Novas batalhas
Jack
Foram os dias mais alegres que tive com Jen depois do turbilhão de coisas pelas quais nós passamos juntos. Ela estava mais leve, estava amadurecida, e ainda tinha um certo fetiche por adrenalina. Eu não poderia deixa-la ir para a Alemanha sozinha, a guerra tinha acabado de acabar oficialmente, isso não significava dizer que estava tudo em paz e que os alemães nos amavam, ou vice e versa.
Eu iria com ela, queria que ela se sentisse útil de novo e finalmente resolvesse seguir em frente com sua vida, mesmo que isso significasse que ela mudaria para a América eventualmente…
Eu voltei para a Itália dias depois e me sentia culpado por não poder contar a Laura toda a verdade sobre meus planos com Jen, então pensei muito sobre aquilo e dias depois mandei uma carta para Jenna pedindo permissão para contar o real motivo de eu ter que me ausentar por mais alguns dias futuramente. Jen respondeu logo em seguida, disse que só temia que Laura se preocupasse demais, mas que não havia nenhum problema em eu contar, até porque ela queria que Laura confiasse em Jen, já que eu havia contado para minha namorada sobre o que já cheguei a sentir por Jenna um dia.
Então, dias depois de receber a resposta de Jenna, marquei um jantar com Laura depois do meu expediente e iria contar a ela o que eu e Jen estávamos planejando.
– Querido, você parece apreensivo, o que aconteceu? – Laura disse assim que entramos no restaurante e nos sentamos à mesa.
– Meu amor, preciso te falar o motivo da minha futura viagem… – eu esperava que ela não brigasse, ficasse com ciúmes ou coisa parecida.
– É algo sério? – ela ficou preocupada na hora, segurou minhas mãos por cima da mesa e me olhava nos olhos extremamente preocupada.
– Não, meu amor, Jenna vai para a Alemanha, ela quer de alguma forma ajudar os judeus… – não conseguia definir a expressão de Laura.
– Entendo… – Laura sempre aceitava tudo tão bem e era o que estava aparentando no momento, mas eu percebia que ela não contava o que realmente sentia – E você vai para ajudá-la e protegê-la, não é? – ela esboçou um sorriso e eu concordei com a cabeça – Então peço que tomem cuidado vocês dois, não se metam em confusão…
– Eu te amo tanto, Laura… – disse sorrindo para ela e agradecendo aos céus por ela ter entendido.
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O hospital não me daria dias de folga por algumas semanas, mais ou menos uns três meses, por aí, por isso a viagem de Jen teria que ser adiada por um tempo, talvez só no ano seguinte, uma vez que já estávamos em agosto.
Escrevi para Jen avisando sobre tudo, disse como Laura reagiu e também disse o que eu estava pensando sobre a reação dela, a única coisa que Jen me escreveu de volta foi uma carta com três frases.
“Jack, você é um idiota.
E lerdo.
Estou indo para a Itália em uma semana te visitar e te socar na cara.”
Não entendi o que foi aquilo, mas em poucas horas eu teria minha explicação. Jen estava para chegar e finalmente conheceria Laura.
Jenna
Por que os homens tinham que ser tão lerdos e idiotas às vezes, sempre?
Jack me mandou uma carta logo após ter contado para Laura o verdadeiro motivo da viagem comigo, que infelizmente teria que ser adiada por alguns meses, e me disse que Laura reagiu bem e que só estava preocupada, mas que no fundo ele percebia que ela não estava contando alguma coisa para ele.
O fato era que Laura amava Jack demais para se quer falar que sentia ciúmes de mim, e Jack era lerdo o suficiente para não se tocar daquilo. Assim que recebi a carta de Jack eu sabia que antes da minha viagem para a Alemanha eu teria que viajar para a Itália e resolver toda aquela situação.
Deixei a base militar sob o comando de Chill e de um Coronel que se tornou meu amigo e embarquei para outro país que estava ansiosa para conhecer.
O trem parou e eu peguei minha mala e saí do vagão, olhava para todos os lados tentando achar Jack, mas não conseguia vê-lo na multidão de pessoas que estavam lá.
– Pequena! – ouvi a voz dele e me virei, Jack estava lá sorrindo com a minha chegada e ao lado dele uma linda mulher também estava me esperando.
– Jack! – disse e corri para abraça-lo.
– Jen, essa é Laura… – ele disse depois do abraço me apresentando à namorada.
– É um enorme prazer te conhecer, senhorita Donatti! – disse sorrindo e abraçando Laura como se já nos fôssemos velhas amigas.
– Finalmente! – o inglês dela era impecável – Jack me ensinou inglês para que eu e você não tivéssemos problemas na comunicação… – ela falava muito bem.
– Jack sempre pensa em tudo, ou pelo menos quase tudo… – disse sorrindo e olhando para Jack que ficou confuso – Me diga Laura, como você se sente com Jack? – disse entrelaçando meu braço ao de Laura como melhores amigas que seríamos em breve – Ah Jack, pode levar minhas bagagens? Eu e Laura vamos na frente para conversar mais… – disse rindo e Laura me acompanhou.
Jack
– O que? – Jen mal havia chegado e já tinha roubado a atenção de Laura e pior! Estava caminhando com Laura e me deixou para trás com as bagagens espalhadas pelo chão.
Mas não fica apenas nisso. Jen e Laura passaram o resto da manhã juntas como se fossem melhores amigas que há tempos não se viam, se eu tentava entrar na conversa, ou falar alguma coisa Jenna me impedia. Eu tinha que trabalhar no turno da tarde, por isso Laura foi super compreensiva e deixou Jen ficar na casa dela enquanto eu trabalhava. Como eu ia saber sobre o que aquelas duas iriam conversar?
A resposta era: eu não iria saber, a não ser que elas me contassem, e pelo o que eu tinha percebido, elas não iriam me contar nada. Depois do almoço me despedi das duas e fui para o hospital cumprir meu plantão.
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Voltei para a casa de Laura e de seus pais e toquei a campainha, momentos depois Laura abriu a porta sorridente.
– Querido! – e me recebeu com um beijo bem receptivo.
– Oi meu amor, como passaram o dia? – disse entrando na casa e vendo Jenna no sofá conversando com o pai de Laura.
– Foi esplêndido! – ela disse indo até o pai e Jen.
– Então o senhor lutou na primeira guerra? – Jen falava um pouco devagar, uma vez que o senhor Donatti não tinha muita experiência com o inglês – Jack! Que bom que chegou, o senhor Donatti estava me contando de sua época como militar! – Jen estava realmente se sentindo em casa, e aquilo me deixava muito feliz.
– Vai jantar conosco, não é Jenna? – Laura perguntou para Jen.
– Óbvio! Se não for nenhum incomodo… – Laura sorriu com a resposta.
– De maneira alguma, mamãe está quase terminando, quer vir ajudar? – Laura perguntou e vi os olhos de Jen se arregalarem.
– Jen não sabe cozinhar, meu amor… – disse cochichando para Laura em italiano, mas pelo o que percebi não foi um cochicho muito baixo.
– Niente di meglio che imparare a cucinare in una dele migliori cucine del mondo!– minha sogra havia acabado de aparecer na sala.
– Traduz… – Jen disse espantada.
– Nada melhor do que aprender a cozinhar em uma das melhores cozinhas do mundo… – Laura disse sorrindo – Mamãe é uma excelente cozinheira, se aprender a cozinhar com ela, você também vai ser uma excelente cozinheira!
– Andiamo, bambina! – a senhora Donatti disse chamando Jen para ir até a cozinha.
– Sim, senhora! – Jen disse batendo continência e indo atrás da mãe de Laura.
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Foi um jantar espetacular e descobri que Jen tinha ajudado a fazer a comida. Depois do jantar fomos para meu apartamento, estava na hora de procurar saber como foi o dia de Jen com a família de Laura.
– Então… – disse mostrando o apartamento para ela.
– É lindo, Jack! Super aconchegante, eu adorei! – ela disse sorrindo.
– Eu não me referi ao apartamento, mas fico feliz que gostou…
– Se referiu a que, então? – ela perguntou curiosa.
– Para começar, sobre sua carta… – disse e ela me deu um tapa no braço.
– Mas o que foi que eu fiz? – cada minuto que passava eu ficava mais confuso ainda.
– Jack Forlan! Você é muito idiota e lerdo!
– Foi o que você escreveu na carta, agora me explica o porquê! – não estava entendendo mais nada. Jen revirou os olhos impaciente.
– Laura se sente insegura, com medo que você não a queira mais, por isso ela sempre aceita tudo o que você fala, com medo de te perder, te perder para mim! – as coisas começavam a fazer um pouco de sentido.
– Mas ela não vai me perder! – não mesmo.
– Então comece a provar isso, mostrar isso para ela. Ela me contou tudo Jack, disse que ficou sim com ciúmes quando você disse para onde vamos, mas que ela aceitou porque ela confia em você…
– Mas eu sempre falo para ela que você é minha irmã, pequena…
– Homens são tão idiotas… – ela revirou o olhou mais uma vez e caminhou até sua mala que estava no chão da sala. Tirou lá de dentro alguma coisa que não vi e voltou até onde eu estava – Você a ama?
– Óbvio. – era óbvio, por que ela perguntava?
– Quer passar o resto da vida com ela? – Jen estava me deixando curioso.
– É uma das coisas que mais desejo no mundo… – ela sorriu.
– Então se ajoelhe. – que?
– O que? – eu achava que estava entendo, mas pelo jeito eu não estava entendo nada.
– Se ajoelhe, Jack. – ela sorriu e eu, sem muitas opções, fiz o que ela mandou – Nós vamos preparar alguma coisa bem legal, para quando chegar a hora, você se ajoelhar desse jeito na frente dela e abrir essas caixinha… – ela disse me dando uma caixinha de veludo.
– Jen, o que é isso? – disse me levantando e pegando a caixinha nas mãos.
– Depois que mamãe morreu, meu pai guardou com ele o anel de noivado que ele havia entregado a ela, e entregou esse anel para Harry que provavelmente me pediria em casamento oficialmente depois da guerra… Eu encontrei essa caixinha nas coisas de Harry depois do enterro, reconheci o anel de mamãe e guardei comigo…
– Jen, isso é seu… – eu não poderia aceitar.
– Não mais, Jack, agora esse anel vai para Laura e ela vai ficar linda com ele no dedo… – era realmente um anel muito lindo, um solitário de ouro branco com uma pedra brilhante.
– É um diamante, papai disse que economizou por meses para comprar esse anel… – ela estava com os olhos cheios de água – Quero que fique com ele e que peça a mão de Laura com ele, isso vai me deixar muito feliz… – eu sabia que ela estava sendo sincera.
– Eu te amo… – a abracei forte e ela retribuiu o abraço com a mesma força.
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– Assim que eu chegar eu te escrevo, e me mantenha informada! – Jen dizia na estação de trem enquanto se despedia.
Ela não pôde ficar muito tempo, dois dias depois que Jenna chegou ela já teve que partir. Eu sabia que ela queria ficar para me ver pedindo Laura em casamento, mas eu também sabia que Jen entenderia que a situação toda de casamento exigiria de mim um bom planejamento para um dia especial, e fazer às pressas não iria dar certo.
– Te manterei informada… – disse no ouvido dela enquanto a abraçava.
– Laura, diga para sua mãe e seu pai que eu amei eles e espero voltar mais vezes, até porque eu ainda quero aprender a cozinhar como ela! – Jen disse indo abraçar Laura.
– Eles te adoraram, Jen, volte sempre que quiser e mamãe pediu para te entregar isso… – Laura disse entregando um pacote para Jen que na mesma hora abriu curiosa – É um livro de receitas que ela pediu para que eu reescrevesse em inglês, então você poderá treinar na sua casa…
– Laura… – Jen estava sem palavras e só conseguiu abraçar minha futura noiva como agradecimento. O apito do trem tocou lembrando que Jen ainda tinha que embarcar – Eu mando notícias e aguardo notícias de vocês! – ela disse correndo para entrar no vagão. Eu e Laura ficamos do lado de fora vendo o trem partir.
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Jen escreveu que havia chegado bem, mas depois disso fiquei um tempo sem ter notícias dela, até que um dia o carteiro me entregou um envelope cujo remetente era Jenna Miller.
“Jack, como não recebi mais cartas suas sobre aquele assunto, presumi que você ainda não fez o pedido, se fez, fique sabendo que estou bem brava por não ter sido informada. Se não fez, me desculpe por ficar brava.
Agora peço que o senhor não fique zangado comigo…
Eu fui para a Alemanha/Polônia…
Eu sei, eu sei o que está passando na sua cabeça, eu sei que agora você está bravo, mas me deixe contar tudo o que aconteceu.
Eu fui logo que cheguei à Inglaterra, praticamente no dia seguinte, enviei a carta para você e fui para a Alemanha, eu sei que você disse que iria comigo para minha proteção e também para me fazer companhia, mas eu não poderia esperar até sua próxima folga, os judeus não poderiam esperar, Jack, espero que entenda meus motivos.
Mas não é só isso que queria falar com você, eu fui para lá e fiquei esses últimos dois meses por lá, visitei o campo de concentração, juro que tomei cuidado, ninguém desconfiou, digamos que meu alemão está bem fluente, modéstia à parte. Eu fiquei por lá esses tempos Jack e descobri mais sobre as crianças gêmeas que participaram de experimentos em Auschwitz, fui a muitos orfanatos ser prestativa, oferecer apoio, comida e ajuda médica sob meu comando, apesar das nacionalidades as pessoas desses orfanatos me trataram bem, estamos em uma época que temos que nos ajudar, independentemente de qual país viemos, certo?
Bom, o que eu quero falar de verdade é que eu estou quase entrando em uma nova batalha…
Calma, não se espante, não se preocupe, não é bem uma batalha no sentido literal, é mais uma batalha jurídica…
Jack, eu decidi que vou adotar duas crianças, uma casal de gêmeos.
Preciso te contar os detalhes, mas quero contar pessoalmente, quando posso te visitar?
Jenna Miller”
