Na manhã seguinte, Sophia acordou completamente revigorada, não tinha dormido em quartos de pousadas, não iria precisar viajar dentro de um caminhão por horas seguidas e mesmo sabendo de tudo isso, já sentia falta da rotina de Suzana. A viagem tinha mudado a adolescente em tão pouco tempo e para um jeito muito melhor. Sophia desceu para a grande cozinha da casa de Tânia, a mesa estava posta e a mãe de Suzana preparava alguma coisa em cima da ilha que divida a área da cozinha propriamente dita da mesa de refeições.
— Bom dia, querida! – Tânia falou com o sorriso no rosto.
— Bom dia, tia… – Sophia se adaptava fácil a chamar os outros de tio e tia, ainda mais quando tinha a permissão de fazer isso.
— Tome café, querida, tá tudo fresquinho, o leite, o café, tem suco também se quiser, achocolatado… – Sophia sorriu e se sentou à mesa – Suzi pediu pra te avisar que a providência desse leite é das vacas que temos aqui e que talvez você fosse achar muito forte, mas que era pra provar mesmo assim!
— Olha só, uma providência verídica… – Sophia pegou a jarra de porcelana que estava o leite e despejou na caneca com um pouco de achocolatado – Onde ela tá?
— Acordou cedo e foi curtir o Elton! – Tânia respondeu levando uma bandeja com frutas cortadas para a mesa.
— Elton? – Sophia perguntou depois de um gole no leite quente.
— O cavalo dela, Suzana é fã de Elton John e o cavalo teve que se chamar Elton… – Tânia riu se lembrando da filha com o cavalo – Mas já já ela está de volta. Quando a Suzi acorda cedo assim é porque ela quer ficar sozinha e pensar…
— Que nem quando ela acordou cedo pra ver o sol nascer na praia lá no Espírito Santo, acho que foi lá, nem lembro mais, foram tantos lugares… – Sophia riu – Bom, eu pedi pra ela tentar me levar em consideração sobre um assunto, então talvez seja isso…
— Miguel? – Tânia perguntou se juntando à menina para o café da manhã, Sophia concordou com a cabeça – Eu conheço minha filha, Sophia, eu sei que ela está sofrendo e sei que ela vai negar isso até a morte…
— Se ela tá sofrendo, por que ela não resolve isso? Não é só ela aceitar o pedido?
— É mais do que isso, querida, é a Suzana abrir mão de alguma coisa que gosta muito, e ela quase nunca abre mão de nada, então depois que o Miguel fez o pedido e a Suzi me ligou chorando e não era de felicidade, eu sabia que ela pode amar muito o Miguel, mas em todos esses anos de vida junto dela, de relacionamento de vai e vem, em todos esses anos ele nunca pedia pra ela ceder nada, pelo contrário, ele que cedia muitas coisas, chegou o momento que ele fez um único pedido e isso englobou o mundo inteiro da Suzana… – Tânia falava sorrindo triste – Essa viagem com você foi boa pra ela também e tenho certeza que ela está pensando sobre tudo a todo momento.
— Parece simples pra mim, mas eu não sei nada da vida da Suzana e nada da vida do Miguel, então talvez não seja tão simples quanto parece…
— O que é simples? – Suzana entrou na casa sorrindo.
— Dirigir. – Sophia disse rápido e comeu um pedaço de queijo.
— É muito simples, Soso! Mãe, a Soso desatolou um jipe no Jalapão! – Suzana falava empolgada, mas ela tinha escutado a verdadeira conversa de Sophia com Tânia.
— E eu nunca mais vou dirigir depois disso… – Sophia sorriu.
— Veremos… – Suzana pegou uma banana – Mãe você tá dando muita ração e comida pro Elton, ele tá imenso!
— Quem cuida do Elton é o Hugo, filha, briga com ele… – Tânia riu.
— Verdade, cadê ele? – Sophia perguntou.
— Na oficina, levantou cedo e disse que ainda hoje fica tudo pronto, Suzi… – Tânia mais uma vez sorriu cúmplice para a filha.
— Tá, eu não me aguento, vou ter que falar… – Suzana disse animada.
— O quê? – Sophia perguntou curiosa.
— Hugo tá fazendo uns ajustes na minha picape, vamos pra Porto Alegre de carro, Soso e não é só isso, vou te ensinar a dirigir depois do almoço!
— Mas nem que Milena implore de joelhos… – Sophia engasgou com o leite.
— Quem é Milena? – Tânia perguntou.
— A paquerinha da Soso… – Suzana respondeu – Vou te ensinar sim, você vai perder esse trauma e vai amar, quando fizer 18 anos vai me implorar pra te dar as aulas de direção oficiais de presente e eu, como sou uma excelente irmã, vou pagar a de carro e a de moto!
— Suzana, a viagem te fez perder alguns neurônios, nisso que dá comer mal, dormir mal… – Sophia sorria e negava com a cabeça.
— Sophia, você vai amar dirigir! – Tânia estava do lado da filha – Suzi é uma ótima professora, aproveite a oportunidade…
— Prefiro andar no Elton… – Sophia respondeu.
— Deixo também, mas antes você vai dirigir! – Suzana falou e o celular dela tocou, a mulher tirou do bolso da calça e o sorriso que estava em seu rosto sumiu na maior velocidade – Não devia nem pegar sinal aqui… – ela disse jogando o celular no sofá que continuou fazendo barulho.
— Suzana, eu topo… – Sophia disse para a irmã – Mas vou pedir uma coisa em troca…
— É claro que vai… – Suzana revirou os olhos – Eu não vou atender as ligações dele, não me peça isso, Sophia.
— Não vou pedir isso, mas vou pedir pra você refletir muito, lembra que me disse que eu precisava de um chacoalhão? Você também precisa… – Sophia sorriu e se levantou – Tava uma delícia, tia, vou me trocar! – a menina saiu da cozinha e voltou para o quarto.
Depois do almoço, Suzana levou Sophia para uma área da grande fazenda, cheia de hectares, onde estava a oficina de Hugo e a picape de Suzana pronta, à espera das meninas.
— Não tinha muito ajuste pra fazer, Suzi, mas eu melhorei a tração nas rodas, troquei o óleo, dei uma boa aspirada por dentro… Porque você sabe né, eu estava usando bastante… – Hugo falou levando as meninas até a garagem da oficina.
— Uau, Suzana, que carrão! – Sophia disse admirada com o brilho preto da picape de Suzana – Dá até dó de dirigir, né? Melhor deixar quieto as aulas…
— Soso, você não vai fugir de aprender a dirigir e não tem problema uns arranhados, essa nenê aqui aguenta muita coisa! – Suzana disse alisando a lataria do carro – Vem entra! – Suzana disse entrando no banco do carona.
— Suzana… – Sophia fazia voz de choro e desespero.
— Entra, Soso! – Suzana gritou de dentro do carro e a menina entrou tentando implorar ajuda com os olhos para Hugo que ria da cena – Lembra lá do Jalapão? Pé na embreagem… Aquele ali é o freio, você vai sempre pisar na embreagem antes de mudar a marcha e antes de ligar o carro, ok? Pisa na embreagem… – Sophia segurou com força no volante e pisou na embreagem – Isso! Pisa ali no freio e liga o carro… – Sophia seguia os comandos da irmã – Agora continua com o pé na embreagem e põe na primeira marcha, assim, pra frente e pra esquerda… – ela mostrava o câmbio do carro – Agora, devagar, você solta o pé da embreagem e acelera de pouquinho em pouquinho, vai… – Sophia fez o que Suzana falou, mas soltou o pé da embreagem antes do esperado e o carro morreu.
— Meu Deus, o que eu fiz?! – Sophia gritou desesperada e Suzana quase morria de rir.
— Calma, calma, é normal! O carro morreu porque você soltou a embreagem muito rápido, desliga o carro… – Sophia virou a chave – Isso, agora pisa de novo na embreagem e no freio pra ligar, volta a marcha pro ponto morto, que é bem no meio… – Sophia seguia todas as coordenadas da irmã mais velha – Agora liga, mas antes de passar a marcha, sente a vibração da embreagem, tá bom? Solta bem pouquinho só pra você sentir… – Suzana tinha puxado o freio de mão pela irmã, Sophia sentia o carro – Isso… Agora, você vai soltar o freio de mão e soltar o freio… – ela olhava para os pés de Sophia – Muito bem, agora passa a marcha e vamos de equilíbrio em soltar a embreagem e pisar no acelerador… – na segunda tentativa da menina ela conseguiu fazer o carro andar.
— Suzi! – Sophia sorria – Não morreu!
— Isso, Soso! Agora, acelera mais um pouco, pode ir, aqui é tudo descampado, não tem perigo, acelera devagar… – Suzana continuava dando as dicas – Quando você tiver na rua, na estrada, não tem necessidade de ficar pisando na embreagem toda hora, só pra passar a marcha e frear. Tá sentindo que agora que a gente tá andando o carro tá meio que fazendo força? – Sophia concordou com a cabeça, olhando para frente – Então, a primeira e a segunda marcha são as marchas de força do carro, pra dar a largada com ele e acelerar, pisa na embreagem de novo e coloca na segunda marcha, segue os desenhos aqui… – Suzana apontou para o câmbio das marchas e Sophia, após olhar rapidamente, pisou na embreagem e passou para a segunda marcha, mas o carro deu uma sacudidinha.
— Que isso, meu Deus?!
— Calma, é normal, você quase deixou o carro morrer, mas não morreu, agora, vamos virar aqui e ir voltando, pode acelerar mais, Soso e aí você põe na terceira marcha, vamos lá… – Suzana apontou a direção para onde Sophia teria que seguir e a menina fez a curva com o volante.
— Já é pra mudar a marcha? – ela perguntou.
— Dá mais uma aceleradinha… Agora muda, mesmo esquema… – Sophia mudou a marcha de novo fazendo o carro sacudir mais uma vez – Isso é questão de prática, Soso, o carro ainda vai morrer muitas vezes e vai pipocar muitas vezes até você pegar as manhas…
— Tô conseguindo… Tô conseguindo, Suzi! – Sophia sorria emocionada.
— Sim, Soso! Agora, pisa na embreagem e vai freando devagar… – Sophia foi parando o carro – Isso, e agora é só desligar o carro e puxar o freio de mão… – Sophia desligou e puxou a alavanca do freio – Muito bem! O que achou, Soso?
— Achei que eu ia morrer e acabar te matando junto… – Sophia disse tirando o cinto de segurança, suas mãos tremiam – Mas depois eu gostei de passar as marchas e de ver que o carro estava andando sob meu comando…
— E como eu sou uma irmã maravilhosa eu vou bancar suas aulas de direção de carro e moto! – Suzana sorriu.
— Ainda prefiro ter motorista…
— Nojentinha… – Suzana disse rindo e Sophia mostrou a língua – Amanhã eu te ensino a baliza e a gente dá umas voltas com o carro aqui na redondeza, tá?
— Nada do que eu falar vai fazer você mudar de ideia, então, ok… – Sophia aceitou derrotada – Eu devo ter causado um estrago grande pra minha mãe me mandar morar com o papai faltando seis meses pra eu terminar a escola… – Sophia falava caminhando ao lado de Suzana que se dirigia para o estábulo – Pelo menos vou voltar pra escola que estudava antes de mudar pra São Paulo e já tenho amigos lá…
— Você aprontou poucas e boas, Soso, mas não se sinta totalmente castigada, sua mãe me disse que de um jeito ou de outro teria que te mandar pra Porto, ela parece que vai viajar a trabalho mês que vem e você não ficaria sozinha de jeito nenhum em São Paulo, então ia pra casa do papai de todo jeito… Só que não precisava ter aprontado, né? – Suzana falou tentando consolar a irmã.
— Estou aprendendo minha lição… Pelo menos eu fico perto da Milena e é um saco ao mesmo tempo porque eu não consigo superar!
— Ela é realmente linda, Soso, eu super te entendo… – Suzana entrou no estábulo de seu cavalo – Vem, vou te ensinar a montar no gorducho do Elton…
Já era de noite quando depois do jantar Suzana bateu na porta do quarto que Sophia estava dormindo. Ficou na porta por algum tempo antes de falar, Sophia olhava pra ela curiosa e preocupada.
— Soso, eu não consigo dormir…
— Você sabe que você tem 36 anos, né? – Sophia disse rindo, mas viu a expressão no rosto da irmã.
— Sei, mas não consigo, por isso eu vim aqui saber se você topa assistir um filme comigo na sala, eu faço pipoca… – Suzana sorriu – Acho que consigo dormir depois disso…
— Eu topo, mas aconteceu alguma coisa? – Sophia se levantou e pegou seu travesseiro e seu cobertor.
— Só preciso distrair minha cabeça… Você escolhe o filme, pode ser até de terror se quiser… – Suzana conseguiu sorrir mais aliviada e as duas desceram para a sala – Vamos pegar estrada depois de amanhã, tá? – Suzana disse depois de fazer a pipoca e deitar num sofá ao lado de Sophia.
— Já disse que se você quiser ficar mais, tudo bem pra mim…
— Sei disso, Soso, mas é melhor irmos antes…
— Você que manda… – Sophia disse pegando a pipoca e olhando atenta para a televisão, o filme iria começar.
Suzana passou a maior parte do dia seguinte quieta, deu mais aulas de direção para Sophia e eram nesses poucos momentos com a irmã mais nova que Suzana se soltava mais, ria, brincava e se divertia, mas durante a manhã, almoço, horas vagas durante a tarde a mulher estava quieta, sempre pensativa, olhava para o carro que já estava estacionado perto da grande casa de sua mãe e se perdia em pensamentos ao fixar o olhar no seu reflexo na lataria preta.
— Suzana! – Sophia apareceu por trás da mulher em um dos momentos dela de olhar intensamente para a picape e Suzana pulou de susto.
— Meu Deus, Sophia! Assusta sua avó! – Suzana falava colocando a mão no peito e respirando ofegante.
— Não resisti… – Sophia perdia o ar de tanto rir, já estava vermelha, quase da cor de seus cabelos.
— Fala, o que você quer? – Suzana perguntou ainda se recuperando do susto.
— O jantar está servido e eu queria saber que horas vamos sair amanhã? – a segunda pergunta de Sophia deixou Suzana séria, ela voltou a encarar o carro.
— Já vou indo, Soso… – ela se referia ao jantar – Vamos depois do café, não precisa ser muito cedo…
— Tá… – Sophia voltou para dentro da casa e se sentou à mesa com Tânia e Hugo – Ela tá lá encarando o carro…
— Deve estar com medo de ir ao mesmo tempo que sabe que precisa ir o quanto antes… – Hugo disse pegando comida.
— Suzi, querida, vem jantar, filha! – Tânia gritou da cozinha e Suzana apareceu logo em seguida, pegando um prato e colocando quase nada de comida nele – Come, filha, nada de barriga vazia aqui…
— Não tô com muita fome, mãe… – até a voz de Suzana era algo que Sophia nunca tinha presenciado, o tom de voz dela e o olhar cabisbaixo.
— Vai parar no meio do caminho, né? – Hugo perguntou para Suzana – Sei que com o carro é mais rápido, mas nada de loucuras, viu?
— Vamos parar em Curitiba amanhã de tarde… – Suzana respondeu sem levantar o olhar – Aí depois de amanhã a gente segue direto pra Porto…
— E é pra comer bem, filha, Curitiba é um excelente lugar e tem restaurantes maravilhosos, nada de besteira… – Tânia falava e Sophia observava as reações da irmã mais velha.
— Sim, senhora… – Suzana conseguiu forçar o sorriso – Soso sei que vai me azucrinar pra comermos bem…
— Vou mesmo. – Sophia respondeu trocando olhares com Hugo e Tânia.
— Eu tô com um pouco de dor de cabeça, vou subir, tá? – Suzana disse terminando de comer o pouco de comida que colocou no prato e se retirou da mesa.
— Tenta distrair ela na viagem, Sophia, a Suzi vai precisar de distração, porque ela vai tomar uma decisão importante pra vida dela… – Tânia falou depois que a filha subiu para o quarto.
— Pode deixar, tia… – Sophia disse olhando para a escada e voltando a comer.
Suzana amanheceu com os olhos inchados, tinha chorado de noite e não tinha conseguido dormir direito, mas tentou disfarçar usando maquiagem, tentou parecer normal e sorridente para sua família, mas todos ao redor dela sabiam o que se passava em sua cabeça. Sophia levou suas muitas malas para a picape de Suzana, se despediu de Tânia e Hugo com a promessa de sempre que der, visitar eles juntos com Suzana.
— Muito obrigada por tudo, tia! – Sophia abraçou a mãe de sua irmã.
— Querida, a hora que quiser você pode me ligar e vir, não precisa depender de dona Suzi não, ouviu? – Tânia falava sorrindo e abraçando a menina de volta.
— Ih, que isso? – Suzana fingia estar com ciúmes.
— Filha, cuidado na estrada, pare sempre que der, descanse hoje a noite e avisa quando chegar lá, tá? – Tânia beijava o topo da cabeça da filha.
— Sim, senhora minha mãe… – Suzana a abraçou e foi se despedir de Hugo, Sophia já estava no carro – Pronta? – ela disse entrando no banco do motorista.
— É estranho estar tão baixo aqui… – Sophia olhava para o teto – Acostumei a ver todos de cima no caminhão, agora é muito estranho…
— Eu que o diga, Soso! – Suzana ligou o veículo e as duas partiram para mais uma viagem na estrada. Depois de pararem para abastecer e almoçar, as meninas continuaram a viagem, chegariam em Curitiba ao entardecer – Vou te dar mais um mimo, Sophia…
— Devo ficar preocupada? – Sophia disse rindo.
— Não… Assim que a gente chegar em Curitiba você vai saber… Estamos perto… – Suzana dirigia atenta, quase não conversou durante a viagem, o carro só não ficou em completo silêncio porque Sophia colocou músicas a viagem toda.
Mais algumas horas na rodovia e Suzana entrou na capital de Paraná, ver um tipo de civilização tão parecido com o que estava acostumada deixou Sophia aliviada e nostálgica, os prédios ao redor da cidade fizeram a menina sorrir como nunca, ver os carros, até o pouco trânsito que pegaram. Não só Sophia, mas Suzana também gostava daquele tipo de cidade, a correria, a movimentação. Elas pararam em um hotel e fizeram o check in.
— Vamos tomar um banho, tirar o cansaço e aí te levo pra um lugar bem bacana… – Suzana disse entrando no quarto do hotel.
— Só o fato da gente estar num hotel, com elevador, ar condicionado, garagem! Só isso já é muito mimo pra mim, Suzi!
— Eu sei… – Suzana sorriu e bagunçou o cabelo da menina – Vou tomar uma ducha, fique à vontade…
Depois de tomarem banho, Suzana revelou à Sophia que iriam no shopping principal da cidade, um shopping propriamente dito que deixou Sophia com um sorriso enorme, e Suzana também, ela adorava shopping, apesar de quase nunca ter tempo de ir. Conforme o tempo do passeio ia passando, Sophia percebeu mais uma vez a quietude da irmã. A hora de voltar pro hotel se aproximava e ela sabia o que aquilo significava para Suzana. Em mais algumas horas do dia seguinte elas chegariam ao destino final. Sophia enfrentaria seu pai e Suzana seu ex namorado.
— Suzi… – Sophia disse dentro do carro no dia seguinte enquanto elas seguiam para o extremo sul do país – Não sei se você está de férias, foi o que entendi pelo fato de você ter acabado as entregas e de deixar o caminhão na casa da sua mãe, mas se você está de férias e se for ficar em Porto Alegre, a gente podia se ver mais, né?
— Fico feliz que disse isso, Soso… – Suzana disse sorrindo – Vou ficar uns dias em Porto Alegre e claro que a gente pode se ver mais… Depois acho que vou pra casa da minha mãe de novo…
— Prometo não ignorar sua conversa… – Sophia riu – Mas é sério, a gente podia sair, se ver mais vezes…
— Vamos fazer isso sim, Soso, te levo até pra dirigir mais um pouco, o que acha?
— Não é pra tanto, né?
Foram mais algumas horas em que só as músicas no rádio eram tocadas, Suzana ficava mais séria a cada minuto que se aproximava da divisa de estados, mais ainda quando lia as placas que indicavam os quilômetros restantes para chegar até a capital do Rio Grande do Sul. Sophia não sabia o que fazer ou falar que fosse confortar a irmã, por isso ficou quieta, só falava para trocar de música ou cantava baixinho.
— Olha, se o papai te falar alguma coisa desagradável você faz entrar por um ouvido e sair pelo outro, tá? – Suzana dizia para a irmã, dirigindo pelas ruas que as levariam para o prédio de luxo que Caíto morava – Ele vai querer bancar o pai do sermão, pra compensar a ausência, então releva, amanhã ele já vai estar de boa e talvez até já te libere um dinheiro pra sair com sua turma…
— Não vai entrar comigo? – Sophia perguntou quando viu que já estavam na rua do prédio.
— Vou, mas só pra dar um oi pro papai, depois eu preciso ir… – Suzana respirou fundo – Eu marquei de me encontrar com o Miguel… Vamos… – Suzana disse entrando na garagem do prédio e estacionando o carro. Depois de tirarem as bagagens de Sophia do porta-malas, as meninas subiram em direção ao penúltimo andar do prédio composto de apartamentos duplex.
— Minhas meninas… – Caíto era alto, para seus 62 anos se encontrava em tão bom estado como a mãe de Suzana. Não tinha barba, o cabelo grisalho estava muito bem penteado para trás e ele sorriu quando as meninas saíram do elevador de frente para a porta do apartamento.
— Oi, pai… – Suzana foi a primeira cumprimentar e já puxou algumas malas de Sophia para dentro do lugar.
— Oi, pai… – Sophia recebeu o abraço e o beijo do pai e entrou junto com Suzana.
— Fizeram boa viagem? – ele mantinha as formalidades.
— Sim. – Suzana respondeu – Vou pegar uma fruta aqui na geladeira, tá? To morrendo de fome… – Suzana disse indo até a moderna geladeira da casa do pai e pegando uma pêra – Já vou indo… – ela disse voltando para a sala – Amanhã eu tento passar aqui pra ver a Soso e se quiserem a gente pode almoçar juntos, o que acha, pai?
— Vou ver que horas vou sair da empresa, filha, tenho uma reunião amanhã, então eu te aviso, ok? – Caíto sorriu para a filha mais velha – Não quer ficar pra jantar?
— Não… Eu tenho um compromisso… – Suzana respondeu.
— Sei o nome dele… – o pai sorriu cúmplice para a mulher, Suzana só tinha contado do pedido de casamento para sua mãe e para Sophia, Caíto ainda achava que era só mais um encontro de namorados, não sabia do que tinha acontecido antes da viagem.
— Até amanhã, pai… – Suzana disse revirando os olhos e abraçando o pai – Tchau, Soso, não esquece do que te falei… – Suzana abraçou com força a irmã mais nova que tinha sua altura.
— Nem você, Suzi… Não esquece o que te falei… – Sophia sorriu caridosa para a irmã que saiu do apartamento.
— Bom, então hora da gente conversar, não é Sophia Martins Keifer? – Caíto olhou sério para a filha mais nova que respirou fundo e se sentou no sofá para ouvir mais um sermão.
Apesar de nunca parar em nenhum lugar por muito tempo, Suzana tinha uma apartamento em Porto Alegre e foi para lá que ela dirigiu para tomar um banho e se preparar para uma noite que não saía de sua cabeça desde que iniciou a viagem com sua irmã mais nova. Suzana pediu para que limpassem o apartamento e colocassem tudo em ordem antes da chegada dela, o local estava fechado há pouco mais de um mês.
“Você não disse onde iria querer me encontrar… Então tenho duas sugestões…”
Miguel tinha mandado mensagem para Suzana enquanto ela tomava um banho quente e demorado, fazia muito frio em Porto Alegre, era meio de julho e a estação gelada chegava com força no sul do país.
“Eu vou até aí, se não for problema.”
Suzana respondeu se enxugando, seu coração batia acelerado e ela respirava ofegante, a última vez que viu Miguel ele tinha a pedido em casamento. Ela não sabia o que esperar daquela noite, tinha pensando em tantas possibilidades de conversas, em tantas coisas para dizer a Miguel, mas conforme ela se aproximava do prédio do rapaz toda sua capacidade de raciocinar ia se esvaindo.
— Suzana! Quanto tempo não te vejo por aqui! – o porteiro do prédio de Miguel disse ao ver a mulher na frente do portão.
— É… – foi o que ela conseguiu dizer.
— Já está liberada, pode subir! – ele disse deixando o portão destravado para Suzana entrar.
O caminho até o elevador foi torturante para ela, a subida até o 16º andar foi mais ainda, Suzana sentia que a qualquer momento seu coração ia explodir, mas por fora ela tentava manter a postura. A porta do elevador se abriu e Miguel já esperava por ela na porta do apartamento.
