Danos irreparáveis
Jenna
– Belle! – gritei e corria mais ainda para me aproximar dela.
O soldado agora mirava em mim, mas cheguei perto dele antes de ele atirar. Esfaqueei seu pescoço, peguei sua arma e atirei no soldado que Belle estava tentando matar. Com os dois mortos, corri para onde Belle estava.
– Tenente-Coronel… – ela dizia com a mão pouco abaixo do peito.
– Belle… – me agachei para ficar perto dela – Calma, tudo vai ficar bem. Só preciso te levar para um lugar que tenha primeiros-socorros e…
– Jenna… – ela tossia, olhei para o local que a bala havia pegado saía muito sangue. Não pensei duas vezes e arranquei um pedaço de pano da minha farda já quase que toda em farrapos.
– Belle… Não se mexa, eu vou te enfaixar e depois iremos para um lugar onde poderemos cuidar de você! – eu dizia, mas já não estava mais conseguindo segurar minhas lágrimas.
– Tenente-Coronel… Não… Adianta mais… – ela dizia fazendo esforço para falar.
– Adianta sim! Ei! Alguém nos ajude! – eu gritava para o nada, todos a minha volta estavam mortos, havia alguns soldados lutando longe de mim, mas nenhum me escutava – Aguente firme, Belle!
– Fico feliz por ter feito amigos maravilhosos, por ter treinado ao seu lado… – ela dizia e eu chorava como uma criança, não queria que ela morresse.
– Belle… Não fale assim, por favor… – a peguei em meu colo, comecei a passar a mão em seus cabelos.
– Jenna… Nunca se esqueça da grande mulher que você é… – falou ela tossindo – Você é muito linda por dentro e por… E por fora. – ela tomava fôlego – Seja sempre você mesma… – ela fechou os olhos e mais lágrimas rolavam – Espero que você seja muito feliz perto de Harry… E que tenham muitos bebês juntos. – já era praticamente um sussurro que saía da boca dela com um sorriso bem fraco, mas que era ao mesmo tempo encantador.
– Belle, saiba que eu amo você como uma irmã! Desculpe-me por todas as coisas horríveis que eu falei ou fiz no regimento! Mas por favor, fique comigo! O regimento não vai ser o mesmo sem você… Então, por favor! Aguente firme!
Belle começou a acariciar meu rosto, suas mãos estavam gélidas.
– Vou poder vê-lo hoje… – falou ela com uma risadinha abafada.
E então ela fechou os olhos e tombou sua cabeça para trás.
– Belle? – eu a sacudia, mas era em vão – Belle, acorde… – o desespero tomou conta de mim – Belle, acorde! – Belle não iria acordar.
A única coisa que pude sentir foi minha garganta e minhas cordas vocais se rasgarem em um grito estrondoso. As lágrimas rolavam tão intensamente pelo meu rosto, mas por um momento quando um único raio de sol nasceu fazendo com que eu me sentisse acolhida, olhei para Belle que dormia sorrindo.
– Sim, Belle… Vocês dois poderão ser felizes para sempre…
Eu a abracei forte. Minhas lágrimas não paravam de rolar. Mas o pesadelo ainda não havia acabado.
Olhei para a bandeira do Reino Unido hasteada e voltei meu olhar para o corpo sem vida de Belle.
– Irei cumprir com sua promessa ao Pierre… Sua França será libertada desses nazistas, ou eu não me chamo Jenna Miller!
Levei o corpo de Belle para uma área afastada de toda aquela desgraça. Era um bosque que havia próximo de onde estávamos, havia uma clareira naquele local e a luz do sol dava um ar de paz, mesmo estando literalmente no meio da guerra. Peguei muitas folhas e pedras, deitei o corpo de Belle no chão ao lado de uma árvore e o cobri com as folhas e as pedras.
Achei dois galhos que faria uma cruz simbólica para minha melhor amiga, peguei suas medalhas de identificação e pendurei nos galhos logo acima do túmulo improvisado.
Terminado o sepultamento da minha melhor amiga, resolvi que era hora de procurar os homens da minha vida.
Caminhei de volta até onde pousamos, a cena era horrível, havia muitos mortos, inimigos e colegas do mesmo batalhão, eu só esperava que Jack e Harry não estivessem no meio daquelas pessoas. Podia ver alguns soldados britânicos e canadenses subindo para a cidade para acabar de uma vez com aquela batalha. Eles passavam por mim e batiam continência com leves sorrisos no rosto. E eu correspondia.
Encontrei um grupo de soldados que treinei na sexta divisão. Aproximei-me.
– Rapazes… – ia perguntar dos meus rapazes quando um soldado se virou.
– Tenente-Coronel!
– Pode parecer estranho, mas estou feliz em te ver vivo, Chill! – e corri para abraçá-lo.
– Uau! Por essa eu definitivamente não esperava! – Chill disse retribuindo ao meu abraço.
– Foi a primeira e última vez, estou sobre o efeito dessa maldita guerra… – disse me afastando e olhando para todos que compunham aquele grupo, rostos conhecidos, mas nenhum que eu realmente queria ver.
– Não os vimos desde o pouso, Tenente-Coronel… – Chill disse já sabendo de quem se tratava – Na hora que pulamos o tempo virou e uma ventania separou muitos soldados da gente…
– Para… Para que lado foi o vento? – disse olhando nos olhos do soldado.
– Oeste… – Chill disse se entristecendo por mim.
– Obrigada… – disse me virando para oeste e caminhando entre os mortos para encontrar meus homens.
– Tenente-Coronel… – Chill gritou e me virei, ele vinha caminhando na minha direção junto com seu grupinho – Nós vamos com você…
Poderia parecer estranho agora Chill querer bancar o legal comigo, mas eu precisava de alguém ao meu lado caso eu me deparasse com o pior. Já não bastava ter perdido minha melhor amiga, não saberia o que poderia acontecer se visse Harry e/ou Jack mortos.
– Mais uma vez, obrigada Chill… – fomos caminhando passando pelos corpos verificando cada rosto, no meio do caminho ainda encontramos alguns soldados vivos, alguns inimigos vivos, mas eles haviam se rendido. Muitos sobreviventes mutilados, muito sangue a cada passo que dávamos.
Caminhamos por muito tempo e eu não havia encontrado meus Capitães. Meu coração doía só de pensar no pior. Até que andando de volta para a cidade, vejo uma folha no chão, meio enterrada embaixo da sujeira do local, resolvi pegar. Era pequena, parecia ser uma fotografia. Parecia não. Era uma fotografia. Quando vi de quem era a foto meu coração acelerou e as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto.
– Tenente-Coronel? Está tudo bem? – Chill foi correndo até onde eu estava.
Eu chorava tanto que não conseguia enxergar nada a minha frente. Foi quando decidi me aproximar do corpo onde a fotografia estava localizada antes de eu pegá-la.
– NÃO! – novamente um grito estrondoso saiu de minha garganta e eu chorava como um bebê e abraçava o corpo no chão – Não! Não! Não!
Chill olhou para foto e olhou para o corpo que eu abraçava. Ele não sabia o que falar ou fazer. Muito menos os outros soldados que estavam conosco. Minha visão foi ficando turva e comecei a ter falta de ar, pois soluçava de tanto chorar. Só me lembro de uma voz familiar me chamando, mas não sabia de qual soldado que era. Acabei caindo em meio aos corpos e desmaiando.
