Capítulo 17

Déjà vu

Jenna

Parecia que aquele dia nunca iria acabar. Estava exausta. Minha perna doía, meu braço doía, tudo em meu corpo estava dolorido. Mas eu não podia ser fraca novamente. Aguentei até cair desmaiada no meio daquela terra cheia de corpos já sem vida. Não sei quem me tirou de lá, mas quando acordei novamente estava em alguma enfermaria, não sabia exatamente em que lugar do mundo.

Abri os olhos lentamente e tentei me mover só para então perceber que meus ferimentos doíam, mas estavam já com curativos. Virei-me para o lado e vi um par de olhos verdes um tanto inchados olhando para mim e com um leve sorriso em sua boca.

– Por Deus você acordou! – Harry disse com um suspiro de alívio.

– Onde estamos? – me ouvi perguntando com voz fraca.

– De volta à base, Tenente-Coronel. – ele disse.

– Jack… Belle… Onde eles estão? – perguntei novamente ainda atordoada.

– Calma… Eles estão bem. Belle está em outro leito e Jack está conversando com seu pai… – ele disse e passou a mão em meus cabelos – Por que fez aquilo? – ele perguntou um tanto confuso.

– Jack mentiu para mim… Não queria que ele fosse para a guerra, assim como não queria que você fosse… – segurei em sua mão.

– Sparks você já pode voltar para seus afazeres e… Pequena? – Jack entrou devagar na enfermaria e parou de falar assim que me viu acordada.

– Vou deixá-los a sós… Vocês têm muito que conversar… – ele disse levando minha mão até seus lábios e a beijando.

Pude perceber que Jack ficou um tanto vermelho com aquele último gesto de Harry antes de sair da enfermaria. Observei Harry saindo e assim que a porta se fechou voltei a olhar para Jack.

– Já imaginou se tivesse acontecido coisa pior com você?! – ele começou a falar, mas se ele achava que iria sair como o “certo” da história, ele estava enganado.

– E você? Já imaginou?! – fiz a mesma pergunta.

– Por que não me contou que sabia que eu iria para a guerra? – ele disse se aproximando de mim.

– Por que você não me contou? – disse a mesma coisa, ah eu era boa naquele jogo – Você me prometeu que não iria se rebaixar para ir para aquela maldita guerra!

– Eu não me rebaixei!

– Mas foi para a guerra! – gritei, já que ele estava gritando comigo.

Por alguns segundos intermináveis, nós dois havíamos ficado em silêncio.

– Se algo mais sério tivesse acontecido com você… – seus olhos começaram a se encher de lágrimas – Eu… Não me perdoaria…

– Bom saber que pelo menos você iria ficar com remorso! – eu estava com raiva, aliviada, mas com raiva.

– Guarde seu sarcasmo para depois, Jenna! Eu falei sério! – Jack gritou.

– E eu também! – senti meus olhos ficarem úmidos – Jack, Jack, Jack… Quando que você vai aprender que você não irá se livrar de mim tão cedo?! – fiz sinal para que ele se aproximasse mais e ele sentou-se ao meu lado na cama e pegou em minha mão – Só queria te proteger… Por que é tão difícil entender isso? – disse chorando.

Déjà vu… – ele disse sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

– Hã? – perguntei curiosa e ele riu da minha expressão facial.

– Já brigamos e nos reconciliamos nessa mesma enfermaria uma vez… – ele disse enxugando minhas lágrimas.

– Quando você vai perceber que essa é sua maldição por ser meu melhor amigo?

– Maldição? – ele disse com expressão de dúvida – Não chamaria esse meu fardo da vida de maldição… Tudo bem que é uma tarefa extremamente difícil, às vezes exaustiva, tem que ter muita paciência… – bati em seu ombro e ele sorriu para mim – Mas mesmo assim… Não chamaria de maldição. Pelo contrário… Isso é uma benção para mim… – não pude deixar de sorrir quando ele terminou de falar.

Ficamos nos olhando nos olhos por alguns momentos e de repente soltei uma risada que o deixou confuso, mas ele continuava sorrindo.

– Posso saber o motivo dessa sua risada tão bonita agora? – ele disse me olhando ternamente.

– Eu estava aqui pensando… Se eu estou ferida, e Belle também… Quer dizer que você terá que treinar os soldados para a próxima batalha!

– E você acha isso engraçado? – ele ergueu uma sobrancelha.

– Se eu acho isso engraçado? – soltei outra risada – Isso é extremamente engraçado! Você terá que aturar os soldados sozinhos agora, porque nem minha substituta irá poder te ajudar!

– Estou começando a achar que você quer me ver sofrendo… – ele disse sorrindo.

– Só um pouquinho… Digamos que é um castigo por você não ter cumprido sua promessa… – ele ficou sério – Jack… – fiquei séria também.

– O que foi? – ele disse quase que com um suspiro.

– Não faça isso de novo… Por favor… – eu disse voltando a chorar.

– Ei… – ele disse enxugando minhas lágrimas novamente – Já aprendi minha lição… Te ver numa cama de hospital ferida é o pior castigo que eu poderia receber… Me perdoa, pequena…

Levantei-me com esforço na cama até ficar sentada na altura dele. Aproximei-me de seu rosto e dei um beijo em sua bochecha e logo depois um abraço e fui retribuída por um abraço reconfortante e um beijo na testa.

– E aí doutor… Tem como eu sair dessa enfermaria? – disse olhando em seus olhos.

– Deixe-me ver seus ferimentos… – ele levantou o lençol que cobria minha perna e olhou para ela novamente ferida – Sabe quando dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Bom… Isso também devia servir para balas perdidas… Mas pelo o que vejo… Essa teoria é falsa. – ele disse rindo – Terá que dobrar os cuidados com essa perna me ouviu, Tenente-Coronel? – assenti com a cabeça, se dirigindo para meu lado esquerdo ele verificou meu braço o qual havia recebido um tiro de raspão – Jen, você é uma guerreira e tanto, eu te observei naquele inferno e puxa vida, você deveria ser Coronel junto com seu pai… – sorri timidamente e ele avaliava minha situação – Sorte que só raspou, pequena… – ele sorriu e me olhou nos olhos.

– Ou seja…? – queria que ele chegasse logo ao ponto.

– Sim, você pode sair da enfermaria, mas agora e mais do que nunca você terá que redobrar os cuidados com essa perna…

– Isso eu posso fazer… – disse sorrindo.

– E como você já está experiente nos ferimentos na perna… – ele riu mais uma vez – Vou pedir que você cuide de Belle também… Afinal, ela também foi atingida na coxa…

– Tudo bem… – talvez fosse algo bom, eu poderia rever meu comportamento com a francesa, passaria mais tempo com ela e poderia deixar as diferenças de lado.

– Bom, vou te levar para seu quarto. Sparks já deve ter levado Belle para lá… Vamos? – ele perguntou.

– Sim! – parecia uma criança quando recebe um convite para ir a algum passeio.

Jack me ajudou a levantar e me levou até o quarto na cadeira de rodas. Antoniett já estava em sua cama repousando, ela lia um livro. Jack me arrumou na cama e dando um beijo em minha testa saiu do quarto.

– Agora estamos as duas presas a essas camas… – Belle disse rindo.

– Bem-vinda ao meu mundo! – disse não evitando que uma risada saísse de minha boca e ficamos em silêncio – Belle… – disse e ela se virou para me olhar – Me desculpa pela maneira que te tratei desde que chegou aqui, eu…

– Está tudo bem, Jenna… – ela sorriu e o seu sorriso era sincero.

– Eu só queria te dizer que você é uma excelente militar, se eu te tratei mal foi porque tive medo… – eu ainda queria me explicar para ela – Fiquei preocupada com você de verdade naquela trincheira…

– Eu sei, Tenente-Coronel… – ela ainda sorria – Só quero que saiba que eu não estou aqui para substituir ninguém, estou aqui para ajudar e encerrar de vez essa guerra, está bem?

– Obrigada por estar ao meu lado nesse momento… – disse e ela se esticou na cama e estendeu o braço, fiz o mesmo e segurei a mão dela.

– Eu que agradeço, Jen… – ela disse meu apelido e eu não me importei em nenhum momento.

Virei-me de lado na cama e fiquei olhando para a janela até que o sono chegou e eu adormeci.

Capítulo 18