A triste história de Belle
Jenna
Faltavam poucos dias para o Natal e depois do dia de acampamento a base parecia mais “leve”. Eu e Belle demos nossos treinos de costumes e no final do dia pudemos descansar um pouco.
– Qual é, Belle! A Princesa é uma lenda! Aposto que ela vive muito mais que todo mundo! – disse atrás da tenda de armamentos sentada no chão com Belle enquanto conversávamos e jogávamos pôquer sozinhas.
– Eu concordo, do jeito que as coisas andam, acho que logo, logo ela assume o trono… – Belle disse jogando.
– Eu acredito que quando ela assumir ela vai ser rainha por muitos anos, aposto que ela vai ver o século virar! – fiz minha jogada e acendi um cigarro.
– Espero que nós também… – ela disse cabisbaixa e também acendeu um cigarro. Não havíamos feito aposta de verdade, estávamos jogando por jogar, Belle era uma ótima companhia.
– Vamos sim, você vai ver… – disse finalizando o jogo mostrando minhas cartas para Belle que começou a rir.
– Você sempre ganha! – ela disse guardando o baralho.
– O que as senhoritas estão fazendo?! – Jack disse nos descobrindo e eu corri para apagar os cigarros.
– Nada! – dissemos juntas e ele ficou nos olhando.
– Eu vou… Eu vou… Tomar um banho! – Belle disse se levantando correndo – Boa sorte! – ela gritou e saiu de lá como uma foragida.
– Jenna Miller, estava fumando? – Jack perguntou se sentando ao meu lado e me repreendendo.
– Não… – eu não sabia mentir.
– E está influenciando Belle a fumar também? – ele estava sério, parecia até meu pai.
– Não… – disse sorrindo cúmplice.
– Isso faz mal, pequena… – ele disse estendendo a mão para que eu desse o maço de cigarros.
– Desculpa… – disse entregando o maço para ele.
– Fico feliz que vocês estão se dando tão bem ao ponto de ficarem escondidas fumando e jogando… Pôquer?
– Eu sempre ganho… – disse me exibindo – Acho que da próxima vez vou começar a apostar dinheiro de verdade, vou ficar rica! – comecei a rir.
– Espero que lembre dos amigos e divida o dinheiro… – ele riu e eu encostei minha cabeça em seu ombro e ficamos em silêncio por alguns momentos.
– Vou tomar banho… Te vejo no refeitório? – levantei e perguntei para Jack.
– Com certeza! – ele respondeu sorrindo e eu fui para o quarto.
Entrei em meu quarto e vi que Belle não havia saído do banheiro ainda. Fui em direção ao meu armário para separar uma roupa limpa, porém olhei para o armário de Belle aberto e minha curiosidade falou mais alto. Vi uma fotografia pendurada no armário aberto da francesa. Na foto, ela estava com um homem, muito bonito por sinal, perto da Torre Eiffel e estavam juntos e felizes. Aproximei-me da fotografia e percebi a aliança nos dedos anelares de ambos.
Senti meu coração apertar. Belle é muito jovem, ela tem a mesma idade que eu e já foi casada? Ela estava linda na fotografia. Se aqui os homens enlouquecem com sua beleza, isso é porque não a viram com o conjuntinho casual mais meigo de todos. Senti uma ponta de inveja de sua beleza. O homem por sua vez estava usando uma farda com a bandeira da França estampada, obviamente um soldado francês. Os dois pareciam tão felizes…
– Tenente-Coronel? – Belle saiu do banho e me fez pular de susto – O que estava fazendo? – seu tom era de desespero e ela foi se dirigindo ao pequeno armário para fechá-lo. Ela ainda estava de toalha.
Não sabia exatamente o que dizer.
– Olha, eu sei que fizemos um acordo de não mexer nas coisas alheias, mas… – o que mais eu poderia falar? – Foi inevitável… – olhei para seu rosto que não expressava nada – A porta estava aberta. Sinto muito…
Como eu pude fugir de minhas próprias regras? Me senti mal por ter feito aquilo. Fui em direção ao meu armário me concentrando em pegar meu pijama.
– Jenna, não se preocupe com isso… – ela percebeu minha tensão.
Belle já tinha percebido uma característica minha. Eu odeio não seguir minhas próprias regras. Ela foi em direção a seu armário, o abriu e pegou a foto. Ficou admirando com um olhar que eu não entendia, uma grande incógnita. Ela levou a foto ao peito e ficou ali por algum tempo. Continuei com as minhas atividades. Peguei meu pijama e fui em direção ao banheiro para poder tomar um banho.
Nós ingleses e os franceses já tivemos uma guerra feia, um conflito que nos deixou marcados com essa rivalidade. Meu pai falava tão mal dos franceses para mim quando era pequena que acabei pegando essa birrinha infantil, mas aprendi com Belle que poderíamos deixar aquilo para trás e sermos grandes amigas, como já estava acontecendo.
Entrei no banheiro. A água estava quente e pude sentir cada músculo do meu corpo que estavam rígidos, amolecerem. Lavei muito bem meu rosto. E me senti tão livre, tão leve. Parecia que o peso da guerra havia ido ralo a baixo. Quem dera se eu pudesse ficar ali por toda a eternidade. Quem dera que Hitler nunca tivesse nascido e quem dera que o homem não tivesse ódio… Quem dera que guerras não existissem…
Saí do banho e me olhei no espelho, tentei arrumar meus cabelos que estavam úmidos, dei alguns sorrisos para ver se eu ficava como Belle na fotografia. Belle era linda, muito linda, parecia uma boneca de porcelana e às vezes eu me pegava olhando no espelho tentando ter um ar como o dela, um ar mais delicado. Fiz algumas poses, mas parei porque comecei a rir da minha situação. Eu não seria como Belle, não iria mudar, aquilo era um fato. Eu era simplesmente… A Tenente-Coronel Miller. Devo me conformar que cada um tem a sua beleza, apesar de eu não ter ligado para mim depois de alguns meses. Depois dessa sessão de “tentar ficar bonita” me deparei com Belle sentada no chão, com o rosto vermelho e com lágrimas grossas rolando em suas bochechas.
– Jenna! – ela pulou do chão assustada e deixou várias fotos caírem de uma caixinha que ela estava abraçando.
As fotos só tinham a mesma pessoa. O soldado de Belle, o seu marido. Todas aquelas fotos tinham eles dois juntos. Algumas, apenas ele. Outras, só ela. Arregalei meus olhos quando vi a quantidade de fotos. Mas juntos delas caíram também envelopes de cartas.
– Vou guardar isso imediatamente… – ela disse entre soluços, como uma criança que tentava engolir o choro.
– Deixe-me te ajudar… – disse me abaixando para recolher as cartas e as fotos.
Não pude deixar de reparar na beleza de Belle nas fotos. Tão feminina e delicada. Como alguém como ela pode ir para a guerra? Olhei para ela que me olhava com seus olhos azuis arregalados.
– Algum problema, Belle? – perguntei um pouco assustada.
– Não, nada… – ela disse e se virou para continuar a recolher suas fotos. – Obrigada, Jen…
Eu estava muito curiosa. Tinha que perguntar de algum jeito sutil quem era aquele rapaz.
– É seu marido? – Jenna Miller, um poço de sutiliza.
– Sim… – Belle suspirou – Ele se chamava Pierre Chevalier, era um Capitão do primeiro batalhão da França… – ela suspirou mais uma vez – Desculpe… – por que ela estava se desculpando?
– Se chamava? – ela voltou a chorar – Ei… Me desculpe, não precisa falar nada… – disse passando a mão em seu cabelo.
– Não, estou cansada de guardar essa história para mim e fingir que está tudo bem… Porque não está… – aquela história afetava Belle de uma maneira absurda.
Fiquei observando enquanto Belle recolhia todas as coisas de uma vez e depois colocou de qualquer jeito na caixa de madeira. Sentou-se na beira da cama e fez um sinal para que eu meu juntasse a ela.
– Belle, está tudo bem? – disse sentando ao lado dela.
– Quer ouvir uma história antes de dormir? – que? – É uma história que não tem um final feliz… – ela abaixou a cabeça – Pierre e eu nos conhecemos em Paris um ano antes da guerra explodir de verdade. Eu tinha dezessete anos e ele vinte e três. – ela sorria timidamente – Desde aquela época ele já servia no exército francês, mas só aparecia no quartel algumas vezes já que eram dias de paz. Pode parecer besteira, mas foi tão romântico como nos conhecemos…
“Eu não era de Paris, era de uma cidade do interior e era minha primeira visita a Torre Eiffel. Aquela criatura gigante que parece que nunca vai cair me encantava de todas as formas. Eu estava no segundo andar admirando a paisagem da minha amada França, quando meu chapéu caiu. Corri todas as escadas para pegar o meu acessório, e quando eu vi, um lindo homem de terno e gravata preta estava segurando e olhando para cima.
– Com licença… – falei timidamente – Este chapéu é meu.
Senti meu rosto queimar quando o belo rapaz se virou para me encarar.
– Vi um belo anjo lá de cima, achei que era uma miragem. Agora vejo que ele existe e é dono deste lindo chapéu…
Naquele momento senti meu coração acelerar. Naquele momento eu senti que Paris estava quieta e que só havíamos nós, embaixo da Torre Eiffel.
Ele estendeu a mão.
– Sou Pierre Chevalier, muito prazer em conhecer a senhorita…
Educadamente eu estendi minha mão para cumprimentá-lo, mas ela foi erguida até seu rosto para ser beijada. Fiquei sem palavras. O ar que tanto havia agora me faltava.
– Como se chama? – perguntou ele me tirando do meu pequeno transe.
– Me chamo Belle Antoniett… – falei enquanto recuperava meu fôlego.
Meus pais me permitiram passar à tarde com aquele jovem, já que ele havia conquistado o carisma de meu pai e a confiança de minha mãe. Andamos em círculos em volta da Torre e passamos a tarde falando sobre as nossas famílias e nossos passatempos. Descobri que era militar e algo em meu peito doeu tanto que tive que me conter para não gritar. Uma sensação tão estranha apareceu de repente. Mas logo passou quando fomos tomar um chá.
A hora do adeus foi pior, mas por pura sorte ou por coincidência eu ficaria alguns meses em Paris na casa de uma tia.
Assim, deu tempo de nos apaixonarmos profundamente. Nunca me senti tão amada antes de conhecer Pierre. Ele era o meu refúgio, meu melhor amigo e minha outra parte. Quando ficávamos longe um do outro era como se algo nos matasse por dentro.”
Belle contava a história com os olhos brilhando, quando foi terminando de contar seus olhos brilharam mais ainda. Meu coração pedia mais e mais daquela história.
“O pedido de casamento foi o mais lindo de todos. Nós iríamos passear por toda a Paris, como no dia que nos conhecemos, assim coloquei meu melhor vestido, passei o melhor perfume e coloquei o melhor batom para ir ao encontro dele.
Foi como um sonho de toda garota, lá estávamos nós embaixo da Torre Eiffel. Ele ajoelhado me mostrando um anel fino e simples, com um pequeno pontinho de brilhante. Ele deve ter gastado uma fortuna.
– Foi de minha mãe. – disse ele ainda ajoelhado.
Não havia outra resposta a não ser um enorme ‘sim’. Lágrimas de felicidade escorreram de meu rosto. Ele me levantou e nos abraçamos por muito tempo.”
Ela abriu novamente a caixinha e pegou a foto que estava pendurada no armário e me mostrou.
– Foi nesse dia que ele me pediu em casamento. Meus pais ficaram surpresos com a decisão já que eu era jovem demais, mas minha mãe se casou com quinze anos. – ela deu de ombros.
“Meu casamento foi o mais simples de todos. Mas foi o mais emocionante. Fomos morar em uma casinha perto da casa de minha tia. Fora um presente de toda a minha família junto com a dele. Ali tivemos nossa primeira noite de amor. Tivemos nossa primeira briga e nossa primeira reconciliação. Era um pedacinho do céu! Foi também naquele ano que eu descobri que estava grávida do nosso primeiro filho no dia do meu aniversário.
Mas para a nossa infelicidade, quando eu estava no sexto mês de gestação Pierre recebeu uma carta de convocação para a Guerra. Ele deveria se dirigir o mais rápido possível para Paris.
– Prometo que eu vou voltar e com a cabeça de Hitler nas mãos! – falou ele com confiança, mas meu coração doía.
Nossa despedida foi uma das mais longas.
Meus olhos ardiam tanto que eu não saberia se aguentaria a nossa distância. Trocamos juras de amor, e ele passava a mão na minha barriga que protegia o fruto do nosso amor.
– Promete que vai voltar? – perguntei entre soluços – Diz pra mim que você vai voltar inteirinho são e salvo! E que vamos ser muito felizes até o fim? – falei chorando ainda mais.
– Prometo, Belle. Eu prometo. Mas quero que prometa uma única coisa… – ele disse limpando minhas lágrimas – Quero que o nome do nosso filho seja Jean e se for uma linda menina quero que se chame Belle.
– Belle?
– Sim, e que tenha também a sua beleza… – Pierre chorava.
E assim ele partiu. E não cumpriu sua promessa.”
– Como assim? – perguntei entre lágrimas – Como assim ele não cumpriu?
Ela deu um longo suspiro e continuou a contar.
“Houve um pequeno conflito entre França, Itália e Alemanha. Meu Pierre estava lá. No primeiro batalhão. Esse conflito não foi tão estrondoso, mas matou um pouco mais da metade do exercito francês. E meu Pierre se foi não cumprindo a promessa. Antes de partir ele me enviava cartas me dando esperança de que a guerra estava acabando e que era pra eu preparar um almoço para sua volta. Mas toda a esperança foi em vão.
Quando a última carta foi entregue pessoalmente pelos oficias eu perdi meu chão, pois junto deles veio a notícia de que ele falecera e que seu corpo havia se perdido.
Eu não aguentei e nem meu filho aguentou a minha tristeza. A dor era intensa demais que tive um aborto espontâneo. Eu matei o nosso amor e ele levou o nosso filho junto. Nada me sobrou a não ser as lembranças dele.
Voltei para a casa dos meus pais. Vendi nossa casa. Tentei apagar ele da minha vida, fingir que ele nunca existiu, mas tudo isso foi em vão.”
Eu comecei a chorar como um bebê junto de Belle. Ela secava as minhas lágrimas enquanto sorria um pouco triste para mim.
– Foi você que me salvou de mim mesma, sabia? – a olhei confusa.
– Como assim? – perguntei.
– Me alistei para o exército para me vingar da morte do meu marido. Você me inspirou, Jen. Obrigada por ser minha inspiração…
Não aguentei, nos abraçamos e ficamos ali chorando por um bom tempo. Chorei não só por Belle, mas por todas as mulheres que perderam seus maridos na guerra. Chorei pelos pais que perderem seus filhos. E chorei pelos filhos que perderam seus pais. A guerra quebra laços, mas também une. Vi isso quando eu e Belle nos olhamos e rimos uma da cara da outra, como grandes amigas que éramos. Estávamos com os olhos inchados e vermelhos.
– Às vezes, eu dou em cima de alguns soldados para tentar me livrar do fantasma de Pierre… – ela enxugou as lágrimas e sorria – Mas tudo isso é em vão, porque nenhum homem está à altura dele…
– Se me permite dizer… Ele realmente era muito lindo… – disse olhando a foto do francês.
– Permito! – ela riu – É verdade, ele era um pitel… – Sabe quem eu acho muito bonito aqui na base? Jack… E Harry também…
– Eles são mesmo… – me peguei pensando nos dois – Lindos por fora e por dentro…
– Chill também não é de se jogar fora…
– O que? – eu estava perplexa e Belle riu.
– Ora, Jen, vai discordar? Ele é um estúpido, mas aquele ser é bem bonito… – nós duas começamos a rir sem parar e ficamos daquele jeito por mais um tempo até a hora de ir para o refeitório.
