Capítulo 3

Tática de guerra

Jenna

Entrei no local e pude ver já em várias camas, soldados realmente feridos, alguns não tinham alguma parte do corpo, outros estavam queimados, consegui reconhecer McMahon e caminhei na direção dele.

– Tenente-Coronel Miller! – ele disse com a voz fraca, mas ainda sim entusiasmado, como aquilo era possível?

– George… Como você está? – perguntei olhando para todos os ferimentos.

– Vivo… Em breve estarei recuperado e poderei voltar para o campo de batalha! – ele disse confiante.

– George, não costumo fazer isso, mas você lutou bravamente nessa guerra, se quiser…

– Não! Tenente-Coronel, com todo o respeito, eu tenho condições de ir até o final, se for para morrer, morrerei no campo de batalha! Só tive alguns ferimentos… Em breve estarei bom novamente!

– Alguns ferimentos? George, o médico disse que você está vivo por um milagre! Você levou vários tiros!

– Por favor, Tenente-Coronel, peço permissão para quando me recuperar, poder voltar a treinar e voltar para a ação! – ele pediu.

– Tudo bem, McMahon… – disse – Mas você sabe que eu não gosto muito dessa ideia. Que isso fique bem claro.

– Obrigado, Tenente-Coronel! – ele piscou para mim e eu retribuí o gesto com um sorriso.

– Tenho que ir agora, fazer os relatórios e avisar o Coronel para que comece a escrever as cartas para as famílias… – disse e fui caminhando para a saída da enfermaria.

Estava quase na porta e esbarrei com um soldado já conhecido.

– Tenente-Coronel. – ele disse batendo continência.

– Chill. – respondi sem emoções – Vejo que veio cuidar do seu “defeito”.

– Defeito que a senhorita causou. – ele disse ironicamente.

– Causarei de novo se não receber o respeito que mereço. – eu disse e ele ficou em silêncio, saí do local segundos depois.

Fui até o escritório de meu pai avisá-lo para começar a escrever as cartas às famílias dos soldados que morreram no campo de batalha. Feito isso voltei para a tenda onde recebi os soldados. Estavam todos lá inclusive Chill que já se encontrava com um curativo no nariz. Eles estavam muito à vontade conversando com Capitão Forlan. Entrei na tenda e na mesma hora todos ficaram em posição de sentido.

– Vejo que já estão mais disciplinados. – disse tentando esconder o riso, mas Jack percebeu.

– Vejo que está mais alegre. – ele disse piscando para mim.

– Vejo que em breve teremos uma demonstração de como matar um soldado usando uma faca. – disse olhando para ele e tirando um canivete do bolso, alguns soldados não conseguiram disfarçar os sorrisinhos.

– Vejo que hoje a TPM está atacada, não é mesmo? – Jack disse.

– Capitão Forlan, sugiro que você pare com as piadas antes que eu te rebaixe a soldado e você terá que ir imediatamente para o campo de batalha!

– Você não teria coragem… Sou o único que te trata sem preconceitos aqui! – nossa discussão estava ficando íntima demais e havia muitos espectadores nos observando brigar.

– Basta! – eu disse – Primeira lição de vocês soldados. – comecei a falar e andar na direção de Jack – Imaginem que o Capitão Jack Forlan é um soldado nazista que tinha ligação direta com Hitler, vocês o capturaram e o trouxeram para a base a fim de extrair dele algumas informações comprometedoras para a guerra.

– O que você está fazendo? – Jack me perguntou em tom de medo, mandei um sorriso para ele.

– Obviamente que o soldado nazista aqui… – abracei Jack de lado – Não irá contar logo de cara para vocês essas tais informações, por isso, vocês terão que “forçá-lo” a falar. – fiz aspas com os dedos – Preciso de um grupo de cinco soldados, voluntários?

– Se algo acontecer com esse meu rostinho e esse meu corpinho lindo, eu faço questão de fazer a mesma coisa com você, só que pior! – ele disse, porém sorria, apenas pisquei para ele.

– Eu gostaria de ser voluntário! – Sparks ergueu a mão.

– Eu também! – me surpreendi quando Chill também ergueu a mão.

– Nós três aqui vamos completar o grupo. – disse outro soldado enquanto batia levemente no ombro de outros dois rapazes.

– Pois bem. – disse – Temos o grupo. Vocês ficarão encarregados de “fazer o nazista revelar os segredos do Führer” tentem usar técnicas psicológicas e não físicas, veremos como se sairão nessa tarefa.

– Mas e os outros soldados? – Jack perguntou.

– Por enquanto essa é uma tarefa mista de prática e observação, eu e os outros soldados ficaremos observando as táticas de vocês. Podem começar.

Mal terminei minha frase, Chill e outro soldado seguraram Jack pelos braços, o que o deixou um pouco surpreso, mas ele logo incorporou o personagem e começou a se debater nos braços dos soldados. Um outro soldado bateu no rosto dele para que ele parasse de se mexer.

– Ei! Você não disse táticas psicológicas? – ele protestou depois do tapa.

– Eu disse: tentem usar técnicas psicológicas… – não disfarcei o riso.

– Isso não é justo! – ele disse.

– Nada é justo na guerra, Capitão. – pisquei para ele.

Chill trocou de lugar com o soldado que bateu em Jack.

– Conte-nos o plano, alemãozinho! – Chill falava.

– Eu lá tenho cara de alemão? – Jack falou e Chill deu um soco na barriga dele que fez o Capitão se contorcer de dor.

Eu estava quase desistindo de ensinar essa lição para eles. Cada soco que Jack levava fazia meu coração se comprimir dentro de meu peito, não suportava ver meu melhor amigo sofrendo.

– Não vai nos contar, não é? Será que teremos que intensificar sua dor? – Chill fechou o punho e estava quase batendo em Jack de novo quando Sparks parou a mão do soldado no meio do caminho.

– Calma, Chill! Vamos tentar algo psicológico como a Tenente-Coronel sugeriu. – Sparks disse.

– Como você pretende fazer isso? – outro soldado, o que até àquela hora não havia se manifestado, disse.

– Simples, primeiro começaremos com uma chantagem do tipo: nos conte os planos de Hitler e sua família não sofrerá as consequências. – Sparks começou.

– Você não sabe quem é minha família, não sabe nem se eu ainda tenho família! – Jack disse.

– Mas isso não nos impede de investigar mais sobre sua vida… – Sparks disse levantando uma sobrancelha e começou a revistar os bolsos da farda de Jack à procura de algo que pudesse ajudar na simulação, o Capitão se debatia, mas não obteve sucesso fazendo aquilo, Sparks achou um pequeno papel no bolso da calça dele – Hum… Interessante, acho que podemos continuar com a chantagem. – ele disse olhando para o papel.

Eu estava curiosa para saber o que era aquele papel que Sparks tinha na mão, ele parecia muito mais inteligente do que aparentava, comecei a observar toda aquela simulação como se fosse verdade.

– Que papel é esse? – Jack perguntou.

– Certo nazista, sugiro que você fale os planos do Führer ou…

– Ou o que? Vai me matar? Mata logo, você sabe que eu não vou falar! Não adianta me chantagear falando da minha família. – Jack incorporava bem o personagem, eu estava indignada.

– Será mesmo? Soldado vá buscar a pessoa da foto. – Sparks disse e segundos depois Chill e o outro soldado apareceram a minha frente e me seguraram pelos braços.

– Mas o que… – comecei a protestar.

– Desculpe-me, Tenente-Coronel, mas faz parte da minha técnica. – Sparks disse, revirei os olhos e assenti, pelo jeito eu fazia parte da peça também – Continuando Forlan, ou você nos conta os segredos do Hitler ou sua amiguinha aqui sofrerá as consequências…

– Não ouse encostar um dedo nela! – Jack parecia sério ao falar, acho que naquela hora ele não estava mais no personagem.

– Você acha que eu não teria coragem? – Sparks olhou para mim – Desculpe de novo… – e me deu um tapa no rosto, pude sentir meus olhos marejarem um pouco. Ele era mais forte do que aparentava.

– Desgraçado! – Jack gritou e começou a se debater com mais força nos braços dos outros soldados.

– Olha que eu posso fazer pior, Forlan! – ele ameaçou a me bater com o punho fechado.

– Não! – Jack protestou.

– Então, temos um acordo? – Sparks o questionava, mas mantinha o punho fechado e pronto para me acertar com força máxima.

– Não, Jack! Não conte nada! – eu disse fazendo minha participação especial na peça – Lembra do que o Führer falou? Morra, mas não revele nada aos inimigos!

– Ah, que fofos! – Sparks parecia se divertir com a encenação, confesso que também não resisti e deixei escapar uma risada – O que vai ser, Forlan? Irá nos contar o plano ou teremos que fazer sua amiguinha sofrer mais um pouco? – Nessa hora Sparks começou a me revistar – Desculpe de novo, Tenente-Coronel. – e tirou de um dos meus bolsos o meu canivete e o posicionou em meu pescoço – Ela tem uma voz de autoridade, seria uma pena se alguém a calasse para sempre… – Sparks ameaçou a cortar meu pescoço e por um momento eu realmente achei que ele iria fazer aquilo.

– Não! Eu conto! Mas larguem ela! – Jack disse e os soldados me largaram.

– Bravo! Muito bom! – eu disse batendo palmas – Certo soldados, ótima simulação! Podem soltar o Capitão! – eles soltaram.

– Pegou pesado dessa vez, Tenente-Coronel. – Jack disse, mas não parecia brincar, ele estava sério.

– Ok senhores, o que vocês presenciaram aqui foi uma técnica pouco utilizada para conseguir extrair informações do inimigo, acredito que muito de vocês pensaram em apenas encher o Capitão de porradas e torturá-lo até que ele revelasse alguma coisa importante. Por isso quando me referi às técnicas psicológicas, Sparks pareceu entender o recado. – me virei para o britânico de olhos verdes – Parabéns, soldado.

– Obrigado, Tenente-Coronel. – Sparks sorriu.

– Muito bem, que lição importante tiramos dessa simulação? – perguntei.

– Que não devemos torturar os inimigos? – Chill arriscou um palpite.

– Às vezes a tortura é necessária, mas se ela pode ser evitada, é preferível que mude a técnica. Caso essa nossa simulação se torne real, digo, se capturarmos um soldado nazista e o trouxermos para a base, temos que antes de começar a interrogá-lo, pesquisar sobre o passado dele, pesquisar sobre coisas que poderiam servir como chantagem assim como Sparks fez quando pegou minha foto no bolso do Capitão. – olhei para Jack – Por que você tem uma foto minha no bolso da sua farda?

– Porque eu quero. – ele disse e alguns soldados não disfarçaram os sorrisinhos maldosos. Eu percebi aquilo.

– Quero deixar bem claro que Jack é apenas um… – não sabia se podia me referir a Jack como sendo meu melhor amigo na frente dos novos soldados.

– Grande amigo! – ele terminou a frase por mim e eu olhei para ele como se saísse fogo de meus olhos – O que foi? É a verdade! Para de ser tão durona, Tenente-Coronel!

– A gente conversa depois, Capitão. – disse me segurando para não matá-lo – Muito bem soldados, essa foi a primeira lição de vocês, sugiro que se dirijam até a tenda de número sete para ouvir os comunicados que o Coronel tem a dizer. Depois do almoço voltem aqui para a tenda de treinamento. Descansar!

Os soldados bateram continência e saíram da tenda, todos menos Sparks e Jack.

– Tenente-Coronel Miller? – Sparks veio até mim.

– Sim?

– Gostaria de pedir desculpas pelos tapas e pelas falsas ameaças, mas a senhorita disse para que fizéssemos uma simulação…

– Não precisa se desculpar, Sparks. Você fez um ótimo trabalho eu mesma não teria pensado em nada do tipo se aquilo fosse real.

– Tudo bem, bom eu vou até a outra tenda… – ele disse e eu assenti com a cabeça, pude o ver batendo continência e saindo.

– Você estava louca?! – Jack disse assim que Sparks saiu de nosso campo de visão.

– Louca por que, Jack?

– Me usar como cobaia até que estava tudo bem, mas deixar que esses inúteis te batessem?

– Jack, era apenas uma simulação. Eu quase iria desistir disso quando os soldados começaram a bater em você, mas aí Sparks apareceu com essa nova tática, e eu resolvi ver o que ele tinha em mente.

– Ele te bateu! Juro que eu vou retribuir o tapa que ele te deu!

– Você não fará isso. Jack, para de me tratar como se eu fosse uma garotinha indefesa! Se eu não quisesse que ele me batesse era só eu ter falado!

– Você está com a marca da mão dele no seu rosto, Jen… – ele disse enquanto acariciava minha bochecha.

– Ele é um bom soldado e é inteligente, marcas são apenas detalhes Jack, o importante é que eu consegui passar minha lição para eles. – disse e segurei a mão dele – Não quero mais ver esses seus ataques de ciúmes, certo?

– É só você não fazer mais esse tipo de brincadeira.

– Primeiro, o culpado pela minha participação nessa encenação foi você!

– Eu? – Jack perguntou indignado.

– Sim, você! Se você não tivesse com uma foto minha no seu bolso eu não teria entrado para a peça!

– Tenho culpa se gosto de ter você por perto mesmo estando longe?

– Sim, você tem! – eu disse – Se fosse real Jack, eu duvido que o inimigo teria tanta piedade de mim assim como Sparks teve!

– Piedade? Você chama a mão dele marcada no seu rosto de “piedade”? – Jack falou fazendo aspas com os dedos.

– Sim! Ele até que pegou leve! Escuta Jack, eu sei que você me considera sua melhor amiga…

– A irmã que eu nunca tive… – ele me interrompeu.

– Que seja, é perigoso em tempos como esse você andar com fotos de seus entes queridos nos bolsos da farda, perigoso até mesmo aqui na base militar…

– Tenente-Coronel, você pode me dar o sermão que quiser, mas sua foto continuará comigo.

– Você está colocando minha vida em risco. – eu disse sorrindo.

– Não, não, você colocou sua vida em risco no momento em que veio para cá. – ele disse sorrindo também.

– Seu idiota! Volte para sua tenda! – eu disse dando um soco de leve no ombro dele.

– Tudo bem, menina insuportável! – ele me deu um beijo na bochecha e saiu do local, me deixando sozinha com um tímido sorriso no rosto.

Capítulo 4