Capítulo 31

Let it go

Jack

Jenna andava muito ocupada naquela reta final, ou pelo menos o que parecia ser o final da guerra. Tudo estava caminhando para nossa vitória, a vitória dos Aliados e cada vez mais, durante todos os dias eu pensava em voltar para minha antiga profissão, mas ao mesmo tempo não queria fazer aquilo.

O fato era que eu amava Jenna, eu queria ficar com ela, ou pelo menos ficar perto dela, Jen já tinha perdido muita gente e pensar em sair do exército me fazia ficar com dúvidas se ela aceitaria ir comigo, mudar para outro lugar e começar uma nova vida, juntos, mas ao mesmo tempo não tão juntos assim, só na amizade mesmo.

Ela estava sobrecarregada demais com as coisas que descobria, principalmente sobre os judeus, mas não tínhamos muito o que fazer, por mais que quiséssemos ajudar, sozinhos e sem apoio só iríamos conseguir permanecer em guerra, perder as conquistas que tivemos e principalmente, morrer mais cedo. Era uma questão muito arriscada, mas ela se sentia na obrigação de ajudar, afinal, Harry teoricamente era um judeu.

Fiquei feliz por ela ter confiado em mim para me contar sobre aqueles protocolos, eram papeladas sem fim que mostravam o quão ruim pode ser a raça humana. Eu já tinha ouvido falar de Auschwitz. Quando o Coronel Foster era vivo ele já tinha me falado daquele campo de concentração e principalmente dos relatórios encontrados da Einsatzgruppen, o nome alemão para “destacamentos especiais”, ou seja, o assassinato de todos que eram considerados inconvenientes ao regime nazista e isso aconteceu principalmente na Polônia, em 1941.

Mais cedo ou mais tarde, Jenna iria se situar de todas aquelas questões, de todos aqueles protocolos sobre os judeus, de tudo e eu sabia que ela iria querer ajudar, fazer alguma coisa, mas não teria a permissão para fazer nada além de esperar a guerra acabar.

Por fora ela tentava procurar ajuda de alguns Coronéis que gostavam dela, e que tinha muito respeito e consideração pelo Coronel Foster, mas eram raras exceções que apesar de gostar de Jenna, realmente se interessavam em ajudá-la nesses assuntos.

Jen estava cada vez mais inteirada naqueles assuntos, e cada vez mais a par de tudo o que ainda estava acontecendo na guerra, o cargo de Coronel possuía muitas responsabilidades e Jen estava lidando até que bem com tudo aquilo. De alguma maneira era um jeito de ela se distrair, porque eu sabia, mesmo que ela não me contasse, mas eu sabia que todas as noites ela deixava o luto tomar conta dela, e se dormia, era bem pouco, porque suas olheiras de sempre representavam, além de insônia, preocupação e choro.

O final do ano havia chegado, as datas comemorativas haviam mais uma vez chegado e cada vez mais tentávamos encontrar motivos para celebrar. O fim da guerra estava cada vez mais próximo, dava para sentir, então os sentimentos de todos eram misturados entre preocupação e felicidade, pelo menos da parte dos Aliados era assim.

Eu estava no dormitório terminando de calçar minhas botas para mais um dia de trabalho, era véspera da véspera de Natal quando escutei alguém batendo na porta.

– Capitão… – Jen sorria de uma maneira calma que fazia tempo que não via, mas ainda assim seu semblante era triste.

– Entre, pequena… – ela estava mais corada, e conforme se aproximava podia ver que ela tinha passado maquiagem para disfarçar o peso da guerra em seu rosto.

Eu sempre observava muito o comportamento e a personalidade de Jenna, mas não chegava a reparar em sua aparência, não sempre, mas naquela hora vi o quanto Jen tinha marcas da guerra, não só no corpo e no rosto, mas em tudo. Jen sempre foi muito bonita encorpada se é que posso falar isso até em pensamento, forte nos dois sentidos, com uma postura impecável, mas a guerra deixou cicatrizes nela, era evidente. Ela estava magra, muito magra, a postura continuava rígida, mas seus olhos castanhos claros tinham se afundado um pouco e perderam o brilho que antigamente reluziam luz mais que o sol, seus braços e pernas tinham cicatrizes que eu ajudei a cuidar.

– Depois de amanhã é Natal… – ela dizia se aproximando e se encostando na parede que ficava ao lado da minha cama.

– É sim, pequena… – eu não sabia o que dizer para ela, ela costumava amar aquele dia, o ano anterior ela teve um Natal maravilhoso, mas e naquele ano? Como seria? Vi Jen mexendo em algo em seu pescoço que estava escondido na farda de inverno, era o relicário que eu havia dado para ela no ano anterior.

– Será que vai nevar? – ela queria falar alguma coisa, mudar o assunto para o clima era a prova nítida daquilo.

– É uma boa pergunta, pequena… – em sua mão direita vi também a pulseira que Harry havia dado para ela no Natal passado.

– Eu vou manter a tradição aqui na base, já encomendei a árvore de Natal, vamos enfeitar e tudo o mais, os soldados que quiserem ficar poderão comemorar com a gente, os que ficarem as famílias já enviaram os presentes… – ela mexia no pingente que não sabia se ainda continha minha foto e a foto dela – Mas hoje vou sair… – ela disse e olhou para mim.

– Posso saber aonde vai? Só para não morrer de preocupação… – disse e ela deu uma risadinha.

– Eu vim aqui justamente para te convidar… Se quiser ir comigo eu vou me sentir melhor, mas se não quiser eu também vou entender…

– Para onde vamos? – disse ficando de pé e sorrindo carinhosamente para ela.

– Quero ficar um pouco com eles… Uma maneira de desejar Feliz Natal… – ela disse se referindo ao pai e a Harry, já tinha entendido para onde iríamos – Mas é uma situação até que triste, então se não quiser ir eu entendo…

– Vai me deixar dirigir pelo menos hoje? – perguntei estendendo a mão para que ela segurasse e pudéssemos ir para o cemitério.

– Só por hoje… – ela sorriu e saímos do quarto.

+++

Tínhamos dirigido até o cemitério e não falamos muito durante o caminho, era um momento triste apesar de ser véspera da véspera de um dia supostamente para se comemorar. Jen encostou a cabeça na janela do carro e ficou olhando para a paisagem que se movimentava aos nossos olhos enquanto eu dirigia. Ao chegar no cemitério, parei o carro. O lugar não estava deserto, algumas famílias dos soldados que morreram na batalha estavam lá, provavelmente para fazer a mesma coisa que Jenna iria fazer: passar um momento com seus parentes.

Saímos do carro e deixei que ela caminhasse na frente, tivemos muitas baixas durante os meses que se passaram, mas nada comparado às baixas do retorno do Dia D, eu não ia para o cemitério tinha um tempo, a última cerimônia que participei foi a de Harry, depois daquele dia fui mais duas vezes para enterros de colegas de batalhão que não eram tão próximos, fui por respeito a eles. Jen, mesmo sendo a Coronel, não pisou mais naquele lugar depois da morte do pai e de Harry, ou se chegou a ir lá, foi sem que eu soubesse.

Ela tinha em suas mãos dois pequenos e simbólicos vasos de alguma flor que eu não sabia qual era e caminhava um pouco devagar até o local da primeira lápide que era do Coronel Foster. Estava a observando de longe. Ela se ajoelhou na grama e tirou as luvas das mãos. Não tinha percebido, mas ela estava com uma pequena pá no bolso. Jenna arregaçou as mangas da farda e começou a cavar ao lado da lápide. Me aproximei.

– Quer ajuda? – perguntei me abaixando ao lado dela.

– Não precisa, Jack… – ela disse cavando o buraco do tamanho do vaso.

– Que flor é essa? – perguntei para não deixar que o silêncio reinasse.

– Não é flor… – ela disse sorrindo e pegou um dos vasos, tirou a parte com a terra de dentro e colocou no buraco recém-feito na grama – É uma semente de carvalho branco… – ela começou a jogar a terra para tampar o buraco já com a semente – Não sei se posso fazer isso aqui, mas sinceramente, não ligo para as regras quanto a isso… – ela sorriu liberando uma risadinha.

– Vão crescer e deixar esse lugar bem bonito… – disse ajudando-a na plantação.

– Meu pai adorava essa árvore, então é meu presente de Natal…

– A outra também? – disse me referindo ao segundo vaso que ela havia levado para o cemitério e que provavelmente plantaria ao lado da lápide de Harry.

– Sim… – ela disse se sentando de frente para a pedra que tinha o nome do Coronel Foster com o ano de seu nascimento e falecimento.

– Vou deixar vocês a sós… – disse e comecei a levantar.

– Fique, Jack… – ela disse para mim e eu me sentei ao lado dela.

Jenna

O Natal costumava ser meu dia favorito no ano, mas em um ano muita coisa pode acontecer, tudo pode mudar e a mudança pode não ser tão agradável e desejada. Era Natal de novo, ou pelo menos quase Natal, e em comparação ao Natal que tive no ano anterior, o que teria naquele ano não seria tão especial, mas mesmo assim eu tentava focar nos meus motivos principais por sempre amar aquele dia do ano, mais até que meu aniversário.

– Agora eu sou Coronel… – comecei a falar com a lápide do meu pai, que esperava que de algum jeito pudesse me escutar – Faz um tempo que não piso aqui, e nesse tempo eu virei Coronel, eu me inteirei nos assuntos confidenciais, eu… – eu já estava chorando – O fato é, a guerra está com seus dias contados… – Jack me olhava – Eu te trouxe um presente, acabei de plantar, uma semente de carvalho branco… – não aguentava mais, então parei de falar e abaixei a cabeça, senti Jack me abraçando.

– Estamos bem, Coronel, apesar dos pesares, a gente vai conseguir ficar bem… – ele disse para a lápide do meu pai e eu concordei com a cabeça, resolvi não me demorar muito naquele cemitério, o Natal estava chegando e eu tinha que encontrar forças para continuar seguindo em frente, assim como todas as manhãs, todas as noites. Me levantei e limpei a terra da mão e do corpo.

– Feliz Natal, pai. – disse pegando o vaso com a outra semente de carvalho branco e indo até a lápide de Harry, aquilo seria tão dolorido. Fiz o mesmo procedimento, comecei a cavar o buraco na grama, mas então parei.

– Jen? – Jack estava ao meu lado e na certa ficou preocupado com minha repentina parada – Está tudo bem?

– Sim… – não estava, mas eu resolvi que aquela semente eu guardaria, levaria para outro lugar, talvez plantasse perto da casa na árvore, não sabia ao certo onde plantaria, mas não seria no cemitério – Vou guardar essa, vou plantar em outro lugar… – disse me levantando e batendo a terra da mão, novamente – Feliz Natal, Harry… – era dolorido demais fazer aquilo duas vezes, olhei para Jack e o abracei agradecendo aos céus por não ter que fazer aquilo uma terceira vez naquele dia.

– Ei… – ele disse me abraçando de volta.

– Eu te amo, Jack, eu te amo muito, não suportaria perder você. – aquilo era a mais pura verdade.

– Eu te amo, pequena, nunca vou te deixar… – algo na voz dele me fez ficar intrigada, mas o abracei mais forte ainda.

– Vamos… – disse me afastando e enxugando as lágrimas. Entramos no carro em silêncio, o vaso com a planta do segundo carvalho estava em meu colo, Jack iria dirigir mais uma vez, ele estava quieto e havia chorado no cemitério também – Jack?

– Oi, Jen… – ele disse virando a cabeça para me olhar.

– Eu estava prestando atenção aquele dia… – disse abaixando a cabeça – Parecia que não porque eu estava revoltada com todos aqueles protocolos, mas eu estava prestando atenção…

– Que dia? – ele perguntou tentando entender do que eu estava falando.

– Quando você falou que queria ser um super-herói… – ele sorriu – Você é meu herói, Jack… – olhei para ele, naquele mesmo dia Jack queria falar comigo sobre alguma coisa assim que mencionei o fim provável da guerra – Você gosta de ser um militar? – eu sabia o que ele queria falar, e me toquei que poderia estar atrapalhando as decisões dele.

– Ser militar é uma espécie de super-herói, pequena… – ele sabia do que eu estava falando.

– Mas você seria militar para sempre? Se aposentaria no exército? – ele parou o carro, era o mesmo descampado no qual eu tinha atirado sem parar de raiva aquele dia que não consegui ajuda de ninguém com a questão dos judeus.

– Por que não? – ele rebateu com outra pergunta. Saí do carro e encostei na porta do veículo olhando para o horizonte, o dia estava bonito e ao mesmo tempo gelado, minhas mãos estavam praticamente congeladas pelo fato de eu ter tirado as luvas para cavar buracos na grama que também estava gelada – Pequena? – ele saiu do carro também e foi até o meu lado, encostou na porta e olhou para o horizonte assim como eu.

– Talvez porque não é o que você queira, Jack… – disse encostando a cabeça no ombro dele.

– Mas como pode ter tanta certeza que eu não quero? – ele estava mais uma vez respondendo com outra pergunta.

– Seja sincero comigo, Jack… – olhei para ele.

– Jen, é véspera da véspera de Natal… Por que estamos falando disso? – eu sabia que ele não queria entrar no assunto com medo de me chatear, com medo das minhas reações e atitudes.

– Porque o seu jeito de ser um super-herói não é aqui, Jack…

– É sim. – ele estava sério.

– Não é não… – disse ficando de frente pra ele e acariciando sua bochecha, às vezes me sentia culpada por não corresponder aos sentimentos dele por mim – É na Itália… – disse e sorri para ele.

– Como assim? – ele ia se fazer de desentendido.

– Era sobre isso que queria falar comigo aquele dia e que nunca mais tocou no assunto, não é? Você quer sair do exército… – eu não estava chateada, talvez triste por ver Jack longe de mim, mas ele tinha que seguir o caminho dele, recomeçar a vida dele – Você foi bem cauteloso e cuidadoso em manter tudo em segredo, talvez para pensar bem a respeito, mas esqueceu um único dia de verificar as cartas antes de mim…

– Não estou entendendo, Jen. – ele continuava sério.

– Feliz Natal… – disse sorrindo e com os olhos marejados, tirei do bolso de dentro da minha farda dois envelopes e entreguei para Jack. Um deles era a carta de um hospital na Itália que tinha confirmado a contratação de Jack e o outro era uma carta dizendo que ele estava dispensado do serviço militar.

– Não, Jen… – ele disse abrindo os envelopes e vendo o conteúdo deles – Pequena… – ele começou a chorar – Eu não vou embora, eu não vou te deixar, pequena… – eu o abracei.

– Está tudo bem, Jack, a guerra está acabando, as coisas estão se normalizando, estamos bem, eu estou bem e você cumpriu seu serviço aqui, você fez sua parte pelo país, agora vá ajudar mais pessoas com aquilo que você sempre soube fazer, com seu dom para medicina…

– Jen, eu não vou… – o olhei nos olhos – Não vou sem você, não vou te deixar…

– Eu te amo… E isso é uma ordem… – enxugava as lágrimas dele.

– Vem… Vem comigo? – ele gaguejou para fazer a pergunta e eu fui pega de surpresa.

Jack

A reação dela era de surpresa, de alguém que não esperava por aquilo, eu não poderia deixar Jenna, eu não queria deixar ela sozinha, mas eu também não queria ser um militar para sempre, eu queria voltar para minha antiga profissão, e eu torcia, mentalmente eu rezava para que Jenna aceitasse minha proposta.

– Vem comigo, Jen? – refiz a pergunta, céus como eu queria que ela aceitasse.

– Jack… – ela ainda estava sem reação, mas no fundo eu sabia sua resposta, então sorri e a abracei.

– Vamos voltar para a base… – disse beijando a testa de Jen.

+++

Jenna

Era a hora de finalmente seguir em frente, era a hora de levantar a cabeça e continuar caminhando e por mais que eu não me sentisse pronta para aquilo, era o que eu tinha que fazer e tinha que permitir Jack de fazer também.

O Natal havia passado, e o Ano Novo veio nos trazendo cada vez mais esperança do fim da guerra, Jack logo partiria e eu precisava tomar minha decisão, precisava dar minha resposta para ele. Meu melhor amigo iria para um país que assim como o nosso, estava destruído e por conta disso, médicos estavam sendo requisitados não só lá, como no resto do mundo. Jack sempre teve um fascínio pela Itália, pela geografia do país e principalmente pela comida.

Fazia pouco tempo que tinha descoberto que Jack falava italiano perfeitamente bem, tão bem quanto sua língua materna, e por isso ele resolveu arriscar e tentar algum emprego por lá, em algum hospital. Jack apenas serviu o exército porque foi convocado, mas sua intenção nunca foi permanecer e formar carreira.

Os protocolos tomavam muito tempo do meu dia, em seis meses eu já estava a par de muita coisa sobre a guerra e já havia ajudado a tomar decisões importantes sobre alguns conflitos que ainda existiam, os Coronéis das outras divisões e dos países Aliados já tinham dado a guerra por vencida por nós, mas eu preferia esperar até um comunicado oficial, ou algo parecido.

Estava na sala lendo mais sobre os protocolos dos judeus, eu ainda queria fazer alguma coisa, mas não tinha ideia do que e como eu poderia ajudar. A frase “salvação pela vitória” ficava o tempo todo rondando minha cabeça. Era o segundo dia do novo ano, do ano de 1945, as celebrações de fim de ano foram ainda maiores e mais animadas que as do ano anterior, por parte dos outros militares, mas eu resolvi ficar no lugar onde teria a minha paz e o meu tipo de comemoração, na casa da árvore. Jack havia passado a virada do ano comigo, foi uma noite silenciosa em que praticamente fiquei olhando pela janela enrolada em muitas cobertas porque estava muito frio e Jack me deixou dormir em seu colo, na verdade eu havia pegado no sono encostada nele.

– Está nevando… – Jack entrou no quartel general sorrindo.

– Um leve atraso para as datas comemorativas… – disse olhando pela janela do lugar e percebendo que tudo ficava branco aos poucos.

– Jenna… – era estranho escutar Jack me chamando daquele jeito, ele estava sério, mas seu olhar não acompanhava seu rosto, seu olhar estava um pouco triste – Isso é para você… – ele disse se aproximando da mesa em que eu estava e erguendo nas mãos uma caixa de veludo. Peguei a caixinha e abri, tentava não chorar – Foi uma honra servir ao seu lado, Coronel. – olhei para ele e além de sua voz quase falhar, seus olhos seguravam as lágrimas, voltei a olhar para a caixinha em minhas mãos com os broches de Capitão que eu tinha dado a ele.

– Quando? – foi a única palavra que saiu de minha boca, ainda assim estava falhando, eu sabia que Jack iria embora e que ele tinha me chamado para ir com ele, mas não sabia que seria tão rápido.

– Essa noite… – ele disse e ele não conseguiu segurar as lágrimas, mas rapidamente tentava as enxugar. Levantei da cadeira e fui até ele o abraçando pela cintura – Você pensou no que eu te disse? – ele acariciava meu cabelo.

– Pensei. – disse e me afastei para olhá-lo, era a hora da decisão, respirei fundo – Você precisa ir sozinho… – vi Jack se virando e caminhando até o outro lado da sala.

Jack

Eu sabia a decisão que ela tomaria, mas esperança era algo que eu tinha muito dentro de mim. O hospital na Itália havia me contratado e pediu para que eu estivesse lá até a segunda semana depois da virada de ano, eu ainda não fazia ideia de onde moraria, mas teria que ir o quanto antes para resolver tudo. Partiria naquela noite do segundo dia do ano de 1945 e partiria sozinho.

– Meu lugar é aqui no exército, Jack… – ela continuava falando e eu tive que me afastar para que ela não visse de perto o quanto aquilo me afetava e me destruía por dentro, eu não queria deixar Jenna, mas eu também não queria ser um militar para sempre – Desde pequena é aqui que eu sempre quis estar, eu não conheço outra coisa que não o exército, eu não sei ser outra coisa… – continuava de costas para ela, mas senti que ela tinha se aproximado, ela estava logo atrás de mim, sua mão tocou minhas costas – Eu tive que batalhar muito para chegar aonde eu cheguei e essa é minha carreira, assim como a sua é a medicina… Eu tenho que te deixar ir…

Foi por impulso, mas a única coisa que passava na minha cabeça era que eu estaria indo para longe de Jenna e por isso eu me virei e a beijei. Para minha surpresa Jen retribuiu o beijo, mas ele não durou o quanto eu queria que durasse, ao mesmo tempo que foi longo, foi rápido. Ela estava em meus braços e segurava em meu pescoço, mas no instante seguinte ela se afastou, me olhou nos olhos chorando e voltou a me abraçar forte.

– Você tem que me prometer nunca, em hipótese alguma, me abandonar, ou sequer parar de falar comigo. – ela chorava e eu a apertava em meus braços.

– Promessa feita. – disse chorando. Continuamos no abraço por um longo tempo em silêncio, soltar seria quase destruidor, mas uma hora iríamos ter que fazer aquilo.

– Meu super-herói… – ela disse começando a se afastar, via o sorriso triste em seu rosto – Que tem um beijo bom… – ela disse sussurrando e deu uma risada.

– Desculpe… – eu estava envergonhado pela minha atitude e pelo comentário dela – Mas se quiser repetir saiba que estou à disposição… – ela soltou a gargalhada mais espontânea que há tempos eu não ouvia, então se aproximou de meu rosto e me deu um beijo na bochecha.

– Prometo te visitar assim que possível… – ela disse me olhando nos olhos.

– Nem cogite a possibilidade de não ir, eu vou te aguardar. Assim que eu me estabelecer lá, tiver uma casa, eu te mando o endereço, mas assim que eu chegar eu também te mando uma carta avisando…

– Mande sempre, mande toda semana Jack, eu não quero e não vou te perder, está bem? Eu vou mandar também.

– Deus sabe o quanto eu te amo, pequena…

– Eu também sei… – ela disse me abraçando mais uma vez apertado, mas logo se soltando para me deixar ir – Vá arrumar suas coisas… Te encontro mais tarde… – ela disse se afastando e enxugando as lágrimas. Só consegui concordar com a cabeça e me retirei do quartel general.

+++

Jenna

O anoitecer chegou mais rápido do que eu queria. Era hora de me despedir de Jack, mas sabendo que não era uma despedida definitiva, mas é isso o que acontece em todos os “adeuses”, parece sempre que é para a eternidade, mas agradecia aos céus por daquela vez não ser.

Ele havia pegado suas malas, não eram muitas, afinal ele vivia de farda o tempo todo assim como eu. Jack estava de farda, era parte da lei do regimento. Meu melhor amigo estava ao lado do carro que o levaria até o destino dele, não sabia se ele iria de trem, como ele iria para a Itália. Assim que me aproximei dele ele jogou as malas no chão e foi correndo me abraçar. Eu não queria chorar, mas era praticamente impossível.

– Cartas, não se esqueça… – disse para ele durante o abraço, eu não queria me despedir então eu disse aquilo como se Jack fosse apenas viajar pelo final de semana e logo voltasse.

– Todo dia, toda hora, sempre… – ele disse se afastando do abraço – E vou estar te esperando, não demore… – seu sorriso era tão lindo, Jack era tão lindo. Ele disse aquilo e foi até o carro, eu sabia que ele também não queria se despedir, não como se imaginam uma despedida, foi melhor daquele jeito. Ele colocou as malas no Jeep, um dos Tenentes estava no banco do motorista aguardando. Antes de entrar, Jack pela última vez, bateu continência e minhas lágrimas não pararam de cair até o carro estar fora do meu campo de visão.

Capítulo 32