Capítulo 30

Salvação pela vitória

Jack

Jenna estava muito afastada nos dias que se seguiram e eu temia que o luto estivesse se intensificando, por mais que eu sempre conversasse com ela durante nossos dias, eu sentia que ela escondia alguma coisa, não exatamente esconder, mas era algo que dava para ver que era muito perturbador. Eu a encontrava mais nas refeições e no final do dia, depois dos treinos e depois de ela fazer as coisas como Coronel.

Tudo estava quase numa ótima calmaria, ainda estávamos com alguns conflitos em partes ocupadas pelos nazistas e seus subalternos, mas a Guerra já estava com seus dias contados, mesmo eu não sabendo o dia, mês exato, eu imaginava que não passaria por mais um ano.

– Jack, preciso que fique a meu dispor hoje, tenho muito o que fazer e preciso de sua ajuda. – Jen se aproximava de mim falando em um tom sério, mais sério que o normal.

– Claro, Coronel. – disse demonstrando de alguma maneira minha confusão e curiosidade.

– Capitão, tenho alguns relatórios para te entregar. – era estranho escutar Jenna me chamado pelo título.

– Jen, está tudo bem? – cochichei para ela porque eu realmente estava preocupado.

– Me acompanhe. – ela disse e começou a caminhar em direção aos carros. Obedeci as ordens da Coronel e a segui.

Jenna entrou em um dos carros e fez sinal com a cabeça para que eu entrasse também.

– Para onde vamos? – perguntei em vão, pois o máximo que Jenna fez foi dar partida no carro e dirigir – Quando eu era pequeno eu sempre sonhei em ser um super-herói… – resolvi mudar de assunto, já que Jenna não falaria nada sobre o que estava acontecendo.

– O que está fazendo? – ela perguntou e virou o rosto para mim, num misto de confusão e curiosidade, e percebi também um simbólico sorriso no canto de sua boca.

– Eu queria salvar as pessoas, voar, ter poderes, ajudar todo mundo… – continuei falando enquanto ela dirigia – Mas esses super-heróis não existem de verdade, pelo menos eu nunca vi um. – olhei para ela e ela mantinha os olhos na estrada, mas também prestava atenção no que eu queria falar – Na adolescência eu descobri que tinha um jeito de eu ser um super-herói, salvar as pessoas, foi então que eu comecei a estudar muito para me tornar médico. Me formei, me especializei e então… – olhei para a paisagem do meu lado do carro, um campo enorme e que parecia não ter fim, era de manhã e o sol estava brilhando de uma maneira muito bonita.

– Então? – finalmente ela havia falado com um tom de voz mais calmo.

– Então eu vim para a divisão liderada por grandes super-heróis, uma em particular muito bonita… – eu ainda tinha sentimentos por Jen, dos tipos que ela não teria por mim, ou se tivesse, não seria tão cedo.

– Jack… – ela ficava vermelha quando ficava com vergonha.

– Ah me desculpe, não estava falando de você, estava falando de Belle. – disse e senti meu braço ficar dolorido no instante seguinte com o soco bem forte, diga-se de passagem, que Jen havia me dado.

– Ela era linda mesmo… – percebia a mistura de saudade e insegurança na voz de Jenna.

– Jenna Miller, estava falando de você. – disse acariciando a bochecha dela – Claro que Belle era linda, mas eu estava falando de você, pequena.

– Qual o motivo dessa história? Sem querer parecer grossa… – ela mudou de assunto e eu afastei minha mão de seu rosto.

– Só queria te contar um pouco da minha infância… – a verdade é que eu estava querendo tomar uma decisão, mas não falaria para ela por enquanto.

– Eu não sei ser outra coisa além de militar, nunca tive outro objetivo na vida… – ela disse olhando para a estrada – Jack, tenho notícias esperançosas… – ela disse virando o rosto para mim e sorrindo.

– Pois diga!

– Estamos vencendo, Jack. A guerra está com os dias contados… – ela dizia sorrindo e aquilo era uma notícia muito boa!

– Que ótima notícia, pequena! – aquilo era realmente um ótimo motivo para ficar contente – Mas? – Jen não estava tão animada assim, eu via na maneira como ela tentava sorrir ao máximo e não conseguia êxito.

– Não tem “mas”, é uma ótima notícia. Estamos ainda em conflito, mas cada dia que passa nossas tropas estão derrotando os inimigos.

– Para onde estamos indo? – ainda voltaria para a questão da preocupação de Jenna.

– Para a vigésima divisão. – ela disse ficando séria – Vou falar com o Coronel de lá que nossas tropas vão ser transferidas, nosso regimento não será mais centralizado no treinamento de soldados…

– O quê? Por quê?

– Vamos nos juntar com a vigésima divisão Jack, os soldados serão treinados lá e na nossa base ficará apenas os militares de patentes mais altas para ajudar com as decisões do “fim da guerra”. – ela tirou uma mão no volante para fazer aspas com os dedos.

– O que você não está me dizendo? – queria que ela confiasse em mim, mesmo não podendo, ela estava sobrecarregada e precisava dividir esse peso.

– Me propuseram um acordo, Jack. Ganho o direito de me inteirar nos assuntos confidenciais com a condição que eu abra mão da liderança no treinamento dos soldados.

– Como assim, Jen? Você vai fazer isso? Abrir de uma das coisas que lutou para conquistar desse jeito?

– Agora eu sou a Coronel, Jack, não treino mais os soldados… – ela estava me escondendo alguma coisa – Eu preciso dar uma resposta para a vigésima divisão hoje.

– Então antes disso, me conte o que está acontecendo… – ela parou o carro no meio da estrada deserta.

– Harry era filho de uma judia, o que fazia dele teoricamente um judeu… – ela disse olhando para frente e respirando fundo – Você sabe o que andam fazendo com gente como ele, Jack? – ela me olhou nos olhos e tentava não chorar.

– Perseguindo… – sabia que os judeus não estavam com muita credibilidade e que estavam sendo perseguidos pelos nazistas e países aliados a Hitler.

– Perseguindo… – ela disse rindo, uma risada sarcástica – Quando os alemães invadiram a Polônia, Harry e sua família estavam tentando fugir para cá, para a Inglaterra, e só Harry chegou até aqui. – ela voltou a dirigir – Dachau, Auschwitz, era para lá que mandaram a mãe de Harry, em um desses lugares e a única coisa que se sabe com clareza é que o judeu que chega até lá, nunca mais sai de lá.

– Aquele protocolo na sua mesa, aquele dia… – aquilo era muito perturbador.

– Todos eles, Jack, todos esses Coronéis, esses representantes militares, todos eles sabiam disso, meu pai sabia disso. Sabe qual a decisão que todos em conjunto tomaram? – ela olhou para mim e eu balancei a cabeça negando – A salvação pela vitória.

– Não entendi…

– Eles não querem passar a impressão de estarem lutando em prol dos judeus, ou seja, Jack, os judeus serão salvos com nosso ganho nessa maldita guerra.

– Tem mais coisas, não é? – eu sabia que tinha – Jen, você não deve abrir mão de ser referência no treinamento dos soldados, não deixe que façam isso com você.

– Chegamos. – ela disse entrando na base militar da vigésima divisão e estacionou o carro – Me siga.

+++

– Coronel Miller, a que devo a honra de sua visita? – dava para detectar o tom de ironia na voz daquele senhor de longe.

– Coronel Connor. – o sorriso de Jenna também não era nada sincero – Esse é o Capitão Forlan, ele está me acompanhando nos protocolos. – acho que Jen esqueceu de me informar sobre aquele detalhe.

– E então? – o Coronel da vigésima divisão era alto, um pouco gordo, aparentava ter por volta de sessenta anos, um rosto rígido assim como sua postura, ele era tradicional e na certa não gostava nem um pouco de uma mulher ocupando uma das patentes mais altas no exército – Pensou na nossa conversa?

– Você quer dizer, na sua chantagem? – ela disse sorrindo ironicamente para aquele Coronel que estava rodeado de mais alguns militares, todos de mesma postura e aparentemente mesma idade.

– Criança, até mesmo seu pai estava de acordo… – o Coronel Connor tinha o semblante de que já estava com aquela batalha em particular vencida.

– Coronel… – Jen se aproximou do senhor que era respeitado por todos naquela sala, ficou cara a cara com ele – Eu não sou meu pai. – não consegui conter uma risada que escapou.

– A senhorita… – ele começou a dizer.

– Coronel. Por favor, me chame de Coronel, é o que eu sou… – Jen disse se afastando e sorrindo para ele.

– A Coronel… – ele dizia como se estivesse perdendo a voz, do tanto de esforço que fez para se referir a Jenna como Coronel naquela hora – Estamos pensando em um bem maior, a senhorita não está pensando racionalmente.

– Milhões de vidas! – ela gritou – Eles deram o aval para matar milhões de pessoas e o que vocês fizeram a respeito?!

– Assuntos da Alemanha e seus associados não nos dizem respeito. – o Coronel disse curto e grosso.

– Está bem. – Jenna disse respirando fundo – E se fosse sua família?

– Não é. Já falamos para você, a salvação dessas pessoas será feita com nossa ajuda, assim que vencermos essa maldita guerra, então eu sugiro que você foque em vencer essa batalha, só assim você vai salvar essas milhões de vidas. O que me diz? – ele a olhou bem nos olhos – Escute, estamos numa posição favorável a nós, Aliados, ou a gente se concentra em terminar essa guerra para que nossa nação não tenha mais baixas, ou além das baixas de nossa nação e dos países aliados, teremos as baixas dessas pessoas nos campos de concentração. Não é hora de deixar a emoção suprir a razão, Coronel.

– Com seu apoio e dos outros a gente poderia ajudar eles também. – a voz de Jenna estava fraca, ela estava sendo vencida.

– O Coronel Patrick Foster deu a vida para que seu regimento fosse reconhecido como ele é hoje, e num piscar de olhos você vai colocar tudo isso a perder? – infelizmente ele tinha bons argumentos. Jen estava agindo por um motivo um tanto pessoal.

– Eu quero meu direito de participar das decisões, meu regimento assim como o seu é referência, então é meu direito participar das decisões dessa guerra. – Jen fora vencida, a salvação dos judeus seria dada pela vitória assim como ela havia falado.

– Terá seu direito, Coronel. – o Coronel Connor sorria vitorioso e apertou a mão de Jenna – Vamos vencer essa guerra, Coronel Miller, e depois te ajudaremos nessas questões… – algo me dizia que ele não ajudaria Jenna em mais nada. Jen saiu daquele quartel general furiosa e seguiu em direção ao carro, corri para alcançá-la. Ela entrou no veículo e logo depois que eu entrei ela deu partida e saiu daquela base militar furiosa, cantando pneu.

Depois de um tempo dirigindo ela parou o carro na estrada e saiu do veículo. Fiquei no carro esperando e a vi correndo pelo campo até cair de joelhos no chão. Saí do Jeep e fui até ela. Escutei ela gritar e sabia que era de raiva.

– Pequena… – disse me aproximando, ela se levantou e pegou sua arma, começou a atirar no vazio daquele campo – Jen, para com isso! – me aproximei dela sem me tocar que poderia virar alvo dela e a segurei pela cintura.

– Me solta, Jack! – ela gritava e tentava mirar no nada para continuar atirando.

– Jen, para! Atirar assim vai nos trazer problemas!

– Problemas?! Me solta, Jack, eu exijo que me solte! – ela tentava lutar para que eu a soltasse, mas consegui imobilizá-la até que sua arma caiu no chão e ela se virou de frente para mim e me abraçou chorando.

– Estou aqui… – foi a única coisa que consegui dizer assim que ela me abraçou e eu retribui ao abraço com a mesma força. Logo depois ela se afastou e enxugou as lágrimas.

– Vamos nos concentrar em vencer então. – ela dizia seca e séria.

– Fala comigo… – eu pedia para que ela se abrisse, eu poderia ajudar se estivesse ao meu alcance.

– Vamos para a base, lá eu te mostro tudo o que andei lendo. – ela disse e voltamos para o carro.

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Jenna

Era insuportável se sentir o ser mais inútil da face da Terra, ter o poder ao meu alcance e não poder usá-lo para ajudar as pessoas. Eu comecei a me inteirar nos assuntos confidenciais daquela guerra e todas as noites eu me perguntava se aquilo foi o mais certo a fazer, se não poderia ter deixado com algum superior, mas eu era a líder daquele regimento, eu precisava fazer aquilo e foi quando descobri sobre a maior atrocidade da humanidade, pelo menos até agora.

– É uma história muito longa… – disse entrando no quartel general com Jack que aguardava minhas informações sobre os protocolos – A perseguição começou logo no fim da Primeira Guerra, mas a situação piorou em 1938, piorou para os judeus.

Na madrugada do dia nove para o dia dez de novembro de 1938, tropas nazistas levaram a cabo uma campanha coordenada de assassinatos, incêndios propositais e saques contra a população judaica na Alemanha, na Áustria e nos Sudetos da Tchecoslováquia.

Pogrom foi como ficou chamado o movimento popular contra os judeus, que quase sempre era acompanhado de pilhagem e assassinatos, a palavra tem origem russa. Foi o terceiro e último momento da campanha antissemita pré-guerra. Eu ainda não tinha entrado de fato para o exército, então esses assuntos só meu pai sabia. – disse me sentando na cadeira de frente para a mesa e Jack se sentou a minha frente – Do dia nove para o dia dez de novembro aconteceu a “noite dos cristais”. – fiz aspas com os dedos – Kristallnacht.

– Fiquei sabendo de algo assim, mas ninguém disse com muita clareza na época… – Jack disse me olhando.

– Aqui… – disse para ele mostrando os papéis referentes à “noite dos cristais” em cima da mesa, com os números da destruição.

Perto de mil sinagogas foram destruídas neste pogrom, 7500 lojas e empresas vandalizadas, 91 judeus assassinados e cerca de 30 mil judeus foram presos em campos de concentração.

– O que falaram sobre isso na época não condiz com o que está aqui nesses relatórios… – Jack disse horrorizado.

– Não mesmo. Foi chamada de “noite dos cristais” por causa dos cacos de vidros espalhados pelas ruas e calçadas das cidades alemãs. Os nazistas na época alegaram que as ocorrências daquela noite tinham sido um “explosão espontânea de ira popular” – fiz aspas com os dedos e revirei os olhos – em resposta ao assassinato de Ernst von Rath, o terceiro secretário da embaixada alemã em Paris.

– Deixe-me adivinhar, quem matou ele foi um…

– Judeu? Herschel Grynszpan, na época tinha dezessete anos e de origem polonesa, ele atirou em Von Rath dois dias antes da “noite dos cristais”. – disse mostrando uma foto do garoto para Jack que estava com a papelada.

– Mas por que ele fez isso? – Jack olhava a foto do garoto que provavelmente estava morto àquela altura, mas nenhum documento oficial de óbito foi revelado.

– Ele agiu em desespero pelo o que eu li aqui. Grynszpan ficou sabendo que sua família se encontrava entre os dezessete mil judeus poloneses que viviam na Alemanha e tinham sido deportados e abandonados na fronteira com a Polônia.

– E além de não conseguir ajudar a família ele só se complicou… – Jack tinha o semblante preocupado e sério enquanto olhava todas aquelas papeladas da “noite dos cristais”.

– E pelos anos que se seguiram… – disse pegando mais envelopes com protocolos sobre aquelas atrocidades – Dachau. – coloquei o envelope do protocolo de Dachau na mesa – Aquele que você começou a ler. Campos de concentração ao redor da Europa. E… – respirei fundo e coloquei um envelope ainda mais recheado em cima dos outros para que Jack olhasse – Auschwitz.

– Auschwitz? – Jack pegou o envelope maior e abriu – E você quer ajudar… – ele disse desistindo de olhar as papeladas e olhou nos meus olhos.

– É o mínimo que posso fazer por eles, por pessoas como Harry, eles estão morrendo Jack, nem todos tiveram a sorte de se camuflar, de escapar como Harry teve…

– Jen, me escuta. – ele disse e eu sabia o que ele iria falar.

– Salvação pela vitória. – era aquilo que iria acontecer, os judeus só seriam salvos com a guerra ganha pelos Aliados, mas eu não queria aquilo, eu queria ajudar aquele povo, ninguém parecia se importar.

– Jen, eu também quero ajudar, mas infelizmente não tomamos as decisões para isso, infelizmente a gente tem que esperar, eu sei o quanto isso significa para você, mas mais uma vez, infelizmente, eu tenho que concordar com aquele velho nojento da vigésima divisão, você está agindo pela emoção, não é a hora… – eu sabia de tudo aquilo, não queria escutar, não queria desistir de ajudar e esperar um milagre acontecer.

– Eu sei. – estava derrotada, e aquele sentimento era horrível.

– Eu te prometo que assim que tivermos uma brecha, uma oportunidade eu vou te ajudar nisso, mas agora não podemos deixar que suas emoções e seus assuntos pessoais se sobressaiam, tudo bem? – óbvio que não estava tudo bem – Jen, eu queria conversar com você sobre…

– Com licença, Coronel! – o soldado Hunt havia entrado no quartel general.

– Soldado. – ele bateu continência.

– Algumas cartas para a senhorita e também pediram para informar que o Coronel da 29ª divisão está aqui para falar com a Coronel. – ele disse entregando as cartas para mim.

– Capitão… – disse para Jack que entendeu o recado.

– Nos falamos depois, Coronel. – ele disse e bateu continência saindo junto com o soldado. Momentos depois o Coronel entrou na sala.

Capítulo 31