Sob nova direção
Jenna
Uma base militar precisa de alguém que a comande, estando em guerra ou não. Meu pai era o líder nato, o Coronel da 6ª e da 7ª divisões britânica de soldados, mas com sua morte houve muita especulação de quem assumiria o comando. Foi uma surpresa para mim quando me nomearam Coronel oficialmente, não era uma coisa que eu estava esperando. Nos dias que se seguiram após o enterro dos soldados, após o dia D, eu fui temporariamente escolhida como a nova Coronel, algo como uma “herança” de meu pai, mas não acreditava que poderia permanecer nesse cargo por muito tempo.
Houve uma pequena e simbólica cerimônia, me deram medalhas, uma farda nova e tudo o que o protocolo pede, com direito à manchete nos jornais, afinal, não é sempre que temos uma mulher com um cargo daqueles no exército. Meu luto era imenso, cobria toda parte de mim, mas com aquele novo título eu teria que de algum jeito deixar o luto de lado e assumir minhas novas e grandes responsabilidades.
A guerra não havia acabado, ainda tinha muito o que se fazer, ainda havia conflitos espalhados, soldados da nossa base em campo, e por mais que estivéssemos com esperança de que a Guerra estava caminhando para seu fim, não tínhamos a certeza absoluta que queríamos ter.
– Pequena? – eu estava na minha nova sala, o quartel general que fora de meu pai, estava assumindo minhas responsabilidades, ou pelo menos tentando. Não ouvi baterem à porta, mas ouvi assim que Jack entrou.
– Jack… – nos últimos dias, nas últimas semanas eu não tive tempo de pensar em mais nada além da Guerra, do dia D, das perdas que tive. Não tive tempo suficiente para agradecer aos céus por não terem tirado Jack da minha vida e naquele momento eu estava pensando naquilo. Corri para abraçá-lo tão forte que até meus braços ficaram doloridos do aperto que dei em meu melhor amigo.
– Ei… – ele deu uma risada abafada assim que pulei em seu pescoço – Puxa… – ele estava sem ar, mas mesmo assim não se soltava.
– Obrigada por existir. – disse dando um beijo demorado na bochecha dele e me afastando um pouco depois do abraço de urso.
– Ora… – Jack ficava sem jeito com elogios e coisas parecidas – O que houve?
– Esses dias, essas semanas… Está tudo tão pesado que eu não conseguia pensar em mais nada além do que acabamos de passar… – comecei a falar – Eu sou tão grata por ter você, você esteve comigo em tantos momentos, Jack… Obrigada por existir e principalmente, obrigada por não me deixar… – sentia que meus olhos estavam marejados, mas não queria chorar, estava cansada de só chorar.
– Jen… – ele estava chorando e sorrindo, me devolveu o abraço, um pouco mais fraco do que eu havia dado, mas ainda assim era forte.
– Bom… – disse assim que ele se soltou – Agora acho que sou Coronel de verdade… – disse enxugando rapidamente uma lágrima que caiu.
– Ah claro! Já ia me esquecendo… – ele rapidamente bateu continência e ficou em posição de sentido sorrindo para mim.
– Descansar. – disse e sorri – Eu tenho muita coisa para aprender, me situar, esses anos todos eu estava focada apenas no treinamento dos soldados, ajudava meu pai com um relatório ou outro, mas nunca me aprofundei nesses assuntos, me sinto um pouco perdida…
– Quer ajuda? – Jack disse sorrindo.
– Sempre.
– Bom, como instrutora você era ótima… – ele dizia indo até os armários e gavetas daquela sala.
– Era? – ele se virou para mim e riu.
– Ainda vai querer treinar soldados, Coronel? – ele rebateu com outra pergunta.
– Quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance…
– Certo, mas Jen, um Coronel tem muito mais o que fazer, digo, a parte de decisões e todas essas burocracias cabe a um Coronel, venha aqui… – ele disse me chamando até os armários – Eu ficava com seu pai alguns dias para ajudá-lo nos relatórios e nessas coisas enquanto você estava encarregada apenas do treinamento físico.
– Puxa… – disse assim que vi a enorme quantidade de pastas e papéis naquele armário que Jack abriu.
– Lembro que toda vez que ele te chamava para fazer relatórios você ficava emburrada de “ter que ficar o tempo todo parada.” – ele fez aspas com os dedos e riu.
– Você sabe que muito tempo assim me faz querer morrer, não é? – tentava me defender.
– Sei, mas agora essa é sua realidade, a guerra ainda não acabou por completo, pequena, muitas decisões ainda precisam ser tomadas e você estará na liderança, você precisa se situar de tudo, de todos os acordos, de tudo, é um trabalho um pouco parado, mas de extrema importância.
– Eu sei, mas ainda queria poder ajudar no treinamento… – na verdade eu queria passar todas as horas dos meus dias com a cabeça ocupada.
– Jen… – Jack sabia daquilo, e eu sabia que ele estava preocupado com eu querer me sobrecarregar.
– O que é isso? – perguntei querendo evitar o assunto e apontei para uma pasta com o carimbo de “Confidencial – Protocolo de Auschwitz”.
– Bom, eu não sei, mas você vai poder saber agora. – ele disse pegando a pasta e levando até minha mesa quando bateram à porta.
– Capitão. – um soldado entrou no lugar batendo continência para mim e para Jack – Novos soldados chegaram.
– Pois certo, em instantes estarei lá. – Jack disse autoritário e o soldado se retirou da sala.
– Ah segundas-feiras… – disse me lembrando do quão significativo para o regimento era aquele dia da semana.
– Bom, tenho que ir, afinal, a função de treinador agora é minha, não é mesmo Coronel? – ele disse olhando para mim.
– Vou com você. – disse sorrindo e guardei a pasta de volta no armário.
– Jen, acho que você deveria…
– Só hoje, Jack… Só por hoje… – disse esquecendo que eu era a autoridade maior ali naquela sala e que não precisava pedir permissão para ninguém caso quisesse acompanhar os treinos.
– Vamos. – ele disse se dando por vencido e fomos até a tenda onde os novos soldados estavam aguardando.
Jack
Temia o que a sobrecarga poderia fazer à Jenna, mas conhecia a persistência dela e a teimosia também, não tinha como argumentar, ainda mais quando ela havia se tornado a autoridade máxima no regimento.
Era segunda-feira e como a guerra não tinha acabado por completo, novos soldados chegaram para os treinamentos e os que já haviam se recuperado poderiam escolher entre voltar para casa ou continuar servindo. A maioria que ainda estava em condições de combater permanecia no regimento e na guerra por honra e patriotismo, poucos eram os corajosos que resolviam abandonar tudo e voltar para casa.
Corajosos porque, querendo ou não, eles ficariam com a reputação ruim, o lema de muitos era “lutar pela pátria ou morrer tentando”, voltar para casa sem saber se a guerra estava encerrada era como abandonar tudo, inclusive a honra. Eu não pensava daquele jeito, como médico e também militar eu via as condições que os soldados voltavam do campo de batalha, eu vi e vivi o terror da guerra, tinha pesadelos todos os dias com as bombas, os tiros e as pessoas que uma a uma morriam ao meu redor naquele dia de ataque na Normandia. A guerra mexeu com todo nosso psicológico e principalmente nosso estado físico, não pensava em nenhum momento que “desistir” e voltar para casa era um ato de covardia, pelo contrário, achava que quem fazia aquilo eram as pessoas mais corajosas do mundo, aquelas que sabiam que já haviam chegado ao limite e zelavam pela vida mais do que queriam lutar pela pátria.
Eles eram dignos e merecedores e eu pensava todos os dias e semanas que se seguiram depois do dia D em voltar a minha primeira profissão, em voltar para os hospitais, ainda iria conversar sobre isso com Jenna, mas cada dia que se passava eu estava mais tentado a fazer aquilo, tentado em abandonar a militância e seguir meu caminho.
Chegamos à tenda e eram um misto de soldados novos com os mais antigos e que resolveram continuar lutando pela pátria. Era o primeiro grande ato de Jenna naquele dia como a atual Coronel. Ao entrarmos na tenda todos ficaram em posição de sentido esperando que alguém começasse a falar.
– Soldados. – Jen estava nervosa, mas não demonstrava, eu sabia daquilo porque conhecia minha melhor amiga como ninguém – Bom dia, soldados. – “bom dia” não era algo que a gente tinha o costume de dizer, mas Jen sempre quis mostrar que tudo poderia mudar para melhor.
– Bom dia, Coronel Miller. – um único soldado respondeu ao “bom dia” de Jen. Ela se virou para onde vinha a voz e viu Chill em posição de sentido e com algumas cicatrizes no rosto e no pescoço. Poderia jurar que estava alucinando, mas vi no canto da boca de Jenna um simbólico sorriso.
– Soldados, a guerra não acabou, infelizmente. – ela permanecia com a voz firme e começou a andar observando cada soldado, olhando cada um no rosto, procurando por um em particular – Eu sou a Coronel Jenna Miller, meu pai foi o Coronel Patrick Foster, e assim como ele quero deixar meus ensinamentos para vocês. – ela se virou e caminhou para o outro lado – Eu estive na guerra, senhores, eu estive duas vezes naquelas terras de ninguém e eu digo a vocês que se preparem. – ela olhou para mim e eu caminhei até o lado dela – Esse é o Capitão Jack Forlan, ele será um dos instrutores de vocês. – os soldados bateram continência para mim e voltaram à posição de sentido – Senhores, a guerra é um inferno na Terra, a guerra mata, a guerra nos modifica, então treinem, mas ao mesmo tempo torçam para nunca precisarem vivenciar pessoalmente essa guerra. Capitão… – ela dava espaço para eu falar.
– Senhores, eu sou o Capitão Forlan como a Coronel disse, treinarei vocês para que juntos possamos por um fim nessa batalha.
– Senhores, tenham um bom treino. – Jenna disse e os soldados juntos disseram “obrigado” – Não vou ficar, Jack… – ela disse baixo perto de mim, aos poucos Jenna entendia que o novo título dela pedia que ela arcasse com novas responsabilidades.
– Precisando de mim, é só me chamar, está bem? – disse tentando me conter para não abraçá-la e dar um beijo em sua testa.
– Está bem. – ela me deu um simbólico sorriso, bateu continência para mim e para os soldados e se retirou do local.
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Jenna
Havia entendido que meu cargo agora era outro e por mais que treinar os soldados era algo que eu gostava de fazer, ao mesmo tempo me fazia pensar em tudo o que passei principalmente naquele maldito dia D. Voltei para o quartel general e resolvi que estava mais do que na hora de me situar sobre o que estava acontecendo no mundo, fora da minha base militar, afinal, eu tinha decisões a tomar em breve.
Abri o armário que Jack havia me mostrado, cheio de pastas e envelopes de protocolos, era tanta coisa para ler que ocuparia o resto do meu dia, então peguei algumas pastas, levei até a mesa e me sentei.
– Protocolo Auschwitz… – li o título daquela pasta que estava bem recheada com papéis e mais papéis – Dia D… – passava o olho sobre os títulos dos envelopes e pastas que mais me chamavam atenção, escolhendo um para começar o meu trabalho – Dachau…
Aquele último título havia prendido minha atenção, abri a pasta e comecei meu primeiro trabalho como Coronel.
Jack
Foi um dia e tanto, cansativo, exaustivo, mas estar em casa, estar no meu país era um alívio, não estar no campo de guerra era ainda melhor. Jenna não me procurou durante todo o dia, então presumi que ela estava ocupada demais.
– Você não está entendendo, preciso que entregue estas cartas com urgência nas outras divisões, eu preciso da resposta para ontem! – estava caminhando para o refeitório para o jantar, ou o que eles chamavam de jantar e vi Jenna enfurecida com envelopes nas mãos praticamente gritando com um dos Sargentos da divisão.
– Coronel, farei o possível para que essas cartas cheguem lá o quanto antes. – o Sargento disse e pegou os envelopes de Jenna.
– Tenente, me contate de novo com a vigésima divisão, agora. – ela disse caminhando para um dos Tenentes da base, eu estava confuso, não sabia se deveria interferir, Jenna tinha o olhar sério e de revolta. A vigésima divisão ficava próxima a nossa, mas eu não entendia o tom de urgência na voz de Jenna.
– Coronel, os comandantes da vigésima divisão não podem… – o Tenente dizia com receio e medo da Coronel Miller.
– Não podem me atender porque não me respeitam? – ela gritou – Pois vão me respeitar a partir de agora e vão me dar as respostas imediatamente! – ela disse mais para ela mesma do que para o soldado e saiu quase correndo em direção aos carros do batalhão. Resolvi alcançar ela e saber o que estava acontecendo.
– Coronel! – gritei e ela não me escutou, ou se escutou não quis me dar ouvidos, ela entrou em um dos Jeeps – Jen! Aonde vai a essa hora? – ela virou para me olhar, mas deu a partida no carro e dirigiu furiosa pela estrada que levaria para a saída da base militar. Não sabia se deveria segui-la, se ela me contaria depois, ao que tudo indicava ela estaria por perto, então resolvi saber pelos intermediários, com quem ela “gritou”, o que estava acontecendo. Fui até o Tenente com quem ela havia descontado a fúria, era o que mais parecia saber das coisas na hora – Tenente!
– Capitão! – ele bateu continência.
– O que a Coronel foi fazer na vigésima divisão? – fui direto.
– Senhor, não sei dizer ao certo, a Coronel estava querendo contatar eles, mas não conseguia, depois ela pediu para que eu entrasse em contato, ela pediu para falar a eles que o assunto era urgente sobre o Protocolo de Dachau, mas no mesmo momento em que passei essa informação eles disseram que não poderiam falar com ela, estavam ocupados.
– Protocolo de Dachau? – estava curioso e preocupado.
– Sim, senhor, foi o que ela disse. – ele disse e seu olhar era de curiosidade – Senhor, acha que a vigésima divisão tenha ignorado o pedido de urgência para entrar em contato porque ela é…
– Mulher? Tenho certeza, não são todos que aceitaram isso, que temos sim uma Coronel liderando nossa divisão.
– Ela é uma excelente líder, senhor. – o Tenente disse.
– A melhor. Obrigado, Tenente. – agradeci o soldado que bateu continência e seguiu seu caminho até o refeitório, resolvi não ir atrás de Jenna e sim ir até o quartel general.
Entrei no lugar e em cima da mesa um envelope estava aberto com muitas folhas espalhadas por cima, o envelope tinha o título de “Dachau”, pelo jeito foi o único que Jenna abriu naquele dia e provavelmente leu e releu muitas vezes, sentei na cadeira da Coronel e comecei a olhar as folhas em cima da mesa.
Dachau é uma cidade próxima a Munique, no sul da Alemanha. Ainda não estava entendendo o motivo da revolta de Jenna naquele início de noite, mas resolvi continuar olhando a papelada que deixou a Coronel daquele jeito.
Eu sabia um pouco daquele assunto que estava nos papéis referentes ao protocolo de Dachau. Logo depois de assumirem o poder, os nazistas estabeleceram prisões e campos de concentração para aqueles considerados inimigos do regime. Em uma das folhas contava brevemente a história do lugar seguido de alguns relatórios feitos a mão. Estes complexos de detenção foram projetados para combater a oposição e provocar medo na população.
Em 23 de março de 1933, dois meses depois de Hitler ser nomeado chanceler da Alemanha, foi estabelecido em Dachau o primeiro campo de concentração. No relatório que continha a história daquele lugar comecei a ler que antes da guerra estourar o complexo era uma fábrica de pólvora, mas depois passou a servir como campo de treinamento para os guardas da SS (Schutzstaffel – “Tropa de Proteção”, ligada ao partido nazista).
– Se isso aconteceu na Alemanha, por que tanta revolta, Jen? – eu não entendia o motivo da raiva dela, era coisa do governo alemão, nos inteirar naqueles assuntos seria permanecer em guerra. Peguei outras folhas, estava de fato curioso, não aguentaria até Jenna chegar e ver se ela iria me contar sobre aquilo, era um assunto confidencial como dizia no verso do envelope e por mais que eu e Jenna fôssemos melhores amigos, há assuntos que nem entre irmãos se deve falar, principalmente no meio de uma guerra – “Reordenação”? – aquela palavra estava escrita à mão no topo de outra folha, ao lado de uma palavra em alemão, então deduzi que fosse a tradução, no verso daquela folha que estava inteiramente escrita em alemão havia uma singela tradução.
À medida que a Alemanha anexava e conquistava novos territórios, o sistema de campos de concentração se expandia, principalmente para “reordenar” a sociedade européia sobre bases raciais.
– Jack?! – me perdi no tempo vendo aqueles papéis e Jenna chegou e me pegou no flagra espionando.
– Jen, eu… – o que eu iria falar? Estava mesmo fazendo o que ela pensava que eu estava fazendo.
– Jack, por favor, se retire, isso é confidencial! – ela dizia, mas seu tom não era de discussão, era de preocupação. Dava para ver nos olhos e na voz dela que ela não queria que mais ninguém soubesse daquelas papeladas, não por enquanto.
– Me perdoe, pequena, eu juro que não li muito… – disse me levantando e me afastando da mesa imediatamente.
– Por favor, não fale nada, não comente nada, e tente esquecer tudo o que leu, ok? – ela disse praticamente me empurrando porta a fora.
– Sim, senhora… – disse e vi a porta atrás de mim se fechar e escutei o trinco me avisando que Jen ficaria trancada lá por mais um tempo.
