A guerra pode começar
Jack
1941. A guerra já estava completando dois anos de existência e terror no mundo. Eu ainda não havia sido chamado para o exército, mas não temia que esse dia não tardasse a chegar. Havia acordado mais cedo, pois era meu dia de plantão no hospital que havia perto de minha casa. Cheguei ao hospital e estava sem tomar café.
– Doutor Forlan! – uma enfermeira me chamou.
– Pois não? – disse ainda sonolento e tentando raciocinar àquela hora da madrugada.
– O senhor tem uma cirurgia de emergência agora no segundo andar. – ela disse, se virou e continuou seu caminho.
Eu amava minha profissão, sempre quis ajudar as pessoas. Desde pequeno meu sonho era ser um super-herói e salvar vidas, quando cresci percebi que super-heróis não existiam de verdade, pelo menos não os que tinham super poderes. Mas achei uma profissão que era quase como a de um super-herói. Médicos também salvam vidas.
Muito bem. Agora eu estava indo para uma cirurgia de emergência e ainda não tinha tomado o café da manhã, tive que sair às presas de casa para não perder o bonde e tomar cuidado com os militares passando pelas ruas. Tudo estava muito perigoso, às 18h tínhamos o toque de recolher. O medo reinava naquele ano e reinaria por mais alguns anos até que tudo se acabasse.
Chegando à sala de cirurgia, as enfermeiras me ajudaram a me preparar. Toucas, luvas, higienização, máscara. Estava pronto. Foi uma cirurgia comum. Um sucesso, o rapaz iria sobreviver e talvez também fosse chamado para a guerra. Ele era jovem devia ter uns dezessete anos.
Assim que acabei a cirurgia fui direto para a cafeteria do hospital comer alguma coisa. Aquela cirurgia foi longa e minha barriga às vezes roncava durante os procedimentos. Tomei uma xícara de café e comi algumas torradas, não pude me demorar muito naquele lugar, pois já tinha mais cirurgias marcadas para aquele dia e para o dia que se seguiria.
Ao final do plantão realizei três operações e retirei muitas balas perdidas de corpos de inocentes que tiveram o azar de passar no lugar errado e na hora errada quando iam para seus destinos. A guerra era um inferno. Depois de realizar todos esses trabalhos, tirei um tempo para descansar, a noite pelo jeito seria longa e o dia seguinte seria a mesma coisa. Vida de médio não é fácil, mas até que é legal.
Já tinham dado o toque de recolher, ou seja, só iria aparecer alguém naquele hospital apenas se a pessoa quisesse a morte, pois sair de noite depois do toque de recolher era pedir para morrer. Então quase não aparecia ninguém naquele horário, dava tempo de tirar um cochilo e tentar descansar do dia exaustivo que tive.
O dia amanheceu e com eles mais vítimas de atentados noturnos surgiram no hospital. Fiz mais cirurgias, retirei mais balas perdidas e finalmente deu o horário de eu voltar para a casa. Precisava de um banho e de uma noite de descanso merecida. Era de tarde, ainda estava claro, passei por uma padaria que ficava no caminho da minha casa. Vi seis rapazes entrando no lugar, mas o que me chamou a atenção era que eles não aparentavam ser ingleses. Ignorei aquele fato, eu queria chegar em casa logo e poder dormir.
Relaxei durante uma hora na banheira, quase peguei no sono, o cansaço me consumia de uma maneira surpreendente. Às vezes quando estava na banheira eu ficava pensando na vida. Aquela guerra havia tirado pessoas importantes de mim. Sophie. Sentia-me só desde que ela partira injustamente depois de um atentado à casa dela. Ela era minha namorada. Pretendíamos nos casar assim que essa maldita guerra acabasse, mas a guerra a tirou de mim para sempre.
Eu já não tinha família, meus pais morreram cedo, minha mãe morrera depois do parto. Meu pai me criou, eu era filho único. Logo que entrei para a faculdade de medicina meu pai morreu depois de um ataque cardíaco. Ninguém sabia, mas ele tinha sérios problemas no coração. Cheguei em casa um dia depois da aula e o encontrei morto no chão da sala.
Passaram-se anos e me sentia cada vez mais sozinho, até que encontrei Sophie. Ela era uma enfermeira que trabalhava no mesmo hospital que eu. Apaixonamo-nos e eu a pedi em namoro, queria me casar com ela, ela me fazia feliz e me fazia sentir único. Mas quando a guerra surgiu no mundo, a casa de Sophie e seus pais fora bombardeada em uma noite por aviões alemães.
Sophie jamais retornaria e mais uma vez eu estava só.
Terminei meu banho, coloquei meu pijama e deitei em minha cama, dormi pensando em Sophie e dormi como uma criança. Sem medo. Imaginava às vezes, se voltaria a amar alguém como amei Sophie daquele jeito.
Mais um dia começou e eu só entraria no hospital de tarde. Organizei minhas coisas. Li um livro e chegou a hora de eu ir para o trabalho. Caminhando pela rua vi aquela mesma padaria do dia anterior modificada. Os vidros da frente estavam estilhaçados, alguns militares estavam na frente do prédio e havia pessoas curiosas por lá também. Avistei alguns jornalistas entrevistando uma pessoa, passei perto do lugar e vi que era uma garota que estava sendo entrevistada. Ela era bonita, cabelos presos em um rabo de cavalo, seus fios castanhos escuros e lisos muito bem cuidados, sua postura sempre ereta como se ela fosse treinada para aquilo, mostrava confiança ao falar com os jornalistas e tinha certo ar de autoridade.
Olhei para o relógio e vi que iria me atrasar. Corri para pegar o bonde e cheguei ao hospital para mais um dia de cirurgias e pequenos casos. Passei a noite no hospital como de costume e quando amanheceu uma enfermeira me cumprimentou e logo me entregou o jornal da manhã.
“Garota mata seis nazistas com uma faca de confeiteiro”
Era a manchete principal. Resolvi ler a reportagem só para depois descobrir que o atentado ocorreu tão perto de mim que eu nem imaginava. Sabia que aqueles seis caras entrando na padaria na tarde passada não eram ingleses. E a manchete esclarecia tudo até mesmo o porquê de naquela manhã eu ter visto a padaria totalmente modificada e quase destruída.
Mas não dei muita importância para aquilo continuei com minha rotina.
1942. A guerra já estava no terceiro ano e parecia que não teria fim. Tudo estava cada vez mais assustador. Certo dia depois que cheguei do hospital vi Jeeps de militares parados em frente a onde eu morava.
– Pois não? – disse me aproximando e com receio.
– Jack Forlan? – um dos militares perguntou para mim.
– Sou eu, o que desejam?
– Você está sendo intimado para se juntar a nós na 6ª divisão de soldados. Pegue só o necessário e estaremos te esperando aqui. – um dos militares disse.
Eu havia sido chamado para a Guerra. Não estava com medo, era isso o que me restava. Já estava sozinho no mundo. Peguei o essencial e fui com os soldados para uma área afastada da cidade. Em meio a uma floresta surgia um extenso campo que continha Jeeps, tanques, soldados correndo. A base militar estava cada vez mais próxima. Desci do carro e um soldado me acompanhou.
– É novo aqui também? – ele perguntou.
– Sim. – disse caminhando ao lado dele.
– Prazer, sou George McMahon!
– Parece contente em estar aqui… – disse percebendo o entusiasmo dele.
– Estou aqui para servir minha pátria, não tem honra maior que morrer pela pátria! Como o senhor se chama?
– Jack Forlan. – disse sem muitas emoções.
– Prazer! Ouvi dizer que mudaram o instrutor dessa divisão, vamos conhecer ele hoje! – ele disse e chegamos ao vestiário.
Colocamos nossas fardas e seguimos o caminho para a tenda onde havia outros soldados esperando para que o treino começasse. De repente duas pessoas entraram naquele lugar e muitos cochichos começaram entre os soldados, não conseguia identificar as pessoas até que uma voz gritou:
– Soldados, formação! – formamos a fila e ficamos em posição de sentido – Sou o Coronel Patrick Foster.
– Quem é aquela garota? – McMahon perguntou baixo para mim.
– Essa garota… – o Coronel havia escutado e olhava diretamente para nós – É a mais nova instrutora de vocês. Tenente-Coronel… – ele deu passagem para que a garota falasse.
– Muito bem… – ela disse tímida, mas ainda esbanjando autoridade e foi aí que eu me lembrei quem era a garota – Soldados, eu sou a Tenente-Coronel Jenna Miller.
Acho que só com o tempo eu iria descobrir que aquela garota seria uma das pessoas mais importantes na minha vida depois da morte de meus pais e de Sophie. Sorri para ela e ela me olhou confusa, mas no fundo um sentimento se formava dentro de mim.
Jenna Miller. Tenente-Coronel Jenna Miller. Melhor amiga e paixão da minha vida.
A guerra poderia começar que eu estava pronto para os treinos, e obviamente, para conhecer minha superiora.
