Novos planos
Jenna
Seis meses do “novo” ano haviam se passado e com ele muitas coisas aconteceram não só comigo, mas com Jack e com o mundo.
Eu havia viajado para outro continente, Jack havia se mudado de país e estava namorando, a guerra havia acabado definitivamente, todos estavam se reconstruindo, o mundo estava se reconstruindo e eu iria tentar de alguma maneira ajudar os judeus que ainda não tinham sido ajudados, eu ia fazer tudo ao meu alcance. A preocupação de guerra havia acabado e estava na hora de agir.
Jack iria me visitar, ele chegaria em alguns dias e não queria receber ele no regimento, por isso voltei para casa. Deixei a divisão sob o comando do Capitão Chill, no final das contas ele era um bom amigo e um excelente militar, eu confiava nele para aquilo, a gente aprendeu a confiar um no outro e deixar todas as implicações de lado. Jack com certeza ficaria surpreso com aquilo, se não fosse minha própria história eu também ficaria bem surpresa e chocada.
Minha casa ficava perto de Londres, era um bairro simples, em uma cidade vizinha, não era grande, não era luxuosa e havia anos que estava fechada, por isso eu teria que fazer muita coisa se quisesse receber Jack como ele merecia.
A grama do jardim tanto de trás quanto da frente estava tão alta que pensar em cortar me deu um cansaço repentino, mas respirei fundo e comecei o trabalho duro. Tive ajuda dos vizinhos, eles ficaram felizes em me ver e eu também. Ficaram tristes ao saber de meu pai, me ofereceram comida e essas coisas, eu sentia falta daquilo, fiquei anos presa no regimento, voltar para casa parecia ser tão estranho, a minha casa se tornou a base militar, eu nem tinha roupas normais o suficiente, as que ainda me serviam eram velhas, teria que resolver aquele problema também.
A casa estava empoeirada do chão ao teto, foram dias de muito trabalho duro, mas no final tudo ficou limpo e impecável, mudei alguns móveis mais estragados e reformei outros, estava pronta para receber Jack e ficava me perguntando se Laura viria com ele, eu estava ansiosa para conhecê-la.
Chegou o dia da chegada de Jack, ele mandou outra carta dias antes dizendo que me encontraria no regimento, então deixei a casa bem limpa e arrumada e antes de voltar para a base militar uma de minhas vizinhas me ajudou no quesito roupas e aparência. Fazia muito tempo que eu não tirava um tempo para cuidar de mim. Depois da “manhã de beleza” peguei minhas coisas e dirigi até a base, Jack chegaria a qualquer momento.
Jack
O táxi não sabia exatamente onde ficava a base, por isso pedi que ele me deixasse perto do local, eu sabia que Jen mandaria alguém me buscar, dito e feito, alguns quilômetros antes de chegar até a base, havia na estrada um Jeep a minha espera e quem estava ao lado dele era ninguém mais, ninguém menos que Brian Chill.
– Forlan! – ele sorria para mim, já era muito estranho eu ter que chamar ele de Capitão, mais estranho ainda era ele sorrir com minha presença.
– Chill… – disse caminhando até ele e o cumprimentando com um aperto de mão – Jen falou sobre sua promoção… – entramos no carro e ele começou a dirigir.
– Muita coisa mudou, Forlan, muita coisa aconteceu, mas Jenna irá te deixar à par de tudo e por falar nisso… Ela está linda, Jack, tem certeza que está namorando? – ele riu e eu o olhei confuso – Jen me contou algumas coisas.
– Jen? Está chamando ela pelo apelido? – muita coisa realmente tinha mudado.
– Eu sei, é muita informação, mas com o tempo você se situa de tudo.
– Acho que vai demorar um pouco para tudo isso entrar na minha cabeça… – disse ainda confuso e surpreso e Chill riu.
Chegamos na base militar e ele estacionou o Jeep perto dos outros. A base também era uma das coisas que havia mudado muito, estava mais moderna, diferente de um jeito bom, ainda tinha soldados treinando, mas não eram mais treinos intensivos.
– Vou avisá-la que chegamos… – Chill disse saindo do carro e indo para o quartel general chamar Jenna. Até que momentos depois ela apareceu.
– Você ama Laura, você ama Laura e é com ela que quer passar o resto da vida… – eu falava para mim mesmo. Jenna estava magnificamente deslumbrante, mais do que já era, muito mais, meu Deus eu tinha que manter o foco.
Ela se aproximava com o passo acelerado, mas não corria por conta do salto alto vermelho. Salto alto vermelho! Eu nunca tinha visto Jen daquele jeito, estava tão acostumada a ver ela de farda, seja farda de inverno, farda feminina, farda era farda, acho que nunca tinha visto Jen com uma roupa tão diferente como naquele momento. Ela estava de salto alto, estava de saia, uma saia justa e com seu comprimento até abaixo do joelho, em um tom de marrom claro que não chegava a ser bege, acredito que era influência daquela modelo americana, Marilyn alguma coisa… Ela estava com uma camisa linda branca que estava para dentro da saia, Jen havia cortado o cabelo, estava na altura do queixo, um pouco abaixo, mas era um corte que eu nunca pensaria que ela usaria, ele estava ondulado. Jen aparentava estar mais saudável, ainda magra, mas não tão preocupante quanto antes, estava corada, maquiada, com batom também vermelho, eu tinha que manter meu mantra.
– Jack! – ela gritou assim que me viu e chegou até mim me dando um abraço bem apertado – Meu Deus, meu Deus que saudades, meu Deus eu te amo tanto! – ela dizia me abraçando, eu a abraçava da mesma maneira – O que foi? –eu ainda estava em transe mesmo depois do abraço, Jen estava tão diferente, ainda muito mais linda e com certeza ela tinha percebido.
– Na… Nada! – me obriguei a voltar do transe – Jen, nossa! – disse olhando para ela de cima a baixo.
– Exagerado, não é? – ela disse desfazendo o sorriso e se olhando.
– Não! De jeito algum… – eu estava sem palavras.
– Você me olhando desse jeito eu fico sem graça, Jack, uma vizinha me ajudou nessa questão… Eu precisava cuidar um pouco de mim… – ela disse ficando vermelha e sem jeito.
– Me perdoe, Pequena, não foi minha intenção… É só que… Uau, você está incrível! – ela me abraçou de novo – Nem parece uma Coronel… – não disse no sentido que ela pensou, mas logo em seguida ela me deu um soco bem forte no braço.
– Pois eu sou. – ela estava séria.
– Desculpa, Pequena, não foi nesse sentido que quis dizer, eu disse porque eu nunca te vi sem as fardas, e… – eu tinha feito besteira e não tinha a menor ideia de como iria concertar.
– Te perdoo porque estou com muitas saudades! Vamos! Tenho que pegar umas coisas no quartel e depois vamos para a minha casa. – ela disse caminhando para o quartel general e eu tive que manter meu olhar fixo nas outras coisas pela base militar – Achei que Laura viria com você, ela não quis vir? – ela falava enquanto andava na minha frente.
– Quis, mas a família dela não permitiu, sabe como é… – eu só estava cometendo gafes atrás de gafes, percebi que tinha falado outra besteira quando Jen se virou para mim e me olhou séria – Eu vou ficar calado, prometo… – entramos no quartel general e Jen ainda estava séria, eu sabia que tinha tocado em um ponto delicado dela.
– Eu esperaria por Harry, mas ele morreu, e eu me sinto culpada até hoje. – ela estava um pouco seca e juntava algumas pastas da mesa dela.
– Não quis dizer isso, Jen…
– Mas disse. – ele colocou as pastas no armário e o fechou com força, ficou parada olhando para a porta dele – Foi uma única vez e eu espero que você não me olhe diferente sabendo disso. – sua voz estava falhando, eu não queria ter falado nada daquilo.
– Pequena… Me perdoe… – disse indo até ela e a abraçando com força – Falando nisso… Manteve contato com o Steve? – queria mostrar para ela que não a julgaria, não a olharia diferente, ela era minha irmã e poderia contar comigo sempre.
– Não… – ela disse com a voz mais calma.
– E por que não?
– Não estou pronta… – ela carregava uma culpa enorme por ter feito o que fez e se sentia como se tivesse traído Harry.
– Você merece ser feliz, sabe disso, não é? Você estava gostando do Steve?
– Não tive muito tempo de convivência com ele para sentir alguma coisa… – ela estava sendo sincera – Eu só dormi com ele porque ele realmente era um bom rapaz, ele me tratava tão bem, e uma noite aconteceu, mas eu não tinha nenhum sentimento por ele além da amizade…
– Eu acredito em você, mas Jen, se acontecer de novo, se você encontrar outro rapaz…
– Não vai acontecer. – eu teria que trabalhar aquela situação com ela, ela estava bloqueando a própria felicidade.
– Estava com tantas saudades… – disse mudando de assunto e vi o sorriso dela se abrir.
– Pois eu também, eu estava planejando ir para a Itália, mas você resolveu vir antes… – ela terminou de guardar as pastas no armário e o trancou, pegou um envelope em cima da mesa e sua bolsa… Bolsa.
– Tenho que admitir que te ver usando uma bolsa nunca passou pela minha cabeça… – disse observando como ela tentava segurar a bolsa e então ela riu.
– Isso é ridículo! – ela disse desistindo da bolsa, a segurou como se fosse outro envelope e olhou para mim – Estou parecendo uma palhaça, admita… – ela mais uma vez ficou se olhando.
– Jenna Miller, você é linda de farda ou com roupas normais, e você está linda desse jeito, o que importa é: você está gostando?
– Confesso que quando fui para a América, gostei muito de como as moças lá se vestem…
– América! Você precisa me contar muita coisa, mocinha! – disse e ela abriu um enorme sorriso – Principalmente sobre Brian Chill! – ela riu – É bom te ver rindo, Jen…
– Vamos, quero que conheça a casa onde cresci… – ela disse ficando tímida e indo para fora do quartel general.
+++
Era um lugar muito lindo, muito receptivo. A infância de Jenna pode não ter sido como a da maioria das crianças, mas eu via que foi boa, só por ela estar naquela casa, ter crescido lá.
– Deu muito trabalho, fazia anos que eu não vinha para cá, então se você reparar em algo que não gostou, mantenha apenas para você! – ela disse abrindo a porta da casa e me dando as recomendações que eu não seguiria, porque não teria nada que eu não fosse gostar – Venha, deixe suas coisas aqui… – ela disse apontando para a sala – Vou fazer algo para a gente comer…
– Vai cozinhar? – ela iria cozinhar?
– Não… – ela disse se virando para mim e sorrindo cúmplice – Minha vizinha fez uma lasanha maravilhosa para a gente, eu vou apenas esquentar…
– Com toda a certeza vai ser muito melhor que a comida do regimento… – disse acompanhando Jen até a cozinha, ela estava tão… Leve. Essa era a palavra, leve, como há tempos não ficava.
– Com certeza! – ela disse fechando o forno e se sentando na cadeira em frente a mesa – Senta, me conta tudo! – ela colocou os braços apoiados na mesa e como uma criança esperava pelas minhas histórias, aquilo me deixava tão feliz.
– Eu te contei basicamente tudo, pequena… – disse me sentando na frente dela – Quero saber de você, tudo o que não me disse por cartas…
– Então se prepara, porque tenho muito para contar!
Seria uma das melhores tardes que poderia pedir com Jenna.
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Jenna
– Uau, a América parece ser tão encantadora! – Jack disse sorrindo depois de nosso almoço e depois de eu contar mais detalhes sobre minha viagem até os Estados Unidos.
– Sim! Eu fiquei em um hotel muito bonito, não consigo me lembrar do nome, mas era coisa de outro mundo, apesar de eu ter ido para conferências militares, eu consegui aproveitar e sair por lá. Lá são muito populares esses… Bares! – não lembrava a palavra correta – Uma espécie de bares aonde muita gente vai para dançar, se divertir…
– Sabe que temos isso por aqui, não é? – ele disse rindo.
– Não, não sei, até porque não tinha tempo de ir para esses bares por aqui, ou esqueceu que estávamos em guerra? – disse rindo e comendo a torta de chocolate que minha vizinha também havia feito para mim e Jack.
– Mas lá deve ser mais animado, afinal, fica bem longe da guerra e tudo o mais… – ele disse comendo a torta e me olhando carinhosamente.
– Me deu vontade de mudar para lá… – disse abaixando o olhar.
– Uau… Bem distante, não é? – ele disse fechando o sorriso.
– Só deu vontade porque lá parece ser um bom lugar para recomeços, sabe… Escutei muitos dos militares de lá, até mesmo Steve dizendo sobre o “sonho americano”, que é basicamente ter um sonho e nunca desistir dele… Soou convidativo… – disse comendo mais um pedaço de torta.
– Então, quer recomeçar lá? – eu sabia que Jack estava chateado com aquela minha ideia.
– Eu quero recomeçar, Jack… Só recomeçar… Eu ainda acho que a qualquer momento Harry vai aparecer naquele batalhão dizendo que ficou esse tempo todo na França se recuperando, para voltar cem por cento para mim…
– Você ainda pode ir morar comigo, sabe disso, não é? – Jack tentava ajudar.
– Ao mesmo tempo que quero ficar perto deles, eu também quero um recomeço longe de tudo aquilo, mas é o que eu te disse, Jack, eu não sei ser outra coisa, eu não sei nem cozinhar! O que me faz lembrar que tenho que pedir para que minha vizinha faça o nosso jantar… – disse rindo.
– Para seu governo, Jenna Miller, eu sou um ótimo cozinheiro… – ele disse se gabando – E finalmente você vai ter a oportunidade de provar minha comida!
– Quanta honra! – disse rindo, mas por dentro ainda estava pensando nos últimos minutos de conversa.
– Me diz o que você está querendo me dizer… – ele sabia que eu queria contar mais coisas, Jack me conhecia muito bem.
– Eu quero recomeçar minha vida, Jack, mas eu ainda tenho que fazer algo antes… – ele me olhou preocupado e curioso – Eu andei fazendo minhas pesquisas sobre os campos de concentração… – disse me levantando e pegando o envelope que havia levado comigo para casa, entreguei para Jack que estava com o olhar sério – É horrível, Jack, é horrível saber isso, mas é mais horrível não conseguir pensar em nada para ajudar… Jack abriu o envelope e começou a ver as papeladas da minha pesquisa sobre toda a atrocidade que aconteceu com milhares de judeus naqueles malditos lugares.
– Uau… – ele disse lendo e o vi enxugando uma lágrima que havia escapado – Meu Deus… – ele estava vendo as fotos que eu havia conseguido.
– Eu descobri sobre muitas das pesquisas que eles faziam por lá, as experiências com os judeus e principalmente com as crianças…
– Crianças? – Jack disse olhando para mim e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
– Sim… – aquele assunto era dolorido demais para toda a humanidade, como puderam fazer aquele tipo de coisa? – Jack, eu vou para Auschwitz…
Jack
– Você vai para onde? – ela estava louca, ela com certeza estava fora de si.
– Me escuta antes de explodir, está bem? – ela disse rapidamente assim que eu dei indícios de que iria surtar.
– Eu prometo não fazer nada além de ir ver a situação, prometo ficar quieta, eu prometo que ninguém nem vai saber que estive lá… – não adiantava ela prometer nada, ainda assim era loucura!
– Não adianta prometer, Jen! Continua sendo uma loucura! – ela estava fora de si – Escuta, você quer recomeçar, não é? Vamos para a Itália comigo, você recomeça lá, eu te ajudo a se adaptar, vai ser bom para nós dois…
– Jack… – nada do que eu falasse ia fazer Jen mudar de ideia – Eu preciso fazer isso antes de qualquer recomeço, eu preciso… – ela pegou uma das folhas no meio daquela papelada toda – Muitas dessas crianças estão vivas… – ela abriu um sorriso esperançoso – Provavelmente sem famílias e sem ter onde morar, eu quero apenas me sentir útil, seja ajudando com comida, com acompanhamento médico… Eu tenho poder para isso, Jack, e eu preciso tentar… – ela me mostrou a folha, era sobre experimentos com gêmeos, crianças que foram cobaias de experimentos horríveis.
– Você não vai como militar, não é? – só queria que ela ficasse a salvo.
– Eu vou como uma mulher a trabalho, ninguém vai saber quem eu sou, não se preocupe…
– E quanto ao fato de que você não fala uma palavra em alemão? – ela era alvo fácil.
– Aber ich spreche Deutsch. – ela riu da minha expressão de surpresa – Eu já estava planejando ir para lá, então eu tive algumas aulas intensivas…
– Deu para notar… – não iria conseguir impedir Jen de ir para a Alemanha – Eu vou junto… – ela abriu um sorriso enorme.
– Vai? – o sorriso dela ia de orelha a orelha – Mas e seu trabalho, e Laura, Jack eu não quero atrapalhar em nada, eu só te contei porque você é meu irmão…
– Eu só preciso voltar para a Itália, trabalhar por algumas semanas em um intensivo de plantões, avisar Laura que você me convocou para ajudar em questões militares, então pegarei mais uns dias de folga e vamos para lá… – ela foi até mim e me abraçou.
– Obrigada, Jack! – esperava que ela realmente tivesse uma vida normal depois daquilo, sem mais riscos, sem mais batalhas.
