Conversa: Investigadora Rachel Rodriguez
— Você sabe que essa série de entrevistas que estou fazendo não é apenas para montar um possível documentário, não é? – Linus disse para Rachel Rodriguez numa cafeteria perto do departamento de polícia, o ambiente anterior estava ficando movimentado demais para tratarem de um assunto tão misterioso quanto à morte de Samanta.
— Sei que é para ajudar a desvendar o mistério. – Rachel disse tomando um gole do café – Linus, eu me tornei amiga daquela família, profissionalmente eu não poderia estar no caso, mas como já fui retirada mesmo e o caso foi indevidamente encerrado…
— Bom, a investigadora criminal é você, o fato de eu ter seguido a área de jornalismo investigativo nos torna bem parecidos nas profissões, mas em questão de leis e tudo o mais, é coisa sua… – Linus tinha um caderno de anotações de capa preta como um diário, levava o objeto para todas as entrevistas, anotava o que achava importante – Eu entrevistei Apollo, entrevistei Benjamin, Eleanor, Patrick, você… – ele falava – Não sei como foi seu processo de investigação e interrogatório, sei que fez tudo o que podia, mas quero te levantar essas questões que anotei, porque acho que para solucionarmos esse mistério algumas perguntas bem importantes precisam ser respondidas…
— Tentamos responder todas as perguntas, Linus, mas trabalhamos com informações verídicas e não com hipóteses e por isso o caso não prosseguiu. Tínhamos um amontoado de teorias, de ideias, mas sem provas a gente não pode fazer nada.
— Bom, é aí que precisamos ter paciência e talvez um pouco de fé e sorte. Vamos tentar responder essas perguntas com os fatos que mais se aproximam de serem verdadeiros. – Linus abriu o caderno de anotações.
— E depois? – Rachel perguntou com um olhar cansado, se sentia um fracasso desde que foi retirada daquele caso.
— Bom, depois a gente vê o que pode acontecer… – Linus folheou algumas páginas – Acho que uma coisa que me deixou intrigado foi o fato do “suicídio” – ele fez aspas com os dedos – de Samanta.
— E, na sua opinião, o que faltou pra gente fazer? – Rachel ergueu uma sobrancelha.
— Não estou falando que vocês deixaram de fazer alguma coisa, eu só gosto de sempre voltar às questões pra tentar responder e agora a gente está nessa fase, Rachel, estamos por nossa conta em risco…
— Ok, prossiga…
— Vamos repassar? Samanta, uma mulher de 36 anos, alegre, feliz, com duas filhas de três anos, um marido que a amava muito, um trabalho com boa remuneração, de repente recebe uma ligação em pleno feriado, sai de casa apressada e nunca mais volta. Seis dias depois seu carro é achado, mais quatro dias depois disso seu corpo é achado em um galpão. – Linus falava mostrando para Rachel a linha do tempo que tinha montado em seu caderno de anotações.
— Certo. – Rachel prestava atenção para ver se ela mesma não tinha deixado passar um detalhe – Prossiga.
— Eu fui até o local com Patrick… O corpo estava de um jeito que, pelo parecer do médico legista, tinha sido colocado lá, mas mesmo assim havia o buraco, mesmo assim a Samanta supostamente subiu com o carro no estacionamento e não desceu pelos meios convencionais…
— Isso ainda me deixa sem dormir de noite… – Rachel dizia fazendo suas próprias anotações em um pedaço de guardanapo.
— Se Samanta foi colocada lá, alguém deveria ter subido para o estacionamento com ela, a pulseira que Apollo deu pra ela estava lá no terceiro andar, se foi um assassinato deveria ter mais alguém…
— Acho que sei aonde quer chegar… – eles se olharam.
— Tem muitas coisas nessa história que não foram contadas… – Linus dizia virando mais algumas páginas do caderno – Em primeiro lugar: e se o dono do prédio omitiu coisas importantes desse caso? – Rachel levantou os olhos do guardanapo que escrevia e olhou séria para Linus.
— Bom, se ele omitiu, temos que saber o motivo.
— Exatamente. Em segundo lugar que fiquei curioso: quando acharam o carro dela não tinham visto o buraco no teto, só no nono dia, ou melhor, noite, que você avistou o papelão que tinha se movido, talvez por força do vento…
— Linus, o papelão existia, mas não era um detalhe que, na hora que estive lá quando achei o carro dela, fosse importante, muitos terraços têm muitas coisas jogadas por cima, lixo levado pelo vento e o teto daquele galpão estava imundo, quando juntei uma coisa com a outra e voltei lá na noite que desconfiei que ela tinha pulado, o papelão estava um pouco para o lado e foi aí que vi o buraco. – Rachel falava.
— Por que alguém ocultaria o buraco se quisesse fazer parecer um suicídio? – Linus pensava em voz alta.
— Porque… – Rachel pegou outro guardanapo para anotar – Porque, talvez, Samanta ainda estivesse viva… E se tivesse sido encontrada viva teria muito o que contar quando se recuperasse…
— Quem, então, mataria Samanta? – Linus fez um círculo repetidas vezes nessa pergunta que ele tinha escrito no caderno.
— Talvez a mesma pessoa que tentou entrar na casa dela… – quando estavam prestes a chegar a uma conclusão o celular de Linus tocou.
— Rachel, se me permite, tenho outro entrevistado agora, finalmente consegui um horário com ele… – Linus levantava da mesa da cafeteria e deixava do lado da xícara de café o dinheiro de sua breve refeição.
Entrevista: Dylan
— Consegui um horário mais longo na minha agenda, por isso não tinha te ligado antes… – Dylan dizia acompanhando Linus para dentro de seu escritório na empresa em que chefiava.
— Imagino que o senhor não tenha muito tempo… – Linus disse sorrindo – Vou te fazer algumas perguntas e você me conta sua versão, ok?
— Ok. – o escritório era grande e confortável, uma janela grande aos fundos da sala iluminava o lugar, para deixar um pouco mais informal, Dylan fez questão de se sentar no sofá da pequena salinha que havia dentro daquele grande espaço, um lugar com duas poltronas de couro preto e um sofá de estofado azul marinho. Linus se sentou na poltrona próxima a um dos braços do sofá em que Dylan estava sentado.
— Bom, Samanta era sua melhor amiga, certo?
— Não a considerava apenas isso, nossa relação é antiga e eu sempre tive dentro de mim que Samanta era a irmã que nunca tive… – Dylan falou um pouco sério – O suicídio dela me tirou o chão… – Linus o olhava também sério – Quando Apollo me contou que Sam estava desaparecida, me contou mais ou menos o que estava acontecendo eu não medi esforços para tentar ajudar, mandei helicópteros de buscas, fiz minhas próprias rondas, conversei com alguns funcionários daqui da empresa que eram mais próximos de Sam na questão do trabalho…
“Ninguém tinha notícias dela desde a quarta-feira que antecedia o feriado prolongado, interroguei todo mundo querendo saber se alguém fez alguma ligação pra ela, porque Apollo tinha me falado que ela recebeu uma ligação antes de sumir… Nada, eu não posso dar certeza de que meus funcionários foram sinceros, mas prefiro acreditar que tenham sido…
Acharam o carro da Sam e eu tinha um misto de esperança com aperto no coração, sabe, a maneira como ela sumiu me deixava agoniado, aquilo estava tão estranho, tão incompleto… E aí no décimo dia de buscas foi Benjamin quem me ligou, ele quase não conseguia falar no telefone do tanto que chorava e eu já estava com o coração tão apertado que sentia falta de ar, foi Eleanor que pegou o telefone da mão dele e me disse também chorando que tinham achado o corpo da Sam.”
— Senhor Dylan… – Linus observava Dylan com a voz mais embargada – Sinto muito pela sua perda…
— Obrigado… – Dylan respondeu enxugando as lágrimas que ainda não tinha caído de seus olhos – Sam era a pessoa que mais lutava pelos outros, que mais animava os outros, quando o laudo saiu eu fiquei sem ter o que pensar…
— Acredita no suicídio? – Linus perguntou.
— Eu e a Sam sempre fomos muito próximos, mas nossa convivência foi maior na adolescência e faculdade, sabe… Mesmo trabalhando aqui eu não via a Sam com a mesma frequência que via antigamente… Não tenho nem como falar sobre isso, tem casos de suicídio que a gente sempre fala: ah, mas a pessoa vivia alegre e sorridente… – ele pegou um lenço do bolso – Não tenho como saber como estava a vida dela, como estava a mente dela…
— Entendo… – Linus anotava em seu caderno.
— Mas sei que uns tempos atrás ela tinha discutido com Apollo, foi um dia que cheguei mais cedo e acabei encontrando com ela aqui na empresa, ela estava meio cabisbaixa e não hesitei em pedir que ela fosse pra minha sala, foi um dia de desabafos e que me senti como no ensino médio: próximo dela como antigamente…
Conversa: Apollo
— Linus? – Apollo abriu a porta da casa e estranhou a visita do jornalista.
— Apollo, não vim entrevistar, mas queria saber algumas coisas sobre sua relação com a Samanta… – Linus disse com o caderno de anotações na mão.
— Claro, eu… – Apollo deu passagem para Linus entrar na casa – Eu vou avisar minha mãe pra ficar de olho nas meninas, se quiser pode se dirigir para a salinha que sempre conversamos…
— Ok. – Linus foi para a sala, pouco depois Apollo voltou ainda mais curioso – Eu falei com Dylan ontem de tarde…
— Ah, ele conseguiu um espaço na agenda dele? – Apollo disse se sentando na poltrona.
— Conseguiu, foi uma entrevista curta, tive que ser bem preciso nas perguntas, mas eu vim aqui porque ele me disse que tempos atrás a Samanta tinha desabafado com ele sobre uma briga que você e ela tiveram…
— Briga? – Apollo estava inquieto com aquela informação.
— É, ele me disse que a encontrou um pouco cabisbaixa e que depois de um desabafo ela falou que tinha discutido com você… – Apollo olhava para Linus com muito dúvida – Você chegou a ter essa discussão com Samanta?
— Eu e a Sam quase nunca brigávamos… – Apollo começou a dizer – Mesmo nos tempos de mais estresse, a gente tinha pequenas discussões, mas eram por coisas tão bobas que cinco minutos depois já estávamos rindo daquele exagero.
— Se lembra de alguma discussão que não se resolveu tão depressa quanto queriam?
— Teve uma no meio do ano com relação às crianças, mas não acho que teria sido tão abalador assim, se é que é essa discussão que está se referindo…
— Ele não me falou qual era o assunto, mas se importaria de me dizer?
— Estou sendo colocado como suspeito, é isso, não é? – Apollo tinha uma expressão séria.
— Não, Apollo, eu só quero ajudar e te ajudar a ligar os pontos, se não quiser me falar sobre a discussão eu te respeito… – Linus viu Apollo respirar fundo.
— A gente estava resolvendo se mandaríamos as gêmeas para a escolinha em setembro, e a Sam não queria porque achava muito cedo e eu argumentava falando que era melhor elas estarem no ambiente escolar com mais crianças do que com a babá que Sam também vivia insistindo que não ia muito com a cara da mulher por ser rígida demais… Mas nossas meninas sempre foram um pouco bagunceiras… – Apollo deu uma risadinha.
— E isso pode ter abalado ela mais que o normal?
— Não sei, Linus. A gente teve uma breve discussão sobre isso, ela foi tomar banho um pouco pensativa, mas naquela mesma noite a gente já conversava mais tranquilamente, tanto que resolvemos pela matrícula das meninas na escolinha…
— E depois disso ela ficou normal? Ou ainda estava reflexiva sobre esse assunto?
— Se ela ficou reflexiva não deixou transparecer… – Apollo falou olhando para a foto de Samanta que tinha naquele cômodo da casa.
Conversa: Investigadora Rachel Rodriguez
— Linus! Fiquei surpresa quando ligou… – Rachel se aproximava do jornalista na rua que os levaria para a entrada do terreno onde o corpo de Samanta foi achado no galpão.
— Eu tenho algumas informações novas para você, mas antes eu precisava da sua ajuda profissional para responder uma pergunta minha que não me saiu da cabeça durante essa noite… – eles caminhavam rua adentro.
— Que pergunta?
— Se, nas teorias, Samanta teve seu corpo colocado no galpão, alguém teria que ter a chave de acesso para ele, não?
— Investigamos a dona daqui, ela não tem ligação nenhuma com Samanta, nem sequer mora no país há um tempo. – Rachel falou com um tom de curiosidade.
— Eu fiz minhas pesquisas, mas o que me chamou atenção foi o fato de que alguém teria que ter o acesso, naquele dia vocês verificaram toda a área, certo?
— Certo… – eles pararam de frente para o portão de metal que dava acesso ao terreno.
— O que trancava o portão?
— Um cadeado grande que a gente teve que quebrar pra entrar, depois que a dona do local nos deu permissão.
— Rachel, você notou no dia se o cadeado era novo? – Rachel olhou para Linus com espanto, aquela informação clareava suas ideias.
— Era… Precisamos falar com Apollo… – ela disse quase ofegante – Ele precisa pedir que abram novamente o caso…
2h da manhã, casa da Investigadora Rachel Rodriguez
— Amor? – o marido de Rachel estava sentado na cama com um olhar assustado, cutucou sua esposa que acordou na mesma hora.
— O que foi? – ao ver a expressão de seu marido, Rachel logo puxou da gaveta da cômoda ao lado de sua cama a arma que possuía.
— Parece que escutei um barulho lá embaixo… – o homem disse baixo – Como se… – ele prestava atenção ao mínimo ruído que pudesse escutar – Como se estivessem tentando forçar uma porta ou janela… – os dois se olharam apavorados.
— Hector! – Rachel levantou da cama num pulo e correu para o quarto de seu filho adolescente preocupada com o que poderia estar acontecendo, o garoto dormia pesado.
— Vou verificar… – o marido de Rachel também era policial, pegou sua arma e desceu as escadas da casa cautelosamente, ao chegar na sala de estar viu que a maçaneta da porta de entrada se mexia, pela fresta da porta viu a sombra de dois pés. O barulho que Rachel fez ao tropeçar na escada foi o suficiente para assustar quem quer que fosse e a sombra se afastou da porta, passos foram escutados na entrada da casa indicando que a pessoa corria em retirada – Alguém estava tentando entrar! – ele disse para a mulher.
— Vou lá fora… – ela disse caminhando decidida em direção a porta.
— Não, Rachel… – o marido a deteve – Não sabemos se era alguém armado, se era perigoso… Vou pedir pra DP mandar uma viatura de ronda…
Rachel olhava pela janela da cozinha que dava para a rua que a pessoa estaria momentos atrás. Ficou quieta e reflexiva. Alguém estava tentando entrar na casa dela de madrugada. Por quê?
Hora do almoço, dia seguinte, casa de Apollo
— Doutora Rachel? – Apollo dizia ajudando as filhas a sair do carro quando viu Rachel Rodriguez na calçada.
— Boa tarde, Apollo, tudo bem? – ela sorriu para as gêmeas que entraram na casa correndo com as mochilinhas da escola nas costas.
— Tudo… Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou fechando o carro e ficando de frente para Rachel.
— Parece cansado, não dormiu bem? – Rachel reparava nas olheiras de Apollo.
— Fiquei acordado de madrugada… – ele respondeu – Joana estava meio febril, aí acabou acordando a Tonya e eu fiquei no quarto com elas até elas dormirem, o que levou horas… – ele deu uma risadinha.
— Joana está melhor? – Rachel perguntou olhando para a casa de Apollo.
— Sim, graças a Deus! – ele disse animado – Acontece às vezes… Mas, você está bem? Aconteceu alguma coisa?
— Estou… – ela hesitou – Vim saber se seguiu meu conselho…
— Segui! – ele disse confiante – Ontem mesmo fui até o departamento de polícia e pedi para reabrirem o caso, mas o delegado me disse que não era da minha competência fazer aquilo, que eles avaliariam se há mesmo indícios de que o caso poderia ser reaberto… Ele parecia bem irritado…
— Sei bem o motivo da irritação dele… – Rachel disse pensativa – Avisou alguém sobre isso? – ela perguntava investigando.
— Ben, claro! Ainda não mencionei nada pra mãe dele e da Sam porque não sei se é bom ficar criando muita expectativa nisso… Eles se mostraram tão decididos a encerrar o caso de forma tão estranha…
— Mais alguém?
— Comentei com Dylan também, ele foi maravilhoso ajudando nas buscas, ajudando nas entrevistas… Achei que seria bom informá-lo que talvez pudéssemos achar a solução definitiva pra esse caso.
— Apollo, você chegou a sair ontem de madrugada? – Rachel o olhava muito séria.
— O que quer dizer com isso? – ele disse na defensiva.
— Sua filha estava doente, você chegou a sair com ela? Levar para algum lugar?
— Não, como eu disse, doutora, fiquei com Joana e Tonya no quarto a noite inteira. – Apollo tentava entender o tom instigador de Rachel Rodriguez.
— Tem notícias de seu cunhado?
— Não sei se estou entendendo aonde você quer chegar, doutora…
— Só para saber como todos estão… – ela tentou disfarçar.
— Ben está na cidade dele com Eleanor e as filhas, estão bem, se é isso que quer saber…
— Que bom! – ela disse forçando um sorriso – Bom, eu passei pra saber sobre o caso mesmo, o que tinha decidido, melhoras pra sua filha… A gente vai se falando, ok? – Rachel disse depois de alguns instantes.
— Ok… – Apollo respondeu vendo Rachel caminhar pela calçada.
— Está tudo bem, Apollo? – a mãe do rapaz perguntou assim que ele entrou na casa um pouco reflexivo.
— Sim… – ele colocou as chaves do carro na mesinha da sala – Ela me fez umas perguntas um pouco estranhas, ela também estava um pouco estranha…
— A investigadora? Mas o que ela queria saber? – a mãe do rapaz perguntou da cozinha.
— Se Ben estava bem, coisas sobre o caso da Sam, se saí ontem de madrugada… – ele disse ainda pensativo – Era como se ela mais uma vez estivesse interrogando um criminoso…
Departamento de Polícia
Um pequeno alvoroço estava acontecendo no departamento de polícia quando Rachel Rodriguez chegou para seu expediente. O alvoroço já era esperado há alguns dias. Um novo delegado seria mandado para lá, uma antiga leva de funcionários sairia para que uma mais nova entrasse. Rachel chegou quando um grande grupo se reunia na principal sala de reuniões para celebrar a chegada do novo delegado, a porta da sala estava aberta, as pessoas riam e até brindavam com copos de refrigerante. Mudanças no departamento eram sempre pequenas festas que todos participavam.
— E aí, já sabem quem é o cara? – Rachel perguntou para uma colega enquanto as duas passavam pelo corredor e seguiam em direção à sala de reuniões.
— O cara, não, a cara! – a mulher riu – É uma mulher e eu estou tão animada com isso!
— Não brinca! – Rachel também se animava.
— O nome dela é Lorrane Flores, não sei porquê, mas acho que vocês vão se dar bem… – a mulher riu.
— Flores é latino! – Rachel disse animada – Espero que sua previsão esteja certa! – elas entraram na sala de reuniões e avistaram a nova delegada, uma mulher de aproximadamente 40 anos, muito bonita e com traços latinos – Seja muito bem vinda, delegada, sou a investigadora Rachel Rodriguez…
— Muito obrigada! – Lorrane Flores retribuiu o sorriso largo de Rachel – Vocês todos são muito receptivos e calorosos, mas sinto informar que está na hora de voltarmos ao trabalho… – ela disse rindo e todos se dispersaram pelo departamento de polícia para continuarem seus afazeres.
— Então, Thomas não está mais aqui? Foi enviado para outro departamento? – Rachel perguntava para a colega de trabalho.
— Foi, mas ouvi uns rumores de que talvez mandem mais um delegado pra cá, só pra não sobrecarregar a Flores…
— Típico, não? – Rachel disse com um tom irritado na voz – Thomas podia dar conta de tudo sozinho e agora querem mandar outra pessoa porque acham que Flores não vai dar conta?
— Nem se estressa com isso, sabe muito bem como é nossa questão feminina dentro da polícia… E vou achar o máximo se vier outra delegada, vai ser um tapa na cara de muita gente… – elas riram.
— Só de saber que Thomas não está aqui já me deixa mais animada, eu preciso urgentemente falar com Flores…
— Tenta a sorte, Rachel, tá todo mundo que nem urubu em cima dela… – a mulher respondeu sorrindo.
— E desde quando eu desisto fácil? – Rachel riu e seguiu para seus afazeres, deixaria para tentar se aproximar de Flores um pouco mais tarde.
Prédio do jornal que Linus trabalha
— Não vem almoçar com a gente? – um colega de Linus perguntou para o rapaz enquanto se reunia com mais algumas pessoas para pegar o elevador.
— Hoje não! – Linus respondeu tirando rapidamente o olho de suas anotações – Preciso terminar meu raciocínio aqui… Bom almoço! – ele disse e logo voltou para suas inúmeras folhas com marcações de diferentes cores de caneta.
Linus tinha começado a repassar suas anotações para uma nova leva de papel, tentando deixar tudo um pouco mais organizado sobre a morte de Samanta, ele se sentia como dentro de uma equipe de investigação, sem a autorização oficial da polícia, mas se sentia como um justiceiro que tentaria ajudar a trazer a verdade à tona sobre aquele possível crime. Linus nem percebeu a hora passar, esquecia-se de comer facilmente quando estava muito entretido em algo que gostava. Seus colegas já voltavam para o expediente da tarde no jornal quando um estagiário se aproximou de sua mesa.
— Senhor… – ele era novo não só na aparência como na empresa em si – Mandaram entregar para o senhor… – o estagiário entregou uma caixa de bombons para Linus que a olhou curioso.
— Uma caixa de bombons? – o jornalista a pegou sem entender – Quem mandou?
— Não sei, o entregador disse que era para entregar para o senhor… – o menino olhava sedento para os bombons, mas tentava disfarçar.
— Mas quem me mandaria bombons? – Linus remexia a embalagem na busca por algum bilhete, por fim desistiu e deixou a caixa em cima da mesa, voltando logo em seguida para seu trabalho.
Alguns minutos depois ele não conseguiu mais segurar a imensa vontade de ir ao banheiro, estava apertado já tinha um tempo e por mais que conseguisse controlar a fome, a bexiga quase explodindo não era algo que ele pudesse ignorar por mais nenhum minuto. Ao voltar para seu local de trabalho, Linus viu um pequeno grupo de pessoas ao redor de sua mesa.
— Linus! – uma mulher correu até ele – Linus, você que trouxe essa caixa de bombons?! – a mulher mostrava a caixa com um olhar desesperado, conforme Linus se aproximava de sua mesa ele percebeu que alguém estava caído no chão, um rapaz ligava para a emergência.
— O que aconteceu?! – ele apressou o passo e encontrou no chão um colega de trabalho, Marcus sentava-se à mesa ao lado da dele, podia até considerar mais que um simples colega, considerava Marcus um bom amigo.
— Você que trouxe a caixa?! – a mulher repetiu.
— Não! O estagiário me entregou depois do almoço… O que está acontecendo?! – ele dizia desesperado. Momentos depois já se escutavam as sirenes da ambulância se aproximando do prédio. Levaram Marcus para o hospital e Linus ainda não estava raciocinando o que estava acontecendo.
— Linus, aqueles bombons estavam com alguma coisa… – a mulher já tinha os olhos cheios de lágrimas quando viu levarem Marcus pela maca – Será que ele vai ficar bem?
— Os bombons tinham alguma coisa?! – Linus perguntou olhando para a caixa em cima da mesa, com um bombom a menos.
Departamento de Polícia
— Mandou chamar, delegada? – Rachel se aproximou da mesa da nova delegada do departamento, ela tinha um semblante sério e ainda falava ao telefone. Assim que desligou olhou para Rachel.
— Rodriguez, temos uma ocorrência, preciso que vá até esse endereço… – a delegada entregou um pedaço de papel para a investigadora – Houve uma tentativa de assassinato nesse jornal, aparentemente com bombons envenenados, preciso que colha informações, o caso é seu. – Rachel leu o nome do jornal e associou com a única pessoa que sabia que trabalhava lá e já era sua conhecida.
Prédio do jornal
Ao chegar ao andar do incidente, Rachel viu Linus sentado sendo interrogado por dois policiais, duas outras pessoas também estavam sentadas esperando para darem o depoimento, uma delas era um jovem rapaz, não deveria ter mais de 19 anos.
— Eu assumo, oficiais… – Rachel se aproximou de Linus e dispensou os policiais que enchiam o jornalista de perguntas – Linus, quer me contar o que aconteceu?
— Como se eu tivesse muita escolha em omitir, não? – ele deu uma risadinha – Rachel, eu recebi essa caixa de bombons depois do almoço, o estagiário ali – ele apontou para o garoto – disse que mandaram para mim. Não vi bilhete, não tinha identificação e o próprio estagiário disse que foi um entregador que deixou a caixa na entrada do prédio… – Linus passava a mão na testa, estava começando a ter uma insistente dor de cabeça – Enfim, eu não comi, eu fui ao banheiro e quando voltei Marcus estava no chão, já tinham ligado para a emergência… Disseram que os bombons estavam envenenados… – Rachel anotava tudo em seu bloco de notas.
— Alguma ideia de quem poderia ter feito isso? – Rachel fazia as perguntas de praxe.
— Nenhuma… – Linus até tentou pensar em alguém, mas ninguém vinha à cabeça dele.
— Bom, você vai ter que prestar o depoimento na delegacia, vamos relatar tudo, abrir um inquérito… Estamos em contato com o hospital, esse rapaz, Marcus, é seu amigo?
— Marcus é sim, brincalhão, divertido, muito bom profissional, ele deve ter pegado o bombom escondido e… – Linus abaixou a cabeça – Espero que ele fique bem…
— Linus, eu preciso falar com você, se importa de ir até a delegacia no meu carro? Assim podemos conversar melhor… – Rachel disse e Linus percebeu o tom de preocupação e urgência na voz dela.
— Claro… – os dois seguiram para a rua em direção ao carro de Rachel.
— Tentaram entrar na minha casa dois dias atrás… – a investigadora disse assim que fechou a porta do carro – Meu marido escutou tentarem forçar a porta, ele desceu, viu um vulto, viu a maçaneta da porta mexendo, quem quer que fosse saiu correndo quando, sem querer, fiz barulho…
— O quê?! – Linus estava espantado – Quem faria isso?!
— Linus eu tenho minhas suspeitas do porquê fariam isso, mas quem eu não sei…
— Por que fariam isso? Acha que pode ser a mesma pessoa que me mandou bombons?
— Não é certeza, é só uma hipótese, mas temos que levar esse caso pra nova delegada… Algo me diz que está muito bem relacionado com o caso da Samanta.
— Relacionado? Mas por quê? – Linus olhava para as ruas que o carro passava conforme Rachel dirigia para a delegacia – Querem eliminar a gente pro caso não vir à tona de novo…
Departamento de Polícia
— Rodriguez, podemos conversar? – Lorrane Flores chamava Rachel para uma sala mais reservada enquanto outros policiais faziam as ocorrências oficiais e anotavam os depoimentos das pessoas que estavam no jornal na hora do incidente.
— Que recepção de primeiro, dia, não? – Rachel entrou na sala e brincou para descontrair.
— Pois é! – Flores entrou na brincadeira – Mas você é uma das mais antigas aqui, não se ofenda…
— De maneira alguma! – Rachel disse sorrindo.
— Bom, você conhece esse lugar como ninguém, conhece a maioria dos casos… Além de ter uma ótima reputação na resolução de muitos deles… – a delegada tinha uma pasta na mão – Fiz minhas pesquisas com todo o pessoal antes de vir pra cá oficialmente…
— Agradeço as observações, delegada… – Rachel disse um pouco envergonhada, mas sem perder a postura rígida de uma oficial.
— Fiz também umas pesquisas rápidas sobre Linus, o jornalista que recebeu a caixa de bombons e que em teoria, os bombons eram para ele, mas quem comeu e revelou o segredo foi seu colega de trabalho… – ela se sentou de frente a mesa daquela sala e fez sinal para que Rachel se sentasse na cadeira da frente – Como jornalista investigativo ele poderia sim ter algumas inimizades, se intrometer na vida dos outros por matéria é algo que gera desconforto para muita gente, então achei esse caso aqui que estava arquivado… – ela abriu a pasta, a foto de Samanta que Apollo tinha enviado para a polícia estava anexada com um clipe de papel logo na primeira folha solta – Seu nome está aqui como investigadora, mas depois entrou outro nome…
— Me retiraram do caso… – Rachel disse observando a foto da mulher que teria sido assassinada brutalmente.
— Por quê? – Flores perguntou tentando ligar algum ponto imaginário.
— Porque tentei responder perguntas demais… – Rachel respirou fundo – É uma longa história, delegada, mas eu tenho quase certeza que tudo pode estar conectado… Os bombons, a tentativa de invasão na minha casa…
— Tentaram invadir sua casa?
— Bom, é uma longa história…
— Estou escutando… – Flores sorriu e Rachel começou a contar o caso de Samanta.
Avenida próxima ao prédio do jornal
Linus mal tinha conseguido dormir de noite. O medo de estar sendo perseguido para uma “queima de arquivo” o deixou de olhos bem abertos durante toda a madrugada, mesmo com a ronda policial que Rachel tinha pedido para fazerem ao redor do prédio em que o jornalista morava. Quando despertou de um cochilo rápido que mais pareciam ter sido horas, olhou ao redor e viu que já poderia começar a se arrumar para o trabalho. Tomou um banho frio para acordar depressa e encheu sua garrafa térmica de café forte e sem açúcar, seria um longo dia.
Resolveu chamar um táxi para ir para o trabalho, as ruas já estavam movimentadas, talvez ninguém tentasse nada com ele naquela hora, mas o medo ainda estava intrínseco em cada parte do corpo de Linus. Foi quando passou pela banca que ele ficou em choque. A manchete principal dizia respeito ao tão conceituado jovem empresário da cidade, Dylan Felix.
“Herdeiro do Império Felix sofre atentado na madrugada”
