Parte 1

Augusto

Nosso pai perdeu tudo o que tinha inclusive nossa mãe que, sem saber ao certo como pensar ou no que fazer, decidiu que a melhor opção era nos deixar. Antes, éramos seis em uma casa simples com dois quartos, uma minúscula cozinha, um banheiro e uma sala apertada. Passamos a ser cinco sem a presença de nossa mãe e então, um dia, depois de mais uma noite fora virando garrafas de cachaça pelas ruas e perdendo a noção de si, meu pai foi encontrado morto.

A polícia não se envolveu muito no caso, família pobre não gera ibope, mas sabíamos que a morte dele tinha sido acerto de contas. Nosso pai devia tudo, talvez até mesmo eu, meus irmãos e minha irmã. Foi um dia extremamente perturbador, estávamos ainda digerindo toda a situação na sala, pensativos, tristes, sem rumo, até que Maria Fernanda se levantou e saiu de casa.

Como a mais velha dos irmãos, talvez ela estivesse sentindo que toda a responsabilidade estava nas costas dela, apenas 20 anos, mas com um mundo sombrio para enfrentar. Rômulo não disse nada, muito menos meu gêmeo, Bernardo. Apenas esperamos e Maria Fernanda não voltou. Estava preparado para aceitar que aquela família se desfazia, aceitar que logo mais Rômulo iria embora também, e então eu e Bernardo deveríamos decidir o que fazer, se seguiríamos juntos ou se seria cada um por si.

No quarto dia sem notícias de Maria Fernanda, extremamente preocupados e sem comida na dispensa, Rômulo pensava e caminhava pela sala. Ele era o segundo mais velho, todos nós formávamos uma escada de idade, Mafe, Rômulo no auge de seus 19 anos, Bernardo e eu quase entrando na vida adulta não mais tão esperada, pelo contrário, muito temida. Quase ao ponto de explodir de tanto pensar, Rômulo parou sua andança pela sala e se virou para a porta. Escutamos o portão da frente abrindo, a maçaneta da porta da sala girar e Maria Fernanda entrar em casa com a mesma roupa que tinha saído quatro dias atrás. Ela não disse nada, mas trazia consigo uma bolsa a tiracolo, colocou a bolsa no sofá da sala e deu para cada um de nós um rolinho de notas altíssimas.

Na minha frente e na frente de Bernardo ela não disse nada, mas durante aquela noite de surpresas e reencontros eu sabia que Rômulo e Mafe conversaram a noite toda no quarto que era de nossos pais, falavam baixo porque talvez imaginassem que eu e meu gêmeo estaríamos à espreita. No dia seguinte os dois agiram como se nada de anormal tivesse acontecido e meses depois Maria Fernanda nos mudou da casa simples na periferia para um gigantesco apartamento na área nobre da cidade.

Quando Bernardo e eu completamos 18 anos, Maria Fernanda e Rômulo nos reuniram na grande sala que tínhamos no apartamento e nos apresentaram o novo negócio da família. E daquele dia em diante tudo fluiu muito bem por anos, até o dia que Mafe disse que nos apresentaria seu novo namorado.

— E quem é dessa vez? – Rômulo perguntou rindo na sala, os anúncios de Maria Fernanda sempre faziam meu irmão mais velho rir.

— Me respeita, Rômulo! – Maria Fernanda sorria – Na hora certa vocês vão conhecer…

— Tenho certeza que é o Kleber, falando nele, ele disse que tinha o que pediu e que você tem que ir lá buscar… – Rômulo falou distraído, verificava seu celular.

— Amanhã eu passo lá, hoje vou sair com meu namorado, e não se atrasem no aeroporto amanhã! – Mafe disse mandando um beijo no ar para Rômulo, mas sempre que se despedia de mim e de Bernardo nos dava um beijo na bochecha.

— Maria Fernanda, eu não vou assumir nenhum compromisso seu na agência! – Rômulo disse vendo Mafe já com a bolsa no braço abrindo a porta do apartamento.

— Não precisa, Be concordou em me ajudar, não é Be? – ela olhava para meu gêmeo que sorriu e levantou o braço mostrando as notas de dinheiro que Maria Fernanda tinha entregado a ele.

— Vou fazer uma média lá, mostrar que ainda sou o gêmeo mais bonito… – mostrei o dedo do meio pra ele.

— Ok, mas se temos que estar no aeroporto amanhã cedo, como vai conseguir tempo de buscar as coisas no Kleber? – Rômulo sempre se recusava a ir até a casa de Kleber.

— Guto? – Mafe olhou pra mim pidona e por mais que eu amasse minha irmã, aquela era uma função exclusiva dela.

— Augusto na periferia, Maria Fernanda?! – Rômulo sempre me salvava.

— E vocês vieram de onde?! Só me recordem… – Maria Fernanda estava séria.

— Mas acontece que somos visados e desde sempre foi você que manteve contato com eles nas suas “ações sociais”! – Rômulo fez aspas com os dedos.

— E eu acho excelente pra imagem de vocês três que sigam meu exemplo! – Maria Fernanda até certo ponto tinha razão.

— Ok, eu vou… – disse cansado de escutar aquela gritaria, minha noite tinha sido agitada e eu tinha acordado com dor de cabeça.

— Viu, por isso prefiro meus caçulinhas gêmeos… – Maria Fernanda me deu outro beijo na bochecha e abriu a porta – Não se atrasem amanhã, portão de embarque sete!

— Vai dormir com o namoradinho pra nem estar presente quando a gente embarcar? – Rômulo disse rindo.

— Não se atrasem! – Mafe bateu a porta atrás de nós.

— Be, segue ela, se o cara não é o Kleber eu tenho até medo de quem possa ser… – Rômulo disse saindo na sacada do apartamento e olhando para a rua vinte andares distante.

— Não adianta a gente tentar descobrir as coisas da Mafe assim, você sabe, e eu tenho que fazer a média na agência, falar que está tudo certo pra viagem… – Bernardo se levantou e pegou a carteira – Até mais tarde.

— E você, Guto? Vai no Kleber mesmo? – Rômulo perguntou, levantei do sofá cansado.

— Vou, né…

— No quarto da Mafe, no closet dela tem uma parte com as caixas de cestas básicas, leva algumas pra disfarçar… – sabia como Mafe lidava com o Kleber, mas nunca cheguei a acompanhar todo o processo, me trazia muitas lembranças voltar pro lugar que nasci, assim como devia trazer à tona momentos ruins para o Rômulo. Ele nunca acompanhava Mafe, nem no carro – Vai com o outro carro.

— Pode deixar… – disse um pouco apreensivo, peguei a carteira e a chave do carro que Maria Fernanda sempre usava para ir até a periferia, já que os nossos eram de luxo, e desci até a garagem.

O caminho não era tão distante, a diferença social na capital paulista estava em cada esquina que procurássemos. Maria Fernanda quando nos mudou para um apartamento de luxo sempre soube que teria que estar perto de onde nasceu e cresceu, por isso o Morumbi foi o bairro escolhido por ela, de lá até Paraisópolis não demoraria tanto quanto se estivéssemos no centro mais visado pela alta sociedade como Jardins ou Moema.

O carro não era de luxo, mas ainda assim chamava um pouco de atenção por ser um modelo um pouco recente, era um veículo popular, diferente das marcas que tínhamos na garagem. Coloquei no GPS o caminho para a casa de Kleber, já tinha algum tempo que não frequentava Paraisópolis e depois que nos acostumamos com a vida que tínhamos acabei deixando no esquecimento as ruas por onde já brinquei, corri e até fugi de um policial ou outro.

Kleber me esperava no portão, alguma criança ou algum informante deve ter avisado ele que o carro que Mafe usava estava subindo as ruas, mas o sorriso do rapaz, que eu tinha certeza  que mantinha algo mais carnal com minha irmã, sumiu de seu rosto quando eu desci do carro um pouco sem jeito.

— Ora, ora… – ele disse voltando a sorrir, mas não do jeito ansioso de antes de eu aparecer no seu campo de visão.

— Mafe tá ocupada… – disse antes que ele perguntasse.

— Sei bem as ocupações de Maria Fernanda… – ele sorriu, Kleber era sobrinho de um dos homens mais temidos daquela região, nos conhecíamos desde criança, sabia que na adolescência ele vivia atrás de Mafe, se eles chegaram a ficar, nenhum dos dois chegou a admitir, mas no fundo sabíamos que sim e que aquilo ainda era frequente – Seremos rápido então! – ele deu sinal para dois rapazes ao seu lado – Conhece os esquemas, Gutinho? – odiava quando me chamavam daquele jeito.

— Fazer uma média, entregar as caixas, pegar a encomenda e ir embora. – disse abrindo o porta-malas do carro.

— Mafe te treinou bem! – ele sorriu – Bom, leve uma caixa ali na dona Dirce, outra na casa do seu Afonso… – ele olhava para as caixas que estavam no porta-malas – E essa última na casa da Cleusinha, ela acabou de ser demitida, vai precisar mais do que qualquer um agora…

Conhecia toda aquela vizinhança, conhecia a maioria das pessoas que olharam pelas janelas assim que saí do carro, as lembranças voltavam e eu só queria ir embora, não sabia como Maria Fernanda conseguia fazer aquilo todo mês, sozinha.

— Bernardo! – dona Dirce nunca adivinhava quem era quem e sempre me chamava pelo nome de meu irmão, não sabia se ela nos confundia quando estava só com Bernardo, tinha meu palpite de que ela sempre preferiu meu gêmeo.

— Augusto, dona Dirce… – disse indo até o portão de ferro enferrujado da senhora baixinha e magra que me esperava com um pano de prato no ombro e braços abertos.

— Vocês são iguaizinhos… Eu nunca soube distinguir vocês desde quando a Ágata pariu… – lembrar de minha mãe era pesado.

— É, mas isso é só na aparência, dona Dirce, garanto que sou bem mais legal que o Bernardo… – ela riu e me abraçou – Trouxe uma cesta pra senhora, onde posso colocar? – disse voltando a pegar a caixa no chão.

— Na cozinha, filho, venha! – ela me guiou até para dentro da casinha simples, mas que ainda assim era maior do que a que eu e meus irmãos vivíamos em outros tempos – E como estão no trabalho? Gabriela vive dizendo que acompanha vocês pelo negócio lá… Estragão!

— Instagram, dona Dirce… – ela riu e eu também.

— Isso, isso! Ela disse que vocês estão muito bem, é verdade que estão viajando direto?

— Sim, inclusive amanhã vamos pra outro país a trabalho… – coloquei a cesta básica na mesa da cozinha de dona Dirce.

— Então tenham uma boa viagem, tá? Manda um beijo pros seus irmãos! Vocês tem que vir aqui mais vezes, eu faço a torta de frango que vocês adoravam comer!

— Vamos vir sim! – era mentira, mas não podia desapontar aquela senhora que cuidou muito da gente na infância.

Depois de todas as cestas básicas entregues e alguns minutos de conversa com a vizinhança, voltei para a casa de Kleber, ele me esperava com algumas caixas no chão ao seu lado.

— Está tudo certo? – perguntei olhando para as caixas de plástico.

— Se não estiver sua irmã me mata, e eu zelo pela minha vida… – ele riu – Mas se quiser conferir, seja discreto…

— Não, vou confiar em você, afinal, Mafe acabaria mesmo com sua vida se estivesse errado… – peguei as caixas no chão e coloquei no porta-malas do carro, estavam um pouco pesadas.

— Vão pra onde, amanhã? – Kleber puxava assunto.

— Milão. – respondi fechando a porta – Mafe disse que vai te depositar ainda essa semana, não sei como funcionam as coisas entre vocês…

— Do melhor jeito possível… – ele puxava do bolso um pacotinho – Tome, prometi a Mafe que daria esse presente pra ela, mas é pra ela, hein! Depois vou me certificar se ela recebeu… – peguei a embalagem e coloquei no meu bolso – Boa viagem, gêmeo dois! – não me despedi de Kleber, liguei o carro e só não saí de lá voando porque tinha que manter a postura.

Bernardo

— Estava com saudades?! – disse entrando na agência e indo cumprimentar minha linda Franciele, a recepcionista e secretária mais maravilhosa do mundo.

— Do Augusto sim, de você, nunca. – ela era um doce – O que veio fazer aqui? Não tem que fazer as malas pra Milão?

— Vim me despedir de você, Fran… – beijei a bochecha dela e ela me empurrou com força – Fran, quando vai admitir que eu sou o gêmeo que você quer?

— Quando eu ficar louca. O que veio fazer aqui, Bernardo? Cadê a Maria Fernanda? – ela andava pelo corredor encarpetado do lugar com uma prancheta na mão, eu sempre a seguia, era louco por ela.

— Mafe teve um compromisso, me implorou pra cumprir a agenda dela de hoje e eu, como um excelente irmão, vim!

— Eu já posso imaginar quanto ela te pagou pra isso… – Franciele era uma beldade, curvilínea demais para ser uma modelo na agência, mas ainda assim era a mulher mais linda de todo o prédio que Maria Fernanda construiu – Bom, já que vai cumprir a agenda dela, hoje temos um ensaio fotográfico com a Helena e com a Júlia, você precisa falar com o Thomas e… – ela parou de andar e me olhou sorrindo, eu sabia que viria uma missão difícil – Convencer o Gabriel de que ele precisa ir pra Milão com vocês…

— Ah não, não me diga que ele surtou de novo?! – eu odiava bancar a babá.

— Bom, Mafe tem o jeitinho dela, só posso te desejar boa sorte…

— Quebra essa pra mim, Fran, eu faço o que você mandar, juro!

— Vai parar de me encher o saco? – ela sabia que não e minha expressão deve ter sido o suficiente pra fazê-la rir e voltar para seus afazeres. Deixaria o modelo surtado por último, era primordial que eu falasse com Thomas antes de qualquer coisa, subi dois andares e entrei na sala do braço direito de Maria Fernanda naquela agência de modelos. Ele me olhou de trás da mesa e me analisou por alguns segundos, seu celular apitou, ele olhou a tela e sorriu.

— Franciele me disse que é o Bernardo… – ser igual ao meu irmão sem nenhum detalhe físico diferente era um carma e às vezes uma bênção.

— Qual é, eu sou três centímetros mais alto que o Augusto!

— Desculpa, Bernardo, eu só consigo identificar vocês quando começam a falar… Augusto é muito mais…

— Almofadinha? – completei.

— Elegante. – ele sorriu – Sem ofensas… – Thomas era um jovem empresário que ajudou Maria Fernanda na agência de modelos que minha irmã criou, ele cuidava de algumas finanças e principalmente ajudava Mafe nos seus trabalhos particulares – Bom, pelo o que fui informado vocês vão para Milão amanhã e Maria Fernanda daqui dois dias…

— Sim, sim, Augusto foi buscar as encomendas… – disse já sabendo porque deveria falar com Thomas.

— Ótimo. Sabe quantas caixas temos? – Thomas anotava tudo em seu notebook.

— Guto ainda não falou nada, mas acredito que no máximo três, Kleber tinha dito que não ia ser muito…

— Me informe assim que souber, talvez elas vão com vocês amanhã, foi o que Mafe tinha comentado na reunião de ontem…

— Ok… – disse quase saindo da sala de Thomas – Escuta, o Gabriel surtou de novo, será que você não poderia… – queria me livrar da função de ser babá de Gabriel, ninguém gostava daquilo, eu muito menos.

— Se está cumprindo a agenda de sua irmã, terá que dar conta, Bernardo… – saí da sala dele com ódio no olhar pelo surtado do Gabriel, mas ainda deixaria aquela missão por último.

As meninas que seriam fotografadas estavam terminando a maquiagem, trabalhávamos com marcas grandes e internacionais, aquele ensaio era para a representante da Elle Brasil, Helena e Júlia eram lindas, e o ensaio das duas seria em contraste de tom de pele, Helena era negra como Maria Fernanda, a melanina da minha irmã e de Rômulo era escura como a de nosso pai, eles com certeza eram filhos dele com nossa mãe, já eu e Augusto tivemos que suportar uns olhares bem desgostosos do nosso pai adotivo por sempre saber que eu e meu gêmeo éramos frutos de uma traição de nossa mãe com alguém tão branquelo quanto ela.

Dizem que meu pai só não matou minha mãe porque já tinha passado os oito meses e meio de gestação ansioso pelos gêmeos, mas que sua surpresa ao ver dois bebês claros e com fios de cabelo loiros no hospital foi um dos marcos pra ele começar sua vida nas bebidas e só encerrá-la quando alguém o matasse ou ele caísse morto em alguma sarjeta.

Helena era como Maria Fernanda, negra, e Júlia era nossa modelo que requeria mais cuidados, ela era albina, até mesmo a exposição das luzes dos flashes das câmeras teria que ser trabalhada com todo o cuidado possível, e por aquele fato Júlia era um nojo de pessoa, mas sabia ser profissional.

— Mafe não veio, Bernardo? – Helena me perguntou assim que entrei no estúdio.

— Ora, ora, sabe quem sou de primeira ou alguém te informou? – disse sorrindo.

— Bom, eu tenho meus truques pra diferenciar você do Augusto… – ela piscou pra mim.

— Deixa suas tentativas de flerte pra depois, vamos gente, vocês sabem que o sol do meio dia vai acabar comigo e eu preciso voltar pra casa antes disso! – Júlia começava suas exigências.

— Ok, vamos Júlia… – Helena puxou seu contraste humano pelo braço até a área de fotografias, eu gostava muito do cabelo de Helena, era todo volumoso e crespo, o de Maria Fernanda era assim antes de ela alisar, apesar de achar o cabelo liso e super comprido de Mafe bonito, eu achava o de Helena muito mais espetacular.

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Mafe

(Anos atrás)

Era ironia estar chovendo num dia desastroso como aquele, era ironia tudo aquilo estar acontecendo, só podia ser Deus rindo da minha situação, só podia ser algo divino querendo que nossa vida fosse ainda pior do que já era. Não fiquei para ver como contaram os detalhes de encontrarem meu pai morto em uma sarjeta, eu precisava do meu momento para pensar, era a irmã mais velha e agora tudo dependeria de mim mais do que nunca e também de Rômulo, tínhamos dois irmãos caçulas para cuidar e nada estava ao nosso favor.

Saí de casa e fui para o único lugar que talvez fosse me dar alguma solução emergencial, sabia que não deveria ter subido a ladeira tão alto, mas estava na hora de saber em quem eu podia realmente confiar, porque estava na cara que os vizinhos já tinham se escondido em suas casas e fechado as cortinas pra que a gente não procurasse por eles. Já tinha batido com força na porta descascada de madeira branca e bem manchada, ninguém parecia querer me atender.

— Kleber! – eu sabia que ele estava em casa àquela hora – Kleber! – com a chuva a temperatura começou a cair, eu já estava toda molhada e começando a tremer de frio quando a porta se abriu.

— Mafe?! – ele me olhou incrédulo – O que aconteceu? Entra aqui, sua louca! – ele me puxou para dentro da casa, me senti mais aquecida na mesma hora.

— Acharam meu pai morto, a gente não sabe se foi a facção, se ele morreu de tanto beber, isso não importa, eu preciso de ajuda… – disse acompanhando Kleber até o quarto dele, ele me puxava pela mão nos corredores.

— Toma, tira essa roupa e toma um banho, vou pegar alguma coisa seca pra você vestir. – ele me deu uma toalha e saiu do quarto, o banheiro ficava no corredor, sabia que era o melhor a fazer, então tomei uma ducha rápida, quando voltei para o quarto dele uma calça e uma camiseta estavam na cama.

— Estão limpas… – ele disse e se virou pra parede.

— Deixa disso. – disse tirando a toalha do corpo e me vestindo sabendo que Kleber me olhava – Você sabe que eu não tenho como bancar meus irmãos e eles precisam de mim… – meu desespero voltava – Rômulo ainda não conseguiu emprego, e eu e ele já tínhamos combinado que não iríamos permitir que os meninos parassem de estudar pra trabalhar… A gente já não tinha quase nada, Kleber, o que vai ser dos meus irmãos? Eu pensei de ir pra Augusta…

— Tá maluca?! – Kleber me olhou sério, ele tinha começado a deixar um bigodinho crescer em seu rosto que só o deixou mais sério e mais velho do que realmente era.

— Eu não tenho como cuidar deles, se eu precisar ir pra Augusta pra dar de comer pros meus irmãos, eu vou!

— Fica aqui, tá bom? Eu vou falar com meu tio, ele vai te ajudar… – conhecia muito bem a fama do tio de Kleber.

— Não seria quase o mesmo que ir pra Augusta? – perguntei cansada e sentei na cama.

— Não. – ele disse e sorriu, depois me deixou sozinha no quarto e só retornou algumas horas mais tarde – Fique aqui até que meu tio resolva sua situação, não vai demorar, amanhã eu te levo pra falar com ele pessoalmente.

— Preciso avisar meus irmãos… – disse preocupada com eles e sabia que eles estavam preocupados comigo.

— Melhor não, confia em mim, fica aqui e só volte pra lá depois que falar com meu tio, tá? – ele sentou na cama do meu lado – Como você tá?

— Desesperada.

— Não, quis dizer com relação ao seu pai…

— Depois do Be e do Guto eu nunca mais tive pai, então eu não tenho nem como sentir alguma coisa, Kleber, mas estou preocupada com eles, acha mesmo que seu tio pode me ajudar?

— Tenho certeza, mas é melhor vocês conversarem amanhã… Tá com fome?

— Um pouco…

— Então vamos ver o que podemos fazer pra comer… – ele me puxou pela mão até a cozinha.

Quando era pequena, cresci com muitas crianças ao meu redor, e Kleber sempre descia a ladeira pra vir brincar com a minha turma, desde sempre não era bem visto na região da comunidade que eu morava, por ser sobrinho do chefe da facção ele herdou a fama do tio e só piorou depois que a mãe dele morreu e seu tio teve que assumir ele como se fosse filho.

Ele era a criança mais insuportável daquela favela, e comigo era pior. Foi só na adolescência que passei a perceber que Kleber era implicante comigo porque gostava de mim e eu retribuía a implicância porque também tinha uma quedinha por ele. Depois que minha mãe foi embora sem dizer para onde e meu pai passou a piorar suas doses de bebida depois que Bernardo e Augusto nasceram frutos de uma traição, eu e meus irmãos ficávamos a nossa própria sorte por muito tempo.

Kleber se aproximou ainda mais de mim quando percebeu que meu pai já não era uma ameaça, mas eu temia pelos meus irmãos, ele era sobrinho do chefe da facção, qualquer coisa que desse errado poderia sobrar pra minha família, mas a atração que a gente sentia um pelo outro era um pouco mais forte do que pensar que estava me envolvendo com alguém da facção e, enquanto subia ainda mais a ladeira da comunidade pra falar com o tio de Kleber, eu pensava que talvez, naquele momento, eu também já estava começando a fazer parte do grupo tão temido.

Conforme chegávamos ao topo, as casas ficavam maiores e ocupavam mais espaço do que os lugares que eu já estava acostumada, estava de fato entrando em uma zona perigosa, olhei de relance para cima de uma das casas, na laje eu podia ver um rapaz olhando para mim, ao seu lado, apoiado no muro, eu via o cano de uma arma encostada como se fosse um mero brinquedo. Meu coração estava disparado, mas eu precisava ter sangue frio, era aquilo ou me prostituir na Augusta e por mais que a escolha fosse um pouco óbvia, eu tinha que pensar em longo prazo, e me vender pra qualquer um poderia me matar de qualquer doença mais cedo que eu imaginava.

— Não acredito que estou fazendo isso… – falei baixinho.

— Fica calma… – Kleber tinha me escutado e me olhou sorrindo – Meu tio sabe quem é você, ele conhece todo mundo e bom… – ele sorriu ainda mais largo – Como ele é um pai pra mim, sempre me ajudou e fez minhas vontades, e sabe que eu tenho uma queda por você…

— Você não presta, Kleber! – disse rindo, mas ao mesmo tempo estava nervosa – Não sabia da existência de casas tão grandes assim aqui em cima… – eram casas grandes, não muito chamativas, mas eu sabia que o interior daquelas “mansões” na favela era bem luxuoso.

— Todas são do meu tio, mas ele divide com a turma! – turma… Era um jeito novo de chamar a facção – E mantém a que eu tô pra disfarce, é claro…

— Claro… – Kleber parou na frente de uma casa grande, muro alto e com um portão de ferro todo fechado. Deu umas batidas sincronizadas no portão e esperou.

— Tio! – eu nunca tinha visto o chefe da facção, não sabia nem como imaginar ele fisicamente, mas talvez fosse bem diferente do que eu estava vendo naquela hora que o portão foi aberto – Trouxe a Mafe… Digo, Maria Fernanda… – Kleber voltou a olhar pra mim sorrindo, ele era o tipo de cara que eu me perdia fácil no sorriso por ser de um tremendo filho da…

— A famosa! – o tio não ousou sair para fora do portão, apenas fez sinal para que eu e Kleber entrássemos – Como vai, Maria Fernanda? Talvez me conheça pela minha função, deixa eu me apresentar, me chame de Gil! – ele aparentava ser carismático, talvez fosse mais um disfarce, tinha a mesma pele morena de Kleber e muitas tatuagens assim como seu sobrinho, não parecia ter mais de 50 anos, mas conforme fui observando o interior daquela casa, percebi que ele tinha recursos o suficiente para permanecer com a aparência de jovem pelo tempo que quisesse – Binho me falou por cima o que aconteceu…

— Binho? – olhei pra Kleber e segurei a risada.

— Gil me chamava de Klebinho e então ficou o apelido… – Kleber revirava os olhos e ficava um pouco envergonhado.

— Achei que soubesse desse apelido dele, parecem bem íntimos pelo o que Binho me conta…

— Não sei o que ele te conta, Gil, mas eu preciso de ajuda urgente, pode me ajudar? – não era hora para discutir minha relação com Kleber na frente do tio dele super poderoso e perigoso.

— Ela é direta ao ponto, hein! – Gil sorriu e caminhou mais um pouco pela sala grande e cheia de objetos de luxo, passou por um corredor e entrou em um cômodo que parecia ser um escritório – Senta! – ele apontou para as cadeiras de frente para uma mesa de madeira talhada – Bom, Maria Fernanda, eu posso te ajudar, mas apenas se me ajudar também…

— O que tenho que fazer? – já sabia aonde ele queria chegar.

— Não quer nem ao menos saber o quanto ganharia para me ajudar? – Gil disse sorrindo para Kleber.

— Se for colocar comida no prato dos meus irmãos, já é o suficiente pra eu entrar no acordo.

— Bom, pra começar eu vou te testar com coisas poucas, tá? Eu sinto, Maria Fernanda, que você pode ser muito promissora aqui comigo… – o sorriso de Gil era um pouco intimidador, de certa forma eu sabia que não teria como sair da facção por conta própria e viver dois dias para contar a história.

— Ok, é só falar que eu faço. – disse pensando em meus irmãos.

— Se conseguir entregar o conteúdo desse pacote… – ele colocou um pacote em cima da mesa – Sem levantar suspeitas e sem ser pega, terá uma boa quantia em pouco tempo e aí depois disso a gente volta a conversar. – Gil empurrou o pacote pra perto de mim – Binho vai te ajudar na supervisão…

— Está bem… – disse pegando o pacote e abrindo um pouco para ver o conteúdo dele – Tem alguma tabela de preços pra eu ter noção do quanto vão pagar por isso? – apontei para o pacote, eles riram e fiquei confusa.

— Nossos clientes sabem o quanto vão pagar, só faça a entrega e o que sobrar se conseguir vender, é lucro seu. Nos vemos em breve! – era um sinal de que a reunião tinha acabado e eu estava oficialmente dentro da facção e oficialmente era uma traficante.

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— Agora me manda a real, Kleber… – disse assim que voltamos para a casa de Kleber, super cautelosos com o pacote dentro de uma mochila que ele trouxe da reunião com o Gil.

— A real é que o lugar é público, movimentado e cheio de burguesinho… – a missão de Gil parecia fácil, mas eu sabia que não era só entregar drogas por aí.

— Onde?

— Moema… – aquilo ia ser impossível.

— E pelo jeito você não vai me dar nenhuma dica de como eu posso me sair bem dessa, né?

— Olha, Mafe, querer eu quero, mas meu tio ia saber, então tenho que deixar por sua conta, mas estarei por perto se caso alguma coisa começar a sair dos trilhos…

— Qual o conteúdo disso aqui? – disse assim que entramos no quarto de Kleber e ele jogou o pacote na cama.

— O básico, se é pra começar, ia ter que ser coisa leve, Mafe, aqui a gente tem ópio… – ele mostrou um pacote menor embrulhado e quando abriu jogou pequenos saquinhos da droga no colchão – Ecstasy… – outro pacote como o do ópio foi aberto e jogado no colchão – LSD… – eu só tinha entrado em contado com maconha durante toda minha vida, aquilo era demais pra mim – E nossa amada, Maria Joana… – ele riu, era nosso código pra falar de maconha.

— E eu preciso entregar o quê e pra quem?

— Vou te passar a lista, mas essa nem é a pior parte…

— Além de ser em lugar público e movimentado eu ainda vou ter mais dificuldades?! – perguntei incrédula.

— Bom, sim… O LSD e a maconha você precisa entregar pra um cliente que vai estar no aeroporto amanhã…

— Você tá louco, né? – ria de nervoso – Kleber, isso é impossível! Eu não posso ir pra cadeia, tá me escutando! Meus irmãos dependem de mim!!

— Você precisa fazer a entrega, Mafe, se ele vai ser pego ou não é problema dele, faça a entrega e saia de lá o mais rápido que puder e depois a gente vai pra Moema e entrega as outras coisas…

— Cães farejadores vão tá cercando aquele lugar!

— Só faça a entrega, como ele vai levar a droga é problema dele… – Kleber falava calmo, e eu tentava entender como ele ficava tão tranquilo com aquela situação.

— Como vou fazer isso? Aonde vou levar essas coisas?! – ele me olhou com dó, sabia que ele não me daria mais nenhuma dica, por isso levantei da cama e saí da casa dele, precisava pensar e não tinha muito tempo, meus irmãos logo achariam que eu também os tinha abandonado como fez nossa mãe.

Me veio uma ideia na cabeça, parecia idiota, mas era meu jeito de improvisar pra pelo menos levar algum dinheiro naquela tramoia toda que eu me enfiava, andei por algumas ruas pouco frequentadas pelo pessoal da minha região na comunidade e entrei num armazém que mais parecia um boteco, estava com homens bebendo nas mesinhas de plástico da cerveja mais barata que tinha, um pouco sujo, a fachada nada convidativa, mas lá eu encontraria o que precisaria.

— Fernandinha, eu soube o que aconteceu… – um senhor baixinho veio ao meu encontro assim que saiu de trás do balcão.

— É… – não sabia o que responder, sabia que ele falava do meu pai – Seu Barnabé, preciso da sua ajuda, será que o senhor tem ainda aqueles vidrinhos bonitinhos com tampa de rolha?

— Ih, fia… – ele coçou a cabeça calva e com fios brancos nas laterais – Vou ver lá atrás… – vi o senhor ir para os fundos do armazém e fiquei esperando por alguns minutos – Ó, só tem esses aqui e tem uns três quebrado… – ele me entregou uma caixa de papelão com pelo menos uns vinte e pouco vidrinhos, sorri ao ver aquilo.

— Serve! Muito obrigada, seu Barnabé! – não esperei pra que ele puxasse assunto comigo, saí de lá o mais rápido possível e voltei para a casa de Kleber.

— Que que é isso, Mafe? – ele disse olhando a caixa com os vidros que coloquei em cima da cama.

— Tem algum pra me emprestar? Tô zerada… – não respondi, apenas pedi dinheiro pra ele.

— Pra que vai precisar de dinheiro agora? – ele perguntou desconfiado.

— Não sou eu que tenho que me virar pra entregar essas merdas, Kleber? Então me descola uma grana que preciso comprar uns negócios…

— Que negócios?

— Vai saber quando eu comprar, vai… – estendi a mão como uma criança pedindo moeda pra comprar doce.

— Quanto precisa?

— Cinquenta já me ajuda… – ele arregalou o olho – Vai, Kleber, eu vou te devolver, mas preciso do dinheiro agora! Quando eu voltar até te recompenso com outra coisa… – ele sorriu e pegou a carteira no bolso da mochila, estava cheia de notas altas de dinheiro – Se soubesse que a grana tava fácil eu pediria mais… – disse olhando para o dinheiro na carteira.

— Toma cem… – ele me deu duas notas de cinquenta.

— Só cinquenta tá bom…

— Os outros cinquenta são presentes… – ele se aproximou pra me beijar.

— Volto logo. – disse sorrindo e desviando do beijo dele.

Fui até uma lojinha que tinha perto de onde estava, sabia que lá encontraria o que precisaria e assim que comprei voltei para a casa de Kleber que me esperava na sala vendo televisão com uma garrafa de cerveja na mão, aquela visão me fez paralisar por alguns segundos.

— O que foi? – ele disse ao me ver estática.

— Nada… – me veio a lembrança de meu pai quando se entregou pra bebida, ele passava muito tempo no sofá com uma garrafa de cerveja ou pinga na mão, quando estava bêbado demais, em alguns dias, ele ameaçava bater nos gêmeos e eu saía em defesa deles, acabei levando tapas por entrar na frente deles pra proteger. Depois que o surto dele passava ele dava amor e carinho pras crianças, mas em pouco tempo já tinha outra garrafa de bebida na mão.

— O que tem aí? – ele perguntou pra sacola que eu trazia.

— Vem, vamos pro quarto, te mostro lá. – disse indo pro quarto dele, nosso mais novo quartel general – Minha ideia é camuflar, camuflar até mesmo pro cara do aeroporto, então veja bem, essa aqui é a água de colônia mais barata que existe e o cheiro dela é tão forte que me dá dor de cabeça… – mostrei o frasquinho do perfume falsificado que comprei na lojinha – A gente põe as drogas num saquinho bem embalado assim… – comecei a exemplificar – Coloca nesse vidrinho todo bonitinho… – coloquei o primeiro pacotinho das drogas em um vidrinho – Enche com o perfume fajuto…

— Puta merda, que cheiro horrível! – Kleber disse assim que abri o frasco da água de colônia.

— É, né? – disse rindo – Camuflagem… – disse terminando o processo e coloquei o perfume no vidrinho com a droga e também com a rolha apertando bem pra não vazar.

— O animal que farejar isso morre, certeza! Ou vai ser um robô! – ele riu, mas sua expressão ainda era de sentir nojo do cheiro do perfume.

— Então a gente põe numa embalagem dessa… – peguei uma sacolinha de papelão que comprei na lojinha, era de um tom cru, mas era bonita apesar de simples, coloquei o vidrinho da droga lá dentro, amarrando depois a sacolinha com um fitilho – E o presente está pronto pra ser entregue!

— Maria Fernanda… – Kleber me olhava sorrindo do jeito que eu não resistia.

— Que…

— Fecha essa merda de perfume… – ele me puxou pra perto dele e acabei sentando em seu colo – E vamos comemorar sua ousadia e super inteligência… – ele beijou meu pescoço.

— Vamos… – disse no mesmo tom sedutor que ele.

+++

Estava mais uma vez usando as roupas da mãe de Kleber que ele guardou mesmo depois que ela morreu, ela tinha roupas muito bonitas, então me vesti como se fosse alguma intelectual, prendi meu cabelo que estava um horror já que não tinha minha chapinha pra ficar alisando e não tinha refeito minha progressiva, peguei minha bolsa e desci a ladeira paralela a que levava para minha casa, meus irmãos não podiam me ver, esperava que depois daquele serviço pudesse voltar o mais rápido possível pra eles.

Chamei um táxi, meu primeiro cliente estaria no aeroporto, Kleber me acompanhava de longe, ele tinha a moto e seguia o carro que me levava pra Congonhas. Minhas mãos estavam geladas e eu respirava fundo várias vezes pra tentar manter a calma. Em minha mão tinha cinco embalagens do presente ilegal, Kleber levava o restante dos pacotes na mochila com a moto.

O cheiro do perfume era forte até mesmo estando na embalagem, mas eu sabia que não duraria muito tempo, era perfume falso e barato, era questão de horas pra virar uma água com cheiro e depois o odor se dissipar completamente.

O táxi me deixou na ala de embarque do aeroporto, paguei a corrida e fiquei um tempo parada na entrada pensando se ia mesmo levar aquilo adiante, mas não tinha escolha, era aquilo ou meus irmãos morreriam de fome, ou, se eu desistisse, eles morreriam pela facção. Respirei fundo mais uma vez, olhei de relance para trás, vi Kleber um pouco afastado, ele se camuflava bem, daria um bom modelo galã, usava óculos de sol, uma camisa branca com as mangas dobradas até o cotovelo, uma calça jeans e a mochila que poderia nos levar diretamente pra prisão, ele andava pela ala de embarque dos táxis e carros com muita tranquilidade, parecia até que iria viajar.

Meu primeiro cliente estaria perto do portão sete e eu não fazia ideia de onde ficava, fui tentando me localizar pelas placas, o tempo corria, olhava pros relógios espalhados pelo aeroporto, parecia que todos os seguranças me olhavam, mas era impressão minha, precisava disfarçar meu nervosismo. Avistei um rapaz sentado, ele me avistou também, Kleber tinha me dito que os clientes saberiam que as encomendas seriam entregues por mim. Ele fez um leve sinal com a cabeça, era o cliente.

— Vou te abraçar como se fôssemos bons conhecidos… – ele disse sussurrando e logo em seguida me abraçou forte – Que bom que veio! – ele entrava rápido no personagem, ainda estava confusa com o que estava acontecendo.

— Vim desejar boa viagem… – parecia mais nervosa do que já estava – E te entregar isso… – levantei os saquinhos de presente, o rapaz me olhou confuso, logo sentou no banco e começou a procurar com o olhar por Kleber. Ao avistar meu parceiro e ver que ele confirmava que era o que ele tinha pedido, o cara respirou mais aliviado.

— Que bom! – ele sorriu e discretamente abriu a carteira – Como fez isso? – ele dizia sussurrando, mas sorria, ainda estava no personagem.

— Você vai descobrir… – ele me passou um bolo de dinheiro de forma discreta e voltou a me abraçar.

— Mande lembranças pra sua mãe, ok? Já estou com saudades! – o rapaz pegou as sacolinhas de presente e se afastou, não pensei duas vezes, coloquei o bolo de dinheiro na bolsa e saí daquele lugar o mais rápido que pude. Kleber me esperava do lado de fora e me acompanhou até a moto que estava no estacionamento.

— Conferiu? – ele perguntou se referindo ao dinheiro.

— Não tinha como conferir! – disse desesperada pra sair daquele lugar.

— Maria Fernanda! Se ele não pagou tudo a gente tá fudido! – ele tinha razão, comecei a rezar pro cliente ter sido honesto, por mais irônico que aquela situação parecia. Abri a bolsa e entreguei o bolo de dinheiro para Kleber, ele contou de uma maneira rápida e dinâmica – Tá certo… Mas lá em Moema seja mais cautelosa e confira!

— Tá, tá! – disse pegando o capacete reserva dele e subindo na moto – Vamos logo antes que aconteça alguma merda.

Já era de noite quando voltamos pra casa de Kleber, ainda não acreditava que tudo tinha dado certo. Kleber entrou na casa e foi até a cozinha, sentei no sofá da sala me sentindo aliviada e ao mesmo tempo exausta.

— O que é isso? – perguntei vendo Kleber com uma garrafa na mão e sorrindo.

— Pra minha Mafe, o melhor do melhor, meu tio me deixou trazer isso aqui da casa dele porque ele sabia que iríamos comemorar seu trabalho… – era uma garrafa de champanhe tão sofisticada que eu imaginava que era coisa de luxo.

— Só quero o dinheiro pra ajudar meus irmãos… – Kleber abria a garrafa e me servia em taças, era uma cena engraçada.

— Vai ter, Mafe, amanhã a gente pega com meu tio, mas agora, vamos aproveitar e comemorar, vai… – brindamos as taças.

No dia seguinte voltei a vestir a roupa que tinha usado pra chegar até Kleber, ia voltar pra casa finalmente, mas antes disso eu precisava pegar o que merecia com o chefe da facção ladeira acima. Kleber foi comigo e eu saí da casa de Gil com uma bolsa pesada, cheia de dinheiro, e pude finalmente descer para casa. Quando entrei na salinha apertada, meus irmãos se levantaram ansiosos e me olharam curiosos e preocupados.

— Onde você tava? – Rômulo perguntou.

— Dando um jeito da gente não morrer de fome… – disse abrindo a bolsa e jogando os bolos de dinheiro no sofá desgastado e sujo que ocupava a sala inteira praticamente.

— Onde arranjou isso?! – Rômulo perguntou incrédulo.

— Guardem bem… – entreguei um bolo de dinheiro para Augusto e outro para Bernardo.

— Vão pro quarto, vocês dois! – Rômulo disse olhando para os gêmeos.

— Tá achando que tá falando com criança? – Bernardo era o mais afrontoso.

— Be, Guto, vão… Só guardem bem o dinheiro e nada do que viram aqui pode sair dessa casa, ok? – eles me olharam desconfiados.

— Vem, Bernardo… – Augusto puxou o irmão pro quarto e logo em seguida Rômulo me levou para o quarto que já tinha sido de nossos pais.

— Como conseguiu aquela grana toda? – ele tentava falar baixo.

— Você sabe como…

— Você é louca?! Vai morrer se fizer qualquer cagada! E ainda colocou a vida dos gêmeos na linha deles!

— Não tem mais volta, Rô! Gil gostou do meu trabalho e vai me mandar mais coisas pra fazer, e se com uma simples entreguinha eu consegui essa grana toda, fazendo mais coisas a gente pode até pensar em sair daqui!

— Vamos ficar dependendo deles pra sempre! Nossa vida tá nas mãos deles, Maria Fernanda!

— Não por muito tempo, eu tenho um plano, mas antes a gente precisa fazer o que o Gil mandar, é grana pra caramba! – ele me olhava incrédulo, mas aos poucos foi baixando a guarda.

— E os meninos?

— Vamos ver como vai ser, conforme for a gente conta pra eles quando eles fizerem dezoito anos…

— E você acha que eles vão levar na boa o dinheiro vindo fácil assim? E ter que esperar dois anos pra saber?

— Vão! Vão porque eles têm que obedecer a gente! – respirei fundo – Confia em mim, alguma vez deixei vocês na mão?

— Quatro dias atrás você sumiu que nem a mamãe!

— Mas eu voltei! Eu nunca vou abandonar vocês, vocês são minha família! A gente cuida um do outro, sempre foi assim e sempre vai ser…

— Tudo bem… – Rômulo disse derrotado – Não faça nenhuma merda que vai colocar a vida dos gêmeos em risco, tá?

— Deixa comigo!

Parte 2

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