O espião
Jenna
Fui para meu quarto com a intenção de entrar logo embaixo do chuveiro quente e tomar um banho antes que eu pegasse alguma pneumonia. Mas o banheiro estava ocupado. Arranquei minhas roupas molhadas ficando apenas com as peças íntimas e sentei na cama esperando que Antoniett saísse do banheiro. E esperei. Pensei que franceses não gostassem de tomar banho. Poxa desde que entrei no quarto ela não desligou aquele chuveiro! Estava quase levantando para bater à porta quando a mesma se abriu.
– Tenente-Coronel! – Antoniett estava com a toalha enrolada no corpo e se espantou ao me ver apenas de roupas íntimas.
– O que foi? – perguntei seca e olhei para meu corpo – Desculpa se não tenho o seu corpinho perfeito! – ela ia se manifestar, mas eu entrei no banheiro e tranquei a porta.
Liguei o chuveiro e deixei que o vapor tomasse conta daquele banheiro. Tirei meu sutiã, minha calcinha, a faixa com o curativo e entrei em baixo daquela água quente. Cada gota que caía sobre meu corpo era como uma massagem. Estava tão relaxada que acho que fiquei mais de dez minutos apenas pensando na vida. Resolvi tomar o banho realmente, e isso levou mais quinze minutos. Finalmente resolvi sair do chuveiro, peguei minha toalha e comecei a me enxugar. Enrolei-a em meu corpo e saí do banheiro. O quarto estava vazio, Antoniett não estava lá.
Refiz o curativo em minha perna, enrolei a faixa mais uma vez e vesti minha farda, pois ainda iria ter que sair para o jantar, por mais que Jack tivesse falado que levaria minha comida até o quarto, eu achei melhor ir até o refeitório. Penteei meu cabelo e saí do quarto.
Passei por vários corredores até chegar ao lugar desejado, havia alguns soldados conversando no campo, outros apenas observando a paisagem enquanto fumavam e olhavam para o nada, alguns deles voltaram os olhares para mim e bateram continência, eu apenas assenti com a cabeça e continuei meu caminho que ficara mais longe por conta do lugar que meu pai arranjara para que eu e a francesa ficássemos juntas.
Cheguei ao refeitório. Tinha ainda muitos soldados por lá, poucos me notaram e eu apenas ignorei todo mundo. Peguei minha comida e me sentei na minha mesa de costume, no canto do lugar e que sempre ficava vazia. Olhei para todos naquele lugar, havia uma mesa que tinha mais pessoas, essas formavam uma rodinha, eu estava curiosa para saber o que estava acontecendo naquele lugar, mas minha preguiça falou mais alto. Fiquei apenas observando. De repente alguns soldados se afastaram da mesa e pude ver Antoniett, Jack e Harry rindo e conversando como se fossem grandes amigos, alguns soldados entraram na conversa e riam junto com o trio. A fome que eu estava sentindo se foi na mesma hora. Voltei meu olhar para minha comida, tentando ignorar o fato que tinha acabado de ver meu melhor amigo rindo com a francesa e fingindo que eu não existia. Ok, ele estava de costas para mim, mas custava virar? Não, eu não estou com ciúmes! Pronto, voltei a discutir com minha consciência.
Tentei comer um pouco, mas não conseguia, simplesmente havia perdido a fome. Empurrei o prato para longe de mim e me levantei para voltar ao meu quarto. Resolvi passar longe da mesa dos “populares”. Se eles não haviam notado minha presença, melhor que continuassem assim. Segui meu caminho para o corredor que daria até o meu quarto.
Harry
Antoniett sabia divertir qualquer um. Ela realmente era muito divertida. Começamos a conversa apenas entre eu e ela, mas logo o Capitão Forlan se juntou a nós, o que eu achei estranho, mas acho que era porque ele não queria jantar sozinho. Nossa conversa estava tão divertida que outros soldados se aproximaram de nossa mesa e quando percebi estávamos cercados de pessoas rindo junto com a gente. Belle contava suas histórias engraçadas da França e lendas urbanas.
Houve uma hora em que um grupo de soldados se afastou e pude ver Jenna sentada sozinha em sua mesa de costume. Ela olhava para a comida com nojo. Voltei minha atenção à conversa por um segundo e no segundo seguinte quando voltei a olhar para a mesa de Jenna, ela não estava mais lá. Havia se levantado e estava caminhando devagar e mancando em direção ao corredor com a cabeça baixa. Olhei para o prato que estava na mesa dela e vi que ela nem tocou na comida. Resolvi segui-la. Cogitei a ideia de chamar Jack para vir comigo, mas decidi que iria falar com ela sozinho. Se eu tinha a intenção de conquistá-la, Jack não poderia atrapalhar.
Pedi licença da mesa e fiz o mesmo caminho que a Tenente-Coronel. Ela andava devagar por conta do machucado na perna, por isso consegui alcançá-la rapidamente.
– Tenente-Coronel! – chamei sua atenção, ela se virou para mim.
– Sparks. – sua expressão era de cansada.
– Vi que a senhorita saiu do refeitório… – comecei dizendo, escolhendo com cuidado as palavras certas para usar coma Tenente-Coronel.
– É, eu só dei uma passada lá, pra caminhar um pouco… – ela não sabia esconder a tristeza de seus olhos e nem de sua maneira ao falar.
– Com todo respeito Tenente-Coronel, mas eu vi que a senhorita não chegou a comer nada do que estava em seu prato… E se levantou da mesa assim que… – como eu poderia falar que ela saiu da mesa porque viu Belle e Jack numa conversa divertida sem magoá-la?
– Assim que percebi que perdi a fome. – ela completou minha frase, eu percebi que ela não queria tocar nesse assunto, mas evitá-lo não irá fazer bem para ela, cedo ou tarde ela teria que enfrentar a situação.
– Tenente-Coronel… Posso parecer bobo, mas não sou e eu sei por que a senhorita saiu da mesa… – ela olhava para a paisagem do campo e da floresta atrás de mim.
– Shh! – ela colocou a mão em minha boca impedindo que eu continuasse. Ela colocou a mão em minha boca.
– Sei que está tentando evitar esse assunto, mas… – tentei falar com a mão dela ainda em minha boca.
– Shh! – ela pediu silêncio mais uma vez. Ela já estava sendo infantil. Eu amo essa garota, mas fazer isso só para evitar um assunto é infantilidade.
– Tenente-Coronel… – tentei falar.
– Fica quieto. – ela sussurrou e continuava olhando para a floresta atrás de mim. Resolvi virar minha cabeça para olhar para onde ela estava olhando, mas ela não deixou – Não olha agora. – ela continuava sussurrando – Continue falando comigo e vamos caminhando até a tenda de treinos normalmente. – o que será que estava acontecendo? Fiz o que ela pediu e voltei a falar do assunto do refeitório.
– Tudo bem… Olha, eu sei que a senhorita saiu do refeitório porque viu Jack e Antoniett e muitos outros soldados rindo e conversando… – ela continuava olhando para a floresta, mas assentia com a cabeça, algo me dizia que ela não estava prestando atenção no que eu estava falando.
Chegamos até a tenda que estava iluminada apenas com o brilho da lua. Entramos no local. Jenna foi até um grande armário que havia no final do lugar, ela retirou uma chave do bolso da farda e abriu o armário. Nele havia muitas armas para o treino. A Tenente-Coronel pegou uma faca e colocou na bota dela e logo depois me deu uma, eu peguei mas olhava confuso tentando entender toda a situação. Será que ela queria treinar àquela hora? Ela pegou uma pistola pequena e colocou na parte de trás de sua calça, Jenna também pegou uma lanterna. Resolvi pegar uma arma também, e coloquei na parte de trás de minha calça.
– O que está acontecendo, Tenente-Coronel? – perguntei sussurrando.
– Apenas me siga Sparks, tente não fazer barulho e esteja preparado para qualquer ataque. – eu não estava entendendo nada, mas resolvi segui-la.
Ela foi caminhando até uma cerca que separava a floresta da base militar, com cuidado para não fazer barulho ela levantou uma parte da cerca que já estava danificada, ela parecia saber desse dano há algum tempo, pois ela foi certeira naquele lugar. Assim que ela levantou a cerca ela se virou para mim e colocou os dedos sobre a boca indicando que era para eu ser silencioso. Assenti com a cabeça e a segui passando pela cerca logo atrás dela.
Jenna começou a caminhar floresta adentro, tentando ser o mais silenciosa possível. Eu ainda não sabia o que ela pretendia fazer, mas continuava seguindo os passos da Tenente-Coronel. Caminhamos mais um pouco e de repente ela parou, encostou em uma árvore e indicou outra árvore para que eu fizesse o mesmo. Dirigi-me até o local que ela se referiu. Cautelosamente ela moveu sua cabeça para olhar através do tronco da árvore. Fiz o mesmo e voltei meu olhar para a Tenente-Coronel. Ela me chamou para que eu fosse até onde ela estava. Cuidadosamente fui até ela.
– Sparks… – ela me colocou contra o tronco, de uma maneira que ela apoiou os braços em meu peito e sussurrava em meu ouvido – Só saia daqui caso você me escutar gritando, ok? – ela olhou em meus olhos.
– O que está acontecendo? – sussurrei.
– Apenas me obedeça. – ela falou baixo e eu assenti com a cabeça.
Vi a Tenente-Coronel se afastando de mim, tirando a arma da calça dela e com cuidado ela andava para trás da árvore em que eu estava, até que a perdi do campo de visão. Esperei. Esperei e esperei. Nenhum grito, nada. Até que de repente escutei um barulho alto como se algum corpo estivesse caído ao chão, pude ouvir algumas respirações pesadas e finalmente o grito da Tenente-Coronel.
– Ah! – ela gritou de dor, e resolvi sair da árvore onde eu estava já pegando a arma que estava em minha calça.
A cena que vi me fez entender o porquê de ela ter pedido para que eu ficasse quieto àquela hora, o porquê eu devia estar preparado. Jenna estava sentada em cima de um homem qualquer que se debatia enquanto a Tenente-Coronel tentava imobilizá-lo. Aproximei-me o mais depressa possível dela e pude vê-la batendo com a arma na cabeça do indivíduo que desmaiou na hora.
– Mas o que… – comecei a perguntar.
– Fique quieto! Pode haver outros! – ela olhava para todos os lados – Venha aqui, Sparks. – fui e me agachei ao lado dela – Imobilize-o antes que ele acorde, eu vou verificar se tem mais deles por aqui. – ela se levantou.
– Jenna! Melhor eu ir! – notei que foi a primeira vez que a chamei pelo primeiro nome sem ser em meus pensamentos, ela também notou, mas ignorou o fato.
– Faça o que eu pedi! – ela advertiu e começou a vasculhar o lugar.
Arranquei um pedaço de minha camiseta com a faca, de forma que ficou uma tira de tecido e amarrei os pulsos do ser a minha frente, fiz a mesma coisa com os pés. Revistei-o à procura de alguma arma, achei uma pistola e uma faca, imediatamente peguei e coloquei em meus bolsos. Jenna já estava voltando.
– Parece que ele está sozinho. Vamos voltar para a base imediatamente! – ela disse e eu peguei o soldado desacordado e refiz o caminho junto com Jenna até a base.
Chegando lá, Jack nos avistou e foi ao nosso encontro no campo.
– Onde você estava… – ele começou a pergunta direcionada à Jenna, mas logo que me viu mudou o assunto – O que é isso?
– Chame o Coronel, agora! – Jenna disse e Jack saiu correndo em busca do Coronel – Venha comigo, Sparks! – ela pediu e mais uma vez eu a segui. Fomos até um lugar no quartel general um tanto isolado como uma sala de interrogatórios e já tinha uma ideia do que estava para acontecer – Largue-o nessa cadeira amarrado. – ela pediu e eu coloquei o soldado desacordado na tal cadeira e saí do local.
Minutos depois Jack apareceu com o Coronel ao seu lado.
– Que história é essa de espião? – O Coronel parecia indignado, bom, todos estavam.
– Avistei algo na floresta enquanto conversa com Sparks fora do refeitório, achei que era um bicho, mas ai eu vi a cabeça de uma pessoa, pedi para que Sparks fosse comigo até o armário de armas e entramos na floresta em silêncio para capturá-lo. – Jenna dizia na maior calma do mundo, como se aquilo fosse da rotina dela.
– Havia mais? – Jack perguntou.
– Não. Bom, pelo menos eu não achei. De todo jeito, precisamos tomar providencias e começaremos com o interrogatório. – Jenna disse a última palavra como se aquilo não fosse ser bom para o espião.
– Você ou eu? – Jack perguntava para a Tenente-Coronel.
– Você vai primeiro, se não der certo, eu vou. – ela disse com firmeza e eu senti um pouco de pena do soldado que estava dentro daquela sala desacordado, algo me dizia que era melhor ele colaborar com Jack.
– Ok. – Jack disse e entrou na sala.
Eu ia me dirigindo para a saída do local, quando senti alguém puxando meu braço.
– Fique, Harry. – Jenna pediu para que eu ficasse, e eu fiquei surpreso de mais uma vez escutar meu primeiro nome saindo da boca dela.
– Tudo bem. – respondi com um sorriso no rosto.
