Augusto
Maria Fernanda chegou em casa e pelo som da porta batendo a gente percebeu que algo tinha acontecido. Só avistei o vulto dela no corredor e indo para seu quarto, logo em seguida batendo a porta com a mesma força que bateu a porta da sala.
— O que houve?! – Bernardo saiu de seu quarto de toalha, assustado com os barulhos.
— Não sei, Mafe acabou de chegar e pelo jeito algo péssimo aconteceu… – olhava para a porta do quarto de Maria Fernanda, fechada – Vai sair? – perguntei pro meu gêmeo.
— É claro, hoje é sexta-feira e eu preciso aproveitar a juventude, você deveria fazer o mesmo, Augusto, ficar enfurnado dentro desse apartamento não vai te trazer nenhuma mulher. – ele ria – É só não extrapolar que nem da última vez…
— E quem disse que quero isso? – podíamos ser gêmeos idênticos por fora, mas por dentro éramos bem diferentes.
— Meu Deus, eu sabia! – ele me olhou surpreso e eu fiquei ainda mais confuso – Você é gay!
— Quê?! – meu irmão tinha o cérebro de uma criança na quinta série.
— Ué, não quer mulher, então quer homem? Relaxa, maninho, eu apoio! – ele riu e bateu no meu ombro.
— Pelo o amor de Deus, Bernardo! – disse e Maria Fernanda abriu a porta do quarto, ela tinha chorado, mas alargou o sorriso ao nos ver.
— Mafe, Augusto assumiu! – Bernardo disse rindo.
— Assumiu o quê? – ela me olhou.
— Que é gay! – ele ainda ria, Maria Fernanda estava tão confusa quanto eu, mas me analisou e sorriu carinhosamente.
— Meu Deus! Bernardo, eu não sou gay! Não tenho nada contra, eu só quis dizer que eu não quero viver de putaria que nem você, meu Deus, por que você não cresce?! – estava puto com meu gêmeo.
— Sei… – ele sorria maliciosamente, mas olhou pra Mafe – O que houve? Resolveu trocar as portas de casa? – nossa irmã ficou séria, colocou as mãos na cabeça, ela tinha crises de enxaqueca com muito estresse e nitidamente estava tendo uma crise naquela hora.
— Rômulo tá em casa? – ela perguntou.
— Não, saiu com uma peguete, uma peguete bem mais velha, acho que ele achou uma sugar mommy… – Bernardo riu e eu segurei a risada.
— Você vai sair? – ela perguntou pro Bernardo.
— Óbvio. – ele riu – Alguma chance de você falar pra Fran sair comigo?
— Nenhuma. Você devia ser mais gentil com ela se tem alguma intenção com minha assistente… – Mafe ergueu a sobrancelha e me olhou – E você, Guto?
— Não pretendo sair, por quê? – tentava disfarçar a queimação que sentia nas minhas bochechas depois do comentário de Bernardo sobre Franciele.
— A gente precisa fazer uma reunião urgente, mas como Rômulo já saiu e Bernardo não vai abrir mão de putear, só posso pedir que estejam aqui em casa amanhã cedo.
— Ok, mas cedo que horas? Porque eu chego cedo, com o sol nascendo… – Bernardo ria.
— Só esteja aqui em casa amanhã, ok? – ela apertou a cabeça de novo e me olhou, eu sabia que ela tinha percebido minha reação – Bom, vai se arrumar, eu vou preparar um chá pra mim e pro Guto já que vamos ter uma noite de irmãos. – com isso ela queria dizer que eu ia ter que falar dos meus sentimentos, estava quase acompanhando Bernardo.
+++
Mafe tinha marcado a reunião de família com urgência, mas ela mesma não tinha comparecido. Quando fui acordá-la para avisar que todos estávamos em casa, vi que seu quarto estava vazio. Ela tinha saído e eu só conseguia pensar que algo ruim poderia estar acontecendo.
— Não tá em casa?! – Rômulo disse revoltado.
— Não… Vai ver ela sabia que talvez fosse cedo demais pra uma reunião… – tentei defender minha irmã.
— Eu vou voltar a dormir. – Bernardo disse bocejando e indo pro quarto.
— O que você acha que é? – Rômulo me perguntou.
— Não tenho ideia, mas talvez seja algo sério… – respondi preocupado.
— E ela obviamente saiu pra dar os jeitinhos dela. – eu sabia que Rômulo, às vezes, se sentia um pouco de lado pelo fato de Mafe assumir posições tão importantes pra gente, seja de irmã mais velha, mãe e empresária da família, eu sabia que Rômulo sentia falta de ter a irmã dele, eu também sentia algumas vezes, mas sempre que ele falava dos “jeitinhos” de Maria Fernanda, ele falava com raiva.
— A gente não pode reclamar… – disse o que era o certo a dizer.
— Você sempre vai defender as atitudes dela, né Guto?
— Bom, ela sempre cuidou da gente, sempre fez tudo por nós… Nada mais justo… – eu sempre iria defender minha irmã.
— Ela fez tudo por nós por meios ilegais, você sabe muito bem disso! – Rômulo estava no ápice de sua revolta com os jeitinhos de Mafe. Confesso que queria que ela fosse mais direta e aberta com a gente, mas era o jeito dela ser assim, eu já tinha aceitado.
— Rômulo, não venha falar dos jeitinhos de Mafe como se você não desse os seus jeitinhos também. – eu estava com um pouco de raiva, ultimamente ele desdenhava muito os jeitinhos de Mafe, mas eu conhecia os podres de todos eles – Eu sei o que você tem feito só pra falar que não depende do dinheiro da Maria Fernanda, eu sei, tá bom? – ele me olhou surpreso, com medo talvez.
— É diferente. – ele se apressou em dizer.
— O que é diferente? – nem percebemos quando Maria Fernanda chegou abrindo a porta e trazendo consigo uma sacola de pão que cheira maravilhosamente gostoso.
— Onde estava? – Rômulo perguntou.
— Fui comprar pão, me deu vontade de comer pão francês… – ela disse analisando nossa situação – Tá tudo bem? – não tínhamos como saber o que ela tinha escutado e ela nunca nos revelaria nada.
— Vou acordar o Be pra reunião. – Rômulo disse saindo da sala.
— Obrigada por confiar em mim. – ela disse sem me olhar nos olhos enquanto arrumava a mesa para o café da manhã. Eu sabia que ela tinha escutado muita coisa.
— Você é minha irmã… – disse sorrindo pra ela que me olhou e sorriu de volta – Me passa esse pão aí, que tô morrendo de fome e esse cheiro está delicioso!
Mafe
— Everton tá pelas redondezas… – eu fui direta ao ponto quando todos nós já tínhamos comido um pouco do café da manhã.
— Ele não tava preso? – Bernardo perguntou de boca cheia.
— Eu não sei… – menti – Eu sei que ele esteve na agência esses dias, Fran me disse que ele queria falar comigo ou com Thomas a qualquer custo, mas logo teve que sair correndo, literalmente…
— O que acha que ele quer? – Augusto me perguntou.
— Muitas coisas… – eu não tinha certeza se contaria tudo pra eles antes de ver se realmente conseguiria dar meu jeito na situação – Talvez o emprego de volta, talvez dinheiro, eu não sei, eu peço que tomem cuidado.
— Ótimo. – Rômulo disse impaciente – Everton por aí, seu namorado da Federal, estamos em ótima situação! – ele estava sendo sarcástico e eu estava prestes a explodir.
— O que quer dizer com isso? – tentei respirar fundo, minha cabeça começou a latejar.
— A gente tá fudido, Maria Fernanda, não é óbvio?!
— Você é burro, não é mesmo?! – disse me levantando da mesa – Você nunca vai confiar na minha ajuda, não é? Nunca! – minha cabeça já estava doendo muito, coloquei a mão na testa e sentei.
— Mafe… – Augusto se preocupou, vi Bernardo com um olhar assustado, sabia que ele estava num misto de preocupação e medo.
— Tomem cuidado. – disse olhando para os gêmeos – Não vou pedir que confie em mim, Rômulo, mas se puder eu agradeço. – disse saindo da mesa e indo para o meu quarto, eu precisava de um banho gelado.
Augusto
Maria Fernanda sabia muito mais do que resolveu nos contar, e eu sabia daquilo pelo simples fato de conhecer muito bem minha irmã mais velha. Talvez a atitude de Rômulo a impediu de se abrir pra valer com a gente e aquilo me deixava puto.
— Qual é a sua? – perguntei ainda sentado na cadeira, passava geleia na torrada e Rômulo sabia que eu me dirigia a ele.
— Qual é a minha? Qual é a de vocês! – ele disse – Na verdade, não precisam me dizer, eu sei qual é a de vocês, e como vocês adoram o dinheiro vindo fácil e os jeitinhos dela.
— Não sei o que quer dizer, Rômulo, mas se não fosse os jeitinhos dela a gente podia tá na rua, literalmente. – Bernardo tinha assumido uma postura séria de repente que me surpreendeu muito.
— Vocês não conseguem enxergar? – Rômulo falou um pouco baixo – Cada jeitinho que ela dá é mais um pouco de escavação na nossa cova. Ela quis ajudar a gente no início, mas depois que conseguiu montar a agência ela poderia ter parado de trabalhar pra facção e não parou, cada encrenca que a gente tem, ela dá um jeitinho perigoso e agora tá namorando um investigador da Polícia Federal, logo agora que a gente não precisa de mais atenção! – eu entendia o desespero de Rômulo, mas eu ainda confiava na minha irmã.
— Às vezes faz tudo parte de um plano maior. – Bernardo disse, já tínhamos conversado sobre aquilo desde o dia que eu tive que ir para o hospital – E não venha falar pra gente de meios ilegais e fáceis de conseguir dinheiro, tá bom? – Rômulo me olhou com raiva – Ninguém me contou não, Rômulo, eu simplesmente vi e tenho amigos que viram, então não precisa olhar pro Guto desse jeito, se ele sabe é porque é um bom observador.
— É diferente, porra! – ele gritou – É muito diferente e vocês sabem disso!
— Pode até ser um pouco diferente, mas não te dá motivos pra bancar o pai da boa moral, ok? – disse revoltado – Confia na sua irmã, ela nunca te deixou na mão e não vai ser agora que vai te deixar.
— Eu só não quero parar na cadeia ou ver vocês na cadeia, eu me preocupo com todos vocês e meu maior medo é esse. – Rômulo disse levantando – Mafe é uma boa irmã, mas fiquem de olhos abertos, esses jeitinhos ainda vão nos afundar.
Mafe
A discussão dos meus irmãos estava tão alta que eu tive que sair de casa e eles nem perceberam, por sorte. Não queria dar explicações naquela hora. Mexi na minha bolsa a caminho do subsolo para o estacionamento e peguei o comprimido de dor de cabeça, tomei seco, só queria que a dor parasse. Saí do elevador e fui em direção ao carro, eu precisava me distrair com alguma coisa e ir para a agência talvez ajudasse um pouco.
Chegando lá eu sabia que minha dor de cabeça não passaria tão cedo quanto eu queria. Mal tinha passado pela porta, Franciele já veio correndo até mim.
— Mafe, eu juro que tentei evitar que ele entrasse, mas… – olhei pra frente já imaginando ver Everton, mas minha surpresa foi grande quando vi Kleber.
— Tudo bem. – disse para minha assistente e a dispensei com um aceno de mão, caminhei até ele que estava sentado no hall de entrada e fiz sinal para que ele me acompanhasse até meu escritório – A que devo a honra? – fazia tempo que não o via e vi o quanto ele se arrumou para simplesmente entrar no prédio da minha agência. O olhava de pé a minha frente e imaginava como seria se ele fosse modelo. Kleber tinha porte e tinha beleza para aquela profissão, mas nunca me passou pela cabeça que ele pudesse aceitar um convite meu para fazer parte da empresa.
— É verdade? – ele perguntou me olhando com um pouco de raiva e eu não fazia ideia do que ele estava falando.
— Acho que você vai ter que ser um pouco mais específico… – eu não podia demonstrar pra ninguém naquele prédio minha estreita relação com Kleber, então tinha que tratar ele de uma forma bem profissional.
— Essa merda aqui, Maria Fernanda. – ele colocou o celular em cima da minha mesa com a tela ligada, mostrando uma foto minha com Daniel. Sua raiva era de ciúmes.
— Bom, é óbvio, não acha? – aquele não era um bom dia para conversas daquele tipo e muito menos era o lugar adequado para essas conversas.
— Você é cínica. – por dentro eu achei incrível o fato de ele ter ido até a agência apenas para demonstrar seu ciúmes.
— Já acabou de me ofender e descontar sua raiva?
— Há quanto tempo tá com esse almofadinha?
— Eu não te devo satisfação de nada.
— Tá dando pra ele há quanto tempo, Maria Fernanda?! – minha cabeça não parava de doer.
— Kleber… – disse colocando a mão na testa, pressionando as têmporas para tentar diminuir a dor – Você veio aqui só pra isso?
— Me responde.
— Aqui não é lugar pra falar disso, então se você não sair agora eu mando chamar a segurança.
— Bastou provar um pouco do bem bom da facção que já tá se achando a chefona, não é? – o ciúmes dele estava ficando extrapolado.
— Eu vou até você, mas aqui não é o lugar e hoje não é um bom dia pra gente falar de qualquer coisa que seja. – disse o encarando.
— Vai até mim? Tem meses que você sumiu dizendo que tinha que resolver os negócios da agência, era esse o negócio? Que bom que resolveu o problema no meio das suas pernas!
— Chega! – ele estava extrapolando – Sai daqui antes que eu mande chamar a segurança! – apontei para a porta do escritório.
— Eu preferia que tivesse deixado claro desde o começo.
— Eu sempre deixei claro desde o começo.
— Não, não deixou. – ele pegou o celular da minha mesa e se virou.
— Olha pra mim. – disse com raiva e ele me olhou – Não apareça mais aqui. Eu vou até você, quer você queira ou não. Para com essa ceninha ridícula e me espere. – ele me mostrou o dedo do meio e saiu do meu escritório, minha raiva e dor de cabeça eram tamanhas que eu peguei a primeira coisa que consegui tatear na minha mesa e joguei com força na parede, fui perceber que era vidro quando escutei o barulho. Franciele subiu correndo.
— Mafe! – ela disse preocupada.
— Tá tudo bem, Fran, foi um acidente… – disse sentando na cadeira, exausta.
— Você se machucou? – ela foi até mim e ficou analisando minhas mãos.
— Não, tá tudo bem, depois eu limpo… – disse querendo ficar sozinha e Fran entendia meus códigos.
— Ok, quer um chá? – ela ofereceu.
— Ia ser perfeito… – respondi e consegui sorrir para ela.
Estava tudo começando a sair dos trilhos e eu temia não conseguir alinhar as coisas novamente.
+++
Todas as noites, quando meu corpo conseguia um mínimo de descanso, ele me lembrava dos inúmeros problemas que eu tinha e das inúmeras coisas que escondia de tanta gente. Minhas noites eram sempre mal dormidas, já estava tão viciada em calmante e remédio pra dormir que só fui perceber que não os tinha comigo quando sentei na cama do quarto de Daniel e coloquei meus dedos nas têmporas da minha cabeça, a dor era latejante.
— Mafe? – devo ter gemido de dor baixinho, porque Daniel chamou meu nome – O que houve? – ele perguntou se ajeitando na cama, eu nem conseguia me mexer tamanha era a dor.
— Enxaqueca… – disse me amaldiçoando por ter passado a noite com ele, por, especificamente, não ter ido embora.
— Vou ver se tenho algum remédio… – ele levantou preocupado, colocou uma calça e saiu do quarto, quando voltou trazia um copo com água e um comprimido – Aqui… – ele me entregou e eu bebi depressa – Isso é tensão, sabia? – aquela frase dele tinha me deixado ainda mais tensa. É fato de que quando a gente tem culpa no cartório, tudo e todos parecem que te acusam de algo, com razão eu diria.
— Oi? – perguntei nervosa, Daniel era investigador da Polícia Federal, ele sabia de muitas coisas, ele sabia identificar criminosos.
— É tensão, querida… – ao mesmo tempo que gostava quando ele me chamava daquele jeito, eu ficava com pena. Ele se sentou na cama e me fez virar de costas pra ele, logo em seguida, começou a massagear meus ombros – Viu… Duros feito pedras… – sentia a massagem que ele fazia em mim, doía, eu realmente estava com muita tensão e dor – Ser uma mulherona como você, cheia de afazeres, tem a consequência de estar sempre tensa, eu entendo como é, meu trabalho é bem maçante às vezes… – ele beijou minha bochecha.
— Obrigada… – agradeci pela massagem e fui convidada por ele a me deitar aconchegada em seus braços, aceitei. Daniel era uma ótima pessoa, um ser apaixonante, poderia ficar ali por horas com ele, por dias até, ele sabia me entreter sem ser falando de trabalho, mas era perto dele que eu sempre ficava ainda mais apreensiva.
— Durma bem, minha linda… – senti uma pontada no peito, sabia o motivo.
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Rômulo
Maria Fernanda já tinha nos dado o alerta de que Everton estava cercando nossa região, e aquilo era só mais um problema pra cima da gente que quase não tinha com o que se preocupar, ironicamente falando, é claro.
Não fazia ideia do que Maria Fernanda estava tramando, sabia que ela tramava algo, com mais um jeitinho dela que provavelmente seria arriscado e ela não conseguia enxergar aquilo. Tinha anos que eu tentava fazer com que ela parasse de fazer aquilo, que se afastasse da facção, não dependíamos mais deles, desde que começamos a exportar os produtos de Gil e viramos o jogo construindo a agência que ganhou nome de uma maneira rápida, desde desse acontecimento eu falava pra Mafe que era hora de pararmos.
Mas minha irmã não pararia. Não abriria mão da facção, porque ela tinha ambição, mania de grandeza e quem não gosta de dinheiro fácil? Mas ela não pararia porque, principalmente, ela não queria quebrar o único vínculo que tinha com Kleber. Eu não entendia qual era a do novo namorado dela, ele surgiu de repente, investigador da Polícia Federal, no meio de uma crise gigantesca para o nosso lado, e eu sabia dos sentimentos da minha irmã mais velha, eu sabia que ela podia gostar do Daniel, mas era em Kleber que ela pensava.
Abandonar a facção seria, pra Mafe, dar adeus de uma vez por todas à comunidade em que crescemos e dar adeus a Kleber. Ela não o veria se não fosse para pegar produtos, ela tinha um ego inflado apesar de não demonstrar para os outros. Eu já estava cansado daquilo, cansado de depender daquele tipo de dinheiro que Mafe ganhava. Passei a focar apenas no trabalho na agência, mas não conseguia escapar das entregas internacionais que fazia pela Maria Fernanda quando nos chamavam para algum desfile fora do Brasil.
O problema era a vida muito boa que Maria Fernanda tinha nos proporcionado e é extremamente difícil abrir mão de futilidades quando já estamos tão acostumados.
— Rômulo, você está atrasado. – Franciele disse quando passei pela porta da agência naquela tarde – Temos uma sessão de fotos pra fazer de um patrocinador e você sabe que eu não tolero atrasos.
— Desculpa, foi um almoço demorado. – disse a verdade.
— Deu pra comer mais agora? – Bernardo tinha acabado de chegar na agência, ele e Guto teriam uma sessão de fotos também, meu irmão colocou o óculos de sol na cabeça e me encarou.
— Sempre comi muito. – respondi seco.
— Isso é algo que precisamos conversar, então. – Franciele me olhou com um semblante bravo – Você sabe muito bem que você precisa seguir uma dieta à risca, Rômulo, você é um dos nossos principais modelos internacionais e você sabe como lá fora eles são intoleráveis com peso.
— Calma, Fran… – aquela desculpa tinha sido péssima – Eu sigo a dieta, não se preocupe, é que encontrei um amigo e almoçamos juntos.
— Ah é? Quem foi? – Bernardo ainda me olhava como se me analisasse.
— Não te interessa, Bernardo. – olhei para Fran – Vou subir pra me arrumar.
Não tinha visto Mafe na agência naquele dia e em casa mal conversávamos e quando acontecia de trocarmos algumas palavras, a gente acabava brigando. Aquilo acabava comigo, porque Mafe sempre foi minha melhor amiga e aquela crise estava tirando aquilo de mim, tirando minha irmã de mim. Ela daria um jeitinho e eu temia por ela e pelos gêmeos.
Estava saindo da agência depois da sessão de fotos, caminhava para o estacionamento que pagávamos aluguel e na entrada do lugar eu era aguardado por uma pessoa.
— Não precisava ter vindo… Eu já estava indo até você… – disse sorrindo.
Mafe
— Abre essa merda dessa porta, Kleber! – já estava cansada de bater naquela porta velha de madeira, e eu sabia que ele estava lá dentro – Abre ou eu arrombo! – comecei a chutar a porta, algumas pessoas saíram nas janelas para ver o que estava acontecendo.
— Você é uma maluca surtada. – ele disse com raiva quando abriu a porta. Entrei sem que ele me convidasse – Você não tem mais esse direito de ir entrando quando bem entender.
— Cala essa boca. – fui para o quarto dele e ele me seguiu – Você deu seu piti e agora vai me escutar.
— Eu não preciso escutar porra nenhuma, Maria Fernanda, eu já saquei seu jogo.
— Não sacou, seu estúpido! – estava fervendo de raiva.
— Não deveria estar com seu namoradinho da federal? – aquele olhar que ele me lançava era de ciúmes e raiva e eu retribuía do mesmo modo, mas com muito mais raiva.
— Você vai ao menos tentar me escutar? – disse cansada.
— Você devia ir embora. – ele também estava cansado.
— Você sabe que caiu uma bomba na agência depois do Everton, você sabe disso, Kleber.
— O que eu tenho a ver com seus problemas?
— Tudo. – ele desviou o olhar de mim.
— Vai embora, Maria Fernanda. – eu não sabia por que estava me dando um aperto no coração.
— Você é meu cúmplice, meu parceiro, Kleber.
— É. Obrigado por deixar claro mais uma vez, já pode vazar.
— Daniel é uma jogada, Kleber. – disse usando minha última carta na manga, não poderia me separar de Kleber nem que eu realmente quisesse.
— Conta outra. – ele me olhou com desdém.
— Não mentiria sobre isso pra você. – disse já pegando minha bolsa que tinha jogado no colchão. Kleber me olhava e eu comecei a caminhar para fora do quarto – Mantenha os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda. – sua expressão facial mudou um pouco, não estava mais tão séria. Ele conhecia aquele ditado e era uma piada interna nossa.
— Você foi longe demais com isso.
— Eu faço tudo pelos meus irmãos. – ele sabia que sim.
— Até se arriscar desse jeito. – não foi uma pergunta. Kleber riu e sentou na cama, não sabia o que estava acontecendo.
— Virei atração? – não segurei aquele comentário na minha cabeça, estava confusa e revoltada, além de tudo, estava cansada daquela troca de farpas. Kleber se levantou parando de rir e se aproximou de mim, não sabia identificar que olhar era aquele.
— Você é uma maluca surtada.
— Vai tomar no seu cu. – disse desistindo de qualquer conversa com ele e me virei para ir embora, mas ele segurou meu braço e me puxou com força, ainda me olhando com o olhar de antes, já sabia o que representava quando ele me beijou, só sei que joguei minha bolsa no chão antes de ir pra cama dele.
+++
Kleber olhava para o teto enquanto eu me vestia, quase nunca ficávamos em silêncio depois de terminarmos, mas daquela vez estava estranho.
— O que foi? – perguntei colocando a camiseta.
— Você parece feliz nas fotos com ele… – ele disse ainda olhando pro teto – Não minta pra mim, você gosta dele? Um pouco que seja?
— Ele é um bom homem… – disse querendo que ele mudasse de assunto, Kleber se virou na cama e me olhou sério.
— Eu daria tudo pra ter uma foto com você do jeito que ele aparenta ter tantas com você. – aquilo era tão complicado que desviei o olhar.
— Podemos tirar fotos, você sabe disso… – disse tentando disfarçar.
— E postar como ele posta com você? – ele deu um risinho debochado – Ele é uma jogada, mas e depois, Maria Fernanda? Quando tem tanto envolvimento assim numa relação é quase impossível a gente separar depois… – ele falava também da gente – Vai saber separar? Vai saber terminar? Ou melhor… – ele respirou fundo – Vai querer terminar com ele?
— Não tem por que não terminar depois que tudo melhorar. – disse sabendo que seria difícil, eu gostava de Daniel, não como gostava de Kleber, mas tinha carinho por ele.
— Está bem. – ele sabia meus pensamentos. Peguei minha bolsa e ameacei sair do quarto – Maria Fernanda…
— Oi. – disse me virando pra ele.
— Casaria comigo um dia? – ele sorriu e pela primeira vez aquela pergunta de “brincadeira” dele me atingiu em cheio, não sabia o que responder, porque sabia que mais do que nunca ele falava sério. Não respondi, nem olhei pra ele, só saí de lá.
+++
Cheguei em casa cansada e pronta para tomar um banho e deitar na cama, mas tive uma surpresa.
— Dan? – disse assim que entrei no apartamento, Augusto se levantou pra tentar me avisar, mas eu já tinha avistado Daniel no sofá, só torcia para meu cabelo não estar tão desarrumado quanto eu achava que estava.
— Oi, amor… – ele disse sorrindo, ele tinha um sorriso bonito, mas com certeza ficou um pouco em choque ao me ver, não mais do que eu.
— Aconteceu alguma coisa? – disse olhando ao redor, só Augusto estava na sala.
— Bom, na verdade sim… – ele disse sem jeito – Você tá bem? Onde estava, se é que posso saber…
— Fui encontrar um patrocinador, mas acabei pegando trânsito… – era a pior desculpa, mas pelo menos sempre dava certo, São Paulo sem trânsito em qualquer parte, não é São Paulo – O que aconteceu? – disse fazendo sinal com os olhos para que Guto nos deixasse e ele entendeu o recado.
— Você sabe que sou investigador… – ele disse cauteloso e meu coração já batia acelerado – Não tá exatamente na minha jurisdição, mas eu fiquei sabendo do rapaz que foi acusado vendendo drogas na sua agência… – eu já via uma algema nos meus pulsos – Eu tomei a liberdade de ficar atento… – não conseguia falar nada, mas tentava manter a calma – Ele esteve rondando sua agência esses dias então tomei a liberdade de colocar alguns agentes por perto pra viajar, caso ele apareça… – respirei mais aliviada – Sei que ele era seu modelo, funcionário, mas zelo pela sua proteção…
— Querido… – achei que ele estava prestes a me prender – Não precisa, temos segurança lá… – disse sorrindo.
— Eu sei, só me preocupo… – ele sorriu de uma maneira que não resisti e o beijei.
— Nossa… – ele disse se afastando um pouco – Eu já tive esse perfume… – meu sangue congelou.
— Bom, eu não sei que perfume o Jonas usa, mas sei que era forte, não me admiro de estar empesteada dele, devo estar cheirando a cigarro também, o tanto que ele fumou… – torcia para Daniel acreditar.
— Cigarro não… – ele disse me analisando e sorriu – É um perfume forte, ficava nas minhas roupas por dias! Por isso parei de usar… – ele riu, aquilo devia significar que ele caiu na tentativa de enganação – Eu vim só pra te dar esse recado, você não atendeu minhas ligações… – ele passou a mão na minha bochecha.
— Quer ficar pra jantar? A gente pede alguma coisa… Tá só a gente e o Guto, se Be estiver aí ele vai sair já já tenho certeza…
— Não, não quero te incomodar…
— Por favor! – quase implorei, ele riu.
— Pedindo assim, quem sou pra recusar…
— Vou tomar um banho! – disse animada – Se quiser ficar no meu quarto… – disse me levantando – Ou Guto pode vir te fazer companhia… – disse me tocando de que seria uma péssima ideia Daniel ficar no meu quarto – Guto! – chamei meu irmão.
— Fala. – Guto apareceu na sala.
— Fica fazendo companhia pro Dan, vou tomar uma ducha e vamos pedir comida, se quiserem já ir pedindo, como qualquer coisa que decidirem!
Augusto
Maria Fernanda nos metia em cada enrascada cotidiana… Eu tinha escutado a conversa dela com Daniel na sala, gelei assim como imagino que ela deve ter gelado quando ele falou dos agentes e quando falou do perfume masculino que estava na roupa dela, eu sabia que ela não tinha ido se encontrar com patrocinador nenhum, a menos que fosse para o outro negócio dela, então Kleber seria um ótimo patrocinador.
— Guto, eu vou falar pra Mafe ainda hoje, não dá mais, cara, isso tá errado, não errado do nosso jeito e… – Bernardo estava fora de casa e tinha acabado de chegar um pouco revoltado, quase falou demais, mas acabou parando, por sorte, quando viu Daniel na sala – Daniel! – ele me olhou desesperado.
— Tá tudo bem, Bernardo? – Daniel perguntou num misto de preocupação e confusão para meu gêmeo.
— Tá… – Bernardo tentava disfarçar – É só uns B.O. de uma sessão de fotos que fizemos e que eu fui muito prejudicado…
— Bom, então realmente, isso tá muito errado… – Daniel riu e Bernardo até soltou uma risadinha.
— Vamos pedir comida, vai sair ou quer ficar e jantar com a gente? – disse vendo meu irmão em um surto interno.
— Vou sair… – ele disse e já voltou a sorrir normal – Fran finalmente aceitou tomar uma breja comigo! – aquilo foi como uma facada bem dada em mim, não sabia nem se iria conseguir disfarçar.
— É sério? – perguntei torcendo pra ser uma brincadeira idiota.
— Muito mais do que sério! – ele quase pulava de alegria, então era bem sério, Daniel se continha pra não rir da animação do meu irmão.
— Mulher de sorte essa Fran… – Daniel disse e eu queria muito que ele não tivesse dito nada.
— Eu sempre digo isso pra ela! – Bernardo gargalhou e foi para seu quarto – Mafe! A Fran vai tomar uma breja comigo! – ele disse no corredor antes de sumir da minha vista e segundos depois, Maria Fernanda apareceu na sala de cabelo molhado, mas trocada e me olhou com um pouco de pena.
— Eu entendo se não quiser jantar com a gente… – ela disse me olhando.
— Vocês são cheios de códigos… – Daniel disse rindo e eu estava tão sem graça.
— A Fran é minha secretária, querido… – ela disse se aproximando de Daniel no sofá – Mas isso não vem ao caso… Que tal uma pizza? – ela disse ainda me olhando com pena – Deixo você pedir até a doce que tanto gosta contanto que não conte nada pra ninguém… – Maria Fernanda era uma boa irmãe.
— Ainda existe esse lance de ter que ter uma dieta à risca no ramo de vocês? – Daniel perguntou e eu não sabia dizer se ele entendeu que era pra mudar de assunto ou qualquer outra coisa.
— O problema não é nem aqui… – Maria Fernanda disse – Mas o Rô, o Be e o Guto são modelos internacionais também e é lá fora que eles implicam bastante com peso… Então, eles fazem a dieta e têm o personal trainer, apesar de que nunca vejo nenhum dos três indo de fato treinar… – ela riu.
— Eu prefiro ioga. – odiava academia.
— Ioga é muito bom, dizem que ajuda muito! – Daniel falava, ele era legal, gostava dele.
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Mafe
Foi uma semana de ânimos à flor da pele para todos naquele apartamento, mas naquele café da manhã foi a cereja do bolo, a discussão começou quando Bernardo se mostrou radiante demais por estar conseguindo mais do que farpas de Franciele e Augusto estava nitidamente com ciúmes. Eu não sabia se Bernardo fazia ideia dos sentimentos de Guto, talvez não, ou talvez sim e ele estava sendo um grande filho da puta, mas preferia manter a esperança de que ele não fazia ideia. Rômulo foi tentar apartar a discussão dos dois e então ele virou o alvo, eu tentava fazer com que os três parassem de brigar.
— Eu cansei! – Augusto gritou e por um momento todos ficaram quietos – Cansei dessas mentiras, de fazer tudo parecer normal e às mil maravilhas quando não está! – ninguém falou nada – Eu sei que você tá com um plano, Maria Fernanda, eu sei que tá, sei que tem alguma coisa acontecendo de bem séria e, pra piorar, eu cansei das suas mentiras Rômulo!
— O que você tá falando, moleque?! – Rômulo se desesperou e por um instante Augusto hesitou se continuaria a falar, eu reparava no olhar de Rômulo e no de Augusto.
— Já contou pra Mafe que tá se prostituindo pra não depender do dinheiro dela? – no fundo eu imaginava, mas não queria saber se era ou não verdade.
— Isso não é verdade. – Rômulo disse sustentando o olhar irritado de Augusto, então ele me olhou – Não é verdade, Mafe.
Eu não tinha reação, queria chorar, mas não ali e não naquele momento, Bernardo tinha um olhar de que sabia que o que Augusto falava era verdade e o desespero no olhar de Rômulo me fez entender quem falava sério ou não. Peguei minha bolsa e a chave do carro, tinha que sair daquele apartamento.
— Mafe! – Rômulo ainda me chamou quando eu me dirigi pra porta, mas não fiquei.
Não sei como dirigi até a agência com a minha cabeça do jeito que estava: confusa, cheia de pensamentos e com muita dor. Entrei no estacionamento e fiquei, talvez, uns quinze minutos sentada no carro estacionado, até que me assustei quando alguém bateu no vidro do carro na porta do carona e logo em seguida abriu a porta e entrou.
— Cadê meu dinheiro? – Everton falava e não hesitou em me mostrar uma arma na jaqueta.
— Eu já te disse que não é fácil uma transação dessas, tenho que pedir autorização do banco e explicar os motivos.
— Me poupe, Maria Fernanda, sei que guarda rolos de dinheiro vivo na sua casa, Bernardo já deixou escapar uma vez.
— Eu guardo pra pagamentos com meus fornecedores.
— Dá seus pulos, ou melhor, seus jeitinhos. – ele disse com raiva – É isso ou eu boto a boca no trombone, não vou me foder sozinho nessa. – ele abriu a porta do carro e saiu, eu sentia minha vista querendo escurecer da dor da enxaqueca.
Não consegui sair do carro por não sei mais quanto tempo, era um péssimo dia, os meninos me mandavam mensagem a toda hora, Augusto e Rômulo tentaram me ligar várias vezes, eu via as chamadas na tela, mas não atendia. Outra batia no vidro do carro, dessa vez era do meu lado da porta, um dos funcionários do estacionamento me chamava.
— Dona, dona, você tá bem? – me virei pra ele e abaixei o vidro do carro.
— Tô… Tive uma dor de cabeça, mas estou bem… – não estava nada bem.
— A senhora quer que eu chame alguém? Ligue pra alguém? – eu queria sumir.
— Não precisa, eu estou melhor… – disse ligando o carro – Obrigada por se preocupar, preciso ir agora. – ele se afastou para que eu saísse com o carro, antes de ir mandei uma mensagem para Franciele avisando que não iria para a agência naquele dia.
Segui para Paraisópolis.
Bernardo
O clima ficou pior e eu tinha medo de que nada voltasse a ser como antes. Rômulo e Augusto nem se olhavam na cara e Maria Fernanda tinha saído sem dizer nada, mandei mensagens pra ela, sei que Guto fez o mesmo, vi Rômulo tentando ligar, mas ela não respondia.
— Eu não tô fazendo programa. – Rômulo disse depois de muito tempo de silêncio, estávamos na sala – É diferente.
— Você transa e recebe por isso, como não é prostituição? – Augusto disse.
— Eu não transo sempre, Augusto. É mais como uma companhia, se rolar sexo é lucro.
— Ainda é se prostituir. – Augusto disse e se levantou.
— Não sei por que estão implicando comigo, olha nossa vida! – Rômulo falou – A gente tá aqui nesse prédio porque a Mafe vende droga! E justo eu sou crucificado??
— Maria Fernanda é discreta, você é uma figura pública, se sabem que você tá fazendo isso e vai pra mídia, acabou pra você e pra todos nós. – disse finalmente.
— E vocês acham que nada vai acontecer se descobrirem nosso segredo de família? – Rômulo falou.
— Por enquanto está bem embaixo dos panos. – disse – Não tá público, a céu aberto, como você.
— Por enquanto… – Rômulo riu ironicamente – Mais um jeitinho dela e a gente afunda, não vamos nem voltar pra comunidade, a gente vai direto pra cadeia!
— Ela não vai deixar que isso aconteça com a gente. – Augusto falou.
— Ela pode tentar, mas quem garante? – Rômulo falou com raiva – Vou até a agência ver se ela tá lá. – ele saiu de casa.
— Que bicho te mordeu esses dias, Augusto? – perguntei pro meu gêmeo assim que ficamos a sós.
— Do que você tá falando? – ele perguntou me encarando.
— Dessas suas atitudes, de jogar a merda no ventilador e ligar, do seu mau humor!
— Eu tô normal.
— Claro, e agora o gêmeo cuzão é você.
— Não se faça de tonto, você sabe por que tô assim!
— Sei do quê, meu Deus?! – eu deveria saber alguma coisa?
— Ah me poupe, Bernardo. – ele disse e também saiu da casa, o que estava acontecendo?
Mafe
— Já tão cedo de volta? – Kleber atendeu a porta assim que bati – Que que aconteceu? – ele perguntou quando entrei na casa e sentei no sofá apertando minha cabeça pra parar de doer – Mafe?
— Me dá um copo de água, por favor… – pedi, já estava com o remédio na mão.
— O que aconteceu? – ele perguntou me entregando o copo.
— Posso ficar aqui hoje? Não tenho condição de voltar pra casa…
— Ué, mas e seu namoradinho da Federal? – levantei, não tinha condição de ficar ali também, pelo jeito – Ei, que foi? – ele me puxou pelo braço – Fica aqui, você sabe que pode… – ele disse e entendi como um pedido de desculpa – Vai me falar o que tá pegando? – neguei com a cabeça e o abracei – Ok… – ele disse de início sem ter muita reação, mas me abraçou de volta – Vai lá pro quarto, deita um pouco, vou fazer um negócio pra você comer.
Eu precisava pensar, o cerco estava fechando pra cima de mim e dos meus irmãos e eu jamais permitiria que alguma coisa acontecesse com eles, mas eu estava sem ideias, não vinha nada na minha cabeça que, pra piorar, estava a nível de explodir de vez.
Deitada na cama de Kleber, no escuro daquele quarto um pouco apertado por conta da cama grande, eu tentava pensar num plano. Everton me pedia dinheiro pelo seu silêncio, mas eu conhecia aquele tipo de atitude e principalmente, conhecia o tipo de Everton. Ele me prometia o silêncio dele em troca de pagamento, mas sempre iria me pedir mais dinheiro, estaria nas mãos dele e não sabia como mudar aquilo.
— Toma… – Kleber entrou no quarto, com um prato e um copo de vidro – Fiz um misto, sei que ama… – ele sorriu e me entregou o lanche, naquele momento me veio uma ideia na cabeça, ao mesmo tempo que uma pontada no meu peito – É nessas horas que percebo o quanto sou seu cachorrinho. – Kleber estava com a mania de demonstrar seus sentimentos por mim de jeitos diversificados, em tons de brincadeira, mas que era puramente verdade.
— É porque quer… – disse mordendo o lanche.
— Pois é, não tenho muita escolha… – ele sorriu e se sentou na cadeira de frente pra cama, a luz do corredor iluminava o quarto que estava escuro – O que aconteceu, hein?
— Tantas coisas… – disse tomando o suco – Tá tudo desmoronando pra cima de mim e dos meus irmãos e a maioria nem é exatamente pelo nosso trabalho extracurricular.
— É pelo o quê, então?
— Bernardo e Augusto gostam da mesma mulher, pra começar… – Kleber deu uma risadinha – Minha assistente e secretária…
— E ela gosta de algum dos dois?
— Gosta do cafajeste.
— Nada diferente de você, fez uma boa escolha de secretária. – ele sorria e eu não resisti, sorri junto – E já deu problema?
— Deu. – falar com Kleber de coisas cotidianas e problemas banais me trazia uma certa paz – Semana passada, depois do Be tanto insistir, a Fran, minha secretária, aceitou sair com ele…
— E o Augusto surtou?
— Surtou hoje, pra falar a verdade. – só de lembrar do início da manhã eu já queria sumir – Eu não sei se o Be sabe que o Guto também gosta da Fran, eu acho que não, mas vai saber… Guto tá de mau humor desde então e hoje ele tirou o dia pra expor o Rômulo.
— Ué, mas o que o Rômulo tem a ver com isso? – ele me olhava confuso, ainda sorria.
— Nada, mas foi o alvo do mau humor do Guto… Só que… – era difícil falar aquilo até pro Kleber – Bom, o Rô tem saído muito, agido muito em mistério, eu sabia que ele tava aprontando alguma coisa e hoje o Guto confirmou isso no café…
— E o que era?
— Ele… – eu não conseguia falar – Ele tá… Se prostituindo, ao que parece…
— Puta merda… – ele ficou sério e eu abaixei a cabeça, queria chorar, mas não na frente dele.
— Eu sei que errei com eles, desde o início, tudo foi feito de maneira errada, e agora eu não tenho mais o controle das coisas… – coloquei o prato e o copo na cômoda ao lado da cama de Kleber e deitei no colchão, olhava para o teto e continha a vontade de chorar.
— Todos vocês são maiores de idade já tem bastante tempo, Mafe… – ele disse indo até a cama e ficando por cima de mim.
— Eles são minha responsabilidade.
— Não, não são… – eu sabia que não eram, mas eu me sentia responsável por eles – Você não precisa ter o controle de tudo, principalmente deles. – ele me beijou – Fica aqui hoje, amanhã você vai tá com a cabeça mais fria e volta pra falar com todos.
— Preciso ir hoje. – disse sentindo Kleber me beijar no pescoço – Eu ainda tenho que sair com… – ele se afastou na hora.
— É… É melhor você se resolver com seus irmãos logo, mesmo… – ele disse sério.
— Vou sumir por uns tempos, eu preciso pensar em como vou resolver algumas coisas… – ele concordou com a cabeça assim que me levantei da cama – Obrigada pelo lanche, por me ouvir…
— É só dizer uma palavra que essas conversas podem ser nossa rotina… – ele sorriu.
— Eu voltou assim que der. – disse saindo do quarto dele.
+++
Rômulo
Eu tinha passado o dia todo esperando por Maria Fernanda, precisava conversar com ela depois do surto do Augusto. Fiquei esperando na sala o dia todo, até que ela entrou no apartamento já quando estava anoitecendo. Fiquei de pé na hora, Augusto tinha saído e Bernardo estava dormindo. Nada iria apagar da minha memória o olhar que ela me deu quando me viu, foi doloroso porque eu sabia que estava sendo daquele jeito pra ela.
— Eu errei com vocês… – ela disse e se segurava pra não chorar.
— Deixa eu explicar… – pedi, mas não sabia o que eu ia falar – Eu não tô me prostituindo, é mais como um garoto companhia, entende, se rolar sexo é lucro, mas é mais acompanhante de idosa rica… – era péssimo falar aquilo, sentia vergonha, mas não tinha um jeito mais suave de falar.
— Por quê? – ela colocou a bolsa no balcão da cozinha e me olhou.
— Eu não queria depender do dinheiro das drogas… – ela não conseguiu segurar o soluço e o choro.
— Rô, era só me falar que não queria mais… Eu não vou obrigar nenhum de vocês a fazer esse trabalho se não quiserem! – eu sabia daquilo, me sentia péssimo.
— Eu só queria manter o padrão de vida e… Um dia uma senhora me chamou pra ser companhia dela num evento… Acabei pegando gosto por isso… – ela soluçou de novo – Mafe… – era horrível ver minha irmã daquele jeito, ela era uma ótima irmãe, mas eu a queria mais como irmã do que como mãe e, às vezes, ela se esquecia de que nosso parentesco era apenas de irmãos. O celular dela apitou, ela desviou os olhos dos meus por um instante,
— Eu preciso tomar um banho… Daniel já vai passar aqui… – ela disse enxugando as lágrimas em vão.
— Mafe… – eu não sabia o que aquilo significava, mas ela me deu um abraço.
— Me perdoa, eu errei com todos vocês…
— Não, Mafe, você não errou com a gente, nós que fizemos nossas próprias escolhas… – disse a abraçando de volta.
Eu sentia falta dos tempos de antes dos gêmeos nascerem, éramos só eu e ela, eu era bem pequeno, mas pensar naquele tempo me trazia bons sentimentos, claro que eu amava os gêmeos, era pequeno pra entender que eles só eram nossos meio-irmãos, eu os amava por completo, mas quando era só eu e Mafe, as coisas pareciam ser mais leves.
— Você… – ela disse se afastando do abraço e enxugando as lágrimas – Vai sair? – ela perguntou com receio, agora ela sabia o que minhas saídas representavam. Neguei com a cabeça – Ok… – ela esboçou um sorriso e foi pro quarto dela.
— Você escutou tudo, né? – disse quando vi o vulto de Bernardo no corredor momentos depois que Mafe fechou a porta do quarto.
— A gente era mais feliz na favela… – ele disse um pouco sério, parecia que naqueles dias ele e Augusto tinham trocado de personalidade.
— Concordo… – disse me sentindo nostálgico.
— Você sabe o que eu possa ter feito de errado pro Guto tá desse jeito? Por que ele meio que deixou escapar que era culpa minha… – os gêmeos eram ainda mais inseparáveis do que eu era com Mafe, eu sabia que Bernardo estava sentido com aquele abalo.
— Eu não tenho ideia, a Mafe que deve saber, ela que conversa sempre sobre essas coisas com a gente… – eu tinha pra mim que era algo a ver com o lance de Bernardo sair com a Franciele, mas não tinha certeza.
— É… Vou esperar essa poeira abaixar… – ele disse pensativo – A que ponto chegamos?
— No fundo do poço? – disse dando uma risadinha.
— Ainda não… – ele sorriu e eu sabia que faltava bem pouco para chegarmos ao fundo do poço.
— Mafe não vai permitir isso… – disse querendo acreditar naquilo.
— Assim espero… – Bernardo falou e voltou pro quarto dele.
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Mafe
Franciele me ligava logo cedo e eu tinha dormido de novo no apartamento de Daniel, simplesmente apaguei.
— Alô? – disse assim que peguei o telefone na cômoda ao lado da cama de Daniel, atendi sonolenta. Enquanto esperava uma resposta do outro lado da linha vi que Daniel não estava mais na cama – Fran, calma, que foi? – ela falava afobada do outro lado da linha – Como é que é?! – meu coração tinha parado – Tô indo aí, fica calma! – disse desesperada, já levantando e pegando minhas roupas no chão.
— Amor? – Daniel disse saindo do banheiro com a toalha na cintura – Bom dia… Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu, Dan, eu preciso ir pra agência o mais rápido possível, pode me deixar lá? – eu tinha ido com Daniel pro apartamento dele, estava sem carro.
— Claro, amor, quer me contar o que foi? – eu queria, mas seria arriscado.
— Problemas da empresa, não se preocupe… – tentava parecer um pouco mais calma, já estava pronta.
— Vou colocar uma roupa e já saímos. – ele disse indo até o closet, resolvi esperar por ele na sala, enquanto isso, mandava mensagem pros meninos não pisarem na agência, por precaução.
Tudo estava normal na agência, mas Franciele estava pálida, mesmo tentando disfarçar assim que me viu chegando com Daniel, insisti para que ele não entrasse, mas ele ficou preocupado com minha reação e só sossegou quando disse que ele podia me levar literalmente até meu escritório.
— Obrigada, querido… – disse assim que entrei na agência.
— Tem certeza que vai ficar bem? – quando ele estava de uniforme, ficava ainda mais sério.
— Sim, eu te ligo qualquer coisa… – disse dando um selinho nele e o vi sair da agência. Sinalizei pra Franciele me acompanhar até o escritório – Você tá bem? – perguntei pra ela assim que fechamos a porta.
— Tô… Ele não me ameaçou diretamente, mas disse que eu devia te dar um recado… – Fran tinha me ligado desesperada pra falar que Everton tinha ido até a agência assim que ela chegou pra abrir o lugar e a abordou, mas por telefone ela não me disse o assunto.
— Recado? – aquilo estava estranho.
— Mafe, ele disse que cansou de esperar… Vocês fizeram algum trato? – ela não sabia que Everton já tinha me ameaçado.
— Ele só disse isso? – preferi não responder àquela pergunta.
— Disse que cansou de esperar e que se você não cumprir o combinado ele vai pra mídia sexta.
— Sexta?! – aquilo era um pesadelo.
— Mafe, ele tá te ameaçando, né? O que ele quer? A gente manda prender esse cara, seu namorado é da polícia!
— Não se preocupe, Fran… – eu precisava pensar em algo ainda mais rápido – Você tá bem mesmo? – minha cabeça já estava começando a doer.
— Tô… Só me preocupo com você… – ela respondeu com o olhar triste.
— Não precisa… – sorri – Se quiser tirar a manhã de folga, fica à vontade, tá?
— E essa agência vai funcionar como sem mim?! – ela deu uma risadinha – Vou te trazer um chá…
— Obrigada, Fran…
Eu queria dar um jeito que me desse paz naquela confusão toda, estava enrolando para entregar o dinheiro que Everton tinha me pedido porque eu sabia que estaria na mão dele, um silêncio pode ser comprado várias vezes e ele ia fazer questão de me cobrar sempre por seu silêncio. Mas não ia ter jeito, pelo menos por hora, até eu ter um plano melhor, até a poeira abaixar de vez.
— Aqui, Mafe… – Franciele me trouxe o chá em uma caneca da empresa – Thomas quer saber se você vai pra reunião montar o casting…
— Vou, só preciso de uns instantes até o remédio fazer efeito. – respondi e a olhei – Fran, você tem saído com meu irmão? O Be… – ela ficou vermelha na hora e abaixou a cabeça – Não precisa ficar assim… – disse rindo e tomando um gole do chá – Olha, se você sente alguma coisa por ele, por mais “Bernardo” que ele seja… – fiz aspas com o dedo – Eu fico feliz, por você e por ele… – mas ainda iria ter que enfrentar mais uma pequena tempestade por conta daquilo, em casa.
— Melhor ir pra reunião, já já os clientes da campanha com a Júlia e a Helena chegam…
— Sim, senhora… – disse sorrindo, ela ainda estava vermelha e saiu da minha sala como o diabo foge da cruz.
+++
Eu tinha três dias e algumas horas para pensar no que fazer, mas nada me vinha à cabeça, o cerco estava fechando e eu sabia que mais cedo ou mais tarde minhas atividades extracurriculares iriam acabar vazando, eu só não esperava que fosse tão cedo e por um deslize idiota.
— Maria Fernanda? – Fran me chamava na reunião, ela usava meu nome inteiro quando estávamos na frente de clientes importantes.
— Sim? – não tinha prestado atenção em quase nada e segurava minha dor de cabeça o máximo que podia.
— Estamos pensando em um desfile futuramente, temos uma associada que está lançando uma marca de roupas – o cliente da campanha de Helena e Júlia era um dos editores da Elle Brasil – E garantimos a ela um bom espaço nesse meio, a começar com um desfile… Mas ela gosta de modelos excêntricos, como essa Júlia…
— Querem a Júlia para desfilar? – eu entendia as entrelinhas do que ele queria dizer, mas Júlia era uma modelo de fotos, havia uma grande diferença.
— Exatamente, e sua assistente nos mostrou algumas fotos de modelos, estamos pensando nesses aqui também… – ele me mostrou as fotos nos portfólios espalhados pela mesa.
— Ótimas escolhas, mas eu preciso advertir o senhor que a Júlia não é modelo de passarela…
— Não há nada que você poderia fazer a respeito disso? – ele ergueu uma sobrancelha de uma maneira bem intimidadora, eu já estava cansada de intimidações.
— Todos os nossos modelos recebem treinamento para diversos trabalhos, mas há aqueles que ficam apenas em uma área. Como a Júlia é uma modelo albina, os cuidados com ela são maiores e ela também é bem exigente…
— Bom, estávamos pensando nesse tipo de cachê para ela e sua empresa… – ele me mostrou a tela do celular dele e o valor era altíssimo.
— Faz tanta questão da Júlia como modelo de passarela? – Júlia recebia muitas ofertas de campanhas, algumas até internacionais, mas como era minha responsabilidade organizar a agenda dela e, consequentemente, a carreira, cada proposta deveria passar por mim.
— Faço, e gostaria dessa Helena também, as duas fizeram uma campanha incrível, estará na próxima edição da revista em duas semanas. – o editor da Elle sorriu.
— Bom, eu vou conversar com a Júlia e te retorno até o final da semana. – ele se levantou, seguido de seus assistentes e estendeu a mão para eu apertar.
— Excelente! – o sorriso dele estava largo com a possível conquista – Mandaremos um exemplar da revista para você antes da publicação oficial! – ele disse e saiu da sala de reuniões.
— Eu tenho dó dele… – Franciele disse assim que se despediu de todos da reunião e voltou para a sala.
— Eu tenho dó de todos que precisam lidar com o temperamento da Júlia, e isso inclui eu e você amanhã. – dei uma risadinha.
— Me tira dessa, Mafe!
— De jeito nenhum! – peguei minhas coisas da mesa – Liga pra Júlia, diz que temos que falar com ela e marca o horário pra amanhã sem falta… Eu vou dar uma saída, mas volto pra fechar a agência.
— Sobre aquilo de manhã, você tá bem mesmo?
— Estou, Fran, não se preocupe. – sorri – Dan mandou dois seguranças pra cá, porque ele ficou preocupado hoje de manhã, então não se preocupe, ok?
— Toma cuidado, Mafe…
Bernardo
— Be! Você em casa… – Mafe entrou no apartamento e ficou bem surpresa de me ver na sala.
— Ué, você falou pra gente não pisar lá hoje, eu não tenho muito o que fazer quando não vou pra agência… – disse sorrindo.
— É… – ela estava hesitante.
— O que houve? Pra você mandar a mensagem falando pra gente não ir deve ter acontecido alguma coisa…
— Nada! – ela forçou o sorriso, ela estava escondendo alguma coisa – Vai sair? – o tom dela dizia que ela queria que eu saísse.
— Não pretendo… – respondi – Mafe, eu queria falar com você sobre uma coisa…
— Agora? – ela perguntou tentando disfarçar que não queria papo naquela hora.
— Quando você puder… – respondi.
— É muito sério? – ela se aproximou de mim no sofá.
— Não, é bobeira na verdade, mas você parece estar com pressa… De noite a gente conversa, se estiver tudo bem pra você…
— Eu só vim buscar uma coisa, mas de noite o senhor não me escapa de conversar, ok? – ela passou a mão no meu cabelo e me deu um beijo na bochecha, logo em seguida foi pro quarto. Eu a segui discretamente um tempo depois.
Mafe tinha fechado a porta do quarto, escutei quando ela passou a chave, tinha alguma coisa acontecendo e pelo jeito parecia séria. Do corredor que dava para os outros cômodos, eu ouvi a porta de entrada se fechando, voltei para lá e vi Guto.
— Pra onde foi? – não tinha visto quando ele saiu.
— E eu preciso te dar satisfação agora? – ele ainda estava extremamente grosso comigo.
— Ei, qual foi, Guto, não vai falar o que eu te fiz?
— Me poupe. – ele revirou os olhos e foi pra cozinha, fui atrás.
— Para com isso, fala logo o que eu te fiz e aí a gente já resolve essa merda de clima.
— Você sabe o que fez, Bernardo, agora me deixa em paz, não tem nenhuma balada pra ir de noite? Nenhum happy hour? Me esquece!
— Meu Deus, mas que inferno hein! – disse esbravejando tanto quanto ele.
— Ué, vai pra onde com essa mala? – Guto disse assim que Mafe apareceu na cozinha com uma mala de viagem na mão.
— São encomendas… – eu tinha quase certeza que não eram encomendas, todos nós tínhamos o controle dos produtos do Kleber e para aquela semana eu sabia que não teríamos que fazer nenhuma entrega, e mesmo que tivesse, seria eu ou Guto que entregaríamos – Volto mais tarde, juízo vocês dois, e Be! – ela olhou pra mim – Nada de faltar na academia. – revirei os olhos – É sério. – ela ficou séria e saiu da cozinha, a mala parecia pesada, não era de rodinhas, era de mão. Esperei que Mafe saísse do apartamento e fui pro quarto dela.
— Se ela descobre que você está bisbilhotando o quarto dela, ela te mata. – Augusto estava na porta do quarto me vendo mexer no guarda-roupa de Maria Fernanda.
— Ué, agora vai falar comigo?
— O que você tá fazendo? – ele perguntou ignorando minha ironia.
— E eu te devo satisfação agora? – ergui a sobrancelha.
— Deve, você está mexendo em mercadorias nossas, isso me diz respeito.
— Vai à merda. – disse continuando a mexer no guarda-roupa – Mafe tá estranha, a mala dela tava bem pesada pra ser mercadoria. – disse depois de um tempo de silêncio.
— E o que você tem a ver com isso? Você sabe que o Kleber sempre pede uns favores a mais pra ela.
— Não, Augusto, nós temos ciência dos produtos que entram e saem, você sabe que essa semana estamos de boa… Não falei! – disse abrindo a última porta do guarda-roupa e vendo todos os produtos guardados como sempre dentro de uma caixa específica – Tá tudo aqui… – coloquei a caixa em cima da cama e fui verificando todos os pacotes.
— O que você acha que é então? Pode ser roupa, sei lá, às vezes ela deve tá se mudando aos poucos pra casa do Daniel e não quer falar pra gente agora… – Guto disse pensativo.
— O Daniel é jogada dela, o que ela levou na mala não foi roupa.
— E o que a gente tem a ver com isso? Não é de hoje que a Mafe não conta mais nada! Às vezes, quanto menos a gente souber, melhor.
— Eu quero proteger nossa irmã.
— Ela tá muito bem protegida com o namorado policial e o amante traficante. Se ela descobre que você mexeu nas coisas dela, ela te mata. – ele disse voltando a ficar seco e saiu do quarto.
— Não espere que eu adivinhe o que se passa na sua cabeça, Augusto, somos gêmeos, mas eu não sou telepata! – gritei com raiva, arrumei toda a bagunça que eu fiz no quarto de Maria Fernanda e saí de lá, de noite pretendia arrancar alguma coisa dela sobre aquilo.
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Mafe
Eu sempre zelei pela proteção dos meus irmãos. Tudo o que fiz foi pensando no bem-estar deles e, mesmo sabendo que todos estavam crescidos, maiores de idade e bem encaminhados – nos negócios legais e oficiais – eu ainda me preocupava com o que poderia ser deles caso alguma coisa acontecesse.
Eu tinha metido toda minha família em negócios que eram sinônimos de cavar nossa própria cova, ou pior, de construir nossa própria cela de prisão. Sabia das consequências gravíssimas que poderiam acontecer caso fôssemos expostos, sabia dos riscos e mesmo estando cara a cara com o fundo do poço, eu ainda tentava um último jeito de resolver a situação. Fosse como fosse, meus irmãos eram prioridade, o bem-estar deles era essencial.
A porta do meu carro se abriu do lado do carona, eu estava no estacionamento perto da agência, ainda estava sentada no meu banco quando vi Everton entrar do meu lado.
— Dirige. – ele disse e encostou o cabo da arma na minha costela, eu gelei, mas não queria transparecer que estava apavorada.
— Só pega essa mala e cai fora.
— Dirige, não vamos fazer isso aqui. – ele disse e empurrou o cano da arma ainda mais na lateral do meu corpo. Liguei o carro e saí do estacionamento – Pega esse retorno e segue reto. – ele disse apontando a direção.
Everton me levava para uma parte afastada de São Paulo, ele não me mataria, mas aquela situação me deixava tremendo por dentro e me controlava para não tremer por fora também.
— Entra naquela viela e desligue o carro. – ele disse apontando uma ruazinha estreita logo à frente. Fiz o que ele mandou.
— Não deveria estar tão afastado de casa assim, não acha? – disse olhando para a canela dele.
— Isso não é da sua conta. – ele respondeu e se virou de frente pra mim – Se a quantia não estiver certa, você sabe qual vai ser a consequência, não é? – ele disse pegando a mala no banco de trás.
— Eu trouxe metade, Everton. – disse engolindo em seco, o semblante dele era de alguém muito furioso.
— Você é muito otária de me falar isso, não é?
— Me escuta. – disse me mantendo firme – Escuta o que eu tenho pra te falar e depois você dá seu show.
— Você tem cinco minutos. – ele disse me encarando.
