
Dizem que, se guardamos algo no passado por medo ou vergonha, mais cedo ou mais tarde, o que foi escondido voltará à tona e teremos que lidar com isso de frente, uma vez que voltar atrás não será mais permitido.
Eu possuo muitas coisas trancafiadas no passado, traumas e momentos que só rezo para que sejam esquecidos de tão doloridos que foram, mas sempre sou tomada pelo medo quando percebo uma simples menção de alguma coisa que pode trazer à superfície muitas lembranças, que pode libertar monstros que já deveriam estar mortos. Afinal, eu sempre me reergui sozinha, consegui seguir em frente, mas para isso, tive que separar um grande armário fechado a sete chaves para que nunca fosse aberto, como a caixa de Pandora, que só liberaria dor e sofrimento, para mim e talvez para as pessoas ao meu redor.
Até aprender a me reerguer de coisas avassaladoras, cometi alguns erros, estava perdida, sendo o mais irresponsável que conseguia ser, completamente vazia e triste, passando aos outros a faceta de empoderamento e felicidade, mas por um breve momento na minha vida fadada ao erro, encontrei aquele que ainda acho ser, na maneira mais inocente de se falar, a pessoa certa, mas quis muitos empecilhos que nunca nem sequer tenhamos nos beijado.
Ouvi de várias bocas, em diversos lugares que na vida possuímos um amor para nossa vida e o amor da nossa vida, uma frase linguisticamente posta para gerar o efeito de sentido mais ambíguo para os mais leigos em gramática. A simples troca de preposição nos revela dois mundos diferentes, duas possibilidades que, na realidade, talvez nunca cheguemos, de fato, a saber qual foi qual, talvez uma vaga noção.
Tive algumas desilusões até chegar onde estou, deveria estar realizada e, por muitos momentos dos meus dias, ainda preciso repetir essa frase na cabeça para acreditar que de fato estou, que conquistei muitas coisas que sempre almejei, mas algo ainda não parecia certo dentro de mim e eu não tinha ideia do que poderia ser.
Antes dos empecilhos que nos separaram por muito tempo, a pessoa que achava ser a certa, apareceu em minha vida de uma maneira quase natural. William surgiu de repente e foi se fazendo mais presente, mais íntimo.
Era crescente a tensão e a amizade que existia entre nós, ele era carinhoso com todos, principalmente com suas amigas mulheres, quando nos conhecemos pude sentir uma fagulha do meu pior defeito querendo crescer em meu peito, a fagulha de me interessar por quem não deveria, mas, na época, consegui ignorar aquilo completamente pelo fato de ainda não saber o que sentia em relação a tudo, ainda estava vazia, baques do passado haviam me machucado ao ponto de não querer pensar sobre, a amizade dele foi um ponto especial. No começo nos encontrávamos com nossa amiga em comum, Juliana. Saímos para saraus, nos encontrávamos na faculdade, sempre com um “oi” e depois um “tchau”.
Então, um dia reparei que ele não usava mais aliança, estava sempre por perto porque sua melhor amiga também era minha melhor amiga e passamos a ser uma espécie de trio. Sua maneira carinhosa aumentava e começaram a surgir boatos de que, talvez, ele se interessasse por mim. Eu dava risada, como aquilo era possível? Estava nítido que havia muita química repreendida entre ele e Juliana, suspeitar de algum sentimento romântico dele comigo era insanidade do povo. E eu tinha meu padrão, não estava nada disposta a abrir mão de um crush inalcançável por um mero comentário cômico.
Mas é assim que percebemos as pequenas coisas, e foi assim que passei a prestar mais atenção nele, talvez no início fosse pressão por parte de todos e de mim mesma, mas depois eu me deixei levar por hipóteses e quando parecia que era recíproco, quando parecia que eu poderia estar começando a me curar do passado, William voltou a usar aliança. Era diferente da anterior, brilhante como nova, na verdade, era nova, simbolizava seu mais recente namoro com uma menina que eu e Juliana, sequer sabíamos quem era, mas ele estava feliz e aquilo deveria bastar para nós duas.
Como um novo baque eu me deixei levar por irresponsabilidades cuja culpa atribuo apenas a mim, mas daquela vez tinha com o que ocupar minha cabeça, trabalhava, estudava, tinha uma casa para cuidar sozinha, romances não estavam nos meus planos, ele foi se afastando também e cada um seguiu sua vida por alguns meses, trocando vagos “ois” e “tchaus” de maneira virtual e quando nos víamos pelo calçadão da faculdade.
Quis o destino brincar com a gente mais uma vez, William não usava mais aliança de novo e voltou a se aproximar. Éramos, antes de tudo, bons amigos que sempre tiveram muitas coisas em comum e daquela vez a aproximação foi mais intensa, nos falávamos sempre, os abraços de recepção eram longos e silenciosos, cada um sentindo o outro e sem coragem para dar o passo seguinte, os olhares eram tão fortes quanto os abraços, a aproximação facial queria dizer tanta coisa e meu afastamento repentino, por medo, dizia mais muitas coisas.
Ele estava mais presente, queria se fazer mais presente, os boatos voltaram e daquela vez eu conseguia acreditar que eram verdadeiros e que eu poderia ser capaz de retribuir os mesmos sentimentos.
Começamos a ficar mais íntimos, nossas conversas falavam do futuro como uma brincadeira que, no fundo, nenhum de nós acreditava ser apenas uma brincadeira, falávamos de viagens para fazer, falávamos de uma vida lado a lado e ríamos, ríamos nervosos porque sabíamos que não eram suposições e jogos, eram frases de desejos que queríamos concretizar juntos.
Houve saídas, houve noites e bares, William me levou para conhecer sua mãe, ela me tratou como filha, como nora, me deixou ficar sozinha no quarto com ele, fez questão de “aumentar” o volume do rádio para que a gente ficasse à vontade, neste dia e em tantos outros houve mais abraços longos, olhares intensos e silêncios que exigiam aproximação física, mas nenhum de nós ousava avançar os limites com o outro. Ele por respeito, eu por medo. Não me envolvia daquele jeito havia tempo e tinha medo do que poderia acontecer, pensava nas mais variadas hipóteses para tudo e sempre paralisava e desviava o rosto quando o sentia mais próximo, quando sabia que faltavam dez centímetros, ou menos, para que nossos lábios finalmente se tocassem.
Não houve beijo, não houve nada além de intenções, me prendi a um erro bobo dele, juntei com o fato de que outra grande amiga, Nina, nutria muitos sentimentos por William, e me fechei completamente. Sumi, parei de mandar mensagem, parei de procurá-lo. Semanas depois ele apareceu namorando.
Juliana não deixou escapar seu comentário “já reparou que fisicamente ela lembra você em alguns aspectos?” Ela tinha tristeza na voz, torcia por nós, não gostou muito, a princípio, de o ver com outra que não fosse eu, e eu sofria por dentro. Fingia que não sentia nada perto dos outros, mentia para Nina que nutria sentimentos por ele, que jamais iria atrapalhar que ela tivesse uma chance, afinal de contas, eu conseguiria superar um dia, ela, por outro lado, era mais emocional que eu, mais sentimental, mesmo quando queria parecer indiferente. E eu seguia sofrendo calada, reprimindo o que já estava reprimido.
Nossos planos foram engavetados, trancafiados e a chave foi perdida, talvez, para sempre. Por um longo período fiquei presa e torturada pela grande pergunta “e se?”, remoía esse termo enquanto o via morar junto com a menina fisicamente semelhante a mim, me torturava quando imaginava que talvez aquela fosse para ser minha vida ao lado dele e me apeguei a um fio de esperança quando descobri que eles haviam se separado, por mais errado que fosse, por mais culpada que me sentisse por ficar feliz com um mero “stalk”. Mas durou pouco. Ele é o tipo de pessoa que não consegue ficar sozinho e não tardou para William se “casar” mais uma vez, foi quando comecei a me dar conta, pra valer, de que talvez tivesse perdido a grande chance da minha vida.
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Quando não resolvemos algo em nosso passado, não importa quanto tempo dure, ele voltará a nos assombrar de alguma maneira que não terá como escapar. Ainda possuo muitas coisas do passado que podem voltar, torço para que nem tudo volte, mas há um assunto pendente que veio ao meu encontro e, depois de tanto tempo, pude perceber do que se tratava.
Nada foi resolvido entre nós, nada foi dito, tudo ficou no plano do subentendido que cada um interpreta de um jeito e no final, as duas interpretações podem estar erradas. O que nos faltou foi o diálogo.
Mesmo depois de encontrar alguém que me trouxesse bons sentimentos, não conseguia me sentir completa, não conseguia me sentir livre para viver todas as emoções e tudo veio à tona quando o encontrei no improvável. Ele segurava a mão de uma menina pequena, sorria e ria se divertindo com mais algumas crianças ao seu redor e então me perdi naquele momento, não percebi que tinha parado de andar até que me chamaram a atenção.
— Aconteceu alguma coisa? – Caio perguntou preocupado com minha repentina parada, e mesmo voltando do transe, eu não conseguia desviar o olhar do que estava um pouco distante à minha frente.
Uma enxurrada de lembranças voltou com tudo à minha mente e algo em meu peito me cutucou. Era o que faltava, o passado estava na minha cara e eu não sabia como reagir.
— Não… – precisava disfarçar, aquela não era a hora do passado voltar, eu não iria permitir – Achei que tinha visto um conhecido… – mas não menti totalmente.
— Mas seria muita coincidência, não? – Caio riu. Seria, seria se eu não acreditasse em destino, sinais e outras coisas do gênero. Percebi minha respiração descompassada, não podia transparecer para ele.
— Seria… – forcei um sorriso que sabia que Caio iria acreditar ser sincero – Que tal a gente comer alguma coisa? Tô morrendo de fome, fome de doce! – consegui desviar meu olhar da família feliz e entrelacei meus dedos nos de Caio que sorriu como ele sempre sorria.
— Seu pedido é uma ordem! – ele me deu um selinho e nos viramos para o lado oposto, estava certa de que iria conseguir escapar de encarar o passado, mas não é assim que as coisas funcionam.
— Priscila? – eu conhecia aquela voz, era de homem e não era do que estava ao meu lado. Vinha de uma distância considerável, como um grito que foi ecoando até chegar aos meus ouvidos.
— Te chamaram? – Caio parou de repente e se virou para todos os lados em busca de quem me chamava.
— Não ouvi. – era mentira – Vamos? – insisti para que saíssemos dali.
— Priscila! – a voz estava mais perto, um pouco esbaforida devido a uma corridinha da pessoa para me alcançar.
— Acho que era mesmo um conhecido! – Caio dizia animado, ele mal poderia imaginar, me virei e resolvi encarar o que me esperava.
— William… – meu coração batia acelerado, ele se aproximava sorrindo e eu sentia que as batidas no meu peito poderiam me matar de dor.
— Que mundo minúsculo! – ele sorria ainda, me abraçou e me deu um beijo na bochecha.
— Como um grão de areia… – respondi e olhei para o lado, percebi que Caio queria e merecia uma explicação – Caio, esse é William… Um amigo da época da faculdade, William, esse é Caio… – não consegui colocar títulos em Caio, por sorte, ninguém se importou.
— Prazer! – William era receptivo, tanto quanto Caio, os dois apertaram as mãos sorrindo e se cumprimentando.
— Perdido nesse lado da América? – dei uma risadinha.
— Pra você ver! Tô com a… – sua voz falhou – Ali, Cristina e as filhas dela… – algo me dizia que ele também não conseguiu colocar títulos em Cristina, não na minha frente, e mais uma pontada no peito me atingiu.
— Não são suas filhas? – Caio era curioso e não se conteve.
— Não… – William deu uma risadinha – Mas é como se fossem… – ele olhava pra mim e eu não conseguia me mexer. Lembrava da última vez que nos vimos e nos divertimos, foi em uma saída normal, um dia rotineiro que resolvemos passear, e lembrava de como eu me fechei depois de um detalhe sem importância e me afastei por inúmeros motivos, só via William pelas redes sociais, sem muita frequência.
— Então estão passeando pelos States? – William ainda me olhava, anos atrás havíamos combinado aquela viagem, aquela que ele fazia com sua mulher e filhas postiças e eu fazia com Caio.
— Realizando o sonho dessa moça… – Caio voltou a segurar minha mão, olhei rapidamente para ele que sorria apaixonado, meu peito foi invadido por uma dor mínima.
— E como está sendo? Melhor que o esperado? – William sabia dos detalhes, ele sabia o que eu queria, ele tinha planejado comigo aquele sonho e, até eu vê-lo naquele dia, eu nem me lembrava daqueles planos, mas tudo veio como um tsunami.
— Já chorei vendo o Mickey… – dei uma risadinha, no fundo a resposta que eu daria ficou apenas subentendida para mim e para ele.
— Típico! – ele riu e se virou pra trás – Vou levar aquelas pequenas pra tomar um sorvete, querem se juntar à gente?
— Sorvete? – perguntei rindo, lembranças estavam em minha cabeça.
— Ah, verdade! – William riu – A pessoa mais estranha que conheço…
— A Pri detesta sorvete… – Caio disse depois de um tempo, ele tinha um sorriso no rosto, e eu temia que ele percebesse qualquer coisa, afinal de contas, ele era compreensível, mas não sabia até que ponto podia contar com aquilo, nunca quis fazer o teste.
— Sei bem, ela me traumatizou um dia quando ia pegar um de chocolate…
— Papai! – uma das meninas gritou e correu até William.
— É estranho, eu sei, mas me acostumei… – ele riu, aquele comentário foi pra mim, foi direcionado ao passado quando brincamos se um dia iríamos querer filhos e concordamos que aquilo jamais seria uma possibilidade.
— Aproveite o passeio, William, a gente ainda vai dar umas voltas… – disse por fim, vi Cristina se aproximar e eu só queria ir embora.
— Não querem mesmo acompanhar a gente? – ele insistiu.
— A gente se vê por aí… – me apressei em me despedir, segurar a mão de Caio, dar um tchau no ar para as crianças e Cristina e caminhar na direção oposta.
— Estudaram juntos? – Caio perguntou depois que estávamos um pouco longe da família feliz.
— Não exatamente, ele era de exatas, mas nos tornamos amigos, tínhamos muitos amigos em comum, a faculdade parece grande, mas na verdade era um ovo… – evitava olhar para Caio, por sorte, muitas atrações na Disney podiam segurar minha atenção.
— Entendi, verdade, na minha faculdade era assim também… – era um dos momentos que eu me desligava, Caio dava seus exemplos de vida, ele não dominava a prática da escutatória, ouvia para responder e, em momentos como esse, eu me perdia em outras coisas, me desconectava para não me estressar, me concentrava em algo além, naquela hora eram em lembranças do passado.
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“— Escuta, William… – aquele sotaque carioca de Cátia me chamava a atenção, mas eu não deixava de conversar com os outros convidados da minha festa de aniversário – O que impede vocês? – Cátia falava alto por natureza, desviei os olhos por poucos segundos para reparar que ela falava olhando pra mim e depois para William sentado à frente dela no bar que eu tinha reservado.
— Como assim? – William ria, seu tom de voz parecia nervoso, mesmo sem olhar para ele, sabia que ele me olhava.
— Não se faça de sonso! Você e a Pri! O que impede vocês? Puta que pariu, casal lindo demais, não entendo esse cu doce… – Cátia quase gritava, por sorte o bar estava lotado o suficiente para que só alguém com ouvido muito bom e atenção refinada escutasse aquela conversa particular.
— É bem complicado… – William disse rindo sem graça – A Pri é uma grande amiga…
— Foda-se! – Cátia ria – Ter amizade é ainda melhor, não é, amor? – ela falava com seu marido, resolvi mudar de lugar, cumprimentar outras pessoas, um pouco longe daquele constrangimento.
— Tá tudo bem? – perguntei para Nina que tinha uma expressão um pouco séria.
— Estaria se você não tivesse convidado ele, né? – Nina olhou para William na outra ponta da grande mesa que tinha fechado.
— Ele é meu amigo, Nina, não podia deixar de convidar… – William estava tão certo, era tão mais complicado do que as pessoas poderiam imaginar – Mas, ei! Achei que estava aqui por mim, ignora ele, foca nessa bela mulher que está na sua frente, no caso, eu! – ela gargalhou e eu respirei aliviada.
— Tão bela que se você me desse uma chance, eu não hesitaria… – tínhamos nossas brincadeiras.
— Vai dormir lá em casa hoje? – perguntei maliciosa, mas brincando e caímos na gargalhada de novo.
A noite corria, eu deveria ser uma boa anfitriã, mas não queria me aproximar de William enquanto ele estivesse perto de Cátia, sabia que teria que escutar algumas coisas. Respirei fundo e levantei da cadeira que estava, fui até a ponta da mesa e me sentei ao lado de William que me abraçou pelo ombro e me deu um beijo na bochecha, depois bagunçou meu cabelo.
— Perdeu a noção? – perguntei rindo.
— Pri! – Cátia chamava minha atenção e meu coração pulava – Tava aqui falando com o William, porque vocês ficam de cu doce? – senti que William tirou sua mão do meu ombro e eu me percebi me afastando alguns centímetros dele.
— Cu doce com o quê? Tá maluca, já? – ria de nervoso e Cátia revirou os olhos.
— Vocês se gostam, têm uma química que dá inveja, tá nos olhares, em tudo e eu não entendo por que vocês ainda não assumiram alguma coisa, ou sequer ficaram!
— Cá, amor… Não se intrometa… – Leandro era seu marido, e ele talvez tivesse percebido o desconforto que Cátia me causava.
— Somos bons amigos, isso basta… – William respondeu o que estava na ponta da minha língua.
— Basta mesmo? A tensão sexual acumulada aí poderia gerar energia pra um país todo! – Cátia não tinha filtro, era uma das coisas que amava e odiava nela.
— Você bebeu demais, né? Espero que saiba que cada um paga a sua conta, hoje! – fui salva no momento certo por um amigo que me chamava para a outra ponta da mesa.”
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O dia rendeu uma caminhada longa, mas divertida, com várias paradas para fotos, algumas lágrimas que eu deixava rolar pelo meu rosto, emocionada demais por estar no lugar que sempre sonhei estar, um pouco mais velha do que o planejado, mas ainda era mágico.
— Agora um bom banho e descanso! – Caio disse entrando no quarto do hotel que estávamos – Quer me acompanhar? – ele sorria pervertido, mas algo em meu peito apontou de novo.
— Mais tarde, andei tanto que nem me aguento em pé… – consegui disfarçar, Caio riu e deu uma piscadinha pra mim antes de entrar no banheiro.
Peguei meu celular na bolsa e comecei a mexer nas redes sociais, tinha tantas fotos para editar antes de postar, mas fui pega de surpresa por uma conversa de um número desconhecido no Whatsapp.
“Que loucura, Pri! Tantos anos e fomos nos encontrar justo na Disney!”
William ainda tinha meu contato, senti meu coração bater muito forte, olhei para a porta do banheiro fechada, não estava fazendo nada de errado, mas por que me sentia como se estivesse?
“Doideira!”
Respondi e observei enquanto ele digitava, segundos depois de já ter visualizado a conversa.
“Você tá bem? Quanto tempo! Cada dia mais bonita, tá fazendo plástica, é?”
William tinha um senso de humor que eu gostava, o mesmo senso de humor de Caio, mas com Caio eu me sentia um pouco diferente, um pouco mais contida.
“Não, mas você deveria fazer!”
Me sentia como anos atrás, as piadas, os trocadilhos, a conexão. Percebi que William digitava e ficou digitando por um tempo, as batidas no meu peito aumentavam, nenhum texto aparecia na tela e eu olhava sem parar para o celular.
— Pode ir, Pri! – quase pulei de susto na cama quando ouvi Caio atrás de mim falando que eu já poderia tomar banho – Eita! Tava fazendo o que pra estar tão distraída assim? – ele riu e eu bloqueei a tela do meu celular na mesma hora.
— Editando fotos. – menti, não mentia para Caio, não sabia por que estava agindo daquele jeito – São lugares tão lindos que eu estava só presa nas lembranças do dia… – talvez ele acreditasse, não era tudo inverdade.
— Verdade! – ele pegava uma calça na mala, estava de toalha na cintura.
— Vou tomar meu banho! – disse levantando do colchão e senti meu braço esquerdo sendo puxado, senti um incômodo, mas virei e vi Caio me puxando para me dar um beijo – Já volto… – disse e corri para me trancar no banheiro, liguei o chuveiro para fazer barulho e desbloqueei a tela do celular.
“Pri… Tava lembrando a última vez que nos vimos…”
Depois de tanto tempo digitando alguma coisa, William só conseguiu me mandar aquela frase.
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“Esperava por William em casa, ele me buscaria, almoçaríamos em sua casa, depois iríamos para o treino de vôlei da atlética dele. Esperava em frente ao meu prédio, estava tão perdida mexendo no celular que até me assustei quando ele buzinou.
— Puta susto! – disse quase caindo pra trás.
— Vamos logo! – ele dizia de dentro do carro e sorria, sentei no banco do carona, dei um beijo na bochecha dele e seguimos nosso caminho.
— Escuta, minha mãe tá em casa, e ela perguntou se você come carne e batata frita, se não vai achar simples demais…
— Você me respeita, William! – disse rindo – Você fala de um jeito que parece que eu sou, sei lá, uma patricinha rica e nojenta!
— Patricinha você é! – bati em seu braço – Mas eu já me adiantei e disse pra ela que você só tem cara de metida, que de resto é mais povão que a gente…
— Escuta aqui! – ele ria.
— Pri, você sabe que não estou mentindo… – bati em seu braço de novo – Não sei por que largou o vôlei, ainda dá uns tapinhas bem fortes, imagina na quadra!
Tudo era uma mistura de sentimentos com William, era leve, mas nós dois sentíamos a tensão que tentávamos esconder, sem muito êxito. Não foi diferente quando chegamos em sua casa, quando sua mãe me recebeu com um abraço caloroso, como sorria ao me ver.
— William nunca traz as amigas dele aqui! – aquela frase tinha tantos significados que eu não sabia o que responder.
— É porque ele me trata como homem. – disse brincando.
— Que calúnia! – William protestou – Como vou tratar você como homem se você se veste e anda que nem a Barbie?
— Você é linda, querida! – a mãe de William estava em êxtase e eu não fazia ideia do que William tinha comentado com ela sobre mim.
— Obrigada, são seus olhos… – disse tímida, nervosa e sem jeito.
— Vamos almoçar! – ela nos levou até a mesa na cozinha, colocou as panelas nos suportes e nos servimos, o almoço foi leve, cheio de risadas, mas a tensão estava ali, naquela hora acompanhada de uma terceira pessoa.
— Deixa que eu lavo a louça… – me prontifiquei assim que terminamos.
— Mas é claro que não, querida! – A mãe de William logo se apressou em recolher tudo e levar para a pia – Fiquem à vontade, tá? – eu percebi a intensidade daquela pergunta, que só piorou quando a mulher aumentou o som do rádio assim que William me levou para seu quarto.
— Minha mãe é doida… – ele riu nervoso, William também percebeu a segunda intenção de sua mãe – Bom, eu tenho que terminar um projeto, já tô no finalzinho, aguenta esperar?
— Óbvio! – disse rindo e olhei para a parede de seu quarto, decorada com coisas de seus filmes favoritos – Posso tocar? – disse reparando no violão.
— Por favor! Uma música decente para os meus ouvidos sofredores! – ele disse apontando para fora do quarto, então se levantou e fechou a porta para o som do rádio ficar mais baixo, não tinha ideia de como a mãe dele interpretaria aquele gesto, mas resolvi não pensar a respeito, peguei o violão, toquei algumas notas.
— Pera aí, Pri, deixa eu te mostrar uma coisa hilária! – William me chamou para olhar para uma das três telas de computador que ele tinha, era um vídeo, ele sempre me mostrava coisas hilárias.
Rimos com o vídeo, começamos a conversar, o violão ficou de lado e então William se levantou e sentou do meu lado na cama, estava próximo o suficiente para gerar um silêncio assustador, ele me olhava sorrindo.
— Terminou? – perguntei como um sussurro.
— Sim! Bora? – talvez ele tenha percebido minha tensão nos músculos e mudou de assunto, calçou seus tênis esportivos e pegou, do lado da cama, sua mochila de treino.
William era muito bom no vôlei, não era à toa que nos jogos da faculdade, o time masculino de vôlei da sua atlética estava em primeiro lugar. O observava dando pancadas na bola como se não fossem nada, pulando e ficando mais alto que a rede que o separava do outro time montado para treino.
— Pri! – ele gritou da quadra, eu estava na arquibancada daquele pequeno ginásio, então ele saiu correndo e veio até a minha direção, quase no topo dos lugares reservados para a plateia, William pingava de suor, mas sorria, aquilo o deixava atraente – As meninas estão perguntando se você não quer jogar um pouco? O treino mesmo acabou, a galera só vai brincar agora…
— Olha pra minha roupa e veja se eu estou em condição de jogar? – ele riu – E outra, eu sou de outra atlética, isso seria compactuar com o inimigo…
— Que eu saiba, vocês estão na segunda divisão… – fingi espanto e indignação abrindo minha boca e colocando a mão no peito – Vem, só uma partida!
— Tô bem de boa, William… – estava sendo sincera – Vai lá, curte agora que você já deu a alma treinando…
— Posso? – ele perguntou inocentemente, uma pergunta carregada de coisas não ditas, não nomeadas.
— E por que não poderia, ué? – dei uma risadinha.
— Às vezes você tá cansada e não quer mais ver o jogo… – ele fez parecer óbvio.
— Vai, depois você me paga um doce, o que acha? – ele sorriu e voltou correndo pra quadra.
— A namoradinha liberou? – um dos amigos de William perguntou baixo, mas a quadra fazia eco, fingi não escutar e não ver quando William olhou para ele o repreendendo.
William jogou, estava mais leve do que no treino de fato, mas ainda dava pancadas na bola que eu tinha certeza de que a pessoa que recebia as boladas estava com muita dor nos braços. Acabada a brincadeira, William correu para o vestiário, voltou de lá com o cabelo molhado, provavelmente tomou uma ducha e subiu até onde eu estava.
— Bora? – ele me chamou, estava perfumado, eu amava aquele perfume dele.
— Bora! – respondi pegando minha bolsa e o acompanhando.
— Pri, posso te perguntar uma coisa? – ele parou no meio do caminho, meu coração acelerou sem eu saber o motivo.
— Até duas… – o olhava nos olhos, ele coçou o cabelo, sem jeito e se sentou no banco da praça que estávamos passando, meu coração acelerou mais ainda.
— É sobre a Nina… – não sabia definir o que sentia naquele momento.
— O que tem a Nina? – me sentei ao lado dele.
— Seja sincera, tá bom? Ela tem alguma coisa contra mim? Porque teve uma época, você sabe, ela era super de boa comigo, mas do nada ela ficou seca, arisca, não posso chegar perto dela que vejo os olhos dela revirando e nem é no bom sentido! – não evitei rir.
— Vou te responder com outra pergunta… – respirei fundo – Alguma vez, você sentiu interesse nela?
— Como assim?
— Você sabe, William… – revirei os olhos – De querer ficar com ela, sei lá, teve uma época que eu sentia um clima entre vocês dois…
— O quê?! – ele pareceu surpreso – Meu Deus, não! Quero dizer, ela é linda, mas não, eu não tive interesse nela, por que dessa pergunta? Ela tá interessada em mim?!
— E se estiver? – não sabia se queria escutar a resposta.
— Bom, eu… Eu não sei… – ele coçou o cabelo de novo e olhou para frente – É por isso que ela está seca comigo? Isso não faz nem sentido!
— William… – eu sabia o que se passava na cabeça da Nina – Olha, promete que essa conversa morre aqui?
— Que conversa? – ele piscou com um olho só.
— Não sei em que momento você conseguiu deixar a Nina encantada, não é difícil imaginar vários momentos, já que você é sempre muito carinhoso com as mulheres… – ele riu tímido – Mas é que a Nina interpretou de um jeito diferente e quando você não fez nada… Bom, ela ficou meio brava, porque na cabeça dela você estava muito afim…
— Mas eu dei a entender que estava interessado nela?
— Não sei, acho que foi seu jeito mesmo…
— Com quem eu me interesso eu não ajo assim, não, eu fico até… Perdido… Tentando fazer tudo parecer normal… Entende? – ele me olhou profundamente nos olhos, se aproximou involuntariamente.
— Entendo… – minha fala quase não saiu – Mas… – me afastei um pouco – A Nina cria um mundo na cabeça dela… Eu vou falar com ela…
— Nossa, fala sim, eu não tive a intenção de deixar ela desse jeito… Ia ficar um clima mais estranho ainda se… – ele parou de falar.
— Se? – no fundo eu sabia a hipótese que ele criava na cabeça.
— Se tivermos que conviver mais vezes e… E ela continuar me olhando como se quisesse que eu evaporasse… – sua risadinha era de nervoso.
— Vou falar com ela, mas não garanto nem prometo nada, tá? Nina é bem persistente quando quer…
— Bom, de todo jeito, quando tiver a oportunidade, eu mesmo falo com ela também… Com você por perto, né, vai que ela me mata mesmo… – rimos juntos e o silêncio voltou – Vamos, vou te comprar um doce… – William se levantou e estendeu a mão pra mim.
— Não sendo sorvete… – disse aceitando a ajuda pra levantar.
— Você que lute, Pri, tá um calor desgramado! – o olhei com raiva, mas sabia que ele me levaria para uma sorveteria.
— Tudo bem, só não pega de chocolate, tá? – caminhávamos para o carro dele.
— Qual a sua pira com sorvete de chocolate? – ele erguia uma sobrancelha, fiquei na ponta dos pés e disse o motivo no ouvido dele – Ah, Priscila!! Que nojo!! – eu não conseguia parar de rir – Nunca mais vou comer isso, agora!
— De nada! – ele me olhava indignado e eu só ria.
— Se me falou isso pra gente ir pra outro lugar, é agora que vamos pra sorveteria! – ele ligou o carro e me olhou – Sua estranha! – ele sorriu e seguimos para o lugar que eu menos frequentava na vida.”
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“Me diz uma coisa, você tá bem? Tá feliz?”
Ele mandou a mensagem logo em seguida, na certa esperava por uma resposta minha e pela minha ausência de digitação, ele perguntou algo que tinha muitos significados. Vi aquela mensagem pela barra de notificação, resolvi entrar no chuveiro, já tinha gastado água demais, meu lado ambientalista estava falando mais alto. Bloqueei a tela e corri para uma ducha gelada, fazia muito calor em Orlando.
Estava me enxugando no banheiro, vestindo um vestidinho leve quando esbarrei na mochila de produtos para a barba de Caio, ela caiu no tapete felpudo, não fez um barulho alto e eu corri para juntar tudo antes que descobrisse que tinha quebrado algum vidro, foi quando vi uma caixinha preta no meio daquelas coisas. Minha curiosidade falava alto, mas resolvi guardar tudo como havia encontrado e fingir que não era nada demais.
Meu coração estava na boca, meu estômago revirava, peguei o celular e lembrei da mensagem de William, minha cabeça começou a doer e eu só queria chorar, mas não entendia o motivo. Deveria estar bem, realizada e feliz, não?
“Pri… E a viagem como tá sendo?!”
Lara me mandava mensagem, ela era uma das minhas melhores amigas, estava sempre comigo, era a pessoa que sabia de absolutamente tudo da minha vida, talvez a única, a pessoa com quem eu poderia ser sincera sem nenhum medo ou remorso.
“Duas coisas… Lembra do William?”
Lara digitava.
“Por que tá ressuscitando os mortos? Qual é a segunda coisa?”
— Pri? – Caio me chamava do quarto – Tá viva, minha linda?
— Tô! – respondi bloqueando o celular – Skincare! – aquelas mentiras estavam me matando por dentro.
Me apressei em guardar tudo, secar o cabelo e voltar para o quarto que estava escurecido pela cortina fechada, apenas o brilho da TV trazia uma baixa luminosidade. Caio estava deitado em três travesseiros e eu me deitei ao lado dele, o abracei com força, sentia que precisava fazer aquilo.
— Tudo bem? – ele perguntou preocupado, eu não era muito de fazer aquilo.
— Cansada, que tal um cochilo e a gente depois desce pra jantar? – ainda o abraçava com força, senti que ele começou a acariciar meu cabelo.
— Ótima ideia… – ele beijou o topo da minha cabeça e ficou fazendo cafuné em mim, até que apaguei.
Já era de noite quando acordei e vi Caio esparramado na cama, ainda sonolenta peguei meu celular, tinha tantas mensagens que senti minha cabeça latejando de novo.
“Sua ridícula, não me manda mensagem se vai sumir e me deixar curiosa!”
Era a última mensagem de Lara, depois de tantas outras que ela mandou me xingando.
“Encontrei com William aqui, acredita?”
William não tinha mandado mais nada depois da pergunta se eu estava feliz, entrei em sua conversa e vi que ele estava online.
“Por que da pergunta?”
Mandei outra pergunta para ele, que visualizou na hora e já digitava, mais que depressa saí da conversa e voltei a falar com Lara.
“Por que sinto que tem muito mais coisa do que você está me dizendo?”
Lara me conhecia pelo tom de digitação que eu usava, era tão bizarro e assustador, mas tão comum para nós duas.
“Porque talvez tenha… Você falou com o Caio, ou vice versa?”
William tinha me mandado mensagem, não sabia se estava pronta para visualizar.
“Sobre o que eu ia falar com o Caio, mulher?”
Lara sabia muito bem, ela só queria manter a surpresa que eu já tinha estragado sem que ninguém soubesse.
“Não sei, mas se falar, eu quero que saiba que não tô bem pra algumas coisas…”
Esperava que Lara entendesse a mensagem subentendida.
“Quer falar sobre? Tá assim desde quando? Foi depois de ver o…”
— Que horas são? – Caio bocejava e se espreguiçava na cama.
— Oito… – disse sorrindo e bloqueando a tela do celular.
— Tá acordada faz tempo? – ele abraçou minha perna e eu passei a mão em sua cabeça.
— Não… – precisava focar em Caio, não podia me perder em devaneios do passado, não podia encarar o passado.
— Quer jantar ou pedir comida aqui no quarto?
— Podíamos descer, o que acha? – Caio me olhou sorrindo, era naquele sorriso que precisava me concentrar.
— Tá, mais cinco minutos… – ele deitou a cabeça na minha perna e era minha vez de fazer um cafuné nele.
+++
“Era como um encontro, sabia que sim, mas estava preocupada com tantas coisas. Nina, como ela reagiria se alguma coisa acontecesse? E como seria no ano seguinte quando eu voltasse para casa? Como seria? Estragaríamos a amizade? Pensava em tudo e olhava para o relógio, esperava sozinha sentada no banco do shopping.
18h30.
Tudo bem, eu estava adiantada, meu estômago revirava, aquele pedido de ‘vamos jantar antes do filme’ me pareceu cheio de terceiras intenções e eu não sabia como reagir, mas resolvi encarar de frente e dizer ‘sim’, depois me preocupava com tudo, mas o depois já tinha chegado, bem antes da hora, muito antes de William resolver aparecer para o jantar.
19h.
Minha barriga roncava, não sabia se era de nervoso ou de fome, talvez uma mistura dos dois.
‘William? Tá chegando?’
Mandei a mensagem, ele nem sequer recebeu, estava sem internet e eu começava a me preocupar.
19h30.
Aquilo já estava me irritando. Não estava acreditando que ele foi capaz de fazer aquilo comigo.
‘William?’
Mandei a mensagem e queria que ele percebesse toda a minha irritação por trás do nome dele digitado.
‘A sessão é às 20h30, você tá bem, vai vir?’
Reli a conversa, procurando alguma mensagem que me diria o motivo do atraso dele, se era eu que estava imaginando que tínhamos marcado de jantar antes de assistir o filme, mas estava tudo ali no celular, tudo o que dizia que eu estava certa e William estava sumido.
20h15.
Já estava sendo feita de palhaça. Com fome e com raiva, subi para a praça de alimentação, não o esperei para comprar um lanche e comer sozinha, os ingressos estavam na minha bolsa e naquela hora eu só queria jogar fora e voltar para casa.
— Ei! – William estava na minha frente, tinha ido me sentar em frente ao cinema, mas na verdade queria estar em casa.
— O que aconteceu? – perguntei preocupada e com raiva.
— Happy hour da firma, um colega vai sair e a gente deu uma festinha pra ele! – ele falava animado, mas só me irritou mais ainda.
— E você não podia ter me avisado? Achei que íamos jantar juntos. – não era uma cobrança, não no sentido de relacionamento, eu gostava de ser avisada de qualquer coisa, de qualquer pessoa que marcava um compromisso.
— Desculpa! Fiquei sem bateria! – típico – Já comeu então? Bora pro filme? – se eu tivesse laser nos olhos, William já estaria em outro plano espiritual.
— Fiquei preocupada. – estava mais arisca que Nina era com ele.
— Desculpa, Pri! – ele me abraçou e eu só queria ficar longe dele – Te pago um doce!
— Não, obrigada. – caminhei para o cinema e William me seguiu.
— Ei, Pri, desculpa, de verdade…
— Tudo bem. – não estava nada bem, mas entendi aquilo como o sinal que eu tanto pedia, usei da falta de compromisso dele para decidir me afastar de uma vez por todas. Que cabimento teria deixar rolar alguma coisa com William? E Nina? E como ficaria uma possível relação?
Percebi o clichê na sala de cinema, não era um filme romântico, mas William fez questão de tentar uma aproximação, tentou segurar minha mão e eu me movi, me sentei um pouco afastada, depois percebi quando ele fingiu se espreguiçar e eu me movi de novo para mostrá-lo o quão desconfortável eu estava. Ele com certeza percebeu, mas não falou nada e isso que nos consumiu: a ausência de diálogo.
Ele me deu carona até o apartamento, fez questão de subir comigo e o silêncio estava no ar, não era um silêncio como os outros, era um pouco incomodado, um pouco envergonhado. Não sabia como agir, me via na frente de William e me sentia como se tivéssemos acabado de nos conhecer, aquele momento em que ainda somos completos estranhos, mas talvez, fosse o melhor para nós dois, esquecer tudo e sermos apenas conhecidos.
— Peguei uma coisa pra você… – ele disse depois de um tempo insuportável de silêncio, o olhei confusa e ele me entregou os óculos 3D do filme.
— Você roubou?! – em outras circunstâncias, aquele gesto teria sido hilário, nos renderia risadas, teorias e muita conversa, mas eu queria pôr um ponto final em tudo.
— Você fica estilosa neles! – ele riu, mas viu minha expressão indignada.
— Não devia ter feito isso.
— Por quê? – ele estava sério também.
— É errado.
— Pri… O que aconteceu? Tá agindo que nem a Nina! – eu estava e a Nina era um dos motivos. William se aproximou de mim, foi a aproximação mais intensa que tivemos, sentia sua respiração no meu rosto, o sentia segurando meu braço de leve, olhava para ele, tão perto, só mais alguns centímetros e não teria mais nenhum ponto final.
— Tá… Tá tarde… – não sei de onde tirei forças para me afastar dele e segurar o choro – Melhor você ir… – William me olhava sério, talvez desapontado.
— É isso que quer? – mais perguntas com zilhões de significados.
— É. – disse rápido, estava com a voz embargada, corri pra porta do apartamento e a abri.
— Tudo bem… – ele disse colocando os óculos 3D na minha estante simplória com livros, se dirigiu para a porta, mas ainda teríamos que nos encarar até o térreo, os convidados não podiam transitar pelo prédio sem o morador – Desculpa de novo, mas muito obrigada por hoje… – soava como uma despedida e era.
— Tudo bem… – ele me abraçou com força, consegui retribuir ao abraço na mesma intensidade e tive que juntar forças de novo para me afastar – Me avisa quando chegar em casa. – era um último pedido.
— Fica bem, Pri… – o vi entrando no carro, corri para o elevador, corri para o apartamento e pude, enfim, chorar sem que ninguém visse.”
+++
Quando varremos a poeira para debaixo do tapete, não a eliminamos de fato. Quando armazenamos o passado em uma caixa escondida e trancafiada, não significa que ele deixou de existir. Um dia vão encontrá-lo, vão abrir a caixa, vão liberar tudo o que tem lá dentro e por mais que falemos que estamos prontos para isso, que trabalhamos nosso psicológico, no fundo, na verdade, na superfície mesmo, não estamos.
O passado me cutucava e me machucava de uma maneira assustadora e eu já devia saber lidar com isso, devia estar rindo da situação, mas na realidade, me sentia incompleta, me sentia no automático, sabia, infelizmente, o porquê.
“Eu queria falar com você Pri…”
William me mandou a mensagem e eu tinha visualizado.
“Sobre?”
Eu sabia o assunto, tinha medo da resposta.
“Acho que você sabe… Vi pelos stories que tá no mesmo hotel que eu, coincidência, né?”
Seria coincidência se eu não acreditasse em outras coisas. O passado queria uma resolução, logo.
— Pri, o que foi? – Caio estava pronto para o jantar e me esperava de pé perto da porta – Você tá meio esquisita hoje, o que foi?
— Tô não! – me defendi e tentei forçar um sorriso, fingir uma paz e calmaria.
— Sei que quer me fazer acreditar nisso, mas eu te conheço tem uns anos, Pri… – Caio me pegou de surpresa, então ele fingia que acreditava quando eu fingia que estava tudo bem? – Aquele… Aquele William era mesmo só seu amigo? – ele abaixou a cabeça, estava desesperada.
— Era. – era a mais pura verdade.
— Tudo bem… – ele esboçou um sorriso – Sabe que pode me falar qualquer coisa, né? – eu queria chorar. Levantei e o abracei com força, senti que Caio estava confuso, me abraçou, mas não senti a intensidade que queria.
— Vamos comer? – perguntei engolindo o choro.
— Na verdade… Pri, eu tô com um pouco de dor de cabeça… Vai você… – eu não queria ir.
— Pedimos comida aqui, então… – corri para pegar o telefone do quarto.
— Vai, Pri… – Caio tinha um olhar entristecido, aquilo foi como uma facada no peito – Me traz um doce, tá? – ele forçou o sorriso.
— A gente pede comida aqui… – insistia, minha voz falhava.
— Quero só ficar no escuro, pra passar a dor de cabeça… – ele me deu um beijo na testa – Não come demais, senão vai ter pesadelo de noite…
— Vou num pé e volto no outro, me avisa qualquer coisinha? – ele concordou com a cabeça e eu saí do quarto.
“Tem um jardim atrás do restaurante…”
William visualizou e não respondeu. Desci o elevador segurando meu peito, ele doía como nunca e eu segurava as lágrimas que queriam cair.
Não sabia qual andar William e sua família estavam hospedados, mas ou ele correu até o jardim, ou ele estava quase no térreo, via sua silhueta iluminada pela luz que havia no espaço externo e pela lua que estava crescente.
— O que foi aquilo? – ele perguntou, tentei decifrar a mensagem, estava mais fácil do que eu poderia imaginar.
— Não sei… – respondi quase sem voz, William se aproximou de mim.
— Você tá feliz? – eu tinha que estar, tinha que responder que estava – Pri, eu…
— Você acha que teria dado certo? Acha que deveríamos ter tentado?
— Não tenho ideia, Pri, eu sei que fiquei remoendo aquela noite por muito tempo…
— Remoendo, William? Você logo se mudou pra casa de uma mulher, postou que estava casado e feliz! Eu vi aquilo e foi um baque tão forte, eu achei que tinha alguma coisa entre a gente, se tinha, por que você fez aquilo?!
— Porque eu queria te esquecer! – ele disse quase gritando. Ficamos em silêncio e eu sentia minhas bochechas úmidas – Não deu muito certo, ela era fisicamente sua cara.
— Percebi. – tentei enxugar as lágrimas – Você parece feliz, parece realizado, nunca te vi tanto tempo com uma mulher antes…
— Falando assim você até me ofende. – revirei os olhos – Eu gosto da Cris, das meninas, nos tornamos uma família…
— Isso que importa. – respirei fundo.
— E você? Tá feliz?
— William… – engoli em seco, precisava de força e voz – Preciso que me deixe ir.
— Como vou fazer isso, Pri? – ele se aproximou e também chorava.
— Aquilo foi uma história de amor que não tem mais como a gente saber se vai dar certo ou não. Me deixa ir, William, me deixa seguir em frente… – William segurou meu rosto e me deu um selinho longo. O beijo guardado por tantos anos, misturado com lágrimas e dor.
— Você me ensinou que se uma coisa é pra acontecer, vai acontecer… – ele disse se afastando – Desculpa se estava te prendendo de algum jeito, Pri, mas você também estava me prendendo, não sei como, mas estava, percebi isso quando nos encontramos aqui, no lugar mais improvável do mundo… – ele respirou fundo e tentou enxugar algumas lágrimas minhas – Estamos livres, eu acho… Até que o destino decida se vai ser pra sempre ou não… – ele me abraçou e eu retribui, doía, mas não queria soltar.
— Leva as meninas no castelo da Cinderela… – disse quando senti William se afastando, enxugava as lágrimas e segurava o soluço.
— Vai ser nosso primeiro passeio amanhã… – William estava distante e finalmente se afastaria de vez, eu podia sentir – Pri, fica bem e seja feliz, tá? A gente se encontra por aí… – ele sorriu, acenei com a mão e o vi voltar para dentro do hotel.
Peguei o celular, apaguei a conversa com ele, o deletei dos meus contatos mais uma vez, me sentia mais leve, ainda com dor, mas leve, pude sentir que finalmente poderia seguir em frente, só tinha que descobrir como, se sozinha ou acompanhada.

Excelente