… E pensar que eu poderia estar casada com ele… – Evita dizia olhando para o rapaz que levava Belinda ao seu lado como se fosse um grande e belo troféu.
— Seu marido é excelente, Evita, nunca se esqueça disso… – Alma trazia a irmã de volta à realidade, mas também quase suspirava ao ver Carlos Afonzo passeando.
Rúbia observava o casal, queria se aproximar de Belinda, mas sabia que não era o momento para fazer aquilo e talvez nem fosse aceitável, todos sabiam que a fama de Belinda era pesada e muitos evitavam andar perto dela, ou até mesmo trocar uma palavra e outra temendo que sua maldição fosse contagiosa ao ponto em que, quem entrasse em contato com a senhorita Santiago, morreria instantes depois.
— Eles formam um belo casal, vamos rezar para que Carlos sobreviva… – Evita olhava com pesar para os dois.
— Mais uma vez, vocês duas estão demonizando a senhorita Santiago… – Rúbia disse revirando os olhos.
— Não, longe de nós! – Alma fazia seu ritual de bater três vezes na boca – Mas, você precisa entender que ela carrega uma fama bem ruim, Rubi…
— Ela não tem culpa. – Rúbia, sem perceber, saía em defesa de Belinda – O primeiro noivo foi encontrado morto na véspera do casamento, estava jogado na sarjeta perto do bar, na certa quis aproveitar a última noite e não sobreviveu para contar como foi. O segundo escreveu a carta de suicídio, não se lembram como foi chocante para todos? – Rúbia enumerar os rapazes mortos – Teve aquele que fugiu, ou pelo menos é o que falaram na época, nunca mais foi visto, o quarto se envolveu em uma briga e acabou esfaqueado, o quinto era tão velho que mal conseguia respirar! Foi achado morto na própria cama, uma semana antes do casamento e o sexto noivo dela teve um fim parecido porque era muito velho…
— Quem diria que você estaria atenta aos principais fuxicos das temporadas, Rubi? – Alma ria – Está bem, você está certa, ela não teve culpa, mas eu tenho pena, não posso evitar, ela realmente não tem sorte, espero que com Carlos isso mude… – Alma viu o casal se sentar na tenda dos Santiago para despojar do piquenique – E olha lá quem está chegando! – Alma avistou Juarez se aproximando com um sorriso grande e um buquê de lírios nas mãos. Rúbia revirou os olhos sem que ninguém percebesse.
— Desculpem-me o atraso, senhoras… E senhorita… – ele olhou para Rúbia – Flores para a mais bela dama desse parque… – ele entregou o buquê para Rúbia que o recebeu com um sorriso forçado.
— Obrigada.
— Que tal um passeio nos arredores, Rubi? – ele estendeu a mão para a menina que hesitou antes de aceitar, contra sua vontade – Está linda hoje, Rubi, como sempre… – o rapaz disse tímido ao ajudar Rúbia a se levantar.
— Grata. – ela disse e não queria continuar a conversa com o mesmo roteiro de sempre – Se importa de irmos por ali? – ela perguntou apontando para a direção da trilha em que Carlos e Belinda estavam indo.
— Claro que não, Rubi, seu pedido é uma ordem…
Os dois passeavam juntos de braços dados, mas Rúbia começou a acelerar seus passos para se aproximar ainda mais do casal mais comentado da cidade, Juarez nada podia fazer a não ser acompanhá-la com uma expressão de confusão no rosto.
— Belinda Santiago! – ela disse sorrindo ao se aproximar da mulher – Gostaria de parabenizar os dois pelo noivado… – ela puxou Juarez para mais perto – Nós gostaríamos de parabenizar, não é, Juarez?
— S-sim… – Juarez fazia parte do grupo de pessoas da cidade que tinha medo de se aproximar de Belinda por conta de sua fama fatal.
— Vocês formam um belo casal… – Rúbia disse olhando para Carlos.
— São seus olhos, querida… – Belinda disse tímida – Mas muito obrigada… – Rúbia tentava captar qualquer coisa que fosse naquelas palavras, naquela expressão facial – Que tal uma caminhada dupla? – a mulher propôs e Juarez ficou sem reação.
— Adoraríamos! – Rúbia se manifestou pelos dois – Não é, Juarez? – ela voltou seu olhar para o rapaz que não sabia o que responder, se pudesse, Juarez já estaria longe daquele casal, longe de Belinda Santiago.
— Quando as mulheres se unem, fica um pouco difícil dizer não a elas… – Carlos disse rindo – Imagina se um dia elas se rebelassem contra nós?
— Seria péssimo… – Juarez disse tentando descontrair e viu que Belinda e Rúbia começaram a caminhar na frente dos dois como se já fossem grandes amigas. Era uma estratégia de Rúbia, ela queria um momento com Belinda sem ser em fugidas rápidas de bailes.
— Como está se sentindo? – Rúbia disse uns passos à frente dos rapazes, Belinda caminhava ao seu lado e olhava ao redor.
— Rúbia, sabe que andar comigo pode te trazer má fama, não é?
— As pessoas julgam porque não têm nada para fazer… – Rúbia disse sorrindo para Belinda – Eu sei que você não tem culpa de carregar esse fardo.
— Obrigada por me entender, querida… – Belinda sorriu para a menina – Respondendo a sua pergunta, eu estou aliviada de conseguir um casamento e todos os dias rezo para que possa finalmente concluir essa etapa… – Belinda olhava para as pessoas que as encaravam – Estou confiante, estou esperançosa…
— Mesmo? – Rúbia perguntou um pouco baixo.
— Ora, e por que eu não estaria sentindo tudo isso, Rúbia? – Belinda riu.
— Por nada, você está certa… – Rúbia baixou o olhar.
— Eu vejo que seu pretendente está muito absorto com você, dá para ver que ele tem uma pequena paixão, se é que posso chamar de pequena… – Belinda se permitiu brincar com a menina.
— Não tanto quanto ele tem medo de se aproximar de você… – Rúbia também entrou na brincadeira.
— Olha, eu acho que a paixão que ele nutre por você supera o medo, de que outro jeito ele aceitaria essa caminhada dupla que na verdade nós duas os deixamos para trás? – Rúbia olhava para Belinda e não conseguia evitar se encantar com a moça que sorria sereno e sempre mantinha uma postura ereta e superior, não que fosse a intenção da mulher, mas era o que ela transparecia.
— Você tem medo que algo aconteça a Carlos?
— Você se refere a uma fatalidade? – Rúbia concordou com a cabeça – Confesso que sim… Ele é um bom rapaz, apesar de se achar um rei… – as duas riram – Eu sei que no fundo ele está querendo brincar nessa aventura que é ser meu noivo e temo o dia que ele acordar e perceber que essa brincadeira nos levou ao altar e a uma vida conjugal…
— Talvez ele surte… – Rúbia disse rindo – Então está mesmo esperançosa?
— A esperança é a última que morre, Rúbia, e dessa vez eu estou com muita esperança… – Belinda desviou o olhar para olhar os rapazes que se aproximavam.
— Rubi… – Juarez disse evitando olhar para Belinda – Acho que devemos voltar, suas irmãs devem estar preocupadas com nosso passeio…
— Claro… – Rúbia disse olhando para Belinda e dando uma singela e discreta piscadela, a mulher retribuiu com um sorriso – Mais uma vez, faço votos que vocês sejam muito felizes, parabéns pelo noivado!
— Grata, Rúbia… – Belinda respondeu por ela e pelo noivo e viu Juarez e Rúbia se afastar, daquela vez, era Juarez que tinha pressa em cada passo que dava.
— Rubi, todos olharam para nós quando você se aproximou da senhorita Santiago… – Juarez dizia com medo dos comentários que deveriam ter surgido.
— Belinda é uma mulher adorável, Juarez, devia estar feliz que ela conseguiu um noivo e está tão animada e esperançosa com esse casamento… – Rúbia dizia repreendendo o rapaz – Ela não tem culpa de carregar essa fama, ela só é um pouco azarada, mas temos que torcer para que dessa vez dê tudo certo, não acha?
— Claro, Rubi… – Juarez tinha uma grande paixão por Rúbia, capaz de fazê-lo ficar de joelhos por ela, caso ela mandasse – Me desculpe, eu só fiquei apreensivo…
— Nada vai te acontecer, você não é o noivo de Belinda Santiago… – os dois se aproximavam da tenda de piquenique da família de Rúbia.
— Sobre isso… – Juarez disse andando um pouco mais devagar – Eu gostaria de falar com você sobre isso, Rúbia… – ele respirava ofegante.
— Sobre isso, o quê? – Rúbia tinha uma vaga ideia do que se tratava, mas preferiu se fazer de desentendida.
— Pedi sua mão a Zenon e a seu pai… – ele sorria tímido – Eu não aguentei esperar até o jantar… – ele disse vendo Alma e Evita o repreender com o olhar, as duas tinham escutado a última parte da conversa.
— Não é maravilhoso, Rúbia?! – Alma falava animada.
— Claro que, essa noite eu vou oficializar o pedido, mas gostaria que já soubesse… – Juarez se apressou em dizer – O que me diz? – Rúbia estava parada como uma estátua, novamente, não tinha nada a dizer para o rapaz. Por dentro, ela estava em prantos – Não se preocupe, não vamos casar às pressas, eu ainda quero cortejá-la o tempo que for preciso…
— Não estou me sentindo bem… – Rúbia disse se afastando de Juarez.
— Rubi, o que houve?! – Evita se aproximou da irmã que estava mais branca que o normal.
— Deve ser o calor, vamos levá-la para casa, ela descansa e se apronta para o grande jantar! – Alma segurava o braço da irmã e se despediu de Juarez com um aceno de mão.
Juarez era frequentador da casa de Rúbia por causa de seu irmão mais velho, Zenon. Todos tratavam o rapaz como sendo um membro a mais na família, Rúbia gostava da companhia dele, mas apenas porque o considerava como um segundo irmão mais velho. Todos os jantares que Juarez participou com a família, foram puramente informais. A diferença de idade entre ele e Rúbia facilitava no distanciamento que os dois sempre tiveram, mas isso nunca impediu de Juarez observar Rúbia com encantamento, mesmo a garota sendo quase sete anos mais nova.
Quando criança, Juarez gostava de participar de todas as brincadeiras dos irmãos Hernandez, tinha uma boa amizade com Alma e sempre brincava como podia com Rúbia. Com o passar dos anos e as meninas ficando mais velhas, assim como ele e Zenon, Juarez passou a olhar Rúbia com olhos diversificados, começou a perceber que sentia uma atração pela adolescente, mas cortejá-la estava ainda muito fora de sua realidade, tanto pela idade dos dois, quanto por sua amizade com Zenon.
Alma foi a primeira daquela nova geração da família Hernandez que participou da temporada social com seus quase 20 anos. Foi um sucesso como já era esperado, Alma era uma das mais belas das irmãs. Evita foi a segunda a entrar para a temporada, também obteve o sucesso desejado. Ambas, Alma e Evita, casaram-se com rapazes um pouco mais velhos que Zenon, mas que zelavam muito pelas duas e demonstraram muito afeto. Alma tinha uma menina pequena que ficou na mansão que morava com seu marido, sob os cuidados de empregadas enquanto ela participava da temporada social de sua irmã. Evita tinha dois meninos, gêmeos, também estavam sendo cuidados por amas e empregadas para que ela também ajudasse Rúbia em sua primeira temporada.
Era a vez de Rúbia de se casar e a família já via que o sucesso estava assegurado. Juarez era o pretendente dos sonhos para a família Hernandez e isso coincidia de Rúbia seguir a tradição de se casar logo em sua primeira temporada de casamentos. Juarez havia sido paciente em esperar por Rúbia e a família não poderia estar mais encantada com aquele gesto. Rúbia ao chegar em casa subiu para seu quarto e se trancou no mesmo, caiu no chão e chorou desesperada. Só podia ser um pesadelo, pensava ela, mas a realidade batia a sua porta e sua mãe também.
— Querida? – a mulher tentava abrir a porta e via que estava trancada – Rubi, abra a porta, vamos te arrumar para o jantar. – com o silêncio que se seguiu, a mãe da menina se preocupou ainda mais. Tinha sido informada que Rúbia retornou para a casa com suas irmãs e estava passando mal, talvez devido a um misto de emoções e o calor que se seguiu. A não reposta de Rúbia era um alarmante – Rúbia abra a porta. – a mulher chamou mais uma vez e estava prestes a pedir ajuda quando ouviu a chave virando e Rúbia abrindo a porta com cautela – Por Deus! Eu pensei que tinha acontecido alguma coisa! – ela olhou para a menina que tinha os olhos inchados – Rubi, querida, o que houve?!
— Estou indisposta, posso ficar no meu quarto? – Rúbia tentava, mas sabia qual seria a resposta de sua mãe.
— Mas hoje é um dia especial, Rubi! Claro que não pode! Vou mandar preparar um bom chá para você, um bom banho e logo estará renovada! – a mãe nem esperou resposta de Rúbia, saiu do quarto apressada e logo em seguida, Alma e Evita entraram.
— Antes de tudo, vimos que estava caminhando com Belinda Santiago hoje no parque… – Evita mal entrou no recinto e já começou um possível sermão.
— Fui parabenizá-la pelo noivado. – Rúbia disse derrotada.
— Não é bom andar com ela, minha irmã, sabe que as pessoas falam… – Alma se sentou na cama de Rúbia.
— Alma, está fazendo de novo… – Rúbia riu ao ver Alma fazer seu ritual de três tapinhas na boca – E Belinda é uma pessoa legal, deveriam dar uma chance a ela, tinha que ver como ela está empolgada que conseguiu um noivo, imagina, toda essa fama e ninguém mais querer casar com você? Pelo menos ela tem um noivo.
— Você é uma boa pessoa, Rubi… – Evita disse sorrindo para a irmã – Bom, as pessoas comentam, seria bom se manter afastada, só estou dizendo…
— Que comentem, eu não dou a mínima. – Rúbia deitou no colchão – O que vocês querem para convencer a mamãe que estou indisposta?
— Não vamos fazer isso, viemos te aprontar, hoje é seu jantar de noivado! – Alma disse achando graça daquela situação.
— Vocês estão adorando isso, não é? Mas eu não quero me casar com Juarez! – Rúbia se exaltou.
— E por que não? Ele é gentil, é nosso amigo, te esperou todos esses anos… – Evita enumerava as qualidades do rapaz.
— Ele é como um irmão e eu não sinto nada por ele, nada!
— Nem mesmo amizade? – Alma perguntou receosa.
— Que amizade, Alma? Ele sempre foi mais velho que eu, se brincamos juntos eu nem me recordo, ele é amigo de Zenon e seu, talvez…
— Ele é amigo de todos da família e você, querida irmã, adorava brincar com ele quando éramos mais novos. – Alma estranhava o humor de Rúbia.
— Que inferno. – Rúbia disse se levantando, deixando Alma e Evita perplexa com a escolha de palavras – Vamos logo me aprontar, antes que eu me jogue da janela.
— Rubi, o que está acontecendo?! – Evita se preocupou – Está para entrar em seu período? – Rúbia preferiu não responder e aceitou a ajuda das irmãs para se aprontar para o grande evento da noite.
No dia seguinte, o recente noivado de Belinda foi deixado um pouco de lado para que a cidade celebrasse mais uma temporada de sucesso na casa da família Hernandez. Rúbia e Juarez eram os alvos dos comentários da região. Os dois passearam no parque na manhã seguinte e foram abordados inúmeras vezes com parabenizações das pessoas. Juarez estava radiante e Rúbia tentava não demonstrar tanto seu profundo desespero.
— Rúbia… – uma voz chamou atenção da garota que se virou já sabendo quem era. Juarez gelou ao ver Belinda se aproximar com Carlos.
— Belinda! – Rúbia sorriu ao ver a mulher.
— Viemos fazer o mesmo que fizeram conosco… Faço votos de que sejam muito felizes! – Belinda disse olhando para Juarez que forçou o sorriso.
— Grata… – Rúbia disse por educação.
— E vim te fazer um convite… – Belinda olhou para Carlos que se aproximou de Juarez para que as duas pudessem caminhar a sós por uns momentos – Não é de seu conhecimento, mas a rainha fornece um jantar para as moças que noivaram na temporada, tem sempre, e eu já fui a alguns… – Belinda sorriu triste – Creio que receberá o convite em breve, mas vim confirmar se gostaria de ir…
— Um jantar só para as mulheres? – Rúbia perguntou.
— Sim, como uma festa, para aproveitarmos assim como os homens aproveitam suas últimas noites de solteiros, entende? Eu já fui a algumas, posso te dizer que é diferente de tudo o que você deve imaginar, mas esse ano eu ficarei ainda mais feliz se você estiver lá… Ter um rosto amigo vai ser bom para se safar dos comentários…
— Diferente como? – Rúbia perguntou desconfiada e animada.
— Bom, você só vai saber se for… Todas nós, noivas, quando aceitamos ir, entramos nesse trato com a rainha de nunca comentar o que acontece nesses jantares, eu tenho uma responsabilidade um pouco maior, se é que me entende…
— Estou curiosíssima para saber o que acontece nesse jantar…
— Nada de muito ousado, mas com certeza vai te dar um gostinho de querer mais…
— Vou aguardar meu convite então, já sabe quando vai ser? – Rúbia sorria para Belinda que sorria de volta.
— São três jantares durante a temporada, um no começo para pessoas como nós, recém-noivas ainda na primavera, outro para as que noivarem durante o verão e um terceiro para todas as noivas da temporada, mas não se esqueça, temos esse pacto de silêncio, o convite vai te esclarecer tudo…
— Não sei se fico feliz com isso, ou preocupada…
— Feliz! – Belinda disse rindo – Bom, depois do meu primeiro jantar, na primeira temporada, esse vai ser o que eu provavelmente vou ficar mais feliz de ir… Vou ter uma amiga lá… – Rúbia corou.
— Todas as mulheres casadas sabem disso?! – Rúbia percebeu que suas irmãs e sua mãe sabiam daquilo e jamais comentaram.
— Todas desde que Guadalupe é a Rainha, mas é como eu disse, temos esse voto de silêncio, a rainha pode ser perversa com aquela que contar para quem não deve sobre esses jantares, e não subestime a rainha Guadalupe, Rúbia, ela vai saber quem contou e a quem…
— Está bem… – Rúbia estremeceu – Vou aguardar o convite, já tem o seu?
— Recebi esta manhã, a rainha é rápida! – elas riram e viram seus noivos se aproximarem – Mais uma vez, parabéns pelo noivado…
— É… – Rúbia ficou séria por uns instantes.
— Não está feliz? – Belinda perguntou baixo, os rapazes já estavam mais perto.
— Melhor conversarmos sobre isso outra hora… Obrigada pelas felicitações, Belinda… – Belinda analisava Rúbia com o olhar e concordou com a cabeça.
— Vamos, querido, creio que o sol está muito forte… – Belinda segurou no braço de Carlos que sempre a olhava como se olhasse para um grande prêmio.
— E então, estão conversando como se fossem grandes amigas… – Juarez disse depois que o casal se afastou.
— E somos amigas, Juarez, eu já te disse que não devemos ter medo de Belinda, ela não tem culpa da fama que carrega e, não creio que preciso te lembrar que você não é o noivo dela. – Rúbia caminhava com Juarez na direção oposta à Carlos e Belinda.
— Está certa… – ele olhou para a garota sorrindo com ternura – Sou o homem mais feliz do mundo por ter você como minha noiva, agora oficialmente… – Rúbia desviou o olhar do de Juarez, se impacientava com aquela conversa.
A Rainha Guadalupe não tardava em saber as recentes notícias de seu povo, principalmente na temporada social. Todas as moças que noivaram, no dia seguinte ao pedido, recebiam um convite especial para um jantar no palácio. Belinda, depois de sua primeira temporada desastrosa, sempre recebia o convite com um lembrete enfático de que ela jamais poderia falar com mais ninguém a respeito dos jantares, todo ano era o mesmo lembrete e a mulher obedecia com sua vida. Rúbia recebeu seu convite especial na manhã seguinte ao seu primeiro dia como uma noiva.
O envelope era grande e dourado com um papel ainda mais bonito e uma caligrafia impecável da Rainha.
“Querida senhorita Hernandez, fico feliz em saber de seu noivado, sua família tem uma longa tradição com as moças em idades para se casar e vejo que você não a quebrou. Conseguiu um belíssimo e exemplar noivo e, por meio deste convite, faço minhas felicitações por uma vida conjugal feliz.
Para que desfrute dos últimos dias como uma moça solteira, ofereço a você e a todas as outras noivas dessa temporada, um jantar especial em meu palácio. A entrada será permitida apenas para a senhorita, peço descrição quanto a esse jantar. Ao final da temporada, farei outro evento como este, caso não esteja casada até lá, adoraria recebê-la para mais uma noite antes de seu formoso casamento.
O jantar será neste sábado, às 20h, uma carruagem real irá buscá-la.
Rainha Guadalupe I”
Rúbia lia o convite ainda na entrada da casa. Ao se virar para ir ao seu quarto, viu Alma e Evita olhando para ela com sorrisos cúmplices. As três subiram para o quarto de Rúbia e tentavam conter os risinhos histéricos.
— Recebeu o convite da rainha? – Evita perguntou fechando a porta do quarto.
— O que acontece nesse jantar para vocês estarem tão segredadas e absurdamente animadas? – Rúbia perguntou fingindo que não havia sido informada sobre nada do jantar anteriormente.
— É um jantar diferente, querida irmã, não podemos comentar sobre ele, você descobrirá por si só… – Alma disse sorrindo – Estaremos acordadas quando voltar, caso precise de alguma ajuda…
— Que tipo de ajuda eu iria precisar após um jantar no palácio? – Rúbia tentava decifrar alguma coisa.
— Saberá caso precise… – Evita disse rindo baixinho – Vamos te ajudar a escolher um belo vestido, como o convite é apenas para as noivas da temporada, a rainha manda um cocheiro para cada.
— Um cocheiro do palácio para buscar as moças? – Rúbia perguntou confusa.
— Sim, para que haja ainda mais descrição, o empregado do palácio que descumprir as regras da rainha, pode dar adeus ao emprego… – Alma disse sorrindo.
— Ou à vida… – Evita falou e riu, colocando logo em seguida a mão na boca como fazia Alma.
— Não podem me dar uma dica do que acontece nesse jantar? – Rúbia implorava.
— Descrição acima de tudo minha irmã, você verá em poucos dias… – Evita disse olhando conivente para Alma.
Parecia que os dias daquela semana custaram a passar. Quanto mais Rúbia ansiava pelo famoso jantar no palácio, mais se tinha a impressão de que o tempo passava lentamente, mas enfim, havia chegado o dia. Rúbia não estava ansiosa por estar noiva de Juarez, não estava sequer feliz, mas saber daquele evento secreto era como uma luz no fim do túnel, talvez ela se divertisse um pouco antes de “ir para o abate”, como ela costumava falar sobre seu casamento, que mesmo sem uma data marcada, se aproximava.
— Rúbia, promete me contar o que acontece nesses jantares com a rainha? – Javier falava na sala enquanto a família ansiava pela carruagem real que buscaria a menina.
— É só um jantar, Javi, e lá, podemos conversar sobre assuntos de mulheres sem que vocês nos interrompam… – Alma disse, mas por dentro ria.
— Eu jamais vou acreditar que é só um jantar… – Javier disse olhando para Zenon.
— Tenho certeza que deve ser chato e exaustivo… – Zenon disse sorrindo.
— Um dia eu vou poder participar desse jantar? – Dulce perguntou baixo, ainda não tinha digerido totalmente o fato de Juarez preferir esperar por Rúbia e não por ela, Dulce estava triste com aquele acontecimento, só não estava mais infeliz que Rúbia.
— Na sua temporada, quando arranjar um noivo, é claro que vai ser convidada, querida… – a mãe dos jovens disse sorrindo, ela também tinha vivenciado o jantar da rainha Guadalupe, ambas, na época, tinham a mesma idade, a rainha tinha acabado de ser coroada e de se casar com o rei, começou a tradição dos jantares ainda naquela temporada social que a senhora Hernandez participou.
— Senhorita Rúbia, a carruagem chegou! – uma das amas da casa entrou na sala correndo para dar a notícia. Rúbia respirava ofegante por conta do espartilho e da ansiedade, se despediu da família e entrou no coche que a levaria para o palácio.
O palácio era tão grande que cabiam nele muitos salões para diferentes festas. O baile inaugural da temporada aconteceu no salão principal, mas o jantar oferecido pela rainha às noivas da temporada seria em um lugar mais isolado do castelo, onde elas poderiam ficar mais à vontade.
Rúbia entrou no salão privativo que se realizaria o jantar, algumas moças já estavam lá, conversavam animadas e todas tinham uma taça na mão. A menina correu os olhos por todo aquele salão decorado com flores em cada mesa, cortinas fechadas nas janelas e uma mulher que tocava uma melodia suave no piano ao fundo do ambiente, à procura de Belinda, até que a avistou em um canto, sendo rodeada por algumas meninas que certamente queriam saber tudo sobre sua vida.
— Rúbia! – Belinda a avistou de volta e caminhou tranquilamente para perto de Rúbia – Que bom que veio… – Belinda chamou um dos empregados que carregavam bandejas com taças, pegou uma e entregou para Rúbia que olhou para o copo com dúvidas.
— O que tem aqui? – a menina perguntou receosa.
— O que os rapazes vivem bebendo… – Belinda sorriu cúmplice – A noite está só começando, venha, vamos nos sentar por hora… – Rúbia acompanhou Belinda e deu um gole na bebida que desceu rasgando sua garganta, mas ao mesmo tempo, a energizava de uma forma boa.
— O que de fato acontece nesses jantares, Belinda? – Rúbia perguntou se sentando.
— Bom, temos o jantar, nos oferecem bebidas à vontade, as músicas ficam mais animadas e você se diverte como bem entender… – Belinda ria da expressão de Rúbia.
— E como seria essa diversão?
— Já vi moças se soltarem nas danças, algumas extrapolarem o limite de bebidas, já vi muitas passando mal e sendo levadas para casa, já vi de tudo… – Belinda olhava atenta para Rúbia – Mas me conte, não está feliz com o casamento? – Rúbia ficou séria – O que acontece no jantar fica no jantar Rúbia, mas você pode confiar em mim, sei manter segredos.
— Não… – Rúbia disse depois de respirar fundo – Eu não quero casar…
— Mas é o seu noivo? Há algo nele que você não suporte?
— Eu não suporto ele! – Rúbia disse irritada – Ele é perfeito demais, mas eu simplesmente não quero casar com ele ou com qualquer outro homem. Eu queria ser você, não se casa, seus noivos morrem ou somem.
— É um desejo muito assustador para você ter, Rúbia, te garanto que nenhuma outra jovem aqui iria sequer pensar em desejar ser eu… – Belinda ficou séria – E quanto às fatalidades, é ainda pior saber que pensa assim…
— Me expressei mal… – Rúbia tentou se corrigir – Eu não quero esse casamento, Belinda, se algo acontecesse com Juarez eu acho que ficaria até aliviada…
— Rúbia! – Belinda a olhou espantada – Não é a primeira vez que fala assim, devo me preocupar mais do que já estou preocupada?
— Claro que não… – Rúbia tomou outro gole da bebida e fez uma careta ao engolir – Mas eu não retiro o que eu disse sobre você ser uma pessoa sortuda, Belinda, eu sei que são fatalidades e que isso te gerou uma fama, mas eu aceitaria essa fama se isso significasse que eu não precisasse casar. Infelizmente não é a minha realidade…
— Melhor que não seja, Rúbia, eu sei o que escuto e nem sempre são coisas boas… – Belinda disse olhando para o salão – Veja, vão servir o jantar e logo mais a festa muda de ritmo…
— Me diga uma coisa com sinceridade? – Rúbia perguntou depois de finalizar a bebida em sua taça.
— Claro, Rúbia! – Belinda respondeu sorrindo.
— Você realmente quer se casar? Você realmente sente essa euforia toda? Me diga com sinceridade…
— Eu já te disse… – Belinda abaixou os olhos para sua taça – Vai ser um alívio os mexericos pararem…
— Mas isso não responde a pergunta que te fiz… – Belinda olhou nos olhos de Rúbia e os analisou, assim como a garota analisava de volta.
— Rúbia, vivemos em um mundo que pouco importa nossas vontades, temos deveres como mulheres, e devemos cumpri-los… – Belinda segurou na mão de Rúbia por cima da mesa, a garota olhou surpresa para aquele gesto – Te considero minha amiga e como tal, te faço um outro convite…
— Que convite? – Rúbia disse quase sem voz depois do gesto de Belinda.
— Bom, esse jantar é divertido até certo ponto, mas conheço um lugar que é um pouco mais animado, se disser que aceita ir comigo, vamos logo que terminarmos de comer…
— Que lugar é esse?
— Bom, eu me considero uma amiga da rainha, depois da minha terceira temporada e ela ainda me chama para esses jantares quer dizer alguma coisa, não é? – Belinda riu, ainda tinha sua mão sobre a mão de Rúbia – Ela me apresentou uma vez esse lugar e eu creio que se você mantiver total silêncio, posso te levar para se divertir ainda mais como uma moça solteira, antes do grande dia…
— Não sei… – Rúbia disse apreensiva, ainda olhava para a mão de Belinda.
— Se não gostar, voltamos para casa na mesma hora, mas acho que você merece essas diversões, pelo menos para se distrair…
— Está bem… – Rúbia disse baixo, Belinda soltou a mão da menina e se ajeitou na cadeira, o jantar seria servido.
A Rainha apareceu para a hora da grande ceia e ficaria naquele salão até estar satisfeita com a interação das recém-noivas da temporada. Se a festa estivesse muito parada, a Rainha sairia do aposento, mas isso não impediria que as moças aproveitassem um pouco mais do inusitado jantar, e muitas aproveitavam como bem entendiam.
Rúbia e Belinda permaneceram na mesa que estavam conversando, mais taças de bebidas foram levadas a ela e enquanto Belinda bebia vagarosamente, Rúbia quase entornava as taças como se bebesse água, o que fazia Belinda rir da situação e pedir para que a amiga maneirasse um pouco.
Acabado o jantar, a festa recebia uma nova melodia e um novo e agitado ritmo para as músicas, não demorou muito para que uma das moças, já estava bastante alterada pelas bebidas, se levantasse e começasse a dançar, sendo seguida por outras noivas naquele salão.
— Se quiser, podemos ir agora… – Belinda disse chamando a atenção de Rúbia que estava surpresa e ao mesmo tempo encantada com como a festa havia se transformado, assim como as moças.
— Está bem… – Rúbia disse sorrindo, se sentia mais solta, se sentia mais tranquila, a bebida tinha um efeito rápido em seu organismo.
Belinda se levantou e Rúbia a acompanhou para a ala das carruagens.
— Entre, vou dizer ao cocheiro aonde iremos… – Belinda disse ajudando Rúbia a subir para a cabine, foi falar com o rapaz e também entrou no coche – Ele será discreto, já está habituado a esses jantares… – ela disse sorrindo e viu Rúbia olhando pela janela da cabine.
— Você é uma boa amiga, Belinda… – Rúbia disse voltando seu olhar para a mulher a sua frente – Me prometa uma coisa?
— Se estiver ao meu alcance… – ela respondeu sorrindo.
— Mesmo depois de casadas, promete manter nosso vínculo de amizade? Acho que vai ser bom para nós duas… – Rúbia pedia também com o olhar.
— É claro que sim, Rúbia, está prometido!
— Mesmo se… – ela parou de falar.
— Mesmo se eu não me casar? Era isso que ia dizer? – Rúbia ficou em silêncio – Bom, eu espero casar, mas mesmo se isso não acontecer, eu prometo manter nossa amizade… – o resto do passeio se seguiu em silêncio entre as duas, até que minutos depois o cocheiro parou a carruagem e bateu na porta da cabine para avisar que haviam chegado ao destino informado por Belinda – Bom, chegamos… – Belinda desceu primeiro e ajudou Rúbia em seguida – Peço que fique por perto, não sabemos que horas iremos precisar de seu serviço… – ela disse ao cocheiro.
Rúbia observava o lugar em que estava, não era familiar, pelo menos não se lembrava daquela rua quando o dia estava claro. Ao final do lugar, havia uma porta aberta de onde uma luz saía e com ela uma música agitada.
— Onde estamos? – Rúbia disse sendo puxada pela mão por Belinda.
— É uma casa de uma conhecida da rainha que dá espetaculares festas… – Belinda disse calmamente e olhou para Rúbia com os olhos arregalados à medida que se aproximavam da entrada – Já te disse, caso queria ir embora, nós iremos…
— Vamos entrar… – Rúbia estava curiosa.
As duas passaram pela porta e Rúbia se chocou logo ao entrar quando viu um casal se beijando. Nunca tinha presenciado um beijo como aquele, nem mesmo lido sobre. A casa estava cheia, pessoas de todos os tipos riam, conversavam e bebiam, bebiam muito, mais até que as noivas no jantar da rainha.
— Não se assuste, alguns vêm aqui para se sentirem um pouco livres da realidade que os cercam… – Belinda ainda segurava a mão de Rúbia e as duas andavam pelos corredores da casa abarrotada de gente.
— Oh meu Deus! – Rúbia disse horrorizada ao ver, em um dos cômodos da casa, duas mulheres trocando carícias.
— Se quiser, podemos ir embora, Rúbia… – Belinda disse preocupada – Mas aqui tem uma boa música, podemos ficar no jardim conversando…
— Está bem… – Rúbia disse ainda olhando para as mulheres no cômodo.
— Tome, acho que mais uma taça vai te fazer bem, mas só mais uma, certo? – Belinda ofereceu uma taça de bebida para Rúbia que aceitou e tomou tudo na mesma hora – Calma… – Belinda riu.
— Me dê mais uma, por favor. – Rúbia pediu.
— Rúbia, não sei se seria bom você beber tanto…
— Por favor, é uma festa ou não é? – ela a encarou por alguns segundos e Belinda respirou derrotada.
As duas foram para o jardim na parte de trás da casa, alguns convidados estavam lá conversando e descontraindo. Não passou despercebido pelos olhos de Rúbia que mais casais estavam se sentindo completamente à vontade naquele ambiente, e isso fez a menina beber mais uma taça.
— A vida de casada podia ser assim, não acha? Mas melhor que isso, viver a solteirice curtindo essas festas é melhor ainda… – Rúbia disse com a voz um pouco enrolada.
— Para tudo se tem limites, Rúbia… – Belinda ria do comentário da amiga, as duas estavam sentadas em cadeiras, observando a movimentação da festa na parte externa.
— Você é que devia aproveitar mais, nunca se sabe quando vai casar ou não, se eu fosse você, jamais iria querer deixar essa vida… – Rúbia tossiu embriagada – Como fazer pra ter sua fama, Belinda? Me diz, eu imploro…
— Bom, é simples, seu noivo precisa ser imprudente e se meter em uma confusão fatal, te abandonar às vésperas do casamento ou ser tão velho que morrerá ainda dormindo… – Belinda se divertia com Rúbia – Acho que é melhor irmos, você está bem alterada, Rúbia.
— Não, eu estou bem. – Rúbia afastou a taça de Belinda assim que viu que a amiga iria pegar de sua mão – Eu daria tudo para ter sua sorte com essas fatalidades de noivos…
— Não sabe o que está dizendo. – Belinda disse olhando séria para Rúbia.
— Sei, sei muito bem, eu daria qualquer coisa por isso. Juarez me abandonar, Juarez morrer, pouco importa, eu só não quero casar.
— Que bom que não se lembrará de nada manhã. – Belinda disse olhando ao redor – Venha, Rúbia, vou te levar para casa… – a mulher passou a mão no rosto de Rúbia que fechou os olhos e sorriu.
— Fiquei surpresa de ver aquelas mulheres, mas sabe… – Rúbia disse abrindo os olhos – Elas pareciam felizes…
— Deviam estar… – Belinda sorriu e segurou a mão de Rúbia a puxando para se levantar.
— Eu me sinto feliz com sua presença, Belinda… – Rúbia quase tropeçou ao se levantar, deu uma risadinha de sua incapacidade de se manter em uma linha reta.
— Fico lisonjeada, Rúbia, mas vamos, você precisa de uma boa noite de descanso… – as duas voltaram ao interior da casa cuja festa só se agitava mais ainda. Rúbia presenciou mais momentos íntimos de diversos casais, mas não conseguia comentar, estava tonta, embriagada, Belinda a ajudava a se locomover e levou a amiga com cuidado até a carruagem, a acompanhou também até a casa da família Hernandez, viu que Alma e Evita estavam na porta com sorrisos cúmplices e sabia que elas saberiam cuidar bem da irmã. Ajudou Rúbia a descer da carruagem e logo voltou para o coche.
— Para onde, senhorita? – o cocheiro perguntou sorrindo um tanto malicioso.
— Vamos aproveitar aquela festa, Gomez… – Belinda entrou na carruagem que refez seu caminho até a casa que ela estava há pouco com Rúbia, daquela vez, o cocheiro a acompanhou.
