Perdas
“- Larguem isso! Dêem outra coisa no lugar desse medicamento!
– Vamos levá-la de volta para a Inglaterra, ela não pode ficar aqui!
– Não temos a ficha dela aqui, temos que levá-la de volta para a Inglaterra, agora!
– Me diz que ela está viva!
-Está, ela irá sobreviver, mas precisamos levá-la para a Inglaterra, imediatamente!
– Vou preparar o avião!
– É muito perigoso, apesar de termos vencido, eles não irão dar o braço a torcer, podem jogar uma bomba no avião a qualquer momento!
– Temos que arriscar! Ela precisa voltar para lá o mais depressa possível!
– Você está colocando a vida dela em risco!
– Vai dar tudo certo! Eu sei que vai! Eu sei…”
+++
Jenna
Abri os olhos lentamente, já que a claridade invadia aquele lugar. Dei uma olhada ao redor. Uma enfermaria. Não era uma enfermaria qualquer. Era a enfermaria da minha base militar. Espera, não estávamos na França? Sentei-me na maca e minha cabeça doía. Olhei para meu corpo. Muitos arranhões, tiros de raspão, todos com curativos. Movi com cuidado minhas pernas e braços. Estavam bons, dava para me mover normalmente. Levantei da maca. Precisava saber o que tinha acontecido.
Saí da enfermaria. Estava uma correria na parte de fora da base, caminhões chegando com soldados feridos, soldados comemorando, médicos correndo, ninguém pareceu notar minha presença. Fui para meu quarto. Adentrei aquele local sabendo que não retornaria a ver uma linda francesa de olhos azuis naquele lugar. As coisas dela ainda estavam lá. A caixinha com as fotos dela e de Pierre ainda estavam em seu armário. Em cima da minha cama havia algo que eu não notei antes de sair. Era um envelope. Sentei na cama e o peguei. Abri o envelope e tirei o conteúdo dele.
Uma foto. Minha e de Belle. Espontânea, acho que foi no Natal. Não me lembro de ter visto alguém batendo aquela foto. Mas Belle deveria saber. Virei a foto.
“Para aquela que salvou minha vida,
Je t’aime!
Belle Antoniett”
Voltei a chorar. Belle estava morta. Nunca mais iria voltar. Falando em mortos… Saí correndo daquele quarto e fui para o dormitório dos meus rapazes. Vazio. Minhas lágrimas não paravam de escorrer. Voltei a caminhar para fora daquele lugar, sem rumo, sem direção, estava anestesiada, eu não sabia nem como estava andando, então avistei uma porta. O quartel general. Preferi não entrar lá naquele momento. Olhava para todos naquela base, alguns felizes, outros tristes, feridos chegando até que um soldado se aproximou.
– Mandaram te entregar, Tenente-Coronel. – ele me entregou um papel com alguns números – Desculpe, eles não esperaram a senhorita recobrar a consciência…
– Obrigada… – agradeci o soldado, olhei para o papel e segui para onde ficavam estacionados os Jeeps militares. Não era comum naquela época mulheres dirigirem, mas eu sabia, tive que aprender já que escolhi ser uma militar. Peguei a chave de um carro e entrei no veículo. Dirigi até o endereço indicado no papel. Na verdade não havia endereço eram apenas números que eu sabia onde encontrar, dirigi com os pensamentos embaralhados, dirigi devagar, mas ainda assim não deveria dirigir no estado que eu estava, minha cabeça rodava com tantas coisas passando no meu pensamento.
Como a base militar ficava bem afastada da cidade eu demorei um pouco para chegar ao meu destino. Começou a escurecer até que finalmente eu cheguei ao lugar marcado no papel. Saí do carro e fui caminhando por aquele gramado. Cruzes, flores recém colocadas, lápides e mais lápides. Parei de andar e fiquei olhando para os números do papel e para o nome que estava escrito naquela lápide. Minhas lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto e o peso das minhas pernas me fez cair de joelhos no chão.
Era o sinal da civilização falando que a guerra havia acabado, pelo menos era o que diziam, mas as bombas persistiam em ecoar nos meus ouvidos. Não era uma contra ataque, muito menos uma reviravolta, eram fogos de artifício que explodiam no céu que pela primeira vez em muito tempo estava estrelado, deveria ser alguma obra do destino o céu estar limpo e iluminado um dia depois de um dia vitorioso para os Aliados. Escutava pessoas gritando e comemorando pelas ruas, mas o que me impedia de comemorar com elas era a lápide a minha frente. A lápide daquele que foi meu melhor amigo, daquele que esteve comigo nos piores momentos da guerra, daquele que me amou como ninguém mais amou. A guerra havia acabado e levado consigo uma parte de mim, parte essa que se encontrava embaixo da terra e que nunca mais retornaria.
Jack
– Onde está Jenna? – perguntei para todos naquela enfermaria assim que cheguei e não a encontrei na maca.
– Capitão, vi a Tenente-Coronel entrando em um carro. – um soldado me disse assim que percebeu meu desespero.
– Para onde ela foi? – Jenna não estava em condições nem de andar, quanto mais de dirigir.
– Senhor, o soldado Hunt foi o último que falou com ela. – outro soldado estava me ajudando a localizar Jenna.
– Onde ele está? – precisava saber para onde Jenna tinha ido, era perigoso ela dirigir sozinha naquele estado.
– Na tenda, senhor. – corri para lá procurando pelo soldado Hunt.
– Hunt! Hunt! – o avistei um pouco sozinho perto das cadeiras que ficavam no fundo da tenda.
– Capitão! – ele disse batendo continência.
– Para onde Jenna foi? – eu perguntava desesperado.
– Capitão, mandaram entregar o número da lápide do…
– Ela não está em condições, ela não está preparada para isso… – disse e saí correndo para tentar alcançar Jenna antes que ela sofresse mais.
Jenna
– Pequena? – uma voz atrás de mim me chamou, não precisei me virar para ver quem era, mas virei e saí correndo em direção a ele.
– Jack! – eu dizia chorando de alegria, mas ao mesmo tempo de tristeza. Estava feliz em ver Jack, mas a dor que eu sentia era sufocante e esmagadora. Pulei em seus braços e ele me segurou como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo e eu fiz o mesmo com ele.
Ficamos abraçados em silêncio e eu não parava de chorar nos braços de Jack. Ele acariciava meu cabelo de uma maneira carinhosa.
– Acabou pequena… Acabou… – ele dizia, mas eu sentia sua voz um pouco embargada e com um pouco de sofrimento.
– Jack… – eu chorava e o abracei mais forte, a dor aumentava a cada segundo – Ele está morto. – falar aquilo em voz alta era devastador – Jack, meu pai está morto. – ele me abraçava com mais força – O que será de mim? O que será de mim, Jack? – me afastei para olhá-lo nos olhos, ele também chorava.
– O Coronel Foster foi um grande homem e um grande pai pequena, e eu tenho certeza que ele tem muito orgulho de quem você se tornou, da mulher que virou… – ele derramava lágrimas, mas seu olhar estava distante – Jen, eu vou sempre estar com você, sempre e seu pai também vai sempre estar no seu coração, nos nossos corações. – ele me puxou para outro abraço apertado.
– Jack… – me afastei para olhar novamente nos olhos do meu melhor amigo – Eu te conheço… – eu conhecia Jack com a palma da minha mão e sabia que ele queria me falar alguma coisa, temia o que ele tinha para me dizer, minhas lágrimas não paravam de cair só de imaginar.
– Eu te amo, você sabe disso, não é? – ele tentava não chorar, eu podia ver que o sofrimento dele não era exatamente dele, ele sofria pelo meu sofrimento.
– Mas é claro que eu sei Jack, e eu te amo também… – me afastei dele e tentei enxugar minhas lágrimas em vão – Eu aguento… – eu disse olhando para Jack que não conseguia mais me olhar nos olhos, no fundo eu não sabia se aguentaria.
– Jen… – sua revolta por ter que me dizer o que eu já imaginava era tão grande que ele chorava e tentava enxugar as lágrimas, mas assim como eu, não conseguia.
– Onde ele está? – disse me virando para as lápides recém colocadas naquele cemitério procurando por outra pessoa, procurando por Harry.
– Não, Jen… – Jack me puxou pela mão e respirou fundo – Ele não está aqui. Sparks não está aqui… – de repente meu peito se encheu de esperança, era a única coisa que nos resta depois de se sentir sem chão – Sparks não foi encontrado, ainda… – ele disse de uma vez, meu peito se encheu de esperança, mais ainda, conseguia até esboçar um sorriso.
– Então ele está na França ainda! Jack, precisamos voltar…
– Jen… – ele me olhava com uma mistura de sentimentos, dava para ver, dava para sentir – Eu vou pessoalmente para a França fazer a busca, eu te prometo que vou achar aquele filho da mãe e trazer ele de volta para você, está bem? – eu sabia que Jack faria aquilo por mim.
– Eu vou junto. – estava decidida.
– Não, Jen, por favor, fique… – eu sabia que Jack não queria que eu fosse para não me deparar com o pior, mais uma vez.
– Eu vou, Jack, não me impeça… – mas eu tinha que estar preparada para tudo. Para qualquer coisa.
+++
Jack
Não foi preciso ir para a França em busca de Sparks. Ele chegou dois dias depois, quando eu e Jenna estávamos nos preparando para ir.
– Capitão Forlan! – um soldado vinha correndo em minha direção enquanto estava passando pelo campo do batalhão. Em poucas horas Jenna e eu iríamos voltar para a França para achar o noivo de minha melhor amiga.
– Soldado. – disse e o mesmo bateu continência.
– O Capitão Sparks foi encontrado, está a caminho da base, chega em poucas horas.
– Ele foi encontrado? E como ele está? – eu precisava saber as respostas urgentemente.
Jenna
– Coronel, o Capitão Forlan pediu que eu trouxesse seu almoço… – um soldado entrava no quartel general com uma bandeja de comida. Eles começaram a me chamar de Coronel assim que meu pai morreu, eu havia herdado aquele título por ser filha dele, mas oficialmente eu ainda era apenas a Tenente-Coronel.
– Não tinha necessidade… – disse me virando para pegar a bandeja das mãos do soldado, estou sem fome… – disse a verdade, mas peguei a bandeja por educação.
– O Capitão pediu para que eu avisasse que é para a senhorita comer. – óbvio que Jack havia pedido aquilo.
– Obrigada, soldado, poderia me dar licença? – pedi gentilmente para que o soldado se retirasse e ele me obedeceu.
Não conseguia comer, não conseguia dormir, meu pensamento estava sempre longe, eu precisava ir para a França, mas pediram que esperassem um pouco, teria que ir de avião, mas corria o risco do avião ser bombardeado, pediram que eu esperasse dois dias pelo menos, e naquela noite eu e Jack iríamos voltar para o campo de guerra do dia D. Tentar encontrar Harry, tentar encontrar ele com vida. As chances eram quase nulas para a segunda hipótese, mas eu tinha esperanças.
– Pequena? – Jack disse entrando devagar no quartel.
– Acabaram de me entregar o almoço, a seu pedido… – consegui dar uma risada com poucas emoções. A verdade era que enquanto eu não encontrasse Harry, eu não iria conseguir fazer nada, nem comer, nem dormir, ou simplesmente sorrir de verdade.
– Então, coma… – ele disse e fechou a porta da sala.
– Estou sem fome, Jack… – disse e voltei a organizar as coisas para a viagem.
– Você precisa se alimentar, por favor, coma… – ele disse se sentando na poltrona que ficava no canto da sala.
– Eu não consigo, por mais que eu tente…
– Faz um esforço, por favor, Jen… – ele disse e sorriu carinhosamente. Me sentei para comer e consegui dar três garfadas na comida.
– Jack… – olhei para ele, ele me olhava, mas via seus pensamentos distantes, suas sobrancelhas franzidas junto com a testa.
– Oi, pequena…
– O que quer me falar? – não fazia a menor ideia do que poderia ser, mas meu coração acelerou.
– Acharam Sparks, Jen… Estão trazendo ele para cá… – ele disse e meu sorriso era enorme, mas Jack mantinha o semblante sério.
– E como ele está? – doeu como facas no meu peito fazer aquela pergunta, porque no fundo eu tinha medo da resposta.
Jack
Jenna era a mulher mais forte que eu conheci, ela era meiga, ela era como uma criança para quem merecesse ver esse lado dela, mas para o resto do mundo ela era durona, se fazia de durona e tentava mostrar que era uma fortaleza inabalável. A morte do Coronel abalou muito minha melhor amiga, ela ficou mal como eu nunca tinha imaginado que fosse possível, mas na mesma rapidez que ela ficou mal, ela conseguiu se recuperar para tomar as rédeas do regimento e assumir o lugar do pai temporariamente. Sua preocupação era com o noivo, ela estava sofrendo, eu sabia daquilo. As chances de encontrar Sparks vivo eram quase nulas, mas ela sempre tentava mostrar a esperança que tinha dentro dela.
Sparks fora encontrado em meio a escombros e corpos, com hipotermia e com muitos ferimentos sérios. Encaminharam ele para o hospital da base francesa para que ele se recuperasse o suficiente para ser enviado de volta para a Inglaterra. Mas ele não resistiu. Um dia antes de voltar a seu país de origem tudo piorou para Harry, febre alta, os ferimentos não davam indícios de cicatrização, pelo contrário, haviam infeccionado. Ele conseguiu falar com um soldado um pouco antes de partir. Confesso que ele foi meu grande rival, mas aprendi que ele era um bom amigo e saber que ele não voltaria para Jenna me dava vontade de ressuscitar ele para eu mesmo poder matá-lo. Ele conseguiu me irritar ao extremo morrendo assim, deixando nossa Jenna para trás e coube a mim dar a notícia para ela.
