Parte 4

Bernardo

— Toc-toc… – Mafe estava na porta do meu quarto, estava tarde, ela não tinha voltado pra jantar e eu estava num dia péssimo pra sair, fiquei em casa, era o melhor que podia fazer naquele dia – Acordado ainda?

— A noite é uma criança. – disse sorrindo e fiz sinal pra que ela entrasse no quarto. Mafe entrou e fechou a porta.

— Então, o que foi? – ela perguntou deitando do meu lado na cama e se cobrindo com a minha coberta, seus olhos estavam inchados e vermelhos.

— Eu que te pergunto. – disse reparando nela, a luz do meu quarto estava fraca, era a luz ambiente que eu deixava acesa, mas ainda dava para ver que Mafe não estava bem.

— Coisas com o Kleber… Vai passar… – ela disse e olhou para a tela do meu notebook em cima da cama – Isso é Grease?! – ela deu play no filme e eu estava muito sem graça.

— É um clássico, me deixa. – pausei o filme.

— Tá… – ela sorriu – O que queria falar comigo?

— O Guto tá bem ignorante comigo e eu não faço a menor ideia do que eu possa ter feito… – ela me olhou por um tempo em silêncio.

— Você sabia que ele estava a fim da Fran? – ela perguntou cautelosamente, então era aquilo.

— Agora sei… – abaixei a cabeça – O que eu faço agora? – eu realmente gostava da Franciele, mas meu irmão vinha em primeiro lugar, por mais que nunca falasse aquilo pra ele.

— Já tentou falar com ele?

— Claro, mas ele só fica falando “você sabe o que você fez, não se faça de idiota” e essas coisas. – fiz aspas com os dedos.

— Bom, amanhã, ou quando você estiver bem pra isso, fala com ele, fala que você realmente não sabia…

— E depois? Mafe, eu gosto da Fran, e eu amo o Augusto, é difícil e estranho, você sabe…

— Você sabe que não precisa escolher entre os dois, não é?

— Não é o que o Augusto está fazendo parecer com os sarcasmos dele.

— Vocês precisam conversar sério e ele vai precisar de um tempo pra digerir, mas depois, eu tenho certeza que tudo vai ficar bem entre vocês dois.

— Como pode ter tanta certeza assim? – estava inseguro.

— Eu sempre estou certa. – ela sorriu – Me dá esse fone, quero ver o filme também! – ela pegou um lado do fone e colocou no ouvido dando play no filme, mas pausei novamente – Ei!

— Você contaria pra gente se algo sério acontecesse, né?

— Claro que sim. – Maria Fernanda tinha a capacidade e habilidade de mentir sem piscar, sem tirar o sorriso do rosto. Eu sabia que ela mentia, mas lembrei do que Augusto falou, quanto menos soubermos, talvez seja melhor – Podemos dar play?

— Podemos… – disse continuando o filme.

+++

Augusto

Eu sempre acordava cedo, tinha minha rotina. Era quinta de manhã e eu tinha algumas coisas pra fazer na agência. Fui pra cozinha preparar um café rápido e vi Maria Fernanda de pé no meio do lugar, ela olhava para a caneca na mão e tinha um semblante derrotado.

— Mafe? – me aproximei devagar, quanto mais me aproximava, mais via que ela estava mal – Mafe, tá tudo bem? – ela não se mexia, estava em transe – Mafe? – encostei a mão em seu ombro e ela pareceu dar uma “despertada”.

— Bom dia, Guto… – ela disse sorrindo, como se nada tivesse acontecido, como se tudo estivesse bem com ela.

— Você não tá bem. – ela me olhou e sorriu.

— Estou sim! 

— Não foi uma pergunta, Mafe… – disse vendo os olhos dela se encherem de lágrimas.

— Estou sim.

— Chega de esconder as coisas da gente, por favor… – quase implorava.

— Eu fiz uma coisa muito horrível e arriscada, se algo der errado… – ela soluçou e deixou a caneca cair no chão.

— Ei! Calma, vem pra sala, cuidado… – disse vendo que ela estava descalça.

— O que aconteceu?! – Bernardo saiu do quarto correndo e encontrou a gente na sala – Mafe?! Tá tudo bem?!

— O que quebrou?! – Rômulo também levantou assustado – Mafe?!

— Eu sempre fiz tudo pra proteger vocês… – Maria Fernanda disse sentada no sofá, ela chorava e eu estava abraçado a ela – Eu dei meu último jeito na situação, se algo der errado eu vou pra cadeia, mas eu juro que planejei tudo e pensei em todos os detalhes pra que nenhum de vocês ficasse desamparado, tá bom?

— Do que você tá falando?! – Rômulo perguntou extremamente preocupado.

— Eu precisei dar um jeito na nossa situação, eu precisei dar um jeito no Everton.

— Mafe… – disse me afastando dela por um momento – O que foi que você fez?

+++

Mafe

— Ora, ora, resolveu dar o ar da graça? – Kleber falava irônico na porta da casa dele.

— Cala a boca e entra, não posso ser vista aqui… – disse empurrando ele pra dentro da casa.

— E então por que veio? – já ia direto pro quarto dele, ele falava me seguindo pelo corredor – Não pode ser vista aqui, mas eu tenho olhos por todos os lados dessa favela, Mafe, você esteve aqui antes de ontem.

— E o que você tem a ver com isso?

— O que sempre te traz aqui sou eu, acho que tenho o direito de saber por que veio aqui e não veio falar comigo.

— Tá se achando, né? – ri sarcasticamente – Eu não conheço apenas você aqui, tá bom? Vim visitar uma amiga que tá grávida.

— Quem é? Se ela precisar, eu posso arrumar as coisas de bebê pra ela.

— Não vai precisar. – ele me olhava desconfiado e eu sentia meu coração saindo pela boca.

— Me diz quem é então. – ele ergueu uma sobrancelha.

— A gente precisa conversar… – respirei fundo, Kleber entrou no quarto e fechou a porta – Você vai precisar confiar em mim como nunca antes…

— Que papo é esse, Mafe? – ele dizia confuso – Já não temos uma cumplicidade? Uma confiança?

— Me escuta… – era a conversa mais difícil que teria, tinha certeza – Você vai precisar confiar em mim, mas não quer dizer que você vai fazer isso, então te peço pra ter paciência e se der, no fundinho, confiar que eu sempre dou meu jeito.

— Que conversa é essa, Maria Fernanda? – ele me olhava cada vez mais sem entender nada.

— Só promete que vai tentar confiar em mim e ter paciência…

— O que você tá armando? – não consegui dizer, mas Kleber me conhecia – Você já armou. – ele ficou sério esperando alguma resposta minha.

— Eu precisava de um álibi… – por um momento não entendia o que Kleber estava sentindo, até que ele explodiu.

— Não, não, você não precisava de um álibi, você precisava de alguém pra jogar a culpa, não é?! – seu semblante era um misto de raiva com indignação, eu sentia que ele poderia me matar se quisesse, mas ele não faria aquilo.

— Kleber, eu sei que você tá com raiva… – meu peito doía, eu queria chorar, mas me segurei.

— Raiva?! Ah, mas por quê?! Que motivos eu teria pra estar com raiva, Maria Fernanda?! – ele tinha entendido tudo.

— Confia em mim e tenha paciência, eu jamais vou te deixar na mão…

— A menos que já tenha feito isso, né? Sai daqui. – ele apontou para a porta e não voltou a olhar mais no meu rosto, não tive alternativa a não ser sair de lá.

+++

Augusto

A notícia estava em uma página na internet. Everton era um pouco conhecido devido ao seu trabalho como modelo e, claro, ficou mais conhecido depois que surgiu o burburinho de seu envolvimento com drogas. Eu não sabia o que pensar. Maria Fernanda tinha dito pouco sobre o assunto e eu estava com medo de saber o quão relacionada à morte de Everton ela estava. 

— Um triste fim para alguém que parecia ter um futuro promissor com uma carreira muito bem vista dentro e fora do Brasil… – Bernardo lia a matéria em voz alta para mim e para Rômulo. Maria Fernanda tinha saído de casa, disse que precisava fazer alguma coisa de última urgência – A overdose foi um disfarce, ao que tudo indica, Everton Nogueira pode ter sido assassinado… – Bernardo tinha a voz rouca, eu sabia que ele também não queria pensar se Mafe estaria ou não diretamente ligada a esse crime – O mandante e, talvez, realizador da tarefa ainda não foi revelado, mas há suspeitas da ligação do ex-modelo com o “cabeça” de uma das facções de Paraisópolis, Gilson Ferraz.

— Não falou o nome do Kleber. – Rômulo disse assim que Bernardo fez uma pausa na leitura.

— Eles acham que o Gil tá vivo. – Bernardo disse.

— Ninguém sabe se ele morreu mesmo. – falei pensando em Maria Fernanda, ela estava arrasada demais para toda aquela situação, eu sabia que de alguma forma Kleber estaria envolvido.

— Sabendo ou não, Gil não é mais visto em Paraisópolis e pelo o que eu sei, Kleber tinha assumido o comando de tudo… – Rômulo falou pegando o celular – Mafe deve ter ido pra lá, uma hora dessas a polícia e a mídia vão estar lá também… 

— Ela sabe disso. – falei.

— Então ela é burra. – Rômulo estava irritado – Droga, ela não atende.

— O que a gente faz com as coisas que temos aqui em casa? – Bernardo perguntou colocando o tablet no sofá.

— Acha que viriam pra cá? – aquilo me assustava.

— Bom, Mafe não deve ter ido atrás do Kleber pra sexo, né, e ele vai ficar puto quando souber de tudo isso, se ele não está envolvido na morte do Everton, a culpa vai cair na cabeça dele, ele era sobrinho do Gil… – Bernardo tinha um bom ponto.

— Foi por isso que ela disse que foi arriscado, que poderia ir pra cadeia se alguma coisa desse errado… – Rômulo passava a mão no cabelo – Se ela vai pra cadeia, nós vamos também! Talvez ela não tenha planejado isso muito bem…

— Ela tá contando que o Kleber não vai dedurar a gente… – eu conseguia ver os detalhes implícitos do plano de Maria Fernanda.

— Ele vai ficar puto e eu duvido que não dedure. – Bernardo se levantou – A gente precisa dar um fim nas coisas aqui de casa.

— É melhor esperarmos a Mafe voltar. – disse.

— Cara, se ela não voltar antes que o Kleber dedure ela, acabou pra todo mundo! – Bernardo tinha razão, mas Maria Fernanda foi bem específica quando disse que fez isso pra gente se safar, ela não ia jogar a merda no ventilador e ligar.

— Vamos esperar. – falei olhando para a porta, esperando que minha irmã entrasse a qualquer instante.

— Meu Deus, e se o Daniel descobre isso?! – Bernardo não ajudava com o desespero dele.

— A gente vai esperar a Mafe. – repeti.

— Meu Deus do céu, a gente tá fudido, pra valer agora. – Rômulo disse irritado e nervoso, logo em seguida foi para o quarto.

— Você acha que ela fez aquilo? – Bernardo disse depois de um tempo.

— Aquilo o quê?

— Matou o Everton… Tipo, ela mesma matou…

— Não. – eu não acreditava muito nas minhas próprias palavras, mas por dentro torcia para que eu estivesse certo – Ela fez muita coisa errada, a gente também, mas nossa irmã não é assassina.

— Bom, ela pode não ter matado com as próprias mãos, mas mandou alguém fazer isso. – Bernardo respirou fundo – Augusto, eu não sabia que você gostava da Fran, eu juro por tudo que é mais sagrado nesse mundo, eu não sabia. – ele disse me olhando, olhar para Bernardo era como se olhar no espelho, era estranho e naquela hora ainda mais – A Mafe me disse ontem, porque eu não sabia o que tinha feito pra você começar a me odiar do nada, e isso tava acabando comigo… – ele respirou fundo de novo – Eu não sou a melhor pessoa pra perceber as coisas dos outros, Augusto, especialmente sentimentos… Eu juro que nunca percebi que você pudesse gostar dela, se eu soubesse, pode ter certeza que eu jamais ia querer brigar com você por conta de mulher. – eu não sabia o que falar, eu via e sentia sinceridade em cada palavra do meu irmão, mas não sabia o que falar, nem como reagir – É isso… Melhor falar agora, vai que a gente pega cela separada na prisão… – ele deu um sorrisinho e foi pro quarto dele.

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Mafe

Kleber me odiaria por muito tempo. Eu tinha ido até ele pra contar o que eu fiz e pra pedir que ele não contasse a verdade sobre eu e meus irmãos, mas não consegui pedir esse favor. Não tive coragem, era algo absurdo de pedir pra alguém que eu tinha acabado de incriminar. Eu não sabia o que o futuro próximo me reservava, não poderia imaginar se Kleber iria me delatar ou se ele ficaria em silêncio, não tinha como prever, estava tudo saindo fora do meu controle e o pior de tudo era perder Kleber.

Saí da comunidade depressa, tão rápido quanto tinha ido, a mídia apareceria por lá, a polícia também e se eu tinha esperanças de que Kleber não fosse me dedurar, eu precisava estar longe daquele lugar o quanto antes. Ainda precisava enfrentar meus irmãos e nós quatro teríamos que aguardar o que poderia acontecer.

Entrei em casa, Guto estava na sala olhando para o vidro da varanda, ele se virou quando escutou a porta bater, instantes depois, Rômulo e Bernardo também tinham ido até a sala.

— Eu não matei ninguém. – disse segurando a vontade de chorar – Eu mandei matar, não é diferente, minha mão tá tão suja de sangue quanto se eu tivesse matado ele, mas… – era horrível falar aquilo, mas meus irmãos sempre pediram sinceridade e sempre insistiam pra que eu contasse tudo para eles, era hora de fazer aquilo – Everton estava nos ameaçando, vocês sabem disso, ele me pediu dinheiro, uma grande quantia, pra comprar o silêncio dele, mas um silêncio pode ser comprado quantas vezes forem necessárias, por isso eu fiz o que fiz, eu não podia deixar a vida de vocês em risco de exposição negativa. – eles me olhavam sérios – Consegui simular um culpado que não fosse a gente e pra isso eu tive que jogar tudo nas costas do Kleber. Ele tá puto e é essa a parte do meu plano que mais me assusta. – tentava não chorar, o que mais me assustava era meus irmãos saírem prejudicados e nunca mais ter qualquer relação com Kleber – Ele vai ser preso cedo ou tarde e se ele abrir a boca a gente está na cadeia, o que precisamos fazer é sumir com as mercadorias e com o dinheiro e esperar. Se tudo sair conforme planejei, em breve estaremos livres e… E eu depositei um dinheiro na conta de cada um de vocês caso queiram sair daqui, ficar longe…

— Você fez coisas horríveis, Maria Fernanda. – Augusto disse depois de um tempo – Mas eu não vou te deixar na mão nunca. – tentei sorrir, mas as lágrimas caíram antes.

— Nos resta esperar… – Rômulo disse pegando minha mão e me puxando pro sofá, segundos depois meus três irmãos estavam sentados do meu lado em silêncio, seria uma espera angustiante.

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Augusto

Sabíamos que o dia de nos separarmos chegaria, fosse por bem ou por mal, e mesmo sabendo daquilo não nos tirava a estranheza que sentíamos em nossas vidas. Éramos inseparáveis, tudo em nossas vidas fizemos nós quatro juntos, os quatro mosqueteiros, como Bernardo sempre brincou desde criança, e ver um dos “mosqueteiros” indo embora parecia que seria o fim do mundo.

— Eu fico feliz que vão sentir minha falta, a cara de vocês está impagável… – Mafe disse com lágrimas nos olhos quando estávamos na sala para nos despedirmos dela – Mas não pensem que vão se livrar de mim. Eu quero os três na agência sempre, eu ainda sou a empresária de vocês e vocês têm agendas lotadíssimas.

— Vai ser estranho não escutar seus gritos todos os dias… – Bernardo falou e abraçou Maria Fernanda.

— Vocês estão fazendo parecer que eu vou morrer. – ela deu uma risadinha – Dan e eu vamos morar no Perdizes e não na Alemanha!

— Ainda assim, não vai ser como sempre foi… – falei abraçando Mafe – Toma cuidado, promete?

— Prometo. E digo o mesmo pra vocês três. – ela olhou para todos nós.

— Sem mais jeitinhos, Mafe, por favor… – Rômulo disse segurando o choro, ele escondia a manteiga derretida que no fundo era.

— Isso já está acabado! – ela sorriu – Vem aqui, os três… – ela chamou todos nós pra um abraço – Amanhã quero os três na agência cedinho e sábado Dan e eu vamos fazer um almoço pra família dele, vocês estão intimados a ir.

— Preciso ver minha agenda, sabe como é… Um ser lindo como eu nem sempre tem tempo livre… – Bernardo riu.

— Obrigado pelo elogio. – era bom ter uma relação tranquila com meu irmão gêmeo, ele estava feliz com a Fran e eu já estava superando.

— Cumpriremos suas ordens, Mafe, não se preocupe… – Rômulo disse sorrindo – Cuidado pra dirigir.

— Eu amo vocês, qualquer coisa me liguem e eu venho correndo! – ela disse pegando a última mala que tinha pra levar pra casa de Daniel, ela já vinha se mudando há tempos pra lá, quando eles oficializaram o noivado ela decidiu ir de vez e aquele era o dia da mudança oficial.

Tivemos muito tempo de tensão esperando para ver se Kleber ia nos dedurar, foram longas semanas e meses de julgamento aguardando qualquer coisa. Tentamos manter nossas rotinas, mas as paranoias tomavam conta, principalmente de Maria Fernanda. Ela quase não ia pra agência e quando ia, não ficava muito tempo. Estava visível pra todos que ela estava mal, todos que sabiam do envolvimento dela com o crime e com a prisão de Kleber sabiam o motivo de ela estar pra baixo, depressiva e apreensiva. Daniel também notava, não sei o que Mafe falava para ele, mas ele acabava aceitando.

O fim desses negócios extracurriculares que mantínhamos desde que nosso pai morreu foi bom pra nossa pequena família. Repensamos muito o que estávamos fazendo e decidimos que dali pra frente seria diferente. Digo isso por mim e por Bernardo, nós fizemos as pazes depois de uma conversa de gêmeos e apesar das nossas diferenças internas, conseguimos manter nossa relação como antes. Ele estava feliz e eu estava feliz por ele. 

Não posso dizer que Mafe seguiu um caminho diferente, algo me dizia que ela ainda escondia alguma coisa, mas estava na hora de cada um seguir sua própria vida e quanto menos soubéssemos desses segredinhos, melhor, principalmente de Rômulo. Não acredito que ele tenha parado de ser “acompanhante” de mulheres ricas, ele nunca mais tocou no assunto e nós nunca mais perguntamos, mas ele ainda saía muitas vezes e mantinha seu estilo de vida alto por conta própria, mas quanto menos soubesse daquilo, também seria melhor. O importante era que ainda éramos quatro irmãos unidos e aquilo se manteria pra sempre, afinal, sabíamos de segredos horríveis uns dos outros, nos apoiamos até mesmo nos piores momentos, não tinha como nos separarmos por qualquer bobeirinha, nem mesmo a coisa mais cabeluda que se possa acontecer.

+++

Mafe

Kleber não nos entregou. Foi preso injustamente por culpa minha, e mesmo sob tamanha pressão, ele ficou em silêncio. Não se declarou nem inocente, nem culpado, apenas ficou em silêncio, o que me deixou respirar aliviada, mas não tanto quanto eu queria. Aquele silêncio de Kleber representava muita coisa, representava o que ele sentia por mim, o que estava fazendo em nome daquele sentimento e significava que ele me odiava ao mesmo tempo.

A pena de Kleber não foi longa e graças a alguns contatos, consegui que ele cumprisse a sentença da maneira mais confortável possível. Já eram mais de 14h e ele já teria saído da prisão àquela hora, eu andava de um lado para o outro no apartamento que tinha comprado pra ele, em breve ele entraria por aquela porta.

Ouvi barulhos de chaves e de repente a porta da sala do apartamento se abriu, Kleber tinha o semblante confuso, mas se ele pudesse, me fuzilaria com o olhar.

— Por que não estou surpreso de te ver aqui? – ele falava debochado, pedi para buscá-lo na saída da prisão, não poderia ser nenhum dos meus irmãos, seria suspeito demais, pedi para um simples motorista, paguei uma pequena fortuna e dei ordens que ele trouxesse Kleber até o prédio indicado.

— Alguma vez eu te surpreendi? – disse tensa, o clima estava pesado.

— Infelizmente não, apesar da última vez. – ele ainda estava sério e me olhou de cima a baixo.

— Comprei esse apartamento pra você…

— Fique com ele e com todo o resto. – ele foi direto e seco ao falar.

— Kleber… – me aproximei dele e o vi recuando.

— Qual é a tua, Maria Fernanda? Achei que tivesse me esquecido e seria melhor se tivesse mesmo.

— Eu jamais ia me esquecer de você…

— Pois deveria ter tentando me esquecer. Eu estava ótimo sem ter você por perto. – eu não queria chorar na frente dele.

— Bom, se eu tivesse te esquecido, Kleber, você ainda estaria preso e numa cela com mais ou menos quinze outros detentos.

— Eu sei o que fez por mim, Maria Fernanda, não precisa bancar a mimadinha que joga na cara. – ele quase gritava.

— Então deveria ser mais agradecido! – eu não conseguia evitar.

— Pelo o quê, exatamente? Por você ter colocado a culpa em mim por causa do seu modelinho de merda? Por ter me mandado pra prisão e nem sequer ter ido me visitar uma única vez?!

— Eu não podia, cacete! – gritávamos um com o outro cara a cara.

— Não podia ou não queria ser vista na prisão?!

— Os dois! – eu já não segurava o choro.

— Ora, ora, me disse uma verdade pelo menos uma vez na vida.

— Não se faça de cínico! Eu sempre te disse a verdade, sempre! Você é a pessoa que eu simplesmente não consigo mentir e você sabe disso, Kleber! Cacete! Acha que eu queria que aquilo tivesse acontecido?! Acha que foi fácil te mandar pra cadeia? Acha que eu não tentei ir te visitar, mas na última hora não pude porque simplesmente não podia pôr tudo a perder?! 

— A grande vítima aqui sou eu, Maria Fernanda, não tente inverter os papéis.

— Só quero que saiba que não foi fácil pra mim também. – ele se aproximou mais ainda, mais um pouco e nossos narizes iam se encostar e eu queria que aquilo acontecesse.

— Não foi fácil, né? – ele tinha um tom de deboche – Mas pelo o que vejo, você conseguiu superar esse luto. – ele pegou minha mão esquerda e levantou – Vai pro inferno, Maria Fernanda. – ele disse depois de olhar minha aliança e o solitário no dedo anelar.

— Você sabe que eu não aceitaria nenhum pedido seu.

— Parece óbvio agora, obrigado por me lembrar. – ele se virou pra sair do apartamento.

— Não me deixa, Kleber. – estava a ponto de me ajoelhar.

— Como é que é?! – ele me olhou segurando a risada, mas a desfez do rosto quando viu que eu falava sério.

— Não me deixa… 

— E o que espera de mim? Que eu seja seu cachorrinho? Seu brinquedinho pra quando você estiver sem seu maridinho? Você acha que eu sou o quê, Maria Fernanda?! Vai pro inferno e me deixa em paz. – ele disse caminhando pra sair do apartamento e eu não conseguia reagir, não sabia o que sentir, aquilo doía muito em mim.

— Você vai precisar de mim, Kleber. – consegui falar e ele parou no corredor do andar e se virou pra me olhar – Você vai precisar de mim, você sempre dependeu de mim e eu sempre dependi de você e isso não vai mudar porque a gente quer. Você vai precisar de mim e eu vou estar do seu lado mesmo que não queira.

— Veremos. – ele disse voltando sua caminhada para o final do corredor.

+++

Kleber e eu crescemos juntos como amigos, como se ele fosse outro irmão, depois evoluímos para algo mais íntimo, mais intenso, além do carnal, porque envolvia sentimentos que eu não ousava nem sequer nomear. Ele dependia de mim pra muitas coisas, principalmente físicas e eu dependia dele igualmente. Nossa relação podia não ser das mais ideais, mas era verdadeira, tinha um nome pra isso.

Tivemos um abalo gigantesco quando ele foi preso, mas eu sempre mantive minha fé na intuição e ela nunca falhou. Era uma questão de tempo para que Kleber e eu voltássemos a nos entender, ele poderia estar relutante quando saiu da prisão, mas ele ainda precisaria de mim, assim como eu sempre precisei dele para todas as coisas e então, um dia, chegando na agência, o vi no hall de entrada. Ele estava diferente, mas ainda era o Kleber que eu conhecia, mantinha seu bigode de cafajeste, mas algo em sua postura estava mudada, seu cabelo estava mudado, estava mais penteado.

Por sorte, Daniel não tinha me levado para o trabalho naquela manhã e, quando me viu chegando, Franciele logo me deu um sorrisinho cúmplice.

— O que faz aqui? – perguntei ríspida, mas no fundo eu estava contente, só que era difícil transparecer pro exterior.

— Precisamos conversar. – ele disse sério.

— Não disse pra eu ir pro inferno?

— É. – ele sorriu – Eu resolvi que te daria o inferno eu mesmo.

— Sinto muito te informar, mas não vai ser fácil assim, Kleber. – ele se aproximou e era uma aproximação perigosa.

— Vim conversar profissionalmente.

— Ok. – disse caminhando na frente dele e subindo as escadas até meu escritório, assim que ele entrou, fechou a porta – O que você quer?

— Você me faliu, Maria Fernanda, eu só vim te cobrar o mínimo para que eu possa viver confortavelmente como antes.

— Então veio me chantagear? Sabe o que aconteceu com o último que tentou me chantagear? – ele sabia muito bem o que eu tinha feito com Everton.

— Jamais faria isso. Só acho que me deve o tempo que me tirou enquanto eu tava na cadeia e todos os favores e ajuda que já te prestei.

— E depois eu que jogo na cara como uma menina mimada, não é? – ele segurou meu braço com força e me puxou pra perto dele – A cadeia te deixou violento? Pensei que nem tinha contato com outros detentos, pelo menos a cela que te providenciei tinha de um tudo.

— Você gosta de esfregar isso na minha cara, né, Maria Fernanda? – ele me puxou para mais perto, me olhava de cima e eu não resisti, o beijei.

Eu não sabia se ele tinha trancado a porta do meu escritório quando a fechou, mas agradeci aos céus por ninguém aparecer de última hora nos últimos minutos, tinha muita tensão entre eu e Kleber a ser liberada.

— Não pense que eu largaria meu casamento por você, Kleber. – disse abotoando minha camisa enquanto ele arrumava o cabelo.

— Tive tempo pra perceber que tá falando a verdade. – ele disse de costas pra mim.

— Posso te dar um emprego aqui.

— E desde quando eu disse que quero um emprego vindo de você?

— Você precisa de um emprego. Tá falido, a realidade do país é olhar ficha criminal antes de empregar alguém, eu tô te dando uma oportunidade com muitos benefícios.

— Você vai sujar o nome da sua agência a troco de quê? De botar chifre no seu marido?

— Vou melhorar o nome da minha empresa sendo caridosa. E você é lindo, Kleber, precisa dar um trato em algumas coisas, mas tem o porte que preciso pros meus meninos internacionais.

— Você tá me elogiando diretamente? – ele sorriu e ergueu uma sobrancelha.

— Não me deixa, Kleber, dessa vez eu não aguentaria. – disse séria.

— Você ao menos gosta dele? – ele se referia ao Daniel.

— Muito. – era verdade, Daniel era um príncipe pra mim, me fazia uma mulher muito feliz, acontece que Kleber também estava no mesmo patamar, um pouco mais elevado eu diria, não podia ficar sem ele, muito menos sem Daniel.

— E quanto ao que sente por mim?

— Você sabe que é intenso e forte. – eu não conseguia dizer o que ele queria escutar.

— Não pense que serei seu brinquedinho, Maria Fernanda.

— Jamais pensei que seria… – ele me puxou pela cintura e me deu um selinho.

— Num futuro distante, casaria comigo?

— Sabe que não. – ele sorriu e se afastou – Você começa amanhã bem cedo, esteja aqui às 7h.

— Sim, chefe. – ele disse sorrindo.

— Mais uma coisa… – fui até minha mesa e peguei a bolsa – Eu jamais te deixaria na mão, espero que saiba.

— Isso é muito relativo. – ele me olhava confuso.

— Do meu ponto de vista eu jamais te deixaria na mão, tá aqui a prova. – entreguei um molho de chaves pra ele.

— Aquele apartamento? – ele disse pegando as chaves.

— Não só isso… – sorri.

— Isso explica porque você teve dinheiro pra me comprar aquele apartamento, ser dona dessa empresa não ia te dar tantos luxos assim…

— Uma parte está no armário do quarto principal, a outra eu guardo em um lugar mais seguro. – as mercadorias que sempre vendi para Kleber ainda eram muito requisitadas, principalmente no ambiente internacional, não podia abandonar uma fortuna fácil como aquela, só não poderia mais envolver meus irmãos.

— Vou saber que lugar seguro é esse?

— Mais tarde eu te conto… Tenho a noite livre hoje. – ele sorriu como o bom cafajeste que ele era.

— Só você não vê que somos feitos um para outro, Maria Fernanda.

— Ah eu vejo… – ele riu – Te vejo mais tarde.

— Você vai casar comigo um dia. – não era uma pergunta, ele disse e saiu do meu escritório, só depois pude sorrir como queria sorrir desde o começo, completamente feliz.

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