Parte 3

Foi mais um dia na estrada desde que amanheceu até que mais um estado brasileiro foi cruzado pelo caminhão de Suzana em companhia de sua irmã mais nova, Sophia. Elas já percorriam o Piauí em direção à capital quando dava a hora do almoço e Sophia reclamava de fome e calor. Se Suzana estivesse sozinha arriscaria fazer a viagem direto de uma vez, mas sabia que não poderia deixar sua irmã com fome, ainda mais quando Sophia ficava a cada cinco minutos falando aquilo. Já era de tarde quando Suzana entrou na capital do estado. Olhou em seu celular para se certificar de que ainda daria tempo de fazer a entrega do dia e levou o caminhão para o depósito.

— Tenho uma surpresa pra você, depois daqui… – Suzana disse estacionando o caminhão no lugar indicado pelos funcionários.

— Eu não sei se fico com medo ou se me empolgo… – Sophia disse sorrindo.

— Já vai saber, já venho, sabe os esquemas, né? – Suzana descia do caminhão.

— Não dar chá de sumiço, não roubar número de cartão, ficar por perto e aguardar… – Sophia disse e Suzana piscou para a irmã.

“Última entrega da Suzana, mas vamos fazer uma viagem mais longa, ela disse que vai me levar pra dois lugares, um ela disse que era a casa da mãe dela, o outro é surpresa…”

Sophia mandou a mensagem para sua melhor amiga que desde o dia que roubou o número do cartão de Suzana não tinha trocado muitas mensagens com a menina.

“Meu Deus, Sophia, ela te odeia, né?”

Gabriela tinha respondido, mas a resposta que antes faria Sophia concordar, deixou a ruiva um pouco irritada.

“Não, Gabi, Suzana é muito legal, eu tô gostando dessa viagem, claro que é desconfortável, mas ela é uma companhia legal.”

Sophia olhava para sua irmã mais velha conversando com os funcionários e mostrando papeladas com um sorriso no rosto. Sem perceber, Sophia sorriu ao ver a irmã daquele jeito e sorriu ao ver a resposta que tinha dado à Gabriela.

“Meu Deus, você foi abduzida? Não vamos esquecer que ela está no rolo com sua família para te levar para essa viagem desconfortável, perder festas aqui no Sul, cortar sua mesada, tirar tudo o que você mais gosta!”

Sophia revirou os olhos, Suzana estava certa, ela pensou, Gabriela ainda ia precisar de um choque de realidade.

“Mas eu errei, né Gabi, por mais que odeie falar isso, eles estão certos.”

Sophia mexia nas redes sociais enquanto esperava Gabriela responder, visitou o perfil de Miguel, de Suzana, o próprio perfil.

“Foi uma brincadeirinha de nada, eles são exagerados, Sophia, meu Deus, você foi abduzida, olha as coisas que está falando, vai me dizer que tá tudo bem não ter sua mesada, que tá tudo bem viajar de caminhão?”

— Pronto! – Suzana voltou sorrindo de orelha a orelha – Última entrega, agora estamos livres e sem pressas!

“Sinceramente, Gabi? Tá tudo bem sim!”

— Você parece bem animada, mas sinto te informar que ainda tem um Brasil inteiro pra cruzar… – Sophia disse bloqueando a tela do celular após mandar a mensagem para sua melhor amiga.

— Mas agora não temos pressa de chegar… – Suzana disse sorrindo – Ou mudou de ideia?

— Não, eu tô curiosa com essas várias surpresas que tá me falando e eu sei que não tô merecendo muita coisa… – Suzana tinha um sorriso bonito e contagiante, era difícil não sorrir junto com a irmã mais velha de Sophia.

— Não está mesmo, mas sabe Soso, eu sempre quis uma viagem assim com você, então se mantiver segredo pra sua mãe e pro nosso pai desses “mimos” que estou te dando… – Suzana entrava no caminhão, ele estava mais leve, o baú estava apenas com as muitas malas de Sophia e as poucas malas de Suzana.

— Primeiro de tudo: você precisa me informar que tipo de surpresa é essa, porque já vi que temos visões diferentes sobre muitos conceitos… – Sophia riu e colocou o cinto.

— Você já vai saber… – Suzana ria e dirigia.

Suzana dirigiu animada pelas ruas da capital do Piauí e estacionou em uma rua lateral ao lugar que elas ficariam.

— Suzana, não me iluda… – Sophia disse acompanhando a irmã pela rua que dava para a entrada de um hotel de luxo.

— E então? Trato feito? Vamos manter nosso segredo de irmãs? – Suzana estendeu o braço – Ainda vamos dividir o quarto, mas é o melhor…

— Suzana! – Sophia abraçou Suzana impulsiva e involuntariamente, as duas ficaram surpresas.

— Vem, tem elevador, tem uma cama bem macia, tem ar condicionado, frigobar… – Sophia entrava no hotel para fazer o check in.

— E quanto tempo a gente vai ficar aqui? – Sophia sorria um pouco envergonhada.

— Só hoje, mas podemos sair daqui amanhã mais tarde, e ir de pouco em pouco até nosso próximo destino…

— Que seria? – Sophia tentou arrancar a resposta de Suzana.

— Em outro estado… Vamos subir! – Suzana pegou sua mochila e o cartão do quarto e foi até o elevador, Sophia a seguiu – Trouxe biquíni? Aqui tem piscina…

— Já vi que pra isso vou ter que ficar quieta com relação aquele assunto delicado, né? Como condição…

— Olha, eu nem lembrava disso, mas é uma excelente condição, Sophia… – elas subiam pelo elevador, Sophia se olhava no espelho e arrumava o cabelo.

— Tem mesmo piscina aqui? – a ruiva perguntou seguindo Suzana até o quarto e entrando no maior cômodo que já pisou durante aquela viagem.

— Tem e eu vou pra lá, nada como relaxar as pernas na água depois de horas de viagem… – Suzana abria a mala e tirava um biquíni de dentro – Me acompanha?

— É pra já!

Foi um fim de tarde inesperado para Sophia e relaxante para as duas irmãs. O sol do nordeste era forte até no inverno, o calor ainda era intenso e as duas puderam se bronzear com o fim da tarde até o sol se pôr. Depois de um banho e um jantar servido no quarto, as duas pegaram rápido no sono, Suzana como sempre, dormia primeiro, a tensão da viagem a fazia encostar em um colchão e fechar os olhos simultaneamente, Sophia não demorou muito para pegar no sono, a televisão ligada serviu apenas como uma iluminação naquele quarto.

Na manhã seguinte, Sophia acordou antes de Suzana, ficou deitada na cama olhando para o teto, viu a TV desligada, imaginou que Suzana tivesse desligado no meio da noite. Com muita preguiça e ainda sonolenta ela se levantou com cuidado para tomar uma ducha que a acordaria mais rápido, ao sair do banheiro encontrou sua irmã na sacado do quarto, com os olhos vermelhos e inchados.

— Suzana?

— Bom dia, Soso! Tem acordado cedo esses dias… – Suzana tentou disfarçar – A gente toma café, termina de arrumar as coisas e vamos, ok?

— O que houve?

— Nada, por quê? – Suzana evitava olhar para a adolescente.

— Não sei, talvez porque você está chorando, quem sabe? – Sophia falou o óbvio.

— Quem disse? Vou tomar banho… – Suzana pegou a toalha e entrou no banheiro na mesma hora.

No café da manhã as duas ficaram em silêncio, Suzana puxava um assunto ou outro, mas Sophia estava pensativa demais para prestar atenção, ou tentar conversar com a irmã que não fosse sobre o ocorrido no quarto. A adolescente olhava para Suzana como se a analisasse, tentando descobrir porque ela estava daquele jeito e sabendo que se fosse depender da mulher, ela não saberia nunca.

— Quanto tempo até a gente chegar nesse lugar surpresa? – Sophia colocava a mala no baú do caminhão depois que as duas fizeram o check out do hotel.

— Bom, se a estrada estiver boa, se não pegarmos nenhum imprevisto no trânsito… Dá pra chegar ainda hoje, mas de noite… – Suzana colocava o cinto.

— Meu Deus…

— Vai depender também de como vamos estar, de todo jeito eu tenho esses dois planos, a gente vai indo até onde aguentarmos, se der pra gente chegar hoje, bem, senão eu paro numa cidade próxima… Vai ser umas 15h de viagem, se é isso que quer saber… – Suzana disse vendo a reação de Sophia.

— Você aguenta dirigir tudo isso?!

— Não, né, Soso… A gente vai parando, por isso que eu falei: se der a gente chega ainda hoje, se não eu paro antes e amanhã cedo a gente concluí…

— Pé no acelerador então, Suzana! – Sophia colocou os óculos de sol – Vou por minhas músicas do Spotify, gosta de quê?

— Você que é a DJ, Soso…

— Hum… Pela sua cara acho que gosta de rock, curte Foo Fighters?

— Quer ver minha foto no show? – as duas riram.

— Então, Foo Fighters…

A viagem foi longa e cansativa para Suzana, depois do almoço ela conversou com Sophia e as duas decidiram parar em uma cidade próxima para dormir, continuariam a viagem logo cedo no dia seguinte. Na pousada que ficaram, à beira da estrada, Sophia tinha um semblante sério no rosto.

— Ok, o que aconteceu? – Suzana entrou no quarto com uma bandeja e dois pratos de comida que tinha pegado no refeitório do lugar.

— Eu devia fazer que nem você e fingir que nem sei do que você tá falando… – Sophia olhou para Suzana que ficou séria – Mas eu não consigo… Apesar de que sei que vai achar bobeira, eu tô chateada com uma coisa…

— Com relação a quem? – Suzana deu um prato para Sophia e sentou do lado dela na cama da menina.

— Tá, deixa eu resumir: como eu sempre ia pra casa do papai mesmo depois de ele e minha mãe se separarem e eu ter que ir morar com a minha mãe em São Paulo, eu mantive minhas amizades bem unidas por lá, eu sempre ia pra Porto Alegre, não só nas férias, acho que você sabe…

— Estou por dentro disso, continue… – Suzana comia e escutava a irmã mais nova.

— Então, tem uma menina lá e eu tenho crush nela só que… – Sophia olhou para a irmã – Que foi?

— Calma, menina, muita informação de uma vez, por partes, você tem crush numa menina? – Suzana sorria e balançava a cabeça tentando raciocinar.

— É, eu sou bi, Suzana… – Sophia riu – E no momento eu tenho um crush na Milena… Você não vai brigar ou coisa parecida, né? – ela perguntou receosa.

— Por que eu brigaria, Soso? – Suzana sorriu – Isso é totalmente novo pra mim, porque eu jamais imaginaria…

— Eu sei, mas é como disse a Katy Perry um dia: I kissed a girl and I liked it… Eu só fiquei com uma menina, mas acho que não precisa medir quantidades né, eu sinto atração por meninos e meninas e no momento é pela Milena…

— Você é uma caixinha de surpresas, Sophia… – Suzana sorria – Continue, tem a Milena…

— Então… – Sophia sorria envergonhada – Ela é mais uma crush platônica e impossível e eu estava ok com isso, até a Gabi vir me provocar mostrando a foto da Milena com o Kaique num amasso bem constrangedor… – Sophia abaixou o olhar.

— Ah, Soso… – Suzana passou a mão nos longos cabelos de Sophia.

— Tá tudo bem, eu sei que é bobeira, mas é que sei lá, me deixou mal por um momento…

— Antes de eu namorar o Miguel oficialmente com 16 anos, eu tinha um crush num menino do último ano, o Caio, eu devia ter uns 14 ou 15, e Deus sabe o quanto eu sofri por aquele menino… Mas ele era do último ano, não era o popular do colégio, mas era amigável com todos, tinha um sorriso que eu morria de amores, e um dia ele apareceu na escola de mão dada com a Estela, uma menina da sala dele… – Suzana contava e Sophia olhava atenta para a irmã enquanto comia a comida – Eu jurei que naquele mesmo dia eu ia morrer, sério, eu chorei, Soso!

— Meu Deus… – Sophia dava uma risadinha.

— Minhas amigas hora me consolavam, hora riam que nem você agora, porque eu fiz um drama descomunal…

— E o que você fez depois?

— Nada. Eu apenas tive que lidar com isso… – Suzana sorriu – Ter crush platônico ao mesmo tempo que é bom porque permite nossa imaginação ir longe, é ruim porque quando a realidade bate à porta a gente se surpreende quando abre… Digo isso de todos os casos, seja platônico mesmo, daqueles que você sabe que não tem chance, ou quando você se aproxima da pessoa e ela se mostra diferente do que você idealizou na mente…

— Essa é a Milena… – Sophia mostrou a foto de uma menina que mais parecia uma modelo, aparentemente alta pela foto, magra, negra e com cabelos cacheados que chegavam até a cintura.

— Uau, Sophia! – Suzana olhava a foto do perfil da menina.

— Linda, não é? – Sophia sorria triste.

— Demais, mas olha, vai passar, tá bom? E de jeito nenhum é bobeira, a gente só tem que lidar com isso, e no que eu puder te ajudar, conte comigo…

— Obrigada, Suzi… – era a primeira vez que Sophia falava o apelido da irmã mais velha que sorriu mais ainda ao ouvir – Sabe a providência dessa comida?

— Do refeitório. – as duas riram e voltaram a comer.

Na manhã seguinte as meninas acordaram cedo para tomar café e seguir a rota até o destino surpresa proposto por Suzana.

— Suzana, eu não sei se sabe, mas eu sei ler… – Sophia falava com as pernas cruzadas no banco no caminhão e olhando para a vista da estrada a sua frente.

— Isso quer dizer quê?

— Que talvez eu imagine onde você quer me levar, se é que é aqui no Tocantins mesmo… – Sophia sorriu e apontou para a placa que tinha acabado de passar indicando onde elas estavam.

— Onde você imagina que é? – Suzana sorria.

— Jalapão? – Sophia palpitou.

— Já foi lá?

— Não, na verdade eu tô conhecendo o Brasil com você, Suzana, não sei se notou…

— Notei sim e fico feliz que não foi lá, porque eu também nunca fui e acho que vai ser uma experiência maravilhosa…

— Então acertei? – Sophia perguntou sorrindo mais ainda.

— Acertou, mocinha… A gente vai deixar as coisas no hotel e vamos com um guia que contratei, até porque o caminhão não passa por lá, então, infelizmente, eu não vou dirigir…

— Dá um descanso pra suas pernas, mulher! – Sophia estava empolgada, tanto quanto sua irmã – Falta muito?

— Mais meia hora eu acho…

Um guia esperava pelas meninas no hotel, era um guia particular contratado por Suzana para uma viagem ao Parque Nacional do Jalapão com mais privacidade. Incluso no que Suzana pagou ao rapaz da companhia de turismo havia os materiais necessários para uma tarde de passeios ao lado de sua irmã, uma mochila para cada equipada com tudo o que elas precisariam entre água, toalha, frutas e lanches. Mais um check in  feito por Suzana, e mais um quarto de hotel visitado por poucos minutos.

— Soso, põe tênis de caminhada, tem? – Suzana terminava de passar protetor solar no rosto, já estava pronta, vestia um maiô azul e um shorts de algodão preto, já tinha calçado os tênis e colocou um boné na cabeça.

— Suzana, você fala de mim, mas guia particular? Que trouxe mochila equipada pra gente? Você tá usando um boné da Louis Vuitton? É original? – Sophia, seguindo a recomendação de vestimenta da irmã, colocou roupas leves, um shorts rosa da Adidas e uma regata branca.

— O que eu falo de você? – Suzana ria – Soso, eu já disse que nunca reneguei nossa fortuna e isso é tudo pago com meu dinheiro, do meu trabalho… Sim, o boné é original…

— Sabe quanto custa uma simples carteira dessa marca, né?

— Foi o Miguel que me deu, menina, aquieta o facho… – Suzana esperava por comentários da irmã sobre aquilo, mas Sophia ficou quieta.

— Pronto, vamos?

— Passa protetor, Sophia, sua pele é tão branca quanto a minha, não quero você com nenhuma insolação… – Suzana jogou o protetor para a menina e ela foi passando enquanto as duas iam ao encontro do guia que as esperava do lado de fora da pousada, com um jipe.

— Prontas? Deixa eu me apresentar direito, sou Fernando, o guia de vocês por hoje e amanhã! – Fernando cumprimentou as meninas com um aperto de mão e um sorriso no rosto.

— Passeio por dois dias? – Sophia disse animada.

— Sim, Soso… Surpresa… – Suzana sorria com a animação da irmã mais nova – Sou Suzana, nos falamos por telefone e essa é minha irmã Sophia… – Suzana fazia as apresentações.

— Muito prazer! Bom, vamos entrando? – Fernando abriu a porta do jipe para elas e o passeio começava – Hoje eu vou levar vocês para um dos pontos principais do passeio e se tudo der certo a gente finaliza na Pedra Furada com o pôr do sol!

— Uau, deve ser incrível! – Sophia sentou no banco de trás e Suzana foi no carona ao lado de Fernando.

— Bom, se vocês quiserem, podemos parar em Ponte Alta para almoçar antes… – Fernando dirigia.

— O que acha, Soso? Com fome já? – Suzana perguntou se virando no banco para falar com a irmã.

— Hum… Tá meio cedo, mas acho que é uma boa, pelo jeito vamos precisar de força, né? – Sophia respondeu.

— A mochila de vocês está equipada com lanches e frutas, mas se quiserem fazer uma refeição, estamos quase perto de lá. – Fernando falou.

— Vamos parar, a Suzana tem mania de não comer bem… – Sophia disse rindo.

A cidade de Ponte Alta é considerada a porta de entrada para o Jalapão, a 200 quilômetros de Palmas, recebeu esse nome por ter o Rio Ponte Alta cortando a cidade. Os três pararam em um restaurante para almoçar antes de seguirem de fato para o passeio.

— Bom, agora a gente tem mais 15 km de estrada até a trilha, se segurem porque pode ser que chacoalhe um pouco o carro! – Fernando mantinha o bom humor.

— Nossa, Suzi, onde você foi me meter, trilha? – Sophia falava e deixava Suzana mais feliz por estar usar o apelido dela.

— Eu disse pra vir preparada… – Suzana ria.

— Viagem de irmãs? – Fernando se introsava.

— Sim, um mimo pra essa pirralha aí que não merece muito… – Suzana respondeu.

— Quem quis me dar surpresas foi você, eu nem falei nada… – Sophia se defendia.

— Que bacana! Espero que curtam o passeio de hoje e o de amanhã!

— Já estamos amando! – Sophia respondeu pelas duas.

Quase vinte minutos depois, Fernando parou o carro no final da estrada e desceu, as meninas o seguiram com as mochilas nas costas.

— Bom, agora a gente tem uma trilha aqui, não é longa, nem perigosa, só tem umas partes escorregadias, já que vieram de tênis não vão ter muitos problemas!

Era uma mata fechada, a trilha parecia plana e cheia de cascalhos, Fernando entrou primeiro, seguido de Sophia e Suzana por último.

— Tem borrachudo aqui? – Sophia perguntava atenta – Eu sou alérgica a picada de borrachudo, e de formiga, abelha também…

— Toma, para de citar os motivos que te matariam e se defenda deles… – Suzana entregava um repelente para a irmã.

— Estamos quase lá! – Fernando falava na frente – Aqui é um dos lugares que a natureza está bem preservada por ser uma mata fechada e ficar um pouco abaixo do nível que viemos…

— MEU DEUS, SUZANA! – Sophia gritou quando Fernando parou para apresentar a entrada do lugar, a menina apontava para o chão.

— Que foi, Soso?! – Suzana correu até ela.

— Calma, não é nada, ela não é venenosa… – Fernando falava da cobra colorida que Sophia apontava no chão.

— Ela te disse isso por algum acaso?! – Sophia estava mais branca que o normal e se afastava aos poucos.

— Sophia, modos! – Suzana ria da cena, mas advertia a irmã.

— Tá tudo bem! Fica tranquila, Sophia, ela não é venenosa e não vai atacar, venha, é só passarmos por ela… – Fernando estendeu a mão para a ruiva que relutou muito antes de segurar e ir com ele com os olhos quase completamente fechados.

— Você devia registrar isso, Soso, mostrar pros seus amigos o quão aventureira você é! – Suzana ria e seguia os dois.

— Isso, aí eu paro na frente da cobra e ela me mata! – Sophia já estava longe da cobra e evitava olhar para o lugar que tinha passado.

— Não se preocupe, eu peguei os melhores ângulos… – Suzana apontava o celular para a irmã.

— Você vai apagar isso, Suzana!

— Jamais, Soso!

— Bom, aqui estamos! – Fernando ria das duas irmãs discutindo e resolveu interromper para voltar ao foco da trilha – Aqui é a entrada do Cânion!

Era um lugar estreito, úmido e com muitas plantas como musgos e samambaias, depois do susto inicial com a cobra, Sophia conseguiu voltar ao normal e pegar o celular para registrar seus próprios vídeos e fotos.

— Qual o significado desse nome, Fernando? – Suzana perguntou tirando fotos.

— Aqui, antigamente, muito tempo atrás existiam muitos veados Suçuapara, de acordo com a língua tupi-guarani significa veado galheiro, mas nem sei se existem mais, já não são vistos há anos…

— Nossa tem pouca luz aqui, né… – Sophia ligou o flash do celular.

— É uma área de pouca luminosidade, mas venham por aqui, vou mostrar o que mais esse lugar pode nos apresentar! – Fernando desceu uma escada de madeira que havia um pouco mais para a frente, Suzana e Sophia o seguiram – Aqui temos esse presente da natureza!

— Uau! – Sophia dizia filmando o lugar com uma piscina natural e uma queda d’água.

— Temos uma lenda aqui… – Fernando disse para as duas – Estão vendo as pedrinhas brancas aqui? – ele apontou para a beira da água – A lenda é: se você pegar essa pedrinha branca e colocar ali na parede, tem que fazer um pedido e os espíritos da natureza que protegem o Cânion, vão realizá-lo…

— Melhor não desperdiçar a oportunidade, né… – Suzana pegou uma pedra, fechou os olhos e depois a colocou no lugar que Fernando indicou.

— Já que estamos aqui… – Sophia fez o mesmo que a irmã – Vem Suzana, vamos tirar uma selfie!

— Se quiserem eu tiro a foto das duas, esse ângulo aqui vai ficar bem bonito! – o guia se ofereceu para ser o fotógrafo e Sophia deu o celular para ele – Sorriam! – as duas sorriram e ele tirou várias fotos – Ficaram bem bonitas! – ele devolveu o celular para Sophia.

— Aqui é bem bonito! – Sophia tirava mais fotos.

— Vamos indo? Temos que ir com calma até chegar na Pedra Furada, as estradas aqui são bem ruins quando querem…

— Vamos! – Suzana disse e os três refizeram o caminho da trilha.

— Mas Fernando, e se a cobra ainda estiver lá?! – Sophia se desesperava a cada passo mais próximo do lugar que viu a cobra.

— Fica tranquila, Sophia, já disse que ela não faz nada! – Fernando ria.

Depois de saírem do Cânion, os três voltaram para o jipe e seguiram viagem mais uma vez, já era de tarde e Fernando resolveu ir sem pressa até o próximo destino, tomando cuidado na estrada para não ocorrer nenhum imprevisto.

— Nossa, tem pão com frios aqui! – Sophia mexia na mochila.

— Já está com fome? – Suzana perguntou.

— Já, posso comer, né? – Sophia já abria a embalagem do lanche.

— Essa não… – Fernando disse tentando ir adiante na estrada e não conseguindo.

— Atolamos? – Suzana perguntou.

— Pelo jeito… – ele desceu do carro para ver o estrago feito – É, atolamos, Suzana fica no volante e eu tento empurrar, tá bom?

— Hum… Não vai rolar… – Suzana acelerava e o jipe não saía do lugar – Ele vai precisar de mais gente empurrando…

— Não olha pra mim, Suzana, eu não tenho força nem pra levantar minhas malas! – Sophia dizia com a boca cheia.

— Eu sei disso, Soso! – Suzana ria – Vem aqui, para de comer esse lanche, tá na hora da sua primeira aula de direção.

— Suzana, não, eu não confio em mim, por favor… – Sophia se desesperava mais ainda.

— Eu confio, vem aqui… – Suzana chamava do banco do motorista – Vem, Soso, vai dar tudo certo!

— Suzana, não! Você consegue, vai, vou te dar vibrações positivas!

— Sophia, vem! – Suzana ria.

— Suzi… – relutando muito, Sophia saiu do banco de trás do jipe e foi até o banco do motorista.

— Ó, você vai pisar naquele pedal ali, a embreagem, a marcha já tá engatada, então você solta devagar a embreagem enquanto pisa no acelerador, tá bom?

— Suzana… – Sophia quase chorava, Suzana ria da situação.

— Pisa… – Suzana falava calma – Isso, quando eu mandar você faz o que te falei do acelerador, tá bom? Vou ajudar o Fernando a empurrar, fica atenta e fica calma, é só ter calma…

— Tá… – Sophia segurava o volante do jipe com força e mantinha o pé na embreagem e o outro no acelerador indicado por Suzana. A irmã mais velha de Sophia foi até a parte de trás do carro para ajudar a empurrar com Fernando.

— Soso, acelera! – Sophia respirou fundo e seguiu as dicas da irmã, o carro acelerava, mas não saía do lugar, Suzana e Fernando empurrando com toda a força que tinham – Para um pouco! – Sophia parou – Tá quase, a gente vai ter que dar uma cavada aqui nos pneus eu acho, tem pá? – ela falava com Fernando.

— Sempre trago, isso é bem comum de acontecer… – Fernando abriu o porta-malas do carro e tirou uma pá de lá, cavou um pouco em cada pneu traseiro.

— Soso, de novo! – Suzana gritou e Sofia acelerou – Tá indo, consegue empurrar, Fernando? Vou avisar a Sophia!

— Vai lá, eu dou conta! – Fernando fazia força e Suzana foi até a janela do motorista.

— Muito bem, Soso! Só mais um pouco, devagar agora… – Suzana acalmava a irmã – Isso! Deu certo! – o jipe tinha desatolado e Sophia respirava ofegante.

— Suzana, nunca mais faça isso comigo… – Sophia desceu do carro tremendo.

— Você se saiu muito bem na pressão! – Suzana ria – Pronto, Fernando!

— Muito obrigado, meninas! – ele disse suado – Vamos continuar o passeio?

— Isso só reforça minha ideia de que eu não quero tirar a carteira, jamais! – Sophia voltava a comer seu lanche.

— Já já você muda de ideia… – Suzana entrou no banco do carona e os três seguiram viagem.

— Estamos na baixa temporada, mas pode ser que ainda encontremos um grupo ou outro nos passeios, ainda é férias, mas o pico mesmo é no verão. – Fernando falava dirigindo pela estrada de terra – Principalmente na pedra furada, é um dos pontos do Jalapão mais procurados, nessa hora que estamos indo, então…

— Já vi foto na internet, será que a gente consegue uma boa visão mesmo? – Sophia perguntava de boca cheia.

— Tudo indica que sim, Sophia! O céu está limpíssimo! – Fernando disse.

Mais alguns minutos de viagem e eles se aproximavam do ponto desejado, mais carros estavam parados por lá, Fernando tinha razão sobre outros grupos de passeios, as pessoas tiravam fotos, admiravam o lugar. Suzana ficou um tempo parada de pé contemplando aquela visão da natureza, do verde ao redor em contraste com o azul do céu e o sol iluminando o lugar.

— Quantas horas ainda pro pôr do sol? – Sophia perguntou tirando fotos e fazendo vídeos.

— Algumas, umas duas, podemos ficar aqui se quiserem, mas se quiserem voltar, a gente volta! – Fernando falava tomando água.

— O que acha, Suzana? – ela perguntou para a irmã que parecia estar em outra dimensão.

— Oi? – Suzana voltou à realidade.

— Ficar aqui até o pôr do sol… – Sophia repetiu.

— Minha sugestão é ficar, é um evento magnífico e imperdível… – Fernando disse.

— Podemos fazer um piquenique! – Sophia disse animada e Suzana sorriu para ela.

— Ótima ideia, Soso! – as duas colocaram as toalhas no chão e tiraram os lanches das mochilas – Junte-se a nós, Fernando! – Suzana chamou o guia.

— Eu já vou, preciso só conferir se está tudo ok com o carro! – ele respondeu perto do jipe.

— O que está achando do passeio, Sophia? – Suzana perguntou tomando um pouco do suco na garrafa que estava em sua mochila.

— Amando! Obrigada, Suzi… – Sophia disse sorrindo e olhando para a pedra furada, observando os turistas tirando fotos.

— Não tem de quê! Fico feliz que está gostando…

— Suzana… Por que você tava chorando hoje de manhã? – Sophia perguntou rápido com medo da reação da irmã – Tem a ver com o Miguel, né?

— Você não desiste, né? – Suzana riu sem muitas emoções.

— Por que vocês terminaram dessa vez? Não tava tudo bem? Não foram cinco anos seguidos sem interrupções?

— Foram, Sophia, mas eu vivia na estrada, quase não parava em casa e é por isso que dava certo… – Suzana respirou fundo para falar.

— Ué, e por que terminaram? Ele fez alguma coisa? Te traiu?

— Não, nada disso… – Suzana tentava evitar o assunto – Esquece isso, Soso…

— Você sabe que não vou esquecer, se ele não fez nada de ruim, foi você então? O que houve?

— Ele me pediu em casamento, Sophia, foi isso. – Suzana disse cansada e impaciente, se levantou e foi para perto da pedra furada, Sophia ficou olhando para a irmã de longe, com os olhos arregalados e incrédula.

“Pediu a Suzi em casamento?!”

Sophia mandou a mensagem para Miguel na mesma hora.

“Pedi…”

— Você fez psicologia por que sempre quis? – Sophia leu a resposta de Miguel e se levantou para ir até sua irmã.

— Sim… – Suzana enxugou rapidamente as lágrimas que tinham caído de seus olhos – Já no segundo ano do ensino médio eu sempre quis seguir essa área da saúde, não só por conhecimento, mas pra ajudar pessoas no futuro.

— E por que não continuou na área? – Sophia olhava para frente.

— Porque arranjei esse emprego de caminhoneira e ele é muito bom pra mim… – Suzana sorriu.

— Pretende um dia trabalhar como psicóloga de novo?

— Não sei… Por que essas tantas perguntas, Soso?

— Curiosidade… – Sophia voltou para a toalha estendida no chão e comeu o biscoito de polvilho que tinha em sua mochila.

— Você só come… – Suzana voltou para perto da irmã.

— Olha, a Milena comentou na foto que postei… Como vou superar se ela faz isso? – Sophia mostrava o celular para Suzana e o comentário de sua paquera platônica.

— Ela é hétero? – Suzana sorriu.

— Sim… Já tem um tempo que sei do rolo dela com o Kaique, mas quando a Gabi mandou a foto foi um choque imenso…

— Tá na hora de você investir em outras pessoas, assim você esquece a Milena, ou focar em outras coisas… – Suzana comeu o lanche de frios.

— E tem como investir em outra pessoa que não chega nem no dedinho do pé da Milena, Suzana?! Olha essa menina, ela é perfeita… – Sophia quase babava na foto de Milena.

— É, no momento vai ser difícil pra você, mas olha, o Sul sempre foi a terra das minhas perdições, gente bonita lá é o que não falta, logo você encontra outra crush, ou outro crush…

— Por que uma das suas perdições? – Sophia perguntou guardando o celular.

— Bom, eu sempre tive um fraco por loiros, lembra da minha paixão platônica do ensino médio? O Caio? – Sophia concordou com a cabeça – Ele era loiro de olhos verdes, eu me perdia no cabelo dele e nos olhos… Outros caras que eu fiquei também, loiro dos olhos claros… O sul é riquíssimo na descendência alemã… A família de papai, por exemplo, só ele que não herdou a loirisse, mas os olhos claros e a pele mais branca que palmito, é tudo lá da Alemanha de onde vieram nossos bisavós ou tataravós… – Sophia riu – E minha mãe também é descendente de alemão, mas nem a loirisse dela, nem os olhos claros do papai eu puxei…

— Só a palidez, mesmo… – Sophia ria.

— Você também, tá?

— Ok, seu fraco era loiro e Porto Alegre era sua perdição… Já foi pra Alemanha?

— Eu quase morri o dia que pisei lá, Sophia… – as duas caíram na gargalhada, o tempo foi passando e o espetáculo do pôr do sol foi iniciando, o final da tarde passou calmo e lento, o sol já estava completamente desaparecendo quando Fernando as chamou para ir embora.

— Bom, amanhã nos vemos de novo! – Fernando se despediu de Suzana e Sophia assim que deixou as duas na pousada que estavam, já era noite e era uma noite estrelada.

— Obrigada por hoje, Fernando! – Suzana apertou a mão do rapaz e Sophia fez o mesmo – Preciso ver meu bebê… – Suzana foi até onde tinha deixado estacionado seu caminhão.

— Suzana, você realmente quer ser caminhoneira a vida toda? – Sophia seguia a irmã até a rua lateral.

— Eu amo isso, Soso!

— Deu pra ver… Vou entrar, tomar um banho, tem jantar na pousada?

— Tem sim, vamos indo, a gente toma banho e desce pra jantar… – Suzana acompanhou a menina até o quarto. Depois do jantar as duas deitaram na cama e ficaram com a televisão ligada, Suzana como sempre pegou no sono rapidamente.

“Acho que entendi o motivo da Suzana ter falado que ia terminar com você…”

Sem conseguir pegar no sono por lembrar da informação que Suzana tinha dado naquela tarde, Sophia mandou mensagem para Miguel.

“Eu ainda espero que quando ela chegar aqui a gente possa conversar… Sophia, eu amo sua irmã, acho que deu pra notar…”

Sophia sorria ao ver aquilo, gostava das mais simples e românticas demonstrações de afeto.

“Deu… Espero que você se entendam, porque eu entendo o lado dela, mas também sei que falta Suzana ceder um pouco na vida…”

Sophia pegou no sono logo depois de enviar a mensagem, seus olhos já estavam pesando, então ela bloqueou a tela do celular, se virou na cama e adormeceu. Acordou cedo na manhã seguinte, mais uma vez escutava sua irmã falando com alguém.

— Amanhã a gente já volta pra estrada, se tudo der certo chegamos aí de tardezinha… – Suzana falava no celular e viu Sophia sentando na cama – Quero… – ela sorriu – Arroz carreteiro, por favor, com muita mandioca frita e suco de laranja natural… – Sophia logo cedo já se contagiava com o sorriso da irmã – Não, mãe… – mas o sorriso de Suzana desapareceu do rosto dela – Não, eu já conversei com ele… Mãe, a Soso acordou, temos um passeio pra fazer, te ligo mais tarde, tá? Mando sim, beijo, amo você…

— Bom dia… – Sophia disse quando Suzana desligou a chamada – Sua mãe?

— Sim, dona Tânia está animadíssima que vamos passar lá…

— Onde ela mora mesmo?

— Goiânia… Amanhã cedo a gente pega estrada e chegamos lá no fim da tarde se tudo correr bem!

— E você já pediu um cardápio de recepção pelo jeito… – Sophia sorriu.

— Óbvio! Vamos, temos passeios pra fazer hoje e Fernando logo mais tá aí! – Suzana levantou da cama e começou a se arrumar.

— Alguma recomendação de roupa?

— Biquíni, shorts, roupas leves, pode ir de chinelo se quiser…

Foi mais um dia de estrada de terra dentro do jipe de Fernando que sempre se enturmava nas conversas das irmãs. Com mais tempo para o passeio, e mais descansadas, as meninas curtiam mais da paisagem e da viagem, pararam algumas vezes no meio da rota para tirarem fotos, fazerem vídeos. Chegaram ao município de Mateiros, a poucos quilômetros de Ponte Alta onde passaram na tarde anterior, o lugar também fazia parte do Parque Estadual do Jalapão e possuía uma das atrações mais procuradas por turistas.

— Bom, aqui com certeza vamos encontrar muitas pessoas e grupos de viagem! – Fernando estacionava o jipe – Estamos na Cachoeira da Formiga e ainda bem que vieram preparadas, porque vai ser impossível vocês não darem um mergulho!

— Eu não sei não… – Sophia disse saindo do carro – Pra me fazer entrar em água muito gelada é bem difícil e eu sei que água de cachoeira é bem gelada!

— Passa logo o protetor, Soso e vamos! – Suzana disse rindo e acompanhando o guia.

— A água dessa cachoeira não é tão gelada quanto pensa, Sophia! – Fernando disse – Como já avisei sua irmã sobre os passeios, já paguei nossa taxa de entrada, então agora é só aproveitar, venham!

Pequenos grupos iam por vez no lugar por ser uma área particular. Suzana e Sophia, juntamente com o guia acompanharam mais cinco pessoas na hora da visitação.

— Que lindo! – Sophia descia a trilha que se abria em um pequeno deck de madeira e a vista para a água azul esmeralda se expandia.

— Nossa! É muito mais bonito e perfeito ao vivo! – Suzana tinha a mesma reação, as outras pessoas no grupo também admiravam aquela beleza natural – Vou dar um mergulho… – Suzana disse tirando o shorts e a camiseta, ficando apenas de biquíni e sem hesitar mergulhou na água transparente. Foi ela fazer aquilo que o restante do grupo a acompanhou, Sophia ficou com os pés na beira da água, ainda sentindo a temperatura – Vem, Soso! – Suzana emergia da água e jogava o cabelo pra trás.

— Tá gelada sim, Fernando! – Sophia disse.

— Vem, vem! – Suzana começou a molhar a menina.

— Suzana, para! – elas riam – Eu vou, mas para com isso! – Sophia tirou a camiseta e o shorts e entrou na água.

— Fica aí, você é bem modelinho e eu vou tirar uma foto sua que te renderá muito likes no instagram e muitos comentários arrependidos da Milena, implorando pra você ficar com ela, vai ver só… – Suzana disse nadando até a mochila e pegando o celular. Sophia fez uma pose depois do mergulho, seus longos cabelos estavam ainda maiores depois de molhados, Suzana bateu a foto.

— Sua vez… – Sophia fez o mesmo que a irmã e depois as duas tiraram uma foto juntas.

O passeio continuou depois de algumas horas na primeira cachoeira e Fernando levou as irmãs para outra queda d’água: a Cachoeira da Velha.

— Essa aqui é a maior cachoeira da região! – Fernando levava as meninas por uma plataforma de madeira que as deixavam mais próximas das quedas d’água – Tem quinze metros de queda e cem de largura, se vocês forem tirar foto, eu sugiro uma panorâmica, porque aí dá pra pegar os dois lados! – a cachoeira se dividia em dois semicírculos um de frente para o outro, a plataforma permitia uma visão parcial daquele espetáculo da natureza.

— Olha que engraçado! – Sophia apontava para a árvore que se mantia firme e forte no meio de um paredão que separava a queda d’água.

— A natureza é realmente incrível, não é?! – Suzana tirava a foto panorâmica como Fernando tinha recomendado.

— É perigoso entrar nessa cachoeira? – Sophia perguntou se debruçando no parapeito da ponte e admirando a força da água caindo do paredão.

— Bom, entrar pra nadar que nem vocês fizeram na da Formiga é um pouco perigoso, mas para os mais aventureiros tem o passeio de rafting! – Fernando respondeu e apontou para uma distância longe, onde via-se alguns botes se aproximando de onde eles estavam.

— Meu Deus, deve ser demais! – Suzana disse animada.

— Bom, se você está cogitando entrar num bote e morrer, pode ir, mas me leva pra casa antes… – Sophia disse horrorizada com o máximo de aventuras que aquele esporte podia oferecer.

— Qual é, Soso! Vamos!

— Mas nem que me paguem, nem que Milena me peça de joelhos! – Sophia riu.

— Você desatolou um jipe, garota! – Suzana falou.

— E já acabou minha cota de aventura naquele momento! – Sophia fazia selfies – Vem, vamos tirar fotos pegando a árvore de fundo…

— Medrosinha… – Suzana se aproximou da irmã e sorriu para o celular dela.

— Bom, depois do almoço a gente se aventura em mais uma estrada de terra dificílima pra ver mais um pôr do sol, o que acham? – Fernando disse rindo da discussão das irmãs.

— Esse é o máximo de aventura que eu topo fazer… – Sophia disse e voltou a se debruçar no parapeito da ponte para ver os botes caindo nas quedas d’água – Que povo doido…

— A gente ainda vai fazer rafting juntas, Soso! – Suzana ficou ao lado da irmã.

— Claro, nos seus sonhos… – Sophia sorriu para Suzana.

Depois de duas visitas à cachoeiras, Fernando levou as meninas para um restaurante da cidade, todos estavam famintos, principalmente depois de nadar, comeram sem pressa e conversaram sobre as atrações que viram nos dois dias de passeio. Já eram 14h quando os três voltaram para o jipe e seguiram caminho para o passeio final das irmãs: as Dunas do Jalapão.

Sophia até tirou um cochilo no banco de trás do carro, muitas aventuras em poucos dias deixava a adolescente cansada facilmente, Suzana também sentia o cansaço, mas já estava acostumada com tanta adrenalina, ficou conversando com Fernando até que chegaram no início de mais uma trilha. O guia estacionou o carro e os três desceram com as mochilas nas costas.

— Bom, aqui é sem dúvida um dos lugares obrigatórios de quem visita o Jalapão! – Fernando tomava um pouco de água da sua garrafinha – E vocês vão ver um espetáculo maravilhoso pelo jeito, porque o céu está novamente limpíssimo e… Bom, vou deixar o efeito surpresa pra vocês descobrirem!

— A gente vai à pé? – Sophia perguntou olhando pra cima.

— Sim, é uma trilha bem tranquila, temos tempo e não precisamos ir com pressa, além do mais é legal a gente ir observando a mudança de cores no céu! – Fernando parou de frente pra uma placa de informações – Sigam as regras está bem? Sem lixo, sem pegar as plantas daqui…

— Pode deixar que não vamos descumprir! – Sophia disse animada e se alongando.

— Vamos nessa! – Suzana disse e começou a seguir Fernando pela trilha de madeira na lateral do lugar, seguida por Sophia.

— O conjunto de dunas é formado pela erosão das rochas de arenito que formam a Serra do Espírito Santo… – Fernando caminhava na frente das irmãs e ia explicando as partes mais científicas e teóricas do lugar que elas admiravam – Com a ação do vento e uma conjunção perfeita de fatores, essa areia é sempre depositada no mesmo lugar, o que faz desse local aqui a única formação de dunas no cerrado brasileiro.

— As dunas de Natal são lindíssimas também, e eu acho incrível essa obra da natureza! – Suzana falava tirando fotos do lugar.

Conforme eles caminhavam com calma pelas dunas, o céu ia mudando suas cores, o entardecer ia ganhando espaço na visita e deixava a areia ainda mais brilhante e com cor intensificada.

— Ali embaixo, já dá pra ver… – o guia apontava para baixo – Ali é o lago que espelha a Serra do Espírito Santo, querem ir ver?

— Vamos! – Sophia respondeu sorrindo e fazendo vídeos. Estava usando um boné que tinha levado e os óculos de sol.

— Essas plantas que crescem aqui são os buritis. – Fernando mostrava a vegetação do lugar.

— Suzi, tira uma foto minha? – Sophia perguntou para a irmã que pegou o celular dela com um sorriso imenso no rosto – Você devia investir no curso de fotografia…

— Agradecida pelo elogio, Soso! – Suzana admirava a paisagem e o céu contrastando toda aquela região.

De volta à trilha lateral do passeio, Fernando continuava apontando para todas os detalhes da paisagem que queria que as meninas captassem com os olhos e com as câmera. Era possível ver o “deserto” formado em meio ao cerrado, o céu mudando as cores conforme o sol começava a se pôr fez com que Suzana e Sophia contemplassem outro espetáculo da natureza que rendeu a elas muitas fotos e vídeos.

— Obrigada por isso, Suzana… – Sophia disse admirando a beleza do céu e o sol se pondo no horizonte.

— Que isso, Soso, eu que agradeço sua companhia!

— Acho que era o que eu precisava, um chacoalhão… Desculpa no início ter desejado sua morte…

— Meu Deus, você desejou a minha morte?! – Suzana ria.

— Eu tava com raiva! – Sophia ficou vermelha – Desculpa, já pedi até perdão pra Jesus…

— Tudo bem, eu te perdôo também… – Suzana abraçou Sophia.

— Suzana, posso te dizer uma coisa e você promete tentar me levar a sério?

— Lá vem…

— Acho que tem certas coisas na vida que a gente não pode deixar passar, como essa viagem aqui que foi muito boa pra mim, me ensinou muitas coisas, mas não só isso, coisas do nosso dia-a-dia também… – Sophia falava depois do abraço como se fosse uma sábia.

— Talvez eu saiba onde você quer chegar… – Suzana respondeu um pouco séria.

— Então pense muito bem, acho que essa viagem também é pra você organizar os pensamentos e é o que eu disse lá na Paraíba depois da festa: talvez eu não seja a melhor pessoa pra conversar, mas sou o que você tem agora, então se quiser falar com uma adolescente de quase 18 anos eu prometo escutar…

— Você me surpreende todos os dias, sabia, Sophia? – Suzana beijou o topo da cabeça da irmã – Vamos? Acho que encerramos com chave de ouro…

— E bota ouro nisso! – Sophia respondeu e os três voltaram para o jipe.

— Muitíssimo obrigada por tudo, Fernando, você foi um excelente guia! – Suzana se despedia do guia que tinha contratado assim que ele as deixou na porta do hotel.

— Eu que agradeço a preferência e a companhia é claro, vocês são muito divertidas! – o rapaz se despediu das duas e foi embora. Suzana e Sophia entraram no hotel, tomaram um banho, jantaram e em pouco tempo naquela noite, caíram no sono rapidamente.

Já era perto da hora do almoço, Suzana e Sophia ainda estavam na estrada, saíram cedo da pousada com destino a mais um estado brasileiro. A maior parte da manhã foi silenciosa para Suzana que dirigiu sozinha, escutando músicas baixas para não acordar Sophia que ainda dormia. Mas a barriga da menina falava por ela e roncou alto quando a ruiva acordou pronta para reclamar de fome.

— A gente já chegou? – Sophia falava se espreguiçando e bocejando.

— Ainda tem muita estrada pela frente, Soso… – Suzana ria.

— Quantas horas faltam ainda? – Sophia coçava os olhos.

— Umas seis e meia… Mas já vamos parar pra comer, tá bom?

— Tô morrendo de fome mesmo…

— Eu ouvi seu estômago gritando… – elas riram.

Depois do almoço em um restaurante à beira da estrada, Suzana e Sophia continuaram a viagem, tentando não parar Suzana dirigiu até o limite dos estados, mas Sophia não aguentava a bexiga cheia, tiveram que parar para irem ao banheiro, mais algumas poucas horas chegariam à casa de Tânia, a mãe de Suzana.

— Sua mãe trabalha? – Sophia perguntava.

— Trabalha. Depois que ela e o papai se separaram, minha mãe veio morar com meu tio Ricardo aqui em Goiás, ele tem uma fazenda, minha mãe como tinha formação em administração e ajudava o papai na empresa, se saiu bem aqui com meu tio, agora ela que toma conta de tudo, há uns anos ela preferiu morar numa fazenda só dela, depois ela casou de novo com o Hugo, e é pra lá que a gente tá indo.

— Uau, fazendeira? Que loucura, quando a gente se via nas minhas festas eu jamais ia imaginar que você era desse tipo roceira, mas quando você falou que gostava de sertanejo e que eu vi de verdade com meus olhos que você era sim caminhoneira, eu não duvido de mais nada… – Suzana ria.

— Soso, eu tento visitar minha mãe sempre que dá, mas isso não significa que eu prefira o campo à cidade, pelo contrário… Eu gosto de passar uns dias na calmaria, na fazenda, curtir o rancho de dona Tânia, mas eu amo a rodovia, eu amo o barulho de carro… – Suzana falava com ar de saudade.

— Você cresceu com o papai, né?

— Na verdade, fiquei pouco tempo só com ele, quando ele e minha mãe se separaram eu já tinha uns 15 anos, aí numa conversa dos dois, o papai insistiu pra minha mãe deixar eu terminar os estudos lá em Porto Alegre, foram mais os anos do ensino médio, e todas as férias eu passava na casa da minha mãe. Depois o papai casou com sua mãe e minhas férias da faculdade eram divididas em passar uns dias com vocês e depois ir pra casa da minha mãe.

— Nunca pensou em morar com ela depois do divórcio deles? – Sophia prestava atenção na irmã.

— Eles conversaram comigo, foi uma decisão com meu consenso, até porque eu era apaixonada no Caio e largar a escola para morar em outro estado, na minha adolescência de menina mimada era a morte… – ela riu – Então preferi ficar com papai, mas não porque ele era um doce de pai, mas porque era o mais conveniente pra mim…

— Olha só, filha de peixe, peixinho é…

— Eu que o diga, né dona Sophia?

— E você gosta do marido da sua mãe? – Sophia continuava o questionário.

— Amo. Ele é maravilhoso com minha mãe e sempre foi comigo, também é fazendeiro, mas é mais na dele, os dois fazem uma dupla ótima, mamãe dando as ordens e Hugo comprindo… Ele é um pouco mais novo que minha mãe, é um barato!

— Sério? Muita diferença de idade?

— Minha mãe tá com 61, o Hugo tem uns 50 eu acho… Ele é um amor, você vai adorar conhecer ele!

— Sua mãe já me conhece? Sem ser por foto e essas coisas? – Sophia sorria com as informações que descobria da vida de sua irmã mais velha.

— Conhece, é que você não vai lembrar, mas ela já te viu pequena, já brincou com você… Quando a Magda e o papai se separaram, foi minha mãe que ajudou a Magda com papeladas, com o fato de lidar com um divórcio, até hoje elas se falam, são boas amigas!

— Nossa, eu nunca reparei… – Sophia tirava o sorriso do rosto – Mas também, eu nunca quis reparar em nada que não fosse pra mim…

— Mas a parte boa, Soso, é que agora você repara… – Suzana passou a mão no cabelo de Sophia.

— Quanto tempo a gente vai ficar com sua mãe?

— Calculei uns dois ou três dias… – Suzana entrava na cidade com o caminhão.

— Bom, se quiser ficar mais, eu topo, tá? – Sophia disse sorrindo.

— Tá, mas não se preocupa, não vamos ficar muito mais que isso, eu preciso resolver uns assuntos em Porto Alegre, então tem mais os dois dias de viagem até lá…

— Esses assuntos têm um nome?

— Esses assuntos não te interessam, Soso! – Suzana sorriu – Estamos quase chegando… – Suzana pegou uma estrada de terra com cascalho que a levava para áreas com muitos hectares de terra por todos os lados – Ali na frente, é o rancho de dona Tânia… – a mulher apontava para as luzes de uma grande casa, todas acesas com o entardecer, logo depois que avistou a fazenda começou a buzinar.

— Suzi! Vai deixar os cavalos estressados! – uma mulher abriu o portão para ela entrar com o caminhão, era alta, seus cabelos eram brancos, mas muito bem cuidados, o rosto era muito mais jovem do que a idade realmente falava, tinha o sorriso contagiante de Suzana e o estilo da filha também, calça jeans e all star.

— Mãe! – Suzana disse depois que estacionou o caminhão e desceu para correr ao abraço da mãe.

— Meu amor, como você tá? – Tânia beijava o rosto da mulher – Meu Deus, Sophia, você está tão grande! – ela foi até Sophia que sorria tímida – Você não lembra de mim, mas eu lembro de você…

— Oi, Tânia… – Sophia disse sem jeito recebendo o abraço da mãe de Suzana.

— Como foram de viagem? Aposto que estão cansadas… Vem, entrem! – Tânia guiava as meninas para dentro da grande casa da fazenda – Deixei um quarto pra cada uma bem arrumado, a comida tá quase pronta, se quiserem um banho, sintam-se em casa! Suzi já sabe onde fica as coisas, né filha?

— Sim, senhora! – Suzana respondeu – Cadê o Hugo?

— Deve tá empenhado nos ajustes do seu pedido especial… – Tânia sorriu para Suzana que entendeu o que Tânia quis dizer, mas deixou Sophia confusa – Vão, vão, tomem um banho relaxante e vamos comer! – Sophia já estava pronta depois do banho quando voltou para a enorme sala da casa e viu Tânia conversando com um homem de cabelos grisalhos, barba de mesmo tom, mas muito charmoso – Sophia, querida! Esse é meu marido, Hugo! – Tânia apresentou os dois.

— É um prazer imenso conhecer você, Sophia! – ele tinha olhos claros assim como a mãe de Suzana.

— O prazer é meu… – Sophia disse apertando a mão de Hugo – Suzana ainda não desceu?

— Não. Me conte, como foi a viagem pra você? – Tânia fazia sinal para Sophia sentar no sofá rústico de couro.

— Foi um baita aprendizado… No início eu queria que todo mundo explodisse, mas é como a Suzi falou, eu precisava de um chacoalhão, aprender com meus atos… – Sophia sorria – Escuta, tia Tânia, posso te chamar assim?

— Mas é claro, querida! – Tânia respondeu sorridente.

— Eu acho que a Suzana não vai me levar a sério porque eu sou uma adolescente de quase 18 anos, mas quem sabe você ela não escuta… – Sophia falava baixo.

— Ela falou do Miguel pra você? – Tânia adivinhava o que estava na cabeça da menina.

— Falou e eu fiquei falando com ele, a Suzi não sabe, mas eu mandei mensagem pra ele porque eu ainda não acredito que ela jogou uma vida com ele pro alto…

— Querida, a Suzana sempre foi muito independente… – Tânia falava – Mas eu não nego que estou do seu lado… – ela piscou para a menina e fez sinal com os olhos para mudarem de assunto porque Suzana descia as escadas.

— Mãe, o cheiro está incrível! – Suzana falava alto indo até a sala – Hugo! – ela correu para abraçar o homem.

— Como você tá, Suzi? – Hugo retribuiu o abraço de Suzana com um sorriso no rosto.

— Ótima! Podemos comer? – ela respondeu.

— Vamos, o jantar está servido! – Tânia respondeu e todos foram para a cozinha.

Parte 4