Parte 2

Os dias seguintes ao jantar da rainha, seguiram costumeiros para a temporada. Era de praxe que Rúbia estivesse sempre acompanhada de seu, então, noivo. Não era algo que ela estava gostando de fazer, cada vez mais perto de Juarez, mais ela se sentia desesperada, mas ela não podia fazer nada, estava fadada àquele destino e deveria aceitar.

Em mais um passeio pelas ruas da cidade com suas irmãs, Rúbia avistou Belinda caminhando em sua direção, as duas não tinham se visto depois do jantar, Rúbia tinha acordado com dor de cabeça e os efeitos de ter extravasado tudo na bebida foram um tanto drásticos para a garota que não tinha costume de beber. Ficou acamada recebendo ajuda e risadinhas cúmplices de suas irmãs mais velhas, depois disso, sua rotina estava de volta ao normal: ser cortejada por Juarez e tentar demonstrar algum sentimento com aquilo que não fosse desânimo.

— Boa tarde, queridas! – Belinda tinha o costume de chamar a todos de queridos, Rúbia adorava aquele jeito nela, dava um ar mais superior àquela mulher.

— Boa tarde, Belinda! – Rúbia foi a única naquele encontro que respondeu Belinda com animação.

— Boa tarde, senhorita Santiago… – Alma e Evita disseram juntas um tanto apreensivas. Tinha agradecido a preocupação de Belinda na noite do jantar, gostaram de ver que a mulher fez questão de levar Rúbia para casa, já que ela não estava bem, mas a fama dela falava mais alto.

— Bom, já ficaram sabendo da última novidade? – Belinda dizia sempre olhando para Rúbia com um sorriso no rosto.

— O próximo baile? – Evita tentou adivinhar, o próximo baile se aproximava, mas daquela vez, Rúbia estaria presente apenas por formalidade, já tinha arranjado seu pretendente ideal.

— Também, mas essa novidade é um tanto quanto… – ela fez uma pausa para captar atenção de todas – Inesperada…

— Pois diga logo! – Rúbia não se aguentava de curiosidade.

— Bom, não seria fazer mexerico, até porque acredito que todos na cidade já devem estar sabendo a essa hora… – Belinda falava – Carmen vai casar ao final da próxima semana…

— Carmen? – Alma perguntou tentando associar o nome à pessoa – Carmen Medina? – Belinda confirmou com a cabeça – Mas um casamento tão rápido? Ela noivou ainda semana passada…

— Pois é… – Belinda dizia sorrindo, deixou para que as outras tirassem suas próprias conclusões.

— Será que ela está… – Evita começou a dizer e logo parou.

— Está o quê? – Rúbia perguntou, mas suas irmãs não davam indícios de que responderiam.

— Grávida. – Belinda disse e percebeu os olhares repressores de Alma e Evita.

— Oh! – Rúbia ficou ainda mais surpresa.

— Bom, quem somos nós para falar da vida alheia, se ela vai casar, isso é ótimo, não temos nada que nos intrometer… – Alma disse já começando a caminhar para se afastar de Belinda.

— Está certa, Alma… – Belinda disse para a mulher com um tom de intimidade na voz.

— Vamos? Precisamos passar na costureira para ajustar seu vestido para o próximo baile… – Evita entendeu a intenção de Alma e se apressou em segui-la.

— Vamos… – Rúbia disse, mas esperou um pouco para acompanhá-las – Te vejo no baile? – ela perguntou baixo para Belinda.

— Claro, querida! – Belinda alargou o sorriso – Melhor você ir, já causei muito impacto… – as duas deram risadinhas.

— Até lá… – Rúbia disse e se postou a acompanhar as irmãs.

Pronta para ir ao mais recente baile da semana, Rúbia aguardava na sala de convivência da família com suas irmãs e irmãos. Ela não estava empolgada de ir ao baile com seu noivo, mas estava animada para rever Belinda. Desde o momento em que terminou de se aprontar, já planejava meios de escapar das danças por alguns minutos e ter um momento de conversa com a senhorita Santiago. Elas teriam muito o que falar, principalmente sobre a festa em que foram, Rúbia se lembrava de algumas coisas.

— Trago notícias do senhor Juarez… – Telma, a empregada, entrou na sala com um bilhete na mão.

— Deixe-me ver. – Zenon se levantou para pegar o papel – Está um pouco adoentado e não poderá ir ao baile dessa noite… – ele disse lendo o que estava escrito na folhinha.

— Será que é grave? – a pergunta de Rúbia não foi de preocupação com o rapaz, no fundo tinha um tom esperançoso.

— Se ele mandou um bilhete, deve ser apenas uma moléstia, um resfriado… – Zenon conhecia seu amigo – Bom, não sei se seria prudente você ir ao baile sem seu noivo, Rubi…

— Mas já estou pronta e arrumada! – Rúbia queria ir ao baile, principalmente porque não teria que inventar desculpas para Juarez.

— Mas seu noivo não estará lá, não é correto que dance com outros rapazes, você não precisa de mais pretendentes. – Zenon falava sério.

— Mas não dançarei, eu prometo! – Rúbia quase se desesperava – Quero ir para ver as pessoas, conversar com minhas amigas que também estão noivas… – Alma e Evita se olharam, sabiam que “amigas” seriam – Por favor, Ze, você pode me acompanhar e se for necessário uma dança, você seria meu par, a menos que Javi queira me dar a honra…

— Tantas mulheres para eu dançar e terei que dançar com minha irmã? – Javier falava rindo.

— Está bem, podemos ir, mas nada de danças com outro rapaz que não seja eu e Javier. – Zenon disse e Rúbia se conteve para não pular de alegria – Vocês nos acompanham? – ele olhou para Alma e Evita.

— Sabe que nossos maridos chegam amanhã cedo, Ze… – Alma disse sorrindo – Com nossos pequenos… Melhor estarmos descansadas…

— Rúbia, talvez não seja bom você ir… – Evita falava preocupada com a aproximação que a menina estava tendo com Belinda.

— Ze já concordou, iremos, sim. – Rúbia disse decidida e se levantou da poltrona.

— Vamos, a carruagem nos aguarda… – Zenon disse e Javier acompanhou ele e a irmã mais nova.

O assunto daquele baile era referente à Carmen Medina e seu repentino casamento para a próxima semana. Muitos a olhavam de cima a baixo, parando os olhares na barriga da menina, tentando enxergar algum volume que indicasse que os boatos estavam corretos, mas nada conseguiam ver. Os comentários sobre Carmen eram tantos que nem quando Belinda apareceu, as pessoas deixaram de comentar. Para Belinda, aquilo era um alívio.

Rúbia viu que Javier estava tentando se aproximar de uma das moças da temporada para uma dança, reparou que Zenon estava conversando e rindo com outros amigos que também estavam no baile, aproveitou aquele momento para ir até Belinda, que já tinha a avistado.

— Ze, vou buscar algo para me refrescar… – ela disse para o irmão mais velho que concordou com a cabeça, estava tão entretido na conversa com os amigos que pouco se importava aonde Rúbia iria.

— Não vi seu noivo… – Belinda disse assim que as duas se encontravam a sós do lado externo do casarão em que o baile estava ocorrendo.

— Está adoentado… – Rúbia disse sorrindo.

— Está feliz com isso? – Belinda perguntou erguendo uma sobrancelha.

— Sabe que sim. – Rúbia foi direta – Belinda, sobre aquela festa…

— Podemos fingir que não houve festa… – Belinda se apressou em dizer.

— Como fazemos para ir a outra festa como aquela? – Rúbia viu a expressão no rosto de Belinda mudar para surpresa e confusão.

— Você está bem? – Belinda riu.

— Fiquei assustada com as coisas que vi, mas gostaria de voltar, gostaria de ir mais uma vez… – Rúbia corou, mas Belinda não perceberia por conta da baixa luminosidade – Você vai sempre? – Belinda sorriu.

— Eu vou para conversar com amigos que tenho lá, mas não é sempre… – ela desviou o olhar e viu um casal de longe entrando no jardim.

— É ela, não é? Carmen Medina? – Rúbia percebeu para onde Belinda olhava e conseguiu ver o casal também – Aquele não é o noivo dela…

— Não é… – Belinda voltou a olhar para Rúbia – Você passou bem depois que chegou em casa?

— Fiquei acamada o dia todo, com muita dor de cabeça… – Rúbia respondeu rindo.

— É normal, quem não está acostumado a beber tem esse efeito no dia seguinte…

— Já tinha visto aquilo? – Rúbia perguntou sem jeito – As mulheres naquela noite…

— Ficou impressionada, não é? Sabia que não deveria ter insistido para irmos à festa…

— Não! Na verdade eu fiquei impressionada, mas…

— Mas? – Belinda aguardou uma resposta.

— Nada… Seu noivo veio com você? – ela mudou de assunto.

— Carlos preferiu sair com os amigos, eu vim para ver você… – Belinda disse sorrindo – Precisava saber se estava bem…

— Eu vim pra te ver também, quase que Zenon não permitiu, já que o Juarez está doente, mas eu insisti…

— Faço votos para que ele melhore! – Belinda disse e viu Rúbia ficar séria.

— Tomara que não.

— Rúbia, você não cogita nem uma mínima possibilidade de aceitar que está noiva e vai casar? Sempre fala desse jeito como se torcesse para que algo acontecesse a ele…

— Você bem sabe que eu não quero casar.

— Isso eu sei, mas estaria disposta a quê para não casar? – Belinda a olhava séria.

— Como assim? Está perguntando se eu seria capaz de fazer alguma coisa?

— O jeito que você fala dá a entender que faria, dá a entender que espera que ele piore dessa moléstia… Leve em consideração que ele é amigo de sua família, vocês já tem um vínculo…

— Eu preferia que o vínculo que tenho com Juarez não passasse de ele ser o melhor amigo do meu irmão, mas ele colocou na cabeça que está apaixonado por mim, e eu não quero aceitar, Belinda, eu não quero casar. – Rúbia falava se exaltando de frustração – Por mim, se ele se envolvesse em uma briga, como foi com aquele seu noivo, e acabasse se ferindo gravemente, seria melhor.

— Meu Deus, Rúbia… – Belinda falou analisando a menina.

— Como faço para ir às festas daquele tipo? – Rúbia retornou ao assunto inicial.

— Para quê quer ir?

— Para me divertir, ora essa! – Rúbia riu, fazia parecer óbvio.

— Diversão é um conceito com muitas interpretações, não posso permitir que vá se for para voltar para casa como voltou naquela noite…

— Você não quer se divertir o quanto pode antes de se casar? – Rúbia indagou a mulher – Você sabe se divertir, não sabe? – Belinda tinha entendido o verdadeiro sentido da pergunta de Rúbia, a menina perguntou sorrindo e ao mesmo tempo curiosa.

— Acho melhor voltarmos para o baile antes que percebam nossa ausência, querida… – Belinda sorriu.

— Me leve a outra festa como aquela, por favor…

— Venha tomar um chá comigo amanhã, o que acha? – Rúbia revirou os olhos.

— Te peço uma festa e você me oferece um chá?

— Exatamente, querida, somos noivas, vamos nos casar, aquela festa foi apenas uma despedida de solteiro.

— Ainda não temos data para o casamento, ainda podemos aproveitar. – Rúbia falava esperando que Belinda se comovesse.

— Um chá, amanhã, está bem? Falarei com seu irmão se preciso for, sei a fama que carrego… – Belinda disse caminhando devagar para voltar ao baile.

— Tudo bem, um chá… – Rúbia disse derrotada e acompanhou a mulher.

Conhecendo sua própria fama, Belinda, ainda no baile, foi falar com Zenon sobre o chá que queria oferecer à Rúbia. Receoso, Zenon não queria deixar, mas percebeu que sua irmã estava empolgada, então permitiu aquele chá entre amigas. Rúbia não podia estar mais contente, ansiou para o chá da tarde seguinte como se estivesse esperando pelo dia de seu aniversário.

Uma carruagem parou na porta da casa de Rúbia na tarde seguinte. Alma, Evita e a mãe das meninas ainda não sabiam ao certo o que pensar sobre aquele simples evento, Alma era a que menos estava gostando da aproximação de Belinda com Rúbia, mas se Zenon havia permitido, ela não poderia fazer nada para impedir.

Apesar de aceitar ir para um chá com Belinda, Rúbia ainda ficou animada, iria conhecer a casa dos Santiago, talvez, e principalmente, passar uma tarde inteira conversando com a mulher que Rúbia já considerava sua grande amiga. Ela sabia onde ficava a casa dos Santiago e estranhou a carruagem a levar para um sentido oposto. Talvez, pensava ela, talvez Belinda não queira me oferecer um chá e sim ir a uma confeitaria.

A carruagem parou em um lugar pouco conhecido de Rúbia, ao abrir a porta, a menina viu que Belinda a esperava com um sorriso no rosto.

— Achei que tomaríamos chá em sua casa… – Rúbia disse descendo da cabine e olhando ao seu redor, tentando localizar em que parte da cidade estava.

— Rúbia, você me implorou uma festa… – Belinda sorriu conivente e Rúbia entendeu que “chá” era apenas uma desculpa.

— Não acredito que fui tão tola… – Rúbia deu uma risadinha – Mas, não deveríamos esperar o anoitecer?

— Venha comigo, querida… – Belinda segurou na mão de Rúbia que só soube concordar com a cabeça e se deixar ser puxada por Belinda para uma casa ao final da rua em que estavam.

— Como sabe desses lugares? – Rúbia perguntava no caminho.

— Sou amiga da Rainha, esqueceu?

— Quer dizer que é do conhecimento da Rainha que essas festas existem?

— E onde mais a Rainha iria poder se divertir como ela bem entende? – Belinda parou de frente à porta, segurava a mão de Rúbia e com a mão livre bateu na porta três vezes devagar.

— A Rainha está aqui? – Rúbia perguntou.

— É o que vamos descobrir, querida…

— Mas… Mas e se alguém descobrir?! – Rúbia tomou conta do risco que corria.

— A Rainha promove festas assim há anos, Rúbia, já ouviu falar de alguma? Ou algum escândalo que envolvia festas da Rainha? Até mesmo os jantares… – Rúbia pensava, sabia que a resposta para todas as perguntas seria “não”. A porta foi aberta por dentro e Belinda entrou, puxando delicadamente a mão de Rúbia.

A casa era grande, havia pessoas no mesmo estado que na festa anterior, mas daquela vez, Rúbia estava decidida a aproveitar como bem queria. Tentava deixar a expressão de surpresa que tinha ao ver beijos e carícias pelos corredores.

— Há um guarda real aqui dentro, isto quer dizer que a Rainha está aqui… – Belinda disse caminhando pela casa com Rúbia ao seu lado, ainda de mãos dadas.

— E onde ela está? O que está fazendo? – Rúbia tentava procurar pela Rainha Guadalupe em todos os cantos.

— Não saberemos tão cedo, Rúbia, venha, vamos nos sentar ali para conversarmos! – Belinda apontou para o sofá de uma sala grande.

— Há quanto tempo frequenta esses lugares? – Rúbia perguntou assim que as duas se sentaram.

— Bom, eu não frequento sempre, já te disse, vez ou outra eu saio para desfrutar de eventos diferentes de bailes de temporadas… Mas vou me casar, Rúbia, isso vai acabar, para ser sincera, eu frequentei alguma festas assim na minha terceira temporada, depois só compareci aos jantares da rainha e, bom, voltei a vir em festas assim agora… – Belinda falava olhando para as pessoas na sala.

— Posso te perguntar algo mais particular? – Rúbia falava perto de Belinda, usava um tom baixo e cauteloso.

— Claro, Rúbia! – Belinda sorriu.

— Você já… Beijou? Como algumas pessoas aqui estão se beijando? – Rúbia tinha acabado de avistar um casal com carícias mais íntimas na escada.

— Estaria mentindo se dissesse que não… – Belinda dizia serena – Bom, Rúbia, depois de algumas temporadas fracassadas, a gente acaba querendo saber como funcionam algumas coisas, como são outras realidades e principalmente, que outras realidades existem fora da temporada.

— E nunca pensou que poderia ficar ainda mais falada? – Rúbia se atentava aos detalhes dos riscos que Belinda corria.

— Rúbia, assim como no jantar, o que acontece em festas proporcionadas pela Rainha, permanece nas festas, ninguém aqui ousaria abrir a boca para falar qualquer coisa… Todos aqui estão correndo riscos e todos aqui sabem guardar segredos. – Belinda dizia segurando a mão de Rúbia.

— Acha que depois de casadas vamos conseguir vir a festas assim? Com a desculpa de que vamos tomar chá? – Rúbia riu corando.

— Podemos tentar, mas teremos muitas responsabilidades como mulheres casadas…

— Me diga a verdade, você não fica esperançosa de que algo aconteça com Carlos?

— Rúbia, eu estou ficando preocupada com sua obsessão… – Belinda disse afastando suas mãos das de Rúbia e olhando além da menina.

— A esperança é a última que morre, Belinda… – Rúbia disse e viu duas mulheres se beijando ao canto do cômodo – Já beijou outra mulher?

— Está tentada? – Belinda disse rindo.

— Claro que não, seria um grande pecado! – Rúbia parou de olhar as duas mulheres no recinto.

— Acha que elas vão para o inferno?

— Com certeza, não é? Mesmo elas parecendo… Felizes… – Rúbia voltou a olhar as duas, tinha olhos atentos na movimentação dos lábios das mulheres se beijando, como se quisesse captar cada detalhe caso um dia fosse beijar alguém. Não percebeu que Belinda tinha se aproximado muito dela e ao virar o rosto se deparou com a mulher muito próxima.

— Você está tentada… – Belinda disse vendo que Rúbia se assustou com a aproximação e riu.

— Bom, eu não sei, nunca beijei ninguém, diferente de você, só estou curiosa… – Rúbia disse vendo Belinda se afastar ainda rindo.

— Acho que já deu nosso tempo de “chá”… – Belinda fez aspas com os dedos – Devemos voltar…

— Nem aproveitamos a festa! – Rúbia se manifestava.

— Quer aproveitar de que jeito, Rúbia? – Belinda olhou para as mulheres ainda se beijando – Pecando?

— Não é para isso que essas festas servem? – Rúbia estava tentada.

— Não seria prudente da minha parte permitir que você faça o que não deve… Você precisa zelar sua reputação e honra, querida.

— E você zelou a sua?

— Bom, não sei se percebeu, Rúbia, a minha reputação não é das melhores… – Belinda sorriu e voltou a se aproximar do rosto de Rúbia que respirava um pouco acelerada – Vamos, devemos ir… – Belinda quase cochichava para a menina que sentiu uma ponta de frustração ao ver a senhorita Santiago se afastar mais uma vez, e logo se postar de pé.

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Passado o casamento de Carmen Medina, a cidade voltou ao seu foco original de comentar a vida de Belinda Santiago. Carlos Afonzo García estava esperando passar o casamento apressado de Carmen para dizer a todos que havia marcado a data de seu casamento. Ele contava a novidade aos amigos como se estivesse concluindo mais uma fase de sua audaciosa aventura, mal via a hora de ver o que aconteceria em seguida, se a maldição de Belinda era real ou se ele estaria preso de fato a um casamento que, no fundo, não tinha a intenção de realizar, apesar de considerar Belinda uma mulher lindíssima e um troféu a ser exibido quando tivesse que manter as aparências de um casamento perfeito.

Ao saber da novidade, Rúbia ficou pálida. O segundo matrimônio da temporada aconteceria em breve e era questão de tempo para que Juarez, já recuperado da moléstia, marcasse a data de seu casamento.

A cidade estava atenta, todos ficaram aguardando os dias seguintes para saber se, realmente, Belinda Santiago conseguiria se casar. A mulher, por sua vez, me mostrava animada e esperançosa, Rúbia acabou a encontrando na modista quando foi buscar um novo vestido.

— Rúbia! – Belinda estava de pé sobre uma plataforma, com os braços esticados para que a costureira tirasse as medidas certas.

— É seu vestido de noiva? – Rúbia perguntou um tanto triste olhando para o que Belinda vestia.

— Não é bonito? – Belinda disse olhando para o tecido em seu corpo – O que houve, querida? – Belinda perguntou vendo Rúbia entristecida e aproveitou que Alma estava afastada com sua filhinha.

— É lindo… – Rúbia disse – Que tal tomarmos um chá antes que você fique impossibilitada de sair por conta do casamento? – Belinda sorriu, entendendo a referência.

— Está bem, querida, um chá seria excelente, que tal neste sábado? Farei melhor, o que acha de um jantar em minha casa, adoraria que fosse, posso falar com Zenon para permitir…

— Um jantar? – Rúbia tentava encontrar as entrelinhas no olhar de Belinda.

— Enviarei o convite formalmente, está bem? – Belinda disse sorrindo, Rúbia ainda não sabia se era de fato um jantar ou se estava sendo inocente mais uma vez.

Com expectativas altas sobre um possível código para se referir à festa, Rúbia se aprontava em sua casa na tarde de sábado, aguardando ansiosa a carruagem que a levaria para a casa de Belinda Santiago, ou talvez, outro lugar.

— Bom, sabe o que penso dessa sua aproximação com Belinda Santiago, não é? – Alma falava sentada na cama de Rúbia enquanto via sua filha correndo pelo aposento.

— Devia estar feliz por ela, irmã… – Rúbia disse despreocupada.

— Ela convidou Juarez, pelo menos? Devia ter convidado seu noivo, se é um jantar para celebrar o casamento dela e vocês estão tão amigas assim, Juarez deveria ir, o que ele acha sobre isso?

— Ele permitiu que eu fosse. – Rúbia falava com um tom de impaciência na voz – Ontem, em nosso passeio matinal, comentei com ele sobre o jantar e ele permitiu.

— Permitiu porque ele faz absolutamente tudo o que você pede. – Alma falou a verdade – Mas eu sei que Juarez não se sente bem com sua amizade com Belinda.

— O que ela fez de errado, afinal? Está com mais rancor dela porque ela se casará com Carlos Afonzo? Queria que ele tivesse te cortejado na sua temporada, é esse o motivo da sua raiva de Belinda?! – Rúbia disse exaltada.

— Carlos cortejou Evita e eu estou muito bem com meu casamento, Rúbia. – Alma disse séria – Belinda Santiago tem má fama, ela teve seis noivos, sete com Carlos, não é uma boa companhia quando você está em sua primeira temporada, não traz boa sorte.

— Bata na boca, Alma, voltou a demonizar Belinda. – Rúbia disse e viu Alma tentada a fazer seu ritual, mas a mulher se conteve – Ela não tem culpa, agora se me dá licença, irei para um jantar agradabilíssimo com Belinda Santiago. – Rúbia disse se levantando da do assento da penteadeira e saindo do quarto.

Rúbia tinha um pouco de decepção estampada no rosto ao descer do coche e ver que estava na frente do casarão dos Santiago. Belinda a esperava no portão, sempre com o lindo sorriso no rosto. Rúbia caminhou até ela tentando se recompor do desapontamento que teve, pelo menos jantaria com Belinda, aquilo deveria bastar, ela pensava.

— Está linda, Rúbia! – Belinda disse convidando a menina a entrar.

— Igualmente, Belinda… – Rúbia disse acompanhando Belinda porta adentro – E Carlos? Nos acompanhará?

— Bom, eu o chamei, mas ele, depois que marcou a data do casamento, só quer saber de viver a vida o quanto pode, é triste ver que ele pensa que vai morrer… Eu, particularmente, espero que não… – Belinda levava Rúbia até a sala de convivência da casa.

— E seus pais? – Rúbia perguntou vendo a sala vazia.

— Descerão logo, estão se arrumando! – Belinda disse e viu no olhar de Rúbia que ela estava desiludida – Podemos conversar enquanto isso, as amas estão terminando o jantar, mas posso pedir para que alguém te traga algum refresco se quiser!

— Grata, mas estou bem… – Rúbia disse tentando se animar – Juarez tem me falado algumas indiretas depois que Carlos marcou a data para vocês…

— Indiretas de casar? – Belinda perguntou sorrindo.

— Sim, de marcar a data logo depois do seu… – o olhar de Rúbia se entristecia cada vez mais.

— Nem vou perguntar o que acha disso, sei suas ousadas respostas… – Belinda sorriu, tinha a cabeça apoiada em uma das mãos enquanto seu braço estava apoiado no encosto do sofá, ela parecia bem à vontade com Rúbia, assim como Rúbia se sentia à vontade com Belinda – Gostaria que fosse à cerimônia… – Belinda disse olhando para as almofadas no assento do sofá.

— Mesmo? – Rúbia perguntou um pouco mais animada.

— Sim, você é minha amiga Rúbia, gostaria da sua presença lá… – Belinda mantinha o olhar nas almofadas – Vamos jantar? – ela disse olhando para a porta e vendo que seus pais já estavam descendo para a ceia.

— E Carlos? – Rúbia perguntou.

— Bom, ele é pontual com os compromissos dele, se ele ainda não apareceu até agora, não aparecerá mais… – Belinda se levantou do sofá e ergueu a mão para Rúbia que aceitou a ajuda da amiga e todos se dirigiram para a sala de jantar para desfrutarem de uma bela refeição.

O maior pesadelo de Rúbia na temporada estava cada vez mais concreto. Juarez havia marcado a data para a cerimônia matrimonial, e para a surpresa da menina, seria ainda antes da de Belinda com Carlos. Estava cada vez mais perto do pior dia da vida Rúbia, ela estava desesperada, não queria mais sair para passear com Juarez, só queria ficar no quarto chorando suas mágoas. Alma, Evita, Zenon Javier, sua mãe e até mesmo a pequena Dulce não sabiam mais o que fazer, a menina vivia falando que estava indisposta, e todos na casa estavam preocupados.

A notícia do casamento de Rúbia chegou aos ouvidos de Belinda Santiago e a mulher já sabia como estaria o estado de espírito da jovem amiga. Mesmo sabendo que a família Hernandez não apreciava muito a amizade Belinda com Rúbia, eles permitiram uma visita da senhorita Santiago.

— Rúbia? – Belinda estava na casa da família Hernandez, Evita tinha levado a mulher até a porta do quarto de Rúbia, ela bateu à porta e chamou pela amiga – Rúbia, posso entrar? – ao ouvir a voz conhecida de Belinda, Rúbia se levantou apressadamente da cama e correu para abrir a porta – Querida, vim saber como está… – Belinda viu Evita se afastar no corredor e logo foi puxada por Rúbia para dentro do quarto, em seguida Rúbia fechou a porta.

— É o fim, não é? – Rúbia chorava e falava baixo, desconfiava que podiam estar escutando atrás das portas.

— Está tão devastada assim? – Belinda a analisava, as duas se sentaram na cama.

— Sabe que sim… – Rúbia tentava enxugar as lágrimas – Acabou, é o fim, ele goza de boa saúde, nem para adoecer direito ele serve!

— Rúbia! – Belinda chamou a atenção da garota – Está novamente desejando algo ruim para seu noivo só para não se casar.

— Eu faria qualquer coisa pra não me casar, eu faria qualquer coisa para ter sua sorte com fatalidades em casamentos. – Rúbia falava tão sério que Belinda hesitou alguns momentos para falar.

— Não diga isso porque pode se arrepender. Ao dizer coisas assim você diz que aceitaria até matar para não se casar. – Belinda também estava séria.

— Não me arrependeria, mataria se tivesse a capacidade. – Belinda olhava para Rúbia – Pode me dar um sermão, mas é a verdade, eu faria qualquer coisa, eu não quero casar, não com ele, não com nenhum rapaz, mas essa é a vida de uma mulher, e já que não posso mudar as regras, eu aceitaria fazer qualquer coisa para não casar.

— Está dizendo isso porque está com medo… – Belinda não estava tentando dar um sermão, estava analisando cada movimento do comportamento de Rúbia.

— Sim e não. Estou com medo, Belinda, mas se eu tivesse a capacidade, daria um jeito de não casar, sem arrependimentos. – Rúbia falava a verdade e Belinda notou aquilo no tom de voz da menina.

— O que sabe da minha vida, Rúbia? O que sabe dos meus noivados? – Belinda perguntou e Rúbia a olhou confusa.

— O que todos sabem, vários morreram e um fugiu. – Rúbia respondeu ainda sem entender o motivo da pergunta.

— Você faria qualquer coisa para não casar? – Belinda perguntou.

— Faria se pudesse. – Rúbia respondeu.

— Diego foi meu primeiro noivo, foi encontrado morto. – Belinda falava baixo – Dei uma garrafa de veneno para ele. – Rúbia arregalou os olhos, tentava entender se era uma brincadeira de Belinda – Ruan foi meu segundo, me chamou para um jantar e tentou arrancar minha roupa, o asfixiei com uma corda, depois escrevi a carta de suicídio e chamei ajuda para que tudo parecesse realmente um suicídio. – Rúbia abriu a boca, não sabia como reagir – Lorenzo não fugiu, está enterrado longe daqui, eu mesma abri a cova, mas tive que me preservar, então fiz criarem o boato que ele sumiu, ainda devem estar procurando por ele.

— Você está dizendo que… – Rúbia falava com a voz falhada.

— Cristian foi mais fácil, morreu sozinho de burrice e bebedeira. – Belinda continuou, seu olhar estava penetrante no de Rúbia, parecia mais escuro naquela hora – Não precisei sujar as mãos, os dois últimos foram muito fáceis, Costa só precisou de uma sopa envenenada para descansar na eternidade, não duraria mais muito tempo, assim como Marques, fui visitá-lo porque estava acamado, fingi preocupação com nossa cerimônia, pedi para ficar a sós com ele na intenção de fazer uma oração, os asfixiei com o travesseiro, depois foi só deixar as lágrimas rolarem de falso desespero.

— Você matou todos eles?! – Rúbia se afastou impulsivamente, sentia o olhar de Belinda, não sabia como reagir, olhou no fundo do preto dos olhos da mulher e viu que ela falava a verdade, Rúbia começou a respirar ofegante.

— Eu posso te ajudar com seu maior desejo, Rúbia, mas para isso você precisa estar decidida. – Belinda sorriu, não era um sorriso doce como os anteriores, era um tanto maléfico.

— Se matou todos… Carlos?! – Rúbia se deu conta de que Carlos seria mais uma vítima.

— Mal vejo a hora de dar a ele o que ele quer: a fase final de sua aventura. – Belinda mantinha o sorriso – E ele, mais do que ninguém, vai merecer o que o aguarda.

— E se eu contar a alguém? Se eu não mantiver seu segredo? Serei mais uma vítima? – Rúbia percebia onde estava se metendo.

— Rúbia, afirmou para mim tantas e tantas vezes que desejaria ver Juarez morto para não se casar, tenho certeza que precisa apenas de alguns dias para decidir o que fazer. – Belinda se levantou da cama – Eu te darei esses dias, querida, estou aqui para te ajudar no seu maior desejo, pense bem… – ela caminhou até o lado de Rúbia e calmamente depositou um beijo na bochecha da menina, no canto perto da boca rosada de Rúbia, logo depois se retirou do quarto.

Ainda sem saber como reagir, Rúbia ficou parada na cama, vários pensamentos passavam por sua cabeça, várias crises de consciência inundavam sua mente e várias incertezas se apossaram dos sentimentos da menina. A única certeza que ela tinha naquela hora era que Belinda não era quem ela pensava ser, era uma assassina, e para complementar seu desespero, Belinda poderia matar Rúbia caso a menina deixasse alguma coisa escapar.

Rúbia passou a madrugada em claro, andava de um lado para o outro no quarto, hora sentava na poltrona, hora se levantava para liberar sua inquietação, e então se deitava no grande colchão, fitava o teto do quarto e se deixava pensar nas possibilidades que teria agora que revelações haviam sido feitas.

Rúbia ficou pensando, tentando ligar todos os pontos, tudo o que dizia respeito aos noivos mortos de Belinda e as atitudes da mulher, àquela hora estava claro, Belinda fingia muito bem para os outros, mas, resgatando momentos com a mulher, finalmente percebeu todas as entrelinhas que ela, talvez propositalmente, deixava transparecer, os olhares desviados em todas as vezes que ela falava de sua felicidade e alívio com o casamento, até mesmo na hora de chamar a menina para a cerimônia com Carlos que definitivamente não aconteceria. Estava tudo às claras, Rúbia agora conseguia enxergar Belinda Santiago como ela realmente era, mas aquilo não significou alívio para a menina.

Mantendo sua desculpa de indisposição, Rúbia não saiu de casa, não saiu de seu quarto nos dois dias seguintes, não aceitou de nenhum jeito a visita de Juarez, afinal de contas, ela precisava tomar uma decisão com respeito à vida do rapaz. Reviu sua história com ele, em seus pensamentos avaliava todas as visitas de Juarez à casa, seja antes de crescerem, seja naquela temporada em que o rapaz se declarou para ela. Pensava em Zenon e Alma, os grandes amigos de Juarez, pensava na família de Juarez e quando estava se decidindo em enfrentar o que deveria enfrentar para poupar uma vida, logo Rúbia avaliava seu futuro, caso mantivesse o casamento que não queria. Rúbia estava cada vez mais dividida, mas seu tempo de decisão não duraria para sempre.

Bateram à porta do quarto da garota, uma das amas entrou com uma bandeja de desjejum, olhou para a menina com olhos de pena, sabia que algo estava acontecendo, mas ninguém naquela casa, nem mesmo as empregadas, sabiam o que de fato seria,

— Senhorita Rúbia, você precisa comer… – a ama disse colocando a bandeja na mesinha própria para aquilo dentro do quarto. Rúbia estava deitada na cama, olhava para o teto.

— Não estou com fome agora. – ela respondeu sem se mexer.

— Deixarei seu desjejum aqui… – a ama disse e estava saindo do quarto quando retornou – Ah, já ia me esquecendo, há um bilhete para a senhorita, coloquei com seu desjejum…

— Bilhete? – Rúbia sentou no colchão respirando ofegante, seria algum ultimato de Belinda?

— Sim, um bilhete da senhorita Santiago… – era o que Rúbia temia no momento, esperou a ama sair do quarto definitivamente para se levantar e correr até a mesa para ver o que dizia o papel.

“Te aguardarei hoje à tarde para um chá, querida, minha carruagem irá buscá-la.

Belinda Santiago.”

Rúbia, ao ler o bilhete, sabia que Belinda usava o código delas e sabia que a mulher aguardava uma resposta naquela tarde.

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A carruagem levou Rúbia até uma parte da cidade, considerada marginalizada. Rúbia só sabia daquela região por conta de histórias que escutava de sua mãe, mas nunca tinha ido até lá. Era diferente de tudo o que ela já tinha visto, não havia casarões, não havia jardins bonitos, e o cheiro não era dos melhores. Ao descer da cabine do coche, com a ajuda do cocheiro, Rúbia reparou que as pessoas a olhavam, eram pessoas diferentes, tinham olhares duros e alguns vazios, tinham vestimentas simples e muitas eram imundas.

— Querida, que bom que veio… – Belinda se aproximou de Rúbia, seu sorriso era uma fachada, a doçura já não cabia mais naquela mulher – Venha, aproveitaremos um bom “chá”… – ela disse segurando na mão de Rúbia que enrijeceu com o toque. Durante o pequeno trajeto até uma porta que indicava um cabaré, a menina não havia falado nada. Ao entrar no lugar, tentou conter seu espanto de ver coisas ainda mais indecentes do que já tinha visto nos outros “chás” que tinha ido com Belinda. Definitivamente, pensava Rúbia, não estava na parte nobre da cidade – Bom, achei que ia querer uma festa mais animada do que as que temos ido… – Belinda ainda segurava a mão de Rúbia – Se quiser, posso te arranjar alguém para te ajudar no seu outro desejo… – Belinda falou próximo ao ouvido de Rúbia que se arrepiou na mesma hora.

— E quanto a minha honra e reputação? – Rúbia finalmente falou, olhou para Belinda que sorria.

— Posso te ensinar a preservar tudo o que quiser às vistas da sociedade, posso te ensinar a se precaver de várias coisas querida, sua reputação e honra, aos olhos dos outros, permanecerão intactas…

— Essa é uma festa da Rainha? – Rúbia olhava ao redor, não era um ambiente que a Rainha talvez fosse visitar.

— Não, querida, mas não se preocupe, ninguém aqui comentará nada, ninguém terá a audácia de se lembrar que você pisou seus pés nesse lugar… Venha, vamos conversar em um lugar mais quieto… – Belinda voltou a puxar Rúbia pela mão, as duas subiram uma escada que parecia estar caindo aos pedaços, ao chegar no segundo andar do cabaré, Rúbia não evitou soltar um gritinho de indignação ao ver, em um cômodo com a porta aberta, um casal nu na cama. Belinda abriu a porta de um quarto e entrou, Rúbia entrou em seguida e a senhorita Santiago fechou a porta.

— Você nunca quis casar, não é? – Rúbia perguntou reparando no quarto, as paredes pintadas em vermelho traziam a sensação de o quarto ser pequeno e apertado, representava, para Rúbia, um antro de perdições, principalmente por se tratar de um cabaré.

— Confesso que Lorenzo estava quase me conquistando… – Belinda disse observando Rúbia, a menina analisava cada detalhe do quarto.

— Então, por que o matou? – Rúbia estava de costas para Belinda, sentiu a mulher se aproximar.

— Porque percebi que só estava carente, há uma diferença entre você se deixar levar por uma paixão e perceber que só queria suprir um momento de vontades que logo passariam. – Belinda falou próximo ao ouvido de Rúbia que se virou para ela surpresa com a aproximação – Sente-se, querida… – Belinda apontou à cama para Rúbia que hesitou antes de se sentar.

— Pretende levar esses crimes até que momento? Não se cansa de ouvir os falatórios?

— Quando fiz isso com o primeiro, fiz já sabendo que seria um choque para a sociedade, era uma novidade para mim, me deu medo, é claro, se me descobrissem poderia ser até condenada ao enforcamento. – Belinda segurou a mão de Rúbia – Com o segundo já não senti tanto remorso, ele tentou algo horrível contra mim e não sei como consegui escapar, mas foi com Ruan que percebi a força que tinha, não somente a força física, mas que eu poderia fazer o que bem entendesse. E quando a gente nota isso, querida, quando a gente nota que temos essas capacidades, os mexericos são detalhes insignificantes. – Rúbia a olhava, seus olhos, mais uma vez, estavam mais escuros que o normal – Deveríamos ser donas de nossas próprias vidas, decidir o que bem entendêssemos, não é? Pois eu decidi isso por mim, a um custo altíssimo, confesso, mas nada me abala mais, querida… – Belinda, delicadamente, passou os dedos no braço de Rúbia e viu a menina se arrepiar – Você tem uma resposta para mim?

— Nunca cogitou continuar frequentando às festas mesmo casada? Sei que os homens mantêm muitos romances extraconjugais, sua descrição até hoje poderia te ajudar a continuar tendo essa vida… – Rúbia falou quase sussurrando, sentia os dedos de Belinda em seu braço, não sabia o que significava aquele toque.

— Não descarto essa opção, Rúbia, só não encontrei o noivo certo… – Rúbia sabia que Belinda não estava disposta a procurar o noivo certo – A fama que carrego é uma consequência da minha decisão de querer aproveitar a vida como bem entendo. Nossas decisões são como uma faca de dois gumes, nunca saímos ilesas de nada…

— Como consegue manter sua postura, Belinda? Não sente sua consciência pesar? Não teme algum deslize, algo que possa te prejudicar? – Rúbia perguntava por curiosidade e possível aprendizado.

— Sei tomar conta de mim, querida… Você pode aprender comigo se assim desejar… – Belinda sorriu – Posso te ajudar a pensar a respeito de sua decisão caso não saiba o que me responder… – Rúbia a olhava atenta.

— Não será preciso, eu tenho uma resposta para você… – Rúbia disse se levantando da cama, sua respiração estava descompassada, ela caminhou pelo quarto apertado e via o olhar de Belinda a acompanhando.

— E qual seria? – Belinda demonstrava calma – Faria qualquer coisa para não se casar?

— Faria. – Rúbia respondeu olhando nos olhos de Belinda.

— Sabe que sua decisão terá consequências para você? Sabe que vão falar que minha companhia fez com que você adquirisse parte da minha “maldição”, não sabe? – Belinda fez aspas com os dedos.

— Não me importo. – Rúbia viu Belinda se levantar e ir até ela.

— Tem certeza, querida? – Belinda insistia na pergunta, passou a mão na bochecha de Rúbia que fechou os olhos momentaneamente – Eu gosto de você, Rúbia, se ainda não tem certeza, eu creio que sou capaz de simplesmente aceitar seu silêncio e deixar que você se case, como todos querem…

— Faria isso? – Rúbia perguntou incerta.

— Me daria seu silêncio?

— Em troca de quê? De não morrer em suas mãos?

— É uma troca justa, não acha? – Belinda voltou a passar a mão no braço de Rúbia.

— Me ensine o que tenho que fazer, terá meu silêncio porque seremos cúmplices. – Rúbia falou e viu um sorriso malicioso se formar no rosto de Belinda.

— Te ensinarei tudo o que quiser, Rúbia… – Belinda se afastou e se dirigiu para a porta do quarto – Trataremos de seu noivo depois…

— Aonde vai? – Rúbia perguntou confusa.

— Trazer a festa para você… – Belinda mantinha o sorriso.

— Você não poderia fazer a festa? – Rúbia perguntou querendo uma resposta mais ousada e decidida de Belinda.

— Estarei aqui, querida, como uma mera observadora. – Belinda disse saindo do quarto por uns momentos e voltando com um rapaz e uma mulher – A escolha é sua… – Rúbia escolheria Belinda se fosse uma opção, mas apontou o indicador para a mulher a sua frente – Já imaginava… – Belinda sorriu, dispensou o rapaz e fechou a porta do quarto por dentro.

Parte 3

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