Capítulo 32

Cartas

Jack

“Eu já disse o quanto eu gosto da Itália, Pequena? Acho que já mencionei algumas vezes…

Não mandei nada antes porque queria que você pudesse mandar suas respostas, suas cartas, para um endereço definitivo, então fiquei as últimas semanas me organizando, procurando onde morar, e claro, trabalhando muito.

Mal cheguei para o primeiro dia de trabalho e não parei até agora. Se não estava em cirurgia, estava procurando por uma casa. Nos primeiros dias eu fiquei em um hotel barato que o hospital estava pagando pela minha hospedagem, mas sabe como é vida de médico, não é? Ficamos em ‘casa’ só para falarmos que temos uma casa, mas moramos de fato no hospital. Se fui para o hotel por cinco dias seguidos foi muita coisa.

Enfim, eu consegui uma casa, é um apartamento pequeno, próprio para quem leva a vida de médico, aconchegante e com dois quartos! Ou seja, seu quarto já está pronto para quando você quiser vir me visitar, ou se um dia decidir, morar por aqui.

A Itália anda meio destruída, a guerra faz isso com a gente, não é mesmo? Somos muito experientes nessa parte, mas assim como nosso país, a Itália está se reconstruindo, estamos cada um fazendo nossa parte e sei que dias melhores vão vir, para todos, inclusive até para a Alemanha e os países associados a ela.

Espero não ter te deixado muito brava e revoltada com a falta de notícias, mas também espero que essa primeira carta compense esse tempo sem nos falar.

Aguardo ansiosamente sua resposta, Pequena!

Assim como eles dizem aqui: Ti amo (que significa eu te amo, mas em italiano).

Jack Forlan”

Jenna

“Jack Forlan, eu espero que de alguma maneira tenha sentido que eu estava te matando de uma maneira bem lenta e dolorosa por não ter me avisado assim que chegou, mas saiba também que depois de eu ter te xingado por dias, e ter desejado te matar, eu sempre pedia desculpas e falava ‘tudo bem, Jack, eu te odeio agora, mas ainda te amo’.

Fico feliz e muito aliviada de receber notícias suas, eu queria que tivéssemos um jeito mais rápido de nos comunicarmos, mas pelo o que vejo isso está longe de existir, vamos nos manter nas cartas, que é uma maneira mais fácil de entender do que o Código Morse.

Já estamos no meio de fevereiro, puxa vida, ontem mesmo foi a virada de ano! Aqui no regimento as coisas continuam as mesmas, estou aguardando por notícias do fim da guerra, é só isso que posso falar desse assunto por uma carta, afinal, nunca se sabe o que pode acontecer…

Tivemos mais cerimônias de enterros, eu fui a algumas… Pisar naquele cemitério ainda dói, mas já não é mais uma dor tão absurda quanto antes. A árvore que plantei ao lado da lápide de meu pai está começando a crescer, espero que isso não me traga problemas depois, e que principalmente não afete a estrutura subterrânea daquele lugar…

Mas além das cerimônias de despedidas, tivemos cerimônias de novos cargos, acredite se quiser, Jack… Chill agora é um Capitão, e é nomeado por mim… O pós-guerra mexe com a gente. Muitos soldados estão tendo problemas psicológicos, os médicos estão chamando de ‘traumas pós-guerra’, você já leu algo sobre isso, já ouviu falar?

Como estamos caminhando para o fim, poucos são os soldados que ficaram no regimento, nossa base está meio monótona, e cada vez mais vazia, o Coronel Connor comentou de juntarmos os regimentos, dessa vez para ‘aproveitar ambos os espaços’, palavras dele, mas eu não quero. Vou usar minha autoridade como Coronel e impedir isso. Minha base, minhas regras.

Já se adaptou na Itália? Rotina de médico parece ser bem corrida mesmo, mas eu sei que apesar do cansaço você está adorando ter voltado para sua antiga profissão e sendo o super-herói que sempre quis ser…

Fico feliz também que arrumou um lugar para chamar de seu e mais feliz ainda que tenho meu próprio quarto. Ainda não posso deixar a base para te visitar, mas em breve prometo ir para aí, vá se situando dos lugares e pontos turísticos para me levar, nunca fui para a Itália, na verdade a única vez que saí da Inglaterra foi para a Normandia, e não foi uma viagem tão legal assim, não é mesmo?

Continue sempre escrevendo para mim, Jack…

Deus sabe o quanto sinto sua falta e o quanto te amo, não se esqueça disso jamais!

Jenna Miller”

Jack

“Pequena eu preciso com urgência te contar o que aconteceu esses dias.

Eu estava esperando o bonde para ir para o hospital, coisa rotineira, mas naquele dia eu vi uma linda mulher parada na estação (por favor, não fique com ciúmes), ela também me olhava. Mas poderia ser coisa da minha cabeça, não é mesmo? Meu bonde chegou e eu tive que subir nele, sentei em um lugar que ainda conseguia ver a moça, e ela ainda me olhava, então eu sorri para ela.

Mas não acaba por aí… No mesmo dia eu estava saindo do hospital, era entardecer, e passei por uma cafeteria, a moça do bonde estava sentada em uma das cadeiras de lá e estava concentrada lendo um livro e tomando algo que não sei o que era, parecia café. Eu não sei o que foi o que eu senti, mas me deu muita vontade de falar com ela, mas minha timidez me atrapalhou e eu segui meu caminho, não sem antes dar uma virada para trás e ver que a moça me olhava e dessa vez foi ela quem sorriu para mim.

Sobre os transtornos, aqui na Itália estamos vendo muitos casos disso, é o que chamamos de transtornos de estresse pós-traumáticos, soldados que serviram nas batalhas nos procuram falando sobre problemas com insônias, sonhos que parecem reais, culpa por sobreviver, coisas nesse estilo que mudaram totalmente a vida dessas pessoas quando voltaram para a casa. Ainda não temos uma cura para isso, ou um remédio que de fato ajude, mas o hospital está promovendo reuniões para os veteranos de guerra, uma espécie de associação anônima para que os veteranos se abram e tentem desabafar, eu participo de algumas, mas os sonhos que tenho tido com a guerra não são praticamente nada comparados aos de muitos ex-militares. Espero que todos possamos nos ajudar.

Falando nisso, me conte se tem tido algum episódio parecido, pelo o que eu vejo a solução no momento é a gente ir se abrindo com os outros e dividindo o peso e a dor, então saiba, Pequena, eu estarei aqui se quiser falar sobre.

Nossa, e pensar que você já quebrou o nariz de Chill, as coisas mudam, e fico sempre feliz de saber sobre o fim dessa guerra, a propósito, com essa carta vai também o meu presente de aniversário para você, espero que chegue tudo em ordem e que chegue no dia certo… Assim como eu espero que você goste.

Sinto sua falta todos os dias, tenho sua foto aqui comigo que me ajuda quando tenho um dos pesadelos da guerra, eu sempre te disse que o seu sorriso me acalmava e essa foto é o que tem cumprido esse papel já que não te vejo mais como antes.

Te amo Pequena, feliz aniversário!

Jack Forlan”

+++

“Eu sempre me abri com você, Pequena… E dessa vez não vai ser diferente.

Eu vi a moça mais uma vez essa semana, na verdade agora que reparei melhor, ela sempre está no mesmo lugar que eu na parte da manhã, esperando pelo bonde dela que vai para algum destino que eu desconheço, porque meu bonde sempre chega primeiro. Trocamos olhares mais uma vez e no outro dia de novo, mas eu não sei o que me impede de ir até ela.

Na verdade eu quero ser sincero com você, eu te amo e sempre tentei fazer você me amar da mesma maneira, mas eu percebi que fomos feitos um para o outro, mas para sermos irmãos. Eu acho que é isso que tem me impedido de conversar com aquela moça, não estou te culpando de nada, muito pelo contrário, é algo que eu tenho que dizer para mim, todos os dias e todas as horas, tenho que dizer que te amo, mas que você não é o grande amor da minha vida.

Fui rude?

Me perdoe, espero que não entenda errado, da próxima vez eu vou tentar criar coragem e ir falar com ela, a moça é bem bonita, os cabelos são longos e de um castanho bem escuro, de longe vejo que seus olhos também são castanhos, ela é branca, acho que da sua altura, enfim, Jen ela é muito bonita, mas é óbvio que você é mais…

Aguardo notícias suas.

Jack Forlan”

Jenna

“Jack Forlan! Que presente lindo, eu simplesmente amei, é um lindo diário e assim que eu tiver um tempo começarei a escrever! A propósito, o segundo presente que veio junto eu também amei, não vou fazer meu discurso de que aquele colar deve ter custado uma fortuna, vou apenas dizer que eu amei e assim que eu tiver uma oportunidade eu usarei.

Passei meu aniversário no regimento, ele passou tão rápido que eu nem percebi, nem comemorei, afinal, as pessoas com quem eu gostaria de comemorar não estão aqui, pelo menos não da maneira como eu queria…

Jack, eu te amo e todos os dias peço desculpas mentalmente por não corresponder ao seu tipo de amor, mas sabe de uma coisa? O destino às vezes nos engana, e o seu brincou um pouco com você, então aproveite que está a par da situação, aproveite que descobriu essas travessuras do seu destino e crie coragem! Eu não fiquei com ciúmes de saber sobre a moça, na verdade eu fiquei curiosa, então vá falar com ela e me mande notícias, eu desejo sempre tudo de melhor para você!

Sobre os transtornos… Bom, eu tenho sempre sonhos com aquele dia, tenho sonhos com Harry, com meu pai, com Belle, eu me vejo naquela praia, vejo todos ao meu redor, mortos, mas depois o sonho muda, muda para o dia do enterro de Harry, confesso que acordo no meio da noite chorando e com uma dor absurda no coração, mas me forço a me acalmar, me forço a superar, porque é o que temos que fazer…

Espero em breve te dar notícias boas sobre a guerra, e poder falar que vou te visitar, não me aguento de saudade, Jack!

Eu te amo!

P.s.: obrigada pelos presentes eu simplesmente amei!

Jenna Miller”

Jack

“Não precisei criar coragem, Jen. Não precisei contar até três ou qualquer número que fosse para ir até a moça, na verdade o nome dela não é ‘moça’, é Laura Donatti e ela literalmente veio ao meu encontro. Tudo bem eu explico melhor…

Foi na semana passada, e eu só não escrevi no mesmo dia e enviei o mais rápido possível a carta para você, porque o trabalho me consumiu de uma maneira absurda naquela mesma semana. Agora tive uma folga então escrevo como tudo aconteceu.

Eu estava voltando do hospital direto para casa, tentar descansar depois da minha correria do dia a dia, eu estava tão distraído que quando percebi já tinha trombado com a moça (agora com nome, Laura) e ela estava com muitos papéis na mão, provavelmente também estava tão distraída quanto eu. Foi uma chuva de papel, Pequena, e na mesma hora eu já ajudei a juntar antes que o vento se encarregasse de levá-los para longe.

Foi quando olhei e vi que a pessoa com quem tinha esbarrado era a moça do bonde, no instante seguinte que eu pedi desculpas eu perguntei o nome dela, o que deixou nós dois bem surpresos, não é sempre que um estranho tromba com a gente e já logo abre um sorriso e pergunta o nome, não é mesmo?

Ela disse o nome dela e eu logo me apresentei também, terminamos de recolher os papéis e mais uma vez eu pedi desculpas e ela disse que não tinha problema nenhum. Foi quando eu perguntei se ela aceitaria tomar um café comigo naquela mesma hora.

Mais uma vez nós dois nos surpreendemos, mas para minha maior surpresa ela disse sim, e então foi um fim de tarde maravilhoso, Jen! Laura é filha de um dono de vinhedos, mas optou por viver na cidade trabalhando na loja que a família tem de vinhos, ela contou também que com a guerra os negócios não estavam lá muito bem, mas que todos estavam trabalhando para se reerguer, eu contei um pouco sobre mim também e quando vimos a hora já era noite. Então eu perguntei se ela gostaria de me encontrar outro dia, para um almoço, outro café, talvez até um jantar…

Ela aceitou!

Vamos nos encontrar no final de semana se tudo der certo (e vai dar).

Fico imensamente feliz que gostou dos presentes, Pequena, eu queria tanto poder estar aí com você no seu dia especial, mas não consegui que me liberassem, me desculpe por isso… Prometo que assim que conseguir mais que um dia de folga eu vou te fazer uma visita!

Eu te amo!

P.s.: me deseja sorte para o final de semana…

Jack Forlan”

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“Estou um pouco preocupado Jen, tem dias e semanas que não me escreve, espero que esteja tudo bem por aí e que essa sua ausência repentina seja por conta de relatórios…

Já que não me escreve eu continuo te escrevendo, vou te contar o que aconteceu depois que conheci Laura. Nós saímos para outro café no final de semana e ficamos o resto da tarde e o início da noite passeando pelo centro da cidade, até que ela disse que precisava voltar para casa e então eu a acompanhei.

Ela mora em uma casa muito bonita, pelo menos de fora parece ser bonita, deixei ela na porta do lugar e ficamos em silêncio… Por que isso acontece nessas ocasiões? Não sabíamos o que falar ou fazer, então eu contei até três mentalmente e me aproximei dela, continuei me aproximando e a beijei…

Ficamos bem envergonhados depois, mas para mostrar que eu queria vê-la de novo eu disse: ‘podemos almoçar juntos, essa semana?’ Laura sempre me surpreende, ela disse sim com um tímido sorriso no rosto e suas bochechas ficaram tão vermelhas quanto o enfeite em seu cabelo…

Almoçamos juntos no meio daquela semana e posso te dizer que estou realmente gostando dela, me apaixonando, essas coisas… Não oficializei namoro nenhum, até porque farei isso nesse final de semana que virá, Laura me chamou para jantar na casa dela e de seus pais, estou nervoso, não faço a menor ideia de como vou ser recebido por aquele que ainda quero chamar de sogro e por aquela que quero que seja minha sogra… Se os irmãos de Laura não vão me matar, coisas desse tipo…

Me deseja sorte mais uma vez, Pequena, e por favor me dê notícias, estou preocupado, mas espero que não seja nada…

Te amo.

Jack Forlan”

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“Jen, estou morrendo de preocupação, já faz muito tempo que não recebo uma singela carta sua e isso me deixa com medo, por favor não me diz que teve que enfrentar o campo de batalha de novo! Você mesma disse que a guerra já estava vencida…

Por favor, me responda o mais rápido possível! Estou tentando conseguir uns dias de folga para ir até aí te visitar e escutar suas explicações pelo seu sumiço.

Laura sabe de você e da nossa relação, estamos oficialmente namorando, o pai dela, o senhor Donatti gostou de mim, conversamos muito no jantar, modéstia à parte, a família inteira dela gostou de mim e isso me deixa muito feliz.

Laura está ansiosa para conhecer a minha ‘irmã’, é assim que tenho te apresentado para todos que conheço, espero que não se importe. Eu estou vendo de pegar alguns dias de férias e eu, juntamente com Laura, irmos até a Inglaterra te fazer uma visita.

Espero que a senhorita me responda essa carta!

Te amo, estou com saudades e extremamente preocupado.

Jack Forlan”

Jenna

“Jack me perdoe! Me perdoe, me perdoe e mil vezes me perdoe!

Eu não te respondi porque não pude, não tive tempo nenhum, Jack eu tive que ir para a América, você acredita nisso? Pois é, nem eu! Me chamaram com urgência para lá, assuntos militares que eu não posso falar por carta, mas eu fui para os Estados Unidos em uma conferência com grandes líderes militares, o senhor Patton estava lá! Foi uma honra conhecê-lo, mandarei a fotografia com a carta.

Mais uma vez me perdoe pela ausência e por ter te deixado preocupado, eu juro que não tive tempo de escrever, mas eu recebi suas cartas.

Jack, você está namorando! Laura parece ser uma mulher encantadora, espero que ela esteja te fazendo feliz, e vice e versa. Estou ansiosa para conhecer minha cunhada, o que significa que É ÓBVIO que o senhor pode me apresentar como sua irmã, até porque eu tenho feito o mesmo com você, principalmente na América.

Sobre minha viagem para lá, como pode perceber fiquei um tempo até que longo na América e lá é tudo… Não sei explicar, mas eu gostei do clima e do ambiente, pelo menos de onde eu fiquei, Nova York. Eu conheci um rapaz nesse tempo que fiquei lá, mas não se iluda, ele praticamente foi meu guia pela cidade, ficamos muito próximos, e aconteceu… Acabei dormindo com ele, mas logo a culpa me pegou de uma maneira absurda.

Ainda não estou pronta para isso, não queria ter feito o que fiz, era para eu ser de Harry, mas Harry não está mais aqui. Ainda assim me sinto culpada, me sinto como se tivesse traído o grande amor da minha vida. Eu contei a verdade para o rapaz, Steve o nome dele, também militar, também Coronel e jovem assim como eu e você. Steve disse que estava gostando de mim e que não queria que eu fosse embora, ele queria tentar um relacionamento, mas eu fui sincera com ele, ele ficou chateado, mas mesmo assim entendeu e pediu para que mantivéssemos contato.

Mas é melhor não mantermos nenhum contato, confesso que foi uma noite boa, minha primeira vez e tudo o mais, mas eu não quero isso para mim, não quero outro relacionamento, não estou preparada, me sinto culpada pelo o que aconteceu.

Jack, me perdoe mais uma vez por não ter respondido, espero que esteja tudo bem com você e que você não queira me matar…

Eu te amo!

Jenna Miller”

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“9 de maio de 1945.

Olhe bem para essa data!

Jack, boas notícias! Excelentes notícias, se é que você já não ficou sabendo… A guerra acabou, acabou, Jack! Ontem saiu o comunicado oficial, a guerra acabou! Acabou!

Jenna Miller”

Jack

“Pequena, não imagina o meu alívio de receber correspondências suas! Meu coração está tão tranquilo agora!

América? Para quem dizia que não havia saído da Inglaterra, ir para a América foi um GRANDE passo, não é mesmo? Espero que tenha aproveitado seu passeio por lá e um dia podemos ir todos juntos, quem sabe?

Steve…

Acho melhor conversarmos sobre todos esses assuntos mais recentes (como esse tal de Steve) pessoalmente…

Isso significa que eu estou indo te visitar… Precisamos conversar pessoalmente sobre alguns assuntos, me aguarde, daqui duas semanas estarei aí…

Jack Forlan”

Capítulo 33