Augusto
Chegava ao apartamento com o carrinho que ficava na garagem para os moradores usarem quando traziam compras. As caixas de encomendas de Maria Fernanda estavam pesadas e eu não carregaria uma por uma.
— Conferiu? – Rômulo perguntou me ajudando na porta.
— Não, mas Kleber não ousaria errar com a Mafe… – aquilo era um fato – Mas de todo jeito, vamos checar aqui que é mais seguro… – abrimos as caixas.
— Pelo jeito vamos ter que levar com a gente amanhã… – Rômulo disse sorrindo pegando a caixa do perfume e abrindo pra se certificar de que o frasco estava em perfeitas condições.
— Ótimo que já voltou, Guto! – Bernardo entrava em casa ofegante e sorrindo – Thomas pediu pra avisar quantas caixas temos, elas vão com a gente amanhã, talvez uma vá com a Mafe na sexta…
— Que que é isso na sua camisa? – Rômulo olhava a gola da camisa cinza de Bernardo com uma grande mancha de batom e começou a rir assim como eu.
— Não me diga que a Fran… – comecei a dizer, aquilo era loucura, Franciele não suportava Bernardo e seu jeito intruso de ser.
— Ainda não, meus irmãozinhos, digamos que hoje meu dia de sorte foi com a Helena… – ele piscou pra gente e riu – Avisem o Thomas, vou tomar um banho!
— O que foi, Rô? – meu irmão mais velho estava pensativo e algo me dizia que não era apenas o novo namorado misterioso de Maria Fernanda que estava nos pensamentos dele.
— Depois do problema com o Everton a gente precisava ser mais cauteloso, e aí a Mafe arranja um novo namorado, ainda insiste que a gente precisa levar as encomendas pra Milão amanhã… Eu tô preocupado, só isso… – o semblante dele estava mais sério do que o normal.
— A Mafe nunca deixou a gente na mão, na certa ela sabe o que está fazendo… – disse tentando apaziguar a situação – Eu vou terminar de fazer minhas malas…
Era muito cedo quando meu celular tocou o despertador me avisando que eu precisava começar a me arrumar para pegar um voo internacional com meus irmãos. Levantei ainda com muito sono, não sentia como se tivesse dormido bem, o que Rômulo tinha falado no dia anterior tinha me deixado pensativo, mas Maria Fernanda sempre lutou pelo bem da nossa família, precisávamos mais uma vez dar uma prova de confiança pra ela.
— Bom dia, meu amor! – não tinha escutado Mafe chegando na noite anterior, por isso me surpreendi quando vi minha irmã na cozinha logo cedo.
— Não disse que não voltaria pra casa? – perguntei coçando os olhos.
— Sabendo que o Be se atrasa mesmo quando tem tempo e sabendo que precisava me certificar que Kleber mandou todas as encomendas certas? Não, eu voltei de madrugada… – ela colocou uma caneca de leite com café pra mim em cima do balcão da cozinha.
— Por que nunca fala de mim? – perguntei depois de agradecer o café com um sorriso.
— Porque você é perfeito! – ela deu a volta na península e me deu um beijo na bochecha.
— Obrigado pela parte que me toca… – Bernardo entrava na cozinha com a sobrancelha erguida e cheio de sarcasmo.
— E hoje, por ter acordado na hora, também digo que você é perfeito! – Mafe deu um beijo na bochecha do meu gêmeo – Vou acordar o Rô, se apressem!
Sempre que tínhamos que viajar e levar as encomendas de Mafe com a gente eu ficava tenso, qualquer coisa poderia dar errado, mas por sorte nunca aconteceu nada com a gente, até o Everton soltar algumas pistas. Talvez Rômulo estivesse certo em se preocupar, uma viagem internacional levando drogas como se não fosse nada demais depois do que Everton causou era arriscado.
— Por que não vem com a gente hoje? – Rômulo perguntou depois que fizemos o check-in em Congonhas.
— Ainda preciso resolver algumas coisas, pagar o Kleber e ajeitar a agência pra viagem. Escutem, chegando lá, vão direto para o hotel e cada um coloca um pouco dos perfumes no cofre, tá? – Mafe tinha assumido muito cedo a posição de “irmãe”, e conforme foi ficando mais velha a parte “mãe” sempre falava mais alto na hora de recomendar todas as precauções possíveis. Anunciaram nosso voo – Fiquem calmos que já deu tudo certo, as bagagens já foram despachadas, então façam uma boa viagem e nos vemos em um dia e meio! – ela deu um beijo na bochecha de cada um de nós.
— E quando vamos conhecer o cara? – Rômulo perguntou sobre o namorado dela.
— Assim que voltarmos! – ela respondeu com um sorriso, pegamos nossas bagagens de mão e seguimos para embarcar.
Mafe
Saí do aeroporto e fui direto para a agência verificar como Bernardo tinha deixado a situação antes de ir viajar, Franciele me aguardava na porta e eu estava pronta pra escutar reclamações dela sobre o gêmeo mais velho.
— E como foi ontem? – perguntei caminhando e Fran caminhava ao meu lado com um tablet na mão fazendo anotações.
— Bom, por mais surpreendente que possa parecer, ele fez tudo direitinho. – ela ainda estava séria.
— Senti um pouco de raiva na sua voz, ele te azucrinou mais uma vez, não foi?
— Ele sempre me azucrina, Mafe. – ela disse séria – Thomas está te aguardando, depois quero mostrar as fotos do ensaio das meninas de ontem, ficou sensacional. O Gabriel embarcou?
— Não falei com ele, mas ele estava com meus irmãos no aeroporto, então acho que o Be fez um bom trabalho… – disse sorrindo.
— Você é maravilhosa demais pra ser irmã daquele crápula… – tinha acontecido alguma coisa, no fundo eu sabia que apesar do Guto ser o mais cavalheiro e elegante, bem no fundo mesmo, a Fran gostava de um estilo mais cafajeste como o Bernardo.
— Tá, o que tá rolando? – parei de andar e fiquei olhando pra ela.
— Não tá rolando nada, vai, vai, Thomas deve tá te esperando!
— Depois da minha reunião com ele a gente conversa, ok? – disse subindo as escadas para minha reunião com Thomas que não foi demorada.
Enquanto observava as fotos do ensaio de Helena e Júlia no telão da sala de apresentações, ficava observando em alguns momentos Franciele olhar para as imagens com quase um bico na boca, como se fosse uma criança que teve seu brinquedo tomado.
— Não tinha dito que as fotos ficaram sensacionais? – perguntei enquanto ela passava mais fotos das modelos.
— E ficaram, as duas são um lindo contraste e a revista já amou a prévia que enviamos.
— Você sabe que eu vou ficar insistindo até que você me conte o que tá pegando, né?
— Não tá pegando nada, Mafe, só o Bernardo que se acha no direito de pegar as modelos.
— Ah… – eu sabia que era alguma coisa com meu irmão – Fran, ele não presta…
— Não mesmo! – ela disse na hora.
— Mas você tem uma queda por ele…
— Jamais! – tive que segurar o riso.
— Ok, não está mais aqui quem falou… – levantei da cadeira – As fotos ficaram ótimas! Agora preciso terminar de ajeitar minhas coisas pra viagem, consegue dar conta de tudo enquanto eu estiver fora?
— Claro que sim! – Franciele disse sorrindo.
— Eu contratei mais alguns seguranças, então me avise a hora que for se o Everton ficar rondando nossas bandas, ok?
— Pode deixar, Mafe. Faça uma boa viagem!
— Quer que eu leve algum recado pro Bernardo? – perguntei um pouco provocativa.
— Quero. – aguardei ela falar – Manda ele se foder! – não segurei a gargalhada.
— Me avisa de tudo e de qualquer coisa, te vejo em alguns dias…
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Tinha que ir para Paraisópolis antes da viagem, Kleber iria esperar meu acerto de contas adiantado, passei no apartamento para trocar de roupa, colocar algo mais simples nada chamativo e depois chamei um táxi que me levaria até a entrada da comunidade, fui caminhando, sabia que era um pouco distante e cansativo, mas era nostálgico caminhar por aquelas ruazinhas, lembrar os bons momentos da minha infância. Bati na porta de Kleber e ele me atendeu com um cigarro na boca e um sorriso de canto no rosto.
— Vim acertar as contas das encomendas de ontem… – ele me deu passagem pra entrar.
— Sabendo que você ainda não vendeu o que te enviei, só posso imaginar um jeito que você vai me recompensar…
— Não vendi, mas eu tenho a grana pra você ver que cumpro minhas coisas… – já estávamos indo até o quarto dele.
— Corta essa, Mafe! – ele riu – Fecha a porta…
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— Sabe que eu já estava começando a achar que você não queria mais saber de mim… – Kleber falava me olhando deitado na cama.
— Você é meu parceiro, sabe que nem que eu quisesse poderia me dar a esse luxo… – ele riu e acariciou meu braço.
— Parceiro? Maria Fernanda, você veio aqui falar de negócios e acabamos na cama como sempre, e me fala que sou seu parceiro? – ele me puxou de volta pro lado dele e ficou por cima de mim.
— E estou mentindo? – dei um selinho demorado nele – Bom, isso nem devia estar acontecendo e eu preciso ir… – empurrei ele pro lado e sentei no colchão vestindo a camiseta que estava no chão.
— Toda vez você fala isso… Mas precisa admitir que não resiste a mim desde sempre… – sentia a respiração dele no meu pescoço, seus lábios me arrepiando os cabelos da nuca.
— Kleber! – gargalhei – Quem vivia correndo atrás de mim era você, não vamos confundir isso!
— Mas veio correndo pra mim depois que seu pai morreu, e meu tio te ajudou! – ele estava certo.
— E hoje quem te ajuda sou eu, bonitão! – o beijei mais uma vez e levantei da cama – Eu te disse que trabalhar com os gringos ia nos dar muito lucro…
— E aparentemente problemas, pensa que não sei o que tá rolando?
— Se sabe o que tá rolando, então já sabe que eu sempre dou um jeito e não vai ser diferente agora… E sabe que vou precisar parar de vir pra cá por um tempo, assim como você precisa ser discreto, ok?
— O que é isso? – ele riu – Você tá preocupada comigo? Pra valer?!
— Claro, você é meu melhor fornecedor, Kleber!
— E você não vale nada, Maria Fernanda…
— Posso não valer, mas nossos produtos valem! – já estava na porta do quarto de Kleber – Se cuida e seja discreto, eu mantenho contato, mas por hora me deixa apaziguar as coisas do meu jeito…
— Mafe… – ele me chamou – Casaria comigo um dia? – ele sempre fazia aquela pergunta.
— Sabe que não. – eu sempre dava a mesma resposta – Tchauzinho! – mandei um beijo no ar pra ele e saí.
+++
Augusto
Foi na época da última Fashion Week em São Paulo que a agência de Mafe passou a ser visitada por mais pessoas da polícia do que a gente previa que aconteceria. Além de mim, Rômulo, Bernardo e Mafe lidando com as mercadorias que Kleber nos fornecia e lucrávamos sempre, minha irmã matinha dois ou três modelos para trabalhos mais rápidos na cidade e nos arredores paulistanos. Everton era, além de modelo, um entregador e consumidor dos nossos produtos, mas foi longe demais ao marcar horário com um cliente na nossa agência.
Já estava fora do expediente e aparentemente ninguém viu a transação, mas o cliente foi pego logo depois e acabou dedurando, por medo, Everton e tudo começou a cair em cima de nossas cabeças, a polícia começou a ficar mais presente na porta da agência, investigadores entravam para conversar com Maria Fernanda e Thomas e por mais que Mafe aparentasse estar tranquila, eu sabia que no fundo ela estava surtando, planejando matar o Everton e claro, pensando num meio de tirar nosso trabalho da reta da polícia federal.
Não víamos nada, mas Maria Fernanda e Thomas nos disseram que mesmo ninguém tendo descoberto nossa ligação com o tráfico de Everton, a agência estaria sob vigilância, vez ou outra eu percebia um rapaz rondando o prédio da agência e o nosso prédio residencial à procura de um flagrante, talvez. Mafe começou a sair com mais frequência e todos nós no apartamento nos preocupávamos.
— Maria Fernanda, não sei se é bom você sair sempre, e outra, não nos diz nunca pra onde tá indo e com quem, se descobrem sobre o Kleber…
— Eu estou dando meu jeito, Rômulo! – Mafe estava estressadíssima nos últimos dias que se seguiram, Bernardo e eu ficávamos na nossa, mas dava pra sentir um clima pesado dentro de casa.
— E por que não conta pra gente que jeito é esse?! – Rômulo já não aguentava mais os mistérios de Mafe – A última vez que deu seu jeito…
— Diz, Rômulo. – Maria Fernanda ficou séria de uma maneira que eu só me lembrava de ter presenciado uma vez, quando perdemos nosso pai – Diz. – ficou um silêncio muito intenso na sala, piorou quando os dois ficaram se encarando dizendo tudo com olhares sem abrir a boca pra falar uma palavra.
— Vou sair, não sei que horas volto. – Rômulo disse depois de um tempo e pegou a chave do carro.
— Vocês acham que eu, de alguma maneira, acabei com a vida de vocês? – Mafe disse quando Rômulo bateu a porta nervoso, e então olhou para mim e meu irmão.
— Se você chama isso de “acabar com a vida” – Bernardo fez aspas com os dedos enquanto girava em torno da sala do apartamento – Então, eu acho sim, e te agradeço por isso! – Bernardo era o mais atirado de todos naquele apartamento, naquela família, mas tinha seu jeito de animar as pessoas. Nem eu, nem Mafe resistimos a uma risadinha.
— Tudo o que fiz e faço é pro bem de vocês, tudo. – ela disse voltando a ficar séria.
— Sabemos, maninha… – Bernardo disse beijando a bochecha de Mafe – Mas toma cuidado, tá? E por favor, se a gente puder ajudar, não fica carregando tudo sozinha nas costas…
— Be tá certo, Mafe… – disse vendo a cara de espanto de Bernardo por ter concordado com ele – Não é porque você é a mais velha que precisa carregar tudo sozinha, a gente é uma família…
— Eu quero que confiem em mim, eu vou dar um jeito nessa situação… – ela disse sorrindo.
— Confiamos. – respondi.
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Mafe
“Quando cheguei na agência, naquela manhã, minha cabeça girava e eu não sabia se iria conseguir manter a calma e a postura. Fui recebida por Franciele que me lotava de perguntas, eu não conseguia responder. Caminhando pelos corredores eu via uma equipe grande de policiais e cães farejadores no meu ambiente de trabalho.
— Pelo o amor de Deus, que bom que está aqui! – Thomas veio ao meu encontro e pegou meu braço me levando para seu escritório – A casa caiu, Maria Fernanda, o que vamos fazer?! – ele estava desesperado, mas certamente não tinha revelado nada aos policiais que cercavam minha agência – Já chamaram a mídia, meu Deus, o que vamos fazer?!
— Com licença. – um oficial bateu na porta do escritório e entrou, ele tinha um semblante sério e muito rígido, olhou para mim como se me escaneasse de alguma maneira – Maria Fernanda é você? – fiz que sim com a cabeça – Bom, preciso te fazer algumas perguntas. – vi Thomas saindo da sala e o policial entrando e fechando a porta em seguida – Um de seus modelos contratados foi denunciado por porte de drogas. – eu tinha que manter a calma.
— Não entendo o motivo de vocês estarem aqui…
— Na denúncia houve uma discreta menção do relacionamento desse modelo com a agência que, na denúncia, foi relatada como um centro de distribuição. – ele tinha a voz grossa, minha cabeça estava explodindo.
— Bom, fique à vontade para fazer a varredura que precisar no prédio, nas minhas coisas, nas coisas de todo mundo, são indagações infindáveis, mas se precisam cumprir esse protocolo, vão em frente. – eu estava surtando por dentro, não lembrava se tinha ou não tirado da minha sala o último pacote que peguei de Kleber.
— Faremos isso, senhora. Peço, por gentileza que espere lá embaixo. – ele levantou e esperou que eu saísse primeiro, eu precisava apenas de alguns minutos para verificar minha sala que era logo ao lado, mas o policial me escoltou até o térreo, meu coração batia acelerado.
— Posso saber de onde veio a denúncia? – perguntei, sabia quem poderia ter nos colocado naquela situação.
— Prendemos um rapaz ontem de noite em posse de drogas ilegais, no interrogatório ele acusou um de seus modelos, disse também que é cliente há anos. – aquilo era um pesadelo.
— O que meus funcionários fazem com suas vidas pessoais não me dizem respeito. – tentei parecer mais dura que ele.
— A menos que haja uma ligação entre sua agência e seus funcionários para trabalhos extracurriculares… – ele tinha muita ironia na fala e eu só pensava no pacote em minha sala, torcia para que ele não estivesse lá.
— Peço, por favor, que não suponha nada, isso será tratado com meu advogado se for realmente necessário, mas saiba, senhor, que minha agência nada tem a ver com isso. – meu sangue estava congelado de medo.
— Está bem. Espere aqui. – ele disse me deixando no térreo, na recepção da minha agência.
— Mafe! – Bernardo e Augusto tinham chegado, correram ao meu encontro no hall de entrada.
— Houve uma denúncia que um dos modelos é traficante de drogas e agora estão acusando a agência de ter ligação. – disse séria, Franciele estava escutando e ela não imaginava nada do que acontecia por debaixo dos panos, era a melhor funcionária que eu poderia ter contratado.
— E quem denunciou um absurdo desses?! – Bernardo tentava parecer bem revoltado, ele conseguia, mas era apenas para tentar impressionar Franciele.
— Não sabemos. – disse olhando ao redor, meus funcionários estavam todos lá, meus modelos também, com exceção de um. Só poderia ser ele.
— Mafe, posso falar com você a sós? – Franciele me chamou de canto, mas era uma situação que exigia minha máxima atenção a tudo o que acontecia naquela varredura policial.
— Fran, não é uma boa hora… – tentei falar, vi dois oficiais e um cachorro subindo para meu escritório, eu tinha certeza que meu pacote estava lá, eu sabia que sim.
— Mas é que… – ela ainda tentava, a porta do hall se abriu e Rômulo entrou desesperado.
— Já estou sabendo, como isso foi acontecer?! – ele me olhava e eu entendia perfeitamente o olhar dele, de medo, de apreensão, era o mesmo que eu meu.
— Um dia errado, um local errado, uma hora errada. – disse, Franciele ainda tentava falar comigo.
— Mafe… – ela me chamava, eu só olhava para escada, esperando a qualquer momento que os policiais descessem e me prendessem por justa causa – É importante. – olhei pra ela incrédula, mas resolvi escutar, fomos para um canto do hall – Eles não vão encontrar nada. – ela me disse olhando nos meus olhos, queria me passar uma confiança, alguma esperança, sorri com pena, era óbvio que eles iriam achar – Mafe, o pacote está escondido numa caixa, na viela de trás do prédio… – a olhei surpresa, como ela sabia do pacote – Depois nos explicamos, mas se você conseguir que alguém leve o pacote pra mais longe, a agência vai estar livre desses policiais…
— Fran… – comecei a dizer, estava num misto de alívio e tristeza por ter que revelar um segredo daqueles para uma das melhores pessoas do mundo.
— Vai, pede pro Rômulo, ele acabou de chegar, ninguém percebeu que ele tá aqui ainda… – ela insistiu e concordei com a cabeça, fui até meu irmão.
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Depois daquele dia que parecia não ter fim, chegamos em casa aliviados, mas sabíamos que uma tempestade se aproximava e eu precisava de um plano, eu precisava tirar meus irmãos daquela situação, precisava dar mais alívio pra eles do que antes, eram minha função, eu era a irmã mais velha, eu fazia papel de mãe e irmã, não podia deixar os três desamparados ou com algum tipo de medo.
Peguei meu celular para pesquisas rápidas, fui para o banheiro tomar um banho, teria que sair ainda naquele dia.
— Vai sair?! – Rômulo perguntou incrédulo, ele estava com o semblante cansado e não era pra menos, o dia tinha sido cheio e ele ainda correu um risco enorme se livrando do pacote de Kleber.
— Vou. – respondi pegando minha bolsa e a chave do carro.
— A gente tá na mira de muita gente e você vai sair? Depois de tudo o que aconteceu?! – eu entendia a revolta dele, mas eu tinha que dar meu jeito, eu fazia tudo pelos meus irmãos.
— Eu sei, mas confiem em mim, eu vou resolver tudo isso… – Augusto estava sonolento, deitado no sofá ele só me olhava com os olhos quase fechados, me fazia lembrar de quando ele era pequeno e ficava daquele jeito, naquela época eu ia até ele e o enchia de beijos nas bochechas por ele ser tão fofo, se fizesse isso agora ele acharia ruim, tinha certeza.
— Me dá uma carona, Mafe? – Bernardo apareceu na sala todo produzido, o que deixou Rômulo ainda mais revoltado.
— Vocês dois perderam a noção?! – Rômulo falava incrédulo.
— Se a gente ficar se escondendo dentro de casa vai parecer muito mais suspeito, cara, se toca! – Bernardo falou o que eu estava querendo falar, mas de um jeito mais agressivo e debochado – Mantenha as aparências, pra todos os efeitos a gente é super inocente e não deve temer a nada.
— Be tá certo. – disse olhando pra ele que sorriu vitorioso – Mas eu vou sair pra resolver isso, o Be vai só putear.
— Exato. – Bernardo riu, mas Rômulo ainda estava sério e revoltado.
— Vocês são mesmo irmãos… – ele disse debochando, sabia que ele precisava de um descanso e daria isso pra ele saindo de casa por aquela noite.
— Se cuidem, eu devo voltar de madrugada… – olhei pra Augusto que concordou com a cabeça, ele estava de olhos fechados no sofá, mas escutava tudo – Vem, Be, te dou uma carona… – Bernardo pegou sua carteira e descemos para o estacionamento.”
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Milão tinha sido um sucesso, tanto para meus irmãos que desfilaram e fizeram sessões de fotos para revistas internacionais, quanto para nossos negócios ilícitos. Sempre tinha uma apreensão e medo na hora de embarcar, mas tudo sempre deu certo, e quando subíamos no avião, podíamos respirar aliviados.
Mal havíamos aterrissado direito no Brasil, depois da semana de moda, e eu já tinha tantas outras coisas pra planejar, principalmente o jantar de apresentação do meu namorado aos meus irmãos. Cedo ou tarde teria que fazer aquilo e já tinha adiado demais, eles estavam curiosos e preocupados e ficariam ainda mais depois de conhecê-lo.
— Eu vou marcar o jantar pra amanhã, então, por favor, não inventem compromissos! – disse assim que chegamos em casa, todos tomaram banho e estávamos comendo pizza na sala.
— Você tá tão misteriosa com esse namoro, aposto que amanhã o Kleber vai aparecer aqui… – Bernardo disse rindo.
— O mistério da Mafe não é só por isso, não é? Tem algo a mais por trás desse namoro… – Rômulo me conhecia, mas eu não revelaria nada pra eles, por hora.
— Um de vocês precisa verificar se está tudo bem na agência, amanhã, porque eu vou estar ocupadíssima com o jantar… – disse olhando para Augusto.
— Eu nem sei por que você fala “um de vocês”… – ele fez aspas com os dedos.
— Eu te amo, sabia, né? – disse rindo pro meu caçulinha – Mas eu tenho certeza que vai ser um dia de paz pra Fran se você for ao invés do Be…
— A Fran me prefere, ok?! – Bernardo falava com ciúmes, eu sabia que ele achava a Fran gostosa e maravilhosa, mas sabia que o melhor gêmeo pra ela era o Augusto.
— Ah, esqueci de falar, ela te deixou um recado antes da viagem… – olhei para Bernardo que me olhou esperançoso.
— Que ela finalmente se tocou que sou o gêmeo perfeito? – ele disse e vi Augusto revirar os olhos de ciúmes, Rômulo só ria.
— Ela mandou você ir se foder… – Rômulo e Augusto gargalharam, Bernardo me mostrou o dedo do meio.
— Vou acompanhar o Guto amanhã, não se preocupem… – ele disse e eu sabia que Bernardo faria isso por pura vingança.
— Eu vou dormir, beijinhos e boa noite. – disse levantando do tapete e indo para o meu quarto, o dia seguinte seria cheio.
+++
Passei o dia todo planejando o cardápio perfeito para a apresentação do meu namorado. Augusto e Bernardo tinham ido para a agência juntos e Rômulo tinha saído na parte da manhã, eu não sabia o que ele estava aprontando, mas sabia que estava aprontando, ainda iria descobrir, mas naquela hora eu tinha que me concentrar no jantar.
Todos os meus irmãos chegaram em casa na hora combinada e eu já estava com tudo preparado, fui me arrumar e esperei o interfone tocar avisando que meu namorado tinha chegado. Fiz questão de ir buscá-lo na portaria, fui avisando ele dos meus irmãos durante o trajeto até nosso luxuoso apartamento. Quando entramos na sala, Bernardo, Augusto e Rômulo estavam de pé, muito bem arrumados à nossa espera.
— Meus lindos irmãos, esse é o Daniel, Dan, esses são meus irmãos… – apresentava meu namorado para meus irmãos.
— Está bem guardada… – ele disse rindo e cumprimentando meus irmãos com um aperto de mão.
— Guardada? – Bernardo disse confuso depois de apertar a mão de Daniel.
— Ah, é gíria nossa… – Dan disse tímido.
— Daniel é da federal… – disse e Rômulo arregalou os olhos no mesmo instante.
— Federal… Polícia Federal? – Bernardo estava na mesma situação que Rômulo, Augusto era o único que só estava escutando e vendo toda a situação com calma, assim como eu.
— É, eu sou investigador… – Dan sorriu pra mim – Eu disse que isso assustava todo mundo…
— E dá medo mesmo, amor, ainda mais sabendo o perigo que você corre todos os dias… – beijei sua bochecha – Bom, vamos nos ajeitar? – os levei até a sala de jantar.
— Vou pegar as coisas na cozinha, me ajuda, Mafe? – Rômulo me chamou e eu sabia que era uma desculpa pra ele falar comigo – Você tá maluca? – ele cochichava exaltado assim que entrei no ambiente da cozinha.
— Agora não… – peguei as travessas com a comida.
— Você com certeza tá maluca… – ele ainda falava incrédulo.
— Depois a gente conversa, já disse. – disse séria – E trate de tratar o Dan bem!
Quando voltamos para a sala de jantar, Bernardo já interagia mais com Daniel e Augusto participava da conversa.
+++
Augusto
Maria Fernanda tinha saído com seu namorado depois do jantar, talvez passaria a noite fora. Assim que eles saíram pela porta, nós três nos olhamos.
— Puta que pariu. – Rômulo disse sentando no sofá.
— A Mafe é bem oito ou oitenta, né? – Bernardo disse e eu ri junto com ele – Ou é traficante da favela ou é policial…
— Vocês estão achando graça disso? – Rômulo não estava nem um pouco a fim de rir.
— Se a gente não rir, vai fazer o quê? Chorar? – Bernardo disse rindo – Essa nossa irmã é cheia de surpresas…
— A intenção é a gente ficar na nossa e não chamar atenção pra nada do que está acontecendo e vocês simplesmente estão achando graça da Maria Fernanda aparecer com um namorado que é, por sinal, investigador. – Rômulo estava nervoso.
— Não tem como escolher por quem a gente se apaixona… – Bernardo disse rindo.
— Isso não é se apaixonar. Eu tenho certeza que não. – Rômulo disse pegando seu celular e digitando na dela – Vou sair, não esperem por mim.
— O que ele quis dizer com isso? – Bernardo me perguntou assim que Rômulo saiu pela porta de entrada.
— Sobre o quê?
— Sobre a Mafe não estar apaixonada, aparentemente…
— Ele tá com medo, só isso, Be. – disse, mas também estava reflexivo.
— Acha que tem alguma coisa a ver tudo isso? Alguma ligação? – ele me perguntava e eu não sabia e nem imaginava a resposta – Mas se tivesse ligação, a Mafe estaria sendo bem burra de se aliar ao nosso inimigo número um, um PF! – Bernardo criava suas teorias e eu analisava, mentalmente, as minhas.
— A Mafe gosta dele, deu pra notar como ela olha pro cara… – aquilo era fato, eu tinha reparado no comportamento dos dois durante o jantar, ou minha irmã daria uma boa atriz, ou ela gostava do Daniel.
— Deu pra reparar nisso? – Bernardo riu – Todo romântico, não acredito que é meu gêmeo… – revirei os olhos – Bom, todos saíram, e eu não vou ficar aqui em casa à toa, bora comigo? – ele me chamou.
— Pra onde, exatamente? – não estava no pique de sair.
— Le Rêve. – uma balada eletrônica era tudo o que eu não queria no momento – Qual é, Guto, faz tempo que não temos um dia de gêmeos, vai… – fazia tempo mesmo, na infância éramos inseparáveis, mas então cada um cresceu e criou sua personalidade.
— Tá… – disse derrotado e vi meu irmão mais velho de alguns minutos quase pular de alegria, aquilo me aqueceu o coração, também estava feliz.
— Vou pegar umas coisinhas no quarto da Mafe pra gente curtir ainda mais… – eu sabia ao que ele se referia.
— Tá tudo contabilizado, você tem dinheiro pra pagar? – Bernardo era o que mais usava os produtos de Mafe, Rômulo usava de vez em quando e eu nunca vi Maria Fernanda usando qualquer coisa.
— Claro que tenho. – ele disse e correu pro quarto da Mafe – Quer ir aquecendo? – ele jogou um pacotinho pra mim e eu peguei no ar. Não tinha o costume de usar como Bernardo, mas, vez ou outra, eu até curtia.
— Só porque vou ter que te aturar em uma balada eletrônica a madrugada toda… – disse abrindo o pacote.
— É isso aí, maninho! – ele bateu no meu ombro e pegou a carteira – Simbora!
+++
Bernardo
A Mafe ia me matar.
— Cacete, Augusto! – disse dentro do uber com meu irmão passando muito mal do meu lado – Vai, cara, dirige pro hospital! – o motorista estava assustado, obviamente. Peguei meu celular e comecei a mandar uma mensagem para Rômulo. A Maria Fernanda de jeito nenhum podia saber que a situação chegou naquele ponto.
— O que ele tem?! – o motorista dirigia, mas queria puxar assunto.
— Misturou bebida. – e drogas, mas aquilo eu não falei.
— Isso é perigoso… – ele disse, era um senhor, já poderia sentir a lição de moral vindo da boca dele – Meu menino quase morreu por causa disso, mas graças a Deus tá tudo bem. – Augusto estava revirando os olhos, não sabia se ele estava escutando a conversa, esperava que não, aquilo não era um bom exemplo de motivação.
Rômulo não me respondia.
— Guto, fica acordado. – eu batia com força na cara do meu gêmeo.
— Vocês são irmãos gêmeos? – o motorista me olhava pelo retrovisor.
— É… Mas eu sou mais velho… – olhava para Augusto que não tinha uma aparência boa naquela hora. Rômulo não dava sinal e eu não queria ter que ligar pra Maria Fernanda, ela ia me matar de tantos jeitos possíveis.
— Chegamos. – o uber já tinha estacionado na entrada do hospital e eu nem tinha me tocado.
— Guto. Acorda, vai… – eu batia no meu irmão, ele estava zonzo.
— Quer que eu chame alguém pra ajudar? – o motorista disse e eu aceitei, mas na realidade eu nem queria estar no hospital.
— Augusto, é sério, melhora agora pra gente não ter que dar explicação pra Mafe! – sacudia meu gêmeo e ele se mexia de um jeito molenga.
— Vamos pôr ele numa maca, o que houve, rapaz? – um enfermeiro chegou até o carro e abriu a porta de trás para puxar Augusto.
— Misturou bebida… – disse desesperado.
— Ok, vamos levar pra desintoxicação, você pode ficar aqui na recepção e preencher a ficha dele, está bem? – o enfermeiro disse levando meu irmão. Não ia ter jeito, eu ia ter que ligar pra ela.
Mafe
— O que aconteceu?! – tinha chegado ao hospital, estava desesperada, Bernardo me ligou bem agitado e enrolava para falar, só falou para eu ir pro hospital e me deu o endereço.
— É que… – eu já até imaginava o que tinha acontecido, a cara de medo e sem graça do Bernardo dedurava tudo.
— Amor, tá tudo bem? – Daniel ficou tão preocupado comigo que insistiu para me trazer pro hospital, quando Bernardo olhou pra ele, ficou mais branco que o normal – Bernardo, o que houve, cara?
— Guto deu uma extrapolada na bebida… – ele disse olhando pra mim com os olhos arregalados.
— Amor, pega um café, pra mim? Vou ver como o Guto tá… – disse sabendo que teria que ter uma conversa bem particular com meu irmão.
— Ok… – Daniel disse me dando um beijo na testa e foi até a cafeteria.
— A gente pegou um pacote… – Bernardo disse baixo em um canto da recepção e eu poderia estrangular ele naquela hora – Guto usou um antes de sair de casa e na festa eu não sei, mas foi um amigo meu que me avisou que ele tava passando mal no banheiro… – tive que respirar fundo e me controlar, aquilo teria que ser resolvido em casa, naquela hora eu só queria saber se Augusto estava bem.
— Onde ele tá? – perguntei.
— Tá num quarto já, tava esperando você chegar pra gente ir lá… – Bernardo me disse.
— Você tem noção de que se isso sai na mídia… – eu estava espumando de raiva.
— Tá doida, é claro que sei! – Bernardo disse – Por isso vim aqui pra esse hospital! – pelo menos ele tinha pensado naquilo.
Fomos liberados para ver como estava Augusto e eu quase corri para o quarto indicado. Augusto estava sonolento, mas tinha cor em seu rosto, aquilo era um bom sinal. Ele me viu e sorriu.
— É nisso que dá a pessoa querer viver a vida do nada. – Bernardo disse rindo, ele tinha uma expressão de alívio e eu sabia o quanto deve ter sido assustador pra ele presenciar aquilo com seu irmão gêmeo, os dois podiam não ser mais tão grudados quanto antes, mas ainda eram inseparáveis, mesmo quando negavam.
— Vai tomar no cu. – Augusto disse mostrando o dedo do meio pra ele e aquilo era um alívio muito grande pra mim.
— Acho que as personalidades foram trocadas… – disse me contendo pra não chorar, eu me sentia muito responsável por eles, mesmo eles sendo maior de idade – Escutem aqui, vocês dois. – disse respirando fundo e os dois fecharam os olhos já esperando pela dura – Primeiro de tudo, vocês vão ter que me pagar. – eles pegaram coisas do meu quarto que já estavam vendidas, faltava só entregar – Segundo: não é porque temos isso em casa que vocês podem virar dependentes, a gente já conversou sobre isso há muito tempo! E terceiro… – naquela hora a porta do quarto bateu e Daniel me chamou, parei de falar na hora – Oi, amor… – disse abrindo a porta, ele tinha um copo de café pra mim – Obrigada… – disse e olhei para os gêmeos que piscaram pra mim entendendo a situação.
— E aí… Augusto, né? – Daniel tinha literalmente conhecido meus irmãos naquela mesma noite e identificar Guto e Be era uma tarefa difícil para pessoas novas. Guto confirmou com a cabeça – Cara, sei que já deve ter escutado um belo sermão dessa mulher aqui, mas me sinto no dever de te alertar sobre misturar bebidas… – Dan era uma ótima pessoa, Bernardo me olhou erguendo uma sobrancelha de um jeito brincalhão.
— Aprendi a lição… – Augusto era muito educado pra mandar qualquer um calar a boca, que não fosse Bernardo.
— Ótimo! – Dan disse sorrindo.
— Eu vou ver o pagamento e assim que o médico te liberar a gente te leva pra casa, tá? – disse saindo do quarto com Daniel.
Augusto
— Que que você fez, imbecil?! – Bernardo mal ficou sozinho comigo no quarto e já começou com suas delicadezas.
— Você sabe, nem sei por que pergunta. – disse cansado e fraco.
— Quantos você usou?
— Não foi muito, foi a bebida que piorou tudo… – disse cansado de sermões.
— Tá parecendo um adolescente, francamente, Augusto, se você morre, a Mafe ia me matar!
— Pensei que ia ficar devastado… – disse rindo, eu sabia que ele iria ficar, eu ficaria vendo ele no meu lugar.
— Só ia ficar bolado que não ia ter mais você pra botar a culpa, de resto, foda-se. – ele disse rindo – Escuta, eu fiquei pensando nesse namoro da Mafe…
— Quando você pensa demais, é problema… – ele me mostrou o dedo do meio.
— Faz sentido, não acha? Digo, é conveniente ela namorar um PF… – ele falou um pouco baixo – A Mafe tem uns jeitos diferentes de resolver as coisas, às vezes, o melhor jeito que ela achou de despistar as atenções foi trazer a atenção pra cima da gente.
— É um risco muito grande… – disse fechando os olhos, estava tão cansado e com sono – Mas é um ponto a se analisar…
— Escuta, tem mais coisas que queria te falar, aproveitar que a Mafe não tá aqui… – ele disse e eu lutava pra ficar acordado – O Rô… Eu acho que ele tá… – Mafe entrou no quarto.
— Tudo ajeitado, vamos embora? – ela sorriu pra mim, Bernardo desviou a conversa.
— Vamos, preciso de uma ótima noite de sono depois desse pivetinho me dar trabalho… – ele riu.
— Dois minutos e quarenta e sete segundos, Bernardo. Você não é tão mais velho assim. – disse exausto.
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Mafe
Estava saindo da agência depois de um longo dia de trabalho e relatórios para fazer. A parte divertida sempre ficava com meus irmãos que só precisavam modelar, eu cuidava do que ficava atrás das cortinas. Gostava daquilo, mas era cansativo.
O prédio da agência não era grande. Não o suficiente para ter um estacionamento, por isso eu deixava o carro em um estacionamento que pagava por mês, sempre teria minha vaga reservada e ficava a um quarteirão de distância. Enquanto caminhava para o estacionamento fui abordada, uma mão saiu da parte com mais sombra daquela calçada e me puxou pelo braço, estava prestes a gritar.
— Mafe, não grita. – eu conhecia aquela voz – A gente precisa conversar.
— Pensei que você estava preso. – disse para Everton, o modelo que quase destruiu tudo o que eu tinha construído.
— Tenho bons advogados, teoricamente estou em prisão domiciliar. – me virei pra ele e olhei para sua canela – Eu consegui tirar, tá lá em casa, eu precisava falar com você. – ele percebeu que eu procurava uma tornozeleira apitando loucamente.
— Não temos nada o que conversar, você foi burro e isso quase afetou todo mundo. Lide com seus problemas sozinho. – tentei me afastar dele, mas ele me puxou de volta e sua mão apertava com maior força o meu braço.
— Você vai me escutar. – seu tom de voz tinha mudado.
— Ah é? Estamos no meio da rua, movimentada pelo horário de pico, você realmente quer me tentar a não gritar? – eu estava com um pouco de medo dele, mas precisava demonstrar o contrário.
— Vamos caminhando… – ele disse ainda segurando meu braço e caminhando comigo pela rua – Não vou me estender, mas você vai me escutar, quer você queira ou não. – minha cabeça já estava começando a doer.
