Capítulo 10

“Pede pra sair”

Jenna

Entrei em meu quarto enxugando as lágrimas desnecessárias que eu não devia ter derramado por aqueles seres repugnantes que falaram mal de mim. Lavei meu rosto e fiquei me olhando no espelho. Meus olhos estavam inchados por conta das lágrimas.

Chega. Era hora de eu dar um basta nisso tudo! Já aguentei demais as piadinhas de machismo daquele regimento, não iria admitir que eles zombassem de mim e tratassem Antoniett como se ela fosse a Rainha. Se eles disseram que eu sou tudo aquilo de ruim, vou mostrar para eles que posso ser muito pior. Mesmo machucada eu serei o pior pesadelo deles, vou fazer com que eles implorem para que Hitler os capture. Chega de ser durona, mostrarei para eles quem, além de meu pai, que manda naquela base.

Coloquei a mão sobre meu ferimento. Estava apenas com um esparadrapo. Tirei a calça, fui até minha gaveta e peguei uma faixa, comecei a enrolar a mesma em volta do machucado, apertando cada vez mais a cada volta que dava, para que ficasse bem firme. Dei um nó bem forte na faixa para que essa não saísse tão cedo e vesti a calça novamente. Fiz alguns exercícios com a perna para ver se sentia alguma dor mais forte. Nada. Apenas uma pontadinha como se alguém estivesse me espetando com uma agulha. Tirei a parte de cima da farda e peguei uma regata branca em meu armário. Estava frio, mas como eu seria mais fria que o gelo. Amarrei meu cabelo mais alto ainda. Respirei fundo e dei uns tapinhas em meu rosto para corar um pouco.

Voltei ao quarto e fiz alguns alongamentos, nada muito pesado. Levantei-me e saí do local decidida a voltar definitivamente aos treinos. Eu sou Jenna Miller e eu jamais serei invalidada. Caminhei pelo corredor em direção à tenda de treinamentos. Chegando lá, pude ver o batalhão todo, parando para prestar atenção no meu retorno e acho que em minhas curvas também, até porque aquela regata branca era bem rente ao meu corpo. Olhei para cada um deles e não disse uma só palavra. Era hora da minha tortura começar.

Jack

Mas o que ela estava pensando que iria fazer? Por que ela estava com regata sendo que fazia pelo menos uns dez graus? Eu pedi para ela repousar, mas obviamente que ela iria me desobedecer. Aproximei-me de Jenna tentando entender a situação.

– Tenente-Coronel? – Perguntei e olhei nos olhos dela que expressavam nada além do vazio e… Raiva?

– Capitão.  – ela disse seca.

– Será que eu terei que desenhar para você o significado da minha frase “você tem que repousar”? – disse.

– Fique tranquilo Capitão, não irei fazer nenhum esforço, estou aqui apenas para mostrar minhas técnicas à Antoniett, já que ela irá me substituir. – ela falou a última palavra como se estivesse com uma faca no estômago – Antoniett! – ela gritou para a Tenente-Coronel francesa.

– Sim, Tenente-Coronel! – Belle bateu continência para Jenna.

– Vou instruir você para treinar os soldados corretamente. – Jen disse seca para a francesa – Soldados! – ela gritou e pude ver todos os soldados em posição de sentido, olhei novamente para minha Tenente-Coronel e pude ver um sorriso nada agradável saindo do canto de seus lábios – Hora de começar os treinos de verdade… – algo me dizia que Jenna iria se divertir hoje.

Ela começou a andar em direção ao campo e parou virando-se para todos os soldados esperando que todos chegassem. Belle estava ao seu lado. Jenna colocou as mãos na cintura e ficou encarando todo mundo antes de dizer o que iria fazer, resolvi ir para o lado dela.

– Muito bem. – ela disse – Brian Chill. Um passo a frente. – Vi o soldado tenso dando um passo para frente – Sparks, um passo a frente. – ok. Agora eu estava começando a gostar da brincadeira, Sparks deu um passo à frente, mas estava confuso, assim como todo mundo. – Você. Seu nome soldado? – ela perguntou para outro rapaz, que se não me engano era um dos soldados que havia falado “mal” dela minutos atrás.

– John Castle. – o soldado disse.

– Castle. Um passo à frente. – Jenna pediu e o soldado obedeceu. Eu não sabia o que ela tinha em mente, mas estava adorando ver o desespero dos soldados.

– Capitão Forlan. Junte-se aos soldados cujo nome foi chamado. – ok, retiro o que eu disse. Fui para o lado dos soldados e olhei nos olhos da Tenente-Coronel, tentando entender o que ela pretendia fazer. Belle estava confusa também. – Muito bem. – ela não disfarçava o sorriso maldoso no rosto – Vocês quatro irão formar grupos de até cinco soldados, e então, vamos – ela olhou para Belle – treinar vocês para o “Grande Dia”… – ela fez aspas com os dedos e não parava de sorrir maleficamente.

Um por um ela foi pedindo que se juntasse aos “líderes” dos grupos, terminado isso ela chamou Belle de lado e falou algo que eu não consegui escutar. Belle apenas assentiu com a cabeça e foi em direção ao meu grupo e ao grupo de Sparks.

– Senhores, queiram me acompanhar. – Belle começou a andar e resolvemos segui-la, mas eu não queria seguir, queria ver o que Jenna iria aprontar. Por sorte ficamos próximos dos grupos que Jenna comandava – Muito bem, é o seguinte a Tenente-Coronel Miller pediu para que eu instruísse vocês. Quero quinhentas flexões para começar, depois quero que corram cinco quilômetros e quando acabarem voltem aqui. Sparks e Forlan irão me ajudar na supervisão. Vão! – Belle deu o sinal e os dois grupos foram ao chão e começaram a fazer flexões.

Fiquei ao lado de Belle e de Sparks.

– O que ela falou para a senhorita? – perguntei para Belle.

– Pediu que eu pegasse leve com esse grupo, porque com o outro não iria ser o mesmo. – Belle disse e Sparks arregalou os olhos.

– Ela está diferente. Como pode uma pessoa que eu vi chorar no corredor, voltar assim depois de dez minutos tão… Mudada? – Sparks disse olhando para Jenna logo a nossa frente.

Jenna olhava nos olhos de cada soldado daqueles outros dois grupos enquanto falava. Se eu estivesse no lugar deles também estaria com o medo e a tensão que eles estavam. A Tenente-Coronel era imprevisível como o clima, uma hora ela poderia estar sorridente como se o sol brilhasse e não houvesse guerra, mas de repente ela muda, como se uma nuvem encobrisse os raios solares e uma tempestade começasse a se formar em sua cabeça.

– Brian Chill e John Castle. Quinhentas flexões e quinhentos abdominais, para começar… – ela disse intensificando o “para começar” – O restante, trezentas flexões e quero que corram dois quilômetros. Agora! – os soldados começaram a fazer o que ela estava pedindo, não pude deixar de notar a cara de desgosto nos soldados que foram separados do grupo, mas mesmo assim, eles fizeram os exercícios.

Ela ficou ali ao lado de Chill e Castle apenas observando os dois. Quando os outros soldados começaram a corrida ela ergueu um pouco a cabeça para observá-los, mas voltou a concentração para os soldados no chão. Meu grupo e de Sparks também já estavam na corrida, Belle pediu para que os acompanhassem, foi o que fizemos.

– O que ela falou para você no corredor, Sparks? – perguntei para o soldado enquanto corríamos.

– Ela chorou, e logo depois me perguntou se eu realmente achava que ela era daquele jeito que Chill, Castle e aquele outro soldado falaram dela. – ele me respondeu.

– E o que você respondeu?

– A verdade Capitão, que ela não era nada daquilo. – continuávamos correndo.

– Mais alguma coisa? – perguntei curioso e um pouco enciumado.

– Não, senhor. Ela se levantou e foi para o quarto dela. – ele disse.

Acho que estava entendendo o motivo daquela mudança de comportamento de Jenna. A Tenente-Coronel poderia ser durona, mas eu sabia reconhecer quando ela não estava bem. Desde que Antoniett chegara, ela estava diferente, acredito que ela esteja com ciúmes, mas vou mostrar para ela que ela é única e insubstituível. Antes, vou ver o que ela pretendia fazer com os grupos que ela estava instruindo.

Voltamos até onde Belle estava nos juntando aos outros soldados.

– Peguem suas armas soldados e vamos para o Circuito! – Belle pediu e obedecemos

O Circuito era o lugar onde treinávamos como se estivéssemos no campo de batalha, havia arames farpados, lama, muitos obstáculos, para tentar imitar o as trincheiras e a “terra de ninguém”. Fomos para lá e nos afastamos de Jenna, eu não consegui mais ouvir o que ela falava para os outros soldados.

Jenna

Aqueles dois iriam engolir tudo o que disseram sobre mim. Castle e Chill iriam se arrepender de terem me provocado. Para começar, resolvi pegar leve. Quinhentas flexões e quinhentos abdominais, enquanto os outros faziam trezentas flexões e corriam dois quilômetros. Era o tempo suficiente de eles fazerem tudo isso enquanto Chill e Castle continuavam com seus exercício.

Pude ver Jack e Harry olhando confusos para mim. Pedi que Belle pegasse leve com eles, afinal, eles não mereciam enfrentar minha fúria, não por enquanto. Tempo depois avistei os soldados da francesa seguirem para o Circuito. Rapidamente gritei para que meus soldados fizessem o mesmo, exceto Chill e Castle. O circuito deles iria ser diferente. Pedi para que eles me acompanhassem até o Circuito para observar os outros soldados.

O tempo começou a fechar indicando que iria chover em breve, não pude deixar de sorrir. Era o que faltava para que meu treino fosse perfeito. Posicionei meus soldados no início do lugar e pedi para que eles esperassem até eu dar o sinal, chamei Belle de canto.

– Você fez o que eu pedi? – perguntei.

– Sparks já posicionou a bandeira no lugar que a Tenente-Coronel pediu. – ela falou com aquele sotaque que me dava raiva, mas ignorei esse fato, ela estava sendo bem útil.

– Ótimo. – eu disse e olhei para o céu, precisava esperar mais alguns momentos. E finalmente a primeira gota de chuva caiu, trazendo consigo mais gotas até que a chuva começou a apertar – Muito bem, soldados. – disse olhando para meus grupos – No meio do Circuito tem uma bandeira da nossa Nação, ela está escondida entre os obstáculos ou pode estar enterrada na lama, vocês deverão achá-la e trazer para mim, mas não se esqueçam: o “inimigo” não irá facilitar para vocês, agora, vão! – assim que terminei eles saíram correndo com as armas (descarregadas, obviamente) se rastejando no chão e procurando a bandeira.

O Grupo de Belle também estava no circuito, mas a intenção deles era apenas completar o trajeto, o “caça ao tesouro” era o exercício do meu grupo. Avistei meus alvos e caminhei até perto deles. A chuva estava ficando cada vez mais forte. Avancei para o obstáculo em que Chill e Castle iriam passar e o modifiquei sem que eles percebessem, era uma cerca de arame farpado e eu a posicionei de uma maneira que eles iriam tropeçar nela. Dito e feito. Os dois caíram e se enrolaram na cerca, eles gritaram de dor e eu só fiquei observando. Nada disse. Até que dois soldados de meu grupo foram ajudá-los. Mas eu não havia acabado, peguei uma granada falsa.

– Simulação de bomba! Cuidado com a granada! – e joguei para o alto, a granada caiu no meio do circuito e vi os soldados se afastando e se abaixando esperando o falso efeito de bomba passar, logo depois ele voltaram a ajudar Chill e Castle.

Aproveitei a deixa e modifiquei outro obstáculo, para pegar mais soldados, coloquei alguns sacos de areia no meio do caminho para imitar corpos caídos ao chão e fiquei observando mais uma vez. Os soldados conseguiram ajudar Castle e Chill e eles seguiram para outro local, enquanto alguns soldados do grupo de Belle desviavam da minha nova armadilha, pude ver Jack tropeçando em um dos sacos de areia e caindo ao chão espalhando lama para todos os lados e revelando que a bandeira estava enterrada ali. Ele olhou para mim de imediato, eu apenas pedi para que ele prosseguisse. Chill avistou a bandeira e saiu correndo em direção ao local. Porém, eu não iria facilitar as coisas para ele. Caminhei até um lugar onde havia uma corda enterrada no chão devido à correria e a lama, esperei até que Chill chegasse mais perto, me agachei para pegar a corda e quando ele se aproximou eu a puxei levantando, Chill foi pego de surpresa, mas ainda assim conseguiu pular evitando cair, ele se jogou no chão e conseguiu resgatar a bandeira. Chill a levantou e olhou para mim, seu olhar expressava raiva e ao mesmo tempo satisfação.

– Ok! – gritei olhando para Chill – A bandeira foi resgatada! Saiam do Circuito! – gritei e todos os soldados inclusive os de Antoniett saíram, nos reunimos no campo novamente, a chuva não havia cessado, estavam todos encharcados e enlamaçados.

Chill começou a caminhar pesadamente em minha direção e jogou a bandeira no chão quando estava a quatro passos de mim.

– Aqui está sua bandeira, Tenente-Coronel! – ele dizia com raiva, apenas o encarei nos olhos.

– Pegue-a e entregue em minhas mãos. – falei seca, mas com autoridade.

– Pegue você mesma! – ele estava fora de si.

– O que disse? – perguntei para me certificar de que ele havia realmente falado aquilo.

– Eu disse: Pegue. Você. Mesma! – ele repetiu pausadamente enquanto todos os outros apenas observavam, pude ver Sparks e Jack se preparando para partir para cima dele caso ele fizesse alguma coisa comigo.

– Sinto muito te dizer isso querido, mas sou sua superiora e exijo que você me obedeça!

– Você trapaceou! – ele continuava me encarando.

– E você achou o quê? Que no campo de batalha tudo iria ser fácil?! Que o inimigo iria deixar você alcançar seus objetivos sem interferir em nada? – eu gritava com ele e ele ficou quieto, sem resposta para minhas perguntas – Só te digo uma coisa Chill: no campo de batalha tudo isso será muito pior! Você pode confirmar para mim se voltar vivo de lá! – ele ainda não falava nada – Se não está aguentando, pede pra sair! Porque não estamos aqui para tratá-los com mordomias! Estamos aqui para treiná-los para uma guerra! – ele se virou e ia voltando para o lado dos outros soldados – Chill! – ele se virou novamente – Pegue a bandeira! – ele se aproximou ainda mais de mim, estávamos a centímetros de distância.

– Não. – ele disse por fim.

Ah mas aquele ser não iria fazer aquilo, não mesmo! Acho que ele não entendeu no primeiro dia quando eu pedi respeito da parte dele, de todo jeito, teria que ensiná-lo a me respeitar, mais uma vez. Peguei o braço dele e o virei prendendo em suas costas, ele gemeu de dor.

– A menos que você queira ficar sem um braço, eu sugiro que pegue a bandeira do chão. – falei em seu ouvido e forcei seu corpo para frente, sua respiração era pesada, mostrando que ele estava com muito ódio de mim, mas mesmo assim ele abaixou e pegou a bandeira. Soltei o braço dele e ele se virou de frente para mim, estendi minha mão e ele me deu a bandeira – Você poderia ter evitado toda essa humilhação se não tivesse me desafiado. – disse por fim – Soldados! – eles ficaram em posição de sentido – Dispensados! – dizendo isso, todos eles se dirigiram até os vestiários da base.

Capítulo 11