Da janela da mansão, Sophia via um caminhão chegando e parando na entrada do condomínio fechado. O caminhão era grande com uma carreta maior ainda, a porta do veículo se abriu e de lá desceu alguém que Sophia não via há muito tempo.
— Sophia! Já está pronta? Desce! – alguém gritava do primeiro andar da casa.
Sophia olhou suas cinco malas grandes de rodinhas, todas de mesma cor, bege, com uma lista no meio de cada uma e o símbolo de uma marca famosa de bolsas. Pegou apenas sua mochila de mesma cor e marca e sua frasqueira que também fazia parte do conjunto de malas e desceu a grande escadaria que dava para o hall da mansão.
— Econômica? Gostei de ver, já está surtindo efeito. – uma mulher falava com Sophia, ela era elegante, seus cabelos eram lisos e ruivos assim como o da menina, seus olhos eram castanhos claros e sua pele cheia de pintinhas, assim como a da filha.
— Não seja ridícula, mãe. – Sophia tinha um tom debochado e arrogante de falar – Valdemar! – ela gritou e um senhor apareceu na sala – Minhas outras malas estão lá em cima.
— Não, Valdemar, você não segue mais ordens de Sophia… – a mãe de Sophia tinha um sorriso vitorioso no rosto.
— E como espera que as malas desçam?! – Sophia se irritava ainda mais.
— Querida, as malas são suas, e você é bem capaz de trazê-las pra cá… – se tivesse a capacidade de destruir alguém com um olhar, Sophia já teria feito aquilo com a própria mãe. A campainha tocou – Sugiro que vá logo, ela não gosta de atrasos…
— Você realmente quer transformar minha vida num inferno, né?! – Sophia jogou a mochila e a frasqueira no chão e subiu as escadas com raiva.
Valdemar foi abrir a grande porta de madeira maciça e uma mulher estava do lado de fora, sorridente, de calça jeans, All Star vermelho, cabelos curtos e ondulados, chegavam até a altura do queixo, sua camiseta do Hard Rock Café de Curitiba já estava desbotada.
— Suzana, querida! – a mãe de Sophia cumprimentou a mulher na porta com um abraço e um beijo no rosto.
— Magda… – Suzana cumprimentou do mesmo jeito – E aí, ela já tá querendo te matar?
— O que você acha? – Magda ria e dava passagem para Suzana entrar na casa – Foi lá em cima pegar as milhões de malas, toda enfurecida porque não deixei Valdemar seguir às ordens dela…
— Essa idade é terrível… Mas a Soso tá se superando, aposto que ela vive vendo esses filmes de adolescentes americanos pra se inspirar… – Suzana ria.
— Acho que a culpa foi minha e do pai de vocês, Suzi… Depois que a Soso nasceu mimamos muito ela, tudo de bom e do melhor, nossa agenda sempre cheia impedia a gente de dar atenção e veja no que deu…
— Estão pesadas demais! – Sophia apareceu no mezanino enfurecida, um pouco descabelada – Mãe! Deixa o Valdemar vir aqui! – ela olhou para baixo e viu Suzana.
— Sophia, você é capaz, querida… – Magda falava sabendo que Sophia estava quase explodindo.
— Inferno! – Sophia, com muita dificuldade, descia a primeira mala pela escada, depois de 15 minutos todas as malas estavam lá embaixo, Sophia suava pela testa e seria capaz de trucidar a primeira pessoa que lhe dirigisse a palavra.
— E aí, Soso! – Suzana finalmente foi cumprimentar a meia-irmã mais nova.
— Eu espero que você tenha ar condicionado, e eu preciso esticar as pernas depois disso. Água gelada é essencial pra minha pele. – Sophia não cumpriemntou Suzana.
— Boa sorte… – Magda disse para Suzana que ria.
— Sim, vossa alteza, algo mais? – Sophia pressentia a ironia na voz de Suzana – Bom, suponho que você pode levar suas malas de marca para o caminhão, então vamos lá! – ela olhou para Magda – Até mais, Magda…
— Até mais querida, cuidado, e muito boa sorte… – Magda abraçava Suzana – Filha, por favor, se comporte… – Magda falava com Sophia que nem olhava na cara da mãe.
— Você quer destruir minha vida. – Sophia respondia.
— Longe disse, meu amor.
— Longe disso? Me poupe! – Sophia pegou a mochila, colocou nas costas, encaixou a frasqueira em cima de uma das malas e conseguiu levar duas de uma vez para fora da mansão.
— Estragamos essa menina… – Magda dizia cabisbaixa.
— É a idade, Magda, já disse, eu vou te dando notícias! – Suzana falou vendo Sophia andar raivosa pela rua do condomínio com as malas nas mãos e nas costas.
— Sophia pensa que indo pra lá a vida dela vai melhorar… O pai de vocês está furioso, mas sabe como ele é, né?
— Sei… – Suzana falava rindo – Já conversei com ele, não se preocupe, eu dou conta da ferinha…
— Não cai na conversa dela, ela foi muito mimada e se tornou muito arrogante…
— Magda, por favor, eu cresci com meu pai! Namorei o Miguel, acha mesmo que vou ceder às chantagens de Soso? – as duas riram.
— Se for encontrar sua mãe, mande um beijo meu pra ela…
— Pode deixar… – Suzana disse vendo Sophia voltar para buscar mais duas malas – Com raiva, mas ela está levando as próprias malas…
— Dorme de olho aberto, Suzana… – Magda ria.
— Pode deixar que eu levo essa, Soso… – Suzana pegou a quinta e última mala.
— Pelo menos isso. – Sophia disse arrastando as malas de volta para a entrada do condomínio.
— Boa viagem! – Magda falou da porta de casa.
Na entrada do condomínio, Sophia esperava por Suzana, estava séria, nervosa, e não suportava que muitos de seus vizinhos estivessem espionando pelas janelas das mansões o que estava acontecendo e se perguntando por que Sophia estava ao lado de um caminhão enorme, cheio de malas ao seu redor.
— Eu já falei com minhas amigas de lá e tenho uma festa amanhã à noite, então preciso que voe nessa estrada, já que minha mãe e meu pai não deixaram eu pegar um vôo de poucas horas. – Sophia passava as mãos nos fios alaranjados para penteá-los.
— Bom, Soso, detesto ser estraga prazeres de adolescentes… – Suzana começou a falar abrindo a porta da caçamba do caminhão.
— Eu já tenho quase 18 anos, Suzana!
— Oh, me perdoe… – Suzana riu – Detesto ser estraga prazeres de jovens adultos, mas você não vai chegar para a festinha…
— Muito engraçado, Suzana, aposto que minha mãe pediu pra você ficar tirando com a minha cara.
— Na verdade ela só me disse “boa sorte”… – Suzana fez aspas com os dedos – E claro, me contou tudo o que aconteceu.
— E por isso você resolveu que ia me punir também?! Já não basta minha mãe e meu pai? Quem você pensa que é pra fazer isso comigo?
— Sua irmã mais velha, Soso…
— Meia-irmã! E que eu saiba, você nunca esteve presente ao ponto de se dar ao direito de mandar em mim!
— É, você está certa, mas nosso pai é o mesmo e eu ainda sou sua meia-irmã mais velha… E outra, sua mãe confiou em mim, então vamos logo colocar essas malas no caminhão e seguir nossa rota! Devemos chegar lá em algumas semanas…
— Algumas semanas?!?! – Sophia gritou espantanda.
— Ora, Soso, diferente de você, eu tenho um emprego, e preciso cumprir minhas obrigações, então vamos seguir minha rota e o Rio Grande do Sul só aparece na estrada em algumas semanas, então se acomode, maninha, vai ser uma longa viagem!
Sophia gritou tão alto que até os porteiros do condomínio correram para ver o que estava acontecendo. Suzana tentava não rir, mas era em vão, da janela do quarto da mansão, Magda via a cena e apesar de saber que tudo era para tentar melhorar a personalidade de Sophia, se sentia um monstro e pior do que já estava.
Depois de mais alguns minutos que Suzana fez Sophia colocar suas malas no baú do caminhão, elas finalmente puderam prosseguir com a viagem. O caminhão era novo, mas estava sujo por fora, era grande e pesado por conta das cargas que Suzana levava para realizar suas entregas Brasil afora e junto delas estavam as malas de Sophia.
— Cinto, por favor, Soso… – Suzana disse para Sophia que começou internamente um voto de silêncio. A menina colocou o cinto de segurança, seu óculos de sol e seu fone de ouvido para evitar o máximo de contato com a meia-irmã. Suzana ligou a carreta e seguiu pelas ruas, rumo à rodovia que as levariam para seu primeiro destino daquela viagem, ainda no sudeste, ainda no estado de São Paulo.
Foram poucas horas de viagem, Suzana era uma jovem caminhoneira, seguiu a carreira depois da faculdade, sempre gostou de dirigir, pegar estrada, conseguiu conciliar sua paixão com um emprego que não agradou em nada seu poderoso pai e muito menos sua preocupada mãe, mas já tinham se passado anos desde a decisão da filha mais velha de Caíto e como Suzana sempre se mostrou competente e responsável, as brigas tinham cessado, Caíto já estava em seu segundo casamento com uma filha pequena, Sophia.
— Sophia, acorda. – Suzana parou o caminhão dentro do estacionamento de uma das empresas que ela fazia entregas no Brasil todo – Se quiser esticar a perna, a hora é agora, porque depois daqui a gente só para de noite, ok? – Sophia fingia não escutar, usar o fone era um truque que Suzana conhecia muito bem – E não adianta fingir que não está ouvindo, Soso, eu já tive sua idade… – Suzana passou a mão na bochecha da irmã da forma mais debochada e nada carinhosa que podia e saiu do caminhão.
Sophia, se pudesse, teria chorado de raiva, mas sua arrogância adolescente a impedia de fazer aquilo. Durante a viagem toda ela queria fechar os olhos e quando retornasse a abri-los, ver que foi tudo um grande pesadelo, mas quando Suzana a cutucou, Sophia percebeu que era real. A menina olhou pela janela e pelo retrovisor do caminhão, viu sua meia-irmã conversando com alguém, conferindo alguns papéis. Suas pernas estavam dormentes, ela queria descer, ir ao banheiro, comer alguma coisa, mas naquela hora seu orgulho falava muito alto. Não queria dar o gostinho de derrota para a irmã, Sophia se importava muito com o que os outros pensavam algumas vezes.
— Fui informada sim. – Suzana falava com um rapaz – Pode colocar aí que a entrega será feita, mas eu volto a falar que pode ser que atrase dois ou três dias, tenho que seguir com as outras entregas antes, Rafa… – ao olhar para o lado, viu a porta do banco do passageiro abrir discretamente e logo viu sua irmã saindo do caminhão.
— Trouxe companhia dessa vez, Suzi? – Rafael perguntava olhando para Sophia descendo com dificuldade do caminhão.
— É a Sophia, Rafa…
— A Sophia? – Rafael olhou mais atentamente para a menina que se sentia perdida naquele galpão – Nossa, ela está enorme…
— E o ego dela também… – Suzana ria – É uma missão que a mãe dela pediu pra eu realizar, Sophia andou aprontando poucas e boas e agora eu sou o pior pesadelo dela…
— Boa sorte, Suzi… – Rafael sorria – Bom, as coisas estão aqui no fundo, bora lá? – Suzana e Rafael seguiram para buscar as novas entregas para colocar no caminhão.
Sentindo grande alívio por poder esticar as pernas, Sophia respirou fundo e resolveu mexer no celular, depois de horas na estrada, finalmente ela estava com sinal.
“Gabi, não vai rolar a festa, minha mãe me odeia e chamou minha irmã pra se juntar ao grupo…”
Sophia mandou mensagem para sua melhor amiga em Porto Alegre.
“Que merda, cara! Quando você chega? A gente adia um pouco se quiser…”
Gabriela fazia parte da nata da sociedade brasileira, assim como Sophia (e Suzana). Cresceu em uma família poderosa, foi criada com mimos e presentes; empatia com os menos privilegiados não estava na sua educação domiciliar, muito menos nas escolas que frequentou com Sophia.
“Algumas semanas você adiaria? Porque os monstros que eu tenho que chamar de família só vão me deixar aí em umas duas semanas, ou mais!”
Sophia quase tremia de raiva.
“Meu Deus, Sophia! Só por causa daquela brincadeira? Sua família te odeia mesmo…”
— Pronta? – Suzana apareceu atrás de Sophia que pulou de susto – Não quer ir ao banheiro? Fazer um lanchinho ali na lanchonete?
— Não vou comer em lugares duvidosos.
— Bom, então vai ser uma pena se tiver que avisar papai e sua mãe que você morreu por não querer comer…
— Você deve estar achando isso hilário, não é Suzana?
— Eu estou achando que isso vai ser exaustivo, Soso, mas eu dou conta… – Suzana forçou o sorriso – Se não quer comer, ou ir ao banheiro, vamos indo, de noite a gente chega perto da divisa com a Bahia.
— Bahia?!
— É minha rota, Soso… – Suzana entrou no caminhão.
— Inferno! – Sophia disse e logo entrou no caminhão em seguida. Voltou a colocar seus fones, mas seu celular apitou assim que Suzana ligou o veículo e começou a dirigir – Merda, merda, merda!
— Que foi, Soso? – Suzana dirigia e falava calmamente.
— Acabou a bateria do meu celular, Suzana!
— Meu Deus, é o apocalipse… – toda vez que Suzana debochava de Sophia, a menina ficava ainda mais enfurecida.
— Você não acha isso ruim porque aposto que nem se importa com essas coisas, mas deixa eu te dizer uma coisinha, maninha, não dá pra viver sem celular, muito me admira você, toda entregadora, ficar debochando disso quando… – Sophia gritava no caminhão.
— Quando você acabar de extrapolar sua raiva com coisas que não estou prestando atenção, pode abrir o porta-luvas e pegar o carregador do caminhão, ok? – Sophia parou de esbravejar na hora, ficou olhando para Suzana que dirigia atenta, momentos depois abriu o porta-luvas e viu o carregador e o cabo com entrada para seu celular – Espero que dê para você usar o cabo do meu novo Iphone no seu… – Suzana tirou no bolso da calça seu celular de última geração para mostrar para a irmã.
— Pensei que tinha renegado a fortuna do nosso pai… – Sophia dizia derrotada, conectando o cabo no celular e depois na entrada de carregador do caminhão.
— Quem te disse isso, Sophia? – Suzana olhou rapidamente para a irmã mais nova – Nunca reneguei nada, mas chegou um momento da minha vida, que viver de farra e às custas dos outros não era nada interessante, então arranjei um emprego, você devia fazer isso também, é ótimo ter seu próprio dinheiro…
— Por acaso você tem como ligar o rádio? Já que tenho que esperar meu celular carregar um pouco pra ligar de novo… – Sophia tinha ficado mexida e pensativa, conhecia a irmã mais velha, já tinha se encontrado com ela poucas vezes na vida, não sabia quase nada da outra família de seu pai, nada que fosse relevante pra ela.
— Eu escutei um por favor? – Suzana se divertia.
— Liga logo, Suzana! – Sophia respirou fundo – Por favor… – Sophia disse quase inaudível.
— Mas é claro, maninha! – Suzana apertou o botão do rádio, tocava uma estação de música sertaneja que Suzana escutava quase sempre.
— Que horror, Suzana! – Sophia gritou – Não me diz que gosta disso?
— Olha, Soso, eu até não gostava, mas perdi meu pendrive com músicas descoladíssimas, não tenho mais Spotify e me restou aprender a ouvir sertanejo, e até que tem umas músicas boas que ficam na cabeça! – Suzana cantava a música que estava tocando no momento.
— Típico né, deve ser pré-requisito para ser caminhoneiro… Ser chucro ao ponto de escutar sertanejo…
— Quando você parar de se achar melhor do que os outros, talvez veja como é bom ter uma cultura tão diversificada…
— E gostar de sertanejo? Jamais. – Sophia abriu sua mochila – Para minha salvação e sua redenção eu tenho aqui um pendrive com músicas melhores que essas… – Sophia conectou o objeto no rádio.
— Não gosta de sertanejo brasileiro, mas baba um ovo pro country americano, é isso? – Suzana escutava Dolly Parton nas caixas de som do caminhão.
— É mil vezes melhor, você que não sabe apreciar!
— Jolene, Jolene, Jolene, Jo… Lene… I’m begging you, please don’t take my man… – Suzana cantava e deixava Sophia cada vez mais indignada e sem graça – Eu amo Dolly Parton, maninha, só estava tirando mais uma com sua cara…
— Então gosta de outros tipos de música? Conhece Lady Gaga, pelo menos?
— Quer ver a foto que tirei com ela no show de São Paulo, anos atrás? – Sophia arregalava seus olhos castanhos claros.
— Ok, Suzana, você já mostrou que não é estereotipada… – Sophia se envergonhava e olhava pela janela para desviar do olhar brincalhão de sua irmã mais velha.
O tempo foi passando, Sophia acabou adormecendo na viagem, depois de alguns minutos de lentidão no trânsito, já era quase de noite quando a menina voltou a abrir os olhos, gritando assustada.
— Que isso, Sophia?! – Suzana disse levando um susto, mas mantendo firmes as mãos no volante.
— Tive um pesadelo. – Sophia olhou pela janela, viu os descampados da estrada ficando pouco iluminados porque o sol já estava se pondo – Estou tendo ainda… – ela disse assim que percebeu que sua realidade ainda era voltada para o interior de um caminhão – Suzana, eu estou morrendo de fome e muito apertada!
— Eu disse pra você ir ao banheiro e comer lá em São Paulo, Soso… – Suzana continuava com os olhos atentos na estrada quase vazia.
— Onde estamos?
— Chegando perto da nossa primeira parada… – Suzana olhou para a irmã que revirou os olhos pela falta de precisão na resposta – Conceição da Barra, Espírito Santo, maninha…
— E vamos dormir nessa cidade que provavelmente nem está no mapa?
— Vamos, Sophia… – Suzana sorria, sabia lidar com adolescentes, até mesmo com pessoas como Sophia.
— Vamos pelo menos ficar em hotel? Ou vamos dormir aqui nesses bancos super desconfortáveis?
— Você estragou toda a minha surpresa, Soso!
— Suzana, pelo o amor de Deus!! – Sophia voltava a se desesperar.
— Por que não espera a gente chegar e depois você fica aflita? – Suzana entrava num desvio para chegar até a cidade comentada.
Suzana já tinha viajado o Brasil todo com seu caminhão desde que iniciou a aventura de ser caminhoneira. Ela conhecia cidades que muitas pessoas nem imaginavam que existiam, fez amizades em todos os cantos do país e sabia os lugares perfeitos para passar uma noite confortável antes de voltar para a estrada. Conceição da Barra não era uma cidade grande, mas era o tipo de cidade que Suzana amava passar e ficar, era pequena, praiana e muito acolhedora, sempre que passava por lá fazia questão de ficar em uma pensão à beira do mar, de uma senhorinha que a tomou por filha quando ela passou algumas dificuldades com o caminhão no início da profissão, acabou ficando na cidadezinha por mais tempo que o esperado, atrasou suas entregas, mas saiu de lá com amigos e um lugar para voltar a hora que quisesse.
Suzana dirigia pelas ruas apertadas da cidade rumo à costa para chegar à pensão, não era de avisar, porque não gostava de deixar ninguém esperando algo que era incerto, mas sabia que dona Guiomar a receberia a qualquer hora, por sorte, não era nem 22h quando ela estacionou o caminhão na rua mais espaçosa que conseguiu e desligou o grande veículo. De uma das janelinhas do prédio amarelo e pequeno que ficava a uma rua da areia, uma luz foi acendida e logo uma mulher de aparentes 60 anos saía pela porta da frente com uma camisola de florzinhas e um sorriso enorme no rosto.
— Chegamos? – Sophia perguntou.
— Chegamos… – Suzana tirava o cinto – Aquela é a dona Guiomar, eu chamo ela de dona G, é um amor de pessoa, então por favor, não a destrate, Soso…
— E eu lá destrato alguém? – Sophia perguntou ofendida e ficou ainda mais quando viu a expressão de Suzana.
— Dona G! – Suzana desceu do caminhão e foi ao encontro da senhora.
— Suzi, querida! Quanto tempo! Eu ouvi o caminhão e já sabia que era você!
— Espero que tenha um espacinho no sofá pra mim… – ela abraçava a senhora.
— Sofá, Suzana? Você me respeita! – o sotaque dela era puxado como o de carioca, mas também tinha um quê de nordeste, a divisa fazia muita influência naquela cidadezinha – Seu quarto está prontinho, é só a gente trocar o lençol da cama e pronto!
— Você é um anjo, dona G! Eu trouxe companhia hoje… Minha irmã mais nova… – Suzana apontava para Sophia que descia com dificuldade do caminhão.
— A So… Como era o nome mesmo, querida?
— Sophia. – Suzana disse fazendo sinal para Sophia se aproximar – Filha do meu pai com minha madrasta.
— Puxa, como ela está grande, você me mostrava fotos dela pequena… – dona Guiomar falava olhando para a ruiva que se aproximava com cautela, segurando firme sua mochila.
— Pois é, olha como essa pequenininha já está enorme! – Suzana ria.
— Oi… – Sophia cumprimentou a senhora que recusou o aperto de mão da menina para dar uma abraço caloroso que a deixou sem graça e sem reação.
— Que prazer conhecer a irmã da Suzi! – Guiomar falava sorrindo – Entrem, meninas, vocês devem estar cansadas e com fome! Já terminei de servir o jantar, mas pra vocês sempre têm horário!
— Uma das melhores comidas do mundo! – Suzana falava entrando na pensão.
— Nunca foi pra França, aposto… – Sophia disse baixo, mas Suzana escutou.
— Quer ver minha foto da Torre? – Suzana ria.
— Onde que é o banheiro? – Sophia perguntou extremamente apertada.
— Modos, Soso, o que foi que conversamos? – Suzana cochichou para a irmã.
— Por favor… – ela disse entredentes – Onde que é o banheiro?
— Por ali, querida, primeira porta à esquerda, se a descarga não for de primeira é só esperar um pouquinho! – dona Guiomar falava apontando para o lugar que Sophia tanto queria ir – João vai vir aqui amanhã ver isso… – ela disse olhando para Suzana.
Sophia entrou no banheiro, acendeu a luz e ficou espantada de ver o tamanho do lugar e como era diferente do seu na sua suíte na mansão. Com receio foi até a privada, sentia-se desconfortável, pegou o papel higiênico e forrou o quanto pôde o assento do vaso sanitário, não se importando se tinha gastado metade de um rolo. Apertada e quase não conseguindo segurar, ela abriu o zíper da calça jeans e sentou nos montes de papel para fazer seu precioso xixi. Já estava quase completamente aliviada quando olhou atentamente para a porta do banheiro fechada e gritou muito mais alto do que de costume.
— Sophia!! – Suzana batia na porta e chamava a irmã – Soso, o que aconteceu?!
Sophia não sabia como, mas tinha conseguido se limpar e subir a calça na velocidade da luz, mas estava paralisada de medo e pânico. O pequeno grilo estava no meio da porta e Sophia não conseguia nem se aproximar da saída do lugar.
— Menina Sophia, o que houve? – dona Guiomar falava preocupada.
— Suzana, tem um bicho enorme aqui! – a menina conseguiu falar, dona Guiomar já tinha ido buscar a chave reserva e abriu a porta do banheiro pouco tempo depois.
— Cadê?! – Suzana entrou depressa no banheiro à procura de uma mega aranha ou algo do tipo.
— Atrás da porta!! – Sophia apontava com medo para o lugar, Suzana foi até lá e viu o grilo, começou a rir – Por que tá rindo, Suzana?! Mata logo esse demônio!
— Matar? Soso, é só um grilinho! – Suzana pegou o bichinho nas mãos e o jogou pela janela do banheiro.
— E se ele voltar, Suzana?! Você devia ter matado!! – Sophia gritava.
— Se ele voltar é porque ele gostou de você e do seu tom de voz encantador… – Suzana ria.
— Você acha isso muito divertido, não é?! – Sophia já estava espumando de raiva de novo, saiu do banheiro e ficou na sala de pé, apertando forte sua mochila no corpo.
— Vem comer, querida… – dona Guiomar chamou as meninas para comerem, Sophia só foi porque estava realmente faminta.
— Soso, se comporte, tem mais pessoas aqui e com certeza elas se assustaram com seu grito… – Suzana falava baixo para a irmã enquanto dona Guiomar colocava os pratos na mesa da cozinha.
— Fiz uma tilápia caprichada hoje, espero que esteja boa como os outros hóspedes disseram… – a senhora colocou a bandeja na mesa com ajuda de um pano – Você come peixe, querida? – ela perguntou para Sophia.
— Como sim, vive indo em restaurante chique de frutos do mar, não é Soso? – Suzana falava colocando um pouco de arroz e um pedaço do peixe em seu prato e logo devorando a comida de dona Guiomar.
— Como… – Sophia pegou um pedaço mínimo do peixe e pouquíssimo arroz.
— Que isso, não me diz que tá de dieta? – Guiomar olhava para o prato da menina.
— Deixa, dona G. Já, já ela pega mais… – Suzana comia com vontade – Isso aqui é dos deuses, dona G!
— Escuta, tem wifi aqui? – Sophia perguntava comendo como se estivesse num curso de etiqueta, toda ereta, fazendo caras e bocas.
— Tem sim, querida, já pego a senha pra você… – dona Guiomar levantou e saiu da cozinha.
— Dá pra fingir que tá gostando da comida, Soso? A dona G tinha todo o direito de nem nos receber, não faz essa cara! – Suzana advertia a irmã.
— Eu não sei a providência desse peixe, Suzana!
— Do mar.
— E se não limparam?
— Aí você vai passar mal, agora come e para de fazer essas caretas. – Suzana falou revoltada.
Depois do jantar, dona Guiomar levou Suzana e Sophia para o primeiro andar da casa, o quarto que Suzana costumava ficar quando passava pela cidade era pequeno, mas tinha a vista para a praia, uma cama de casal que naquela noite ela dividiria com Sophia.
— Vai embora amanhã, mesmo querida? – Guiomar perguntava para Suzana enquanto ela levava uma pequena mala para o quarto, e tinha ajudado Sophia a pegar uma das cinco malas no caminhão.
— Vou logo cedo, dona G.
— Posso tomar uma banho? – Sophia perguntou – Por favor? – ela disse revirando os olhos.
— Mas é claro que pode, querida, aqui em cima tem o banheiro com chuveiro, liga a torneira da janela, tá bom? – dona Guiomar indicava o banheiro para Sophia que foi até lá receosa de encontrar mais insetos inesperados – Algum motivo especial para trazer a irmã, Suzi?
— Ela aprontou poucas e boas lá em São Paulo e minha madrasta resolveu que essa viagem comigo seria perfeita pra ela melhorar a personalidade… – Suzana falava pegando o pijama na mala – É o que esperamos, mas eu ainda tenho minhas dúvidas, Soso já foi muito “estragada”, – ela fez aspas com os dedos – por assim dizer…
— Eu sinto aqui no meu coração, Suzi, que vai dar tudo certo!
— Se não der, eu já posso ganhar meu prêmio de provações da vida! – Suzana gargalhou.
— Durma bem, querida, o café é cedo como sempre, acho que na hora que você costuma acordar…
— Obrigada, dona G. Amanhã acertamos a conta, ok?
— Me respeita, Suzi! – a senhora riu e saiu do quarto.
Foi a contra gosto que Sophia dividiu a cama com sua irmã mais velha, mas pouco tempo depois ela pegou no sono, o cansaço da viagem falava alto e suas respectivas decepções ao longo do caminho deixaram a menina desanimada. Já era de manhã quando Sophia abriu os olhos e olhou para o lado oposto da cama, não viu Suzana, se desesperou, levantou correndo, desceu as escadas xingando todos aos seu redor, não querendo acreditar que Suzana a tivesse deixado pra trás.
— Bom dia, querida… – dona Guiomar falava baixo colocando xícaras na mesa da pequena sala de jantar.
— Bom dia… – Sophia respondeu – Você sabe onde está a Suzana? E que horas são? – da janela aberta da sala de jantar, Sophia via que o sol nascia ainda lentamente.
— Suzi está no lugar de paz dela… – Guiomar apontou para o lado de fora da sala de jantar – E são dez para às 6h…
— Lugar de paz? – Sophia se aproximou da janela, esfregando os olhos e vendo um pontinho na praia, parado de pé.
— Quando Suzi ficou aqui na primeira vez, ela acordava todos os dias para ver o sol nascer no mar… – Guiomar falava colocando os talheres na mesa – Vivia falando que um dia queria te trazer aqui, porque quando você era pequena adorava praia…
— Ela disse? – Sophia ainda olhava a irmã na praia.
— Suzana sempre falou muito de você, querida…
— Aposto que mal. – Sophia se virou.
— Pelo contrário, vivia falando que queria ser mais nova pra poder passar mais tempo com você…
— Hum… – Sophia voltou a olhar para a janela.
Na praia, Suzana sentia a brisa do mar bater em seu rosto e sorria de olhos fechados por alguns momentos. Escutava atenta as ondas quebrando na beira da praia, sentia a água molhando seus pés descalços e se arrepiava com a temperatura gelada do mar salgado. Seu cabelo castanho escuro, ondulado e curto balançava na direção do vento e se bagunçava todo, mas ela não se importava.
— Soso! Já de pé? – Suzana tinha visto o quanto podia do seu espetáculo preferido da natureza e voltou para a pensão de dona Guiomar, se surpreendeu de ver Sophia já acordada e sentada à mesa de café da manhã.
— Tinha que me certificar de que não iria me largar aqui… – Sophia colocava um pouco de leite em sua xícara.
— Meu plano deu errado… – Suzana brincava – Bom dia, dona G! – ela cumprimentou a senhora com um beijo na bochecha.
— Vai que horas, querida? – Guiomar perguntava.
— Já já! Só tomar café, precisamos chegar em Porto ainda hoje antes do almoço!
— Porto? Porto Seguro? – Sophia ficou curiosa.
— Exatamente, Soso! – a menina esboçou um sorriso para aquela informação, estava bem aos poucos começando a gostar do trajeto da irmã.
— Então não vai ver João, querida? – Suzana pela primeira vez na viagem todo ficou vermelha.
— Quem é João? – Sophia percebeu e perguntou.
— O rapaz que mora aqui nas redondezas e sempre me ajuda na pensão… – Guiomar tinha um sorriso cúmplice.
— Deixa um abraço pra ele… – Suzana disse tomando rápido sua xícara de café com leite – Eu vou tomar uma ducha pra acordar antes de pegarmos estrada, fique pronta, Soso!
Depois de uma rápida ducha, Suzana e Sophia estavam prontas para seguir viagem, dona Guiomar não deixou que Suzana pagasse pela curta hospedagem, mesmo a mulher insistindo. Após uma breve discussão, Suzana se despediu da senhora e ligou seu caminhão, o sol ainda estava tímido surgindo no horizonte.
— Quem é João, hein? – Sophia tinha assumido seu raro modo brincalhona.
— O rapaz que mora nas redondezas e sempre ajuda na pensão, não ouviu a dona G falando? – Suzana dirigia ficando vermelha.
— Esse é o João pra ela, mas e pra você?
— Tá bem soltinha já, não é, Sophia? – Suzana ficava vermelha.
— Tenho o direito de saber um pouco sobre você para repassar aos outros, já que você fala de mim por aí…
— Falo mesmo, nunca escondi, Soso… – Suzana sorriu – João foi um ficante, mas até hoje dona G nunca superou que eu segui minha rota e que não estou casada com ele ou algo do tipo…
— Ora ora, você já beijou alguém! – Sophia ria.
— Não, Soso, nunca beijei ninguém no auge dos meus 36 anos… – ela revirava os olhos.
— E por que não levou adiante? Não me diz que vai jogar a culpa no seu trabalho…
— E em que mais eu jogaria? Sophia, amores de verão, nunca teve um? É passageiro e meu karma tá lá em Porto Alegre… – a segunda parte da frase, Suzana tinha falado bem baixo.
— É quem eu penso que é?
— Quem o quê? – Suzana tentou disfarçar – Vai colocar música hoje ou já tá gostando da viagem o suficiente pra ficar aí conversando?
— É verdade que queria ser mais nova pra ficar mais comigo? – Sophia percebeu que Suzana não queria falar sobre aquilo.
— É sim, Soso, quando você nasceu eu já tinha quase 18… – Sophia ficou vermelha de vergonha, sem saber ao certo o que sentia naquele momento.
— Gosta de Imagine Dragons? – Sophia perguntou depois de momentos de silêncio.
— Quer ver minha foto no LollaPalooza? – Suzana ria.
— Depois eu que sou a mimadinha que tem tudo… – Sophia revirou os olhos e conectou o celular no rádio do carro.
A viagem do dia foi mais curta que a anterior, Suzana e Sophia já estavam quase na divisa da Bahia quando pararam para dormir, mais algumas poucas horas e chegariam ao primeiro destino de entregas de Suzana, Porto Seguro.
— Não é possível que até no inverno é calor aqui! – Sophia acordava de um cochilo no caminhão, já estavam perto da cidade desejada.
— Não estudou geografia na escola, Sophia? – Suzana perguntou rindo.
— Prefiro mil vezes o frio, aqueles que a gente veste casaco de pele, quentinhos, neve…
— E eu prefiro que não reclame toda hora, mas não é o que acontece… – Suzana entrava em uma rua mais estreita – Vou descarregar aqui, Sophia. Fique por perto, pode ser que demore um pouco, porque vou abastecer, fazer uma limpa aqui na carcaça… – ela desligava o motor em frente a um portão de ferro, pessoas já estavam lá para recebê-la.
— Vou poder andar por aí, é isso? – Sophia perguntava incrédula.
— Fique por perto, eu não posso ficar com você agora, preciso ir na administração financeira ver se está tudo certo com a entrega de hoje.
— Ok… – Sophia pegou sua mochila, e desceu do caminhão com a irmã – Vamos almoçar ou algo do tipo?
— Se quiser comer, Soso, pode ir, não sei quanto tempo vou ficar lá dentro… – Sophia olhava para Suzana – Aqui, deve dar pra você comer alguma coisa… – Suzana deu uma nota de cinquenta reais para a irmã.
— Alguma coisa podre, você quis dizer, né? – Sophia pegava o dinheiro com desdém.
— Se é o que você acha… – Suzana passou pelo portão de ferro e deixou Sophia sozinha na calçada.
“E minha irmã que me deu uma merreca pra comer…”
Sophia estava o dia todo trocando mensagens com suas amigas do Rio Grande do Sul.
“Quanto?”
Gabriela perguntou.
“Cinquenta pila, acredita? E estamos num lado de Porto Seguro totalmente duvidoso!”
Sophia mandou uma foto para a amiga das ruas mais simples e totalmente diferentes do centro cultural de Porto Seguro.
“Chama um uber e vai pra Passarela do Álcool, gasta essa merreca bebendo!”
Sophia estava tentada, mas algo dentro dela a fazia se segurar.
“E depois pra voltar? Minha mãe não deixou dinheiro comigo, eu dependo totalmente da Suzana!”
Sophia, sem que Gabriela pudesse sugerir, resolveu ver se havia mais dinheiro nas coisas de Suzana para poder se divertir como queria. Entrou no caminhão que ficou aberto e remexeu no porta luvas até achar uma carteira marrom de couro e dentro dela um cartão de crédito.
“Gabi, achei um cartão da Suzana, mas sei lá, cara, queria usar, mas acho que é melhor não…”
Em momentos de extrema decisão como aquele que Sophia estava, ela pedia conselhos para Gabriela que nunca a aconselhava bem.
“Pega o número e põe nos seus apps! Vai curtir, já não basta seus pais te odiando? E sua MEIA-irmã nunca ligou muito pra você mesmo…”
Sophia até começou a digitar para a amiga sobre sua conversa com Suzana e seu desejo de querer ser mais nova para ficar com ela, mas apagou tudo. A frase dita por Gabriela tinha surtido efeito em Sophia e ela já estava abrindo outros aplicativos para colocar o número do cartão da irmã neles.
Uma das empresas que Suzana trabalhava com transporte de carga ficava em Porto Seguro, ela sempre ia para lá, a rota Sudeste-Nordeste era sua rota principal, sempre dava um jeito de passar pelo Sul por seu pai morar lá e sempre que dava ia para o Centro-Oeste visitar sua mãe, mas Bahia, Paraíba, Rio Grande do Norte sempre estavam em sua lista. A entrega em Porto Seguro demorou mais do que Suzana esperava. O descarregamento foi rápido, mas ela ficou presa no setor financeiro revendo item por item das cargas que entregou, conferindo se estava mesmo tudo certo e já pegando sua nova lista de entregas para fazer. Ela e Sophia tinham chegado em Porto Seguro pouco antes do meio-dia, já eram quase 15h30 quando Suzana foi finalmente liberada de tudo e voltou cansada para o caminhão.
— Soso? – Suzana abriu a porta do motorista e entrava no veículo à espera de encontrar Sophia tirando um cochilo ou até mesmo reclamando de ter que esperar tanto, mas o desespero da caminhoneira começou a aparecer quando não encontrou a meia-irmã lá dentro – Sophia? – Ela desceu do caminhão, foi procurar pelas ruas próximas – Sophia? – tentando não se desesperar, Suzana pegou seu celular para ligar para a irmã e saber onde ela estava, levou um susto ao ver notificações do banco na tela principal.
Quantias relevantes passadas no crédito, uma viagem de uber para o centro da cidade, pedidos de Ifood caríssimos, uma compra de passagem de avião que foi uma fortuna.
— Suzana? Está tudo bem? – um senhor que trabalhava na portaria da empresa perguntou ao ver a expressão no rosto da mulher.
— Seu Afonso, conhece alguém que pode me emprestar um carro agora? Eu preciso voar pro aeroporto e o caminhão tá pesado demais… – Suzana estava numa mistura de preocupação com raiva.
— Oxente, Suzana, o que aconteceu? – o senhor se preocupava – Tome, pegue o meu, aquele ali dentro… – ele deu a chave de uma caminhonete antiga para Suzana que correu em direção ao veículo na garagem.
— Seu Afonso, eu volto até o anoitecer, cuida do meu bebê pra mim? – Suzana falava alto enquanto entrava no carro.
— Suzana, tome cuidado, vice?
Suzana há tempos não dirigia um carro normal, andar em velocidade alta já não fazia parte de sua rotina, mas ela dominou o volante rapidamente e só não voou para o aeroporto porque o carro não tinha asas. Durante o trajeto todo ela cogitava se ligava para Magda ou seu próprio pai para contar o que estava acontecendo, mas não ligou. Pela compra que apareceu em seu celular o vôo que Sophia queria estar sairia no fim da tarde. Suzana agradecia aos céus por saber aquelas informações graças às notificações do aplicativo do banco.
— Gabi, eu vou embarcar já já, vou poupar bateria… – Sophia falava no celular na sala de embarque do aeroporto – O que mais me doeu foi deixar minhas malas lá, mas nada que uma renovação do guarda-roupa não me anime… – ela ria.
Na divisão que havia da sala de embarque para o restante do aeroporto, a segurança tentava impedir que Suzana entrasse sem passagem.
— Minha irmã está aí! – Suzana falava alto – Ela é menor de idade, ela não pode nem embarcar nesse vôo, por favor, se quiserem me acompanhem, vai ser um susto pra ela… – ela quase implorava.
— Nenhum menor de idade viaja sem permissão, senhora… – a segurança falava com sotaque nordestino, tentando manter a calma.
— Bom, Sophia não tem permissão e vocês estão prestes a descumprir a própria lei!
— O que está acontecendo? – um rapaz com o uniforme da companhia aérea se aproximou.
— Minha irmã menor de idade está prestes a embarcar no vôo pra Porto Alegre e ela não tem permissão! – Suzana falou mais uma vez.
— Qual o nome dela, senhora? – o rapaz perguntou calmo.
— Sophia… – Suzana avistou os cabelos ruivos da irmã – Ali! Ali! Moço, ela não pode embarcar… – Suzana pediu para o rapaz.
— Espere aqui, senhora, por favor… – ele entrou na sala de embarque e Suzana o viu se aproximar de Sophia, minutos depois a menina era trazida pelo rapaz uniformizado e mais um segurança até onde Suzana estava.
— Desculpe o transtorno… – Suzana disse vendo o ódio no rosto da irmã, olhou ao redor, as pessoas olhavam curiosas – Me dê seu celular, Sophia. – era difícil ver Suzana brava com alguém, até mesmo no trânsito, Sophia presenciava o lado da meia-irmã que torceria para nunca mais ver.
— Por quê?! – Sophia, ainda com ódio no olhar, totalmente constrangida perguntou incrédula enquanto era forçada a caminhar ao lado de Suzana para fora do aeroporto.
— Me dê agora seu celular, Sophia.
— Quem você pensa que é pra querer meu celular? – Sophia rebatia chorando de raiva.
— Agora, Sophia. – Suzana disse mais uma vez e estendeu a mão parando de andar na saída do aeroporto.
— Eu ia te pagar assim que papai retomasse minha mesada! – Sophia tinha noção do que tinha feito, no fundo ela sabia que aquilo iria acontecer.
— Me dê agora o seu celular, Sophia. – Suzana pediu entredentes.
— Eu te odeio! – Sophia deu o celular para Suzana a contragosto, vermelha de raiva, gritando como a adolescente mimada que ela era.
— Ótimo! – Suzana guardou o celular no bolso da calça dela – Entra no carro. – elas já estavam no estacionamento.
A viagem de volta até onde o caminhão de Suzana ficou estacionado foi silenciosa, mas cheia de sentimentos de ambas as partes, Sophia chorava de raiva no banco do passageiro e Suzana dirigia séria, quase nunca ficava daquele jeito.
— Seu Afonso, obrigada pelo carro, eu não abasteci, mas aqui está o dinheiro do combustível… – Suzana disse ao sair da caminhonete, devolvendo as chaves para o senhor da portaria.
— Suzana, que isso! Não se preocupe, vice? Deu tudo certo? – ele olhava para Sophia que saiu do carro e foi para o caminhão de cabeça abaixada.
— Em partes… – Suzana respondeu respirando fundo e olhando para a irmã já no caminhão.
— Boa sorte e boa viagem, se cuide, viu? – o senhor abraçou Suzana que retribuiu o gesto com um sorriso triste no rosto.
— Bom trabalho e desculpa qualquer coisa… – Suzana entrou no caminhão, olhou para a irmã mais nova e ameaçou falar com a menina que tinha o rosto virado na direção oposta, evitando contato visual, mas nada saiu da boca da mulher naquela hora, então ela ligou o caminhão e seguiu viagem até uma pousada à beira de estrada para passar a noite, e no dia seguinte seguir viagem para outro estado – Venha… – Suzana disse depois de mais algumas horas dirigindo e estacionando o caminhão em frente a uma pousada. Sophia desceu em silêncio do veículo, seus olhos estavam vermelhos e inchados e sua expressão ainda era de raiva e de se sentir incompreendida – Eu venho te acordar para seguirmos viagem logo cedo. – ela disse assim que pegou a chave de um quarto e entregou para Sophia.
— Vai ficar em qual quarto? – Sophia perguntou sem olhar para Suzana.
— No caminhão.
— Certo… – por dentro Sophia queria entender por que depois de tudo o que ela tinha feito naquele dia, Suzana ainda permitiu que ela ficasse num quarto de pousada e não ficar com ela no caminhão. Passou pela cabeça da menina de quase 18 anos que a irmã mais velha a deixaria para trás, mas logo esse pensamento se esvaiu.
— Só preciso tomar uma ducha antes, coisa rápida. – Suzana disse seguindo Sophia até o quarto na pousada.
— Ok… – Sophia respondeu incomodada com tudo o que tinha acontecido e repentina ausência de diálogos mais longos com sua irmã mais velha – Você vai contar pra minha mãe? – pegando fôlego, Sophia conseguiu perguntar para Suzana ao entrar no quarto.
— Sophia, vem aqui… – Suzana sentou na cama e chamou Sophia para acompanhá-la, receosa, a menina foi segurando firme sua mochila de marca – Acho que você sabe que o que você fez não foi certo, ou estou enganada?
— Eu ia te pagar… – os olhos da menina estavam marejados.
— Independente disso, Sophia… Passou pela sua cabeça que eu posso não ter como pagar tudo isso? Passou pela sua cabeça que isso era errado? Passou pela sua cabeça que foi um furto? – Sophia evitava olhar para a irmã, mas chorava em silêncio – Você tem quase dezoito anos, e está mais do que na hora de você entender que o mundo é diferente do que você acha, que existem outras pessoas e que existem consequências para cada ato que você faz.
— Você vai falar pra minha mãe? Ou pro nosso pai? – Sophia enxugava as lágrimas em vão.
— Me responde, Soso… – escutar o apelido vindo da irmã já era um pouco reconfortante para a ruiva adolescente – Passou pela sua cabeça tudo isso?
— Passou… – depois de muito tempo, Sophia conseguiu olhar para a irmã mais velha.
— Sophia, você sabe por que sua mãe pediu pra que eu te levasse pra casa do papai? – Suzana viu a irmã balançar a cabeça confirmando – Cada ação que fazemos tem uma consequência, e sua mãe achou que seria penoso o suficiente tirar seus luxos para compensar o que você fez em São Paulo.
— Você também já fez coisas assim, Suzana, já ouvi minha mãe e nosso pai falando que já te buscaram na delegacia. – Sophia falava ríspida.
— Eu nunca neguei as coisas que fiz, Sophia e sempre tentei aprender com meus atos, eu já fui parar na delegacia sim, e depois disso eu tomei um rumo… – Suzana respirou fundo – Escuta, a gente cresceu num ambiente que é extremamente diferente dos outros 97% da população, Soso, pra abrir os olhos pode demorar gerações, mas sempre temos esperança, não é? Eu consegui me redimir e aprender com tudo o que vivi, consegui enxergar que existe uma avalanche de coisas fora da nossa bolha de gente influente, é só isso que quero que faça… – Sophia escutava atenta – Eu tenho que falar pra sua mãe, sim, Sophia, você é minha responsabilidade, mas sua mãe é a Magda, eu sou sua irmã mais velha, estou aqui pra te aconselhar e ajudar no que for preciso…
— Podia me ajudar a voltar pra casa mais rápido… – ela disse baixo.
— Isso eu não posso fazer, Sophia… – Suzana levantou da cama – Gosta de acarajé? Vou pedir pra você comer, o que acha?
— Tanto faz… – Sophia deitou na cama e ficou olhando para a parede.
— Vou tomar uma ducha e depois peço pra te trazerem um acarajé, ok?
Suzana foi tomar seu banho e Sofia ficou deitada na cama olhando para o teto, cogitou verificar se sua irmã tinha deixado o celular por perto para recuperar seu aparelho mais precioso, mas depois do que tinha feito Sophia teve a certeza que o mínimo de confiança que tinha entre ela e a irmã tinha se quebrado.
— Do que é feito isso aqui? – Sophia pegava o bolinho nordestino com nojo.
— Muitas coisas e feijão, prova, se achar ruim a gente vê outra coisa… – Suzana comia seu acarajé com vontade, quase nunca reclamava das comidas que provava. Sophia colocou um pedacinho do bolinho na boca e ficou por alguns segundos tentando decifrar o sabor até fazer uma careta – Não gostou? – Suzana ria.
— Não é que não gostei, só não sei definir o gosto disso… – Sophia comeu mais um pedaço – Mas parece bom, sabe pelo menos a providência disso?
— Do entregador. – Suzana riu e Sophia revirou os olhos. O celular de Suzana começou a tocar e Sophia conseguiu ver de quem era a ligação antes de Suzana pegar o aparelho desesperada – Já venho, Soso… – e sair desesperada para o corredor.
— Eu lembro do Miguel… – Sophia disse depois que sua irmã voltou para o quarto – Vi o nome dele na tela… – a ruiva continuou a falar depois que viu a expressão de Suzana e suas bochechas ficando vermelhas.
— Ele trabalha com papai na empresa, o pai dele é sócio do nosso pai e claro que Miguel ia conseguir um emprego facilmente lá dentro.
— E obviamente ele ligou pra saber de mim… – Sophia comeu mais um acarajé olhando para baixo e deixando um sorriso malicioso no canto da bochecha esquerda – A última vez que nos vimos vocês já tinham terminado pela enésima vez, né? Não lembro dele na minha festa ano passado…
— E você lá lembra o que fez naquela festa, Sophia? Fui eu que te levei pra casa pra sua mãe e nosso pai não te verem dando pt. – Suzana tentava mudar o assunto.
— Lembro de muitas coisas… Mas qual é a de vocês? – Sophia sorriu e viu sua irmã ficar da cor laranja dos seus cabelos.
— Amanhã levantamos cedo, durma bem… – Suzana se levantou depressa da cama – Venho te chamar antes de irmos…
— Qual é, Suzana… – Sophia disse ainda se deliciando em ver sua irmã mais velha ficar sem jeito, coisa que raramente acontecia – Sabe, eu sempre gostei dele, Miguel sempre foi muito legal comigo…
— Boa noite, Sophia… – Suzana saiu do quarto e foi para seu caminhão, ainda tinha uma ligação para fazer.
