Lembranças
Jenna
Entrei em meu novo quarto, decidida a tomar um banho demorado para tirar aquele sangue todo de minhas mãos.
– Ah meu Deus, Tenente-Coronel! O que aconteceu? – esqueci que aquele ser ainda existia, e o sotaque dela também.
– Capturamos um espião. – respirei fundo para falar, mas meu tom era de impaciência – Fizemos o interrogatório e estamos aguardando ordens do Coronel, para resolvermos o que vamos fazer com ele.
Disse isso e entrei rapidamente no banheiro, não estava a fim de responder a mais nenhuma pergunta da francesa. Comecei a lavar minhas mãos para tirar o excesso de sangue, feito isso tirei minha farda e me encarei no espelho, eu estava acabada, precisava dormir, mas então lembrei do estado que o soldado Sparks estava e… Como pude me esquecer do soldado? Vesti minha farda novamente e saí do banheiro passando rápido por Antoniett e seguindo em direção ao local que fizemos o interrogatório.
Jack com certeza não iria ficar lá com ele, não sei por que Jack não gosta de Sparks, ele é um rapaz gentil, preocupado e muito dedicado. Cheguei até o local. Eu estava certa, Jack deixou Harry sozinho. Ele estava encostado na parede sentado no chão com a cabeça baixa.
– O senhor pode retornar ao seu dormitório, Sparks. – disse e ele levantou a cabeça para me olhar nos olhos.
– Se a Tenente-Coronel quiser eu fico de vigia.
– Não será necessário soldado, o senhor deve descansar para os treinos de Antoniett amanhã. – disse recuperando o fôlego.
– Não se dorme na guerra, Tenente-Coronel. Além do mais, eu não me importo, posso ficar de vigia. – ele era insistente.
Percebi que ele realmente iria ficar a noite toda encostado naquela parede. Aproximei-me dele e sentei ao lado de Harry.
– O que está fazendo? – ele perguntou depois que me sentei com dificuldades.
– Sentando. – disse o óbvio.
– Eu percebi, estou perguntando o porquê disso?
– Ora, você se recusa a ir para seu dormitório para ficar de vigia, sendo que esse é meu trabalho, então eu irei ficar de vigia com você. – sorri para ele e me ajeitei no chão.
– Tenente-Coronel a senhorita precisa descansar, foi um dia exaustivo…
– Não se dorme na guerra, Soldado. – interrompi-o dizendo a mesma frase que ele disse para mim e sorrindo. Harry ficou me olhando nos olhos.
– Você deveria sorrir mais… – ele disse baixo e desviando seu olhar do meu.
– O que disse? – perguntei só para me certificar.
– Nada… – ele olhou para a paisagem logo à frente.
– Jack me disse isso uma vez… – encarei para onde Harry olhava e pude perceber que ele virou o rosto para me olhar novamente assim que descobriu que eu escutei o que ele disse.
– Pelo menos nisso nós concordamos… – ele disse pensativo.
– Por que vocês dois se odeiam? – perguntei e encarei Harry que me encarava também – Mal se conhecem e já se odeiam, parecem eu e Antoniett, mas eu tenho meus motivos plausíveis…
– Não nos odiamos… É só que é… Complicado… – ele se enrolou para falar – Antoniett é uma pessoa divertida, a senhorita devia dar uma chance para ela… – não mesmo.
– Ela veio me substituir, esse é meu motivo para odiá-la, mas o seu eu não entendo, muito menos o de Jack. – fiquei séria.
– É complicado… – e eu não tinha acabado de nascer se era aquilo que ele achava.
– Quando Jack chegou aqui no batalhão, ele também agia como você, digo, me tratava com carinho, respeito, era o mais esforçado dos soldados. Ele conquistou minha confiança no primeiro dia, assim como você. – Não olhava mais para Harry, mas eu sabia que ele me olhava.
– Quer dizer que…
– Jack foi escolhido por meu pai para ser o Capitão do Batalhão… – respirei fundo – A meu pedido. Eu não queria que ele fosse para o campo de batalha e morresse, ou voltasse ferido. Pedi para meu pai que o nomeasse Capitão, pois ele era o único que me tratava bem, que me fazia sentir como se não existisse guerra alguma. O tornando Capitão, ele ficaria na base para ajudar nos treinos dos outros soldados e não iria para a “terra de ninguém”. Meu pai só aceitou porque ele viu que eu precisava de um amigo nesse lugar.
– Jack sabe disso? – Harry perguntou.
– Não. Ele acredita que meu pai o tornou Capitão porque ele foi muito eficiente… O que não deixa de ser verdade, mas a essa hora ele estaria morto ou se recuperando dos ferimentos do campo de batalha se eu não tivesse implorado a meu pai que o deixasse ficar… – olhei para Harry – Por favor, não conte a ele.
– Não irei contar nada, Tenente-Coronel, minha boca é um túmulo.
– E não precisa. – me virei para ver o dono daquela voz, apesar de já saber quem era.
– Jack… – pude vê-lo saindo do local em que estávamos com passos pesados – Jack! Espera! – me senti como ele quando tentou conversar comigo no corredor, me levantei com dificuldade – Jack! – ele não parava e andava depressa – Se continuar andando rápido desse jeito eu terei que correr! E se meus pontos abrirem de novo, mais uma vez a culpa será sua! – ele parou no meio do caminho e eu parei também, ele começou a se virar para mim e… Droga. Ele estava chorando – Jack… – senti meus olhos se enchendo de lágrimas e ele se aproximava de mim.
– É verdade aquilo? – ele dizia já bem próximo deixando algumas lágrimas caírem de seus olhos.
– Por favor, entenda… – eu não conseguia falar por conta do choro – Eu não queria… Que você fosse para o campo de batalha… Não queria que você… Morresse… – Jack me abraçou.
No primeiro momento eu não tive reação, mas logo em seguida retribui ao abraço. Os braços de Jack me envolviam como se caso ele me largasse ele morreria. E eu sentia a mesma coisa. Ninguém dizia uma só palavra, mas aquele abraço já traduzia tudo o que queríamos dizer.
– Pequena, você fez isso por mim? – Jack disse ainda me abraçando.
– Na verdade, Jack… Foi por mim, para que você ficasse comigo, para que eu não ficasse sozinha… – nós ainda chorávamos.
– Isso é errado, pequena… Você sabe disso…
– Não… Jack… – ele afastou do abraço – O que vai fazer?
– Vou fazer o que tem que ser feito. – ele estava sério apesar do choro.
– Não, Jack! Por favor, não faça isso! – ele começou a andar, mas segurei em seu braço – Por favor… – estava implorando – Não peça para ser rebaixado! Por favor, não faça isso comigo! Se você é Capitão hoje é porque você mereceu!
– Não foi o que você disse para ele! – ele apontou logo atrás de mim e eu me virei para encarar Harry – Vai nomeá-lo Capitão também? – Jack dizia com raiva e chorava.
– Jack… Me escuta… – ele tentava andar, mas eu ainda o segurava pelo braço.
– Eu já escutei o bastante, pequena. Agora vou desfazer o que você fez.
– Você poderia me escutar só por cinco minutos?! – gritei – Cinco minutos… – abaixei a cabeça. Jack nada disse, resolvi começar a falar antes que ele tentasse sair de lá de novo – Independentemente de eu ter pedido ou não para que meu pai o nomeasse Capitão, você receberia esse título de qualquer jeito, cedo ou tarde… Meu pai mesmo já estava avaliando a ideia, ele me falou antes de eu pedir que ele fizesse isso. Era questão de dias até que você se tornasse Capitão, eu só quis adiantar o processo, antes que meu pai mudasse de ideia… E te mandasse para a guerra.
– Mas, pequena… – Jack começou a dizer.
– Capitão Jack Forlan… Esse seu título é muito mais que merecido! – olhei em seus olhos – Não, desfaça isso, por favor… – Jack me envolveu em seus braços de novo – Eu prometo que fico na cama o dia todo até meu ferimento cicatrizar, eu prometo que te obedecerei, mas não peça para ser rebaixado a soldado, não me deixe sozinha aqui… – eu implorava, não poderia perder meu melhor amigo.
– Por você… Eu não irei te abandonar. Se o que me disse é verdade, não irei mais desfazer nada, porém, a senhorita terá que cumprir sua promessa… – ele esboçou um sorriso.
– Eu cumpro! Começando agora! Vamos, uma cama me espera agora e para o resto da semana até meu ferimento cicatrizar! – comecei a andar em direção ao quarto puxando Jack pelo braço.
– Ei… Pequena, calma… – ele ria apesar das lágrimas – Só assim para você obedecer minhas restrições médicas, não é? – parei para observá-lo.
– Só, por favor, não use mais isso como chantagem, me prometa que você vai continuar sendo meu Capitão?
Jack
MEU. Pronome possessivo. Fica ainda mais perfeito se pronunciado com intensidade pela boca mais perfeita desse mundo.
– Promete pra mim? – ela repetiu.
Só consegui olhá-la profundamente nos olhos. Aqueles olhos inchados e vermelhos por conta das lágrimas anteriormente derramadas. Aqueles olhos que brilhavam na esperança de minha resposta. Eu poderia ficar a noite toda ali apenas olhando naqueles olhos.
– Responda, Jack! – ela estava impaciente e isso me fez voltar à realidade.
– Prometo. – disse e vi Jenna abrir um sorriso maravilhoso naquele rosto lindo o que me fez sorrir também. Ah, como eu queria beijá-la naquele instante! Era tudo o que eu mais queria nesse mundo! Mas era melhor não agir por impulso, naquele momento Jenna me considerava seu melhor amigo, acho que mais um pouco e já poderia mudar nosso relacionamento.
– Então… Vamos! Tenho que repousar! – ela disse decidida, mas ao mesmo tempo como se fosse uma criança, eu devia estar com o sorriso mais bobo desse mundo, porque ela reparou.
– O que foi, Jack?
– Nada… – disse balançando a cabeça – Vamos. – comecei a caminhar do lado dela, mas ela parou de repente.
– Não. Ah meu Deus, esqueci do Harry! – uma faca imaginária atingiu meu peito quando ela pronunciou o primeiro nome do soldado, ela começou a refazer o caminho seguindo em direção a ele – Jack… – ela parou – Você poderia ficar com Sparks na vigia hoje? Eu ficaria, mas sei que você não vai deixar…
– Eu fico… – disse e o sorriso dela voltou ao rosto.
– Então vá para lá! – ela ordenou – Não se preocupe, Capitão, eu irei para meus aposentos, deitarei na minha cama e dormirei como nunca, ok? – ela disse sorrindo. Acho que já falei que amo o sorriso dela, não é?
– Está bem… – disse relaxando os ombros – Quero que descanse, durma bem, certo? – ela assentiu com a cabeça, não resisti e dei um beijo em sua testa, achei que ela fosse reclamar ou me bater, mas ela apenas ficou na ponta dos pés e me deu um beijo na bochecha. Um beijo. Na bochecha. O mundo poderia acabar naquele instante que eu morreria feliz!
Pude observá-la indo para o quarto dela, assim que ela sumiu do meu campo de visão me dirigi até onde Sparks estava.
– Já pode voltar para seu dormitório Capitão, ela não vai perceber. – ele disse calmo, por que ele estava calmo?
– Prometi para ela que ficaria, vou cumprir com minha promessa, Sparks. – disse autoritário.
– Sei que o senhor não está nem um pouco a fim de ficar a noite toda aqui comigo, na verdade, você nunca gosta de ficar junto a minha pessoa, não se preocupe, caso ela apareça de manhã cedo, o que eu não acho que vá acontecer já que ela realmente pareceu bem preocupada em você abandoná-la, eu digo que o senhor resolveu ir mais cedo tomar café, ou que tinha que fazer algum relatório… – estava quase aceitando a proposta dele, afinal de contas, não estava a fim de ficar com o cara que queria roubar minha Tenente-Coronel.
– Primeiramente Sparks, não se engana Jenna Miller, segundo, eu fiz uma promessa a ela e irei cumprir, acho que você deveria pensar nisso antes de voltar com sua ideia de querer roubá-la de mim. – olhei-o nos olhos o intimando.
– Para eu roubá-la de você, ela antes precisaria ser sua, como ela não é nada além de sua melhor amiga não terá nenhum problema, caso ela fique comigo. – ele estava brincando com fogo!
– Por algum acaso o senhor prestou atenção no desespero dela quando eu disse que iria pedir para me rebaixar a soldado? O senhor notou quando ela intensificou o pronome possessivo ao falar meu Capitão? – também intensifiquei o pronome.
– Sim, eu notei. – ele dizia sorrindo, por que ele estava sorrindo? Será que ele tinha algum plano? – Acredito que o senhor não estava aqui no início da conversa, quando ela mencionou que o senhor conquistou a confiança dela no primeiro dia que veio para cá… – ele parou um pouco antes de falar algo que me deu vontade de matá-lo – assim como eu, ora não me olhe com essa expressão, essas palavras saíram da boca da Tenente-Coronel.
– Você não tem noção do perigo, soldado. – foi a única coisa que consegui dizer.
– O senhor diz que a ama, mas nem se quer se importou em checar se ela havia ido ao refeitório, se ela estava bem. Não se importou em querer saber o que aconteceu para deixá-la cabisbaixa. – ele estava falando as mais claras verdades, mas eu não queria admitir aquilo, seria como admitir que eu fingi que Jenna não existia no jantar – Eu a observo muito Capitão Forlan, sei dizer quando ela não está bem, quando ela está com ciúmes, quando ela está com raiva e olha que eu só a conheço pessoalmente não tem nem quatro dias! E o senhor que já a conhece há mais tempo, bem mais tempo que do eu, não se importou em procurar saber do estado emocional dela. De como aquela maldita bala perdida na perna dela está afetando seus pensamentos. – ele parou para respirar – Minhas chances com ela podem ser nulas, afinal, ela te ama… Mas eu não irei desistir, tenho a esperança de que esse amor que ela sente por você seja apenas de amizade. – ele começou a caminhar na direção dos dormitórios.
– Aonde o senhor vai? – perguntei pensando em tudo o que ele havia falado.
– Trocar a farda para continuar na vigia Capitão, se me permite. – apenas assenti com a cabeça e o vi se afastando de mim.
Tudo o que ele havia falado era verdade, eu não observava Jenna como ele, mas nunca é tarde para começar, certo? Agora, sobre o que ele falou de ela me amar… Seria verdade? E se fosse, seria como amizade, como Sparks tem a esperança de que seja, ou seria o amor de duas pessoas que não conseguem viver sem o outro, assim como eu sinto por ela?
