Parte 5

— Entra… – sem saber como se cumprimentar, Miguel apenas deu passagem para a mulher, sorriu ao ver ela, seu coração pulou de felicidade, mas via a expressão no rosto de Suzana e aquilo o preocupava – Bom, eu fiz macarrão…

— A única coisa que sabe cozinhar, né… – Suzana disse nostálgica, mas logo voltando à postura – Não precisava, não vim pra jantar…

— Eu sei que não, mas eu fiz mesmo assim, apesar de ser a única coisa que sei cozinhar, sei que você ama meu macarrão… Ou mentiu pra mim a vida toda… – Miguel sorriu e se sentou no sofá fazendo sinal para Suzana se sentar também.

— Menti… – Suzana se permitiu brincar antes de respirar fundo – Miguel…

— Suzi, deixa eu falar? – ele a interrompeu – Eu sei que já veio com uma resposta pronta pra me dar e eu também me preparei pra isso, também tô com uma resposta pronta pra te dar, então, eu vou falar antes, porque já sei a sua, ok? – ele se aproximou de Suzana no sofá de três lugares – Não importa o que você diga, o que você decida, eu tive toda a minha vida pra deixar de gostar de você, tive toda a minha vida pra procurar outra mulher, e eu tentei, sei que também tentou, nossos “vai e vens” eram baseados em um fazer ciúme pro outro… – ele sorriu – Mas eu não vou achar outra mulher, mesmo que eu tente, você é o amor da minha vida, Suzana e eu sei sua resposta, sei porque veio aqui e não foi pra marcar um casamento, então só quero que saiba que não me importa o que você vai falar, meu sentimento vai permanecer, eu nunca vou deixar de te amar, Suzana e se o que você realmente quer é se afastar, tudo bem, eu respeito sua vontade, mas que eu te amo, isso é algo que você não vai poder tirar de mim… – Miguel falava sorrindo com os olhos marejados, Suzana o olhava séria, mas seus olhos foram se enchendo de lágrimas durante a fala dele – Eu imagino que não vai querer ficar pra jantar, por isso montei uma marmitinha pra você levar… – Miguel se levantou enxugando as lágrimas e foi até a cozinha.

— Miguel… – Suzana disse de pé quando ele voltou, ela chorava, seus olhos mostravam muitos sentimentos.

— Talvez você vai precisar esquentar quando chegar em casa… – ele entregou o vidro com tampa para Suzana – Suzi, eu te amo, tá? Fica com isso, só pra você guardar sei lá, mas fica com isso… – Miguel colocou em cima do vidro uma caixinha de veludo – Não posso devolver, porque foi feito exclusivamente pra você e nenhuma outra mulher merece ter essa peça única… – ele falava olhando para a caixinha que continha o anel de noivado que ele mostrou para Suzana no dia que fez o pedido.

— Não posso ficar… – ela disse tentando enxugar as lágrimas.

— Pode, é seu… – Miguel disse resistindo a vontade de abraçar Suzana e foi abrir a porta para a mulher. Antes de sair ela ainda olhou demoradamente para o rapaz que também chorava, mas mantinha o sorriso no rosto, um sorriso triste.

— Mando alguém devolver a tigela… – Suzana disse entrando no elevador e vendo a porta se fechar. Assim que o elevador começou a descer, Suzana encostou na parede e soluçou. Seu peito estava doendo, sua respiração estava falhando, ela se perguntava porque estava daquele jeito, mas a resposta ela se recusava a ouvir.

Suzana dirigiu para seu apartamento um pouco aérea, chorou muito no carro e quando entrou na rua do prédio viu uma pessoa na portaria, os cabelos ruivos balançavam embaixo da touca grossa, ela tremia de frio na calçada e falava um pouco revoltado com a mulher da portaria.

— Não me diz que fugiu da casa do papai? – Suzana abaixou o vidro pra falar com a irmã – Entra aqui, vamos pela garagem… – Suzana destravou as portas do carro e Sophia entrou com a boca roxa.

— Não fugi, papai me deixou aqui porque depois do sermão eu disse que precisava vir ficar com você e aí achei que ele tava sabendo do rolo todo, mas pelo jeito não tava sabendo, então eu contei pra ele e ele me deixou aqui… – Sophia se aquecia no carro enquanto Suzana descia para a garagem.

— Sua doida, e se eu demorasse pra voltar?

— Eu ia morrer de frio… – ela respondeu, as duas subiram até o apartamento de Suzana em silêncio – Sabe a providência desse pote de macarrão?

— Sei… – Suzana disse com os olhos marejados.

— Posso ver? – Sophia se referia à caixinha de veludo, Suzana concordou com a cabeça, foi abrindo a porta do apartamento e tentava não chorar – Amanhã a Milena vai dar uma festinha na casa dela, ela acabou de me mandar mensagem me convidando, acha que devo ir? – Sophia entrou no lugar e levou a tigela de macarrão para a cozinha.

— Bom, vai ser bom pra você rever seus amigos… – Suzana tinha a voz embargada.

— Se quiser eu venho ficar aqui… – Sophia disse e Suzana não se aguentou, começou a chorar, soluçava e não conseguia parar – Toma, água com açúcar porque não sei fazer tereré… – a menina levou um copo de água com açúcar para a irmã que estava sentada no sofá chorando – Que tal um filme de terror hoje? – Suzana concordou com a cabeça – Vou no seu quarto pegar cobertas, é o último? – Suzana não respondeu – Eu me viro…

Suzana dormiu no meio do filme, e acordou ainda de madrugada sem conseguir dormir mais. Sophia estava enrolada na coberta e dormia no mesmo sofá que Suzana, a tela da televisão ainda estava ligada e a imagem fixada na página inicial da Netflix. Com cuidado Suzana se levantou e desligou a tv, colocou mais uma coberta em Sophia e foi para a sacada de seu apartamento, segurava a caixinha de veludo na mão, ao abrir reviu o solitário desenhado para ela, com uma esmeralda brilhante e chamativa no topo, derrubou mais algumas lágrimas e se permitiu sentir tudo o que estava remexido dentro dela.

Já tinham se passado duas semanas desde a conversa de Miguel com Suzana, as aulas de Sophia já tinham retornado na escola que já não era nova para a menina e dava a hora do almoço quando Sophia saiu pelo portão do prédio do colégio, com a mochila nas costas e viu uma caminhonete preta parada do outro lado da rua. Encostada nela uma mulher de jeans, camiseta de banda por baixo de uma jaqueta jeans revestida de algodão no interior, all star e óculos de sol.

— Acho que nunca fiquei tão feliz na minha vida que alguém viesse me visitar na saída da escola… – Sophia foi até a irmã sorridente.

— Vim te buscar, tem compromisso hoje? – Suzana abraçou a irmã como comprimento e olhou para a saída dos alunos – A Milena é alta, né Soso? – ela apontou com a cabeça para a paquera de Sophia.

— Ela é modelo, agora é profissional… – Sophia respondeu olhando na direção que a irmã olhava – Meus planos seriam ir pra casa e fingir que estudo…

— Então vamos almoçar… – Suzana entrou no carro sorrindo, desde que Sophia tinha passado a noite com ela depois da conversa com Miguel, ela não viu mais a menina com a frequência que prometeu, ficou ocupada com outros afazeres e se desencontrava do pai e da irmã para um almoço, jantar ou qualquer reunião familiar com os dois.

— Você parece bem, tem comido direito? – Sophia disse colocando o cinto.

— Dona Tânia pediu pra você fazer as investigações, é?

— Não, eu estou investigando por conta própria… – Sophia disse sorrindo – Algum motivo especial pra essa aparição surpresa aqui? Vai me levar pra um lugar que sabe a providência da comida, né?

— Vou, Soso… – Suzana riu – Eu quero te levar em outro lugar antes, como tá sua fome?

— Depois disso a minha fome aguenta mais um pouco… Pra onde vai me levar antes de irmos almoçar?

— Já vai saber… – Suzana sorria e dirigia, mais alguns minutos no carro e ela estacionou no subsolo de um prédio comercial.

— Que lugar é esse? – Sophia perguntava curiosa.

— Vem comigo, já vai saber… – Suzana e Sophia desceram do carro e subiram pela garagem até um andar com um hall logo em frente ao elevador e alguns corredores que davam para algumas portas fechadas – Eu preciso da sua ajuda com algumas coisas… – Suzana caminhava na frente para uma porta branca ao final do corredor.

— Você vai me matar e esconder meu corpo, é isso? – Sophia ria e tentava se localizar no corredor que estava.

— Não hoje, mas eu quero que me diga o que acha desse lugar… – Suzana abriu a porta branca que dava para um grande espaço vazio, uma sala muito bem iluminada com as grandes janelas do prédio, do lado esquerdo uma porta de madeira maciça assim como do lado direito.

— Acho que talvez eu precise saber que lugar é esse, Suzi… – Sophia disse caminhando pela sala vazia – O que tem atrás das portas? Posso ver?

— Pode… – Suzana foi na frente e destrancou a porta da esquerda – Aqui é outra sala e do outro lado é um banheiro…

— Certo, bom, eu achei vazio… – Sophia disse olhando para a irmã – Que lugar é esse, Suzana?

— Soso, eu quero que me ajude a montar uma festa… – ela sorria.

— Se era surpresa por meu aniversário, acho que você acabou de estragar… – Sophia tentava entender onde estava e sobre o que a irmã estava falando.

— Não, bobinha, já disse que seu presente é a carteira e calma que até novembro tem tempo de montar uma festa pra você… – Suzana olhou ao redor – Soso, eu comprei esse espaço aqui, pretendo montar uma recepção ali na frente, com sofázinhos, uma mesa de café, talvez, e aqui nessa sala montar meu consultório oficial, talvez até colocar um divã! Muito exagerado, né? – ela ria da própria brincadeira.

— Espera… – Sophia começava a entender – Mas e seu trabalho dirigindo caminhão? – a menina sorria largamente.

— Bom, eu acho que vou aposentar o nenê, e viajar por aí quando tirar férias, né?

— Mas você ama dirigir o caminhão…

— Amo, mas eu também amo o Miguel e é muito filha da putagem eu escolher entre um caminhão caríssimo e um cara que tá junto comigo desde nosso primeiro dia de escola no jardim de infância, não é?

— Depende, quanto você pagou no caminhão? – Sophia perguntou e as duas gargalharam – Bom, então ele já sabe?

— Não… E eu espero que ele não esteja saindo com ninguém e é isso que também quero sua ajuda…

— Averiguar o terreno, ok eu faço isso…

— Não só isso, mas me ajudar a montar uma festa de casamento pra no máximo daqui duas semanas… – Suzana mordeu o lábio inferior da boca.

— Oi? Espera… Quê?

— Eu vou pedir ele em casamento, mas já vou casar no mesmo dia… Ah e quero que seja a madrinha…

— Suzana! – Sophia abraçou a irmã forte depois de tantas informações – É muita coisa pra eu digerir, mas eu estou tão feliz!

— Eu também… E ao mesmo tempo com medo, mas faz parte… Eu estava na minha zona de conforto e os últimos cinco anos direto com o Miguel me fizeram entender que não tem como eu não estar com ele, mas a ideia de casar e morar junto me assustava demais… – Suzana falava olhando para a irmã – Quando ele fez o pedido, antes da nossa viagem, ele me disse que não estava pedindo pra eu largar nada, mas que ele queria oficializar nossa união, que eu soubesse que podia fazer as entregas Brasil afora, mas que soubesse que ele estaria aqui me esperando e eu surtei…

— Você pode muito bem continuar suas entregas, Suzi… – Sophia disse emocionada.

— Posso, sei disso, mas aí eu não estaria cedendo nada e num relacionamento a gente precisa ceder de vez em quando… Eu sempre gostei de dirigir fazendo entregas, e eu também sempre amei minha área de formação, já disse pra você: eu já trabalhei como psicóloga e depois que conversei com o Miguel aquele dia eu percebi que ainda poderia fazer algo que eu gostasse e manter a relação com Miguel, mas esse algo que eu gostasse não seria necessariamente ficar meses na estrada…

— Então você comprou esse consultório…

— Então eu comprei esse consultório… – Suzana respondeu – Sophia, eu estou morrendo de medo…

— E você que é a psicóloga e que tem o dobro da minha idade, só vamos enfocar nisso de novo…

— Aceita ser minha madrinha de casamento?

— Você já imaginou que tem duas semanas pra ver seu vestido de noiva?!

— Meu Deus, é verdade! – Suzana disse arregalando os olhos.

— Eu aceito, Suzi, aceito ser sua madrinha, obrigada por contar comigo, por confiar em mim, por tudo… – Sophia abraçou a irmã mais uma vez – A gente já pode comer? Eu tô realmente morrendo de fome!

— Podemos! – Suzana riu – Eu te amo, Soso, você me deu o chacoalhão…

— E você me deu um primeiro, estamos quites…

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Fazia frio no início de agosto, o Sul do país tinha fama de ser gelado no inverno, em algumas regiões até nevava, ou como eles chamavam a pequena geada que ocorria nas serras. O sábado estava ensolarado, mas os raios solares eram uma mera enganação. Uma semana atrás, Sophia mandava uma mensagem para Miguel, perguntando se ele não poderia acompanhar a menina em um jantar de gala. Foi a pior desculpa que Sophia podia inventar, totalmente sem sentido, mas Suzana estava uma pilha de nervos e Sophia estava quase pior que a irmã, a primeira coisa que apareceu na cabeça da ruiva foi o falso jantar de gala. Gerou muitas perguntas de Miguel “Por quê?”, “Que jantar?”, “Não pode chamar nenhum amigo seu?”.

Para tudo não sair por água abaixo, Suzana resolveu intervir no plano de Sophia, conversou com seu pai e Caíto já fazia parte de todo o esquema, o jantar de gala proposto por Sophia iria acontecer como uma desculpa de Caíto celebrar os negócios em sua empresa, Sophia manteve o convite para Miguel que depois de tudo esclarecido aceitou mesmo não querendo curtir festa nenhuma, imaginando se Suzana estaria nesse jantar e como ele reagiria ao ver ela depois do dia que ele levou mais um “não”.

Os parentes próximos foram avisados do jantar de gala, apenas Tânia e Hugo sabiam do real motivo do jantar e já estavam no Sul do país, hospedados no apartamento de Suzana para um dia muito especial.

— Essa foi a maior idiotice que eu já fiz na minha vida! – Suzana gritava pelo apartamento de toalha no corpo e no cabelo – Nem quando eu roubei a placa de trânsito foi tão besteira!

— Ah pronto, o que houve?! – Sophia saiu correndo de um dos quartos, com modeladores no cabelo e a maquiagem pronta.

— Houve que eu vou cancelar tudo, é idiotice! – Suzana falava com a escova de dente na mão.

— Você não é nem doida de fazer isso, Suzana Salles Keifer! – Sophia disse muito séria.

— Imagina ele me dá o troco e fala um enorme não na minha cara?! É idiotice sim, eu vou cancelar!

— Tia! – Sophia pedia ajuda com o olhar para Tânia que sorria da situação.

— Primeiro de tudo, querida, vamos pro quarto que o Hugo tá quase te vendo nua… – Tânia levou Suzana até o quarto – Não acha que tá frio? Sugiro você por uma roupa, independente de cancelar ou não o casamento, você não pode ficar resfriada… – sem notar, Suzana era vestida com o vestido de noiva que mandou fazer às pressas, era uma peça única, feita por uma amiga de Suzana que era designer de moda. Não era um vestido propriamente dito, mas um macacão branco, na parte de cima era rendado com forro branco no busto e decotado até a altura do umbigo, tinha mangas compridas e rendadas, mas transparentes e da cintura saía uma saia de seda off white, amarrada para fazer parecer ao mesmo tempo um véu e um vestido propriamente dito.

— Mãe! – Suzana chorava – Você me vestiu com o negócio do casamento!

— Nossa, nem me atentei… – Tânia sorriu – Isso que você tá sentindo é mais normal do que pensa, filha, eu senti quando casei com seu pai e depois quando casei com o Hugo e nos dois casamentos, no último instante eu falei: não vou.

— Mas foi… – Suzana enxugava as lágrimas – Acontece que você foi sabendo que era um casamento e sabendo que eles estavam lá pra dizer “sim”! O Miguel pode muito bem dizer “não” porque eu já disse “não” pra ele um bilhão de vezes…

— Suzana, você acha mesmo que alguém em sã consciência diria não pra você? – Sophia disse olhando para a irmã mais velha.

— Você tá linda, Soso… – Suzana disse sorrindo e derrubando mais lágrimas.

— E você está deslumbrante, Suzi, se ele disser não pra você é porque ele está sendo burro e hipócrita… – Sophia beijou a bochecha da irmã mais velha – Posso deixar o maquiador entrar?

— Pode… – Suzana disse e Tânia e Sophia saíram do quarto, o maquiador entrou e fechou a porta.

Sophia esperava do lado de fora do salão da festa. Estava com um sobretudo que combinava com seu vestido preto, longo e aveludado. O carro de Miguel parou na frente do lugar e um chofer foi até a porta do rapaz para pegar o carro e estacionar.

— Vai morrer de frio aqui fora, Soso! – Miguel estava vestido conforme o esperado, terno, gravata borboleta e calça social, mas o cabelo continuava bagunçado propositalmente, os cachos largos na ponta deixavam ele mais jovem do que a idade falava. – Quanto tempo não te vejo… Você está linda e enorme! – ele abraçou Sophia.

— E você está lindo e o mesmo de sempre… – Sophia riu – Vamos entrar?

— Vamos… – Miguel era educado, seu olhar estava triste, mas ele tentava não demonstrar – Por acaso sua irmã vai vir? – ele perguntou por fim.

— Vai… É uma festa do papai, então ela vai marcar presença sim… – Sophia entrava no salão de braços dados com Miguel.

— Verdade… – ele disse abaixando o olhar – Puxa, quanta gente e que bonito está aqui… – Miguel olhava o interior do salão.

— Pois é, minha mãe até ia vir também, mas ela tá viajando…

— Mas por que sua mãe viria? – Miguel perguntou e Sophia teve que planejar uma boa resposta depois do deslize.

— Porque… Porque ela ainda é sócia, né? Tipo seu pai, mas minha mãe atua de longe…

— Verdade… – Miguel disse sem prestar muita atenção, tinha avistado Tânia entrando no salão com Hugo – Ué, mas o que a Tânia está fazendo aqui? Que eu saiba ela não é mais sócia do Caíto…

— É que… – Sophia tentou falar e nada vinha na cabeça dela, por sorte as luzes foram diminuídas e Caíto apareceu no centro do salão com um microfone na mão.

— Muito boa noite a todos… – a voz dele era grave – Obrigado por terem comparecido a essa festa, mas não sou eu quem vou dar as honras, é minha filha mais velha, Suzana, querida…

Miguel parecia hipnotizado conforme Suzana subia as escadas do salão e marcava presença com um sapato alto e fechado vermelho aveludado, estava linda e maquiada, o batom combinava com o scarpin e ela tinha o olhar que demonstrava nervoso e felicidade. Avistou Miguel no corredor de pessoas que se abriu para ela passar, sorriu e continuou sua caminhada até o pai que a aguardava.

— Boa noite… – ela disse no microfone – Sinto informar que vocês foram enganados, isso aqui não é nenhum jantar de comemoração dos negócios da empresa do senhor Caíto Keifer… – o burburinho começava – É um apelo, é uma conversa a ser exposta, é o medo que eu tô de fazer a maior loucura da minha vida… – Sophia tinha empurrado Miguel para mais perto de onde Suzana falava – Alguns de vocês não sabe o que é crush, mas eu explico, crush é uma paquerinha, aquele amorzinho platônico que a gente tem na infância e na adolescência e eu tive muitos crushs na minha vida, acreditem… – ela olhava para Miguel que não entendia o que estava acontecendo, assim como todos os outros convidados – Mas teve um crush que durou praticamente minha vida toda, oficialmente e sendo recíproca, essa paquera se iniciou quando eu tinha 16 anos e aí vocês estão à par do que aconteceu… – ela riu – Dois meses atrás esse meu crush me pediu em casamento e eu disse não. – Miguel tinha os olhos marejados e Suzana só conseguia olhar para ele – Eu sei, fui tri burra… Mas eu tinha uma vida e eu tinha medo de deixar essa vida… Aí eu coloquei tudo na ponta do lápis depois de uma última conversa que eu saí da casa desse meu crush com um pote de macarrão e uma caixinha de veludo, e pensei: eu amo o que eu faço, eu amo meu emprego, mas eu também amo o Miguel… E eu não sou filha da puta o suficiente pra escolher entre um caminhão caríssimo da Mercedes e um homem que sempre esteve ao meu lado, né? – os convidados riam do jeito de Suzana falar – E antes que me perguntem, o Miguel nunca pediu pra eu fazer essa escolha e esse é só mais um motivo de ela ser tão óbvia depois de um chacoalhão que a vida nos dá, não é mesmo? – ela olhava para Sophia – Então me deu uns cinco minutos e eu decidi que não tinha como eu viver sem o cara que eu amo, aí eu resolvi me aposentar como caminhoneira, iniciar pra valer meu trabalho como psicóloga e fazer essa festa… – Suzana começou a caminhar em direção à Miguel que chorava, mas sorria – Que não é nada pra empresa Keifer, é mais pra eu me redimir em grande estilo e aceitar, mas ao mesmo tempo também pedir, o meu crush em casamento… – Suzana já estava frente a frente com Miguel – E aí, se ele disser “sim” o juiz de paz entra, a gente fala mais umas coisinhas apaixonadas, ele bota o solitário no meu dedo, a gente se beija, assina uns papéis e oficializamos o casamento… O que me diz, Miguel? – as mãos de Suzana tremiam e não paravam de cair lágrimas de seus olhos. Miguel não disse nada, sorriu para Suzana, a puxou pela cintura e a beijou. Os aplausos ensurdeceram todos no salão.

— Eu poderia ser filho da puta e dizer não só de vingança, sabe disso, né? – Miguel falou no ouvido de Suzana.

— Olha que eu sei, sei tanto que meu cu não passava nem wifi… – Suzana respondeu no ouvido de Miguel – Obrigada por não dizer “não”… Casa comigo, Miguel? Eu tô morrendo de fome…

— Eu amo seu romantismo, Suzana… – Miguel olhava nos olhos da mulher – Caso com uma condição…

— Ah, lá vem… – Suzana disse revirando os olhos.

— A condição é que mesmo nos momentos mais difíceis, você vai prometer não surtar e sair de mala e cuia e eu prometo não fazer o mesmo, a gente senta e se resolve, como foram nesses últimos cinco anos, tá?

— Tá! – Suzana deu outro beijo em Miguel.

— Cadê o anel, dona Suzana? – ele perguntou.

— Soso! – Suzana gritou e Sophia quase correu ao encontro deles – Soso me ajudou nisso e além de dama de honra ela é nossa madrinha, ok?

— Vai aceitar por bem ou por mal? – Sophia disse rindo.

— Por bem, é claro! – Miguel respondeu e ele e Suzana caminharam até o juiz de paz que esperava pelo casal no salão.

— Bom, então vamos oficializar essa cerimônia… – o homem começou a falar no microfone.

O mundo girava devagar para o casal valsando no meio do salão, do lado de fora sorrisos emocionados se espalhavam por cada rosto dos convidados que foram pegos de surpresa. Após a dança oficial dos noivos, Suzana se aproximou de sua irmã, a abraçou por muito tempo em silêncio, mas com um sorriso no rosto.

— Suzi, obrigada por tudo, tá bom? – Sophia disse quando Suzana a soltou – Você é a melhor irmã do mundo…

— Você que é, Soso… – Suzana puxou a menina – Vamos valsar juntas, vem!