Você não vai sem mim
Jenna
Acordei com um barulho de alguma coisa caindo no chão.
– Perdão, Tenente-Coronel… Sou muito desastrada, não queria te acordar. – Antoniett dizia enquanto pegava uma caixa de madeira que estava no chão.
Meu cansaço era tanto que eu só consegui olhar o relógio e ver que eram 4h50 da madrugada. Jack havia me feito prometer que eu iria ficar repousando até meu ferimento cicatrizar por completo, então virei de lado e voltei a dormir. Sabia que não devia estar fazendo aquilo, afinal, não se dorme na guerra, mas e se eu levantasse junto com Antoniett para começar os treinos junto com ela e Jack resolvesse me punir se rebaixando a soldado e indo para o campo de batalha? Eu sei que ele me prometeu que não iria fazer aquilo, mas eu também já prometi muitas coisas para ele e acabei não cumprindo, por isso continuei na cama.
– Tenente-Coronel Miller! – uma voz me chamava e eu não sabia se era no meu sonho ou se era de verdade – Sei que você tem que repousar, mas não precisa imitar um urso e hibernar! Vamos pequena, acorde!
Abri os olhos lentamente querendo matar o ser que estava me acordando.
– Jack? – perguntei sonolenta.
– Em carne, osso e impaciente. – Jack disse – Finalmente! Achei que tinha morrido, mas que sono pesado que você tem, viu?
– Bom dia para você também… – me ouvi dizendo e esboçando um sorriso.
– Bom dia? Pequena, são duas horas da tarde…
– O que?! – pulei da cama praticamente, e comecei a andar pelo quarto em busca da minha farda, foi quando olhei para o lado e vi meu pijama pendurado na porta do banheiro. Espera um pouco, se meu pijama estava lá… Com o que eu tinha ido dormir na noite passada? Voltei a olhar Jack que olhava para a janela, olhei para meu corpo e percebi que estava apenas com as roupas íntimas – AH! – gritei e corri para o banheiro e me tranquei lá dentro – Primeiro: por que você não me acordou antes? Segundo: você não viu nada, não é?
– Quis deixar você dormir mais um pouco pequena, eu vim aqui mais cedo, mas você dormia tão tranquila que eu não tive coragem de te acordar… Não vi nada pequena, não se preocupe, mas se me permite perguntar… Por que dormiu sem o pijama?
Eu nunca mais iria sair daquele banheiro! Por que eu dormi sem o pijama? Porque… O que aconteceu mesmo?
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“Dei uma última olhada para trás e pude ver que Jack já estava ao lado de Harry. Ao invés de ir para meu quarto, fui para o refeitório, obviamente não havia ninguém lá, todos já estavam em seus dormitórios uma hora daquelas. Entrei na cozinha e abri um armário onde havia uma coisa que eu precisa já havia um tempo. Peguei a primeira garrafa que vi. Qualquer coisa alcoólica naquela hora serviria. Eu estava exausta, havia acabado de interrogar um nazista que invadiu minha base militar, havia acabado de quase fazer com que Jack se rebaixasse a soldado e me abandonasse, sem contar na aparição de Antoniett para me substituir, naquele nojento do soldado Chill e seu amiguinho. Eram tantos problemas e a solução para que eles sumissem por algumas horas estava ali em minhas mãos.
Não pensei mais que uma vez e abri aquela garrafa e bebi como se fosse água. Fiquei mais um tempo naquela cozinha. Não me lembro exatamente o que aconteceu depois, mas alguns flashes me aparecem na mente de eu jogando a garrafa fora, indo cambaleando para meu dormitório, Antoniett falando alguma coisa do tipo: Você está bêbada, Tenente-Coronel? E eu apenas a ignorando. Lembro-me de ter tirado minha farda e do mesmo jeito que caí na cama fiquei. Acho que Antoniett teve o bom senso de me cobrir, menos mal.”
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Se Jack descobrisse que eu havia me embebedado acho que ele me mataria. Primeiro que eu não posso tomar bebidas alcoólicas porque estou tomando remédios para cicatrizar meu ferimento, segundo porque Jack odeia quando eu bebo, segundo ele, meninas não devem se acabar na bebida.
Jack
Nossa… Sabia que ela era bem definida por conta dos treinos, mas nunca tive a oportunidade de conferir. Percebi que ela estava sem a parte de cima do pijama quando comecei a chacoalhar Jenna na cama e o cobertor desceu um pouco mostrando seu decote. Depois de longos segundos observando voltei à realidade e a cobri novamente com o cobertor. Comecei a chamá-la pelo nome e ela começou a dar indícios de que iria acordar. Quando falei das horas para ela e ela saiu desesperada da cama, foi aí que eu percebi que ela estava completamente sem o pijama. Confesso que enquanto ela ainda não percebera que estava sem a vestimenta eu reparei um pouco mais do que devia no corpo dela e resolvi olhar para a janela antes que Jenna percebesse e me matasse por aquilo.
Ela se trancou no banheiro e começou a gritar lá de dentro. Perguntei para ela o porquê de ela estar sem o pijama, mas ela ficou em silêncio.
– Jen? – insisti na pergunta.
– Não se pode mais dormir sem pijama, não?! – ela gritou.
Fiquei sem resposta. Algo me dizia que minha Tenente-Coronel havia aprontado alguma coisa na noite passada.
– Está escondendo alguma coisa de mim, Jen? – ela abriu a porta e já estava trocada e com o cabelo preso.
– Capitão Forlan, dormi sem pijama porque eu quis, fim, ponto final, agora vamos! – ela disse autoritária e foi caminhando em direção a porta.
– Onde pensa que vai? – perguntei.
– Ver o nosso hóspede! Se ele ainda está vivo, essas coisas… – ela sorriu.
– Já cuidei dele essa manhã, os ferimentos estão com curativos e o Coronel resolveu que vai mandá-lo de volta para a Alemanha ainda hoje.
– Hum… – ela disse olhando para o chão – Então vamos para os treinos!
– Já esqueceu da promessa que me fez? – o sorriso saiu do rosto dela, me senti um monstro por aquilo, afinal eu estava tirando de Jenna uma coisa que ela adorava fazer.
– Não esqueci Jack, eu só quero observar, você sabe que eu não consigo ficar parada numa cama por muito tempo, eu quero ver se Antoniett está treinando os soldados corretamente. – ela disse quase como uma súplica.
– Não vai ter jeito mesmo de você ficar na cama, não é? – respirei fundo – Tudo bem, mas se você se levantar para fazer qualquer atividade que seja eu te amarro na cadeira com algemas se for necessário. – o sorriso de Jen havia voltado para o rosto dela.
– Anotado, Capitão, só irei observar!
– Toma pelo menos o café da manhã que está mais para um almoço que eu te trouxe… – disse apontando para a bandeja que estava na cômoda ao lado da cama dela, ela revirou os olhos, mas estava sorrindo e foi em direção a bandeja, sentou na cama e começou a comer. Sentei-me ao lado dela.
– Você sabe que eu odeio quando me olham comendo. – ela disse se virando de costas para mim.
– Sparks tinha razão… Você faz caretas enquanto come… – Soltei uma risada e ela se virou mostrando seu olhar assassino para mim – Não está mais aqui quem falou! – disse me desculpando.
– Pronto, vamos! – ela disse limpando a boca com o guardanapo e indo em direção à porta. Levantei-me e a acompanhei.
Jenna
Observar. Era só isso que eu iria fazer. Iria ser tedioso, mas pelo menos era melhor do que ficar na cama olhando para a parede sem fazer nada. Jack me acompanhou até a área dos treinos, os soldados já estavam lá atentos às informações de Antoniett. Jack foi até a tenda e voltou com uma cadeira obviamente para que eu me sentasse. Sem que ele pedisse eu me sentei e fiz sinal para que Antoniett prosseguisse, assim que percebi que todos haviam parado para prestar atenção a minha chegada.
– Iremos fazer uma sequência de exercícios. – a Tenente-Coronel francesa continuou falando – Mira, camuflagem, corrida e depois iremos para o circuito.
– Sim, senhora! – os soldados falaram em uníssono e bateram continência.
– Peguem as armas e vamos começar com a mira! – Antoniett falou e os soldados correram para a tenda para pegar as armas já carregadas.
– Boa tarde, Tenente-Coronel! – uma voz conhecida surgiu ao meu lado.
– Boa tarde, Sparks. – respondi sorrindo.
– Dormiu bem? – ele se preocupava muito comigo, mas agora não era hora para conversas, ele tinha que treinar.
– Sim Sparks, obrigada pela preocupação, agora vá buscar sua arma para treinar. – ele bateu continência e foi para a tenda.
– Ai de você se levantar dessa cadeira, mocinha… – Escutei Jack dizendo e revirei os olhos.
– Se você continuar falando isso aí que eu levanto para te bater. – disse sorrindo – Vá ajudar os soldados! Estou avaliando vocês. – Jack começou a se afastar para ir até a área em que os soldados estavam – Espera! – ele voltou ao meu chamado – Pegue minha prancheta, vou começar a escolher os mais aptos para formar o próximo esquadrão. – Jack assentiu com a cabeça e foi buscar a prancheta, ele me entregou o objeto e foi ajudar a francesa.
Fiquei observando os soldados no primeiro treino da tarde e já adicionei alguns nomes na lista. Fiz o mesmo nos outros treinos, cheguei ao total de dezesseis soldados para montar o esquadrão, fora os que já estavam se recuperando da última ida ao campo de batalha e outros que ficaram uma semana a mais se preparando. Revisei a lista mais uma vez ao final de todos os treinos e de repente foi como se tivesse recebido uma facada no peito. Harry estava na lista, ele era um ótimo soldado, não podia deixar de colocar ele, mas eu não queria. Não queria que ele fosse para lá e morresse, assim como não queria que Jack fosse no ano anterior, não sabia definir o que estava acontecendo comigo, mas tive que levantar e me afastar do soldado assim que vi Sparks se aproximando. Só tinha ele e mais alguns soldados no circuito. Jack tinha ido falar com meu pai e Antoniett havia ido tomar banho.
Levantei-me e fugi de Sparks, não suportaria olhá-lo naquela hora, algo me dizia que se encarasse aqueles brilhantes olhos verdes eu começaria a chorar. Não sabia o motivo. Resolvi entregar minha lista para meu pai. Sparks percebeu que eu não estava a fim de conversa e seguiu para seu dormitório. Estava me aproximando do quartel general quando escuto Jack e meu pai conversando.
– Mas Capitão, você tem certeza disso?
– Sim Coronel, sei que o que ela fez foi para me proteger…
Resolvi escutar a conversa de longe.
– Capitão Forlan, pelo o que o senhor me contou, você prometeu para ela que não se rebaixaria a soldado… – Coronel falava.
– Sim, e não estou pedindo para que o senhor me rebaixe, se ela perceber que eu continuo sendo Capitão, ela não irá desconfiar de nada…
– Até o dia que os soldados forem para a guerra… – meu pai completou a frase – Capitão Forlan, você é muito importante para ela, minha filha não suportaria saber que você está indo para a guerra, muito menos se ficasse sabendo que o senhor tem grandes chances de não voltar de lá.
– Por favor, Coronel, sei que as intenções dela foram boas, mas sinto que não estou cumprindo com meu dever…
– Você pretende falar com ela antes de ir para a guerra?
– Melhor que ela não saiba, pelo menos até a hora que eu estiver aqui ainda, vou me despedir dela, mas sem dar indícios de que estarei partindo, talvez, para sempre…
– O senhor sabe que eu não concordo com isso… Mas discutir não vai adiantar com o senhor, tudo bem, eu não te rebaixarei a soldado e permitirei que você vá para a guerra, mas tenha a certeza de que se o senhor morrer, minha filha irá arranjar um meio de te reviver, só para te matar novamente.
– Irei fazer o possível para ficar vivo! – Jack disse autoritário – Obrigado, Coronel!
Percebi que a conversa já estava no fim. Resolvi que não iria contar a ninguém que havia escutado, mas Jack poderia ter certeza de uma coisa: se ele fosse para a guerra, ele não iria sem mim. Resolvi entrar no quartel como se não tivesse acontecido nada.
– Com licença Coronel, Capitão. – eles pararam de falar na hora – Trouxe a lista de soldados que formarão o próximo esquadrão para a batalha…
– Ah sim! Ia te perguntar isso agora mesmo. – a tensão em meu pai era explícita e em Jack também.
– Aconteceu alguma coisa? – perguntei.
– Não. – os dois disseram em uníssono. Cúmplices!
– Tudo bem então, se me dão licença agora, tenho que fazer alguns relatórios. – eles assentiram com a cabeça e eu saí do local.
