O início do fim
Jenna
Estávamos todos concentrados naquele maldito momento. O avião balançava muito, todos estavam muito assustados. Belle sentada ao meu lado segurava um terço de pedrinhas de madeira. Ela rezava em francês e a cada reza ela apertava ainda mais o objeto em seus dedos. George McMahon estava ao seu lado e colocou a mão em seu ombro.
– Vai ficar tudo bem, Belle… – ele falou com a voz reconfortante.
Ela apenas assentiu e persistiu rezando. Eu também deveria ter feito aquilo, mas naquele momento eu não sabia se Deus estava ali para me ouvir. Nunca fui à Igreja, nunca tive uma religião. Mas se o Deus que Belle acreditava existia, eu só pedia a ele que meu batalhão voltasse para casa são e salvo.
Não posso negar que o medo tomou conta de mim. Eram onze e meia da noite e o avião só estava começando a decolar em direção a Normandia, norte da França. Todos estavam tensos, mas a pessoa que mais estava daquele jeito era Belle. Ela estava voltando para casa, sua amada França.
– Respire bem fundo, e vai ficar tudo bem… – falei para ela tocando em sua mão.
– Sim, vamos todos voltar… – ela falou com um olhar um pouco triste.
– Você vai ver, o primeiro nazista que você matar vai lhe dar um prazer imenso! – tentei brincar. Mas aqui não dava para levar nada na brincadeira. Estamos em guerra. Daqui podemos sair vivos ou simplesmente ir para debaixo da terra. Suei frio.
Jack estava sentado ao meu lado e repousava a cabeça em meu ombro. Via que sua expressão era tensa. De olhos fechados ele veio o caminho inteiro muito quieto. Assim como Harry que estava a minha frente, observando aquela cena. Eu olhei bem fundo dos olhos dele e senti minha pele se arrepiar toda. Ele estava com uma expressão séria demais. E o que eu poderia fazer afinal? O meu batalhão estava ali! Todos estavam ali e ninguém queria morrer. Eu não queria que ninguém morresse.
– Tenente-Coronel Miller, venha aqui um instante. – chamou o copiloto. Toquei na testa de Jack que se levantou rapidamente. Quando me levantei senti vários olhares me seguirem. Fui em direção ao copiloto – Tenente-Coronel, estamos chegando. Poderia ir preparando seu batalhão? – ele falou com urgência na voz.
Ah sim. A parte que eu menos queria que chegasse havia chegado. Devo prepará-los para a guerra em cinco minutos. Devo falar que se voltarem vivos, voltarão como heróis e que se morrerem vão morrer como heróis e que serão lembrados pelas futuras gerações. Sim, eu deveria falar isso. Mas como colocar essas palavras em alto e bom tom? Como?
– Soldados! – gritei e respirei bem fundo – Estamos perto do nosso destino. Daqui de cima cairão sobre terras francesas bravos homens que irão ganhar essa batalha! Não quero ninguém ferido, fui clara? – enfatizei essa última parte.
– Sim, senhora! – berrou meu batalhão.
– Pois bem… – respirei fundo mais uma vez – Agora, quero que saibam que todos vocês são meus heróis. Todos! – olhei para cada rosto masculino daquele lugar, principalmente para Jack e Harry – E você também Belle, a pessoa mais brava de todas! Quero que saibam que nós vamos sair daqui vitoriosos! – berrei, algumas lágrimas caíram de meus olhos e um sorriso sem emoção se abriu em meu rosto – E nós vamos todos voltar pra casa! – quando terminei, Harry me olhava com ternura. Todos eles estavam mais confiantes – Todos vocês são muito especiais para mim. E para os Aliados também! Todos nós seremos lembrados pela eternidade! E que ninguém se esqueça dos nossos dias de luta para conquistar os dias de glória! – enfatizei ainda mais nas minhas últimas palavras e todos eles assentiram.
– Tenente-Coronel Miller… – chamou o copiloto mais uma vez – Estamos prontos.
– Eu vou primeiro. – George disse se levantando e indo em direção à porta já aberta do avião.
– George… – sussurrou Belle.
Ele andou até a porta, senti meus cabelos que estavam presos, chicotearem na minha nuca. Antes de pular ele me olhou nos olhos bateu continência e eu correspondi. Feito isso ele pulou e vi George desaparecer em meio a noite nublada. De repente todos os soldados começaram a se posicionar e saltavam um por um do avião, sempre fazendo a mesma coisa que McMahon fez. Por pura obra do destino só restaram os quatro dentro daquele avião. Jack, Harry, Belle e eu.
– Bom, eu vou primeiro… – Jack disse se posicionando na ponta do avião. A minha vontade era de impedi-lo, mas nada pude fazer. A dor em meu peito era grande, mas a imensidão da nossa missão era ainda maior. Tinha que deixá-lo partir.
– Promete pra mim que vai voltar? – perguntei e me senti como Belle falando para seu marido antes de partir. O grande problema era que eu não era casada com Jack, muito menos perdidamente apaixonada – Vai voltar para me encher a paciência, não é? Vai voltar, certo? – falei segurando o choro.
– Pequena, eu vou voltar. Bem, acho melhor dizer: te vejo lá embaixo… – ele falou acariciando meu rosto e logo em seguida pulou. E o vi se tornando um pontinho.
– Minha vez… – ah, aquela era a pior parte. Não queria olhar para ele. Recusava-me olhar para ele.
– Harry… – sussurrei – O mesmo vale para você… – disse e não contive minhas lágrimas – Promete que vai voltar pra mim? Promete? – insisti e quando me dei conta, já estava colada nele. Como um carrapicho grudado em sua roupa.
– Você é a única razão para eu não querer morrer nesta guerra, Jenna… – falou Harry enquanto me aproximava ainda mais em seus braços.
– Tenente-Coronel Miller… – mais uma vez chamou o copiloto – Vocês devem pular logo! – advertiu o homem. Mas o piloto chamou a atenção dele. Eu conhecia o piloto, era um grande amigo de meu pai. Ele percebeu que eu precisava de mais um tempo com Harry.
– Vou fazer uma curva, segurem-se. – disse o piloto. Foi quando eu perdi o equilíbrio e me senti ainda mais próxima a Harry e pude sentir seus lábios pressionados contra os meus. Senti seu doce beijo, senti nossas lágrimas se juntarem em uma só. Senti as batidas de nossos corações acelerados. Mas infelizmente senti ele se afastar de mim. Não! Não faça isso comigo! Mas nada pude fazer, deixei ele se afastar ainda mais.
– Harry… – sussurrei.
– Eu vou voltar para você minha Tenente-Coronel… – ele disse intensificando o pronome possessivo e se agachando na porta – Eu te amo! – e assim ele pulou. Fui correndo em direção à porta. Não podia gritar pelo seu nome. Não podia denunciar nossa posição. Não podia deixá-lo morrer. Apenas me contive em não chorar mais do que já estava chorando.
Belle se aproximou de mim. Senti seus braços delicadamente me envolverem.
– Agora, eu sei como você se sentiu… – falei para ela.
– Não, não sabe. Eles vão voltar. Já meu amado Pierre nunca mais irá retornar… – falou ela com um simbólico e triste sorriso – Vamos, vamos pular juntas.
Preparamo-nos e fomos até a porta. Agachamos e assim saltamos. Perdendo todos de vista. O avião, Harry, Jack, George… Todos eles já deviam ter chegado ao chão. Olhei para Belle que tinha um olhar misturado com o medo e com a doçura de sempre. Foi quando o chão ficou mais próximo e abri meu paraquedas e Belle também fez o mesmo.
