Capítulo 12

Interrogatório

Jenna

Fiquei ao lado de fora da sala de interrogatório junto com Harry e meu pai. Jack era tão passivo para interrogar uma pessoa que quase não se escutava a voz dele atrás da porta. Comigo já era diferente.

– Filha… – meu pai começou a dizer – Digo, Tenente-Coronel… – ele se corrigiu quando viu que Harry estava olhando – Tenho que avisar as outras bases…

– Tudo bem, Coronel. – eu respondi.

– Você vai ficar bem? – ele me perguntou e olhei para Harry.

– Sim, Coronel. A pior parte já passou que foi capturá-lo, pode deixar que do resto eu cuido.

– Não pegue pesado… – ele respondeu e se retirou do lugar.

Fiquei encostada na parede olhando para Harry que olhava para o chão. Sua farda estava aberta e pude ver sua camiseta rasgada até a altura do umbigo, quem visse de longe acharia que ele havia acabado de retornar do campo de batalha. Não consegui abafar a risada e Sparks percebeu. Ele voltou seu olhar para mim.

– Algo errado, Tenente-Coronel? – ele me olhava nos olhos.

– Não… – devolvi o olhar – Obrigada por me ajudar, Harry.

– Disponha… – ele respondeu com um pequeno, porém simbólico sorriso no rosto – Se me permite perguntar…

Jack saiu da sala impedindo que Harry terminasse a frase.

– Não funcionou, não é? – perguntei para o Capitão e ele balançou a cabeça negativamente – Quantas vezes eu tenho que dizer para você que você tem que ameaçá-lo? Ou aquele primeiro treino da semana não serviu de nada, Jack?

– Você sabe que eu não consigo… – ele respondeu emburrado.

– Venha comigo, e assista como é um interrogatório de verdade. – disse – Harry! – o soldado olhou para mim e Jack me encarou como se eu tivesse acabado de pronunciar o nome de Hitler – Fique aqui fora caso meu pai volte. – ele assentiu com a cabeça e eu entrei na sala com Jack.

Loiro, dos olhos azuis. O típico alemão. Entrei na sala e Jack fechou a porta e ficou encostado na parede logo atrás de mim. Comecei a andar ao redor da cadeira que aquele nazista estava sentado e ele acompanhava meu andar com os olhos.

– Sei o que está passando pela sua cabeça. – comecei a falar e pude ver ele me olhando nos olhos, pelo jeito ele entendia minha língua – “Uma mulher?” É essa pergunta que você está pensando, não é mesmo? – ele não respondeu e eu fui para frente do soldado – Acredite soldado, teria sido bem melhor se você tivesse colaborado com o Capitão. Como se chama? – ele não respondeu e abaixou a cabeça, segurei em seu queixo de uma maneira nada delicada – Eu te fiz uma pergunta. – o forcei a olhar para mim – Como se chama?!

– Por que quer saber meu nome se depois que você não conseguir tirar nada de mim vai me matar? – ousado, ele era muito ousado. Um soldado ousado com sotaque.

– Gosto de saber os nomes dos soldados para que depois possamos avisar a família sobre o paradeiro dele. – respondi seca – Então loirinho, vai me dizer seu nome ou terei que forçá-lo a falar? – ele riu maliciosamente.

– Gostaria de saber como você vai me forçar a dizer meu nome… – ele me olhou de cima a baixo focando seu olhar em meus seios e coxas. Na mesma hora dei um tapa em seu rosto com quase força total, aqueles tapas ardidos que a mão fica marcada por muito tempo.

– Isso é só o começo. Se não colaborar e parar com essas gracinhas, os tapas só tendem a piorar! – Pude escutar uma risada abafada de Jack atrás de mim – Vou perguntar mais uma vez: como se chama? – ele não respondeu – Capitão, tire a farda dele. – Jack me olhou curioso e o soldado fez o mesmo – Ande logo! – Jack começou a se aproximar do nazista.

– Digo meu nome se você disser o seu. – o loiro disse por fim.

– Tudo que precisa saber a meu respeito é que sou a Tenente-Coronel desse batalhão e serei seu pior pesadelo se não colaborar comigo! Agora, diga seu nome!

– Franz. – ele disse e eu fiquei olhando para ver se ele não estava mentindo, mas se estivesse não ia ter problema, de todo jeito ele iria morrer.

– Franz… – repeti – Vejo que está colaborando, Capitão tire a farda dele. – Jack me olhava ainda confuso, mas fez o que eu pedi. Assim que ele tirou a parte de cima da farda do nazista fiz a mesma coisa que ele fez comigo, o olhei de cima a baixo, deixando Jack um tanto vermelho.

– Quer dizer que eu não posso fazer isso com você, mas você pode me secar de cima a baixo? – Franz dizia erguendo uma sobrancelha.

– Quem faz as perguntas aqui sou eu. – disse seca e me dirigi até um dos armários que ficava no canto da sala.

Abri uma das portas e fiquei analisando os equipamentos que tínhamos guardado naquele local. Aparelhos para dar choque, porretes, cordas, nada muito útil, resolvi ficar com meu material de costume. Caminhei até o espião e fiquei analisando o porte físico do alemão. Ele era forte, bonito também. Ora não me julguem, não é só porque ele é meu inimigo que eu devo olhar para o corpo estrutural dele com nojo.

– Vai ficar me olhando desse jeito? Essa é sua técnica de tortura? – Franz voltou a falar e olhei para ele com fúria nos olhos.

– Tinha mais alguém com você? – perguntei.

– Eu estava achando que você ia começar com a pergunta clássica: o que você estava fazendo perto da base militar? – ele tentou imitar minha voz, com certo tom de zombaria. Dei outro tapa nele – Só sabe dar esses tapinhas? – ele já estava me estressando com tanta ousadia!

– Sabe Franz, mudei de ideia. Não vou te matar. – eu disse tentando controlar minha vontade de rasgar a garganta dele com a faca que tinha em minha bota.

– Nossa, fico lisonjeado! – ele fingiu comoção.

– Vou deixar você vivo, porém com muita dor. – disse olhando-o nos olhos.

– Se a dor que você se refere é a dor dos seus tapinhas… – Peguei rapidamente minha faca que estava em minha bota e fiz um pequeno (grande) corte em seu braço. Ele gritou de dor.

– Vai continuar com suas piadinhas? – perguntei ameaçando passar a faca em seu outro braço – Sugiro que pare ou seu corpo todo será tatuado! Capitão tire a parte de baixo da farda dele! – pedi para Jack que não se mexeu – Agora, Capitão! – Jack se dirigiu perto do soldado.

– Você é muito “pau-mandado” vai deixar que uma mulher lhe dê às ordens? – o soldado falava para Jack. O Capitão por sua vez deu um soco forte no rosto do nazista e voltou a tirar a calça do alemão.

– Quais são os seus planos vindo até aqui? – perguntei para aquele ser que estava apenas com a roupa íntima no corpo.

– Espionagem. – ele disse com calma.

– Você foi o primeiro? Têm mais quantos com você? – eu perguntava rapidamente e com raiva.

– Acha mesmo que eu vou falar? Você vai acabar me matando, mas eu não revelarei mais nada para você!

– Veremos. – disse fingindo paciência.

Harry

Já havia passado umas duas horas que Jenna e Jack estavam naquela sala. De início só consegui escutar as perguntas da Tenente-Coronel, mas algum tempo depois escutei gritos de dor do nazista e esses gritos só se intensificaram com o passar das horas. Jenna estava certa quando disse para Jack que com ela eram diferentes os interrogatórios. Não imaginava o que podia estar acontecendo naquela sala. Ok, eu imaginava uma porção de coisas.

De repente um momento de silêncio e pude escutar a voz da Tenente-Coronel.

– E aí? O que vai ser? Vai colaborar ou não?

– Te vejo no inferno, vadia! – o soldado disse.

– Pode ter a certeza de que o inferno é bem melhor do que aqui, loirinho! Como eu disse, vou te deixar vivo para que você retorne para sua terrinha e diga ao seu amado Hitler, ou melhor, mostre ao seu líder o que acontece quando se invade a minha base militar! – escutei um grito do soldado e logo depois o silêncio voltou para aquela sala.

Esperei mais um pouco e a porta da sala se abriu. Jenna e Jack saíram de lá juntos.

– Ah eu odeio isso, agora terei que tomar outro banho e essas manchas de sangue não vão sair facilmente! – Jenna disse e saiu do local em que estávamos seguindo o caminho que dava para seu quarto. Fiquei observando com o olhar meio assustado. A Tenente-Coronel tinha sangue espalhado na roupa e em suas mãos.

– Ainda vai querer conquistá-la, soldado? – escutei Jack dizendo e abafando o riso e me virei para encará-lo.

– Ela o matou? – me vi perguntando e olhando para a porta da sala que estava fechada.

– Não. Ele está vivo, por enquanto, vai sobreviver mais alguns meses se não sofrer hemorragias nos ferimentos. – Jack disse tranquilamente e engoli em seco.

– Ferimentos? – repeti a última palavra pronunciada pelo Capitão que soltou uma risadinha.

– Um conselho para você Sparks, se for persistir nessa sua ideia de conquistar minha Tenente-Coronel… – ele intensificou o pronome possessivo – Tenha a certeza de que se você a magoar… Bom, ela irá te “castrar”. – e olhou para minhas calças, engoli em seco mais uma vez.

Jenna não havia feito isso, havia? Quero dizer, ela literalmente castrou o nazista? Não, não. Acho que Jack estava só de brincadeira comigo para ver se eu iria desistir de conquistar Jen. Mesmo assim não evitei minha pergunta.

– Ela… Realmente… – estava tentando achar a melhor maneira de falar aquilo.

– Não, Sparks. Ela fica meio atordoada só de ver um ferimento qualquer, você acha mesmo que ela seria capaz disso? – ele ria – Foram apenas alguns cortes que com toda a certeza irão arder mais tarde, se é que já não estão ardendo agora. – Ok. Cortes. Mas ele não especificou aonde foram esses cortes. Sim, eu estava curioso e acho que Jack percebeu – E sim, foram em todas as partes do corpo do soldado, alguns profundos, outros apenas para arder.

Muito bem, só de pensar que a Tenente-Coronel despiu o nazista para fazer os cortes já me deixou vermelho. De raiva, que fique bem claro! Respirei fundo e engoli em seco mais uma vez.

– O que vocês vão fazer com ele agora?

– Jenna ainda não decidiu, provavelmente vai segurá-lo aqui na base por mais algum tempo e depois mandá-lo de volta para Alemanha. – Jack disse calmo, como se aquilo fosse normal – De todo jeito, mesmo não gostando de admitir, eu sou grato a você por estar perto da Tenente-Coronel naquela hora, acredito que se você não estivesse lá, ela não iria pedir ajuda a ninguém e enfrentaria o nazista sozinha, e isso não seria bom, então, obrigado. – ele estendeu a mão para me cumprimentar como forma de agradecimento.

– Só estava com ela porque ela saiu do refeitório cabisbaixa. – disse apertando a mão do Capitão.

– Jenna estava no refeitório? Que horas? – Ele não tinha percebido a presença dela no refeitório? Vejo que a outra Tenente-Coronel está distraindo o Capitão. Tinha que agradecê-la depois.

– Sim, ela saiu sem comer porque… Bem, porque ela nos viu rindo e nos divertindo com Antoniett…

– Ela te falou isso? – Jack estava indignado, acho que ele não acreditava que tinha de fato ignorado Jenna.

– Não diretamente, mas eu percebi… Por isso a segui para conversar com ela e foi aí que ela avistou o espião.

– Eu sou um idiota mesmo… – Jack disse baixo, mas eu consegui escutá-lo – De todo jeito… – agora ele falava alto – Obrigado mais uma vez, Sparks. – dizendo isso ele saiu do local.

Ótimo. O que eu iria fazer agora? Ficar de vigia para que o nazista não saísse de lá? Será que o Coronel iria voltar? O Capitão iria voltar? A Tenente-Coronel iria voltar? Não acredito que me largaram plantado. O jeito era esperar.

Capítulo 13