Inspiração
Belle
“- Foi um prazer fazer negócio com você, Madame Chevalier. – disse o homem elegante a minha frente. Meu coração doeu quando ele me falou aquilo.
– O prazer foi todo meu, Monsieur Tissou. – disse estendendo minha mão para fecharmos, finalmente, o negócio.
Doía na minha alma vender uma parte da minha historia. Doía em mim ver que eu estava tentando apagar da minha memória algo que não vou poder esquecer tão cedo. Sei que sou jovem, mas superar a morte de um marido não é assim tão fácil. Voltar para Paris era uma das coisas que mais doía em mim, foi lá que tudo começou. Minha amada Paris, me perdoe por ser tão egoísta, mas talvez não volte nunca mais para vê-la. Perdoe-me por ser assim, mas essa maldita guerra acabou com o meu coração, rasgou a minha alma e levou duas pessoas que eu mais amava.
Passei sem olhar para a Torre Eiffel. Fui embora de Paris sem olhar para trás, determinada em esquecer tudo. Mas era impossível. Todo o tempo eu pensava em Pierre. Ri de mim mesma me lembrando de Monsieur Tissou me chamando pelo meu sobrenome de casada. Mas daqui pra frente eu voltaria a usar Antoniett? Acho que sim. Se eu quero esquecê-lo acho melhor fazer isso. Passarei na prefeitura de Cher, minha cidade natal, para alterar meu nome. A viagem foi um pouco longa. Quando cheguei à ferroviária de Cher meu pai estava a minha espera. Um amigo dele veio junto em seu automóvel, já que minha família não tinha dinheiro o suficiente para comprar um. Tive uma boa ideia de comprar um para papai usando o dinheiro da casa.
Voltando para casa, sem dizer nada subi para o meu antigo quarto, que antes estava vazio, mas agora minhas coisas retornaram ao seu devido lugar. Olhei para meu rosto no espelho da penteadeira… Eu estava horrível. Ri do meu estado. Olhos com olheiras profundas, já não usava mais minhas melhores roupas e também meu cabelo foi perdendo o brilho. Eu estava morrendo aos poucos. Na verdade eu queria morrer aos poucos.
Meus pais naturalmente estavam preocupados comigo. Eu não comia direito, apenas andava pela nossa pequena fazenda e dormia. Era muito raro ir para o centro de Cher, já que morava em um vilarejo com vinte e cinco famílias e o centro era um pouco distante. Quando saía de casa eu era o assunto entre as velhas senhoras que estavam nas ruas. Os principais comentários eram: ‘Pobrezinha, tão nova para ser viúva’, ‘Ela está acabando consigo mesma’, ‘Tão bonita, ela deveria aproveitar para casar novamente ou irá ficar para titia’. Com esse último comentário as velhas senhoras do meu vilarejo me faziam rir um pouco. Titia? Eu nem tinha irmãos.
Certa vez à noite o clima estava muito pesado estava em casa. Meu pai na hora do jantar estava furioso.
– Já chega disso, Belle! – gritou ele batendo com muita força sobre a mesa fazendo com que os pratos dessem pequenos pulos – Já chega dessa melancolia toda… Pierre se foi, eu sei. Mas você deve aceitar isso! Não pode acabar consigo mesma!
– Pierre se foi levando o meu filho e a mim, papai. Sinto muito lhe dizer isso, mas eu morri junto com Pierre. – disse seca – Com licença, vou para o meu quarto. Obrigada pelo jantar, mamãe. – dei um beijo sobre a testa de minha mãe e subi para o meu quarto.
Peguei minha caixinha de madeira predileta e retirei as fotos de Pierre.
– Por que, mon ange? Por que você me deixou? – lágrimas rolavam cada vez mais grossas.
Peguei no sono quando já estava cansada de chorar baixinho. Mas até em meus sonhos Pierre estava lá. Ele andava em um campo deserto. Eu gritava seu nome, mas era em vão. Ele não me escutava. Ele se virou para mim e eu corria ainda mais. Sorriu e falou algumas coisas que eu não consegui entender. Quando eu finalmente o alcancei, segurei sua mão, mas uma rajada de vento muito forte quase me jogou para trás, várias explosões vinham em nossa direção, muitas luzes que pareciam fogos de artifício brilhavam fortemente. Quando tudo aquilo acabava meu Pierre desaparecia. Acordei gritando e com lágrimas grossas rolando. Minha mãe subiu para meu quarto desesperada. Abraçamo-nos muito forte e choramos muito naquela manhã.
Os dias foram passando lentamente. Os dias foram passando de uma maneira que se arrastavam. Já nem me lembrava de que uma guerra estava explodindo mundo a fora.
Minha mãe decidiu fazer um passeio pelo centro de Cher e eu fui junto. Pelo menos ali ninguém me conhecia para fazer comentários e fofocas. Passando em frente a um jornaleiro, vi uma notícia que chocou a todos que estavam ali, principalmente os homens. ‘Jovem moça mata seis soldados nazistas em padaria na Inglaterra’.
– Como uma mulher fez isso? – perguntou um senhor assustado.
– Deve ter sido fácil já que usou uma faca. – caçoou um rapaz.
– Não se engane meu jovem. – falou o mais velho de todos – Ela usou uma faca de confeiteiro, esse tipo de faca não possui uma ponta tão afiada assim. Ela é filha de um Coronel. Deve ter sido treinada pelo pai. E como anda a guerra não seria surpresa saber que as mulheres estão se tornando mais ativas na guerra. – falou ele se levantando com auxílio de uma bengala – Ouçam-me bem senhores, a França está em guerra também. Logo, toda a ajuda será precisa. Morrerá honrado aquele que carregar a bandeira da França no peito em meio a um campo de batalha.
Quando o senhor terminou de falar senti um calafrio em minha espinha.
– Monsieur… – gritei em sua direção – Acredita que eles podem aceitar mais uma mulher na guerra?
– Como se você fosse ser aceita… – falou outro homem.
– Por que diz isso, Mademoiselle? – disse o senhor segurando uma de minhas mãos.
– Quero defender minha pátria amada, Monsieur. – disse olhando firmemente em seus olhos. – E também, tenho um acerto de contas a fazer com o desgraçado de Hitler e seus amigos. – disse bufando de raiva.
– Belle, não diga isso querida… Ir ao campo de batalha não irá trazê-lo de volta. – falou mamãe fazendo com que algumas pessoas rissem de mim.
– Escutem! Acabei de perder meu marido na guerra! Isso mesmo sou uma jovem viúva. – disse pegando um pouco mais de fôlego – E se querem saber, estou farta de saber que milhares de pessoas estão perdendo seus parentes e entes queridos em meio a esta guerra! Estou farta de chegar em casa e saber que os malditos nazistas tiraram a vida do meu marido! Não só o meu, mas os maridos de milhares de mulheres! Pensem que um dia pode ser o filho de vocês que não irá voltar para casa! Se irei para um campo de batalha eu não sei, mas quero lutar ao lado do meu país e trazer a paz de volta. Quero lutar pela minha amada França!
Quando me dei conta alguns homens estavam de boca aberta. Alguns faziam comentários idiotas. Senti uma mão gelada encostar em meu ombro.
– Minha filha, se quer mesmo defender sua pátria, vá! – ele colocou a mão dentro do seu bolso e retirou uma medalha – Vá para Paris na escola militar e se aliste. Diga a eles que o Coronel Auriol lhe deu a honra de entrar para o exército.
– Monsieur… – disse sem palavras e não acreditando no que acabara de ouvir.
Descobri que aquele senhor foi muito importante para a França na Primeira Guerra Mundial.
Chegando em casa, minha mãe tratou de contar para meu pai o que houve no centro. Lógico que papai quis me matar, me impedir e me trancar no quarto, mas eu não permiti.
– Vou para guerra em nome da França, papai… – disse – Tenho que fazer isso.
– Que a beata Jeanne d’Arc lhe proteja então, minha filha… – disse papai já sem forças para argumentar.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
– Obrigada papai, me desculpe por ser tão egoísta.
No dia seguinte peguei o trem para voltar para Paris, desta vez eu olharia para ela com um desejo ardente de vingança. Deixei com os meus pais o dinheiro da casa para que pudessem comprar o automóvel. Eles sabiam que o meu desejo era morrer no campo de batalha. Nossa despedida foi como um velório antecipado, com muitas lágrimas e juras de amor fraternal.
Chegando à escola militar em Paris eu sabia que todos me olhariam com muito preconceito. Eu era a única mulher que teve a coragem de se alistar para a guerra. Muitas delas participavam indiretamente sejam na enfermaria ou em um escritório do exército. Eu fui a única em toda a França que se juntou ao exército de fato. E eles não podiam me impedir já que toda a ajuda era necessária naquele momento difícil. Quando falei do Coronel Auriol eles começaram a me tratar muito bem. Carregava comigo sempre a medalha que aquele velho senhor havia me dado.
Durante algumas semanas meus treinamentos eram intensivos, mas nada me impedia de treinar junto dos homens. Aquela garota na Inglaterra havia me salvado de mim mesma. Apesar de querer morrer em campo não morreria em vão. Morreria em nome da França.
Muitos homens de meu batalhão tentavam se aproveitar de mim, já que eu era a única mulher do lugar. O Coronel do meu batalhão, então, me deu o título de Tenente-Coronel para que eles me respeitassem um pouco mais. E também por méritos próprios. Logo fui apelidada de Jeanne d’Arc moderna. Dava de ombros. Nunca liguei.
Poucos meses depois recebi a notícia que seria transferida para a Inglaterra.
– Será bom para você. – falava o Coronel – Ficará perto de Londres em um batalhão que também possui uma Tenente-Coronel mulher.
Aquilo foi um choque para mim. Iria conhecê-la. Finalmente!
– Posso visitar meus pais antes de partir? – perguntei um pouco sem jeito.
– Com toda a certeza, Tenente-Coronel Antoniett! Foi uma honra tê-la em nosso batalhão. – ele disse sorridente e orgulhoso.
– Digo o mesmo, Coronel.
Antes de partir para Inglaterra retornei para Cher. Desta vez passei primeiro pelo centro desfilando com o meu uniforme de Tenente-Coronel. Passei em frente à casa do Coronel Auriol. Sem dizer uma palavra bati continência a ele. Sussurrei um ‘merci beaucoup’. Já na casa de meus pais o clima foi novamente de despedida. Abracei meus pais como se nunca mais fosse abraçar.
E assim parti em uma longa viagem em direção à Inglaterra. Adeus Paris, adeus Cher… Adeus minha querida e amada França. Estou um pouco aflita, mas vou superar meus medos.
Pierre, mon ange, logo irei vingar a sua morte… Logo estarei contigo.”
