Parte III: O que aconteceu com Samanta Camil

Departamento de Polícia

A noite foi longa para a delegada Lorrane Flores e a investigadora Rachel Rodriguez que discutiram sobre o caso de Samanta e seu encerramento indevido. Rachel ficaria na delegacia cumprindo o horário de seu plantão e foi o tempo que precisou para conversar com a delegada e convencê-la a reabrir o caso da falecida mulher de Apollo.

— Já que vamos reabrir, temos que traçar uma nova linha do tempo e investigar todo mundo novamente, as entrevistas de Linus vão nos ajudar bastante… – Flores tinha acabado de pegar outro copo de café, já era de manhã e apesar de cansadas, as duas não parariam tão cedo aquela nova investigação.

— E claro, levar em conta os recentes acontecimentos, isso vai com certeza ajudar a gente a traçar um perfil do principal suspeito… – Rachel estava empolgada com aquela novidade, sentia que talvez ia conseguir encerrar o caso da maneira correta, seria o maior caso de sua carreira.

— Bom dia, bom dia… – um oficial batia na porta da sala que Rachel e Lorrane estavam e entrava sem a permissão – Delegada, creio que não viu os jornais ainda… – o oficial levou até a delegada o jornal do dia com a manchete principal.

— Atacaram Dylan Felix… – ela falava enquanto lia rapidamente a notícia.

— O quê?! – Rachel levantou da cadeira espantada e correu até o lado de Lorrane para ler com ela a notícia.

— Entraram na mansão dele, fizeram alguns reféns, mas os seguranças do local conseguiram salvar a todos… – o oficial ainda estava na porta e fez um breve resumo para as duas.

— E como isso não foi reportado pra polícia?! – Rachel olhava para o oficial na porta.

— Família rica, doutora… – o oficial disse – A mídia é a primeira coisa que eles procuram, ainda mais quando não teve nada de grave.

— Obrigada, Nataniel… – Lorrane disse dispensando o oficial que saiu e fechou a porta da sala – Rachel, sabe o que isso pode significar, não?

— Apollo pode ser nosso principal suspeito… – ela respondeu entristecida.

— Precisamos de uma equipe para solucionar isso.

— Vou reunir o time.

Casa do Apollo

— Querido! – a mãe de Apollo chamava pelo filho, Apollo estava no escritório tentando trabalhar.

— Chamou, mãe? – ele disse indo até a sala onde a mãe dele dobrava as roupas das gêmeas depois de ter tirado da máquina de lavar.

— Filho, olha o jornal de hoje! – a mulher entregou o jornal para Apollo – O amigo da Sam sofreu um atentado!

— Meu Deus! – Apollo lia a reportagem com o coração acelerado – Vou ligar pra ele, saber se ele está bem, se precisa de alguma coisa… – Apollo correu para pegar seu celular, já estava prestes a digitar o número de Dylan quando o aparelho começa a vibrar em sua mão, o número era desconhecido – Alô? – ele atendeu curioso – Alô?! – como ninguém tinha respondido ele perguntou um pouco mais irritado. Em questão de segundos seu rosto moreno ficou pálido e o celular caiu de sua mão.

— Filho?! – a mãe de Apollo gritou quando ele se desequilibrou e caiu sentado no sofá.

Departamento de Polícia

Na sala principal de reuniões uma equipe razoavelmente grande se reunia para discutir um dos maiores casos dos últimos anos, o caso de Samanta. Rachel Rodriguez liderava as investigações mais uma vez e em seu time Patrick era o principal legista assim como outras pessoas de sua confiança. Todos estavam sentados atentos enquanto Rachel apresentava para eles uma linha do tempo e os acontecimentos que todos teriam que trabalhar cautelosa e minuciosamente.

— Samanta foi encontrada morta no décimo dia depois de seu desaparecimento e nesse meio tempo temos: Apollo, o marido, aparentemente o mais necessitado por uma resolução correta do caso, mas não se enganem por uma boa atuação, até que se prove, novamente, o contrário todos são suspeitos. – Rachel falava mostrando a foto de Apollo no telão – Benjamin e sua mulher, Eleanor, estavam na casa do casal quando Samanta sumiu, Eleanor foi a última a ver Samanta naquela residência, segundo a esposa do irmão de Samanta: a mulher recebeu uma ligação e saiu de casa desesperada. – a foto de Eleanor estava em foco na tela – Benjamin é irmão mais velho de Samanta, em uma entrevista para Linus ele comenta sobre a personalidade alegre de Samanta que o irritava desde sempre, como eu disse, todos são suspeitos até que se prove o contrário.

— Linus é o jornalista contratado por Apollo para essa série de entrevistas que exporiam o caso para, de algum jeito ou de outro, tentar trazer justiça à Samanta… – Flores falava sentada – Não tinha envolvimento com a família até essa oferta de trabalho, e também foi recentemente vítima de uma tentativa de homicídio.

— Exato. Temos agora, Dylan, o melhor amigo de Samanta desde a juventude, também chefe dela e também sofreu um atentado recentemente. As ligações de Samanta e Dylan eram tão fortes quanto da mulher com seu irmão e cunhada, e com seu marido. – Rachel mostrava a foto do herdeiro do império Felix.

— Segundo Apollo, semanas antes do desaparecimento de Samanta, tinham tentado entrar na casa dele algumas vezes. – a delegada tinha se levantado para ficar ao lado de Rachel naquela reunião.

— Patrick foi o legista do caso antes de me retirarem e de mudarem a equipe que confirmou o suicídio. – Rachel deu passagem para Patrick mostrar sua parte da apresentação.

— O local era um galpão fechado, sujo e devido ao verão, muito quente, o corpo estava lá há algum tempo, não tive como ter precisão da data, mas o estado de decomposição estava avançado. – Patrick falava mostrando as imagens fortes e impactantes de como foi encontrado o corpo de Samanta – O buraco existia, mas até o nono dia estava tampado com um pedaço de papelão na parte externa, a maneira como o corpo estava não indicava que ele tinha caído, mas sim sido colocado lá, havia fraturas nas duas pernas e nos dois braços que impediriam qualquer tentativa de escape de Samanta se ela estivesse viva no momento que a colocaram lá.

— O que temos agora nessa reabertura… – Rachel tomou a frente da conversa mais uma vez – Todos ao redor de Samanta são suspeitos. Não houve um suicídio e sim um assassinato e aqui vai a primeira lição de casa para vocês: Quem mataria Samanta? Por quais motivos?

— Patrick, preciso que volte ao local com sua equipe para verificar novamente a situação que estava o corpo, o trajeto até o final do terreno e saber se o buraco já existia ou se foi também implantado. – Lorrane dizia para Patrick que anotava em seu caderno.

— Outra coisa importante, acho válido mencionar… – Rachel disse quando todos começaram a se levantar para cumprir suas recentes tarefas dadas – O caso foi fechado em três semanas e decretaram o suicídio, quero uma equipe disfarçada para investigar o detetive que entrou no meu lugar naquela época. – todos concordaram com a cabeça – Mais uma coisa: o caso foi reaberto por Apollo no início da semana, logo depois disso Linus sofreu uma tentativa de homicídio, Dylan sofreu um atentado e também tentaram invadir minha casa, por hora, Apollo ainda não relatou nada pra gente, muito menos Benjamin e sua esposa. Quero olhos bem abertos para essas pessoas.

— Tem mais… – Lorrane se pronunciou – Todos estão em aparente risco, se esses ataques estão conectados, a pessoa pode tentar novamente com um de vocês, todo cuidado é pouco… E eu quero falar com os oficiais que foram até a mansão Felix depois do atentado ao rapaz…

Todos saíram da sala de reuniões para dar continuidade às tarefas que o caso exigia. A pedido da delegada, um oficial foi chamar os policiais que pegaram os depoimentos de Dylan sobre o atentado à casa dele. Lorrane Flores lia as anotações com atenção, o arquivo não era extenso, pelo contrário, ela notava que informações importantes faltavam.

— Rachel, olhe aqui… – Flores pediu para Rachel analisar o caso de Dylan com ela – Ele opta pela mídia ao invés de ligar para a polícia, já começa daí… Depois os oficiais vão lá e isso é o que eles dizem: entraram na casa, rodeada de seguranças e câmeras, diga-se de passagem, ameaçaram eles de morte, mas então os seguranças do andar conseguem salvar a todos… – as duas liam com atenção – E mesmo assim os criminosos fugiram…

— Bom, estamos trabalhando com duas situações bem distintas, delegada… – Rachel pensava e relia o caso – Nos meus anos de profissão eu vi tanta coisa… Se entraram na casa deles rodeada de seguranças e câmeras, em primeiro lugar, analisar as câmeras é primordial, em segundo lugar, pode ser que quem entrou já conhecesse o lugar…

— Mais uma vez temos Apollo no topo da nossa lista, não? Se os atentados estão conectados, Apollo era marido da melhor amiga de Dylan, se Samanta tinha contato com o rapaz, Apollo também deveria ter… – novas anotações eram feitas naquela hora por Lorrane e Rachel – E a outra situação?

— Delegada… – Rachel ia responder quando uma oficial bateu na porta e abriu logo em seguida chamando pela delegada Lorrane Flores – Apollo está aí fora, parece que ele quer retirar o pedido de reabertura do caso de Samanta…

— Retirar? – as duas mulheres na sala falaram juntas e se olharam em seguida.

Casa do Apollo

Benjamin chegava de viagem na casa do cunhado. Tocou a campainha e quem atendeu foi a mãe do rapaz com um sorriso simbólico, recentes acontecimentos tinham deixado a mulher abalada.

— Ben, querido, como você está? Que surpresa… – a senhora dava passagem para que Benjamin entrasse, o rapaz trazia consigo uma pequena mala de mão.

— Apollo tá em casa? – ele perguntou depois de cumprimentar a senhora.

— Acabou de sair… – ela respondeu um pouco hesitante.

— Ele volta logo? – Benjamin tinha um semblante preocupado.

— Não sei, querido… Você está bem? – a senhora reparava na inquietação de Benjamin.

— Estou… – ele disse ainda preocupado – Mel teve um pequeno acidente, mas está bem, eu preciso falar com Apollo, sabe onde posso achar ele?

— Acidente?! – a senhora colocou a mão no peito.

— Já passou, ela… Ela atravessou a rua sem olhar e se não fosse Eleanor ela teria sido atropelada, mas foi um susto…

— Meu Deus! – a mãe de Apollo estava horrorizada – Apollo está na delegacia, querido, disse que precisava retirar o pedido de abertura do caso da Sam…

— O quê?! – Benjamin disse exaltado – Não, não, por que ele vai fazer isso? – a mãe de Apollo hesitava em responder – Ele não pode, Emilie!

— Mas é que…

— Eu achei um email da Sam no meu computador, um email que pode ser importantíssimo pra esse caso!

— Que email? – Apollo entrava em casa no final daquela conversa.

— Apollo, talvez eu saiba quem matou a Sam. – Benjamin disse se virando para o cunhado.

Casa da investigadora Rachel Rodriguez

Era de noite quando Rachel, contra sua vontade, voltava para a casa. O dia tinha sido cheio de novas informações para o caso de Samanta, pistas novas, teorias novas que a equipe buscaria evidências do crime e o pedido de Apollo, que por sorte, a lei não permita retirá-lo. Depois de interrogar o marido de Samanta, Rachel sentia pontadas na sua cabeça de dúvidas e confusão, o pedido de Apollo foi inesperado e indicava que ele poderia ser um bom suspeito do assassinato. Graças a mente mais relaxada de Lorrane Flores, que reviu os termos legais daquele pedido, a sentença final para aquele dia foi que o caso não poderia ser fechado sem antes a investigação dar seu último aval.

Rachel entrava em casa cansada, com fome e com dor de cabeça, não tinha comido nada, já tinha passado uma noite anterior na delegacia, aquelas eram as desvantagens da carreira policial, os plantões eram tão intensos quanto os de um médico, isto é, quando se tinha um bom caso nas mãos.

— Rachel!! – o marido da investigadora já esperava por ela na sala – Falou com Hector?!

— Não, hoje eu só mandei mensagem pra ele depois do horário da escola, o que houve, querido? – Rachel sentia dentro dela que talvez algo pudesse estar errado.

— Ele não chegou ainda, não avisou, já liguei na casa dos amigos mais próximos… Ninguém tem notícia do Hector desde a saída da escola… – Rachel podia sentir sua cabeça girar.

— Hector sempre avisa… – ela falava se desequilibrando.

— Estou tentando ligar pra ele, mas temos que ter calma, não? Às vezes ele se esqueceu, adolescentes cometem essas gafes… – o marido de Rachel estava tão aflito quanto ela.

— Não o Hector, você sabe muito bem que ele não comete essas gafes… – Rachel tentava pensar, mas a campainha da casa dela tocou.

— Rachel, desculpe vir aqui a essa hora, mas não é algo que queria falar por telefone… – Lorrane entrava na casa sem a permissão do marido de Rachel – Você está bem?

— Meu filho ainda não chegou… – Rachel disse tentando se recompor – O que aconteceu?

— Recebemos uma ligação na delegacia, era o dono do estacionamento que acharam o carro de Samanta e a pulseira… Ele disse que queria fazer uma confissão sobre aquela noite, então fomos para lá imediatamente, mas ao chegarmos o encontramos baleado…

— Como é que é?! – o marido de Rachel ligava as informações.

O celular de Rachel tocou, na tela o nome de Hector aparecia.

— Filho! Onde você tá e… – Rachel começou a falar mais aliviada.

— Eu já mandei retirar o pedido de reabertura do caso, vão continuar insistindo? – uma voz de homem falava do outro lado da linha. Rachel caiu desmaiada no chão.

Departamento de Polícia

Lorrane Flores voltava para a delegacia acompanhada de Rachel que não voltava ao local de trabalho como uma investigadora e sim como uma mãe aflita que acabava de receber a notícia de que seu filho adolescente tinha sido sequestrado. As duas entravam no departamento e alguns oficiais de plantão correram até a chefe daquela jurisdição para dar novas notícias.

— Quero que rastreiem um celular, pra ontem! – Flores dava ordens assim que entrava – Quero um mandado de busca e apreensão para a casa de Apollo Camil e…

— Vai mandar prender a pessoa errada. – Apollo estava na delegacia com Benjamin, os dois estavam com semblantes sérios e tensos.

— Que bom que está aqui, facilita meu trabalho. – Lorrane disse se aproximando com as algemas na mão.

— Não é o Apollo. – Rachel disse um pouco baixo – Não era a voz de Apollo na ligação.

— Como já sei que sempre me põe como suspeito, podem verificar meus pertences… – Apollo já estava irritado – Temos uma pista de quem pode ter matado a Sam, viemos aqui para relatar isso.

— E também… – Benjamin dizia olhando para Apollo que confirmou com a cabeça – Apollo também recebeu uma ligação essa tarde.

— Delegada, ligaram do hospital que levaram o senhor Abel… – um oficial interrompeu a conversa – Ele sobreviveu.

— Temos uma confissão. – Lorrane disse na mesma hora – Quero que mandem uma escolta para o senhor Abel, imediatamente! – ela se virou para Benjamin e Apollo – Me acompanhem, quero os depoimentos de vocês.

Sala de interrogatórios do departamento de polícia.

Interrogatório: Apollo

— No dia que a Sam desapareceu eu estava no mercado com Ben, temos os recibos das compras, a hora exata que saímos de casa, a hora que voltamos. – Apollo falava com impaciência – Quando voltamos Eleanor nos disse que ela tinha saído. Depois de tudo eu achei no quarto o bilhete com a data daquele dia, do dia que ela saiu de casa e não voltou mais, o bilhete é prova de que ela pretendia voltar, mas que… – ele respirou fundo – Mas que enfim… Mataram minha mulher.

“Linus me perguntou, depois de entrevistar Dylan, se eu tinha brigado com a Sam e como eu já disse pra ele: eu e a Sam quase nunca brigávamos sério. Ela estava sim um pouco estressada por conta do trabalho, não me falava exatamente o que era, mesmo eu insistindo, afinal, nos formamos na mesma coisa, eu talvez pudesse ajudar, mas ela vivia me dizendo que resolveria logo, o estresse tomava conta dela nos últimos tempos, mas dentro de casa ela era praticamente a Sam de sempre, divertida, mãe, amiga, companheira.

Disse pro Linus que a única discussão mais pesada, por assim dizer, que tive com a Sam naquela semana foi a respeito das meninas irem para a escolinha em setembro. Somos pais corujas, somos muito apegados às meninas desde a gravidez que já foi de risco, então mandá-las tão cedo pro jardim de infância doía em mim e na Sam, mas era melhor que as meninas convivessem com outras crianças do que ficar em casa com um babá rígida. Foi isso, no mesmo dia que tivemos essa breve discussão, já resolvemos pelo melhor das meninas: mandá-las pra escolinha.”

— Que ligação foi essa que recebeu? – a delegada perguntava.

— O caso foi encerrado e desde então eu fazia minhas próprias pesquisas para trazer justiça à Sam, achei Linus que topou fazer a série de entrevistas, o documentário, talvez ajudasse a desvendar o mistério. – Apollo contava – Depois de uma série de entrevistas com o pessoal que conviva com a Sam, ele e Rachel me ligaram falando que eu tinha que pedir a reabertura do caso, eles tinham novas informações e que reabrindo eles poderiam desvendar o assassinato da minha mulher, foi o que fiz imediatamente.

— Mas pediu para retirar o pedido de reabertura, e pouco depois Rachel recebe essa ligação em que o falante dizia especificamente que mandou retirar o pedido de reabertura do caso. – Flores falava séria.

— Fui ameaçado a fazer isso. – Apollo respondeu.

— E por que não reportou à polícia?

— Porque ele disse que mataria minhas filhas também. – os dois se olharam – Você tem filhos, delegada?

— Tive. – ela respondeu sem jeito.

— Então sabe que pais fazem de tudo por seus filhos.

Interrogatório: Benjamin

— Sam tinha esse esquema comigo desde a faculdade dela. Ela me mandava emails só para ter mais um lugar seguro de backup, tinha o computador dela, depois que ela começou a trabalhar tinha o da empresa, mas desde sempre ela usava minha caixa de emails para arquivar suas coisas. – Benjamin falava – Eu confesso que no começo, na faculdade dela, eu lia alguns, porque não eram só coisas da faculdade, alguns eram como diário… – Benjamin deu uma risadinha – Mas parei de fazer isso, e mesmo assim, Sam continuou enviando, eu apenas ignorava.

“Depois de tudo… De achar o corpo, do caso mal resolvido, enfim, depois de tudo eu lembrei desse detalhe da vida de Sam e passei a verificar a pasta que criei no email só com as mensagens enviadas por Sam durante todos esses anos. Eram muitas, quase todas sem assunto, então fui de uma em uma, todos os dias passei a ver um pouco de cada, alguns emails eram planilhas de contabilidade, outros eram só anexos de documentos. 

Sentia que de alguma maneira poderia encontrar alguma pista naquela pasta de emails arquivados. Comecei a verificar as datas e olhava mais especificamente os que ela tinha enviado na semana do desaparecimento e um pouco antes, foi quando achei um que era além de alguns arquivos anexados, umas linhas em forma de desabafo.”

— Pode me mostrar? – a delegada perguntou e oficial que acompanhava o interrogatório permitiu que Benjamin tivesse acesso ao celular.

— Eu não entendo de contabilidade, mas isso aqui é um desabafo… – ele procurava a mensagem no email – Aqui…

“Anexo de arquivos como prova.

Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas não tive outra alternativa, a justiça sempre foi uma das coisas que mais prezei e farei justiça mesmo que isso signifique que vou perder meu emprego que tanto gosto.”

— Chegou a abrir esses arquivos? – a delegada perguntou.

— Sim, mas eu não entendo de contabilidade, mostrei pro Apollo antes de vir pra cá.

Interrogatório: Apollo

— São números expressivos de desfalques às custas de uma mentira. – Apollo disse mostrando as planilhas já impressas na própria delegacia – Se Sam sabia que podia ser demitida é porque ela sabia que esses desfalques eram uma forma de corrupção.

— Das empresas Felix. – Lorrane Flores disse.

— Exatamente. – Apollo respondeu – Isso aqui… – ele apontou os números – São provas nítidas de desfalques, o dinheiro ía direto pra uma conta no exterior.

— Está dizendo que nosso suspeito é…

— Dylan Felix. – Apollo completou a frase.

— Mas ele sofreu o atentado… – a delegada tentava raciocinar, Rachel teve permissão de acompanhar os interrogatórios, mesmo na situação em que se encontrava, aflita esperando notícias de que localizaram seu filho.

— Delegada, lembra que comentei das duas situações? – ela disse tendo um estalo na mente.

— Comentou, mas não me disse a segunda situação… – Lorrane dizia se lembrando.

— É até doentia… – Rachel disse se aproximando – Já vi muitos casos em que o suspeito faz algo contra si mesmo para deixar de ser suspeito, um álibi, uma pista falsa para que as investigações corram para outro rumo.

— Mandem oficiais até a mansão Felix, quero ele aqui o mais rápido possível. Quero notícias do estado de saúde do senhor Abel para que tenhamos o mais rápido possível a confissão dele e quero pra ontem informações do sequestro de Hector! – Lorrane falava autoritária.

Departamento de Polícia: entrada do prédio

— Quase dois anos após a misteriosa morte de Samanta Camil, a polícia reabre o inquérito e novos acontecimentos podem dar um desfecho bem diferente ao caso do que da última vez. – era a matéria que engrandeceria a carreira de Linus e com permissão de Apollo e de Rachel, sua equipe de reportagem já estava a postos na frente da delegacia, esperando por novos acontecimentos – Samanta Camil, mãe de gêmeas, e esposa de Apollo Camil ficou desaparecida por dez dias, encontraram seu corpo em um galpão atrás de um prédio de estacionamento. – Linus era um jornalista de escritório, mas conhecia pessoas que adorariam fazer a reportagem para a televisão e naquela hora, ele ajudava sua colega a repassar as informações de frente para uma câmera que sintonizava um canal de TV ao vivo. – À época o laudo oficial da polícia investigativa foi de suicídio, mas novas informações constam que Samanta foi assassinada e seu principal suspeito é o herdeiro Felix: Dylan.

— Empresas Felix podem ter ligação direta com a morte de Samanta Camil. – a mídia chegava aos poucos, mais noticiários locais se aproximavam da delegacia assim que foram informados do que estava acontecendo e do furo de reportagem.

— Eu vou lá dentro falar com Apollo… – Linus disse para sua equipe e entrou na delegacia muito movimentada.

Dia do desaparecimento de Samanta

Samanta subia para o quarto a fim de tomar uma ducha rápida, voltar para a sala e curtir o feriado em família, sabia que seria o último período de paz e sossego que teria antes da semana que se aproximava e ela tentaria fazer justiça denunciando seu melhor amigo e perdendo seu emprego. Seu erro foi avisar Dylan Felix sobre seus planos futuros.

O celular de Samanta tocou, ela sabia quem era e atendeu pronta para desligar a chamada na cara de seu melhor amigo, não queria que ninguém perturbasse seu feriado, mas era só o começo de uma longa noite para aquela mulher.

— Não me interessa o que tem a dizer, eu estou decidida. – ela disse ao atender o celular.

— Sam, por favor, podemos conversar? Por favor.Dylan falava do outro lado da linha.

— É feriado, estou com minha família, semana que vem a gente conversa, ou melhor, eu te denuncio.

— Não quero machucar as meninas… – Dylan disse sabendo que conseguiria fazer Samanta ir ao seu encontro, a respiração ofegante da mulher do outro lado da linha provou aquilo – Te mando o endereço por mensagem.

Samanta, desesperada, só teve tempo de deixar um bilhete com data para seu marido e desceu as escadas correndo, pegou sua bolsa e a chave do carro e foi ao encontro do que já tinha sido um dia seu melhor amigo, seu confidente.

Ao entrar no prédio do estacionamento, Samanta tinha seu coração apertado, sabia que estava prestes a acontecer alguma coisa, mas preferiu não verificar se seu melhor amigo blefava ou não quando disse que machucaria suas filhas, começou a se lembrar das tentativas de entrarem em sua casa e se perguntou se não teria sido Dylan quem mandou fazer aquilo. Ao subir no terceiro andar, como indicou o rapaz por mensagem, Samanta quase não respirava de tanta dor no peito, avistou Dylan de frente para o carro dele, sabia que tinha mais alguém no carro estacionado, hesitou se iria mesmo prosseguir. Desligou o carro e desceu, ficou perto da porta, a lua era a única coisa que iluminava melhor aquele lugar, as luzes eram tão fracas que quase não serviam para nada.

— Sam, se fizer isso eu posso ser preso… – Dylan falava caminhando devagar até Samanta.

— Pensasse nisso antes de ir pra esse lado. – Samanta dizia tentando não deixar transparecer na voz que quase chorava.

— Sam, podemos chegar num acordo, te dou 45% de tudo! – Dylan tinha esperanças naquele acordo.

— Você vai ser preso, Dylan.

— Ok, 50%! – ele aumentou a oferta – 50%, menos horas de trabalho, qual é! Não tem como recusar isso! – do carro de Dylan, Samanta viu descer dois homens altos e bem encorpados, sabia que se não aceitasse aquela proposta não veria a luz do sol novamente, já não continha as lágrimas, mesmo com a escuridão do ambiente Dylan ia conseguir vê-la chorando desesperada, pensava apenas que deveria ter abraçado suas filhas, talvez esperado Apollo chegar – Não posso oferecer mais que isso, vamos lá, Sam, o que me diz? – Dylan estava mais próximo, o olhar dele era irreconhecível para a mulher que achava que o conhecia há tanto tempo, era um olhar sem emoção, um olhar que indicava que a resposta que ela daria a levaria para debaixo da terra. Rapidamente ela tocou em seu pulso esquerdo e sentiu a pulseira que Apollo tinha lhe dado tantos anos atrás, não sabia do que aquilo valeria, mas a puxou com força de todo jeito e segurou a pulseira, com o fecho arrebentado, na mão fechada.

— Dylan, sou eu que te faço uma proposta, saia dessa vida, você não era assim, quando foi que o dinheiro passou a ter tão mais importância pra você? – ela falava com a voz tremida, os homens se aproximavam dela, Dylan estava cara a cara com Samanta.

— Sam, se não vai aceitar minha oferta, eu só posso dizer que sinto muito… Não queria mesmo que isso acontecesse…

— Pode passar o tempo que for… – ela soluçou baixo – Mas você vai preso sim, Dylan, ainda vão descobrir tudo… 

— Creio que não, eu compro o que e quem eu quiser, Sam. – Dylan sorriu sarcástico.

— Não vai me comprar. – Samanta disse, os dois capatazes estavam ao lado dela.

— E eu sinto muito por isso. – ele fez sinal com a cabeça e voltou para seu carro.

Samanta jogou a pulseira no chão no momento que sentiu seus braços se partindo e um grito ecoou de sua garganta. Naquela hora, ela tentou se apegar nas memórias boas que teve com sua família, talvez fosse menos doloroso se ela tentasse enganar sua mente.

Departamento de polícia

— Temos uma localização! – a equipe responsável pelo rastreamento do celular de Hector Rodriguez dava a notícia a plenos pulmões.

— Vão, vão, peguem a viatura e vão, me mantenham informada pelo rádio. – Lorrane Flores falava.

— Vou junto. – Rachel disse de prontidão e nada a faria ficar sentada esperando, ela pegou seu coldre com a arma e foi com mais alguns policiais para o local que estaria sendo rastreado o celular do filho.

— Daniel! – Flores gritou no meio do alvoroço – Reúna um pequeno grupo, preciso de oficiais prontos para entrar em contato com o delegado Thomas que trabalhava aqui, bem como o investigador que encerrou o caso. Eles vão ter que nos prestar muitas explicações. – Daniel e outros oficiais seguiram as ordens de Lorrane – Quero informações da busca por Dylan Felix!

— Delegada, nem ele nem o marido estão na mansão, não são vistos desde hoje de manhã pelos funcionários…

— Ou eles sabiam que a bomba ia explodir por lado deles e fugiram, ou estão com Hector… – ela disse preocupada com o filho de Rachel, sabia muito bem o desespero que era ter o filho em perigo e faria o impossível para que Hector voltasse em perfeitas condições para sua família.

— FBI e Interpol vão entrar no caso se eles saírem do país. – o detetive de plantão informava.

Estrada de terra, 40 minutos da última saída da cidade

A estrada estava deserta, sem iluminação e nas laterais campos de plantação se estendiam pela escuridão que não parecia ter fim, dois carros da polícia dirigiam a toda velocidade por aquele terreno, o sinal do rastreamento dava para aquele lugar. De dentro de um dos carros, Rachel chorava pensando no pior.

— Calma… – o policial que dirigia tentava falar com Rachel, ela tinha avisado seu marido em casa e seguiu viagem para tentar buscar seu filho.

— Se estamos até aqui ou é um álibi ou… – ela soluçou – Já vi coisa parecida nos meus anos de profissão…

— Me escuta. – o policial falou em um tom firme – Você nunca erra, mas dessa vez eu tenho certeza que errou, seu filho está aqui, eu tenho certeza e ele está bem! – Rachel não conseguiu falar mais nada, seu coração se comprimia conforme se aproximavam de onde o rastreador indicava.

Pouco antes do destino final, Rachel viu pela janela algo se mexer no meio da plantação.

— Para o carro! – ela gritou e seu colega freou bruscamente. Rachel mal esperou o carro parar direito para sair correndo.

— Rachel, espera! – o policial saiu junto com Rachel já empunhando a arma na mão. As sirenes e as lanternas do carro iluminavam o lugar, assim como a lua um pouco tímida naquela noite.

— Mãe! – Hector mancava, estava com o olho inchado e a boca sangrando, segurava a barriga enquanto andava quase arrastando a perna para fora da vegetação assim que percebeu que os carros que se aproximavam tinham sirenes, respirou com dificuldades, mas aliviado, não estava mais em perigo.

— Hector! – Rachel abraçou o filho com força enquanto os outros policiais faziam uma varredura pelo local em busca dos criminosos.

— Eles se mandaram, mãe. – Hector dizia com a respiração descompassada – Receberam uma ligação, ficaram furiosos e descontaram a raiva em mim, iam me matar, eu sabia que iam, não sei como consegui sair daquele casebre, mas corri com toda a velocidade que tinha na hora e entrei nessa plantação, eles desistiram de me procurar e eu fiquei aqui, esperando algum milagre…

— Ninguém vai te matar, ok? Eu tô aqui, você tá a salvo… – Rachel abraçava o menino com força, Hector não se importava com as dores que sentia, recebia o abraço da mãe com muita alegria – Pra que lado fica esse tal casebre? – Rachel perguntou levando o filho até o carro da polícia.

— Pra lá… – Hector apontou a direção e os oficiais que acompanhavam o carro que Rachel estava, foram até lá para verificar a área.

— Entra no carro, filho, vou te levar pra casa… – a mulher dizia aliviada.

Duas semanas depois, casa do Apollo

— Dylan Felix e seu marido ainda não foram encontrados, FBI e Interpol estão no caso, se você tem informações sobre os dois, entre em contato com nossas equipes pelo site indicado na tela. – a televisão estava ligada e todos os noticiários relatavam a mesma notícia: a conclusão correta do caso de Samanta e a fuga de Dylan e seu marido.

— Com a fuga eles já se auto proclamavam culpados, mas com a confissão do dono do estacionamento foi o ponto chave para que tudo se encaixasse… – Linus estava lá naquela hora, foi convidado a pedido de Apollo.

— Aceitou dinheiro pra fingir que não viu nada, pra fingir que não viu levarem a Sam… – Apollo chorava ao se lembrar do relato com detalhes fortes que Abel Mahal confessou à polícia.

— Você estava certo, Apollo… – Linus falou se aproximando do rapaz – Samanta com certeza estava te ajudando… – eram palavras que doíam, mas que traziam conforto – Dylan pagou todo mundo pra ficar quieto e eu tenho certeza que Samanta estava o tempo todo tentando te ajudar a desvendar toda essa teia silenciosa, desde o cara do estacionamento, até o delegado e o investigador…

— O que vai fazer com as entrevistas? – Apollo perguntou sorrindo entre as lágrimas.

— Posso arquivar se for seu desejo. – Linus respondeu compreensivo.

— É a matéria da sua carreira Linus, tem minha permissão para fazer o que bem desejar… – Apollo sorriu – Seu amigo, ele se recuperou?

— Marcus? Sim, graças a Deus tiraram o veneno do organismo dele a tempo… – Linus respondeu e olhou ao redor da sala, a família de Samanta estava lá e a de Apollo também, Rachel, seu marido e seu filho faziam parte daquele convite ofertado por Apollo – Não sei ainda o que vou fazer com a entrevista, Apollo, mas gostaria de dizer algumas palavras? – todos ficaram em silêncio esperando o discurso de Apollo.

— Sam sempre foi boa e justa. Mesmo que eu levasse minha vida toda eu tentaria trazer justiça pra ela, e finalmente conseguimos isso… – Apollo chorava, ao seu lado, na sala, tinha agarradas em suas pernas as filhas gêmeas – Que finalmente ela descanse em paz… – ele pegou o copo de água que tinha na mesa da sala e ergueu no ar para brindar a sua mulher, os que estavam com copos nas mãos fizeram o mesmo – Descanse em paz, Sam…