Parte 3

Rúbia e Belinda saíram do cabaré já ao anoitecer, entraram juntas na carruagem que se dirigiu para a mansão dos Santiago. Durante o trajeto, Rúbia ficou quieta, um misto de emoções passava pela cabeça e pelo corpo da menina, olhava de relance para Belinda que estava sempre com o sorriso no rosto.

— Já fez isso, não é? É claro que já… – Rúbia disse corando.

— É claro que já, querida. – Belinda mantinha o sorriso.

— Com mulheres e homens?

— Até mesmo com os dois ao mesmo tempo. – Rúbia tentava não se surpreender mais.

— E como é? – a menina perguntou e viu Belinda rir baixinho.

— Ainda terá tempo para descobrir, querida. – Belinda olhou pela janela da cabine – Quando mandei o bilhete a você, mandei outro a seu irmão, disse que você passaria a tarde comigo em casa.

— E se ele foi me procurar? – Rúbia sentiu uma pontada de desespero.

— E desde quando alguém veio me procurar espontaneamente, querida? – Belinda riu. A carruagem parou dentro do jardim da mansão dos Santiago, Belinda desceu e ajudou Rúbia a sair do coche – Venha, vou te arrumar antes de te levar para sua casa, seu cabelo está um pouco despenteado…

— Como farei? – Rúbia perguntou já no quarto de Belinda, se referia a Juarez.

— Pensarei no melhor meio, Rúbia, talvez poderemos matar dois coelhos com uma tacada só. – Belinda fez Rúbia se sentar na poltrona de frente para a penteadeira, e passava a escova de cabelo nos fios loiro-acobreados de Rúbia.

— Posso te fazer uma pergunta? – Rúbia olhava para Belinda do espelho, a mulher concordou com a cabeça – Por que só ficou olhando?

— Às vezes é mais interessante, e claro, queria ver como se sairia, queria ver suas reações.

— Agora que já viu, ainda ficaria só olhando? – Belinda se aproximou de Rúbia e depositou um beijo no ombro, um pouco exposto, da menina. Rúbia não conseguia esconder que estava arrepiada, sorriu de olhos fechados – Seria bom se me ensinasse o que sabe… – Rúbia disse sabendo que Belinda entenderia a que ela estava se referindo.

— Teremos tempo… – Belinda voltou a pentear os cabelos de Rúbia que abriu os olhos um pouco descontente e frustrada – Tenho que te levar sã e salva para casa, agora…

Ainda naquela noite, Rúbia foi acometida mais uma vez por uma série de pensamentos opostos para a decisão que havia tomado e para os atos que tinha feito naquela tarde. Era evidente que ela estava com medo de prosseguir com sua escolha de não se casar, havia muita coisa em risco, assim como ela temia que alguém deixasse escapar que passou horas em um quarto de cabaré com duas mulheres a acompanhando no recinto.

Ora ela se mantinha decidida, ora ela se deixava levar pela incerteza, mas lembrava de Belinda, lembrava que casar era uma ideia pavorosa e sua decisão prevalecia. Se Belinda também havia sentido aquelas coisas que Rúbia estava sentindo, então talvez fosse apenas uma fase, pensava a menina deitada na cama e se lembrando dos melhores momentos daquela tarde.

+++

Rúbia não sabia ainda como seria e quando seria seu ato fatal contra Juarez, mas sabia que teria que ser logo, o casamento se aproximava e enquanto não chegava, Rúbia se postou a testar suas emoções. Precisava ver como reagiria frente a Juarez depois de ter tomado a decisão que encerraria a vida do rapaz, precisava ver se seria mesmo capaz daquilo, se, caso não fosse, ainda teria a oportunidade de se silenciar perante Belinda, mesmo que isso significasse que Rúbia teria que casar. Ela precisa ver se saberia disfarçar tudo o que estava vivenciando ante a sociedade, e mais além, se saberia manter uma face e comportamento quase como se estivesse bem com a ideia de uma vida conjugal, assim como Belinda sempre conseguiu fazer.

Na manhã seguinte, Rúbia levantou decidida a se testar. Iria ao seu passeio matinal com Juarez para ver como se sairia. O rapaz foi buscá-la, e o sorriso dele estava grande ao ver que Rúbia estava de pé, que não estava indisposta e que estava a sua espera. Rúbia percebeu a felicidade de Juarez, lembrou-se de sua decisão, e para sua surpresa, conseguiu sorrir. Um sorriso que para todos ao redor simbolizava felicidade em ver o noivo, mas Rúbia sabia o verdadeiro significado de seu sorriso: sombrio e fatal.

Surpreendentemente, a menina conseguiu disfarçar seus verdadeiros sentimentos durante o passeio, conseguiu até se manter distante em pensamentos, ao mesmo tempo em que respondia ao que Juarez queria ouvir, era como se fosse uma marionete por fora, mas por dentro, Rúbia tentava visualizar o que Belinda planejaria para o grande dia.

Durante aquela semana, Rúbia, por rápidos instantes, se desesperava ao ver a data de sua cerimônia se aproximar e Belinda ainda não ter surgido com uma solução para ela, mas logo se recompunha, Belinda a tinha nas mãos e Belinda, ao que tudo indicava, gostava de exercer aquela função, ajudar Rúbia era só mais um passatempo que ela não falharia, pelo contrário, talvez ficasse só observando Rúbia seguir à risca suas ordens, como havia feito na tarde do cabaré, Rúbia viu naquela tarde que parecia que Belinda sentia um deleite grande ao, apenas, observar.

Com o casamento de Rúbia tão próximo, a menina tinha ido à modista mais vezes do que pretendia e foi em uma dessas idas à costureira que ela se encontrou com a senhorita Santiago.

— Rúbia, querida! – Belinda estava trajada com seu vestido de noiva quase completamente pronto, ao ver a mulher, Rúbia tentou conter todas as suas emoções, sua mãe e suas irmãs estavam a acompanhando – Veio ver seu vestido?

— Últimas provas… – Rúbia disse conseguindo mostrar um pouco mais de animação para um casamento que não aconteceria, era aquilo que sua família esperava dela e era aquilo o que ela dava a sua família, mas enquanto falava e olhava para Belinda, ela implorava com o olhar para que a mulher lhe dissesse algo a respeito do que elas fariam.

— Posso vê-lo em seu corpo? – Belinda perguntou, Rúbia percebeu que era como um passatempo regozijante para Belinda, olhar, admirar.

— Claro, espero que esteja tão belo quanto o seu… – Rúbia disse e caminhou para um quarto aos fundos da loja em que uma das modistas a vestiria. Depois de colocar o vestido no corpo, Rúbia voltou para onde Belinda estava, juntamente com Alma, Evita, sua mãe e Dulce.

— Está deslumbrante, minha irmã! – Alma dizia animada ao ver o vestido de Rúbia.

— Será a noiva mais bela da temporada! – Evita disse e logo olhou para Belinda que postava seu olhar em todos os detalhes do vestido no corpo de Rúbia – Digo, não se ofenda, senhorita Santiago, mas ela é minha irmã…

— Jamais me ofenderei, concordo com vocês que é um vestido belíssimo e ficou perfeito em você, querida… – Belinda ainda olhava para Rúbia, sorrindo – Gostaria de aproveitar que nos encontramos para te convidar a um chá, Rúbia… – Belinda disse assim que viu a família de Rúbia se perder entre os tecidos e moldes de vestidos pela loja.

— Adoraria, quando? – Rúbia perguntou sorrindo, ansiava por um convite como aquele.

— Amanhã, faremos como sempre, mandarei a carruagem te buscar e mandarei um bilhete a seu irmão ou a seu pai avisando que ficará comigo para me ajudar nos pequenos detalhes da cerimônia, está bem?

— Estarei aguardando! – Rúbia sorria largamente, voltou para o quarto aos fundos da loja para retirar o vestido de noiva e antes de sair da butique, acenou para Belinda que retribuiu o gesto do mesmo jeito.

Na tarde seguinte, Rúbia e Belinda se encontraram em uma região melhor que a que Rúbia esteve anteriormente, sabia que o “chá” era organizado pela Rainha, se sentiu um pouco mais aliviada de ir para uma casa mais discreta e com total sigilo, estava animada para ver o que aconteceria naquela tarde, se Belinda deixaria suas observações de lado e a ajudaria como Rúbia bem queria.

— Não quero parecer insistente, mas meu casamento será em poucos dias… – Rúbia disse sendo levada para o andar de cima da casa, com Belinda puxando sua mão.

— Eu sei, querida, estava pensando em bons meios para nosso plano… – Belinda abriu a porta de um quarto, Rúbia se assustou a ver apenas um homem lá – Tenho nossa solução, para isso terei que te ensinar como as coisas funcionam com os rapazes, nossa grande noite acontecerá na despedida de solteiro que convenci Carlos a organizar para Juarez…

— Mas eles não nos verão? – Rúbia olhava para o rapaz sentado na cama.

— Sim e não, estaremos… – Belinda beijou o ombro de Rúbia – Disfarçadas, para isso, você precisará saber algumas coisas para aplicar quando estiver a sós com Juarez… Digo, não a sós, porque eu e Carlos estaremos lá.

— Não estou entendendo… – Rúbia olhou para Belinda confusa.

— Por enquanto, vamos à lição, está bem? Depois te explicarei com mais detalhes… – Belinda fez sinal para que o rapaz se aproximasse de Rúbia.

— O que está fazendo? – Rúbia viu Belinda se sentar na poltrona que havia no canto do quarto.

— É sua lição para ser aprendida, querida, estarei aqui caso precise de alguma ajuda… – Rúbia viu o rapaz se aproximar ainda mais e sentiu suas mãos em seus ombros, logo depois sentiu seu vestido caindo por seu corpo.

Quando o rapaz foi embora, Rúbia se encontrava deitada na cama olhando para o teto. Belinda se aproximou e se sentou ao seu lado.

— Deverá ser mais espontânea no dia, está bem? Como foi com aquela mulher da outra vez… – Belinda sorria.

— É mais fácil com ela, talvez se me mostrasse como eu devesse me comportar… – Rúbia se sentou no colchão e segurou o lençol em seu corpo, tentou se aproximar do rosto de Belinda, mas a mulher se afastou.

— Nas festas que os homens fazem para se “despedir” da vida de solteiro, acontecem coisas como acontecem aqui, muitas vezes piores… – Belinda falava – Mulheres que trabalham com isso são contratadas para deixar a festa animada para eles, elas são obrigadas a fazer o que eles mandarem e nós estaremos lá como se fôssemos uma dessas mulheres, assim ficará mais fácil de disfarçar nosso crime, entende? Vão acreditar que os dois não souberam aproveitar a festa com um mínimo de responsabilidade, e nenhum boato chegará a nós, não seremos sequer acusadas de algo, somente que minha maldição permanece viva e que, por você conviver comigo, acabou sendo amaldiçoada também.

— E na próxima temporada? Se alguém se interessar por mim? Não acha que cedo ou tarde vão surgir perguntas demais? – Rúbia se ateve aos detalhes.

— Deixemos a próxima temporada para o ano que vem, querida, vamos pensar somente nessa, está bem? – Belinda passou a mão no rosto de Rúbia – Carlos promoverá uma festa para Juarez, como um baile de máscaras, mas é claro que não é um baile, isso facilitará para que a gente fique ainda mais camuflada…

— E se quiserem tirar nossas máscaras, e se me reconhecerem pelo cabelo?

— Há uma regra entre os homens, Rúbia, eles podem e vão tirar todas as peças de roupa de seu corpo, com exceção da máscara, isso os deixa ainda mais sedentos, o mistério vai ser nossa carta na manga e quanto ao cabelo, não se preocupe, perucas servem para isso.

— E como será feito? Como sabe que Carlos e Juarez vão aceitar ficar no mesmo quarto? Como sabe que eles não vão desconfiar que seja a gente? – Rúbia se preocupava cada vez mais.

— Eles estarão bêbados demais para perceber qualquer coisa, e homens adoram fazer essas coisas na frente de alguns “cúmplices”, eles ficam mais excitados, tenho que concordar, ter alguém a mais no recinto é regozijante… – Belinda se referia a ela mesma e aos seus desejos.

— Está bem… – Rúbia respirou um pouco mais aliviada – Só mais uma pergunta…

— Pergunte, querida… – Belinda passava a mão no cabelo da menina.

— Estaremos juntas lá, talvez seria bom se nos envolvermos na hora, acho que eles iriam apreciar, pelo o que reparei nas outras festas. – Belinda sorriu com a tentativa de Rúbia.

— Na hora, saberemos o que fazer… – Belinda beijou o ombro da menina e a bochecha antes de se levantar – Vamos, passaremos em minha casa antes de eu te levar para a sua. – Rúbia, mais uma vez estava frustrada, mas se levantou.

+++

Belinda não falou com Carlos diretamente sobre a festa para Juarez, mas sabia de meios que fariam a ideia surgir na mente do rapaz como se fosse dele, e, como se não esperasse pela novidade, Belinda fingiu surpresa quando Carlos Afonzo lhe disse que sairia com Juarez nas vésperas do casamento do rapaz. Com a ajuda das empregadas, Belinda soube que seu plano tinha dado certo ao descobrir que seria uma festa em que as mulheres contratadas estariam mascaradas, riu ao ver que era um fetiche comum entre os homens que conhecia.

Uma parte do grande plano estava montada, mas ainda faltavam alguns detalhes a serem decididos, principalmente com relação à ausência noturna tanto dela quanto de Rúbia na noite em questão, mas para aquilo, Belinda usaria de seu artifício de ser uma amiga cúmplice da Rainha Guadalupe. Conseguiu sugerir à monarca que fizesse o segundo jantar especial da temporada antes que ela e as outras noivas de casamento marcado fossem, realmente, se casar. Conseguiu convencer a Rainha do dia do jantar e não foi acaso nem coincidência que tanto a festa de Carlos para Juarez, quanto o jantar da Rainha aconteceriam na mesma noite.

O convite para o jantar foi enviado às moças que ainda não haviam se casado, mas que estavam noivas. Rúbia recebeu com um sorriso no rosto, mas apreensiva, sabia que estava na hora de colocar em prática o grande plano. Alma e Evita voltaram a sorrir conivente para a irmã quando esta recebeu o convite da Rainha.

— Acho prudente que saiba maneirar, dessa vez, minha irmã… – Evita ria baixinho no quarto de Rúbia, as três trocavam confidências a respeito do famoso jantar.

— Em todo o caso, estaremos aqui a sua espera, como boas irmãs que somos… – Alma riu e Rúbia se permitiu se divertir com aquilo. Suas irmãs não faziam ideia do que a menina faria na noite do jantar.

A grande noite havia chegado. Rúbia se arrumava em seu quarto quando se deu conta de que Javier e Zenon também estariam na festa de Juarez. O desespero tomou conta da menina, e se os dois percebessem alguma coisa? Estaria tudo acabado em um piscar de olhos!

— A carruagem real chegou, querida… – a mãe de Rúbia entrou no quarto da filha para a informar. Não tinha mais volta, Rúbia apenas torcia para que nada fugisse do roteiro.

Ao chegar ao palácio, Rúbia avistou Belinda conversando com outra moça da temporada, a mulher, ao ver Rúbia no salão, se aproximou da garota que mal conseguia conter suas palpitações em sintonia.

— Jantaremos, beberemos uma taça e sairemos, está bem? A essa hora, sei que os rapazes ainda estão chegando no local, então vamos dar a eles a oportunidade de beberem o quanto podem… – Belinda disse no ouvido de Rúbia.

— Meus irmãos estarão lá… – Rúbia disse segurando a mão de Belinda e demonstrava, no toque, seu nervosismo.

— Sei disso, querida… – Belinda sorriu e olhou para baixo – Não se preocupe, está bem? – ela passou o polegar levemente no peito da mão de Rúbia que respirou um pouco mais calma.

As horas no jantar pareciam que custavam ainda mais a passar, Rúbia estava impaciente, estava evidente em seu olhar, mas Belinda mantinha calma e muita paciência, conversava com as outras moças no salão, se distraía com a taça de bebida na mão. O jantar foi servido, Rúbia comeu pouco e comeu com pressa.

— Calma, querida, não queremos que tenha alguma indigestão, não é? – Belinda comia com serenidade.

— Estou apreensiva… – Rúbia disse.

— Sei disso, Rúbia, mas estarei com você, não se preocupe… – a música no salão começou a ficar mais animada, aquilo era um sinal claro para que as mulheres se soltassem após o jantar, a Rainha Guadalupe estava atenta a todas, com olhar de águia como se procurasse alguma “presa” – Vamos, então… – Belinda disse se levantando depois que a festa ficou agitada e a rainha se retirou com uma das mulheres.

— Como vamos nos disfarçar? – Rúbia perguntou acompanhando Belinda nos corredores.

— No coche, deixei tudo preparado, querida, não se preocupe, apenas confie em mim…

— Está bem… – Rúbia não podia fazer nada além de confiar em Belinda.

O cocheiro sabia as instruções que deveria seguir, antes de andar com a carruagem, esperou alguns minutos para que Belinda lhe dissesse que estavam prontas. Com dificuldades, Rúbia e Belinda trocaram suas roupas e se aprontaram na cabine do coche, a parte mais difícil foi a peruca que Rúbia usaria, a falta de iluminação fez com que as duas moças perdessem mais alguns minutos naquela tarefa.

— Aqui, querida, ponha essa máscara… – Belinda entregou uma máscara para Rúbia e a ajudou a prender em sua cabeça, a máscara era preta, grande e elegante, ao colocá-la, Belinda sorriu – Se não tivesse te ajudado, jamais saberia que era você…

— Acha que ninguém me reconhecerá? – Rúbia perguntou vendo Belinda vestir sua máscara.

— Tenho certeza… – Belinda abriu a janela da cabine – Estamos prontas, Gomez. – ela avisou o cocheiro que prontamente fez os cavalos andarem rumo ao lugar pré-indicado por Belinda.

Rúbia instantaneamente ficou quieta, sua respiração estava ofegante. Conforme a carruagem as levava para a festa de Juarez, mais a menina se sentia apreensiva e nervosa, acalmou um pouco quando sentiu a mão de Belinda sobre a sua, mas seus medos falaram mais alto segundos depois. Não havia mais jeito de desistir, a carruagem parou em uma rua lateral e sem movimento e o cocheiro abriu a porta da cabine.

— Vamos, querida… – Belinda disse saindo primeiro e ajudando Rúbia a descer – Fique, Gomez, nos levará para casa depois, está bem? – o cocheiro concordou com a cabeça e ficou de prontidão. Belinda e Rúbia caminharam para a entrada lateral do recinto que estaria acontecendo a festa de despedida de solteiro de Carlos e Juarez. De longe as duas podiam escutar a música alta, risadas de homens e sons de vidro se quebrando, na certa, copos caindo no chão.

— Você não me disse como faremos… Digo, como executaremos o plano… – Rúbia disse se tocando daquele detalhe.

— Deixaremos que eles aproveitem nossa presença, depois daremos uma taça para cada um deles, dentro dessas taças eu colocarei isto… – Belinda retirou do decote um vidrinho pequeno.

— Certo… – Rúbia não sabia como estava andando, só se sentia sendo puxada pela mão por Belinda. As duas entraram pela porta lateral e subiram alguns lances de escadas. A música foi ficando mais alta e a falação também. Belinda abriu uma porta e viu que as mulheres contratadas já estavam por lá, tentando cumprir seus serviços e se apressou em entrar e ir diretamente até seus alvos, puxando Rúbia pela mão.

— Ótimo, eles estão próximos um do outro… – Belinda disse ao ver Juarez e Carlos na mesma roda de conversa.

— Meus irmãos estão ali… – Rúbia disse desesperada.

— Fique calma, seduza Juarez com o corpo, não abra a boca, vamos levá-los para um quarto, está bem? – Rúbia concordou com Belinda e viu a mulher sair na frente, tentaria fazer o mesmo que ela. Se aproximar, colar no corpo de Juarez como Belinda fazia com Carlos que não se importou nem um pouco com aquela aproximação, pelo contrário, segurou a cintura de Belinda com força e sorriu para os rapazes ao redor.

— Bom, acho que tenho minha companhia… – Carlos disse rindo, Rúbia viu que a mão dele desceu para a bunda de Belinda e viu que outra mulher se aproximava da roda de amigos, se dirigindo para Juarez. Rúbia respirou fundo e seguiu os passos da amiga, se viu fazendo o mesmo que ela, mas com Juarez que, apesar de ter hesitado um pouco com a aproximação, logo se deixou seduzir pela mulher que ele não fazia ideia de que era sua noiva. Rúbia sentiu Juarez apertar sua cintura, sentiu o mesmo toque nas nádegas que viu Carlos fazer em Belinda. Ao olhar para a amiga, viu que ela havia piscado com um olho só por baixo da máscara. As duas seguiriam para outra fase do grande plano.

Belinda puxava Carlos pela mão enquanto caminhava pelos corredores em direção a um quarto desocupado, ao entrar em um, fez um sinal que queria que Rúbia e Juarez entrassem juntos.

— Você é uma vagabunda, sabia? – Carlos disse rindo ao perceber a intenção de Belinda – Venha meu amigo, vamos deixar essa nossa despedida memorável… – ele chamou por Juarez e Rúbia que estavam logo atrás dele.

— Mas… – Juarez tentou argumentar, mas Rúbia foi mais rápida e entrou no quarto puxando o rapaz pela mão.

— Vocês duas são farinha do mesmo saco… – Carlos riu – Feche a porta. – ele disse autoritário para Belinda, que mantinha a postura e o silêncio, e obedeceu – Você. – ele olhou para Rúbia que não poderia estar mais nervosa, mas tentava disfarçar – É a despedida do meu amigo, minha também, mas essa festa é para ele, então obedeça. – Rúbia concordou com a cabeça e sorriu – Tire a roupa para ele, e você, – ele se voltou para Belinda – ajoelhe.

Juarez, no começo, estava se sentindo um pouco desconfortável, não era de seu costume fazer aquelas coisas com mais pessoas ao seu redor, por alguns momentos até pensou em desistir, talvez não fosse certo com Rúbia, ele pensou, mas olhou para a mulher a sua frente, despida para ele, mal sabia que era sua noiva, e se aproximou dela, a segurando pela cintura e a jogando no sfoá em seguida.

Carlos estava deitado, exausto, na cama depois de um tempo. Juarez estava no mesmo estado, mas no sofá que havia no quarto. Belinda se levantou da cama, Rúbia estava deitada no sofá embaixo de Juarez, viu a amiga se levantar e seguir para a mesinha do aposento em que algumas garrafas de bebidas estavam à espera de serem usadas. Rúbia sabia o que viria a seguir.

— Me traga um charuto. – Carlos disse da cama, Belinda sorriu com a máscara no rosto e ficou de costas para todos – Venha a minha despedida também, Juarez. – Carlos dizia. Juarez se ajeitou no sofá e deixou Rúbia se sentar, a menina verificava se a máscara ainda estava bem presa em seu rosto, assim como sua peruca na cabeça.

— Mas já terei me casado… – Juarez disse com peso na consciência.

— E quem se importa? – Carlos riu, Rúbia viu Belinda, discretamente colocar o conteúdo do vidrinho que tinha levado nas taças, a hora fatal estava chegando.

— Não seria correto com minha esposa… – Juarez olhou para Rúbia – Nem sei se isso foi o certo a se fazer… – Rúbia não sabia o que fazer ou falar, mas viu Belinda se aproximar com as taças, entregou uma para Juarez e uma para Carlos.

— Dane-se as esposas, se eu conseguir me casar eu jamais vou abandonar essa vida… – Carlos disse rindo, ainda não tinha levado a taça à boca – Meu charuto, vá buscar! – ele mandou mais uma vez em Belinda que se virou e voltou até a mesinha do quarto.

— Acha que não vai casar? Está se comprometendo a casar com Belinda Santiago por aventura? – Juarez também não tinha bebido da taça.

— É óbvio, e está sendo péssimo agora que o casamento se aproxima, mas se eu conseguir me casar, na noite seguinte estarei em algum cabaré, aproveitando desses belos corpos… – Carlos olhou para Rúbia – Venha, vamos trocar de acompanhantes.

— Carlos, não sei se devo continuar… – Juarez disse vendo que Belinda já se aproximava dele e viu Rúbia caminhar até a cama.

— Aproveite essa noite, meu caro, sua mulher só vai servir para te dar descendentes, não estranhe se ela chorar assustada na noite de núpcias. – Rúbia estava de pé ao lado de Carlos que a puxou pela cintura – Ao seu casamento, meu caro! – Carlos ergueu a taça para fazer um brinde, Juarez, mesmo incerto se deveria continuar a noite, também ergueu sua taça e os dois ingeriram as bebidas. Belinda se sentou ao lado de Juarez, passava a mão na perna despida do rapaz e esperava a reação. Rúbia fez o mesmo ao se deitar ao lado de Carlos, ficou esperando qualquer reação – Você, eu quero que fique como um cachorrinho, ande! – ele mandava Rúbia se ajeitar na cama como ele desejava e se levantou para dar continuidade a sua noite, até que começou a tossir. Rúbia olhou para ele e depois para Belinda que olhou imediatamente para Juarez que estava ficando roxo.

— Chame alguém… – Juarez tentou falar, mas estava ficando sem ar como Carlos.

— Vá! – Carlos disse e caiu no colchão, tossia e segurava o pescoço, tentava respirar, mas não conseguia. Belinda se levantou e correu para ver a situação de Carlos, Rúbia estava um pouco atônita com tudo aquilo, não conseguia se mexer. Viu Juarez olhar para ela desesperado, implorando por alguma ajuda, viu os olhos de seu noivo se fecharem. Belinda correu até ele e colocou o indicador perto de suas narinas, Juarez não respirava mais, mas Carlos se debatia na cama, tossia, tentava implorar por ajuda.

Belinda sorriu, olhou para Carlos de cima e tirou sua máscara, o rapaz estava em choque ao ver quem era. Belinda ria daquela situação.

— Seu desejo foi um prazer de realizar, querido… – ela disse vendo Carlos com os olhos arregalados, as mãos no pescoço e de repente, parando de se debater na cama. Rúbia estava de pé olhando para Juarez caído no sofá, sem vida – Vai passar, querida, logo irá rir disso, ainda confia em mim? – Belinda se aproximou de Rúbia que não se mexia, beijou o ombro da menina como já estava pegando o costume de fazer, a virou para si e beijou o pescoço de Rúbia que fechou os olhos – Se saiu muito bem, querida… – Belinda beijou o canto da boca de Rúbia que ansiava por algo a mais – Vi que estava apreensiva, mas vi também que soube disfarçar para eles… – Belinda passou o polegar nos lábios de Rúbia e em seguida depositou um beijo neles. Rúbia queria mais, mas Belinda já havia se afastado e começava a se vestir – Vamos, está ficando tarde até mesmo para nós que supostamente estamos no jantar da Rainha… – ela sorriu e colocou o vestido, pegou o frasco de vidro que tinha levado, apesar de estar vazio, ela levaria de volta para que ninguém suspeitasse de nada, ou não encontrasse nada mais acusador.

— Não esqueça a máscara… – Rúbia conseguiu se recompor de todo o choque e do momento que teve com Belinda.

— Bem lembrado, querida… – Belinda colocou a máscara no rosto, viu Rúbia se vestir e as duas saíram do quarto, e discretamente saíram da casa. Rúbia ainda viu que Javier e Zenon estavam lá, ambos com uma mulher em seus colos – Não se esqueça que amanhã você precisa estar devastada… – Belinda disse na carruagem depois de terem se trocado mais uma vez – Vão me culpar e vão te afastar de mim, minha amizade será considerada extremamente prejudicial…

— Não quero me afastar de você… – Rúbia se desesperou.

— Dê tempo ao tempo, querida, logo estaremos reunidas, está bem? – Belinda acariciou o rosto de Rúbia.

— Além de ficar observando? – Rúbia a questionou e Belinda sorriu, dando um beijo no canto da boca da menina.

— É uma promessa… – a carruagem deixou Rúbia na frente de sua casa, a menina foi recebida por Alma que ainda estava acordada, viu que a irmã estava bem, não estava embriagada e ficou aliviada. Alma ainda olhou para a carruagem, tentou avistar se Belinda estava ali, mas a mulher, dentro da cabine, se escondeu como pôde e Alma acreditou que Rúbia estava, de fato, sozinha.

Rúbia foi acordada na manhã seguinte por sua mãe, que trazia os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar.

— O que houve, minha mãe?! – Rúbia disse sabendo do que se tratava, mas entrava no personagem que deveria interpretar àquela hora.

— Querida… – a senhora Hernandez soluçou. Zenon entrou no quarto sem bater à porta.

— O que houve, Ze?! – Rúbia fingia estar confusa.

— É minha culpa… – Zenon falava e tentava ao máximo segurar suas lágrimas, segundo ele, homens não deveriam chorar, principalmente na frente de mulheres.

— O que é sua culpa?! – Rúbia perguntava exaltada.

— Juarez… É minha culpa… – Zenon já não conseguia se segurar mais, as lágrimas caíam de seus olhos contra sua vontade.

— Minha irmã… – Alma entrou no quarto chorando – Juarez foi encontrado morto… – Rúbia olhou para todos por alguns segundos até esboçar seus falsos sentimentos e liberar algumas lágrimas.

— O quê?! – Rúbia se pôs de pé.

— É minha culpa… – Zenon abraçou a irmã.

— Por que seria?! – Rúbia, no fundo, estava gostando de estar naquele personagem.

— É minha culpa em todos os sentidos, é minha culpa, me perdoe, minha irmã, me perdoe! – Zenon jamais falaria os motivos de se achar culpado pela morte do melhor amigo, não falaria para Rúbia que Juarez foi encontrado morto depois de uma noite com várias prostitutas, ou que se achava culpado por permitir a aproximação de Rúbia com Belinda, a mulher que também perdia um noivo, que estava amaldiçoada e a suposta maldição passou para sua irmã.

— Zenon, por que seria sua culpa?! Como sabem que ele morreu? Não pode ser, não pode ser! – Rúbia conseguia se mostrar devastada e desesperada. Sentiu suas irmãs e sua mãe a abraçarem, viu seu pai na porta com pesar no olhar.

— Há algo mais que você precisa saber, minha filha… – a senhora Hernandez disse depois de um tempo achando que estava consolando a filha.

— Eu não sei de nada, vocês não me deram detalhes de nada e agora há mais coisas?! – Rúbia conseguia chorar com facilidade naquele momento.

— Juarez foi achado morto, minha filha, assim como Carlos Afonzo, os dois estavam no mesmo lugar… – Rúbia se lembrava da noite anterior, do desespero de Juarez para respirar, de ver o susto estampado no rosto de Carlos quando Belinda mostrou sua face.

— Que lugar é esse?! Eles se envolveram em uma briga, eu não entendo, eu não entendo! – Rúbia foi abraçada mais uma vez pela mãe.

— É minha culpa, minha irmã, me perdoe… – Zenon voltava a falar, apesar de estar fingindo uma comoção pela morte de Juarez e de Carlos, Rúbia ficou realmente tocada ao ver o estado de seu irmão, Juarez era o melhor amigo dele, Alma também estava devastada, mas não havia mais meios de voltar atrás e Rúbia, apesar de sentir pena da família, se sentia, acima de tudo, aliviada.

— Eu não entendo… Eu não entendo! – Rúbia voltou ao seu personagem para aquele dia de grande luto e surpresa na cidade.

Como previsto por Belinda, todo mundo culpou a maldição da mulher pela morte de Carlos e a responsabilizou por passar a maldição para Rúbia que foi afastada imediatamente da senhorita Santiago. Era um pesar grande para Rúbia, o que ela mais queria era estar perto de Belinda, mas tinha que ser paciente como a mulher havia lhe pedido, com o tempo elas se reuniriam mais uma vez em alguma festa indecente e clandestina e daquela vez, Rúbia, finalmente, realizaria seu outro desejo, o de aproveitar, intimamente, a presença de Belinda.

Os comentários se perpetuaram pelas semanas que antecediam o final da temporada de casamento. As despedidas de Juarez e Carlos foram feitas na igreja, com muita emoção e tristeza de todas as famílias, Belinda compareceu de preto para o velório de Carlos e recebeu olhares repressores de muita gente, alguns olhares de pena e muitos de medo.

Tendo que se manter nos personagens de viúvas que não se casaram, Rúbia ficou em casa pelos dias que se seguiram ao enterro, Belinda evitava sair a qualquer custo. A Rainha Guadalupe enviou para ambas uma carta de pêsames, mas também enviou o convite do último baile da temporada. Parecia absurdo até mesmo para Rúbia que entendia que era uma situação triste para muita gente e a Rainha, implicitamente, a convidava para mais uma chance de encontrar um novo pretendente no último evento da estação. Mas era de absurdos e fofocas que aquele reino vivia.

Para continuar no papel que havia aceitado fazer, Rúbia estava decidida a não ir ao baile final, mas uma notícia a fez mudar de ideia, uma notícia chocante para todos na cidade: Belinda Santiago estava noiva mais uma vez. Todos estavam curiosos para saber quem era o rapaz, ninguém estava acreditando, Rúbia sabia que não poderia simplesmente ir até a casa da amiga, então teria que ir ao baile para tentar ter alguns minutos a sós com Belinda para saber com detalhes sobre aquele novo acontecimento.

— Os homens não percebem que essa mulher está amaldiçoada?! – Alma falava sem remorso na sala. Rúbia estava sentada no canto do sofá, se fazendo de viúva entristecida.

— Sabem quem é?! – Evita estava sedenta por atualizações daquela notícia.

— Falaram que é um homem de outra cidade, só pode ser, não é mesmo?! – Alma falava indignada – Que outro homem, aqui, em sã consciência iria se arriscar?! E ainda está tão recente a morte de Carlos e… – ela parou de falar, sempre que tocava no nome de Juarez se emocionava.

— A gente sempre fala isso, mas toda temporada social vemos que milhares caem aos pés de Belinda Santiago. – Evita disse e olhou para Rúbia que fingia estar triste pela quase menção de Juarez.

— Temo por ele, alguém deveria avisá-lo que não é uma boa opção escolher Belinda Santiago para se casar… – Alma falava e olhava para Zenon como se ele pudesse fazer alguma coisa, mas o rapaz, desde a morte de Juarez, estava cada vez mais distante em pensamentos, ainda se sentia culpado.

— Será que ele acompanhará Belinda ao baile de encerramento? – Evita estava curiosíssima para saber quem era – Sei que não quer ir, minha irmã… – ela falava com Rúbia que levantou o olhar.

— Acho que respirar fora dessa casa, vai ser bom… – Rúbia dizia com o olhar triste – Mas não sei se seria certo…

— Estaremos com você, minha irmã… – Evita queria ir ao baile, mas só poderia ir se Rúbia fosse.

— Evita, ela acabou de perder o noivo! – Javier disse indignado.

— Mas ela precisa sair dessa casa, precisa respirar ar puro, uma hora isso vai ter que acontecer, Javi! – Evitava falava.

— Se me deixar ir, eu vou… Apenas para marcar minha presença, podemos voltar logo em seguida… – Rúbia disse sem emoções, viu Evita conter o sorriso.

— Cuidarei de você, minha irmã… – Evita disse um pouco animada demais e olhou para Zenon que não reagia – Falarei com papai… – ela disse se levantando e saindo da sala.

+++

Não seria fácil para Rúbia conseguir escapar por poucos minutos naquele baile. Sua aparição gerou comentários, a aparição de Belinda com seu mais recente noivo gerou ainda mais comentários. As duas eram o centro de todas as atenções e conversas, não havia uma pessoa que não as olhasse de relance. Com Rúbia as pessoas se aproximavam dela com pena para lhe dar os pêsames pela perda de Juarez, com Belinda, as pessoas se afastavam. Rúbia percebia aquela movimentação com a amiga, estava agoniada pela situação e procurava por brechas para que ela pudesse falar com Belinda.

— Já o viu por aqui? – Evita olhava para o noivo de Belinda, era um homem de aparentes 35 anos, tinha barba, não parecia ser velho, mas não demonstrava jovialidade. Seu ar transpassava alguma experiência e superioridade, ele desfilava com Belinda pelo salão.

— Ouvi falar que ele é de fora, mas estava aqui desde o início da temporada… – Alma respondeu olhando para o casal.

— Preciso tomar um ar… – Rúbia disse vendo que era um bom momento para se afastar.

— Minha irmã, quer ir embora? – Evita perguntou preocupada.

— Não, eu só preciso de um ar fresco… – Evita ameaçou acompanhá-la – Minha irmã, por favor, poderia me dar esses momentos a sós comigo mesma? – Rúbia pediu de um jeito que Evita não podia recusar, estava com pena da garota.

— Claro, se precisar, mande me chamar… – Evita respondeu e viu Rúbia saindo, voltou sua atenção para o baile rapidamente.

— Não podemos ficar próximas muito tempo… – Belinda disse assim que conseguiu ir para o lugar que Rúbia tinha ido.

— Quem é ele? – Rúbia perguntava num misto de curiosidade e, talvez, ciúmes.

— Alejandro Lopez, ele estava de visita na cidade, estava aqui desde o início da temporada, veio semana passada me cortejar, ou melhor dizendo, me pedir em casamento. – Belinda falava baixo.

— E você aceitou?!

— E eu teria alguma escolha? Meus pais não aguentam mais me ver viúva de casamentos que nunca acontecem…

— E verão mais uma vez, não é mesmo? – Rúbia a olhou cúmplice.

— Infelizmente, para Alejandro… – Belinda sorriu.

— Belinda, não acha que vai ser ainda mais arriscado e suspeito? Não acha melhor você se casar e manter nossas festas no sigilo… – Rúbia tinha a mão no peito, estava tendo um pressentimento ruim, queria afastar os pensamentos de sua cabeça.

— Só pararei quando achar o noivo certo, Rúbia… – Belinda se mostrava confiante – Posso fazê-lo “sumir” – ela fez aspas com os dedos – como Lorenzo. A noiva abandonada mais uma vez…

— Mas ainda assim o mataria… – Rúbia temia pela amiga.

— Evidentemente… – Belinda se aproximou de Rúbia e acariciou o rosto da menina – Está conseguindo se manter no papel muito bem…

— Aprendi com a melhor professora… – Rúbia sorriu de olhos fechados ao sentir o toque de Belinda – Pense bem, qualquer coisa, mate-o depois do casamento, se ele é rico a fortuna será sua…

— Eu criei um monstro, não é mesmo? – Belinda sorrindo espantada com a fala de Rúbia – É um bom ponto a se pensar, mas aí teria que esperar uns meses, teria que obedecer à vida de casada, para não parecer suspeito demais… – Rúbia a olhava preocupada – Vai ficar tudo bem, querida… Vamos, melhor voltarmos, vá primeiro e eu vou em seguida por outra porta, está bem?

— Não se esqueça de sua promessa…

— Não esquecerei… – Belinda beijou o canto da boca da menina.

— Belinda, tome cuidado, por favor, não sei se é uma boa ideia matá-lo agora…

— Confie em mim, querida… Agora vá! – Belinda sorriu ao ver Rúbia voltar para o baile.

Ao voltar para o salão, Rúbia pediu a suas irmãs que a levassem para casa, não podia deixar que ninguém desconfiasse de onde esteve e com quem esteve em tão poucos minutos de ausência. Todos voltaram para casa, Rúbia tinha que manter seu papel de noiva devastada.

Pensando na situação de Belinda, Rúbia não conseguiu dormir naquela noite, se mexia na cama de um lado para outro, agoniada, não sabia ao certo dizer o porquê daquele sentimento, mas temia que Belinda estivesse correndo algum risco. Pensava em arrumar um meio de conversar melhor com ela, tirar da cabeça dela a ideia de matar Alejandro tão cedo e antes de se casar, talvez não fosse uma alternativa viável visto tudo o que tinha acontecido naquela temporada social.

+++

Belinda acordou na manhã seguinte ao baile, não sabia quando teria uma data para se casar, ainda estava digerindo a aparição de Alejandro e seus pais permitindo um cortejo que logo se tornou um noivado devido ao desespero do casal para ver sua filha casada. Mas a mente de Belinda não parava de trabalhar, ela sabia que uma data seria marcada e para aquilo ela precisava pensar em um bom plano para eliminar o novo noivo.

Com a desculpa de que iria à modista ver mais um vestido de noiva, Belinda entrou na carruagem que a aguardava com o cocheiro que bem conhecia e ambos foram para uma parte afastada do grande centro da cidade.

— Felicitações pelo noivado. – Gomez disse assim que Belinda desceu da carruagem e pisou seus pés na rua um tanto suja. Frederico Gomez era um rapaz que cumpria funções com a carruagem para eventos reais e também para Belinda. A relação dos dois era íntima em muitos momentos, e completamente cúmplice.

— Me poupe, Gomez, sabe que o eliminaremos. – Belinda disse revirando os olhos e caminhando pela rua que a levaria para um cabaré já conhecido dela e do cocheiro.

— Você diz “nós”? – ele perguntou sério.

— Temos que fazer como fizemos com Lorenzo, fazer parecer que ele fugiu, porque mais uma morte seria suspeita demais… – os dois entraram no estabelecimento e subiram para o quarto de costume.

— Nunca vai parar com isso? – Gomez perguntava inquieto e Belinda notou.

— O que houve? Isso nunca foi um problema para você.

— Imagina se um dia descobrirem? Seremos condenados, seremos enforcados, eu posso apostar!

— Só seremos descobertos se você revelar alguma coisa, é isso o que pretende fazer? – Belinda o encarava séria, analisava Gomez e suas expressões corporais.

— Eu não quero ser enforcado, Belinda, eu não quero ser condenado a nada. – Gomez disse e tirou seu casaco, ficando mais à vontade.

— E por que acha que seremos? O que está acontecendo, Gomez? – Belinda se aproximou dele e beijou seu queixo.

— Apenas uma preocupação… – ele disse sentindo os lábios de Belinda – O que mais sabe sobre seu noivo? – a última palavra, Gomez falou com ciúmes.

— Absolutamente tudo o que o resto do mundo sabe, ele surgiu de repente, me propôs casamento, meus pais me obrigaram a aceitar… – Belinda começou a erguer a camisa de Gomez – Mas, tenho a impressão de já conhecê-lo… – Belinda disse reflexiva – O que houve? – ela reparou no olhar de Gomez.

— De onde o conheceria?

— Não faço ideia, mas é uma sensação… De todo modo, precisarei de sua ajuda e saberei recompensar, começando agora, é claro… – ela sorriu maliciosamente e permitiu que Gomez lhe tirasse o vestido do corpo.

— O que tem em mente? – Gomez perguntou depois de passar alguns minutos com Belinda de maneira íntima, ele se sentou na cama velha de madeira daquele quarto e se recostou na cabeceira.

— Talvez levá-lo para algum passeio, alguma peça teatral, não importa muito, mas vamos encurralá-lo e darei o golpe final… – Belinda se levantou e começou a se vestir.

— Simples assim?

— Depois levaremos o corpo para algum lugar, e talvez você poderia começar o boato de que fui abandonada, de que ele ficou com medo de minha “maldição”… – ela fez aspas com os dedos e riu, Gomez sorriu, havia algo no sorriso de Belinda Santiago que o fazia se sentir pertencente a ela.

— Não sei se seria bom matá-lo agora… – ele disse desviando o olhar do dela.

— Mas o que há com vocês?! – Belinda se impacientou.

— Vocês? – Gomez tentava encontrar a outra pessoa a qual Belinda se referia.

— Rúbia disse o mesmo para mim, disse que talvez fosse melhor casar e matá-lo depois de um tempo.

— Belinda, já pensou que se algum dia algo der errado, Rúbia também será condenada? Você não devia ter envolvido aquela menina…

— Não vai dar nada errado, Gomez, pare de dizer que vai. Rúbia não seria condenada, eu não permitiria.

— Ela caiu em suas garrafas como uma tola. – Gomez via Belinda o analisar – Você, ao menos, tem afeto por ela? Porque não sei se já notou, mas se aquela menina pudesse, se ela pudesse, Belinda, ela te pediria em casamento.

— Como ousa perguntar das minhas afeições? Eu não envolvi Rúbia, ela quis se envolver. Eu não fiz nada disso apenas para usá-la, você bem sabe.

— Ela está apaixonada por você, Belinda, e você sabe disso, sabe e a leva ao extremo de suas seduções, para depois se afastar.

— Está com ciúmes de Rúbia? – Belinda sorriu erguendo uma sobrancelha – Rúbia é uma jovem mulher, eu não quero que ela pense que não a trataria como ela bem quer que eu trate, eu só preciso que ela espere um pouco, afinal de contas, Gomez, você sabe muito bem o que um pouco de espera pode nos proporcionar na hora certa, não é?

— Então tem afeição pela menina. – Gomez disse um tanto enciumado.

— Gomez, você sabe que para que eu te dê alguma satisfação da minha vida e de minhas escolhas, você precisaria me propor casamento e de fato se casar comigo, não sabe? – Belinda se aproximou de Gomez na cama e passou os dedos nos cabelos castanhos do rapaz.

— Você sabe que não posso te propor nada, não sou de seu nível hierárquico. – ele disse com pesar.

— Então nada de ciúmes, quem sabe, em breve não podemos aproveitar nós três juntos? Eu tenho certeza que Rúbia pode te surpreender, ela aprende rápido…

— Você tirou a honra da menina, Belinda, você não vale nada. – Gomez sorriu.

— Venha, me leve para casa. – ela disse estendendo a mão para ele que aceitou.

Parte 4

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