Acampamento
Jenna
O tempo foi passando. Três meses haviam se passado, estávamos em Dezembro de 1943. Belle e eu ficávamos a maior parte do tempo na cama para que nossa recuperação fosse boa, mas às vezes íamos até os treinos para observar como Jack estava se saindo, até ajudávamos de vez em quando. Nesses meses, muitos novos soldados chegaram à base, muitos saíram de lá rumo à Guerra e poucos voltavam em boas condições, isto é, quando voltavam. Meu pai quase quis me matar quando Jack contou a ele que eu e Belle havíamos ido para a guerra. Acho que ele só não me acorrentou na cama porque teve bom senso.
“- O que te deu na cabeça, Jenna?! – ele disse quando entrou na enfermaria assim que acordei.
– Pai, eu posso explicar… – tentei em vão falar com ele.
– Jenna Miller Foster! – quando ele falava meu nome inteiro dava até medo – Você poderia ter morrido! Quando te procurei e não te achei nessa base eu fiquei desesperado! Eu li sua carta, Jenna! Onde você estava com a cabeça?! – meu pai sempre tentava esconder quando não estava bem, mas eu acho que tinha abusado demais, foi a primeira vez em anos que vi meu pai chorando.
– Me perdoe… – foi a única coisa que consegui dizer.
– Eu não posso te perder, minha pequena Tenente… – ele disse me chamando pelo apelido que me dera quando eu era criança – Sua mãe já nos deixou, eu não posso te perder também… – ele me abraçou com força.
– Eu não farei mais isso, papai… – disse retribuindo ao abraço.
– Não vou deixar, senhor. – Harry disse assim que entrou na enfermaria.
– Sparks? – meu pai parecia confuso, eu não tinha falado da minha aproximação com Harry e de como ele estava se tornando um grande amigo.
– Harry e Jack me matariam se eu tentasse algo parecido, não se preocupe, papai… – disse dando um beijo na bochecha dele.
– Rapaz. – ele se virou para Harry que estremeceu na hora – Se essa garotinha resolver aprontar mais alguma coisa dessas, me avise imediatamente e avise o Capitão Forlan para fazer o mesmo. – ele disse e olhou para mim sorrindo.
– Sim, senhor. – Harry bateu continência e meu pai se retirou da enfermaria – Mesmo chorando ele tem cara de bravo… – Harry disse baixinho se aproximando de mim e eu não consegui evitar minha risada.
– É verdade… – disse e vi Harry se sentando ao meu lado na maca.
– Te trouxe uma coisa… – ele disse mexendo nos bolsos da farda e me deixando curiosa, o sorriso dele estava grande, percebi que Harry também estava cheio de cicatrizes nos braços.
– O que é? – perguntei tentando olhar.
– Uma encomenda de muito longe… – ele estava com a mão no bolso da farda e olhou para mim sorrindo – Foi quase impossível conseguir isso, mas chegou até que inteiro… – eu estava muito curiosa – Não conte a ninguém… – ele disse quase sussurrando e me entregou uma barra de chocolate.
– Nossa… – disse pegando a barra – Suíço?! – falei um pouco alto.
– Shh… – ele colocou o dedo em minha boca, mas rapidamente tirou – Ninguém pode saber, se não você vai ficar sem chocolate por ter que dividir com os outros… – ele riu.
– Obrigada… – disse fazendo um pouco de força para chegar mais perto dele e dar um beijo em sua bochecha.
– Eu que agradeço… – ele disse baixinho, mas eu escutei.”
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Proibi Harry e Jack de voltarem àquele inferno enquanto estava inválida, mas por dentro eu havia os proibido para sempre. Digamos que Harry havia se tornado um grande amigo para mim. Às vezes enquanto Jack estava nos treinos, Harry vinha me visitar no quarto, quero dizer, nos visitar, afinal, Antoniett também estava lá. Ele conversava com nós duas, mas quando Belle adormecia, eu e ele ficávamos conversando até altas horas ou até Belle acordar ou até que Jack entrasse no quarto com cara emburrada, dando uma dura no soldado e ficando vermelho de ciúmes.
Sim. Eu sabia que Jack sentia ciúmes de Harry comigo, acho que ele não queria que Sparks fosse meu outro melhor amigo. Coisa besta dele. Jack é único pra mim. Mas Harry também é um grande amigo.
Minha recuperação e de Belle foi perfeita devido nosso repouso absoluto. Uma semana atrás nós já havíamos voltado aos treinos ajudando o Capitão Forlan nas tarefas. Os soldados novos que chegavam já vinham para a base sabendo que havia duas mulheres lá, por isso as piadinhas contra minha pessoa e a de Belle cessaram um pouco, mas não por completo. Chill continuava com suas piadinhas, sim ele havia sobrevivido às muitas idas ao campo de batalha, ele era um soldado forte e bem dedicado, apesar de sua arrogância, mas descobri que esse seu comportamento era o normal dele, por isso aprendi a aceitar, mesmo não gostando.
Levantei cedo junto com todos os outros soldados e Belle e fomos tomar o café da manhã para iniciarmos os treinos do dia. Nesses três meses que se passaram minha mesa no canto do refeitório passou a ser ocupada diariamente por mais algumas pessoas. Jack, Harry e Antoniett. Conversávamos muito durante as refeições. Muita coisa havia mudado. A ida ao campo de batalha havia me mudado interna e fisicamente também, já que agora eu possuía marcas definitivas da guerra em meu braço e em minha perna.
Tomamos o café da manhã e seguimos em direção à tenda de treinos. Era segunda-feira, ou seja, novos soldados chegariam para serem treinados.
Não sabia o que estava acontecendo, mas daquela vez a tenda estava lotada. Fiquei até espantada pela quantidade de soldados que lá estavam. Jack, Harry e Belle pararam ao meu lado e esperaram que eu começasse o discurso.
– Soldados! – gritei, fazia tempo que não tomava a frente da situação, estava com saudades de ser autoritária. Os soldados na hora formaram a fila e bateram continência ficando, em seguida, na posição de sentido.
– Sou a Tenente-Coronel…
– Miller! – um soldado interrompeu – Já sabemos… Sim rapazes, ela é uma mulher e sim, há duas mulheres nesse batalhão, querem um conselho? Não as desafiem… Elas não são delicadinhas assim como aparentam… – Chill apareceu na tenda e começou a falar no meu lugar – Outro conselho que dou a vocês é que a menos que tenham mais de 50% de intimidade com elas, não interrompa o discurso inicial de todas as manhãs assim como eu estou fazendo agora.
– Você não tem nem 1% de intimidade comigo, soldado. – disse seca e pude escutar algumas risadinhas.
– Será? – ele me desafiou sorrindo, Chill era aquele tipo de pessoa irritante, mas que a gente aprende a lidar porque somos obrigados a conviver.
– Seu nariz deve estar com saudades do meu punho… – ameacei bater nele no nariz.
– Quanta violência, Tenente-Coronel! Não está mais aqui quem falou! – ele disse erguendo as mãos na altura do peito em sinal de rendição – De qualquer forma, vim aqui só para comunicar que alguns soldados retornaram do campo de batalha, não foram muitos e quase nenhum deles está inteiro, mas estão vivos.
– Obrigada, soldado. – agradeci mesmo que por dentro eu estava com vontade de quebrar o nariz dele novamente por me interromper – Agora volte para seus afazeres. – ele bateu continência e saiu da tenda.
Fiquei olhando aqueles soldados que me olhavam esperando que eu continuasse o discurso. Respirei fundo. Olhei para Jack, Harry, Belle e os soldados. Era Dezembro, faltava uma semana para o Natal. Sempre gostei do Natal e do espírito que nele surgia. Esperança, amor, coisas boas. Meu último Natal também fora aqui na base e por mais que estivéssemos no meio da Guerra, não deixei passar essa data me deprimindo, pelo contrário, tentei ficar o mais feliz possível. O que quero dizer é que antes de falar o que eu tinha para falar àqueles soldados eu simplesmente relaxei e comecei a rir.
– Ela está bem? – escutei Harry falando com Jack.
– Iria perguntar a mesma coisa agora… – Jack respondeu para Harry.
– Querem saber? – levantei a cabeça e comecei a falar sorrindo para os soldados – Vamos mudar os treinos de hoje. Estamos no meio de uma guerra, eu sei, mas isso não significa que temos que ficar com essas caras de que o mundo vai acabar. Os treinos hoje seriam de mira, camuflagem e depois iríamos para o circuito…
– Tenente-Coronel… O que está fazendo? – Harry perguntou confuso.
– Daqui uma semana é Natal. Para mim, essa é uma data importante, apesar de estarmos no meio de uma Guerra sem motivos para celebrá-la, mas é exatamente por isso que devemos comemorar. Minha falecida mãe dizia que o Natal faz surgir nas pessoas um sentimento bom, seja ele de esperança, alegria, amor… – abaixei a cabeça – Ou a junção de diversos sentimentos que nos fazem sentir bem… – ergui minha cabeça novamente, todos estavam confusos com aquele meu discurso, mas todos prestavam muita atenção – Que tal esquecermos por pelo menos um dia que essa guerra existe? Sei o que todos estão pensando: “Ela é louca? Está passando bem? Como podemos esquecer uma Guerra?” Não podemos. Nunca esqueceremos essa guerra, mas por pelo menos um dia eu queria que todos se divertissem e tentassem fingir que não há guerra nenhuma… – falei – Podem fazer isso por mim? Por um dia? – perguntei e vi que todos se entreolhavam confusos.
– Eu topo! – disse um soldado que estava na fila e logo em seguida todos os outros concordaram com ele.
Olhei para Harry, Jack e Belle que estavam ao meu lado, apesar de confusos eles sorriram e assentiram com a cabeça concordando com os outros soldados. Sorri de volta.
– Obrigada… – disse e esperei que todos ficassem em silêncio novamente – Por um dia, eu quero que todos voltem à infância, quando essa guerra não estava nem perto de acontecer… O que iremos fazer é simples e espero que todos se divirtam comigo… – eles aguardavam ansiosamente o que eu iria falar – Vamos transformar essa base militar em um acampamento infantil! – todos me olhavam como se eu fosse retardada – Calma, o que quis dizer é que, hoje, eu quero que todos vocês treinem como se fossem crianças, ou seja, brinquem! Sim! Brinquem, de jogos que vocês jogavam na infância, brinquem de qualquer coisa que seja, mas brinquem, e esqueçam por algumas horas o terror da guerra.
– Tenho uma ótima brincadeira para começarmos esse nosso “dia de acampamento”, Tenente-Coronel! – Belle falou sorrindo.
– Diga, Belle. – disse animada.
– Taco! – ela disse com um sorriso no rosto – Vamos brincar de taco!
Até que não era má ideia, apesar de não ter jogado muito na infância eu sabia as regras básicas, aceitei na hora e muitos outros soldados também. Alguns disseram que iriam jogar futebol, outros que iriam apenas observar. Apenas permiti, só queria que todos se divertissem naquele dia.
Montamos os times e começamos a jogar. Belle e eu não duramos muito tempo no jogo, nossas pernas estavam boas, mas não completamente recuperadas, ou seja, não podíamos correr muito e os rapazes eram mais rápidos que a gente.
Belle foi conversar com alguns soldados novos e eu me sentei na frente da tenda de armamentos para descansar um pouco enquanto via que todos estavam se divertindo de alguma maneira. Não só os novos soldados como todos os outros que já estavam na base já tinha um tempo. Não tardou muito para a notícia chegar até meu pai e o mesmo aparecer com uma expressão duvidosa no rosto perto do circuito.
– Mas o que está acontecendo aqui?! – meu pai falou e todos pararam de “brincar” e ficaram em silêncio. Meu pai virou o rosto até me achar sentada no chão rindo do medo dos soldados – Tenente-Coronel Miller, pode me explicar o que significa essa algazarra na minha base?! – eu ria e todos estavam apreensivos com as atitudes do Coronel, até que o mesmo começou a rir junto comigo – Voltem para as brincadeiras de vocês! Eu já sei de tudo que esta acontecendo aqui, só queria chegar aqui e ver a cara de espanto de todos, já valeu meu dia! Agora retornem à infância mais uma vez! – dizendo isso os soldados riram também e voltaram para seus jogos. Meu pai se aproximou de mim.
– Você deu um baita susto neles, Coronel… – disse sorrindo.
– Só você mesmo para fazer essas coisas, não é mesmo filha? Está se divertindo? – ele me perguntou se agachando para ficar mais próximo.
– Muito! – disse sorrindo.
– Por que está aqui sozinha então? – ele olhou para mim e olhou para o batalhão todos se divertindo.
– Minha perna não está completamente boa, parei só pra descansar e observar os outros se divertindo… – disse olhando para os soldados – Quem entrar aqui agora não vai acreditar que isso é uma base militar…
– Não mesmo… – ele riu.
– Não está bravo, está? – perguntei só para tirar a dúvida.
– De jeito nenhum. Sempre quis fazer algo assim, mas nunca tive coragem, sorte que tenho uma filha maravilhosa e meio louquinha que pode fazer isso por mim… – ele sentou-se ao meu lado e me abraçou – Nunca fui de dizer isso, mas têm vezes que precisamos dizer e escutar mais vezes… Eu te amo, filha.
– Eu também te amo, pai! – falei como uma criancinha, ele me deu um beijo na testa.
– Bom, tenho que ir fazer alguns relatórios já que os oficiais superiores estão brincando… – ele riu e bateu continência e voltou para o quartel general.
Fiquei observando os soldados rindo e brincando como se realmente estivessem em um acampamento de férias.
– Atrapalho? – Harry se aproximou e sentou-se ao meu lado.
– Nunca… – disse sorrindo para o soldado.
– O que foi isso? – ele perguntou olhando para os soldados se divertindo também.
– Estava cansada desse clima tenso da base… Um pouco de diversão não mata ninguém, não é? – olhei para ele.
– Não… Pelo contrário, ela nos revigora! – ele olhou para mim também – Queria que esse dia nunca acabasse… Te ver sorrindo assim só por ver alguém sorrindo e em público… – ele riu – É muito revigorante…
– Queria que não houvesse guerra… – encostei minha cabeça na lona da tenda.
– Ei… Hoje estamos no acampamento de férias! Nada de falar de guerras, a não ser que tenha guerra de comida no refeitório mais tarde… – ele riu e ergueu uma sobrancelha sugerindo aprontar alguma coisa do tipo.
– Talvez, quem sabe… – eu ri e olhei em seus olhos e ele retribuiu o olhar.
– Vamos! – ele disse se levantando e segurou minha mão.
– Aonde? – perguntei confusa.
– Brincar! – ele sorria.
– Estou descansando… – disse, mas ele me puxava pelo braço me erguendo do chão.
– Não ligo para seu descanso!– ele soltou uma gargalhada – Venha, estamos montando os times!
– Times? – perguntei novamente cedendo e sendo puxada por Harry.
– Caça a bandeira! – ele disse o nome do jogo.
– Não posso correr muito, Harry! – disse querendo ficar sentada apenas observando.
– Você fica na defesa da bandeira! Vamos, Jen! – escutar meu apelido vindo da boca dele era meio contagiante, não hesitei de novo e fui com ele até o campo onde estavam sendo separados os times do jogo.
Os times continham dois líderes. Antoniett e Jack. Fiquei no time de Jack, já que Antoniett também ficaria na defesa por conta de sua perna. Harry ficou no time da outra Tenente-Coronel e ficava me “ameaçando” durante o jogo. Jack corria demais e era o melhor naquele time. Quando os soldados se aproximavam para pegar nossa bandeira eu defendia. Final do jogo: vitória do time de Antoniett. Não achei justo. Harry armou uma emboscada para que eu me distraísse e conseguisse pegar a bandeira. O moreno de olhos verdes estava próximo de mim e fingiu cair no chão fazendo parecer que tinha se machucado de verdade. Fui socorrê-lo e outro soldado conseguiu pegar a bandeira e voltar para o lado do campo do time dele. Sparks pediu desculpas rindo e eu bati em sua barriga. Um soco forte que o fez cair no chão e se contorcer de dor. De verdade.
Foi um dia exaustivo. Mas foi bem divertido. Aproveitei como nunca, afinal, não sabia quando iria ter um dia como aquele novamente, se teria um dia como aquele novamente. Alguns soldados ficaram brincando até o anoitecer, eu voltei para meu quarto para descansar um pouco.
– Toc-toc… – olhei para a porta do quarto aberta e vi Jack encostado nela – Fugindo das brincadeiras, senhorita? – ele disse entrando e olhando para todos os cantos procurando Belle.
– Belle está lá fora… – disse sentada na cama.
– E o que você faz aqui dentro? – ele perguntou sentando na ponta da cama.
– Descansando… – disse e olhei para minha perna que estava um pouco dolorida.
– Se esforçou demais, não é? – ele perguntou também olhando para minha perna.
– Um pouco, acho que estou com a dor psicológica do Harry… – disse e Jack ficou sério – O que ele te fez? – resolvi perguntar, queria encerrar aquilo de vez.
– Ele não fez nada, pequena… – Jack não sabia mentir.
– Então por que parece que você quer socar ele toda vez que eu falo o primeiro nome dele? – disse tentando entender.
– Ele está te fazendo bem? – ele perguntou de cabeça baixa.
– Como assim? – fiquei confusa – Ele é um ótimo amigo, assim como você Jack…
Jack
Eu sabia que Jenna e Harry estavam mais próximos, eu não conseguia mudar aquilo ou impedir, ainda sentia um pouco de raiva de Sparks por aquilo, mas então Jen me perguntou o que havia entre nós dois e eu percebi que era hora de deixar as coisas acontecerem como deveria acontecer, mesmo aquilo significando que Jen seria sempre e apenas minha amiga.
– Eu só quero que fique bem e feliz… – disse olhando para ela depois de saber que Harry estava fazendo Jen feliz.
– Eu estou bem e feliz por ter vocês comigo, Jack… Até Belle está se tornando uma grande amiga… – ela disse sorrindo.
– Fico muito feliz em saber isso, pequena… – disse olhando nos olhos dela.
– Você é meu melhor amigo, Jack, sabe disso, sabe que você é único para mim, não é? – ela se aproximou e acariciou minha bochecha.
– Nunca vou esquecer… – dei um beijo na testa dela – Trouxe uma coisinha que você adora… – disse e ela me olhou curiosa, tirei do bolso da farda uma caixinha de baralho.
– Você vai perder feio, Capitão! – ela disse sorrindo e pegando a caixa da minha mão, embaralhando as cartas para começarmos nosso jogo da noite.
– Veremos… – disse sorrindo e feliz por aquele momento com Jen.
