Explicações
Jenna
1943. Não parecia que estávamos literalmente no início do fim daquela guerra. Devia ser umas 4h da manhã, pois Jack já havia ido até meus aposentos, se é que eu posso chamar aquele lugar assim, para me acordar, como era uma oficial superiora, era meu dever acordar antes de todos os soldados.
– Tenente-Coronel Jenna Miller! Está na hora de levantar! – Jack me sacudia na cama.
Me virei lentamente achando uma maldade a cama parecer ser mais confortável quando tínhamos que levantar.
– Já estou indo, Jack… Obrigada por me acordar. – disse para aquele que considerava meu melhor amigo, pude vê-lo batendo continência e saindo do quarto.
Jack Forlan. Capitão Jack Forlan, ele era um oficial intermediário, mas eu o considerava meu melhor amigo, era um dos únicos que não tinha preconceito de ter uma chefe mulher. As pessoas daquela época não aceitavam que as mulheres tivessem um emprego melhor que o dos homens e muito menos que elas fossem militares, pior ainda, se elas fossem Oficiais Superiores, bom, eu era uma exceção como já deu para perceber.
Meu pai era Coronel, ele comandava a sexta e a sétima divisão britânica de soldados alistados na II Guerra Mundial. Eu era sua única filha, minha mãe falecera quando eu tinha quatro anos. Sem ter com quem me deixar, meu pai assumiu o papel de minha mãe e cuidou de mim. Diferente dos outros militares dessa época, meu pai tinha um coração “mole”, ele me chamava de “pequena Tenente” quando eu era menor, hoje ele me chama simplesmente pelo o título que me fora dado depois de matar seis soldados nazistas que invadiram a padaria perto de minha casa para um atentado terrorista. Tenente-Coronel. Como meu pai era o Coronel, ninguém podia desobedecer às ordens dele, por isso quando ele anunciou para os soldados e os outros oficiais da sexta e da sétima divisão que eu seria a nova treinadora dos Praças, todos tiveram que aceitar mesmo que por dentro todos estivessem odiando a ideia. Se bem que alguns até falaram na hora que meu pai estava louco.
“Ela é uma mulher!”
“Uma mulher treinando os Praças? Você só pode estar louco, Coronel!”
A resposta que meu pai deu foi a melhor de todas, me fez sentir muito mais orgulho dele do que eu já tinha antes.
“Minha filha matou seis soldados nazistas usando apenas uma faca de confeiteiro, se eu resolvi arriscar a vida da minha única filha nessa maldita guerra é porque eu tenho total confiança de que ela está apta para isso! Eu a treino para momentos como esse desde que ela tinha cinco anos de idade, e eu posso garantir a vocês que ela é muito mais habilidosa do que muitos soldados nessa base militar! Aceitem o fato de que a nova instrutora de vocês é essa garota de dezenove anos de idade, ou vão para o campo de batalha despreparados para morrerem mais rápido!”
Amor de pai. Até onde vai, não é?
Esse foi o discurso dele no ano anterior (1942). Já tinha se passado um ano desde que comecei a treinar os novos soldados. Aceitei esse emprego de instrutora porque meu pai não me deixou ir para o campo de batalha, segundo ele, minha vida já estava correndo perigo só pelo fato de eu seguir a mesma carreira que ele, e se eu fosse para o campo de batalha e não sobrevivesse, meu pai se culparia para o resto da vida. Eu o amava, não queria vê-lo triste, por isso aceitei ficar na base militar.
Era segunda-feira. Quatro horas da manhã. Jack já havia me acordado há dez minutos, mas eu me recusava a sair da cama. Eu odiava segunda-feira, principalmente quando estava numa base militar no meio de uma guerra. Odiava pelo simples fato de que eram nas segundas-feiras que chegavam novos soldados alistados para serem treinados. Treinados por mim.
Espreguicei-me sentindo todos os ossos do meu corpo estralarem. Saí daquela cama com muita força de vontade, olhei para os lados e vi que meu pai já havia acordado bem mais cedo que eu. Como eu era a única mulher naquela base militar, ou melhor, a única mulher militar daquela guerra, não que eu conhecesse outra, mas eu acho que eu era a única, eu dormia no mesmo quarto que meu pai. Segundo ele, os soldados já não aceitavam por completo a ideia de ter uma mulher os treinando, se eu dormisse no mesmo lugar que eles eu poderia ser estuprada. Meu pai tinha um ótimo senso de humor.
Caminhei até o banheiro, molhei meu rosto e coloquei minha farda. Saí do quarto e fui em direção ao refeitório que por sorte estava vazio, ainda. Peguei meu café da manhã e me sentei na mesma mesa que Jack.
– Está dez minutos atrasada, Tenente-Coronel… – ele disse sorrindo e olhando em seu relógio.
– Sou sua superiora, você não tem o direito de ficar contando quantos minutos eu me atraso para vir tomar café. – falei sorrindo também.
– Não acredito que você está sorrindo em plena segunda-feira! – não sabia o motivo do espanto de Jack.
– Jack, se me irritar, você corre risco de vida, está bem? Além de controlar meu horário vai controlar os dias que eu posso ou não sorrir? – pois é, eu acho que estava bipolar.
– Você quase nunca sorri, ainda mais em segundas-feiras, eu adoro ver seu sorriso! É como se a guerra deixasse de existir por alguns segundos… – ele disse de uma maneira tão fofa que eu não controlei meu outro sorriso e não controlei que minhas bochechas corassem.
– Você é um dos únicos que me trata bem aqui. – disse desviando meu olhar do dele.
– Porque eu sei reconhecer a ótima militar que você é, sei deixar essa besteira de preconceito de lado. – ele disse e eu sorri novamente – Está sorrindo de novo!
– Ah que saco, Jack! Você sabe que essas palavras me fazem sorrir! Isso é maldade…
– Maldade é você não mostrar esse sorriso ao mundo! – ele falou e eu senti meu rosto arder mais um pouco.
– Estamos no meio de uma guerra, não temos motivos para sorrir. – aquela era a realidade, aquela era a verdade.
– Então porque está sorrindo sem parar desde que se sentou a mesa? – ele disse sorrindo e erguendo uma sobrancelha.
– Por que mesmo você é meu melhor amigo? – perguntei revirando os olhos fingindo impaciência.
– Porque eu sou carinhoso, lindo, cuido de você como se fosse minha irmã e ganhei sua confiança desde o meu primeiro dia aqui na base! – convencido, era isso o que ele era.
– Lindo? Carinhoso? Esqueceu o modesto, humilde, metido! – disse – E você é um puxa saco, isso sim!
– Logo de madrugada e já está lançando facas atrás de facas em mim… Deixa-me ver se eu adivinho, está de TPM, não é?
– Tenho que parar de te dar tanta liberdade assim na minha vida pessoal. – disse impaciente mais uma vez.
A corneta soou avisando que já eram 4h30, ou seja, era hora dos soldados levantarem para tomar o café da manhã e começar mais um dia de preparação.
– Está na sua hora, Tenente-Coronel! – Jack disse.
– Obrigada, secretário. – disse rindo e me levantei para ir para a tenda de treinamentos. Era hora de me preparar psicologicamente para receber os mais novos soldados e suas indignações com minha pessoa.
5h. Meu pai entrou na tenda.
– Bom dia, Tenente-Coronel. – ele disse sério.
– Bom dia, Coronel. – eu bati continência.
– Descansar. – ele disse e sorriu – Filha, não precisa agir assim quando estamos a sós.
– Tenho que manter a disciplina pai, se eu faço isso na frente de mais alguém, vão fazer mais comentários desrespeitosos.
– Tudo bem, querida… Digo Tenente-Coronel Miller. Os novos soldados acabaram de chegar, estão vindo para cá.
– Ótimo, mais uma palestra vai começar… – disse ironicamente.
– Quer que eu fique aqui com você? – meu pai sempre tentava cuidar de mim a sua maneira.
– Só nos primeiros minutos, você já sabe, não é? Eles vão ficar indignados… – falei e meu pai assentiu com a cabeça.
Os soldados chegaram e foram para a tenda onde eu e meu pai estávamos. Havia muitos novos soldados. Estava me controlando para não sentir aquela maldita sensação no estômago de nervoso, pois logo mais eu começaria a ouvir alguns comentários sobre eu ser uma mulher. Obviamente mantive minha postura, porque apesar de tudo eu era a superior deles. Isso me fez sentir mais confiante.
– Façam uma fila e se virem de frente para mim! – eu disse quando todos adentraram na tenda.
– Tem uma mulher aqui! – um soldado disse surpreso. Revirei os olhos.
– Por favor, façam a fila! – respirei fundo e repeti.
– Até que ela é bem bonita… – outro soldado disse, e eu olhei para meu pai pedindo ajuda, eles não me obedeceriam tão cedo.
– Senhores, formação da fila, por favor! – disse meu pai e na mesma hora todo mundo ficou um do lado do outro e todos bateram continência, típico – Eu sou o Coronel Patrick Foster. Comando a sexta e a sétima divisão britânica de soldados! Essa aqui ao meu lado é a Tenente-Coronel Jenna Miller, vocês devem obedecê-la agora, pois ela é a instrutora de vocês! – dizendo isso ele se retirou da tenda, minha tortura semanal iria começar.
– Senhores, como o Coronel disse, sou a superiora de vocês e instrutora também. – comecei a falar e andar do começo para o final da fila, olhando para a cara de indignação de todos os soldados – Estamos no meio de uma guerra! Vocês estão aqui para defender o país de vocês e…
– Uma mulher? Isso só pode ser uma piada! – estava demorando para as piadas começarem. Ouvi um dos soldados cochichando para outro e dando risadinhas.
– O que disse? – me virei para o soldado que havia falado, ele não respondeu, voltei a andar e falar – Continuando, vocês estão aqui para defender o país de vocês, mas para isso vocês precisarão de treinos, precisarão saber pegar corretamente em uma arma, saber se esconder, saber sair de situações difíceis, e cabe a mim ensinar tudo isso a vocês!
– Ela tem um bom porte físico, vou ensinar ela a mexer com a minha “arma”… – o mesmo soldado cochichou mais uma vez.
– Como é seu nome, soldado? – fui até ele e perguntei.
– Chill, Brian Chill! – ele disse sorrindo.
– Soldado Chill, um passo a frente, por favor. – pedi e ele deu um passo na minha direção – Vejamos, alto, forte, aparenta liderança… – fui falando e andando ao redor do soldado, esse por sua vez não conseguia disfarçar o sorriso idiota – Porém, tem um pequeno defeito no rosto… – disse e parei de frente para ele.
– Não tenho não… – ele disse levando a mão até o nariz com certa dúvida no olhar.
– Ah, tem sim… – disse e logo em seguida o golpeei com meu joelho no meio de suas pernas, o que fez ele se contorcer de dor e ficar a minha altura, logo em seguida dei um soco em seu nariz que começou a sangrar – Bom, agora tem! – Todos ficaram assustados com minha reação – É melhor você passar na enfermaria para cuidar desse defeito assim que eu acabar com o meu discurso, soldado Chill.
Ele voltou para a fila cambaleando com dor no rosto e no meio das pernas
– Tem mais alguém aqui que vai fazer piadas a meu respeito? – disse olhando para todos os soldados.
– Não! – eles disseram em conjunto.
– Não o quê? – eu disse autoritária.
– Não, senhora! – eles disseram e bateram continência, eu adorava minha autoridade.
– Pois bem, se tem mais alguém aqui que vai agir como o soldado Chill, eu sugiro que se retire, ou se mate, antes que eu mesma mate vocês! Não estamos aqui para brincadeiras, estamos aqui para derrotar o inimigo! Vocês não são os primeiros a ficar indignados com a minha presença aqui na base militar! – voltei a andar – Eu cheguei até aqui com muito esforço e dedicação, estão vendo outra mulher aqui? – perguntei.
– Não, senhora! – eles responderam em conjunto de novo.
– Sabem por quê? Porque não existe outra mulher aqui! Pelo simples fato de os administradores do exército serem um bando de homens preconceituosos que acham que lugar de mulher é em casa na cozinha! Como podem ver eu sou a única exceção! Só fui aceita aqui porque o Coronel Foster me viu matar seis soldados nazistas que invadiram a padaria perto de minha casa! E ele me trouxe para a base militar!
– Você é a famosa garota que matou os terroristas! – outro soldado disse sorrindo e com um certo brilho nos olhos.
– Seu nome, soldado? – perguntei.
– Sparks, Harry Sparks! – ele disse assumindo postura.
– Soldado Sparks, um passo à frente! – pedi e ele hesitou no primeiro momento, mas em seguida me obedeceu. – Alto, forte… – comecei a falar as qualidades dele assim como fiz com Chill – Sorriso bonito, olhos verdes… – parei na frente dele – Como sabe da minha história?
– Bom… – ele tinha medo na fala – Está nos jornais, a filha do Coronel Foster que matou seis soldados nazistas usando uma faca de confeiteiro é a primeira e mais nova Tenente-Coronel da sexta e da sétima divisão inglesa do exército. – ele disse.
– O Coronel Foster é seu pai? – outro soldado disse.
– Volte para a fila, Sparks. – ele voltou – Sim. Meu pai é o Coronel Foster. – disse ainda surpresa que aquele soldado sabia minha história, apesar de ter saído nos jornais, os soldados novos que chegavam não demonstravam ter feito tal leitura e pesquisa – Voltando ao meu discurso…
Fui interrompida por uma voz já conhecida.
– Jen! – Jack gritava e corria na minha direção.
– Quantas vezes eu terei que exigir que não mencione meu apelido na frente dos novos soldados? – cochichei para ele com tom de advertência.
– TPM, já sei! Tenente-Coronel Miller, os sobreviventes do 29° esquadrão chegaram!
– 29°? – perguntei.
– Sim, o esquadrão do…
– George McMahon. – terminei a frase dele – Ele está vivo?
– Sim. Mas muito ferido, é melhor a Tenente-Coronel ver os soldados e começar os relatórios… – Jack disse e olhou para o soldado Chill – Nossa, já temos a primeira vítima da sua TPM? – ele disse alto.
– Teremos a segunda em breve se você não parar com gracinhas! – o adverti novamente – Soldados! Descansar! – falei e me dirigi até a saída da tenda, mas consegui escutar Jack dizendo para os soldados:
– Não se preocupem, soldados! Vocês aprenderão a lidar com ela. – ele disse sorrindo e começou a conversar com todos os novos Praças, não perdi meu tempo tentando escutar a conversa e fui para a enfermaria.
