(Recomenda-se deixar esse link aberto Teacher I Need You)
Lucas não era professor, mas sua graduação permitiu que, por pouco tempo, ele ministrasse aulas substitutivas na escola em que conheceu Camila. Seu primeiro dia foi aterrorizante para uma pessoa que jamais se imaginou naquela situação, ao entrar na escola ele sentia frio na espinha, as mãos queriam tremer como se fosse o primeiro dia de aula depois de férias muito boas, em que os alunos não têm a menor intenção de voltar para a escola. De certa forma, era o primeiro dia de aula de Lucas, mas daquela vez como professor.
“A escola era grande, era uma das mais renomadas escolas particulares da região, o currículo e a faculdade pública que Lucas frequentou durante a graduação, garantiram a ele uma ‘lista de espera para urgências’, era como ele chamava o fato de ter entregado currículo em escolas para o caso de não conseguir, com rapidez, um emprego na sua área de formação.
Lucas não era um recém-formado, não no sentido literal da frase, mas tinha quase um ano e meio de diploma e, depois de tentativas sem sucesso em empresas, ele decidiu seguir o conselho de uma prima, que não por coincidência, trabalhava como professora na escola em que ele entrava um pouco trêmulo. Podia recordar com clareza Fernanda lhe dizendo ‘Você daria um ótimo professor do ensino médio ou do cursinho! Acho que deveria tentar a sorte!’ e foi seguindo aquela dica, juntamente com o desespero de ter que pagar contas e não precisar depender de seus pais, que Lucas ligou para Fernanda um dia e a mulher o aconselhou a levar um bom currículo na escola em que ela dava aulas.
Como era de se esperar, Lucas não conseguiu um emprego imediato, mas seu currículo ficou muito bem guardado na mesa do diretor para eventuais necessidades e havia, finalmente, chegado o dia das ‘eventuais necessidades’ que levariam o diretor a discar o número de Lucas e na semana seguinte ele estaria se dirigindo para uma reunião de professores antes do retorno definitivo das aulas.
A princípio, na reunião, Lucas ficou calmo, não parecia nada muito difícil, sua prima Fernanda o ajudou muito na elaboração de planos de aula, mas como a área que Lucas atuaria no colégio não era nem um pouco parecida com a de Fernanda, ela só pôde ajudá-lo até certo ponto. De volta para casa, Lucas tinha consigo os materiais que utilizaria para montar suas aulas e deixou tudo muito bem organizado. No domingo seguinte, ele já não conseguia dormir de ansiedade, seu estômago revirava e ele suava frio durante a madrugada. O despertador tocou na hora planejada na segunda-feira e ele seguiu até o banheiro pensando mesmo se queria aquilo para a vida dele, mas não tinha escolha, precisava substituir o professor por algumas semanas, a escola pagaria muito bem e ele realmente não queria depender de seus pais por muito mais tempo.
A escola era grande, com jardins, pátios, vários andares, quadras e até mesmo uma área com piscinas para que os alunos tivessem aulas de natação nos finais de semana. Sua primeira aula daquela segunda-feira seria com uma turma de segundo ano do ensino médio logo que o sinal tocasse. Lucas chegou cedo, ficou com medo se atrasar no primeiro dia e tirou proveito do fato de quase não ter conseguido dormir para se adiantar o quanto podia. Ainda eram 7h10 da manhã quando ele estacionou seu carro no estacionamento dos professores, desceu um pouco ansioso com a mochila nas costas e seguiu para a entrada do grande pátio de recepção do colégio que enchia a cada minuto que se passava. Alunos de todas as idades perambulavam de um lado para outro, muita falação, alguns ainda muito sonolentos, amigos tirando selfies para postar em suas redes sociais as saudades que estavam uns dos outros. Era um ambiente velho para Lucas, mas novo em diversos aspectos.
Pegando seu celular, ele verificou no bloco de notas as principais anotações para aquela segunda-feira que começava ensolarada. Aula no 2º B, das 7h30 às 8h20, sala 112, pavimento II. Depois de reler aquelas anotações ele olhou ao seu redor, não sabia onde estava, não sabia onde era o pavimento II, não sabia nem como chegar à sala 112 do 2º B para sua primeira aula. Ainda tinha um tempo, mas o desespero começou a fazer seu coração palpitar mais rápido. Pedir ajuda aos alunos, na cabeça de Lucas, era um sinal de muita insegurança, eram os alunos que pediam ajuda ao professor e não o contrário. Tentou procurar pelos cantos e tetos algumas placas de identificações, mas nada achava.
7h20, ele ainda estava parado no mesmo lugar como se fosse uma estátua perturbada e inquieta. Não achava sinal de outros professores, deveriam estar todos na sala dos professores e levou a mão à testa de não ter pensado em ir para lá logo que chegou, mas não daria mais tempo, talvez se ele mandasse uma mensagem para Fernanda ela poderia ajudar. Pegou seu celular e já digitava na conversa da prima quando alguém tocou em seu ombro de leve.
— Perdido? – Lucas se virou e viu uma mulher que apesar do rosto jovem não usava uniforme, então só poderia ser mãe ou professora.
— É meu primeiro dia… – Lucas disse sem jeito.
— Ah, você que vai substituir o Fábio?! – a mulher perguntou sorrindo – Eu não vim na reunião, mas me falaram do substituto!
— Eu mesmo… Prazer, Lucas! – ele estendeu o braço para cumprimentar a mulher.
— Camila! Professora de História! – eles se cumprimentaram com um aperto de mãos – Onde precisa ir? – ela perguntou como se lesse a mente de Lucas.
— Pavimento II, sala 112, 2ºB… – ele respondeu olhando para o relógio no pulso.
— Vou pra lá também, me acompanhe! – Camila começou a andar e Lucas a acompanhou – O 2º B, pelo menos comigo, é um amor, mas o Fábio é um ótimo professor, então todo mundo ama ele e a matéria!
— Espero que as turmas gostem de mim… – Lucas dizia cada vez mais inseguro.
— Claro que vão gostar, eles amam tudo que é novidade, ainda mais um professor novo como você! – Camila riu.
— Trabalha aqui há quanto tempo? – Lucas tentava se soltar, ao mesmo tempo em que olhava tudo ao seu redor para traçar um mapa em sua mente e não se perder nas próximas aulas.
— Aqui nesse colégio estou há quase dois anos, mas dei aula por alguns meses em algumas escolas públicas do meu bairro, hoje eu dou aula de História aqui e de Português na Nelson Joaquim, sabe, na zona sul?
— A sobrinha do meu amigo estuda lá, dizem que é uma escola…
— Com dificuldades? – Camila completou rindo – Muitas, mas é mais uma batalha que temos que enfrentar… – ela parou de frente para uma escada – Aqui é o pavilhão II, a sala 112 fica subindo esse lance de escadas, eu fico aqui no térreo!
— Obrigado, Camila, salvou minha vida! – Lucas agradeceu, mas seu coração ainda palpitava de ansiedade com o que o esperava no andar de cima.
— Ali na frente – ela apontou para um jardim daquele pavilhão – tem um totem com o mapa da escola! Qualquer coisa é só checar lá, caso a gente não se veja até o intervalo ou até o final do dia!
— Essa escola deve ter a mensalidade caríssima… – Lucas pensou alto e viu Camila rindo – Quer dizer…
— Tá tudo bem, eu também penso o mesmo e sim, a mensalidade é caríssima mesmo e aqui só tem filhinho de papai, mas na maioria são todos muito maravilhosos! Tenha uma boa primeira aula, Lucas! A gente se vê!
— Obrigado, Camila, pra você também!
Lucas subiu o lance de escadas e caminhou até a sala 112 que tinha a porta aberta, alguns alunos estavam espalhados no corredor e alguns dentro do recinto. Assim que pisou na sala o sinal tocou, seu estômago revirou e ele tentava ao máximo não deixar transparecer pra nenhum daqueles adolescentes seu nervosismo. Sentiu e viu olhares curiosos o acompanharem conforme ele caminhava em direção à mesa do professor no canto do palquinho que ficava de frente para a lousa dividida em três partes, sendo duas para escrever com canetão e uma digital. A todo o momento, o pensamento de que aquela escola era caríssima passava pela cabeça dele e com isso, o nível de exigência profissional deveria ser além do esperado para fazer as vontades daqueles que despejam fortunas na educação de seus filhos: os pais.
— Bom dia… – ele disse alto e tentou parecer relaxado, alguns alunos ainda entravam na sala e os que estavam lá dentro responderam ao ‘bom dia’ de Lucas com um misto de sono e curiosidade – Bom, eu sou Lucas Tomazini, vou substituir o professor Fábio por um tempo nas aulas de matemática…
— Por quê? – uma menina levantou a mão e já fez a pergunta.
— Bom, o professor Fábio está com alguns problemas de saúde e a escola me chamou para entrar no lugar dele por enquanto… – Lucas olhava para a sala de aula, muitos olhares curiosos o encaravam, alguns cochichinhos de um lado, de outro alguns alunos mexendo no celular.
— O que ele tem? – a mesma menina perguntou de novo.
— Não me informaram, mas ele teve que ser afastado por alguns meses só pra se recuperar, acho que no próximo semestre ele já deve estar de volta… – Lucas estava sentado na beirada da mesa do professor e olhava para os adolescentes um pouco apreensivo – Olha, já fui informado que o professor Fábio é muito querido por vocês, mas se me derem uma chance, nossas aulas também vão ser muito boas!
— Desculpa, mas quantos anos você tem? – outra garota levantou o braço e perguntou.
— Eu tenho quase 26… – Lucas respondeu sem jeito – Mas vamos ao que interessa? Eu ainda quero saber sobre todos vocês, mas a gente não tem muito tempo e eu preciso fazer uma revisão dos conteúdos ainda hoje! – ele tentou parecer mais como seus professores do cursinho, e surtiu efeito na sala que fez um extenso ‘ah’ seguido de pedidos para mais socialização.
Português e Matemática eram as matérias que mais exigiam horários no ensino médio daquela escola, por isso Lucas não parou para respirar até o intervalo e nem depois disso. Como o colégio tinha um campus grande, o intervalo era mais extenso, os alunos acabavam encerrando suas atividades acadêmicas meia hora mais tarde se comparado às outras escolas, mas tinham tempo para se locomover pela escola no horário de pausa entre as aulas.
No intervalo ele foi até a sala dos professores, acabou encontrando sua prima, o diretor, conheceu outros professores que não compareceram à reunião, tomou um lanche e já se sentia muito mais confiante depois de duas aulas nos respectivos 2º B e 2º A. Depois daquele breve recesso, ele voltou ao pavilhão II onde encerraria suas aulas nos terceiros anos, novas turmas, novos frios na barriga.
Ao final daquela primeira semana, Lucas pôde sentar em sua casa relaxado e contar a seus pais que praticamente todas as turmas se deram bem com ele, claro que alguns alunos ainda eram ariscos, claro que ele teve problemas para manter a atenção dos estudantes, teve que gritar algumas vezes, mas em geral, se considerou um vitorioso sobrevivente daquela primeira experiência como professor em uma escola muito renomada e, como sempre gostava de enfatizar, caríssima.
Com quase um mês sendo um professor, Lucas já se sentia tão à vontade que até cogitava seguir aquela carreira.
— Isso é bom, Lucas! – Camila falava sobre aquela ideia de Lucas no intervalo, na sala dos professores – Mas olha, eu não quero ser estraga prazeres, mas é que você deu muita sorte…
— Não tenho dúvidas disso! – Lucas ria e mordia sua barrinha de cereais.
— Essa é uma escola excelente, com um salário incrível e, por mais que tenha um probleminha aqui e ali, a gente pode falar que dar aula pra essas crianças e adolescentes é maravilhoso, mas essa é apenas uma realidade… – Camila era uma jovem professora assim como Lucas, mas sua aparência e altura podiam fazê-la ser confundida facilmente com um dos alunos – Alguns professores aqui também tem esse choque de realidade como eu, que trabalha aqui e em escolas públicas…
— Ah, eu imagino que deve ser muito mais difícil em vários aspectos, né?
— Muito! – Camila respondeu – É realmente um choque de realidades… – ela se levantou e pegou sua pasta – Me acompanha?
— Claro! – Lucas pegou suas coisas, deu um tchauzinho com a mão para Fernanda e acompanhou Camila pelos corredores em direção ao pavilhão II, era uma segunda-feira novamente e os dois faziam o mesmo caminho depois do intervalo.
— Mas assim, eu fico feliz de ver que você, uma pessoa que caiu de paraquedas nessa área, se sente motivado a continuar, mas é meu dever te informar que não vai ser sempre fácil… – Camila continuava o assunto.
— Aí sim, professor! Já chegou chegando na prô mais linda dessa escola! – um aluno do 2º B viu Lucas e Camila caminhando juntos rumo ao pavilhão II.
— Que isso, Erik! – Camila riu.
— E eu tô mentindo?! – Erik disse rindo para seus amigos que estavam ao lado – Prô, você é linda demais!
— E você não vai ganhar nada, nem um mísero meio ponto por me bajular assim! – Camila ainda ria e Lucas estava vermelho nas bochechas.
— Não tem problema, eu estou aqui para dizer verdades! – Erik se aproximou de Lucas – Vai que é tua, fessor!
— Vai pra aula, Erik! – Camila riu e olhou para Lucas sem jeito – Esses adolescentes…
— Mentir ele realmente não mentiu… – Lucas falou baixo, mas Camila conseguiu escutar.
— Ah é? Em qual dos apontamentos? – Camila ergueu uma sobrancelha.
— Na beleza é claro… – Lucas respondeu rápido já que tinha sido pego de surpresa – Boa aula, Camila, a gente se vê por aí! – ele se apressou em seguir para sua sala de aula daquele horário, mas viu Camila rir e ficar vermelha de vergonha.
Camila era uma das professoras mais queridas pelos estudantes, suas aulas de História naquela escola eram um exemplo de interação, de aprendizado e de feiras e exposições dos trabalhos de seus alunos. Sua didática a aproximava ainda mais dos adolescentes, tratava eles quase de igual para igual, mas sem deixar muitas intimidades que tirassem dela sua moral como professora. Os professores mais antigos, apesar de achar o jeito dela muito extrovertido e brincalhão, quase não tinham reclamações, só quando ela se atrasava em alguns dias devido ao trânsito que vez ou outra pegava até chegar ao bairro da escola.
Não foi difícil para que Lucas percebesse que tinha um interesse um pouco maior em Camila do que se esperava, ela era jovem, bonita, se dava bem com os alunos e falava muito bem. O fato de sempre se encontrarem nos intervalos e saídas da escola só fortaleceu a conversa que eles já mantinham desde o primeiro dia de aulas de Lucas e foi no terceiro mês naquela escola que Lucas a chamou pra sair depois de um certo empurrão dos alunos do terceiro ano.
Camila tinha ido até a sala do 3ºA para pegar a permissão para o passeio escolar que ela estava organizando, era troca de aulas e ela não podia se demorar muito, pediu licença a Lucas que estava pronto para começar sua aula e Lucas permitiu, sorrindo, vendo Camila entrar na sala.
— Olha, quem não entregar hoje, infelizmente não vai poder ir… – Camila falava recolhendo os papéis dos alunos.
— Eles não param de falar desse passeio desde a semana passada… – Lucas falava organizando sua lousa enquanto Camila recolhia as permissões.
— E eu espero mesmo que eles estejam animados… – Camila disse recolhendo o último papel.
— Estamos! – um grupinho na sala respondeu.
— Não tanto quanto o prof Lucas de te ver aqui, mas estamos, né galera? – um aluno disse brincando e a sala inteira caiu na risada e nos comentários sobre os dois professores.
— Rafael! – Lucas disse ficando vermelho de vergonha.
— Tô mentindo agora? – Rafael respondeu rindo.
— Vocês não valem absolutamente nada. – Camila disse rindo.
— Bom, mentindo não tá mesmo… – Lucas disse rindo, pegando todos de surpresa.
— Esse é meu professor! – Rafael respondeu entre os gritinhos animados dos adolescentes.
— Bom, Lucas, isso é assunto pra depois, não é? – Camila respondeu envergonhada.
— Te busco às 20h então! – Lucas respondeu deixando a sala ainda mais agitada.
— Meu Deus… – Camila disse rindo nervosa – Vou indo… – ela ria ainda quando saiu da sala.
— Quando eu crescer eu quero ser que nem você, professor! – Rafael respondeu rindo.
— Então vamos começar com o estudo, livro na página 180, vai! – Lucas ainda respirava acelerado da atitude que teve, mas se sentia confiante.
O encontro entre Lucas e Camila naquela sexta-feira à noite rendeu para os dois muitas risadas e alguns beijos. Foi o início de uma paquera que evoluía rapidamente para um relacionamento mais sério. Lucas e Camila tinham muito em comum ao mesmo tempo em que tinham opiniões diferentes sobre alguns assuntos. Na escola, a relação deles era estritamente profissional, com brincadeiras dos alunos de vez em quando, mas nada que fosse ser ofensivo pra eles ou para o próprio colégio.
No mês seguinte ao primeiro encontro, Lucas já acompanhava Camila até o outro bairro em que ela dava aulas para conhecer a diferente realidade de uma escola pública, mesmo notando nítidas e contrastantes desigualdades, havia uma coisa que Lucas percebia que Camila mantinha tanto na escola particular do bairro nobre, quanto na escola pública daquele bairro mais simples: a simpatia e a alegria que ela tinha com seus alunos. Na escola pública Camila exercia sua segunda faculdade como professora de Língua Portuguesa e vez ou outra, quando necessário e quando podia, substituía o professor de História e o ajudava nas aulas de reforço.
– Essa semana vai ser extremamente cansativa, o que me anima é lembrar que as férias estão quase aí… – Camila dizia comendo pastel enquanto caminhava com Lucas na feira que existia na rua paralela a da escola pública.
— O diretor falou comigo hoje sobre esse assunto… – Lucas falava acompanhando Camila – Parece que o Fábio já pode voltar semestre que vem…
— Vai embora? – Camila perguntou num misto de felicidade por Fábio já estar recuperado e de tristeza por não ver Lucas com a frequência que já tinha se habituado.
— Bom, acho que sim… – ele deu uma risadinha – Mas eu sabia que seria temporário e outra, mesmo trabalhando lá eu ainda estava mandando currículo para outras empresas, quem sabe um deles não dá certo…
— Vai dar certo sim! – Camila tentava se animar – Mas confesso que não te ver todos os dias vai ser estranho pra mim…
— Não seja por isso, Cami… – Lucas sorria – Namorando comigo você pode me ver a hora que quiser até mesmo nos churrascos das famílias, coisa que vai ser meio embaraçosa, mas eu corro o risco de ver minha família te envergonhando…
— Esse é o pedido de namoro mais direto e inusitado que já recebi… – Camila ria.
— Posso refazer de um jeito mais romântico se quiser…
— Aí não seria você! – Camila deu um selinho em Lucas.
— Posso entender isso como um ‘claro que aceito, poxa vida, você é perfeito!’ – Lucas afinou a voz e fez aspas com os dedos.
— Hoje eu notei que sua autoestima está elevadíssima… – ela ria – Mas tudo bem, pode entender como sendo isso…
— Às vezes eu penso se você não seria muita areia pra minha caminhonete… – Lucas disse e Camila o beijou.
— Vem, ainda temos reunião de pais de noite… – ela sorria tímida com as palavras de Lucas.
Ao final do semestre, com todas as provas entregues, recuperações aplicadas e trabalhos finalizados, Lucas se despedia com um pouco de dor no peito de suas turmas de ensino médio. Já tinha avisado a todos que não retornaria no semestre seguinte e a maioria dos alunos estava triste com aquele fato, mas também sentia saudades do antigo professor. Foi uma mistura de sentimentos que Lucas jamais achou que presenciaria e também jamais pensou que sentiria tanta falta de dar aulas como sentiu no primeiro mês que não retornou à escola. Em compensação, ter conhecido Camila foi mais do que um ponto positivo, sua relação com ela saiu da escola e de um ambiente profissional para algo mais pessoal e amoroso.
Sua saída do ramo escolar não durou muito tempo. Lucas continuava mandando currículos para empresas de sua área de formação, mas ter dado aulas, mesmo que por um período curto, em uma das mais conceituadas escolas particulares da cidade abriu novos e inusitados caminhos para ele. Lucas foi contratado a princípio como professor de reforço de matemática na escola que já tinha atuado e depois, com o incentivo de Camila, começou a fazer um ano de faculdade EAD para pegar o diploma de licenciado e poder prestar concurso para atuar na área.”
Quase quatro anos depois, a realidade que Lucas tinha planejado ainda na primeira faculdade era totalmente daquela que ele vivia. Oficialmente professor, Lucas trabalhava meio período perto de Camila na escola particular e, na parte da tarde, ele ia para a escola municipal do seu bairro para aulas efetivas. A nova rotina de Lucas fez com que ele propusesse à Camila que os dois morassem juntos, e há pouco mais de dois meses eles engataram no que se chama hoje em dia de “casamento moderno”, moravam juntos, mas sem nada oficial além do namoro.
No meio daquele ano, logo no início das férias escolares, Lucas começou a deixar Camila intrigada com seus longos sumiços durante o dia, sendo que os dois estavam de férias. Dentro de casa não acontecia nada que realmente preocupasse o casal, quase nenhuma briga, os dois viviam em muito companheirismo, risadas, passatempos românticos e montagem de aulas e provas, mesmo sendo matérias diferentes, os dois se uniam para fazer aquelas tarefas juntos.
Era uma sexta-feira, Lucas entrava no apartamento um pouco suado e com as bochechas vermelhas.
— Lu… – Camila olhava para ele e sua voz começou a falhar, mas ela respirou fundo, tinha medo de fazer uma pergunta pra Lucas porque não sabia o que esperar da resposta.
— Oi, amor… – Lucas colocou a mochila no chão ao lado da porta e tirou os sapatos, ele ainda sorria.
— Você… – ela estava de pé de frente pra ele, hesitava em perguntar – Você… – seus olhos já marejavam – Tá me traindo?
— Quê?! – Lucas começou a rir – De onde tirou essa ideia, Camila?! Meu Deus, eu sou completamente louco por você!
— Olha, a gente tá de férias… – Camila tentava decifrar alguma coisa na reação de Lucas, algum deslize que indicasse que ele tinha feito algo que ela não iria gostar – A gente tá de férias, Lu, e mesmo assim você tem saído todos os dias de manhã, me diz que vai pra escola, mas volta todo suado, o que tá acontecendo? – Camila tentava enxugar as lágrimas em vão, Lucas se aproximou dela e acariciou sua bochecha.
— Alguma vez te dei motivo pra achar isso de mim?
— Claro que não, mas o que você quer que eu pense? E se fosse o contrário, Lucas? Eu não quero controlar sua vida, mas acho que a gente já tá num nível de relacionamento que precisamos dar algumas satisfações um pro outro, não acha? – ela tentava parar de chorar, Lucas enxugava as lágrimas do rosto dela – Eu não falei nada até agora porque… Sei lá, por que, mas já tem quase duas semanas que você sai de manhã sem dizer nada e volta assim, agindo como se fosse completamente normal!
— Eu tô indo pra escola, você sabe disso… – Lucas disse sorrindo para Camila.
— Mas a gente tá de férias. – Camila não entendia a reação de Lucas.
— Estamos, mas tem uma turminha do segundo ano que tá me pagando por aulas de reforço… Eles não, os pais, e tem também uma turminha que quer treinar pras olimpíadas de matemática…
— E por que você chega todo suado? – Camila tentava montar alguma estratégia na cabeça.
— E eu tô indo a pé, por isso volto todo suado… Cami, eu jamais seria capaz de te trair!
— É que a escola nunca chamou os professores antes pra fazer isso que você tem feito nas férias, é estranho Lucas, não venha mentir…
— Sempre tem uma primeira vez! – ele respirou fundo – Eu juro por tudo o que é mais sagrado nesse mundo que tô indo pra escola e que não estou te traindo. Pode ir comigo amanhã se quiser… – Camila o olhava como se o analisasse – Para te tentar decifrar alguma coisa no meu discurso, Cami! Eu te conheço e sei quando você tá tentando interpretar o texto… – ele riu e Camila deixou escapar uma risadinha – Vem comigo amanhã, depois a gente almoça fora, pega um cinema, o que acha?
— Se eu aceitar ir você vai achar que aceitei porque não confio no que me diz…
— Já disse pra parar de tentar fazer análise do meu discurso, amor! – ele riu – Tô te convidando porque quero, eu não vou me ofender se falar que vai me acompanhar…
— Eu vou, mas é pelo cinema, tá?
— Você que manda, meu amor! – Lucas beijou Camila que já parecia mais calma.
Camila acompanhou Lucas no dia seguinte, se sentiu um pouco culpada por ter desconfiado dele, ainda mais quando viu os alunos empolgados em pleno sábado para estudarem coisas que a professora de Português e de História, particularmente, odiava, como números e fórmulas. Mas ela ficou por perto durante toda aquela manhã, aproveitou para colocar uma leitura em dia de um livro que já tinha começado a ler tinha uns meses.
— Almoço e cinema agora? – Lucas dizia caminhando até Camila que estava sentada em um dos bancos dos jardins do colégio.
— Desculpa? – ela disse se levantando e fechando o livro.
— Pelo o quê? – Lucas sorria.
— Você sabe… Eu desconfiei de você…
— Cami, meu Deus, já disse que tá tudo bem! Vem, vamos almoçar um lanche bem gordurento e pegar um cineminha com um combo de pipoca com manteiga pra mim e um de pipoca doce pra você!
— Eu te amo, Lucas…
— Pois saiba que é muito mais do que recíproco! – Lucas beijou Camila.
— Eita que eu amo esses professores! – uma aluna disse quando passou perto dos dois.
— Ué, Gisele, tá precisando de aula de reforço? Notei que tava na aula do Lu… – Camila disse falando com a aluna do 3ºA – Sempre foi excelente nas exatas…
— É… – Gisele olhou para Lucas – Nunca é demais dar uma reforçada, né?
— Você tá certa, mas fica tranquila que sei que você é o gênio que todo professor de matemática, física e química gostam de ter por perto! – Camila disse rindo.
— Que isso, prof… – Gisele disse sem jeito, ainda olhava para Lucas.
— Bom, eu e a prof aqui vamos pra uma tarde romântica, se cuida, Gisele! – Lucas disse sorrindo para a aluna e caminhando de mãos dadas com Camila.
— Até quando vai dar essas aulas a mais? Tenho certeza que os alunos querem ter um minuto de paz nessas férias… – Camila disse entrando no carro.
— A previsão é até a semana do saco-cheio… – Lucas sempre sorria perto de Camila.
— O pessoal do terceiro eu entendo por conta das olimpíadas e do vestibular, mas o segundo? E por que o primeiro ano não tá participando?
— Porque, aparentemente, os pais da galera do primeiro ano não quiseram pagar o reforço… – Lucas riu – E olha que eles precisam, porque como acabaram de sair do fundamental II, eles ficam bem perdidos no ensino médio…
— Eu acho que eles precisam de reforço de outras matérias também… – Camila falava.
— Vamos propor isso na próxima reunião! – Lucas disse animado – Agora, vamos falar de como você é linda e dar um tempo nessas questões escolares…
— Ai, Lucas! – Camila riu e eles seguiram para uma tarde romântica.
A semana do saco-cheio geralmente acontecia na segunda semana de outubro, em que os alunos da escola particular tinham uma semana inteira de folga por emendarem as datas comemorativas do dia 12 e 15 de outubro. Era um pequeno e curto descanso antes da fase final do ano que incluía, para o terceiro ano, a finalização da época escolar, os vestibulares que se aproximavam e também para os segundos anos, já que uma boa parte dos alunos faziam ENEM como treineiros para pegar o jeito para o ano seguinte. E quanto aos primeiros anos do ensino médio e o restante da escola, havia uma pesada preparação para a feira escolar interdisciplinar que contava muita nota e participação de familiares.
Na véspera da semana do saco-cheio, Lucas quase não parava em casa, Camila, já mais leve depois de conversar com Lucas e colocar tudo em pratos limpos, já não se preocupava tanto com as ausências do namorado, sabia que ele estava como uma bolinha de ping-pong de uma escola para outra, tendo que dar aulas normais e as aulas de reforço, juntamente com a revisão para as olimpíadas de matemática que ocorreriam na semana seguinte ao dia dos professores.
Era uma tarde de sábado, Lucas estava no colégio particular e reunia uma grande quantidade de alunos no pátio, Camila o esperava na casa deles.
— Gente, eu nem sei dizer o quão especiais vocês estão sendo… – ele olhava para os alunos e para o diretor – E eu quero que descansem bastante pra semana que vem, está bem?
— Sim! – os alunos responderam em coro e logo depois disso Lucas os dispensou, já havia uma fila de carros caríssimos na rua da escola para buscar os alunos naquela tarde de sábado.
— Como tem enrolado a Camila? – o diretor perguntou se aproximando de Lucas que guardava as coisas na mochila.
— Não tenho, eu digo a verdade, que venho dar aulas de reforço e revisão pras olimpíadas! – Lucas sorria.
— Mas durante o dia todo? Ela não desconfia do tempo que você passa fora de casa?
— Camila é a melhor pessoa desse mundo! Ela é muito compreensível!
— Bom… Isso tenho que concordar. – o diretor falou – Boa sorte essa semana, Lucas!
— Vou precisar… – Lucas falou já pronto para voltar para casa – Nem vou dormir de ansiedade pra sexta!
— Acalma esse coração, jovem! – o diretor riu – Vai dar tudo certo!
Lucas estava inquieto durante a semana toda, Camila percebia aquilo e na quinta-feira resolveu falar algo.
— Você tá bem, amor? – ela perguntou na hora do jantar enquanto Lucas mal tinha tocado na comida.
— Tô! – ele respondeu forçando o sorriso.
— Não tá não, o que tá rolando?
— Nada amor, eu tô preocupado com as olimpíadas, espero que os alunos se saiam bem… – ele mentiu.
— Tem certeza que é isso? – Camila não acreditava completamente, conhecia seu namorado e sabia que deveria ser algo a mais.
— Absoluta! – ele respondeu – Vou lavar a louça e deitar, tô com um pouco de dor de cabeça, tá bom?
— Quer que eu faça um chá?
— Não, meu amor, tá tudo bem, eu te amo, tá?
— Durma bem… – Camila respondeu vendo Lucas ir até a cozinha.
Lucas não tinha dormido, apenas deu alguns cochilos de pouco tempo, passou quase toda a noite em claro, enquanto Camila dormia o sono dos inocentes. Antes do despertador tocar, ele levantou e foi tomar um bom banho pra permanecer acordado durante aquele dia que prometia ser bem incomum para muita gente. Resolveu preparar um bom café-da-manhã e levar para Camila na cama que acordou surpresa e curiosa.
— Ué… – ela disse assim que Lucas a chamou delicadamente e ela viu a bandeja bem preparada e farta de comida para ela – Que isso, Lu?
— Seu café, minha rainha… – ele disse colocando a bandeja na cama.
— Você tá bem? – ela riu.
— Melhor impossível, só quis te mimar, não posso?
— Pode, pode mimar muito, sabe que eu amo… – ela disse recebendo o selinho de Lucas – Nossa, tá perfumado, já tomou banho?
— Já, acordei mais cedo…
— Você só usa esse perfume quando a gente sai em passeios românticos… Quer me fazer algum convite? – Lucas arregalou os olhos.
— Bom, eu acho que hoje a gente podia fazer uma viagem pra serra, o que me diz?
— Do nada? Lucas, você tá bem?! – Camila ria, mas no fundo estava preocupada.
— Só diz que aceita e deixa o resto comigo, o que acha?
— Você tá estranho… – ela disse bebendo o café com leite – Mas tudo bem, eu aceito, mesmo achando super fora de hora esse convite… Vou até me arrumar melhor hoje, você já me acorda desse jeito, todo lindo e perfumado, quem sou eu pra parecer molambenta, né?
— Você não é molambenta, Cami! Se colocar um saco de batatas ainda vai ser a mulher mais linda desse mundo!
— Você tá romântico hoje… – Camila sorriu – Vou tomar banho… Obrigada pelo café, meu amor.
Camila tomou banho tentando descobrir porque Lucas estava agindo daquele jeito, não que ela não soubesse que seu namorado era cheio de surpresas e quando dava para ser romântico, era ao extremo, mas algo nela funcionava como um alarme, uma pulga atrás da orelha que dizia para sua mente que tinha algo além de ele agir daquele jeito espontaneamente.
— Vamos, Cami? – Lucas chamava por Camila para irem para a escola.
— Que tal estou? – Camila usava um vestido longo, rosê e com detalhes em flores.
— Você é linda, e está deslumbrante!
— São seus olhos… – Camila percebeu que Lucas levava uma mala pequena nas mãos – Pra que essa mala? – ela perguntou intrigada.
— A aula hoje vai ser muito interativa… – ele disse sorrindo – Vamos?
— Vamos… – Camila ainda olhava aquela mala um pouco preocupada.
Como sempre, na sexta-feira, os alunos estavam bem agitados, mas naquele dia em especial Camila achou que eles estavam muito mais, “culpou” as semana do saco-cheio e a semana de feira cultural que estava se aproximando, os alunos exibiriam os trabalhos feitos durante todo o primeiro semestre e exporiam em uma feira aberta para os pais.
— Ué… – Camila olhava para o pátio principal do colégio – Vai ter alguma coisa aqui? Por que será que estão montando o palco?
— Vai ver é pra deixar já pronto pra feira, essas coisas devem ser chatinhas de montar… – Lucas disse caminhando pelo pátio ao lado de Camila enquanto eles seguiam para o pavilhão II, das salas dos três anos de ensino médio.
— Boa aula, viu? – Camila disse sorrindo para Lucas que ainda olhava o palco.
— Pra você também! – eles deram um rápido selinho.
— Ai ai, esses professores lindos… – um aluno do terceiro ano comentou ao passar pelo casal. Sem que Camila notasse ele piscou para Lucas que retribuiu ao gesto com outra piscadela.
As aulas daquela primeira parte da manhã seguiram normais. Foi ao final do intervalo, quando Camila voltava para o pavilhão II, que Lucas soltou a mão da namorada.
— Esqueci um negócio na sala dos professores… – ele disse vendo Camila sorrir – Boa aula, te vejo na saída!
— Até mais tarde, amor… – Camila seguiu seu caminho para a sala do 3ºA e Lucas caminhou na direção oposta. Enquanto passava pelo pátio, percebeu que algumas pessoas estavam montando instrumentos no palco, seu único pensamento foi que nenhum som atrapalhasse as aulas, o tempo do intervalo já estava no fim, não era possível que alguém fosse ter a falta de senso de apresentar alguma coisa, ainda mais sabendo que tudo naquele colégio dava eco.
Camila entrou na sala do 3ºA, colocou sua bolsa na mesa e cumprimentou os alunos sorrindo como sempre fazia.
— Prô, você está maravilhosa! – uma aluna comentou depois do animado “bom dia”.
— São seus olhos, querida! – Camila respondeu – E pelo o que estou vendo, vocês estão bem arrumados, cadê o uniforme de vocês? – a maioria dos alunos estava com uma espécie de fantasia escolar, um uniforme que era bem diferente do uniforme da escola.
— De tarde a gente tem ensaio da peça de teatro que vamos apresentar na feira… – uma aluna disse rápido.
— Ué, mas esse ano vai ter peça? E por que já estão trocados? – Camila olhava para os alunos.
— A gente tava ensaiando no intervalo, o diretor deixou a gente ficar com a roupa! – um dos rapazes disse, ele estava com uma jaqueta de couro preta, camisa branca e gravata, era como um uniforme de colégio interno em que os meninos parecem que vão para um baile de gala e as meninas usam saias de pregas.
— Estão lindos e eu já estou ansiosíssima pra ver a peça… – Camila sorriu – Bom, temos assuntos muito importantes pra tratar hoje: a feira, o simulado do ENEM e a revisão pros vestibulares! – Camila falava e já ligava a lousa digital para começar sua aula quando um som invadiu o recinto. Era algum instrumento ou caixa de som sendo ligada. A sala ficou ainda mais agitada, conversinhas por todos os cantos recomeçaram – Ei, ei! Foco! – ela tentava recuperar a atenção dos alunos, o som tinha voltado – Não é possível, será que vão mesmo fazer barulho no horário das aulas? Vou lá ver!
— Não! – uma menina gritou – Relaxa, prô, eu vou, pode começar a aula, já falo pra quem quer que for que estamos em aula! – e mais que rapidamente ela saiu do recinto.
— Ok… – Camila ainda olhava para a porta fechada – Vamos lá! – mas o som invadiu a sala em si, todas as salas e quadras tinham um alto falante padrão estadunidense que foi trazido para aquela escola caríssima, recados eram passados para os alunos por aquelas caixas de som no ambiente, bem como se precisava chamar algum estudante ou outro – Ah não é possível… – Camila olhava fixamente para a caixa de som dentro da sala, e tanto ali quanto do lado de fora da classe, a professora escutava uma música se iniciando, eram notas agitadas no piano – Cadê a Luísa que até agora não voltou com o silêncio? – os alunos estavam agitados naquela turma, o rapaz que se vestia com a jaqueta de couro levantou da carteira e tinha um microfone na mão – Daniel, o que é isso?
— I was sitting in the classroom, trying to look intelligent in case the teacher looked at me… – o rapaz começou a cantar e Camila não podia estar mais confusa – She was long and she was lean, she’s a middle-aged dream and that lady means the whole world to me… – a cantoria de Daniel também estava sendo ouvida nas caixas de som da sala de aula.
— It’s a natural achievement, conquering my homework, with her image pounding in my brain… – um grupo de meninos e meninas se levantaram, eles também tinham microfones, mas aquele que se usam nas bochechas.
— Que que tá… – Camila ainda tentava descobrir o que estava acontecendo.
— She’s an inspiration, for my graduation and she helps to keep the classroom sane… – Daniel cantava caminhando até Camila e então ele abriu a porta, deu um passo para fora e chamou Camila com a mão.
Oh teacher I need you like a little child
You got something in you to drive a schoolboy wild
Os alunos do 3ºA, caracterizados, faziam uma coreografia enquanto Daniel e mais um grupinho cantavam.
You give me education in the lovesick blues
Help me get straight, come out and say
Teacher I, teacher I, teacher I, teacher I need you
Camila conhecia muito bem aquela música, mas ainda não estava entendendo nada. Quando saiu da sala de aula viu que praticamente uma boa parte das turmas dos terceiros anos estavam com a mesma roupa do 3ºA e que participavam da dança.
I have to write a letter
Tell about my feelings
Just to let her know the scene
Daniel já não cantava mais, mas uma aluna do 3ºB, muito bem caracterizada entrou no lugar do rapaz para continuar a letra.
Focus my attention
On some further education
In connection with the birdies and the bees
So I’m sitting in the classroom
I’m looking like a zombie
I’m waiting for the bell to ring
Os alunos cantavam junto com Jessica do 3ºB e dançavam uma coreografia perfeita enquanto levavam Camila pelos corredores até a escada.
I’ve got John Wayne stances
I’ve got Erroll Flynn advances
And it doesn’t mean a doggone thing
Camila acompanhava os alunos por curiosidade, mas estava tão confusa que não sabia ao certo o que pensar.
Oh teacher I need you like a little child
You got something in you to drive a schoolboy wild
Durante aquele refrão, Camila prestou atenção que outra voz se destacava, mas não era de seus alunos.
You give me education in the lovesick blues
Help me get straight, come out and say
Teacher I, teacher I, teacher I, teacher I need you
Os alunos a guiaram escada abaixo até o pátio principal onde ela tinha reparado de manhã que um palco estava sendo montado. O palco estava pronto e os alunos fizeram um corredor humano para mostrar que ao final desse, em cima do palco, estava Lucas, muito bem arrumado, ele iniciou o último refrão cantando enquanto caminhava até Camila que mantinha sua expressão de surpresas: olhos arregalados, sorriso largo e incrédula.
Oh teacher I need you like a little child
You got something in you to drive a schoolboy wild
You give me education in the lovesick blues
Lucas tentava dançar e rodopiar ao redor de Camila que começou a rir daquela cena.
Help me get straight, come out and say
Teacher I, teacher I, teacher I, teacher I need you
Lucas, depois da última sentença do refrão, parou de cantar, se ajoelhou na frente de Camila e mostrou uma caixinha de veludo aberta.
— Lucas! – Camila não sabia definir seus sentimentos, olhou ao redor observando todos os alunos dos terceiros anos caracterizados e ofegantes depois da extensa coreografia, todos olhavam para eles.
— Nada abaixo de um flash mob pra perguntar se você quer casar comigo… – Lucas fez Camila rir mais ainda, ele ainda estava ajoelhado segurando a caixinha na mão, mostrando o anel pra sua namorada.
— Meu Deus, não era aula de reforço nenhuma! – Camila montava o quebra-cabeça – Não era peça de teatro nenhuma! – ela olhou para os alunos que riam.
— Era sim, eu fiz questão de ter as aulas, porque sei o quanto você poderia desconfiar… – ele riu, ainda estava ajoelhado – Camila, me dá uma resposta porque meu joelho tá doendo… – Lucas sorria.
— Como você fez isso?! – Camila ainda tentava decifrar todas as respostas.
— Cami! – Lucas riu – Aceita casar comigo, oficialmente?
— Lucas! – Camila sorriu, seus olhos estavam marejados – Levanta, eu aceito, meu amor!
Lucas se levantou depois de colocar o anel no dedo de Camila e de dar um beijo na mulher. Não foi ensaiado, mas os alunos resolveram repetir o último refrão da música. A própria banda era composta por alunos do 3ºC e a coreografia do falsh mob estudantil foi dançada mais uma vez enquanto Lucas e Camila tinham um momento deles.
— Meu Deus, o Rodolfo sabe disso?! – Camila falou se referindo ao diretor e ao olhar ao redor percebeu que Rodolfo sorria – Você sabia! – ela se dirigia a ele.
— Claro que sabia, acha mesmo que iam fazer algo na minha escola sem eu saber? – o diretor riu.
— Vocês não existem! Lucas, como foi que você teve essa ideia?! – Camila ainda estava impactada.
— Bom, eu contratei uma agência, né… – Lucas falou mostrando duas mulheres que não faziam parte do corpo docente da escola e muito menos eram mães de alunos.
— Você vai ter que me explicar isso tim tim por tim tim! – Camila ria.
— Não só vou explicar, como depois vou te mostrar o vídeo da preparação!
— Meu Deus, teve making off?! Vocês não existem! Vocês são demais! – Camila se referia a todos.
— Também acho… – Rodolfo falou – Mas sem querer ser estraga prazeres, bora voltar pras aulas?! – a escola toda estava lá, até o pessoal do pavilhão I que era composto por turmas de ensino fundamental I e II.
— Ah! – todos responderam Rodolfo com uma extensa exclamação de desapontamento.
— Ah, nada, todos pras aulas, vai! – Rodolfo disse e as turmas seguiram seus caminhos.
— Te espero na saída… – Lucas disse dando um rápido selinho em Camila.
— Você é completamente louco… – ela voltou para a sala do 3ºA – Como que vou dar aula hoje depois disso?! – ela disse para os alunos – Vai, virem as carteiras, vamos fazer uma roda de conversa… – os alunos estavam prestes a comemorar a falta de matéria – Sobre a matéria, antes que se animem demais! – ela se apressou em dizer.
— Prô, a gente só queria dizer que estamos muito felizes por vocês!
— Vocês são incríveis, obrigada de verdade! – Camila respondeu sorrindo para os alunos – Agora, vamos pro que interessa… Segunda Guerra mundial, implicações e reflexos até os dias atuais, comecem.
