A temporada social daquele ano estava oficialmente encerrada, mas ainda havia casamentos a serem realizados. O mais aguardado de todos era o de Belinda Santiago. Ninguém estava de fato ansioso para ver a mulher entrando na igreja para contrair matrimônio, todos aguardavam o que aconteceria ao noivo dela.
Alejandro Lopez era um homem que sabia manter reclusão sobre sua vida pessoal. Ninguém sabia de onde ele tinha vindo só sabiam pelo o que supunham dele, talvez um homem rico, pois trajava vestimentas caras e elegantes, talvez um homem de muitas posses ou com um trabalho de boa remuneração. Ninguém sabia exatamente quando ele havia chegado à região, alguns diziam que ele estava há meses hospedado em uma boa hospedaria, quase não saía para eventos com os outros rapazes da alta sociedade, o que se sabia dele era que ele saía de manhã e voltava ao anoitecer, sempre pontual, sempre discreto.
Diziam que uns dias logo após o baile inaugural da temporada, ao qual ele participou, mesmo sem que ninguém se recordasse de sua presença, ele foi até a mansão dos Santiago para levar flores à Belinda, mas a mulher já estava sendo cortejada por Carlos Afonzo García e por isso, Alejandro se retirou de cena, permaneceu com sua pacata rotina na cidade. Ninguém sabia dizer por quanto tempo ele ficaria pela região, talvez esperasse algo, mas nenhuma pessoa sabia informar o que era.
As más línguas logo comentaram que o “algo” que Alejandro Lopez aguardava, em sua passagem pela cidade, era a disponibilidade de Belinda Santiago para mais uma tentativa de casamento, o que todos esperavam que aconteceria na temporada seguinte, visto que os fatais acontecimentos pediam um pouco de reclusão de tantas famílias afetadas por mortes tão trágicas. Mas Alejandro não esperou que a calmaria chegasse. Poucos dias depois do sepultamento de Carlos García, ele se apresentou na sala dos Santiago para pedir permissão de cortejo a Belinda.
Segundo os empregados que estavam na casa, Alejandro Lopez levou três lindos e cheios buquês de rosas em um tom de vermelho vivo, foi cordial e educado, se apresentou e explicou que havia mandado flores no início da temporada, e sabia das recentes fatalidades, mas disse ao senhor e à senhora Santiago que pretendia se casar com Belinda, que a levaria para sua grande propriedade no interior e a afastaria de quaisquer mexericos.
Aquilo, disse uma das empregadas, bastou para que o pai de Belinda, desesperado como estava, aceitasse para sua filha o pedido, implícito, de casamento de Alejandro Lopez. A mulher foi comunicada no jantar daquele mesmo dia e coube aos empregados da mansão espalhar a recente notícia para a cidade.
Interpretando o papel de uma boa filha, Belinda aceitou o pedido de cabeça baixa, ainda fingia estar arrasada pela perda de Carlos, mas pretendia obedecer a seus pais até que seu mais recente noivo tivesse um triste final.
A notícia de que Alejandro pretendia levar Belinda embora logo após o casamento chegou aos ouvidos de Rúbia uns dias depois do baile final. A cidade comentava sobre aquilo a todo o momento e não foi difícil para que uma das amas de Rúbia deixasse escapar para a menina enquanto a arrumava.
— Mas ele já marcou a data? – Rúbia perguntava perdendo o ar e ficando pálida.
— Ainda não, mas parece que pretende fazer isso logo… É engraçado, esse moço mal chegou na cidade e já está sendo alvo de tantos comentários… – a ama disse penteando o cabelo de Rúbia – Ele me é familiar…
— E de onde você o conheceria, ora essa?! – Rúbia perguntou indignada, de onde uma empregada conheceria um homem como Alejandro?
— Não sei dizer, mas o vi passeando pelas ruas ontem quando saí para comprar os mantimentos da casa e era como se eu já tivesse visto ele antes, mas deve ser um grande engano, de onde eu conheceria um homem como esses? – a ama riu e Rúbia ficou pensativa. Queria de algum jeito entrar em contato com Belinda, mas não sabia como, até que veio em sua mente que poderia tentar mandar algum bilhete a ela através de Gomez, mas também não sabia como iria fazer para chegar até ele.
Talvez, pensou ela, seria mais fácil escrever algum bilhete e tentar deixar com alguém da casa dos Santiago caso ela passasse em frente à mansão em alguma caminhada pela cidade. Não era a melhor alternativa, mas Rúbia tentaria, nem que precisasse andar com o bilhete junto a ela para todos os cantos que fosse.
Por sorte, não foi preciso esperar muito mais que um dia para que seu plano, em partes, fosse colocado em prática. Rúbia escreveu o bilhete à Belinda e aceitou sair com suas irmãs mais velhas para um passeio de despedida das duas da cidade, a temporada havia acabado e Alma e Evita deveriam voltar as suas vidas com seus maridos e filhos no interior. Enquanto caminhavam pelas ruas do centro da cidade, Rúbia viu uma carruagem conhecida e sabia que era de Gomez. Aproveitou que suas irmãs estavam concentradas vendo flores e tecidos na feira que ocorria naquela rua e se aproximou do coche, Gomez estava de pé ao lado da cabine.
— Gomez… – Rúbia disse se aproximando discretamente.
— Senhorita Hernandez? – ele viu a menina retirar de sua pequena bolsa de pano um papel.
— Poderia entregar à Belinda? Eu sei que vê ela com frequência… – Rúbia disse um pouco enciumada e ergueu a mão para entregar o papel ao rapaz.
— Mas… – ele tentou questionar.
— Por favor… – ela quase implorou.
— Está bem… – Gomez pegou o bilhete e viu Rúbia se afastar rapidamente.
Em mais uma escapada para se reunir com Gomez, Belinda recebeu o bilhete de Rúbia através do rapaz.
— O que diz aí? – Gomez segurou a tentação de ver o bilhete antes de entregar a Belinda, mas quando os dois ficaram a sós ele resolveu matar sua curiosidade.
— Por que quer saber? – Belinda dizia no quarto de uma casa em que estava sendo sediada uma festa da Rainha. Com a desculpa de que visitaria a monarca, Belinda conseguiu mais tempo para ficar a sós com Gomez.
— Porque, ao meu ver, ela vai me usar como meios de chegar até você e vice-versa, não é? Ou não vai entregar uma resposta a ela? – Belinda sorriu.
— Ela quer me ver, mas sabe que não podemos, qualquer tentativa de encontro com Rúbia significa um risco para ela, é melhor que ela passe por essa fase de se fazer de noiva devastada, em breve terei todo o tempo do mundo para ela…
— E se não tiver? – Gomez perguntou desviando o olhar.
— O que quer dizer com isso?
— Belinda, case-se com ele… – em seu olhar, ele quase implorava.
— Já disse que não, e é por isso que estamos aqui, para planejar tudo nos mínimos detalhes, é questão de dias para ele marcar uma data.
— Vai estar ajudando até mesmo Rúbia se casar-se com ele, vai poder dar a ela o tempo necessário para que ela cumpra o papel de noiva devastada, depois poderá retornar à cidade como uma viúva livre…
— Eu não irei me casar com Alejandro, Gomez, e não estou entendendo o que está querendo me dizer… – Belinda estava atenta a qualquer sinal corporal que indicasse qualquer coisa do rapaz.
— Pois deveria. – Gomez disse emburrado – Bom, não quer que eu dê uma resposta à Rúbia então?
— Não, ela precisa entender que esse tempo será essencial. Agora, venha, vamos aproveitar enquanto podemos… – ela o chamou deitada na cama.
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A falta de resposta de Belinda representou para Rúbia um aperto ainda maior no coração. A menina queria poder vê-la antes de qualquer decisão que a mulher fosse tomar. Tinha para si que se tivesse tempo suficiente para uma conversa, poderia convencer Belinda do que seria melhor a ser feito. Mas Belinda não lhe escreveu um bilhete confirmando um encontro, muito menos um bilhete qualquer com algo que lhe dissesse que Rúbia deveria aguardar o momento certo.
Não foi preciso mais uma semana para que a cidade recebesse a notícia de que uma nova tentativa de cerimônia matrimonial tinha sido marcada. Alejandro anunciou à família Santiago que queria um casamento simples e breve, pois deveria retornar à sua mansão no interior para resolver algumas pendências que não poderiam mais esperar. Ao receber a notícia da data que seria logo na semana seguinte ao anúncio feito por Alejandro, Belinda pensaria no melhor dia para colocar seu plano em prática. Tentou combinar, mais uma vez, os detalhes com Gomez, mas o rapaz não estava mais disponível para ela nos dias que se seguiram.
Belinda sabia observar e analisar pessoas e situações, e a falta de disponibilidade de Frederico Gomez, para tratar de um assunto tão importante para ela, a deixou preocupada. Era quase como se ela sentisse que Gomez estava evitando sua presença. Mas Belinda não acreditaria naquilo, Gomez era seu fiel cúmplice, e infelizmente a agenda de trabalho dele para aqueles dias estava cheia. Foi na véspera do dia planejado por Belinda para o golpe final contra Alejandro Lopez, que ela conseguiu contatar Gomez rapidamente.
— Será amanhã de noite. – ela disse ao sair do palácio real e encontrar o coche do rapaz estacionado no jardim.
— O que será amanhã de noite? – ele perguntou depois de se recuperar do susto de vê-la ali – O que fazia aqui no castelo?
— Vim me certificar de algumas coisas para o plano que será amanhã de noite. – ela disse fazendo parecer óbvio – Você está bem?
— Sim. – ele respondeu com incerteza na voz – Ainda não cogita a ideia de se casar com ele e matá-lo depois?
— Sabe que não. – ela disse seca – Amanhã à noite iremos ao teatro, na saída, o levarei para uma rua deserta, esteja por lá, talvez você precisará me ajudar segurando ele… – Belinda sorriu – Depois damos um fim no corpo.
— Belinda… – Gomez segurou o braço de Belinda quando viu que a mulher se afastava dele.
— O que houve? – ela perguntou surpresa com o gesto do rapaz.
— Case-se com ele…
— Por que ainda insiste nisso? Sabe que não é uma opção. – ela disse com um tom de raiva – Te esperarei amanhã de noite. – ela se afastou de Gomez e saiu do palácio.
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— Você não diz muito sobre como está se sentindo com a aproximação de nossa cerimônia… – Alejandro falava com Belinda ao seu lado, o braço da mulher estava entrelaçado ao dele e os dois caminhavam rumo ao Teatro.
— Eu não sei o que quer que eu diga, senhor Lopez… – Belinda falava tentando parecer tímida.
— Alejandro, já disse que pode me chamar pelo meu nome. – ele sorriu – Diga o que realmente sente.
— Bom, eu mal o conheço e acabei de perder um noivo, eu não sei o que sentir, mas creio que poderemos ser bons amigos e cumprir nossas funções matrimoniais, estou errada?
— Sei que apareci de repente e ainda com a morte do senhor García muito recente, mas meu interesse em cortejá-la data de uns meses atrás, e como eu precisarei retornar a minha cidade, pensei que poderia levá-la comigo como minha esposa, afastá-la dessa cidade que só faz falar mal de você… – ele sorriu e Belinda parou na rua o olhando.
— Grata… – ela disse depois de alguns segundos – Bom, é hora de aproveitarmos a peça… – ela disse olhando para a entrada do local e os dois seguiram caminho para o Teatro.
As horas passavam e Belinda já não prestava mais atenção na peça que estava acontecendo, diversas vezes, discretamente, passou a mão em sua perna direita para sentir que sua arma para o crime ainda estava amarrada em sua perna. O ato final estava se encerrando e a hora fatal estava se aproximando. Sem saber o motivo, Belinda começou a respirar aceleradamente, não estava entendendo aquele nervosismo, nunca havia ficado nervosa depois de anos de prática, deveria ser apenas o espartilho que a impedia de respirar de maneira normal.
— Por aqui… – ela disse na saída do grande teatro e puxou Alejandro pelo braço para que eles tomassem uma direção diferente da que o resto da plateia tomava para seus respectivos coches.
— Para onde está indo? Os coches estão do outro lado, Belinda… – Alejandro a acompanhava com dúvidas.
— Demoraremos muito tempo para que nossa carruagem consiga sair daquele emaranhado de pessoas e cavalos, por isso pedi que nosso cocheiro nos esperasse nessa rua mais afastada.
De fato, a rua que Belinda levava Alejandro estava vazia, ao final dela havia uma carruagem e à espera dos dois um velho conhecido de Belinda os aguardava.
— Você pensa em detalhes… – Alejandro disse adentrando a rua que tinha uma péssima iluminação e estava completamente em silêncio. Belinda não o respondeu, ficou quieta se preparando para mais uma morte – Está tudo bem? – ele disse vendo que Belinda havia diminuído o ritmo de sua caminhada e por um breve momento parou atrás dele.
— Está sim. – ela disse sorrindo, já estava com a adaga na mão, escondia em suas costas.
— O que tem aí atrás? – Alejandro perguntou se aproximando da mulher.
— Nada demais… – ela respondeu e viu Gomez andar apressado em sua direção, o rapaz balançava a cabeça negativamente e Belinda não conseguia entender o que ele fazia. Alejandro tinha um olhar confuso para Belinda e o arregalou quando a mulher tirou a mão das costas e empunhou a adaga pronta para acertá-lo. Mas Gomez correu até ela e segurou seus braços – O que está fazendo?! – ela estava indignada com a atitude de seu cúmplice, olhou para Alejandro que sorria.
— Eu imaginava que isso aconteceria… – Alejandro disse vendo Gomez segurar Belinda com força depois de jogar a adaga da mulher no chão.
— Gomez! Me solte! – Belinda não conseguia entender o que estava acontecendo – É uma ordem!
— Gomez, não vai te obedecer, Belinda, ele trabalha para mim. – Alejandro disse e viu Belinda arregalar os olhos confusa, a mulher estava indignada e estava sendo mantida presa nos braços de Frederico Gomez – Estou de olho em você desde seu terceiro noivo morto, Belinda Santiago. Fui contratado pela família de Lorenzo para saber onde o rapaz estaria e fiquei na cidade desde então, observando seus passos, observando suas temporadas sociais.
— Lorenzo fugiu. – ela disse entredentes.
— Sim, por isso fui chamado, para encontrá-lo, mas e se ele não fugiu? – Alejandro perguntava para a mulher sem reação – Bom, nada do que tentar me dizer vai te safar de alguma coisa, Belinda, você estava prestes a me matar, não tenho como provar que matou Lorenzo apesar de minhas suspeitas estarem sendo confirmadas nesse momento, mas tenho como provar que tentou cometer um homicídio. – ele olhava vitorioso para Belinda e a mulher tentava encarar Gomez de alguma forma, mas não conseguia, não conseguia olhar no fundo dos olhos do rapaz e tentar entender o motivo daquela traição – Lorenzo foi dado como desaparecido, houve boatos de que teria fugido para não se casar com você, então, enquanto cumpria meu serviço de tentar achá-lo, eu observava seus passos, tinha uma leve suspeita na época de que sua “maldição” – ele fez aspas com os dedos – não era mera coincidência. Acontece que seu quarto noivo morreu sem sua ajuda, apesar de eu desconfiar de você, não pude comprovar seu crime, muito menos com os outros dois que se seguiram, como poderia provar que você era a assassina se planejou tudo nos mínimos detalhes?
— Não poderá provar. – Belinda disse seca e se debatia para tentar fugir dos braços de Gomez.
— Essas antigas mortes não poderei provar, mas tenho um flagrante.
— Está tentando me ludibriar, não é? – Belinda tentava tirar suas conclusões depois de ficar observando as reações de Alejandro – Pois, meu caro, sua palavra não valerá de nada, eu já entendi seu jogo, mas acontece que você é novo na cidade, do contrário, já teríamos te visto nos anos anteriores.
— Repito o que eu disse: você pensa nos detalhes… – Alejandro sorriu – Estava em serviço, Belinda, tinha minhas desconfianças e para isso era necessário que eu me mantivesse oculto. Por isso eu rondei seu círculo social, me disfarçava de jardineiro real, de um mero serviçal, pessoas que você jamais notaria, foi assim que me aproximei de Gomez, foi assim que o convenci que seria melhor ele trabalhar para mim e ser poupado de um terrível julgamento que poderia levá-lo à morte, do que continuar sendo seu capanga e amante nas horas vagas… – Belinda entendeu, naquela hora, as atitudes de Gomez, as preocupações do rapaz, as suposições que ele fazia caso um dia descobrissem seus crimes – Bastou para ele que eu lhe desse uma opção de ter uma pena mínima, do que perder a vida, como talvez aconteça com você.
— Com o dinheiro que teria, com tudo o que sempre te providenciei, você me traiu desse jeito? – Belinda disse e sabia que Gomez não a encararia nos olhos.
— Dinheiro é bom, Belinda, mas não compra uma vida… – Alejandro voltou a falar – Eu estava na despedida de solteiro de Juarez, o noivo de sua amiga…
— Ela não teve culpa! – Belinda se desesperou ao perceber que Rúbia poderia estar tão encrencada quanto ela – Ela não teve culpa!
— Está me confessando alguma coisa? – Belinda ficou calada – Como disse, não posso te prender pelos crimes que não possuo provas, mas posso te prender pela tentativa de me matar, quem decidirá seu destino será a suprema corte, querida… – ele usou o bordão de Belinda com extrema ironia – Mas se quiser salvar sua amiga de um final como o seu, sugiro que na hora, você confesse seus atos, porque bastará que apenas uma pessoa ligue os fatos e Rúbia Hernandez também será condenada. – ele olhou para Gomez que segurava firme os braços de Belinda – Vamos, leve-a daqui direto para a prisão.
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Rúbia levantou na manhã seguinte e viu sua mãe no quarto com um semblante sério e aflito.
— O que houve, minha mãe? – ela perguntou ao se sentar na cama depois de se recuperar do susto.
— Rúbia, há um assunto sério que preciso tratar com você… – a senhora Hernandez dizia séria – O que sabia da vida de Belinda Santiago? Vocês estavam cada vez mais próximas nessa temporada…
— Minha mãe, Belinda só precisava de amigos e eu fui a única que me ofereci para isso… – Rúbia dizia tentando entender aonde sua mãe queria chegar.
— Belinda Santiago foi presa por tentativa de assassinato de seu mais recente noivo. – a senhora Hernandez foi direto ao ponto, Rúbia sentiu sua pressão cair – Já estão falando de rumores que ela tenha matado os outros, que ela matou Carlos… E estão comentando se há sua participação em um ato hediondo como este.
— Como a acusaram de coisas assim?! – Rúbia não sabia o que tinha acontecido, mas tentaria defender sua amiga e fingir que não sabia de nada.
— Bom, ao que parece, Alejandro Lopez, o oitavo noivo dela, na verdade era um detetive contratado pela família de Lorenzo para saber o paradeiro do rapaz que sumiu às vésperas do casamento com Belinda anos atrás. – a mãe de Rúbia estava muito séria – Na noite de ontem, ela o levou para uma armadilha e tentou matá-lo, mas como ele já esperava por aquilo, a prendeu na hora.
— Não… – Rúbia não queria acreditar – Belinda não pode estar presa…
— Peço que me diga com toda a sinceridade que há no mundo: você sabia dessas coisas, Rúbia? Porque Belinda será julgada e possivelmente condenada ao enforcamento, e se desconfiarem que você, por ser amiga dela, teve alguma participação, mínima que seja, nesse estilo de vida que ela levava, você poderá ser condenada também… – a senhora Hernandez se aproximou de Belinda, mantinha a seriedade na voz, mas seu olhar estava desesperado e cheio de lágrimas. Rúbia não sabia o que responder, só começou a chorar, sua mãe a abraçou forte – Pelo seu bem, Rúbia, pela nossa família, você precisa dizer que não sabe de nada, me entendeu? – ela falava chorando com a filha, tinha entendido que a falta de resposta de Rúbia e seu desespero por saber das recentes notícias significavam que Rúbia tinha conhecimento de alguma coisa, mas como mãe, a senhora Hernandez faria de tudo para proteger sua filha.
Belinda estava sendo mantida em uma cela na prisão da cidade, com outros criminosos que ao verem a mulher sendo levada para lá de madrugada, ficaram confusos e ao mesmo tempo curiosos para entender o que havia acontecido. Belinda permaneceu calada, seu olhar dizia tudo o que ela queria dizer, principalmente quando Gomez a trancou dentro do cubículo da prisão. Ela o olhou com raiva e Gomez desviou o olhar, não teria coragem de olhá-la nos olhos sabendo que se fizesse aquilo, a ajudaria escapar de um terrível fim.
No dia seguinte, a notícia já havia se espalhado pela cidade, a mãe da menina entrou correndo no corredor da prisão e se aproximou das barras de ferro que separavam sua filha da liberdade.
— Belinda, é mentira, diga a eles que eles cometeram um engano! – a senhora Santiago chorava desesperada, e por mais que Belinda não tivesse muito afeto pela mãe ou pelo pai, ela ficou com pena de vê-la daquele jeito, preferiu continuar calada, seu silêncio confirmava para uma mãe desesperada que sua filha não mentia, que não tinha sido presa por engano.
— Me explique, moça, o que te fez vir parar aqui? – quando a mãe de Belinda foi retirada daquele lugar, um dos prisioneiros se aproximou das grades de sua cela e perguntou olhando para a cela de Belinda.
— Não a reconhece? – outro prisioneiro dizia fazendo o mesmo que o primeiro, se aproximando das barras de ferro e olhando para a cela de Belinda – É a mulher com a maldição, Belinda Santiago, a eterna noiva…
— O que vossa senhoria faz aqui? – o primeiro prisioneiro a fazer o questionamento voltou a perguntar rindo, seus dentes eram sujos e podres, Belinda evitou olhar para ele, estava enojada.
— Isso não lhe diz respeito. – um senhor entrou no recinto acompanhado de um guarda em serviço – Senhorita Santiago, me chamo Pablo Riquelme, sua família me contratou para ser seu advogado. – Belinda olhou o senhor que tinha um bigode branco, mas uma postura elementar – Pedi para que a tirassem daqui, seu cárcere será em um lugar mais adequado onde poderemos tratar todos os assuntos até o julgamento. – com um sinal de cabeça, o Dr. Riquelme pediu para que o guarda abrisse a cela de Belinda e a mulher foi levada para uma parte daquele prédio com um quarto aos fundos – Você precisará me dizer toda a sua verdade, os boatos correm soltos nessa cidade e seu julgamento será difícil.
— Boatos não vão comprovar que sou uma criminosa, pelo o que sei, o único crime de que estou sendo acusada é a tentativa de homicídio de Alejandro Lopez. – ela disse depois de analisar o ambiente em que estavam. Um quarto com uma janela ao alto com barras grossas de metal. Havia uma cama no ambiente e uma cadeira que Pablo Riquelme se sentou. Belinda tinha a impressão de que estava no subterrâneo.
— Você está certa, mas a acusação tem Frederico Gomez como testemunha. – Belinda sentia seu sangue congelar – Aqui entre nós, senhorita Santiago, há algo que o senhor Gomez poderá usar para se safar de uma condenação à morte e que te prejudique? – ela não respondeu, mas em sua mente sabia que a resposta era “sim”.
A cidade estava fervilhando com as recentes notícias, com os boatos, com os apontamentos à família Santiago e à família Hernandez que enfrentava um furacão que não aparentava que passaria tão cedo. Os boatos do envolvimento de Rúbia na morte de Juarez estavam cada vez mais fortes. Zenon ao ouvir aquilo não soube o que pensar, o rapaz já não andava nada bem com a morte de seu melhor amigo, desconfiar que sua irmã teria alguma participação o deixou sem estrutura. Por sorte, Evita e Alma já não estavam mais na cidade, mas saberiam das notícias em breve. Javier defendia a irmã com unhas e dentes e Rúbia fez o que combinou com sua mãe: negou todos os rumores com dor no coração, pois pensava em Belinda e em como ela se sentiria ao saber que, de um jeito ou de outro, Rúbia havia traído sua confiança.
— Peço que amanhã só fale se te dirigirem a palavra e tente não responder as perguntas impulsivamente, basta dizer “sim” ou “não”. – o advogado de Belinda passou os três dias seguintes à prisão da mulher visitando-a para discutirem como seria o julgamento.
— Certo… – Belinda sentia que não teria muitas chances de se safar, aceitava o que o advogado falava, seria um julgamento difícil.
Depois da saída do Dr. Riquelme da cela especial de Belinda, o guarda abriu a porta e deixou que Alejandro entrasse no recinto.
— O que faz aqui? – ela perguntou e poderia matá-lo com o olhar se tivesse como.
— Seu julgamento promete ser um grande espetáculo, Belinda. – Alejandro disse se aproximando da mulher, Belinda o olhou com nojo – Bom, acho que vai se interessar em saber que o que eu disse se concretizou, ligaram os pontos dos seus noivados e já há boatos de que Rúbia Hernandez é sua cúmplice na morte de Carlos García e Juarez Fuentes. – Belinda não poderia permitir que condenassem Rúbia – Tudo dependerá de uma pessoa, na verdade duas: você e Frederico Gomez. Já imaginou o que ele poderia revelar para se safar da morte? – Alejandro sorriu, Belinda sentia o chão sob seus pés desabafar – Mas dependendo de como o julgamento se desenvolver, talvez caberá apenas a você decidir sobre a vida de mais uma pessoa. Irônico, não acha? – Alejandro riu. Belinda entendeu o que ele quis dizer, entendeu que ela poderia se declarar culpada de tudo para poupar uma vida, mesmo que a sua fosse encerrada. Mais uma vez, era ela quem decidiria a vida de alguém.
O julgamento seria um grande evento. Havia anos que não acontecia algo monumental como o que estava para acontecer, nem mesmo a Rainha Guadalupe com todos os seus anos de reinado havia presenciado algo como aquilo. Os crimes que ocorriam na região eram tratados rapidamente, as condenações eram banais, poucas eram as sentenças mais graves como a que esperava Belinda.
A corte do reino foi ao público. O julgamento seria em um lugar propício para quem quisesse assistir, seria no castelo, em um espaço destinado às audiências daquele nível que há muito não era utilizada.
O grande dia havia chegado e o público começava a aparecer para um grande espetáculo. Todas as famílias dos noivos de Belinda estavam lá, prontas para saberem a verdade. Os Santiago estavam devastados, não queriam acreditar na filha que tinham. Quando a família Hernandez chegou, os comentários se direcionaram para Rúbia que mantinha a cabeça baixa e os olhos inchados de tanto chorar.
Depois de todos acomodados, a guarda real anunciou a presença dos grandes monarcas, o Rei Estevan e a Rainha Guadalupe, seguidos do Juiz e os participantes do julgamento.
— Peço a todos que permaneçam em silêncio. – o Rei Estevan disse ao se dirigir até seu lugar naquela corte, o público ficou quieto – Daremos início ao julgamento de Belinda Santiago, mantida sob cárcere por tentativa de assassinato de seu, então, noivo, Alejandro Lopez.
— Que tragam a prisioneira. – O juiz tomou a frente do julgamento e pediu para que a guarda real trouxesse Belinda. Ao verem a mulher, os xingamentos começaram, o público fervilhava de ódio e indignação – Silêncio… Silêncio! – o juiz gritou e bateu o martelo para chamar atenção, aos poucos, o público ficou em silêncio. Belinda estava diferente, não parecia em nada com a Belinda de beleza divina que sempre conquistava muitos rapazes em cada temporada que esteve. Suas vestes eram mais simples, seu cabelo estava solto, liso, dava a ela uma aparência de ser mais velha. Ela estava com as mãos acorrentadas e foi levada ao seu lugar de acusada – Que entrem a acusação e a defesa. – o juiz pediu, e Belinda viu entrar seu advogado, tentou ter esperança, mas sabia que não deveria criar expectativas. O julgamento havia começado.
A acusação fazia seus apontamentos, perguntava coisas para Belinda e a mulher se mantinha calada e com a cabeça abaixada, respondia apenas as perguntas em que poderia dizer “sim” ou não”, como foi aconselhado pelo Dr. Riquelme. Da plateia, Rúbia chorava baixinho ao ver a situação de sua amiga e saber que não poderia fazer nada, a menos que aceitasse a consequência de que sua família seria destruída.
— E que provas o senhor teria para endossar sua acusação, doutor? – o Juiz perguntou ao advogado de Alejandro Lopez. O senhor havia acabado de acusar Belinda das outras mortes as quais a cidade vivia comentando.
— Tenho uma testemunha. – o senhor disse.
— Pois que entre a testemunha… – o juiz pediu e Frederico Gomez foi escoltado até o lugar indicado. Belinda estava desesperada, Gomez havia traído ela de uma maneira que seria destruidora para muita gente, ele sabia de muitas coisas de Belinda e podia falar tudo o que sabia sobre Rúbia também – O senhor jura dizer a verdade e somente a verdade na presença de Deus, do juiz e dos excelentíssimos regentes de nosso reino, o Rei Estevan e a Rainha Guadalupe? – o juiz perguntou para Gomez.
— Eu juro. – ele respondeu e olhou para Belinda que tinha os olhos marejados.
— A defesa pode fazer seus questionários. – o juiz permitiu que o advogado de Belinda se prontificasse.
— Por que o senhor seria testemunha de crimes contra a senhorita Santiago que não possuem provas?
— Estava com ela e com o senhor Alejandro Lopez no dia da tentativa de assassinato. – Gomez respondeu olhando para Belinda que tentou implorar com o olhar para que ele não dissesse mais nada.
— Isso não responde a minha pergunta, senhor Gomez. A acusação está dizendo que o senhor tem conhecimento de outros crimes de Belinda Santiago, há provas de que eles ocorreram?
— Não. – Gomez disse ainda olhando para Belinda.
— Então seu testemunho se voltará apenas para o crime com flagrante, correto?
— Protesto, vossa excelência! – o advogado de Alejandro se levantou – Ele está induzindo a resposta da testemunha!
— Protesto aceito, reformule seu questionamento, doutor Riquelme. – o juiz disse.
— Vossa excelência, não há provas de que as outras mortes foram ocasionadas por minha cliente, o senhor Frederico Gomez está aqui como testemunha de apenas um crime, peço para que a acusação retire o que disse a respeito da senhorita Santiago. – Pablo Riquelme disse alto. Todos naquele julgamento estavam atentos aos mínimos acontecimentos, era como se todo mundo prendesse a respiração para que nenhum ruído atrapalhasse o ouvido de ninguém.
— Proposição negada, a decisão a ser tomada por esse julgamento, pode servir de investigação para as demais acusações. – o juiz disse – Senhor Gomez, o que diz a respeito das demais mortes? – o juiz perguntou a Gomez que ficou sem falar por alguns segundos. Belinda discretamente pedia com um aceno de cabeça e com o olhar piedoso para que Gomez não revelasse nada, e o rapaz a olhava com pesar, sabia que havia poucas pessoas a quem Belinda realmente se importava na vida, uma delas era Rúbia. Belinda não estava aguentando aquela apreensão e se colocou de pé, todos olharam para ela naquele momento – Senhorita Santiago, peço que se sente se não tem nada a dizer.
— Mas eu tenho. – Belinda disse olhando para Gomez e percebendo que, para poupar sua vida de uma sentença drástica, ele falaria tudo o que sabia, só havia uma alternativa para Belinda livrar Rúbia de um triste final. O público começou o alvoroço e em poucos segundos o barulho era tamanho que o Juiz não conseguia se fazer ser ouvido, então ele bateu o martelo de madeira da mesa para chamar a atenção.
— Belinda, o que vai fazer?! – o doutor Riquelme se aproximou de Belinda, indignado – Não diga nada, talvez consiga te livrar de uma pena de morte…
— Silêncio! – o juiz gritou – Por favor, vamos escutar o que a senhorita Santiago tem a dizer! – todos ficaram atentos, Belinda permaneceu de pé, olhou para Alejandro ao canto do lugar, olhou para Rúbia que chorava. Seus olhos se encontraram e Rúbia tentava se comunicar com Belinda através deles. De alguma maneira elas estavam se entendendo.
— Eu confesso. – ela disse alto. A multidão presente liberou um sonoro “oh” de surpresa, Rúbia sentiu seu peito apertar.
— Belinda, fique quieta. – o advogado da menina implorou.
— Confessa o quê, senhorita Santiago? – o juiz queria detalhes.
— Todos os crimes aos quais estão me acusando, confesso que executei Diego, Ruan, Lorenzo, Costa, Marques, Carlos Afonzo García e também Juarez Fuentes. – o silêncio pairou sobre todos – Cristian foi o único que acabou morrendo por conta própria, de resto, confesso que matei todos esses outros, e tentei matar Alejandro Lopez.
— Por quais motivos? – o juiz perguntou depois de um tempo.
— Eu nunca quis me casar e não vi alternativa diferente para escapar desse destino de todas as mulheres. – Belinda falava séria.
— Mas e quanto a Juarez Fuentes? Qual motivo teria para matá-lo? – o juiz indagava.
— Na noite em que matei Carlos, me disfarcei de prostituta para executar meu plano, sabia que ele daria uma festa para Juarez em comemoração de seu casamento com Rúbia Hernandez. Estive na festa deles, e matei Carlos, mas Juarez estava junto de meu noivo na hora do crime, então o matei também. – Belinda falava e olhava para Gomez.
— Mas há testemunhas que dizem que você foi vista no jantar da Rainha Guadalupe para as moças da temporada e que saiu… – o juiz ia falar sobre os relatos que ouviu.
— Eu saí daquele jantar porque já tinha traçado meu plano de eliminar Carlos. – Belinda implorava com o olhar para que Gomez não a desmentisse.
— E os rumores da cumplicidade Rúbia Hernandez? – o juiz perguntou olhando para Gomez – Senhor Gomez, estava lá naquela noite?
— Sim, estava. – ele respondeu abaixando o olhar.
— Viu a senhorita Santiago sair do jantar acompanhada? – Gomez olhou para Belinda e, rapidamente, olhou para Rúbia chorando na corte, Belinda implorava com o olhar.
— Levei a senhorita Belinda até o local da festa do senhor Fuentes, ela estava sozinha. – Belinda respirou aliviada, assim como Rúbia e sua mãe que se abraçavam sentadas, mas Rúbia também temia pelo o que aconteceria em seguida.
— Excelentíssimo, eu sou ré confessa, os crimes foram premeditados por mim, se há boatos envolvendo a senhorita Hernandez, eles devem ser desmentidos agora. – Belinda falou com a voz mais forte – Diga a ele, Gomez. – ela olhou para Belinda.
— Vossa Excelência, minha cliente está abalada com todas as acusações, peço que… – Pablo tentava salvar Belinda de alguma forma.
— Não estou. Diga a ele, Gomez. – Belinda o interrompeu e voltou a olhar para Gomez.
— A senhorita Santiago está dizendo a verdade. – Gomez disse abaixando o olhar – Trabalho como cocheiro, excelentíssimo, faço trabalhos para as festas da realeza, mas fora esses eventos, trabalho para quem contrata meus serviços. A senhorita Belinda me contratou algumas vezes, assim como o senhor Alejandro que me contratou para ajudá-lo a desmascarar Belinda. Estava trabalhando duplamente.
— Confessa, definitivamente, que Lorenzo Martine está morto? – o juiz perguntou para Belinda, a família de Lorenzo ansiava uma resposta.
— Ele está enterrado na estrada que nos leva à cidade vizinha… – Belinda disse e o grito de dor da mãe de Lorenzo soou alto naquele ambiente.
— Alguém a ajudou nesse crime? Senhor Gomez, por exemplo? – juiz perguntou.
— Não citarei nomes, a autoria é minha, portanto, a culpa é minha, apenas minha. – Belinda mantinha sua postura. Todos na corte estavam atônitos. O advogado de Belinda a olhava indignado.
— O que foi que você fez?! – doutor Riquelme perguntou para a mulher que ficou calada.
— Faremos um intervalo nesse julgamento. Levem a acusada de volta para fora pelo tempo determinado. – o juiz disse e dispensou a corte.
— Está a salvo, querida… – a senhora Hernandez falou ao ouvido de Rúbia que não parava de chorar.
— Eu preciso vê-la… – Rúbia disse decidida.
— Não. – sua mãe a impediu – Acabou, Rúbia, você não a verá mais, estamos a salvo de sua difamação. Você não irá ver essa assassina.
— Talvez ela morra! – Rúbia disse soluçando – Por favor, minha mãe…
— Não me faça mandar te levarem para a casa, Rúbia. – ela disse e Rúbia estava devastada.
Depois de intermináveis minutos que mais pareceram horas, o Juiz voltou à corte e pediu silêncio para os que estavam presentes. Todos aguardavam o veredito final.
— Tragam a prisioneira. – o juiz pediu e levaram Belinda para o lugar de acusada – Belinda Santiago se declarou ré confessa de sete assassinatos, e uma tentativa de homicídio contra o senhor Alejandro Lopez. Para crimes como este, o veredito é um só: enforcamento. – Rúbia soluçou alto assim como a mãe de Belinda – A acusada ficará sob cárcere na prisão real até que o dia de sua sentença, que ocorrerá aqui mesmo no dia e hora determinados pelos reis. Todos estão dispensados. – batendo o martelo uma última vez, a multidão voltou a falar alto. Xingavam a mulher que seria enforcada. O advogado de Belinda estava surpreso, tentou falar com ela, mas a guarda real a retirou do recinto antes que começassem a jogar coisas para atingi-la.
Rúbia voltou para sua casa de coração dilacerado, queria tentar se despedir de Belinda, não suportaria ver sua execução, a dor que estava sentindo era tamanha que ela mal conseguia respirar. Foi então que notou que seu afeto com Belinda era maior do que pensava, ia além de se achar amiga da mulher. Em seus sonhos mais esperançosos, se via vivendo com Belinda como grandes amigas que mantinham uma vida secreta da sociedade, mas estariam felizes, aquele sonho não se realizaria.
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Passos eram escutados no corredor que levava até a cela de Belinda na prisão real. A mulher imaginou que seria mais uma vez sua mãe, ou talvez seu pai.
— Terá cinco minutos. – o guarda real disse e se afastou, Belinda estava deitada no colchão sujo daquele lugar, levantou seus olhos para a cela e viu Gomez do lado de fora das barras de ferro.
— Por favor! – Belinda gritou para o guarda – Tire-o daqui, não quero receber ninguém, muito menos ele!
— Belinda, pare! – Gomez pediu.
— Vá embora, você me traiu.
— E agora minha vida vale menos que a sua? Belinda, eu tentei impedir que fizesse isso, eu tentei deixar implícito, mas você não conseguia ver além de seus próprios problemas. – Gomez segurava a vontade de chorar.
— Se queria me ajudar deveria ter me alertado com mais clareza.
— Você sempre foi a melhor em decifrar enigmas, achei que… – ele olhou para a mulher que chorava – Você realmente tem um grande afeto por Rúbia, não é? Achei nobre o que fez…
— Quem é você para me falar de nobreza?! – Belinda se aproximou da cela e sentiu Gomez segurar sua mão – Me solte.
— Belinda, por favor… Eu temo por minha vida… – ele não soltava da mão de Belinda – E você temeu também, poderia ter me acusado e não o fez…
— Eu não sou uma traidora como você, Gomez. Eu fiz o que fiz para que… – ela parou de falar.
— Para que o quê?
— Para salvar vocês dois, mas não pense que eu o perdoei de sua traição! – ela conseguiu se soltar do braço de Gomez e se afastou chorando – Vá embora, eu não quero receber visitas às vésperas da minha morte!
— Belinda… – Gomez já não continha as lágrimas.
— Guarda! – ela gritou pelo guarda que apareceu logo em seguida.
— Seu tempo esgotou, senhor Gomez… – o guarda avisou e Gomez, antes de ir embora, ficou olhando para Belinda por mais alguns segundos, tentando gravar seu rosto na memória, tentando captar todos os detalhes que ainda podia.
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Sem condições de assistir à execução de Belinda, Rúbia ficou em seu quarto quando o temido dia chegou. Da janela escutava a multidão enfurecida gritar palavras horríveis contra Belinda e pelo barulho sabia que a mulher já devia estar com a corda no pescoço. Houve um silêncio que Rúbia sabia o que significava, abriram o fundo falso da plataforma que Belinda deveria estar e a mulher se debatia pendurada pelo pescoço até que não conseguisse mais respirar. Pouco tempo depois, os gritos em comemoração à morte de Belinda Santiago se espalhavam pela cidade que se sentia vingada. Rúbia caiu no chão com dor no coração, não conseguia respirar direito tamanha era sua perda.
Um ano havia se passado daquela temporada social de tantas extravagâncias. A família Hernandez, mais uma vez levaria Rúbia para o baile inicial, contra a vontade da garota, mas Rúbia tinha a esperança de que ninguém fosse desejá-la, principalmente depois do ocorrido com Belinda. Ainda pairava em algumas bocas que Rúbia esteve envolvida na morte de Carlos, havia quem dissesse que ela também estava disfarçada como prostituta na noite em que Juarez e Carlos foram encontrados mortos, aqueles boatos que não se encerravam era o que trazia esperança para Rúbia de não precisar enfrentar um casamento.
Mas sua surpresa foi grande, quando logo depois do primeiro baile da nova temporada, um senhor apareceu em sua casa para cortejá-la, e a família, temendo mais comentários, permitiu que aquele senhor propusesse a mão de Rúbia.
— E se houver outros pretendentes? – a menina perguntava desesperada para a mãe.
— E se não houver? É melhor que case de uma vez e assim teremos paz! – a senhora Hernandez respondia.
Fadada a um destino que não queria, sem a presença de sua amiga e paixão secreta, Rúbia se viu sem escapatória daquele casamento, a menos que seguisse os passos de Belinda, mas ela sabia que as consequências seriam ainda maiores, uma vez que a mulher tinha se confessado no ano anterior.
Pensando a respeito de suas possibilidades, Rúbia lembrou com ternura do ato de Belinda antes de ser condenada à morte. A mulher tinha mentido para que Rúbia não levasse a culpa e não fosse condenada, seria certo seguir seus passos depois daquilo? Será que Belinda ficaria feliz em saber que Rúbia se casou e nunca mais foi vítima de boatos? Não. Rúbia sabia que se Belinda estivesse viva, tentaria persuadi-la a fugir do casamento a qualquer custo. Seu único ato de compaixão por alguém foi no dia de seu julgamento, fora isso, Rúbia sabia que Belinda era capaz de tudo sem sentir um pingo de remorso.
Decidida, Rúbia arrumou uma mala. Sentou em sua cama e tentou pensar como Belinda. O que faria? Até que decidiu envenenar seu futuro noivo e depois fugir da cidade. Seria alvo de buscas e falatórios que deixariam sua família com uma péssima fama, mas tinha esperança de que tudo se apaziguasse quando Dulce estivesse em sua temporada de casamentos, até lá seriam anos que Rúbia não iria querer passar estando casada com um velho que mal conhecia.
No dia seguinte, ela soube que seu pretendente estaria em uma reunião de amigos, e que em tal reunião, prostitutas apareciam para satisfazê-los. Não teve dúvidas de como e quando colocaria seu plano em ação. Discretamente entrou em contato com quem saberia que talvez pudesse ajudá-la.
— Você só pode estar louca. – Gomez respondeu para Rúbia quando ela conseguiu encontrá-lo em uma tarde antes da reunião de amigos que seu pretendente estaria – Belinda morreu para te proteger, me fez mentir perante o rei e o juiz e você está me pedindo ajuda para outro crime?! Vão desconfiar de você na mesma hora, eu não quero ser condenado.
— Posso pagar. – Rúbia disse prontamente.
— Minha vida não vale esse dinheiro.
— Você gostava dela, não gostava? Eu sei que tinham um caso, que se encontravam às escondidas. – Rúbia viu Gomez ficar sem ter o que falar – Seria como uma homenagem a ela.
— Você está insana.
— Não minta para mim, Gomez, sei que já cometeu crimes assim e ajudava Belinda porque gostava dela. Cabe a nós dois mantermos esse legado…
— E sair por aí matando as pessoas que te propuserem casamento? – Gomez riu ironicamente.
— Será só mais esse e com o dinheiro que terá, você poderá viajar o mundo.
— E quanto a você? Como vai conseguir o dinheiro?
— Tenho o segredo do cofre de meu pai, e quanto a mim, eu vou ficar bem. O que me diz? – Rúbia insistiu – Por ela…
— Você tinha uma paixão secreta por Belinda, não é? Eu via em seus olhos o seu desejo… – Gomez disse vendo Rúbia corar – Estaria disposta a isso para não se casar e ainda “homenagear” – ele fez aspas com os dedos – uma assassina?
— Não imagina o poder que essa pergunta tem sobre mim, Gomez. Não imagina o que eu estaria disposta a fazer… – o rapaz passou a mão na testa secando o suor que escorria.
— Ela criou um monstro… – ele disse por fim e viu Rúbia sorrir como Belinda sorria, maleficamente.
— Confesse que mantinha o relacionamento com ela por conta do jeito que ela tinha… Confesse que se pudesse a teria como esposa… – Rúbia sabia as palavras certas para usar.
— Saia de casa e me encontre nos fundos da rua… – Gomez disse concordando com o plano de Rúbia – Leve o dinheiro, ou nada feito. – Rúbia estava em êxtase.
Na noite esperada, Rúbia carregava consigo duas malas, uma com seus pertences e roupas e outra com o dinheiro que roubou do cofre de seu pai. Gomez a esperava na rua combinada que estava escura e silenciosa.
— Está certa disso? – ele perguntou uma última vez.
— Sim. – Rúbia sorriu – Trouxe meu disfarce e o veneno? – ela perguntou e Gomez abriu a porta da carruagem mostrando tudo o que ela queria ver.
— Trouxe o dinheiro? – ele perguntou e Rúbia abriu a mala que continha notas altas – Estive pensando, sabe a vida que lhe aguarda depois disso, não sabe? Uma vida miserável.
— Sei, mas vou saber me virar. – Rúbia disse entrando no coche.
— Belinda não iria permitir isso.
— Belinda morreu. – Rúbia falou sentindo uma pontada no peito.
— Sim, mas me sinto responsável por você. – Gomez falava a verdade, ele sentia ciúmes da afeição de Belinda por Rúbia, mas seus sentimentos pela mulher o faziam aceitar qualquer coisa.
— Não há necessidade.
— Não há mesmo, mas não ficaria em paz se soubesse que te larguei em uma cidade qualquer para viver de migalhas, Belinda não me perdoaria. – Gomez falava.
— O que quer dizer? Não vai me largar em uma cidade qualquer como era nosso combinado? – Rúbia o olhou confusa.
— Serei como seu guardião. – ele disse decidido – É isso que devo fazer, é isso que Belinda iria mandar que eu fizesse.
— Vai seguir ordens dela mesmo morta? – Rúbia perguntou.
— Se aceitar, vou. – Gomez sorriu.
— Não se sinta responsável, Gomez, eu vou saber me virar. – Rúbia o olhava e entendia que o rapaz se sentia culpado por tudo o que tinha acontecido no ano anterior.
— Eu sou responsável, Rúbia. – ele disse – Belinda se entregou para que nem eu e nem você fôssemos alvo de um julgamento, ela se entregou por mim sabendo que eu havia traído sua confiança. Ela se entregou por você. Se ela está morta a culpa é minha e agora me resta tentar evitar que o mesmo aconteça a você, sei que é isso que ela iria exigir de mim e eu a obedeceria em qualquer circunstância, ela estando viva, ou morta.
— Você a amava… – Rúbia disse de olhos abaixados.
— Você também. – Gomez falou – Serei seu guardião, Rúbia, aceite. – Rúbia olhou para ele e olhou para a mansão de sua família que tinha as luzes todas apagadas. Com um pesar no coração ela entrou no coche.
— Está bem… – ela disse concordando com a ideia de Gomez – Agora vamos, tenho um homem para matar. – Gomez fechou a porta da cabine e se colocou em seu lugar na carruagem, atiçou os cavalos que começaram a cavalgar pelas ruas escuras.
Era o início de uma nova fase para os dois.
