Parte 2

O dia amanheceu mais cedo do que Sophia estava acostumada, mesmo sendo inverno, o sol surgia cedo no Nordeste. Sem noção de horas e de onde estava de fato, a menina se levantou e ficou sentada na cama até seus olhos se acostumarem com a claridade que vinha da veneziana da janela. Resolveu abrir só para ter certeza de que Suzana e seu caminhão ainda estavam lá, mas bateram à porta do quarto.

— Já de pé? – Suzana entrou com uma caneca de café com leite na mão – Toma, está quentinho… – ela entregou a caneca para Sophia que pegou receosa.

— Obrigada… – a menina disse baixo e já esperava que Suzana fosse começar as piadinhas – Vamos para onde, hoje?

— Campina Grande e talvez, isso depende de você, talvez podemos ir para a Festa de São João… – Suzana sorria e ia para o banheiro do quarto escovar os dentes.

— Por que vai depender de mim?

— Porque você aprontou poucas e boas e também não sei se curte festa junina…

— Na verdade nunca fui… – Sophia falou bebendo o café com leite.

— Nem na escola? – Suzana enxaguou a boca e olhou incrédula para a irmã.

— Suzana, a escola que papai me colocou é alemã! – a menina falou como se fosse óbvio.

— Credo, Sophia, que vida triste que você teve… – Suzana ria.

— Não estudou na mesma escola que eu? – Sophia aos poucos ia querendo cada vez mais saciar suas curiosidades sobre a irmã mais velha.

— Na minha época de escola a melhor escola era a que a gente falava inglês desde cedo, foi nessa que estudei até me formar, e aí como atividades extracurriculares eu aprendi outras línguas… Pelo jeito papai e as escolas andam bem mais exigentes…

 – Em Porto Alegre não era escola alemã era canadense, mas quando fui pra São Paulo com minha mãe ela e meu pai decidiram me colocar nessa escola, ainda bem que papai me fez aprender várias línguas desde cedo…

— Privilégios, Sophia… – Suzana entendia daquelas questões bem afundo, sabia do poder de seu patrimônio em dinheiro, sabia de qual classe vinha, mas não ignorava as outras – Vamos?

— Vou tomar um banho… – Sophia entrou no banheiro com suas coisas.

Suzana já esperava do lado do caminhão quando Sophia finalmente desceu para ir embora, já tinha acertado a conta da hospedagem e do café da manhã e mexia no celular quando a menina apareceu com a mochila nas costas.

— Posso te perguntar uma coisa? – Sophia pegou Suzana de surpresa, a mulher pulou de susto ao ver a irmã do seu lado.

— Pode… – as duas entraram no caminhão e Suzana começou a dirigir.

— Desde quando você e o Miguel namoram?

— A gente não namora mais, Sophia… – Suzana ficava vermelha e mantinha os olhos na rua.

— Ele ainda manda mensagem pra perguntar de mim, então? – ela riu.

— O que quer realmente saber, Sophia? – Suzana a olhou abaixando um pouco os óculos de sol.

— Desde quando você e o Miguel namoram… Namoravam, se preferir…

— Por que quer saber disso? – Suzana entrou na estrada, a pista estava vazia, uma reta só.

— Quero saber da sua vida, ué… E você me tirou meu celular, então vai ter que me aturar puxando assunto, a não ser que me devolva… – Sophia ergueu uma sobrancelha.

— Desde o ensino médio.

— Já vi que não vai me devolver o celular… – Sophia entendeu a resposta de Suzana – Nossa, mas é praticamente uma vida juntos!

— Não disse que foi contínuo, Soso… – Suzana ligou o rádio.

— Então o ioiô na relação de vocês sempre existiu? Por quê?

— Meu Deus, o que fui arranjar pra minha cabeça? – Suzana disse para ela e Sophia riu.

— Fico quieta e não faço mais perguntas se me devolver o celular…

— Miguel é tão chantagista quanto você, sabia? Por isso que no começo nunca dava certo, a gente oficializou o namoro com 16 anos, durou cinco meses até terminarmos. Porque ele ficava nessa de chantagenzinha pra cima de mim.

— Bom, você não pode terminar comigo… – Sophia ria – Se conheceram na escola?

— No jardim de infância.

— Então realmente é uma vida juntos! Mas mesmo com as chantagenzinhas vocês voltaram e terminaram mais um trilhão de vezes…

— Eu era burra. – Suzana disse rápida.

— Era ou ainda é? – Sophia riu mais alto – Eu vi com quem você estava falando a hora que cheguei… – Suzana não olhou para a irmã – Qual foi o maior período que ficaram juntos?

— Estou realmente tentada a devolver seu celular, você pega o número dele e pergunta pra ele.

— Então era assim que você cedia às chantagenzinhas dele? – Sophia estava se divertindo como nunca, era difícil ver a irmã mais velha daquele jeito e ela aproveitaria cada segundo.

— Cinco anos.

— Só?

— De período que a gente não terminou e voltou, sim. Cinco anos foi nosso máximo de tempo de namoro sem interrupções. – Suzana estava se sentindo derrotada.

— Ok, vocês assumiram a primeira vez o namoro com 16, mas e antes?

— Antes o que, Sophia?

— Vocês ficavam antes disso? Perdeu o BV com ele, é?

— Meu Deus, Sophia… – Suzana ficava cada vez mais vermelha.

— Só curiosidade, ué! Fico quieta se me devolver o celular… Pergunto até pra ele, tenho certeza que ele vai me dar mais detalhes nas respostas…

— Sophia, minha história com o Miguel sempre foi complicada, não é nem saudável tantas idas e vindas assim por anos, e agora finalmente encerramos isso.

— Encerraram mesmo? – Sophia perguntou.

— Sim. – Suzana respondeu sem olhar para a irmã.

— Última pergunta, eu juro… – Sophia não se continha – Qual foi o motivo do término de vocês agora? Definitivo pelo jeito…

— Toma… – Suzana tirou o celular de Sophia do bolso da calça e entregou para a menina que ficou surpresa.

— Vai me passar o número do Miguel pra eu perguntar pra ele ou vou ter que me virar pra achar? – Sophia mexia no aparelho, mas percebeu a falta de resposta da irmã.

— Faz o que você quiser, Soso… – Suzana estava séria.

— O que foi que eu fiz dessa vez? – Sophia olhava para a irmã.

— Nada… – Suzana sorriu – Nada de compras no meu nome, Sophia, por favor…

— Já aprendia a lição… Falando nisso, você tem como pagar?

— Pra sua sorte, sim… – Sophia colocou os fones de ouvido e passou parte da viagem em silêncio, assim como a irmã mais velha.

Campina Grande ficava a 130 km de João Pessoa, a primeira cidade que Suzana parou para abastecer e fazer uma das entregas do dia. Já passavam das 11h da manhã quando Sophia reclamou de fome pela primeira vez. A manhã para aquelas duas mulheres foi silenciosa, mas Sophia não aquietou sua curiosidade e sem que Suzana sequer percebesse ela começou a procurar por Miguel nas redes sociais, sua surpresa foi grande em saber que eles eram amigos e se seguiam na maioria delas.

— A gente vai parar pra comer? – Sophia perguntou tentando disfarçar o sorrisinho ao achar o instagram de Miguel e ver que eles se seguiam.

— Já já, estamos quase chegando… – Suzana dirigia.

— Ok… Posso pedir uma coisa?

— Lá vem…

— É de comer, eu to com fome de um lanche no Mc Donald’s, de verdade, se a gente puder parar em um…

— Tá aí uma ótima sugestão… – Suzana sorriu e Sophia retribuiu o sorriso mais sincero que já tinha dado em toda aquela viagem – Vamos fazer a entrega e aí a gente para num Mc, ok?

— Ok… – Sophia mexia no celular.

Suzana parou o caminhão em outro galpão de uma empresa grande, entrou com a carreta de ré e esperou que os funcionários retirassem os produtos da entrega dela enquanto ela verificava no papel se estava tudo nos conformes. Sophia tinha descido do caminhão, recuperou seu celular, mas apesar de ficar mexendo nas redes sociais, ela não conversou com ninguém, nem com sua melhor amiga, Gabriela. Toda a conversa que teve com a irmã mais velha ainda estava sendo digerida na cabeça confusa e adolescente da ruiva, quando Suzana entregou o celular para ela a surpresa foi tão grande que por alguns segundos Sophia pensou em recusar, mas aquilo seria demais até para ela.

“Oi, lembra de mim?”

Sophia finalmente mandou a mensagem no instagram de Miguel e enquanto Suzana trabalhava e Miguel não respondia, ela ficou mais uma vez vendo as fotos do perfil do rapaz. Já tinha ficado intrigada no caminhão quando viu pela primeira vez aquele perfil, não pelo fato de saber que o seguia e ele a seguia de volta, mas por ver que tinha muitas fotos de Suzana com ele e a mais recente era de um mês atrás.

— Soso, já tá quase acabando aqui, tá? – Suzana falou para Sophia que respondeu com um joinha.

“Soso!”

Miguel tinha respondido e parecia animado na visão de Sophia.

“Aconteceu alguma coisa?”

Sophia sorriu, era óbvio que uma mensagem de Sophia diretamente para Miguel seria preocupante para ele.

“Não, eu só queria saber se lembra de mim… Tô viajando com minha irmã…”

— Certo, obrigada pessoal, bom trabalho a todos! – Sophia viu sua irmã se despedindo dos funcionários e fechando a porta da carreta – Pronta? – Suzana perguntou indo até Sophia.

— Pronta e com fome… – Sophia bloqueou a tela do celular e entrou no caminhão com Suzana.

— Vamos comer! E aí, tá se comportando nesse negócio? – Suzana falou olhando para o celular na mão de Sophia.

— Óbvio!

— Sei… Estou de olho, Sophia… – Sophia mostrou a língua para irmã que riu – Quando você era pequena e alguém falava alguma coisa que você não gostava você fazia exatamente desse jeito…

— Mostrar a língua? – Sophia ficou vermelha.

— Sim, até que um dia sua babá te ameaçou com o magic clic e você ficou horrorizada… – Suzana ria e dirigia.

— O que é isso?

— O magic clic? – Sophia confirmou com a cabeça – É um negócio pra acender fogão, ou qualquer coisa com fogo, na casa de papai tinha pra gente acender velas já que os eletrodomésticos sempre foram de última geração…

— E a Teresa me ameaçou com isso?! – Sophia estava incrédula.

— Era só pra você parar de mostrar a língua, Soso, deu certo, depois do escândalo que fez, mas deu certo… – Suzana ria – Bom, até agora, né?

— Isso dá processo, Teresa deve ter escapado por pouco! – Sophia voltava a mexer no celular.

“Bom, eu fui informado das coisinhas que aconteceram, mas você está bem? Suzi?”

Miguel tinha respondido a mensagem de Sophia que cada vez mais não se continha de vontade de saber o que tinha acontecido com os dois.

“Estou bem… Estaria melhor num avião, mas é o que tenho pra hoje e para mais vários dias. Suzana está bem, ué, não têm falado com ela?”

Sophia tentou se fazer de desentendida para Miguel que começou a digitar na mesma hora.

— Pronto, um Mc Donald’s para nós! – Suzana estacionou a carreta em uma rua próxima e as duas desceram do caminhão para almoçar.

— Morrendo de fome, poderia comer três lanches! – Sophia dizia entrando no lugar com ar condicionado.

— Vou pedir, o que você quer? – Suzana ia para a fila.

— Um Tasty, coca e batata grande… – Sophia disse e foi para uma mesa.

“Falei, mas é que… Bom, pelo jeito ela não te falou, mas a gente não tá mais junto…”

Miguel tinha respondido e Sophia ficava cada vez mais intrigada.

“A gente quase não se falava, ainda mais dessas coisas, mas o que aconteceu? Vocês praticamente sempre estiveram juntos…”

Sophia voltou para o perfil de Miguel, a última foto era dele com Suzana em uma festa, era raro para Sophia sequer ver a irmã, tinham os contatos uma da outra, se seguiam nas redes sociais, mas aquilo nunca foi algo que Sophia realmente prestasse atenção, com mais de dois mil seguidores ela pouco se importava com muita coisa, então ver a irmã que tinha chegado de jeans e all star na sua casa em São Paulo com um vestido de gala que contornava a silhueta dela e bem decotado na frente, cheio de brilho, maquiagem e sorrindo de uma maneira que Sophia nunca tinha visto, a deixava intrigada e curiosa. Ao lado da irmã mais velha de Sophia estava Miguel, um rapaz jovem, apesar dos seus 30 e poucos anos, sorridente, um pouco mais alto que Suzana mesmo de salto, a abraçando pela cintura, vestindo um conjunto de terno, calça social e gravata borboleta no colarinho da camisa branca, cabelos muito bem penteados, mas que deixavam escapar os cachos um pouco largos que ele tinha nas pontas, Miguel sorria com seus olhos escuros na foto para Suzana que olhava para a câmera, e Sophia se perguntava por que mais uma vez eles tinham terminado se aquela foto representada o oposto de um término.

— Prontinho, vamos matar esse monstro da fome na barriga, meu Deus! – Suzana colocou a bandeja na mesa, assustando Sophia – Quem se assusta com facilidade é porque estava aprontando…

— Então estava aprontando quando te vi conversando com o Miguel de manhã? – Sophia rebateu comendo uma batata.

— Isso, enche a boca de comida, assim você para de me atazanar. – Suzana mordeu seu lanche – Soso, precisamos conversar…

— Eu juro que não fiz nada! – Sophia começou a falar desesperada.

— Calma, garota, nem deixou eu terminar de falar… – Suzana comeu uma batata – Eu tenho mais uma entrega pra fazer depois de amanhã, vamos ficar aqui em Campina Grande por dois dias, hoje tem a festa de São João…

— Eu quero ir, prometo me comportar, Suzana, mas me leva, por favor… – Sophia estava animada com a ideia da festa junina.

— Me pedindo assim, claro que levo… – Suzana riu – Então, depois de amanhã eu tenho uma entrega em Teresina, mais muitos quilômetros, mas é a última…

— Mas, então por que você disse que seria uma viagem de várias semanas? Depois de Teresina a gente pode ir direto pro Sul, não é? – Sophia tinha o semblante confuso.

— Pode, mas tem dois lugares que queria parar antes disso e queria que fosse comigo…

— E eu tenho escolha de não ir?

— Tem, se disser que não quer eu vou direto pra Porto Alegre, mais uns cinco dias de viagem se estiver tudo calmo… – Suzana tomou seu refrigerante e abaixou o olhar.

— Quais lugares são esses? – Sophia não sabia definir seus sentimentos naquela hora.

— Um é uma surpresa que acho que você talvez goste, o outro é a casa da minha mãe… – Suzana olhou para a irmã – Mas está tudo bem se não quiser, eu entendo e de todo modo eu vou pra casa da minha mãe depois, isso não é problema.

— Eu… Eu não sei… – Sophia estava inquieta com suas possibilidades – Você quer que eu decida agora?

— Não, Soso, mas pelo menos até depois de amanhã…

— Tá… – Sophia comia seu lanche quieta depois daquelas novidades.

— Vamos ficar numa pousada bem legalzinha perto de onde vai ser a festa, aí a gente vai a pé…

— O que se faz nessa festa?

— Come, dança, sério mesmo que nunca foi numa festa junina, Soso? – Suzana sorria.

— Bom, eu sempre achei que era festa que tocava sertanejo, e eu não piso em lugares que tocam sertanejo…

— Você não só pisou como dormiu no meu caminhão…

— Mas eu te salvei do sertanejo, coloquei minhas músicas… – Sophia tentava fazer parecer óbvio – Toca sertanejo nisso?

— Bom, em algumas cidades lá pro sudeste sim, Minas também, aqui em cima é bem forró e rastapé, você vai gostar!

— Espero mesmo…

Depois de terminarem de comer, Suzana e Sophia voltaram para o caminhão e dirigiram mais um pouco até chegar na pousada que Suzana tinha comentado, elas ficariam no mesmo quarto, mas daquela vez teria uma cama para cada uma, Sophia pegou uma de suas malas grandes na carreta do caminhão e subiu com dificuldade até o quarto.

— Um elevador seria ótimo… – a menina já estava ofegante e suada de tentar carregar a mala escada acima.

— Pois é, pena que não tem… – Suzana ria.

— Uma ajuda seria muito bem-vinda, Suzana… – Sophia fazia força.

— Eu sei que você é capaz, Soso! – Sophia bufou e continuou subindo – Ali, aquele é o nosso quarto… – Suzana foi na frente para abrir a porta.

— Uau, vai abrir a porta? Obrigada pela grande ajuda…

— De nada! – as duas entraram.

— Preciso de um cochilo de muitas horas antes dessa festa… – Sophia deitou na cama esparramada, nem tinha tirado a mochila das costas.

— Aproveite… – Suzana deitou na outra cama e em pouco tempo já tinha pegado no sono.

“É complicado, Soso… Mas ela está bem? Tem comido direito? Porque a Suzi sempre dava um jeito de burlar algumas refeições por estar cansada demais…”

Sophia pegou seu celular e leu a mensagem que Miguel tinha mandado na hora do almoço.

“Bom, eu nunca sei a providência das comidas que a Suzana pede ou que tem em pousada… Você se preocupa muito com a Suzana, nem parece que terminaram…”

Sophia olhou para a irmã dormindo, enquanto esperava a resposta de Miguel foi mexer na rede social da irmã.

“Pois é… Suzi é bem Suzi… Soso, eu preciso voltar pra empresa, cuida bem da Suzi e se comporta!”

Mesmo intrigada Sophia conseguiu pegar no sono tranquilamente naquela tarde. Já anoitecia quando Suzana se espreguiçou na cama, esticando bem seus braços e pernas depois de horas sentada dirigindo, olhou para o lado e viu sua irmã dormindo entre mochila, celular, com um pé do tênis, o outro estava no chão, Suzana riu daquela cena, percebeu o quanto sua irmã tinha crescido, o momento nostálgico vinha de hora em hora para a mulher de 36 anos, lembrava de sua irmã nascendo, crescendo e das poucas vezes que passou a ver a pequena ruiva porque começou a trabalhar e ter sua própria vida.

— Soso… – Suzana passava a mão no cabelo da menina, era liso, ondulado nas pontas, ruivo natural e naquele momento era uma bagunça só – Soso, eu vou tomar um banho, mas vai acordando pra gente ir pra festa…

— Tá… – o som saiu abafado, Sophia estava com a cara no travesseiro e não fez sinal de que levantaria tão rápido.

— Nada como um bom banho demorado, morno e revigorante! – Suzana saiu do banheiro de toalha na cabeça e uma enrolado no corpo, viu sua irmã sonolenta sentada na cama olhando para o nada.

— O que se veste pra ir em festas de São João? – Sophia falou bocejando, a cara amassada deixava suas bochechas vermelhas e inchadas.

— Roupa.

— Que tipo de roupa, Suzana… – Sophia revirou os olhos – Eu vi no google que tem gente que vai à caráter, a gente precisa fazer isso?

— Só se quiser… Eu vou de saia e bota mesmo… – Suzana enxugava o cabelo com a toalha na mão.

— Hum… Vou tomar banho e depois vejo o que tenho aqui nessa mala… – Sophia levantou e caminhou como um zumbi até o banheiro. Quando saiu levou um susto ao ver sua irmã como na foto com Miguel, produzida, sem as calças jeans, sem o all star – Quem é você e o que fez com a Suzana?!

— Matei por uma noite… – Suzana estava maquiada, muito bem maquiada de um jeito que Sophia nunca pensou em presenciar, vestia uma saia envelope marrom, uma regata branca e por cima da regata um jaquetão jeans, as botas nos pés e batom vermelho na boca.

— Não achei que você era do tipo que sabia o que era um rímel… – Sophia enxugava os longos cabelos.

— Todos da Mac, quer usar?

— Você sabe o que é a Mac?! – Suzana ria.

— Soso, eu não passo maquiagem todo dia porque é desgastante, mas oportunidades como essas a gente tem que passar uma argamassa na cara…

— Você sabe maquiar bem… – Sophia disse abrindo sua mala no chão e olhando as opções de roupa que poderia usar.

— Isso foi um elogio?! – Suzana deitou na cama rindo.

— O que acha? Muito nada a ver? – Sophia ignorou a piada da irmã e se virou para mostrar um vestido de alças finas, preto.

— Lindo, Soso… – Suzana sorriu, preferiu não fazer mais brincadeiras, estava gostando de ter sua irmã mais nova pedindo ajuda com coisas tão simples e até banais.

— Se eu for de tênis fica muito ruim? – Sophia pegou o tênis que pretendia usar.

— Não, vai ficar linda… – Suzana viu sua irmã se vestindo e começando a mexer na frasqueira de maquiagem.

— Suzana… – Sophia tinha a cabeça abaixada – Me maqueia? – ela perguntou receosa, uma pergunta tão medíocre, mas com muito sentimento para Suzana que teve que se segurar para não se emocionar.

— Senta aqui… – Suzana fez sinal para Sophia sentar na cama, a menina sentou e fechou os olhos – Tenho liberdade artística?

— Depende do que você tem na cabeça… – Sophia soltou uma risadinha – Sei lá, pode ser tipo a sua…

— Tá… – Suzana sorriu e começou a maquiar a irmã – Vê se gostou… – depois de alguns minutos Suzana disse e Sophia abriu os olhos.

— Uau, ficou show… – Sophia foi até o banheiro olhar a maquiagem – Você arrasa, Suzana! Devia ser maquiadora… – ela voltou para o quarto – Vai querer uma foto? Porque eu acho válido… Estamos muito gatas… – sem conseguir responder por estar sem palavras de felicidade, Suzana se aproximou de Sophia com o celular na mão e a câmera frontal ligada, fez uma pose e Sophia tirou a foto – Posso postar? Ou melhor não? Melhor minha mãe não ver, né…

— Acho que Magda não vai ver problema não, você que sabe, Soso… – Suzana guardava as coisas tentando não demonstrar na frente da irmã mais nova o quanto estava emocionada.

— Vou postar então…

A festa de São João em Campina Grande era uma das maiores do nordeste e do Brasil, pessoas de todos os cantos, principalmente da Paraíba, iam para lá apreciar aquele grande evento folclórico e cultural do país, as ruas estavam enfeitadas, muitas pessoas estavam à caráter, crianças corriam nas ruas empolgadas e o lugar que Suzana e Sophia estavam hospedadas ficava perto do espaço do evento, as duas foram caminhando pelas ruas festivas e decoradas, Sophia olhava para todos os lados e tirava foto de tudo o que podia.

No centro de exposições que se realizava a festa em Campina Grande havia um poste bem no meio do lugar e dele saíam fitas e mais fitas penduradas com bandeirinhas coloridas por todos os lados. Uma tenda vazada e típica daquela festa, foodtrucks faziam parte da aglomeração, mas as tradicionais barracas de comidas típicas também marcavam presença, Sophia sorria de orelha a orelha, não se importou de ouvir que tocava sertanejo naquele lugar também.

— Caramba, que bonito! – a ruiva dizia maravilhada.

— Gostando? – Suzana perguntou – Já já começam as apresentações e o forró!

— É enorme! Uma vibe muito legal! – nas caixas de sons começaram a tocar os famosos rastapé – Isso é forró? Não tem como não dançar! – Sophia se mexia sem jeito e Suzana quase gargalhava.

— Eu estou vivendo pra ver isso… – Suzana ria de ver a irmã daquele jeito.

— E eu estou vivendo para ver a moça mais bonita que meus olhos já viram… – um rapaz falou ao lado de Suzana que se assustou, Sophia viu a cena e ficou só observando – Desculpa te assustar, moça… – ele sorriu, era alto, moreno, olhos verdes e sorriso largo – Meu nome é Vinícius…

— Suzana… – ela disse sem jeito e receosa, Sophia fingia que não estava nem aí, mas estava atenta a tudo enquanto ainda tentava dançar forró sozinha.

— Sabe dançar forró? Me acompanha nessa dança? – ele estendeu a mão e Suzana olhou para Sophia que sorriu maliciosa.

— Por que não, né? – Suzana aceitou e Vinícius a puxou pela cintura e começou a guiá-la na dança.

— Seu sotaque me diz que não é daqui, mas sua dança me diz que podia ser nordestina facilmente… – Vinícius falava enquanto levava Suzana de um lado para o outro e Sophia filmava sem que eles percebessem.

— Sou de todos os lugares… – Suzana falava.

— Mais precisamente?

— Do Brasil… – ele riu.

— Ok, já entendi… – eles continuavam dançando – Ah… Agora que estava tão bom, o sertanejo tinha voltado para as caixas de som.

— Obrigada pela dança, Vinícius… – Suzana disse se afastando.

— E se eu te pagar um vinho quente? Uma cerveja… – ele sorria para Suzana que ficou sem jeito – Pra sua amiga também, não deixo ninguém passando fome e sede na minha terra não…

— Topamos. – Sophia se apressou em dizer – Oi, sou Sophia, irmã da Suzana… – ela estendeu o braço pra cumprimentar o rapaz.

— A beleza é de família… – Vinícius disse – Venham, escolham o que quiserem e eu pago…

— Você não tem noção de onde está amarrando seu jegue, Vinícius… – Suzana disse.

— Não tem problema! – ele riu – Vamos, as comidas aqui são muito boas… – ele foi na frente e Suzana e Sophia o seguiam.

— Eita, Suzana, você é rápida!

— Me respeita, menina… – Suzana ficava envergonhada – Só dançamos e ele vai te dar uma coisa pra comer, você que é atirada por comida…

— Uhum… – Sophia ria – Prometo fingir que não vejo quando vocês ficarem…

— Sophia!

— Pedi um acarajé pras moças bonitas e aqui está um vinho quente pra cada uma… – Vinícius entregava um copo para Suzana e outro para Sophia.

— Vinícius, não precisava, eu pago… – Suzana começou a mexer na bolsa transpassada no corpo.

— Não vou aceitar, mas eu aceito outra dança enquanto o acarajé não fica pronto… O que me diz? Mais um forrozinho? – Suzana aceitou envergonhada.

O acarajé ficou pronto antes que a música tivesse acabado, Sophia ficou com os dois na mão, comia o seu e ria da situação que a irmã se encontrava, apesar de saber que Suzana estava bem envergonhada, Sophia via que ela estava gostando da dança. Vinícius conduzia bem e Suzana já parecia saber dançar há anos.

— Parece que o acarajé ficou pronto… – Suzana disse vendo Sophia comendo.

— Quer ir lá? Ou vamos esperar a música acabar? – Vinícius ainda dançava com Suzana, sorria para ela na conversa e naquela hora se aproximou mais ainda da mulher, roubando um beijo da irmã de Sophia.

— Que isso! – Suzana se afastou assustada.

— Desculpa, desculpa… – Vinícius se desculpava desesperado – Suzana, sério, me desculpa… – Suzana foi até Sophia que tinha visto tudo.

— Tudo bem… – Suzana disse perto da irmã.

— Desculpa de verdade, eu agi no impulso… – Vinícius ainda se desculpava.

— Não esquenta, é que me pegou de surpresa… – Suzana disse – Bom, deixa eu comer esse acarajé…

— Eu vou pegar um pra mim… – ele disse – Posso pedir pra não fugir enquanto isso? – Vinícius sorria sem graça e Suzana concordou com a cabeça.

— Suzana, tá tudo bem? – Sophia perguntou assim que viu o rapaz se afastando – Quer ir embora?

— Não, Soso, de jeito nenhum, só que fui pega de surpresa mesmo… – no fundo Suzana queria ir embora, mas não estragaria a diversão da irmã mais nova.

Mais algumas horas de festa e Sophia já estava bem solta, o vinho quente fazia efeito na garota que depois de três copos foi proibida pela irmã de tomar mais, e foi obrigada a comer os doces para aumentar a glicose, coisa que ela fez sem reclamar, Suzana e Vinícius voltaram a dançar mais vezes, o rapaz também dançou com Sophia que ficou tropeçando no próprio pé toda hora, se matando de rir e fazendo Suzana rir da situação e Vinícius tentar esconder a risada.

— Olha, eu dançaria forró a noite toda com você, Suzana! – Vinícius dizia em outra dança com a irmã mais velha de Sophia.

— Minha energia já está quase no fim… – Suzana falou sorrindo, a festa se estenderia madrugada adentro.

— Não parece, mas se quiser parar, a gente para…

— Só até acabar essa música, e eu preciso levar a ruivinha pra pousada, ela já tá alegrinha demais, não posso correr o risco… – Suzana olhou para Sophia sentada em uma das mesas do lugar, comendo maçã do amor e pé-de-moleque quase ao mesmo tempo.

— Posso levar vocês, se quiser, tô de carro…

— Não precisa… – Vinícius olhava para Suzana e mais uma vez se aproximava da mulher.

— Eu vou te beijar, tá? – ele disse baixo antes de beijar Suzana mais uma vez e perceber que ela correspondeu ao beijo.

— Vinícius… Me desculpa, preciso ir… – Suzana disse se afastando.

— Ei, fiz alguma coisa errada? Desculpa… – Vinícius não entendia nada.

— Preciso ir, obrigada pela dança, pela comida, pelos vinhos quentes… – Suzana foi até Sophia – Vamos, Soso? Tá tarde…

— Ué, mas o que aconteceu? Dessa vez parecia que você tava curtindo… – Sophia acompanhava Suzana que caminhava na frente.

— Vamos, tá tarde…

Na pousada, Suzana tirava a maquiagem em silêncio, Sophia deitou na cama cansada e de barriga cheia.

— Que que houve, Suzana?

— Nada, Sophia…

— Ué, não tá solteira? Tinha mais é que aproveitar o bonitão que tava te dando muito mole… – Suzana ficou quieta, continuava tirando sua maquiagem com os lenços umedecidos – Ou não tá solteira?

— Tô.

— Não tá parecendo, parece que tô vendo culpa na sua cara por ter beijado o Vinícius…

— Que culpa o quê, garota!

— Você tá chorando? – Sophia se levantou e se aproximou de Suzana no banheiro, Suzana estava de frente para a pia com o rosto manchado da tentativa de tirar a maquiagem – Suzana? – Sophia nunca tinha presenciado aquela situação com a irmã mais velha – Que que aconteceu?

— Nada, Sophia, vai dormir, tá tarde…

— Você tá se sentindo culpada? – Sophia se aproximou mais – Suzana, qual foi o motivo de vocês terem terminado dessa vez? – a menina perguntou receosa – Ele foi escroto? Te traiu, foi isso?

— Sophia, vai dormir…

— Eu vou, mas só quando você parar de me assustar ficando desse jeito, o que aconteceu? A gente tem um Brasil pra cruzar, tá?

— Por um momento achei que você estava realmente preocupada… – Suzana riu sem muitas emoções e lavou o rosto.

— Eu tô, tá bom? – Sophia disse depois de respirar fundo – Você me assustou, nunca te vi assim…

— Acontece nas melhores famílias…

— Você se sentiu culpada, não foi? Você gosta do Miguel ainda, não é? Por que terminaram então?

— Soso, vai dormir, vai…

— Fala, Suzana, por favor… Se você der outro piti desses e desmaiar?? Ou morrer do nada? Eu fico como?

— Meu Deus, como você é exagerada, sugiro fazer faculdade de Artes Cênicas…

— Tá bom, eu vou dormir… Boa noite… – Sophia desistiu de saber uma resposta da irmã e depois de lavar o rosto, colocou seu pijama e deitou na cama, mas não conseguiu dormir – Suzana? – ela se virou na cama e viu a irmã acordada olhando para o teto na cama ao lado.

— Oi, Soso…

— Eu topo a viagem mais longa, tá?

— De coração ou é só porque do nada te deu um surto de preocupação com alguém que não fosse você mesma?

— Melhor não me irritar que sou capaz de mudar de ideia… – Sophia disse sorrindo e Suzana retribuiu o sorriso – Olha, se você quiser conversar… Eu sei que não sou a melhor pessoa pra nada, mas é porque no momento tem só eu aqui, então se quiser conversar…

— Esse surto tá durando, né? – Suzana riu.

— Boa noite, Suzana. – Sophia disse seca e se virou na cama.

Sophia levantou cedo no dia seguinte, mesmo tendo ido dormir de madrugada, a adolescente acordou antes de dar 10h e viu sua irmã ainda dormindo. O quarto estava razoavelmente claro, a luminosidade do sol já deixava o ambiente levemente iluminado pela janela fechada. Sophia pegou seu celular ainda sonolenta. Tinha mensagens não respondidas desde o dia anterior quando recebeu seu celular de volta, ainda não se sentia motivada a visualizar as conversas das amigas, mas visualizou a conversa no instagram que teve com Miguel.

“Isso é novidade, vocês duas juntas em uma foto e super animadas?”

Ele tinha enviado como resposta à postagem de Sophia com a foto que tirou com Suzana antes de irem para a festa.

“Suzana me levou pra maior festa junina do Brasil, foi ela que me maquiou, o que achou?”

Sophia via sua irmã num sono profundo e se lembrou de tudo da noite anterior.

“Estavam lindas, as duas! Aproveitou a festa?”

Sophia começou a digitar que ela tinha aproveitado e que Suzana aproveitou muito mais, mas apagou tudo, estava intrigada de novo com a relação amorosa da irmã com Miguel e se sentia cada vez mais tentada a descobrir tudo e até de ajudar os dois. Bancar o cupido sempre foi algo que ela gostou de fazer com suas amigas, era influente o bastante para ser ouvida nesses assuntos.

“Aproveitei, é bem legal, pena que toca sertanejo…”

Foi a resposta definitiva que ela mandou. Suzana começou a se mexer na cama.

— Ai que dor nas costas… – ela dizia se espreguiçando.

— Dança mais um pouco com o Vinícius… – Sophia disse bloqueando a tela do celular.

— Bom dia pra você também, Sophia… – Suzana ficou sentada na cama – Pelo jeito já tá animada, então vamos levantar, né?

— E vamos fazer o que hoje? Tem alguma coisa pra fazer nessa cidade além da festa?

— Tem, tem muitas coisas, Soso, vou te levar pra conhecer algumas… – Suzana abriu a janela – Ainda topa a viagem mais longa?

— Topo.

— Não vai impor condições?

— Por enquanto não… – Sophia sorriu – Acho que a gente já perdeu o café da manhã da pousada, aqui nesse papel fala que é até às 10h… – ela mostrou o informativo da pousada para Suzana.

— A gente come na padaria, vamos, se arruma e já saímos direto.

Depois de prontas e de terem tomado um café da manhã na padaria na esquina da rua da pousada, Suzana e Sophia pediram um uber e foram para o primeiro ponto turístico que Suzana queria mostrar para a irmã mais nova. O Museu de Arte Popular da Paraíba.

— Um museu, Suzana? – Sophia descia do carro e olhava para a grande estrutura moderna a sua frente, mas apesar daquela visão contrastante, Sophia não demonstrava animação nenhuma por estar lá.

— O Museu de Arte Popular da Paraíba, Soso… – Suzana caminhava ao lado da irmã para a entrada do lugar.

— Tenho até medo do que seria “o lugar surpresa” que você quer me levar depois de Teresina… – Sophia falava fazendo aspas com os dedos.

— Ué, Sophia, ir no MoMA você vai, ir no Louvre você vai, qual é o problema de ir num dos principais museus aqui do nordeste? – Suzana ria.

— Nossa, Suzana, não tem nem comparação, né?

— Não mesmo, porque esse museu aqui é único, Sophia, é a nossa cultura, é a nossa arte popular, vem… – Suzana entrou no lugar e começou a passear pelos corredores – Aprecie, Soso, olha só, isso aqui é nosso, nossa criação, olha esses trabalhos artesanais que não se encontram em mais nenhum outro lugar.

— É feito de barro e argila, Suzana, qualquer um sabe fazer… – Sophia olhava para as peças em exposição.

— Um dia eu tinha ido passar uns dias na casa do papai, você tinha uns cinco anos, eu já tava terminando a faculdade, mas fui passar um tempo lá pra ficar com você, e você já estava na escolinha… – Suzana começou a falar – A professora deu pra turma o famoso trabalho do feijão e você estava revoltada…

— Por quê? – Sophia perguntou olhando os artesanatos da exposição e curiosa com aquela história.

— Porque seu feijão não crescia no algodão… – Suzana ria.

— E onde você quer chegar com isso?

— Que se nem um feijão você conseguiu fazer crescer, não venha falar que qualquer um consegue fazer essas obras de arte de barro e argila, Sophia…

— Nossa, obrigada por falar que nem pra isso eu sirvo. – Sophia ficou séria.

— Não disse isso, você que precisa saber interpretar, você serve pra muitas coisas, Sophia, mas isso não quer dizer que você sabe fazer qualquer coisa, principalmente quando você fala isso para se sobressair, se sentir superior… – Suzana sorria – Só admire a arte do nosso povo que é tão boa quanto as artes dos países que você tanto gosta de ir pra visitar museu…

— Não me sobressaí, tá bom?

— Tá bom, Soso… – Suzana continuou andando.

— Visto de fora não parece que é um museu, não tem aparência de velho… – Sophia voltou a falar depois de passar quase toda a exposição em silêncio.

— Sabe quem projetou esse museu? – Suzana perguntou e Sophia negou com a cabeça – Oscar Niemeyer, foi a última obra dele, e além de tantas obras de arte que temos aqui dentro, o próprio museu é uma peça magnífica, vem cá… – Suzana levou Sophia até um parte do museu com um totem – Essa é a vista do museu de cima, tá vendo? Aqui é mais ou menos onde a gente tá… – ela apontava na foto – Esses três círculos aqui são chamados de Três Pandeiros…

— Meu Deus, é verdade! Parecem pandeiros! – Sophia se animou por perceber aquilo.

— Lindo, não é? – Suzana sorriu ao ver a expressão no rosto de Sophia – Vem, vou te levar pra outro lugar antes do almoço…

— Tenho até medo de perguntar…

— É um shopping… – Suzana disse rindo.

— Mentira… Sério? Vamos pro shopping?! – Sophia quase pulava de alegria.

— É, vamos… – as duas chamaram um novo uber e foram levadas até o lugar comentado por Suzana.

— Suzana, defina shopping pra você… – Sophia saiu do carro e não encontrou uma superestrutura que remetesse a um shopping, e sim uma rua com muitas barracas, tendas, galpões.

— Um lugar que podemos fazer compras… – Suzana disse – Esse é o Salão do Artesanato, Sophia.

— Eu devia imaginar que a minha ideia de shopping é diferente da sua… – Sophia caminhava pelas barracas de artesanato.

— No museu a gente viu as principais obras de arte, mas olha aqui, Sophia, aqui tem muito mais e se você gostar de alguma coisa, eu compro pra você… – Suzana falou já se maravilhando com as inúmeras coisinhas que queria comprar.

Sophia e Suzana paravam em cada barraca, apesar de não querer demonstrar, Sophia estava gostando aquele shopping inusitado, ficou curiosa com muitos dos artesanatos que encontrou, tudo chamava a atenção dela, mas a adolescente tentava ser discreta.

— Suzana, era aqui na Paraíba que tinha aqueles bárbaros?

— Bárbaros? – Suzana ficou confusa.

— É, que usavam esses chapéus… – Sophia mostrou o chapéu de cangaceiro que encontrou em uma barraca para a irmã mais velha.

— Bárbaros… – Suzana ria – Cangaceiros, Sophia, eles tinham nome próprio aqui e sim, em algumas regiões mais pro sertão existiam muitos cangaceiros por essas terras…

— Não deixavam de ser bárbaros, ou agora é fofo eles invadirem cidades, estuprarem mulheres, levar prisioneiros?

— Olha, e eu que pensava que você nem sabia sobre a história do Brasil…

— Era daqui aquele Lampião? – Sophia colocava o chapéu na cabeça.

— Não, Lampião era de Pernambuco, mas aqui teve muitos cangaceiros também… Tá linda, Soso, posso tirar uma foto? – Suzana sorria para a irmã que fez pose com o chapéu.

— Afinal de contas, Suzana, esse Lampião era herói ou vilão? – Sophia mantinha o chapéu na cabeça enquanto olhava as outras coisas na barraca.

— Depende, Soso… Para alguns ele foi bandido, para o governo por assim dizer, mas para uma parte do povo na época ele era um justiceiro, apesar de ser “bárbaro” como você mesma disse…

— Então pouco importava pra galera ele ser bruto contanto que ele ajudasse na briga contra o governo?

— Não bem governo como a gente conhece, mas aqui no nordeste era uma política de fazendeiros ricos, donos de terras, e eles eram influentes ao ponto de terem o comando dessa região, mais até do que o próprio presidente na época, então era uma briga entre cangaço e esses fazendeiros que por muita gente eram vistos como os verdadeiros vilões… – Suzana explicava para Sophia que a olhava atenta.

— Tipo a nobreza francesa e o povo antes da Revolução? – Suzana riu – Que foi?

— Tipo isso, Soso… Não sabia que gostava de história…

— Meu professor é gato, me faz querer prestar atenção algumas vezes… – Sophia disse ficando vermelha – Posso levar esse chapéu?

— Já até paguei, Soso, não tirou da cabeça até agora, imaginei que ia querer…

— Obrigada… – Sophia disse sem jeito – É, você venceu, é um lugar legal e interessante…

— Quer ir almoçar agora?

— Podemos comer comida normal hoje? – Sophia perguntou na intenção de fazer Suzana comer algo saudável em um pedido indireto de Miguel.

— Podemos, vamos, vou te levar pra um restaurante self-service…

Na intenção de descansar o quanto podia para mais uma viagem longa no dia seguinte, Suzana e Sophia voltaram para a pousada depois do almoço. Suzana deitou na cama e ficou mexendo no celular, enquanto Sophia sentou no colchão para organizar sua mala que antes da festa tinha ficado extremamente bagunçado pela dúvida da menina em escolher um modelito adequado. Mais para o final da noite as duas pediram um marmitex para comer e dormiram cedo para pegar estrada logo que amanhecesse.

— A gente vai direto até o Piauí? – Sophia dizia no caminhão na manhã seguinte, enquanto Suzana terminava de arrumar suas coisas no banco.

— Não, Soso, acho que consigo ir até o interior do Ceará hoje, a gente pega firme e se tudo der certo paramos em Crateús pra dormir… – Suzana sentou no banco do motorista e ligou o caminhão.

— Você não cansa?

— De dirigir? – Suzana sorriu – Canso, mas não ao ponto de querer parar, nada que uma boa noite de sono não me deixe revigorada… – as ruas ainda estavam desertas por ser cedo demais, o sol mal tinha nascido e o caminhão já estava levando Sophia e Suzana para outro estado do Nordeste Brasileiro.

— Nunca senti interesse em dirigir… Mas assim que eu fizer 18 anos vou tirar a carta… – Sophia bocejou.

— Tenho certeza que assim que sentar atrás de um volante, nunca mais vai querer sair… – Suzana ligou o rádio – Tá bem cedo, Soso, tira um cochilo, a viagem vai ser longa…

— Exatamente o que vou fazer… – Sophia encostou a cabeça na janela e fechou os olhos.

— Fala logo o que você quer, Miguel… – Sophia acordou do cochilo que durou algumas horas e permaneceu de olho fechado escutando duas vozes no caminhão.

— Você ainda não me respondeu quando volta, Suzi…

— E por que quer tanto saber? – Suzana falava com o celular em sua perna.

— Pra gente conversar direito, pra que mais seria?

— Já conversamos. – Suzana olhou para Sophia – Eu tô dirigindo, não posso falar no celular, até mais…

— Onde estamos? – Sophia esperou mais uns segundos para mostrar que estava acordada.

— No Ceará… – Suzana sorriu – Talvez a gente chegue antes em Crateús, eu poderia ir um pouco mais pra frente, mas melhor a gente manter a rota original, tô explodindo de dor de cabeça, não é bom dirigir assim…

— Suzana… – Suzana ficou esperando a pergunta de Sophia, a menina abriu a boca várias vezes hesitando se devia perguntar ou não – Acho que nunca perguntei que faculdade você fez… – Suzana sorriu, no fundo a mulher sabia o que realmente Sophia queria perguntar.

— Nenhum palpite?

— Pra você escolher entre um caminhão e uma vida maravilhosa, eu não faço a menor ideia…

— Meu caminhão é minha vida maravilhosa, Soso… Vamos, tenta adivinhar!

— Você tem cara de quem fez faculdade só porque o papai te obrigou, então sei lá, direito? – Sophia falava analisando Suzana.

— Eu fiz porque queria fazer e você errou o curso… – Suzana ria.

— Bom, então eu não faço a menor ideia, foi a mesma do Miguel?

— Não, Sophia. – Suzana ficou séria – Miguel fez Engenharia Civil…

— Tá e você? Nutrição não pode ser porque você seria um péssimo exemplo…

— Fiz Psicologia, Soso… – Sophia ficou com a boca aberta e os olhos arregalados.

— Caramba, Suzana, uma puta profissão e você mesmo assim preferiu pegar um caminhão e fazer entrega?

— Ei, é uma profissão digna, e eu atuei com Psicologia nos primeiros anos de formada, eu uni meu trabalho de entregas com voluntariado em zonas carentes das cidades que passei.

— Se você fez porque queria e obviamente gostava, por que não seguiu carreira? – Sophia estava intrigada.

— Porque eu gostava e ainda gosto de dirigir e de fazer entregas, de ter essa vida…

— Foi isso que fez você e o Miguel terminarem várias vezes?

— Você não vai desistir desse assunto? Meu Deus, Sophia, eu e Miguel terminamos, definitivo, se ele era legal com você, ótimo, mas não é por isso que ele era com todo mundo, não é por isso que a nossa relação não era conturbada. – Suzana falava séria.

— Desculpa, eu só não entendo… – Sophia disse um pouco assustada com a resposta da irmã.

— O quê?

— Vocês têm uma vida juntos…

— Não quer dizer nada, Soso…

— Ele ainda se preocupa com você, Suzana, e eu sei que você ficou mal na noite da festa por ter beijado o Vinícius. Se ainda gosta do Miguel e ele pelo jeito ainda gosta de você, por que terminaram?

— Soso, por favor, eu tô morrendo de dor de cabeça…

— Foi depois da ligação dele?

— Piorou com você me fazendo essas perguntas. – Suzana entrava em uma cidade – Chegamos…

Suzana conhecia pousadas e hotéis em praticamente todos os lugares, já eram anos de caminhoneira e experiência no ramo, por isso ela sabia os lugares exatos para se passar um boa noite que daria a ela um bom café da manhã no dia seguinte para seguir viagem, e lugares onde podia deixar seu caminhão próximo, sem perigos. Depois de entrar na cidade, Suzana dirigiu em silêncio por algumas ruas, ficaria numa pousada que já tinha passado a noite uma vez e a recepção tinha sido boa. Pegou um quarto para ela e para Sophia, assim como na Paraíba, com duas camas, e para alívio da ruiva adolescente elas ficaram no primeiro andar.

— Vem, eles têm almoço aqui, vamos comer… – Suzana disse depois de minutos de silêncio desde que Sophia começou a perguntar sobre seu ex-namorado. Assim que deixaram as malas no quarto as duas desceram para o restaurante da pousada e se serviram.

— O que tem pra fazer aqui? – Sophia perguntou comendo.

— Não tem muita coisa, tem uma reserva natural que é o principal ponto turístico… – Suzana tomava o suco.

— Podemos ir lá? Ou você tá cansada e com dor de cabeça?

— Soso, sinceramente? Eu queria ficar deitada agora de tarde, tô pra entrar no meu período e só preciso de descanso, ainda mais com a gente viajando mais de 4h sem parar…

— Tudo bem, eu entendo, quer algum remédio?

— Se me disser que se comporta e que não vai aprontar eu deixo você ir nessa reserva sozinha… – Suzana sorriu.

— Mesmo? – Sophia perguntou surpresa.

— É uma cidade a mais pra você conhecer e a reserva é linda, não vou te privar desse turismo… Mas você tem que me prometer que vai se comportar e voltar pra cá até o horário que a gente combinar…

— Prometo! – Sophia disse empolgada.

— Ok, depois do almoço a gente vê isso direitinho… – Suzana passava a mão na testa e fechava os olhos.

— Você tá bem mesmo? Eu fico aqui se quiser… – Sophia mostrava cada vez mais que se preocupava com a irmã mais velha.

— Tô bem, Soso, seu surto ainda não passou? – ela riu.

— Tá ótima pra já fazer piadas… – Sophia mostrou a língua.

Suzana deixou um dinheiro com Sophia que daria para o transporte até a reserva, para voltar e um pouco mais para a menina comprar algo de comer se quisesse. Marcaram o horário que Sophia deveria estar de volta, até às 18h e nada mais que isso. Suzana pediu para Sophia ficar atenta ao celular, deu todas as recomendações necessárias para a adolescente que quase pulava de animação. Em outra ocasiões ir a um parque ambiental ou museu não chegava nem a entrar na lista principal de passeios que Sophia iria cogitar fazer, mas aquela viagem fazia a menina se empolgar com qualquer coisinha que fosse para sair um pouco do caminhão. O voto de confiança dado por Suzana fez com que Sophia quisesse mais ainda ir até a Reserva, tiraria fotos, turistaria e mostraria a Suzana que ainda era digna de confiança.

Na pousada, Suzana ficou receosa com o passeio da irmã, mas precisava ver se Sophia estava realmente aprendendo alguma lição, já que ainda achava que a preocupação da ruiva era repentina e provida de um surto, mas que logo passaria. Suzana tomou o comprimido para a dor de cabeça, tomou um banho e deitou na cama de pijama. Conseguiu dormir por algumas horas até seu celular tocar.

— Vi os stories da Sophia, imaginei que já poderia me atender…

— Sophia está num passeio sozinha e eu estou com dor de cabeça, Miguel, por favor…

— Quando você chega?

— No dia que eu chegar.

— Que seria?

— Miguel, não sei, eu tô numa viagem com a minha irmã, eu tô pouco me lixando pro dia que vou chegar em Porto Alegre. – Suzana falava cansada ao telefone.

— Suzi, aquilo não foi conversa, você sabe disso, então por favor, você acha mesmo que vou desistir de falar com você? Você acha mesmo que vou levar a sério seu piti? Quando você chegar, por favor, vamos conversar direito… – Sophia entrava no quarto sorridente, apontando para o horário no celular e comendo um doce.

— Já conversamos, preciso desligar. – ela desligou a ligação e sorriu para Sophia – Como foi?

— É bem bonito lá, pena que choveu… – Sophia mostrava o cabelo molhado – Mas foi rápido, depois ficou só nublado, tirei várias fotos… – ela jogou o celular na cama da irmã – Você melhorou? Quer um pedaço? É torta de morango…

— Melhorei… – Suzana sorriu e via as fotos tiradas pela irmã – Não quero não, Soso, obrigada, você devia ir tomar um banho pra não ficar doente…

— Eu vou… – Sophia terminou de comer seu doce e entrou no banheiro – Suzana… – ela disse saindo do banho com uma toalha no corpo e outra enxugando o cabelo.

— É alguma coisa sobre minha relação com o Miguel que vai perguntar?

— É… – Sophia abaixou o olhar.

— Bom, eu e ele tivemos muitas idas e vindas desde sempre, cada um sempre estava em uma fase diferente da do outro e isso sempre afetava nossa relação… – Suzana disse depois de respirar fundo – A gente terminava, curtia um pouco a solteirisse, na adolescência a gente mais saía por aí pegando um os amigos do outro pra botar ciúme, mas a carência chegava e a gente voltava… Ficamos nessa por muitos anos, faculdade, fase adulta, como eu disse, minha relação com ele não era muito saudável com tanto vai e vem…

— Vocês se gostam ainda, né?

— Não, Soso, gostar é pouco, amar sempre foi a palavra que resume tudo isso, mas não significa que a gente tava em sintonia e pra uma relação dar certo, eu digo isso pra você quando tiver namoradinhos, é preciso que os dois estejam em sintonia… Ficar com a pessoa pra não ficar sozinha não vai ser bom…

— Era isso então? Vocês ficavam juntos nessas idas e vindas desde o jardim de infância pra não ficarem sozinhos?

— Não…

— Suzana, então por que…

— Ele tem a vida dele planejada e eu a minha, não tem sintonia nos nossos planos, Sophia… – Suzana disse devolvendo o celular pra menina – Vou pedir uma pizza pra gente comer, o que acha?

— Pode ser… – Sophia pegou o celular e deitou na cama de toalha.

“Por que você e a Suzana terminaram dessa vez?”

Ela mandou a mensagem para Miguel.

“Oi, Soso! Vi seus stories, gostou do passeio?”

Ele respondeu quase na mesma hora para Sophia.

“Foi bom, mas não foge do assunto, ela acabou de me falar a história de vocês, na verdade ela falou que era cheia de vai e vem e que vocês não têm sintonia, procede?”

Enquanto esperava Miguel terminar de digitar, Sophia colocou seu pijama.

“Sophia, eu sempre amei sua irmã, ela foi meu primeiro crush na escola, minha primeira namorada, mas a gente sempre teve visões diferentes sobre muita coisa, ainda assim, Suzi sempre foi a pessoa que mais amei nessa vida… Tem momentos na nossa vida que a gente tem que ceder muitas coisas, numa relação também…”

Sophia lia a resposta de Miguel e olhava para Suzana mexendo no celular. A televisão do quarto estava ligada e o som do programa ecoava no ambiente.

“Sabe, Miguel, a Suzana ficou com um cara em Campina Grande, foi um beijo, mas ela ficou mal de um jeito que eu nunca vi, ela chorou quando chegamos da festa, então essa reação me diz sobre o que ela sente por você, e foi o que eu disse pra ela: não entendo como vocês terminaram de novo, estou enganada ou essa última vez foi o recorde de vocês em ficar juntos sem interrupções? Cinco anos?”

— Que tal mussarela e portuguesa? – Suzana perguntou os sabores da pizza para Sophia.

— Que tal mussarela e calabresa? – Sophia respondeu e via que Miguel digitava.

— Ótima sugestão, vou pedir… – Suzana sorriu e voltou a mexer no celular.

“Foi… Cinco anos… Sophia, é realmente difícil quando a gente não tem sintonia, como você disse que a Suzi falou… Eu sempre tentei me manter na sintonia dela e achei que estava tudo dando certo, cinco anos, né…”

— Qual lugar vamos depois de Teresina? – Sophia perguntou para Suzana.

— Surpresa…

— Nenhuma dica?

— Hum… É no Norte… – Suzana falou olhando para Sophia.

— Você sabe que o Norte tem vários lugares, né?

— Com quem tanto fala nesse celular? – Suzana perguntou curiosa – É com sua amiga meio doida das ideias?

— A Gabi não é doida das ideias, é minha melhor amiga, Suzana. – Sophia estava séria.

— Escuta, você já é quase adulta, mas acho que ainda te falta um conselho ou outro… – Suzana sentou no chão de frente pra Sophia – Amizades são relações importantíssimas na vida, a gente faz muita coisa por amizade, muito do que a gente é se deve às amizades, então quando mãe e pai falam que alguém não é muito boa influência pra gente, é porque eles sabem do que estão falando…

— Então você está me dizendo que a Gabriela não é boa influência?

— Não, eu nem conheço ela direito, mas quero que fique atenta, porque amizade nenhuma pode te influenciar a fazer coisas que vão te trazer consequências ruins, tá bom? Pelo o que vejo essa Gabriela é só uma pessoa como você que também vai precisar de um choque de realidade…

— A Gabi nunca vai ter choque de realidade… – Sophia dizia pensativa.

— Quem sabe um dia você não mostra pra ela, não é? O que tô querendo falar é pra você sempre ficar atenta, tá bom?

— Tá… – Sophia ficou em silêncio – Isso foi tipo uma sessão?

— Não e nem poderia ser! – Suzana riu – Psicólogos não podem atender familiares, foi uma conversa de irmã mais velha pra irmã mais nova…

— Você é mais legal do que eu pensei, Suzana… – Sophia disse ficando vermelha.

— Ora ora, o surto não vai embora! – Suzana riu, se levantou e bagunçou o cabelo da irmã que mostrou a língua – Olha que pego o magic clic… – Sophia riu e voltou a mexer no celular.

Parte 3