Entrevista: Apollo
— Por que resolveu contar a história mesmo depois do fim das investigações? – o jornalista investigativo perguntava para Apollo sentado a sua frente na modesta sala que foi escolhida para iniciar as gravações.
— É como se… – o rapaz começou a falar e parou, olhou para a janela com o vidro fechado, mas que mesmo assim mostrava o exterior da casa, um jardim bonito que começava a ganhar mais beleza com a chegada da primavera. Apollo respirou fundo absorvendo todos os seus sentimentos e voltou a olhar para o jornalista – É como se ela estivesse me ajudando, ou pelo menos eu sinto que seria isso…
— Você se refere à Samanta? – o jornalista perguntou cautelosamente.
— Sim… – Apollo tinha lágrimas nos olhos – Bom, é estranho como tudo isso aconteceu, como tudo se desenrolou, mas alegar que ela se matou? Isso não me desce…
— Bom, eu acompanhei todo o caso, sou jornalista, e quando me ligaram para falar que você gostaria de contar a história eu me surpreendi, confesso…
— E quem não se surpreenderia? – Apollo tinha um olhar triste e baixo – Eu não acho que a Sam se matou, isso ficou muito mal contado pra mim, mas naquele momento eu não podia fazer muita coisa, estava tomado pela tristeza, muito mais do que agora, mas se tem uma coisa que a Sam sempre me disse era que, às vezes, pra gente organizar alguma ideia, é preciso escrevê-la, ou até mesmo contar, assim vai desenrolando o nó na nossa cabeça… – Apollo deu um sorriso – Bom, escrever era o dom da Sam, nem me atrevo a tentar, mas é como eu disse: sinto que ela está me ajudando de alguma forma e talvez contar o que eu penso, as minhas ideias, talvez esclareça alguma coisa ou outra…
— Como a morte dela? – o jornalista perguntou.
— Como a morte dela… – Apollo respirou fundo mais uma vez.
— Quando estiver pronto, Apollo… – o jornalista indicou que a história poderia ser contada.
— Bom, eu não sei por onde começar, mas acho válido e justo começar em dizer que a Sam era a pessoa que mais amava a vida que eu conhecia, e eu sei que tem muitos casos de pessoas com depressão que sabem disfarçar, que a gente fala que nem parecia que a pessoa estava mal, mas não é o caso da Sam. A Sam amava a vida, amava de um jeito único e foi exatamente por isso que me apaixonei por ela.
“Fizemos faculdade juntos e foi lá que nos conhecemos, ela era da minha classe, mas não da minha turma de amigos. Sam era uma pessoa que te envolvia com um simples olhar e eu, bom, eu sempre fui um cara muito quieto e tímido, fazer novos amigos para mim era uma tortura, eu nunca fui de começar amizades, mas eu olhava pra Sam nas aulas e começava a repensar meu jeito de ser, tentar criar coragem pra falar com ela.
Sei que não é muito o foco, mas é preciso falar de como a Sam sempre foi: extrovertida, dona da gargalhada mais exagerada que você pode imaginar, do entusiasmo mais acolhedor, com planos pra uma vida inteira com marido, filhos, uma família grande…”
Entrevista: Benjamin
— Cara, a Sam me irritava muitas vezes, sabe, ela era sempre muito animada demais… – Benjamin ria na sala escolhida para ser entrevistado – Quando o Apollo me ligou pra falar que ia expor as ideias dele pra um jornalista e me chamou pra ajudar eu topei na hora…
— Então concorda com Apollo que Samanta não chegaria a se suicidar? – o jornalista perguntou.
— Concordo totalmente! – Benjamin se ajeitou no sofá, respirou fundo e olhou nos olhos do jornalista – Claro que por ser irmão mais velho da Sam eu passei muito tempo da minha vida com ela, já a vi extremamente irritada, extremamente chateada, mas não a um ponto que a deixasse entrar numa depressão que poderia ser fatal pra ela, sabe…
“Ainda mais nesses últimos tempos, com as crianças… Samanta não era o tipo de pessoa que se abala fácil e que se deixa consumir por um abalo, pelo contrário, ela se chateava? Sim, óbvio, ela era humana! Se irritava? Quem não se irrita, não é mesmo? Mas não ao ponto de se matar. Todas as irritações que ela já teve, todas as chateações, coisas que a deixou pra baixo, nunca duraram mais que um dia, ou até algumas horas.
Eu, por exemplo, se algo dava errado no meu dia, já ficava mal até alguma coisa melhorar, a Sam não. Samanta em questão de horas já aparecia toda animada, com soluções para seus problemas, com novidades pra contar… Samanta era a melhor irmã do mundo…”
Entrevista: Apollo
— Desculpa, eu sempre me perco quando começo a falar da Sam… – Apollo enxugava as lágrimas em vão.
— Tudo bem, aceita um copo d’água? – o jornalista ofereceu.
— Aceito sim, obrigado… – Apollo aguardou o jornalista entregar o copo d’água para ele, depois de tomar um gole ele voltou a olhar para o exterior do vidro da janela – A gente se mudou pra cá justamente por causa do trabalho da Sam… – Apollo recomeçou sua história – Ela recebeu essa proposta muito boa e irrecusável, sempre foi muito boa no que fazia, sempre brincava com ela que ela era contadora, mas que seu hobby favorito era escrever, sabe, coisa de opostos… – Apollo deu uma risadinha.
— Ela estava trabalhando para empresa de um amigo, certo? – o jornalista fazia perguntas-chave para manter o foco da história antes que Apollo desviasse um pouco.
— Sim, Dylan sempre foi um dos melhores amigos da Sam, desde o colégio, eles foram juntos pra faculdade, ele seguiu outra área, mas sempre mantiveram essa amizade, tanto que ele chamou a Sam pra ser madrinha do casamento dele. – Apollo tomou mais um gole da água – Dylan sempre foi da classe alta, seguiu o ramo empresarial justamente pra herdar a empresa do pai dele. Ele e a Sam não se viam com frequência, até porque o Dylan morava aqui.
“A gente tinha acabado de voltar de lua de mel quando a Sam recebeu o telefonema do Dylan, isso já tem uns cinco ou seis anos. Ele conversou com ela por alguns minutos e depois ela apareceu no quarto com um sorriso de orelha a orelha e eu já sabia que ela tinha uma grande notícia pra me dar.
Como um casal recém-casado a gente ainda estava montando nossas coisas, morávamos num apartamento pequeno, mas que pra nós era suficiente, eu trabalhava num escritório, Sam trabalhava pra uma empresa pequena, nossa vida estava bem apesar de alguns apertos que passamos. Então depois da ligação do Dylan nós conversamos muito. Era uma proposta que realmente não dava pra recusar, Sam ganharia quase o triplo do que ganhava na época, foi aí que viemos pra cá.”
— Teve que sair do seu emprego? – o jornalista perguntou.
— Não, eu conversei com meus supervisores, com meu chefe, meu trabalho sempre foi muito ligado ao uso do computador, sabe, então foi tranquilo começar a fazer home office, mas foi só no início.
— Como assim?
— A Sam tinha o novo emprego dela e eu fazia home office daqui, mas claro que acabava ficando um pouco ruim pra empresa, então logo que a gente se mudou eu já comecei a procurar emprego nessa cidade, fiquei quase um ano no home office pela minha antiga empresa, mas depois achei um bom trabalho por aqui e nos estabilizamos. – Apollo falou.
Entrevista: Benjamin
— O Dylan? Eu sempre ficava de olho nele, sempre achei que ele um dia ia aparecer em casa pra pedir a Sam em namoro ou algo do tipo… – Benjamin riu – Eles sempre foram muito unidos na escola, e eu como irmão mais velho claro que ficava de olho…
— Eles já tiveram algum caso, algum namorinho? – o jornalista perguntou tentando descontrair um pouco.
— Pra você ver como as aparências enganam, não é? Dylan, pra mim, sempre foi macho, sabe, hetero, como chamam hoje em dia, por isso sempre ficava de olho porque tinha pra mim que um dia ele ia dar um bote na minha irmã… Mas não, um dia interroguei a Sam, porque eles sempre andavam juntos, sempre saíam juntos, eu fazia o papel de irmão mais velho e pai desde que perdemos nosso pai quando éramos crianças…
“Um dia ela chegou tarde, eu estava em casa, estava de férias da faculdade, voltei pra casa como sempre, e a Sam ainda estava no ensino médio. Ela chegou de madrugada em casa e eu fiquei esperando, vi que ela se despediu do Dylan na porta e entrou bem sorrateira, foi aí que peguei ela de surpresa.
Fiz um super interrogatório e no final das contas, as aparências realmente enganam. Sam começou a rir da minha atitude e ela nunca foi uma pessoa que conseguia rir baixo, ou ser discreta, então ela gargalhou alto e eu, sem entender nada, já comecei a ficar irritado, quando ela se acalmou e me levou pro sofá pra que eu sentasse, ela revelou que o Dylan era o mais assumido dos gays que ela conhecida.”
— Imagino que deve ter sido um pouco chocante pra você… – o jornalista falou sorrindo.
— Um pouco? Completamente! – Benjamin riu – Depois do casamento dela com Apollo, numa reunião de família na casa de nossa mãe, ela falou que Dylan tinha ligado pra ela e que por isso ela e o Apollo se mudariam de cidade.
Entrevista: Apollo
— Você chegou a acreditar, por um momento que fosse, que a Samanta tinha cometido suicídio? – o jornalista falava pausadamente, era uma parte da história ainda não totalmente cicatrizada em Apollo.
— Acho que só no momento da notícia, no momento que acharam o corpo… – Apollo não olhava para o rapaz, olhava para o chão e seu rosto estava encharcado de lágrimas.
— Foi um espaço de dez dias, certo?
— Foi, entre o desaparecimento dela e acharem o corpo…
— E quando decretaram que foi suicídio? – o jornalista perguntou.
— Não deu três semanas de investigações, foi rápido, foi estranho, eles apenas encerraram o caso e contaram pra família que a causa foi suicídio…
— Mas tinham argumentos para isso, não tinham?
— Como eu disse, na hora, quando a gente achou a Sam, quando tudo veio como uma bomba, até podia fazer um mínimo de sentido, mas depois que a gente esfria a cabeça, começa a pensar, as investigações em funcionamento… – Apollo voltou a olhar para a janela – O laudo não pareceu mais fazer sentido, parecia muito incoerente e quando eu quis aprofundar mais as investigações, quando insisti pra continuarem, eles fecharam o caso.
— Alegando que ela tinha se matado… – o jornalista completou o raciocínio de Apollo.
— Exatamente.
Entrevista: Eleanor
— Eu e Ben estávamos lá no dia que ela desapareceu… – Eleanor falava baixo, o jornalista se aproximava um pouco com a cabeça para escutá-la melhor.
— Foi uma viagem de passeio?
— Foi, a gente já tinha combinado de passar o feriado com eles, minhas meninas estavam morrendo de saudade das priminhas, Ben e eu também, já era um planejamento conjunto…
— E naquela hora, você estava na casa sozinha com a Samanta?
— Ben e Apollo tinham saído pro mercado, não era muito de noite, devia ser umas 18h30 se não me engano, mas já estava escurecendo mais rápido, eu estava com a Sam, as meninas estavam todas brincando no quarto de brinquedos… – Eleanor começou a falar um pouco mais alto – Eu estava ajudando a Sam a fazer o jantar, até que ela disse que iria tomar um banho e subiu. Depois de uns cinco minutos, eu acho, eu ouvi o celular dela tocar e pouquíssimo tempo depois ela desceu correndo pela escada, pegou a bolsa e saiu de casa…
— Ela avisou alguma coisa antes de sair?
— Não, e eu achei bem estranho, fiquei até assustada… – Eleanor tinha um olhar fixo para frente – Os rapazes voltaram cerca de uns cinco minutos depois que a Sam saiu de casa, eu contei pra eles o que aconteceu, Apollo na mesma hora ligou no celular dela, mas ela não atendia, então só nos restava esperar que ela voltasse…
— E ela não voltou… – o jornalista viu o olhar fixo de Eleanor se encher de água.
— Não…
Entrevista: Apollo
— Naquela hora você tinha alguma ideia do que poderia ter levado a Samanta a sair de casa daquele jeito e não voltar? – o jornalista perguntou.
— Nenhuma, até pensei que seria urgência de trabalho, mas era feriado, Dylan sempre foi muito flexível com a Sam justamente por serem grandes amigos…
“Quando eu e Ben voltamos do mercado e entramos em casa, Eleanor estava séria e com um olhar assustado, na mesma hora pensei que tinha acontecido alguma coisa com as crianças, mas dava pra escutar elas brincando ali na sala ao lado. Foi então que ela disse que a Sam tinha subido pra tomar banho, recebeu uma ligação e depois saiu correndo de casa.
A gente esperou horas e horas, eu liguei pra Sam na mesma hora, mas ela não atendia nem retornava as ligações. Foram horas intermináveis, ninguém lá em casa conseguia fazer nada, tentamos distrair as crianças, porque não sabíamos o que estava acontecendo… Já era de madrugada quando eu resolvi ir até a delegacia, sabia que registrar desaparecimento tinha que esperar um prazo de 24h, mas aquela situação estava estranha, a Sam sempre foi muito espontânea e às vezes impulsiva, mas deixar a casa daquele jeito no feriado, com visita? Não era típico dela.”
— Como era de se esperar o delegado de plantão disse que só podíamos relatar um desaparecimento depois de 24h, e aí a gente esperou torcendo pra que a Sam voltasse antes daquilo e explicasse pra gente o que estava acontecendo… – Apollo falava.
Entrevista: Investigadora Rachel Rodriguez
— O delegado passou o caso pra mim assim que o desaparecimento completou 24h. Parecia, e eu não acho que tenha sido diferente, que eles ficaram esperando por Samanta e também para dar o horário certo de fazer o boletim de ocorrência… – Rachel Rodriguez falava de uma sala do departamento de polícia em um horário não tão movimentado.
— Eles ligaram? – o jornalista perguntou.
— Ligaram na mesma hora que os horários bateram e pouco tempo depois Apollo já estava registrando oficialmente o desaparecimento de Samanta. E aí começamos o processo de investigação do desaparecimento, fizemos o boletim, o caso foi transferido pra mim e eu comecei interrogando Apollo.
“Ele estava transtornado, aparentemente não tinha pregado o olho, tinha olheiras enormes e quase implorava pra que ajudássemos a achar sua mulher. Depois que ele se acalmou um pouco eu comecei meu trabalho de fazer perguntas, de saber detalhes, quase parecido com o que você faz, não é? Claro que mais afundo, porque no momento que a gente tem o registro de desaparecimento, todo mundo pode ser um suspeito e eu já vi muita coisa nesses anos de profissão, já vi muito marido se tornar um belo ator pra acobertar um crime hediondo.”
— Apollo, então, passou a ser suspeito? – o jornalista perguntou curioso.
— Claro, todos que tiveram convívio com Samanta eram suspeitos até que se provasse o contrário.
— E no caso de Apollo, se provou?
— Por enquanto, sim. – Rachel Rodriguez disse com seu tom profissional.
Entrevista: Apollo
— Eu sabia que ela estava fazendo o trabalho dela, mas foi um baque pra mim ser identificado como suspeito, já tinha toda a tensão da Sam sumir sem avisar nada, sumir de um jeito que não condizia com as atitudes dela, tinha meu cunhado e a esposa dele lá em casa, minhas filhas, as filhas deles, parecia tão absurdo ser suspeito…
— Como notou que passou a ser um suspeito?
— A investigadora Rodriguez começou a fazer perguntas e mais perguntas e num momento eu percebi que era como se ela estivesse perguntando as coisas pra um criminoso. – Apollo falava – Foi quando eu comecei a falar que jamais faria alguma coisa pra minha mulher, que eu não era o culpado…
— Ela interrogou todos depois?
— Todos, até mesmo as crianças mais velhas, as filhas do Ben e da Eleanor, achei um pouco exagerado, mas era o trabalho dela.
— E suas filhas? – o jornalista perguntou.
— O que duas crianças de quase três anos poderiam saber? Claro que achei exagerado ela interrogar Melissa e Gabriella, mas elas são maiorzinhas, Mel tem sete e Gabriella oito…
— Paralelo a isso você fazia suas investigações pessoais?
— Fazia, claro, eu ligava toda hora pra Sam, sem resposta, tentei perguntar nos principais lugares que ela sempre ia, na padaria, na mercearia perto de casa, comecei a ligar em hospitais… Benjamin e Eleanor até estenderam a hospedagem deles do feriado, estavam me ajudando tanto a tentar achar a Sam quanto a cuidar das crianças. Minha sogra veio assim que ligamos pra ela, minha mãe também veio… Minha casa acabou virando uma espécie de quartel general das investigações que eu tentava fazer.
— Chegou a falar com Dylan?
— Claro, no segundo dia sem respostas eu liguei pra ele, perguntei se ele tinha falado com ela nos últimos dias, se tinha acontecido alguma coisa na empresa, mas ele negou as duas coisas, coloquei ele a par da situação e ele até começou a ajudar na procura da Sam.
Entrevista: Investigadora Rachel Rodriguez
— A gente não tinha um ponto específico e sólido para começar, mas depois dos interrogatórios coloquei minha equipe nas ruas à procura de pontos que poderiam ser chaves: o carro de Samanta, rastreamento do celular, câmeras de seguranças dos lugares próximos que ela poderia ter passado naquela noite.
— Isso já tinha quanto tempo que ela estava desaparecida? – o jornalista fazia suas perguntas-chaves.
— Cinco dias. No sexto dia achamos o carro dela. Estava em um estacionamento particular, começamos a investigar a área, traçamos um perímetro para tentar marcar os possíveis passos dela a partir do carro.
“As câmeras de segurança das ruas que ligavam a casa de Samantha até o estacionamento, não revelaram nada, inclusive a do próprio estacionamento não nos dava uma visão boa para investigar alguma coisa, estava virada para um ponto cego, não sabíamos se já estava daquele jeito a tempos ou se naquela noite ela foi virada.
O estacionamento tinha dois andares fechados e um último que estava aberto e foi nesse último andar que encontramos o carro de Samanta, estava fechado, nenhum sinal de arrombamento, ao falarmos com o dono do prédio ele disse que a estadia do carro já estava paga pelo mês.”
— O que levaria Samanta a deixar o carro em um estacionamento particular e deixá-lo lá por tanto tempo? – o jornalista se ajeitava na cadeira, seu entusiasmo de profissão estava aflorado e desesperado por alguma resposta.
— Conheço esse olhar, senhor Linus… – a investigadora sorriu e ergueu uma sobrancelha se deliciando com o momento – Foi esse olhar, esse sentimento que me levou para a carreira policial e investigativa.
— São trabalhos parecidos, confesso… – Linus respondeu sorrindo um pouco sem jeito.
— Mas respondendo sua pergunta, até aquele momento não sabíamos o porquê Samanta teria feito aquilo, mas não precisamos de muito mais tempo para que eu e minha equipe ficássemos ainda mais intrigados, perto do carro, achamos uma pulseira de ouro, depois que falamos com a família, Apollo me disse que a pulseira era de Samanta.
Entrevista: Apollo
— Tinha dado aquela pulseira pra ela quando a pedi em namoro oficialmente… – Apollo tinha em suas mãos um porta-retratos com uma foto de Samanta ainda na época da faculdade – Era simples, mas ela aceitou como se fosse o maior e mais precioso tesouro do mundo e desde então nunca tirou pra nada, nem mesmo no parto das gêmeas…
— Quando a investigadora Rachel Rodriguez te informou da pulseira, o que se passou pela sua cabeça?
— Tantas coisas… Ainda mais que tinham achado o carro dela, que descobrimos que o estacionamento já estava pago por um mês… Naquele dia eu pensava em muitas coisas, e em muitas coisas horríveis que poderiam estar acontecendo com ela.
— Por quê?
— Bom, aí que está o início da minha desconfiança com o futuro laudo da polícia de que ela se matou. – Apollo respirou fundo – A pulseira no chão do estacionamento poderia ter representado muitas coisas, poderia sim ter representado que ela resolveu deixá-la pra trás, que caiu, ou algo do tipo, não fosse por um detalhe?
— Qual?
— O fecho estava estourado. A pulseira, com toda a minha certeza, foi arrancada a força do braço dela. – Apollo olhava para a foto da falecida esposa.
Entrevista: Investigadora Rachel Rodriguez
— O estacionamento ficava numa área que Samanta costumava frequentar, o prédio da empresa que ela trabalhava ficava a cerca de três quadras de lá, passamos a investigar as relações que Samanta teria com a empresa, algo que pudesse nos ajudar a encontrá-la mais rápido.
— E quanto ao dono do prédio do estacionamento? Ele não viu Samanta? – Linus dizia depois de ter anotado em seu caderno alguns pontos importantes para continuar a conduzir aquela entrevista. Rachel Rodriguez o olhava intensamente nos olhos.
— Não. – Linus ficou um momento surpreso – Foi uma das primeiras coisas que fizemos assim que achamos o carro dela graças aos helicópteros de buscas fornecidos pelo amigo de Samanta, Dylan. O dono do prédio viu o carro subir para o terceiro andar do estacionamento, mas não viu ninguém descer.
— Mas se Samanta subiu, com certeza ela teria que descer.
— Exatamente, foi no nono dia que essa questão me voltou a mente. – Rachel Rodriguez falava mais séria – Se ela subiu ela teria que descer, certo? Mas como?
— Pulando… – Linus respondeu já sabendo que fim toda aquela história tinha levado.
Entrevista: Apollo
— Foi horrível de tantas maneiras… – Apollo tinha a voz muito embargada, parou um instante a entrevista, não conseguia falar naquele momento em que Linus perguntou sobre o dia que acharam o corpo de Samanta – Desculpa… – ele tentava se recuperar – Quando a doutora Rodriguez me ligou pedindo para ir até o local e identificar o corpo eu achei que talvez morreria junto com Samanta…
“Ben foi comigo, minha casa estava cheia de gente tão aflita quanto eu estava. Àquele ponto as meninas já sabiam que algo de sério estava acontecendo com a Sam, minhas filhinhas podiam não entender totalmente, mas elas de alguma maneira sabiam que algo estava muito errado e quando Rachel Rodriguez me ligou e elas me viram desabar no chão da sala… Ao mesmo tempo que achei fofo elas terem corrido para me abraçar, eu sentia uma dor descomunal, mas tinha que levantar, por elas.
Minha mãe ficou com Eleanor na casa, junto com as crianças e a minha sogra. Ben estava quieto de um jeito assustador, talvez ainda estivesse em choque, eu já estava chorando desde o momento da ligação. O corpo estava num galpão fechado na rua atrás do prédio do estacionamento, tinha um buraco no teto do galpão e…”
— Podemos fazer uma pausa, se preferir… – Linus disse ao ver a situação de Apollo ao recontar como foi um dos piores dias da vida dele.
— Por favor… – Apollo aceitou a pausa.
Entrevista: Benjamin
— O cheiro era horrível… – Benjamin dizia depois de alguns momentos em silêncio após a pergunta de Linus – A doutora Rodriguez já estava lá, a equipe dela tinha isolado o local, estavam esperando a gente pra prosseguir depois que identificássemos o corpo.
— Dava pra ter uma boa identificação?
— Bom, quando a gente chegou, o corpo já estava em um estado de decomposição horrível, mas dava sim, Sam tinha tatuagens nos braços, conseguimos vê-las e foi aí que meu mundo desabou. – Benjamin parou de falar e ficou olhando para a janela aberta.
— Eu sinto muito… – foi a única coisa que Linus conseguia dizer naquele momento.
Entrevista: Investigadora Rachel Rodriguez
— Depois de acharmos o corpo iniciamos uma nova fase nas investigações: a causa da morte e tentar achar explicações para aquilo. – Rachel Rodriguez estava séria.
— Pelo o que vi e me lembro, não durou muito, certo? Logo decretaram que foi suicídio…
— Bom, é aquilo que estávamos falando: se Samanta subiu ela teria que descer, o que me levou a pensar em como ela desceria, não tinha escada de acesso externo no prédio do estacionamento, não tinha outro meio de descer que não fosse por onde ela tinha entrado, a escada dos pedestres dava de frente para a sala onde o dono do lugar ficava sentado, a sala era rodeada de vidro justamente para ele estar à par de todos que entravam e saíam do estacionamento, então ele teria que ter visto ela descer uma hora ou outra.
“Naquela mesma noite eu voltei para o estacionamento, para onde estava o carro de Samanta e comecei a verificar a área, me aproximei das beiradas do edifício que era alto e vi na rua de trás um galpão com teto reto, quase como um contêiner, estava escuro, no teto dele tinha um pedaço de papelão um pouco deslocado e foi de lá que eu vi que havia um buraco.
Saí do estacionamento e fui até a rua de trás, o lugar era um terreno que aos fundos tinha aquele galpão que quase encostava no muro do prédio do estacionamento, estava fechado, entrar sem uma ordem judicial poderia me complicar profissionalmente, então tive que esperar amanhecer. Logo nas primeiras horas comerciais eu já estava de volta ao lugar com minha equipe, o galpão pertence a uma mulher que nem sequer estava no país, entramos em contato com ela, ela disse que nem morava mais na cidade, mas que se era tão urgente, que poderíamos entrar sem a ordem.
Claro que depois investigamos a mulher, mas não havia nada que a ligasse à Samanta e a sua morte. Quando entramos no terreno e seguimos para o galpão eu já podia sentir um cheiro forte, mesmo de longe. Em anos de profissão a gente acaba desvendando de cara que cheiro era aquele, e não deu outra, assim que abrimos o galpão o corpo de Samanta estava lá, em estado avançado de decomposição.”
— Por que teria um papelão escondendo o buraco? – Linus perguntou intrigado.
— Bom, quando eu levei essa questão para o meu supervisor, ele me informou que eu estava sendo transferida para outro departamento, não fazia mais parte do caso.
Entrevista: Apollo
— A equipe da investigadora Rachel Rodriguez ficou cerca de duas semanas e meia no caso, os peritos investigavam o local, os médicos tentavam identificar marcas de agressão no corpo… – Apollo estava sério – Ela estava com fraturas em pontos específicos das pernas e braços…
— Consequência da queda? – Linus perguntou.
— Deveria ser, não é?
— E por que deveria?
— A distância do último andar do estacionamento para o galpão era razoavelmente grande, sim… – Apollo respirou fundo – Mas a doutora Rodriguez me ligou na semana seguinte que achamos o corpo da Sam, ela me disse que tinha duas coisas para me contar…
— E que coisas eram?
— Os peritos da equipe dela avaliaram a possibilidade de suicídio, havia o buraco no teto do galpão, um corpo poderia ter passado por lá, mas com dificuldades… Foi a primeira coisa que ela me disse que me deixou intrigado.
— E a segunda coisa? – Linus estava bem atento.
— Como eu disse, a distância do último andar pro galpão era alta, mas segundo a equipe da investigadora Rodriguez, não era alta o suficiente pra ocasionar a morte de Samanta…
Entrevista: Investigadora Rachel Rodriguez
— Posso te fazer uma pergunta? – Linus perguntava com cautela e um pouco de medo para a investigadora, o fato de ela ser policial e ter um semblante sério e um pouco duro trazia em muitas pessoas essa impressão de que ela estaria prestes a prender alguém.
— Claro! – ela disse sorrindo.
— Você está do lado de Apollo e da família dele, não é?
— Em que sentido? – ela rebateu a pergunta.
— De acreditar que a Samanta não se matou…
— Tive informações suficientes para que essa dúvida perdurasse na minha mente, mas como eu disse, me retiraram do caso, o laudo final foi suicídio…
— Senhora Rodriguez, sabe que isso aqui é uma entrevista, não? – Linus sorriu tímido – Não estou aqui para prender ninguém, você pode e deve se sentir livre para contar o que estiver na sua mente, é pra isso que Apollo está fazendo isso, é pra isso que estou aqui, para escutar novas versões e quem sabe ajudar a decifrar esse mistério…
— É força do hábito ter essa postura, senhor Linus, me desculpe… – Rachel Rodriguez se ajeitou na cadeira, olhou ao redor das janelas que envolviam a sala em que estava com Linus no departamento de polícia, ninguém parecia querer escutar a entrevista, todos estavam curiosos, mas todos tinham mais o que fazer – O prédio era alto, pelo buraco um corpo passaria com dificuldades, mas a queda não seria o suficiente para matar alguém, talvez alguns ossos quebrados, mas nada tão verdadeiramente grave como a morte.
“Quando achamos o corpo de Samanta tudo parecia fazer um pouco de sentido, mas a maneira como o caso estava sendo protocolado, como foi o sumiço de Samanta, como ela tinha ido parar ali e por quais motivos, essas questões teriam que ter alguma resposta antes de qualquer decreto de que tinha sido um suicídio.
Samanta foi encontrada morta em estado avançado de decomposição, era verão, estava calor, o galpão fechado e quente só acelerou aquele processo, não tínhamos como identificar marcas de agressão no corpo, mas a partir dos ossos quebrados no corpo dela a gente tentou tirar alguma outra pista, foram fraturas nas pernas, poderia ter sido ocasionadas pela queda? Nem todas, assim como as fraturas nos braços, mas ela estava lá há dez dias, não sabemos se ela tentou se movimentar para sair daquele lugar, o laudo oficial diz que ela morreu horas após a queda agonizando com as dores das fraturas e múltiplas hemorragias.”
— Se ela se matou, foi um jeito horrível de escolher a morte… – Linus pensou alto.
— Ou quem fez aquilo com ela não tem escrúpulos… – Rachel Rodriguez também pensou em voz alta.
— Tentou levar a ideia de homicídio para seus supervisores mesmo depois de ser retirada do caso?
— Tentei, mas como eu já falei, não poderia mais ter informação e tentar ajudar de nenhuma maneira.
— Mas ajudou indo procurar Apollo…
— A teoria de assassinato fazia sentido pra mim ainda quando estava envolvida no caso, quando fui retirada eu me sentia incompetente, não sabia o que tinha feito para ter sido removida, e eu precisava achar uma solução, faz parte de mim e do meu trabalho, por isso me juntei a Apollo em investigações não oficiais. A ideia do homicídio ficou mais forte quando Apollo achou o bilhete de Samanta no chão do quarto e depois que ele contou que semanas antes tentaram entrar na casa deles algumas vezes.
Entrevista: Apollo
— Não tinha cabeça para nada, depois que liberaram o corpo para o enterro e fizemos o sepultamento eu comecei a agir no automático, não sabia como prosseguir, não sabia como ia viver sem a Sam…
“Minha mãe ficou em casa, a mãe de Sam e Ben também, Benjamin e Eleanor tiveram que voltar para a cidade deles, tinham que retomar a vida e de certa forma eu também tinha, só não sabia como. Minha mãe e minha sogra terem ficado foi como uma ajuda divina, elas cuidavam das crianças que estavam absurdamente abaladas, eu não conseguia fazer o básico pelas minhas filhas, não comia, não dormia, não vivia.
Dormia na sala porque não queria voltar para meu quarto sabendo que a Sam não estaria lá me esperando depois de um dia de trabalho, era doloroso demais. O laudo oficial tinha saído e foi quando eu também tinha descoberto que a investigadora Rachel Rodriguez não estava mais no caso. A ideia de suicídio nunca funcionou pra mim, mas era aquilo ou nada.”
— Quando decidiu fazer suas próprias investigações depois que Rachel Rodriguez foi tirada do caso? – Linus perguntou para Apollo.
— Era pra eu estar começando a me conformar àquela altura, não? O laudo oficial tinha saído e eu tinha que aceitar que minha mulher, a pessoa mais tranquila e divertida do mundo tinha se matado… Eu subi para o quarto pela primeira vez depois de uma semana, subi para realmente ficar no quarto e absorver toda a ideia de ter ele vazio para sempre, porque antes eu só subia para pegar roupas no armário e voltava para a sala.
“Voltei para o quarto e na mesma hora comecei a chorar. Nosso quarto era repleto de fotografias nossas, de lembranças felizes que tivemos, fotos das meninas, objetos de viagens que fizemos. Eu tinha que absorver todo aquele momento, tentar enfrentar pra tentar continuar em pé pelas minhas filhas. Mas eu não me sustentava, literalmente, entrar naquele quarto foi como se alguém tivesse me empurrado pro chão, me jogado como no dia que recebi a notícia do corpo, e eu caí no tapete, chorei como criança, deitei, fiquei lá esperando que eu iria acordar de um pesadelo que não parecia ter fim, mas não acordei.
Nas laterais da nossa cama cada um de nós, eu e Sam, tínhamos uma cômoda para guardar remédios, papéis, ser apoio para as luminárias, enfim… No chão, embaixo da cama, do meu lado de dormir do colchão eu vi meio escondido e já um pouco empoeirado um papel que deve ter caído com o vento. Era um bilhete de Sam que dizia: ‘Tive uma emergência, volto logo. S.’”
— Não poderia ter sido em outro dia que ela tinha escrito o bilhete?
— Não. – Apollo olhava sério para a janela aberta – Sam era detalhista até nas urgências, como se tivesse TOC…
— Como assim?
— Ela colocou data. Era do dia do desaparecimento.
Entrevista: Investigadora Rachel Rodriguez
— Apollo me mostrou o bilhete, ele me ligou logo que achou, disse que não sabia se levava direto para a polícia ou se me mostrava antes, ele optou por me mostrar antes… – Rachel Rodriguez falava.
— E qual foi sua decisão?
— Disse que ele deveria levá-lo para a nova equipe que estava cuidando do caso, já que eu estava fora. Era uma pista enorme com motivos de que Samanta não teria cometido suicídio…
— E o que fizeram com o bilhete? – Linus falava um pouco mais baixo, o departamento de polícia estava mais movimentado àquela hora.
— Bom, o bilhete foi confiscado, não cheguei a saber se fizeram alguma coisa com relação àquela informação, mas alguns dias depois o laudo oficial saiu, Apollo me ligou e disse que o caso tinha se encerrado.
Entrevista: Patrick Lionel, médico legista
— Então você estava na equipe de Rachel Rodriguez? – Linus perguntava no carro que se movimentava pelas ruas.
— Estava, trabalhamos juntos em muitos casos, então não foi surpresa pra mim quando Rodriguez me chamou para ajudar na investigação do caso de Samanta… – Patrick dirigia – Fica ali… – o médico apontava para frente enquanto guiava o carro pelas ruas – Ali é o prédio do estacionamento, logo na rua de trás é onde fica o terreno do galpão… – depois de alguns minutos ele parou o carro e desceu com Linus e seu assistente na entrevista.
— E ali é o terceiro andar do estacionamento? – Linus olhava para cima, era uma altura relativamente alta, o galpão ficava bem próximo do prédio.
— Isso… – os três caminhavam pelo terreno e se aproximavam do galpão – Quando cheguei o corpo de Samanta estava caído aqui… – Patrick apontava para o chão assim que eles entraram no lugar – Ainda temos aqui o desenho de como ele foi encontrado… – removendo um pedaço grande de tecido preto do chão, Patrick revelou para Linus e seu assistente como o corpo de Samanta estava no dia que o acharam – A perna direita estava esticada, mas estava com ossos quebrados, a esquerda estava totalmente virada para aquela parede – ele apontou para os fundos do lugar – como se tivesse se partido em vários ângulos.
— Ocasionado pela queda, talvez? – Linus interrogava.
— Ali é onde está o buraco, cobrimos ele por fora depois de achar o corpo. – Patrick apontou para o teto – O diâmetro é de aproximadamente 65 centímetros, a estrutura metálica não é tão grossa quanto apresenta do lado de fora. Quando eu cheguei comecei a fazer meu trabalho, procurar indícios de violência e agressão no corpo, amostras de sangue seco, era um caso difícil, o corpo já estava se decompondo há dez dias… Uma queda do último andar do estacionamento para cá não é fatal, mas dependendo do jeito que o corpo cai pode ter consequências graves caso não tenham auxílio médico emergencial. A posição em que o corpo estava, o teto e a queda poderiam ter impossibilitado Samanta de se mover, além de ter ocasionado nela muitas hemorragias internas o que a fez agonizar até a morte por algumas horas.
— Foi o senhor que decretou o suicídio? – Linus andava pelo lugar observando tudo, principalmente o buraco no teto.
— Não, quando Rodriguez foi retirada do caso um novo investigador foi enviado. Os métodos dele não condiziam com os meus.
— Por quê?
— Ele chegou na equipe decidido a decretar o suicídio e encerrar o caso, e eu tinha informações, pesquisas e provas de que não poderíamos ir tão rápido assim, que deveríamos investigar ainda mais a fundo a possibilidade de um assassinato.
— Algum motivo de ele querer fechar logo o caso? – Linus ainda olhava para o teto e o desenho onde Samanta foi encontrada.
— Bom, o buraco está ali… – Patrick apontou para o buraco no teto – Um corpo que tenha caído por pura vontade de suicídio teria caído aqui, mas Samanta foi encontrada a três metros da porta, deitada com a cabeça na direção do buraco, se você prestar atenção vai ver que a distância do teto onde ela deveria ter se jogado até aqui onde a encontramos é de quase dois metros.
— Ela não poderia ter se arrastado até aqui?
— Quando chegamos aqui, a primeira coisa que notei foi essa distância, um corpo todo quebrado se arrastando até onde ele estava deveria ter deixado vestígios de sangue pelo caminho, rastros de um arrastamento, uma tentativa de se mover, mas não havia nada disso, era como se o corpo tivesse sido colocado aqui. – Patrick falou e Linus o olhou curioso.
— Então o buraco teria sido implantado? Toda essa cena de crime teria sido montada? – o jornalista perguntou.
— Foi isso que me fez ser “convidado a me retirar da equipe”… – Patrick fez aspas com os dedos – O novo investigador, assim que falei isso pra ele, me disse que não confiava na equipe que já estava lá e que preferia contar com o apoio do seu próprio time de investigação. Todos que estavam juntos com Rodriguez foram retirados do caso.
Entrevista: Apollo
— Algumas semanas antes do feriado que a Sam sumiu a gente passou por essas situações que foram realmente assustadoras… – Apollo falava sempre olhando para a janela – Sam andava um pouco estressada por conta do trabalho, parecia que estavam cobrando demais dela na empresa, mas mesmo quando ela estava sobrecarregada ela conseguia se distrair quando chegava em casa, nossas filhas nos faziam esquecer qualquer problema, sabe, quando a gente vira pai e mãe, é como um mundo novo e eu e a Sam sempre pensamos nisso, a gente sempre falou que não importava o que estivesse acontecendo, depois que as gêmeas nasceram a gente ia tentar ao máximo não levar preocupação pra perto delas.
“Claro que de noite, no nosso quarto, falávamos sobre os problemas, mas perto das meninas a gente evitava e umas semanas antes a Sam estava bem estressada com o trabalho, mas tentava não deixar transparecer muito. Uma noite, era de madrugada, por volta das duas da manhã, Sam sentou na cama assustada, me cutucou e eu levantei também assustado. Perguntei pra ela o que tinha acontecido e ela pediu pra eu fazer silêncio, pouco tempo depois ela foi até a janela do quarto e olhou por uma fresta da cortina.
Ela me disse que escutou um barulho na casa, como se alguém tivesse forçando a porta ou a janela. Fiquei atento também, não escutamos mais o barulho, fomos direto para o quarto das gêmeas, elas dormiam o sono dos inocentes. Quando estávamos voltando pro nosso quarto o barulho que Sam tinha escutado voltou e naquela hora eu escutei também. Acendemos as luzes da casa pra despistar quem ou o que quer que fosse e pareceu dar certo.”
— Tentaram entrar na casa de vocês? – Linus perguntou.
— Bom, ficamos com isso na cabeça, no dia seguinte mesmo eu instalei um alarme na casa, só por precaução, a região aqui tem muito animal, poderia ter sido algum deles, mas por precaução eu coloquei o alarme.
— Ficaram mais tranquilos?
— Por alguns dias, quase uma semana depois, era por volta das duas da madrugada de novo, e aí escutamos o alarme. Sam já estava de pé, correu pro banheiro e pegou uma lata de spray de cabelo, essas grandes pra tentar se proteger, fomos correndo pro quarto das gêmeas, elas estavam acordando com o barulho, falei pra Sam ficar lá que eu desceria pra ver o que estava acontecendo. Comecei a acender as luzes de novo, desci com cuidado e morrendo de medo, fui direto pra cozinha e peguei uma faca de carne. Foi assustador, eu não sabia o que esperar. Vim até aqui e olhei por essa janela… – Apollo apontou para a janela que olhava.
— Viu alguma coisa?
— Um vulto, mas não sabia dizer se era um animal ou uma pessoa…
— Isso voltou a acontecer?
— Mais uma vez antes do feriado, e aí depois disso a Sam sumiu…
— Acha que isso pode estar conectado com o caso? – Linus perguntou para Apollo que mais uma vez tinha os olhos cheios de lágrimas.
— Volto a falar: não foi suicídio. Não foi, Sam não tiraria a própria vida, isso foi um crime! Mataram minha mulher!
