Pré-guerra
Jenna
Obviamente que menti sobre os relatórios, precisava pensar, mas não poderia ser em meu dormitório, teria que ser em um lugar tranquilo, precisava tomar a decisão correta e liberar a angústia que tinha dentro de mim. Olhei para a floresta que cercava a base militar e caminhei discretamente para o único lugar que eu teria sossego por algumas horas.
Aproximei-me da cerca já danificada, olhei para todos os lados para ver se havia sido seguida, me senti uma fugitiva, ou espiã. Assim que me certifiquei de que estava sozinha, passei pela cerca e caminhei mata adentro, certeira de cada passo meu e fui me aproximando do lugar que eu poderia pensar em paz.
Parei de frente para a árvore mais alta, rodeei-a e achei a corda camuflada, exatamente do jeito que eu havia deixado da última vez que estive lá há dois anos. Enrolei a corda nas mãos e com cuidado fui escalando até chegar a minha casa na árvore. Aquele era meu refugio desde pequena, ficava razoavelmente perto de onde eu morava. Na verdade eu ia para lá sempre que acompanhava meu pai na base militar. Às vezes eu ia para aquele lugar para me afastar do mundo, a última vez que estive lá foi pouco antes da II Guerra estourar no mundo. Adentrei a pequena construção de madeira que ficava um pouco escondida pela árvore ser alta e conter uma quantidade absurda de folhas até mesmo no inverno. Claro que dava para ver a construção, mas quando mudei para a base pedi para que meu pai não a demolisse, aquela casa na árvore era especial para mim e ficava a uma distância considerável da base, não tinha risco nenhum.
Meus brinquedos ainda estavam lá, o que significava que ninguém ainda havia descoberto meu refúgio, caminhei mais um pouco naquele pequeno lugar até que parei de frente para uma parede onde eu pendurava minhas fotos. Havia uma bem velhinha de minha mãe e meu pai juntos comigo, uma de alguns amigos que tinha antes da guerra, uma minha quando tinha dezessete anos. Passei a mão nos bolsos de minha farda, os revistando até encontrar o que eu procurava. Retirei a foto do bolso e fiquei observando.
No primeiro treino da semana Jack havia revelado que tinha uma foto minha junto com ele, claro que eu dei uma dura no Capitão, mas o que ele não sabia era que eu também o levava sempre comigo, uma foto dele, minha e dele na verdade, foi logo que nos aproximamos na base militar, foi antes do Ano Novo. Estávamos os dois sorrindo um do lado do outro, com pistolas nas mãos porque havíamos acabado de treinar nossa mira. Fiquei olhando para Jack na foto e não consegui impedir que as lágrimas começassem a sair pelos meus olhos.
Ele havia prometido para mim que não iria para a guerra, como ele teria coragem de me abandonar? Mas se ele estava pensando que ele iria sozinho, ele estava muito enganado. Na sexta feira iria sair o caminhão que levaria os soldados para o campo de batalha, se Jack havia falado a verdade sobre ele querer ir também, ele estará no caminhão junto com Harry e os outros soldados. E eu. Tinha poucos dias para me preparar, para que minha perna estivesse pelo menos 80% recuperada para poder ir à Guerra. Nesse tempo eu iria repousar ao máximo, assim como Jack queria e na sexta feira eu entraria no caminhão rumo ao inferno.
Respirei fundo e enxuguei as lágrimas. Tinha que voltar antes que alguém sentisse minha falta. Olhei mais uma vez para aquele lugar. Não sabia se voltaria a vê-lo mais uma vez, gravei cada detalhe em minha memória, coloquei a foto do Ano Novo junto com as outras, olhei mais uma vez para a parede de fotografias e saí da casa na árvore. Desci pela corda e a camuflei novamente. Voltei para a base militar.
Harry
Algo muito estranho estava acontecendo com a Tenente-Coronel. Tinha quase certeza que meu nome estava na lista de soldados que iriam para a guerra no final da semana, mas aquilo não era motivo para ela me ignorar. Estava saindo do meu dormitório quando a vi passando pelo circuito e indo em direção à cerca onde havíamos passado na noite anterior para capturar o espião. Pelo jeito que ela agia, era como se ela não quisesse ser seguida, ela deu uma última olhada para os lados antes de passar pela cerca e adentrar na floresta. Óbvio que a segui.
Cuidadosamente para que ela não descobrisse minha presença a segui até que a vi parando e olhando para o topo de uma alta árvore no meio da mata. Ela rodeou a árvore em busca de algo que eu descobri que era uma corda, segundos depois ela começou a escalar a mesma até desaparecer na copa da árvore. Não sabia se devia subir também, achei melhor ficar esperando por ela lá embaixo. Ela deve ter ficado lá em cima por uns dez minutos. Quando começou a descer novamente eu tive que ser rápido e me esconder. Percebi que Jenna estava com os olhos inchados. Esperei até que ela sumisse do meu campo de visão e subi na árvore.
Então agora estava tudo explicado porque Jenna já sabia o lugar certo para passar pela cerca na noite anterior, ela havia danificado a cerca. Ela tinha um “forte” só para ela e pelo o que eu via, não era recente. Bonecas espalhadas por todos os lados, bolas e uma parede com fotos. Alguma coisa estava acontecendo para Jenna ter ido para aquele lugar, algo me dizia que aquele era um refúgio para ela e que Jack era o culpado por ela ter ido frequentar aquela casa na árvore justamente naquele dia. De todas as fotos daquela parede, a de Jack e Jenna parecia ser a mais recente. Resolvi voltar para a base antes que escurecesse e eu me perdesse.
Voltei para a base e discretamente passei pela cerca, fui caminhando em direção ao refeitório, já estava na hora do jantar.
– Harry! – Jenna me chamou e eu me virei para olhá-la.
– Pois não, Tenente-Coronel? – será que ela havia me visto saindo da cerca?
– O que fazia fora da base? – sim ela havia me visto, boa Sparks, você é muito discreto.
– Eu… Eu… – eu estava ferrado, essa era a verdade.
– Não conte a ninguém sobre a casa na árvore. – meu Deus ela tinha o dom de saber tudo! Jack estava certo, não se esconde nada de Jenna Miller.
– Sim, senhora. – respondi mais aliviado. Ela olhava em meus olhos e pude perceber que eles estavam se enchendo de lágrimas, o que será que estava acontecendo? – Tenente-Coronel? A senhorita está bem? – de repente ela fez algo inesperado, pulou em meus braços me dando um forte abraço, e claro que eu retribuí.
Minha farda começou a ficar molhada na parte dos ombros por conta das lágrimas que ela derramava. Eu nada disse apenas a segurava em meus braços e passava as mãos em seus cabelos. Senti-a começando a se afastar e por mais que eu não quisesse, tive que liberá-la.
– Desculpe-me. – ela disse enxugando as lágrimas.
– Está tudo bem, Tenente-Coronel…
– Não conte nada sobre…
– Não irei contar. – a interrompi – Se a senhorita quiser falar sobre…
– Jenna. – dessa vez foi ela quem me interrompeu – Pode me chamar pelo meu nome, Harry… – ela esboçou o sorriso de Monalisa.
– Vai demorar um pouco para eu me acostumar com essa liberdade de te chamar pelo nome… – disse sorrindo.
– Eu sei. – ela olhou ao redor da área na qual estávamos – Me acompanha até o refeitório? – assenti com a cabeça e fomos caminhando para o refeitório.
Não falamos nada no caminho, chegando ao local, Jenna pegou sua refeição e se dirigiu a sua mesa de sempre, resolvi segui-la. Sentei-me na frente dela e ia começar a falar quando fui interrompido.
– Boa noite! Atrapalho? – Jack estragou o momento, percebi que Jenna ficou um pouco desconfortável com a presença dele, mas logo se endireitou e olhou para o Capitão.
Jenna
– Jack! Claro que não! Sente-se conosco! – ok, eu tinha que disfarçar, mas eu não sei disfarçar, com certeza os dois perceberam que eu agi estranhamente.
– O que aconteceu? – Jack perguntou um pouco receoso – Isso faz parte da TPM?
– Bipolaridade… – Harry disse baixinho, mas eu escutei e olhei para ele – Desculpe-me…
– Está tudo bem. Sim, isso faz parte da TPM, sente-se logo antes que o mau-humor volte. – ordenei e Jack se sentou ao meu lado.
– Já contou a novidade para o soldado? – Jack disse e eu fiquei confusa.
– Que novidade? – eu e Harry falamos juntos.
– Sobre o novo esquadrão… – Jack tinha um sorriso no rosto e eu queria socar ele naquela hora.
– Me permitem sentar com vocês? – Antoniett havia surgido do além.
– Fique à vontade! – eu disse e todos se espantaram com minha educação com a Tenente-Coronel francesa – Já estava de saída mesmo. – resolvi agir como a menina imatura novamente e me levantei e saí de perto da mesa, pelo menos eles não desconfiariam de nada.
Estava caminhando perto do circuito quando escuto uma voz.
– Quer conversar sobre o que está acontecendo? – me virei para olhá-lo – Não sou o Capitão Forlan, mas sou um bom ouvinte e algo me diz que a senhorita precisa desabafar, antes que me esqueça, desculpe-me pela intromissão em sua vida pessoal… – ele abaixou a cabeça.
– Jack vai para guerra… – eu disse me sentando com dificuldade atrás de uma tora deslocada do circuito.
– Mas ele prometeu para a senhorita que não iria fazer isso…
– Parece que ele mentiu… – disse e olhei para Harry – Escutei ele falando sobre isso com meu pai mais cedo… – eu não queria chorar, mas estava difícil de segurar.
– Não vai contar para ele que a senhorita sabe?
– Não. Vou fazer pior. – disse e ele me olhou confusa – Você teme a guerra, Harry?
– Quem não teme? – ele disse esboçando um sorriso de consolo.
– Eu não sei direito o que é perder alguém, porque minha mãe morreu quando eu era uma criança… – disse sem perceber que estava me abrindo para Sparks – Os vínculos que criei são poucos, mas são significativos para mim…
– Por que não conversa com ele? – ele perguntou.
– Como se fosse adiantar… – ri sem emoções – As coisas entre eu e Jack não funcionam fácil assim… Somos teimosos…
– Deu para notar… – ele sorriu – O que pretende fazer?
– Nada. – não iria contar meus planos para Harry por mais que ele estivesse se mostrando um bom amigo. Me levantei com dificuldades e me afastei daquele lugar deixando Harry sozinho.
A semana infelizmente passou rápida. Eu acompanhava a todos os treinos de Antoniett e ajudava os soldados escolhidos para o mais novo esquadrão a se prepararem para o grande dia. Conversava com Harry todo dia, ele estava se tornando um ótimo ombro amigo. Jack não dava nenhum indício de que iria me contar a “novidade” dele, mas a gente continuava conversando normalmente, afinal, ele não poderia desconfiar dos meus planos. Apesar de conversar muito mais com Harry nos últimos dias sobre todos os tipos de assuntos, eu não revelei nada para ele que iria junto para a guerra.
Era quinta feira de noite, eu tinha acabado de sair do refeitório e estava caminhando para meu quarto quando Jack me parou no corredor e me puxou rapidamente para um abraço. Tive que segurar minhas lágrimas, pois se chorasse na frente dele ele perceberia que eu sabia que ele iria para a guerra no dia seguinte.
– O que é isso, Jack? – disse tentando disfarçar a voz chorosa.
– Um abraço! – ele disse e eu percebi que a voz dele também estava chorosa.
– Mas eu quero saber o porquê disso a essa hora? – disse me afastando um pouco.
– Não posso mais abraçá-la? – ele disse olhando em meus olhos – Já estava indo dormir? – ele perguntou.
– Sim… – disse.
– Tão cedo? Só quem tem que acordar cedo amanhã são os soldados do esquadrão… – queria tanto que ele me contasse.
– O remédio que estou tomando para a perna está me deixando com sono ultimamente e você mesmo disse que eu tinha que repousar…
– Sim, você deve repousar, só queria te desejar boa noite… – ele acariciou meu rosto.
– Ok, boa noite Capitão, nos vemos amanhã nos treinos! – fiquei olhando para ele esperando que ele falasse a verdade.
– Boa noite, pequena… – ele me abraçou novamente, um abraço forte. Eu sentia que ele não queria me soltar tão cedo, mas ele teve que fazer isso, após me soltar ele me deu um beijo na bochecha e outro no na testa e se afastou de mim até sumir do meu campo de visão. Uma lágrima caiu de meus olhos, mas eu sabia que o veria amanhã.
Fui para meu quarto e aproveitei que Antoniett ainda não havia voltado para escrever uma carta para meu pai, como uma despedida, eu não iria ter coragem de falar com ele antes de partir. Escrevi a carta e coloquei embaixo do meu travesseiro e fui tomar um banho.
Belle
Entrei no quarto, olhei para o banheiro e vi a porta fechada. Jenna devia estar tomando banho. Resolvi esperar sentada na cama dela até ela sair. Quando me sentei na cama o travesseiro dela caiu sem querer e com ele, um papel dobrado. Sabia que nosso acordo era de não tocar em nada que não era nosso, mas não resisti e abri o papel. Era uma carta de despedida para o Coronel.
Não estava acreditando no que eu estava lendo, Jenna iria mesmo para a guerra? Por quê? Será que eu deveria avisar o Coronel? Ou o Capitão Forlan?
Escutei o barulho da torneira fechando e dobrei o papel novamente colocando embaixo do travesseiro e levantando da cama da Tenente-Coronel rapidamente. Jenna abriu a porta já vestida para dormir, me mandou um “boa noite” e deitou-se na cama. Entrei no banheiro para tomar meu banho e naqueles momentos de reflexão decidi que iria para a guerra também, pelo menos para tentar salvá-la.
