Capítulo 35

Os gêmeos

Jenna

A situação na Alemanha era tão precária quanto a de muitos países que vivenciaram mais uma guerra. Mas digamos que na Alemanha a situação estava um pouco mais caótica. Eu via o medo no olhar das pessoas, eu via o terror que eles ainda viviam por conta da política nazista, aquelas eram marcas que eles tão cedo não esqueceriam.

Assim que cheguei à base militar eu escrevi uma carta para Jack avisando que havia chegado bem, mas não contei a ele meus planos para o dia seguinte. Jack ficaria furioso, mas eu precisava ir para Auschwitz o quanto antes, de alguma maneira eu queria ajudar aquele povo, por Harry.

Durante a viagem eu torcia para que nada de ruim acontecesse, Jack ficaria ainda mais bravo se alguma coisa desse errado. Treinava meu alemão, repetia frases na minha cabeça, lia algumas frases anotadas em meus cadernos de estudo daquela nova língua, o lado positivo era que eu conseguia aprender com facilidade.

Eu avaliei toda a situação de longe, minha vontade era de interferir, mas no momento que soubessem que eu era inglesa e, principalmente, militar ou eu seria morta, ou capturada, algo de ruim aconteceria, por isso tive que agir quase como seu eu fosse daquele país. Fiquei hospedada em uma casa de família, eles foram bem receptivos e também corajosos por me abrigarem, abrigarem uma “inimiga da nação”, serei eternamente grata à família Rech.

Alguns lugares estavam destruídos, tomados pelo medo, pelo terror, por tudo de ruim que se possa imaginar, mas nada se comparava ao campo de concentração. Eu só conseguia chorar de olhar para aquele lugar de longe. Rastros da maior atrocidade contra a humanidade que eu já havia visto estavam lá, expostos. O cheiro era uma das piores coisas. Dava para sentir o sofrimento que aquele lugar acumulou, as vidas que se encerraram lá, dava até para escutar os gritos na cabeça, o horror do dia que autorizaram o extermínio em massa. Mas olhando ao redor, olhando para as estradas ao redor, dava para ver os vestígios de esperança nas pegadas que ainda estavam lá, da caminhada de milhares de judeus que se libertaram daquele inferno e eram esses judeus que eu iria procurar, eram eles que eu iria tentar ajudar.

Voltei para o centro da cidade perto da fronteira com a Polônia, pedi ajuda para a família que me abrigou, prometi que só queria ajudar de alguma maneira e mais uma vez eles foram compreensivos. Me levaram até uma estrada e disseram que seguindo o caminho eu iria parar em um gueto, um dos muitos refúgios dos judeus que ainda eram considerados fugitivos. Em nenhum momento eu pensei que a família poderia estar se livrando de mim, eu confiei neles e estava certa em fazer aquilo.

A situação daquele gueto era tão triste quanto ao resto daquela região, mas lá existia o sentimento de esperança que em muitos outros lugares não existiam mais. Eu caminhei pelas ruas e percebi olhares das pessoas de lá, todos aparentando ser moradores de rua, mas no fundo, todos eram, pois casas próprias eles não tinham mais. Naquele mesmo dia que visitei aquele lugar pela primeira vez eu conheci o senhor Noah, um judeu de idade que conseguiu escapar de Auschwitz anos atrás e achou um lar no gueto.

“- Amiga ou inimiga? – todos me olhavam enquanto eu caminhava por aquelas ruas, aqueles becos escuros e gelados, quando escutei alguém perguntar em alemão para mim.

– Amiga! – disse rápido me virando para encontrar o dono da voz.

– A moça não é alemã nem polonesa… um senhor enrolado em cobertores sujos, velhos e surrados disse se aproximando desconfiado.

– Eu juro que vim em paz, eu vim ajudar… um círculo de pessoas se fechou ao meu redor, eles precisavam acreditar em mim ou seria meu fim Meu nome é Jenna Miller. esperava que meu alemão não travasse naquela hora.

– Inglesa? o senhor havia descoberto.

– Escute, eu vim ajudar, vim fornecer comida, hospital, o que vocês precisarem, sim eu sou inglesa, mas não vim para guerrear… o senhor me olhava nos olhos, seus olhos castanhos escuros mostravam que ele já havia sofrido demais naquela vida, assim como todos ao seu redor.

– Por quê? ele disse depois de segundos me encarando.

– Meu noivo… Ele tinha descendência judaica…

– Tinha? o senhor se aproximou mais.

– Ele morreu no ano passado… então o senhor fez algo que eu não esperava. Pegou minha mão.

– Amiga… ele disse e sorriu carinhosamente. Concordei com a cabeça Noah. ele disse o nome dele.

– Muito prazer, senhor… retribui o sorriso.”

No tempo em que fiquei entre a Alemanha e a Polônia me dividi entre ajudar a família que me abrigou e meus novos amigos daquele gueto judaico. Assim como o significado do nome, o senhor Noah esbanjava uma sabedoria e uma tranquilidade sem fim, mesmo tento vivenciado um grande terror. Ele me ensinou hebraico, para que eu pudesse me comunicar com os demais moradores daquele gueto.

Escrevia cartas para Chill pedindo reforços, pedindo ajuda com comida e pedindo médicos, e então eu via um pouco de alegria voltar para aquele povo. Certo dia perguntei ao senhor Noah sobre as crianças que estavam no campo de concentração, e descobri sobre mais coisas horríveis.

Os judeus eram cobaias vivas em experimentos nazistas, se tivessem o olho claro em um tom curioso, os alemães iriam… Fazer experiências que geralmente custavam a vida da pessoa. Noah me contou sobre as crianças gêmeas. A curiosidade dos cientistas com os gêmeos era tanta que eles queriam explicações para coisas óbvias, na verdade, eles faziam experimentos como desculpa para matar. Não era nenhuma descoberta científica, era a maldade humana se expressando através desses “médicos”. Eu ficava chocada e revoltada com cada história que o senhor Noah me contava daquele lugar horrível, eu precisava ver as crianças sobreviventes que não estavam naquele gueto.

“- Se não estão perdidas na rua, ou mortas, estão em orfanatos… ele disse quando perguntei sobre onde encontrar as crianças.

– Qual? O senhor pode me indicar qual? Para que eu possa fazer uma visita e fornecer ajuda… disse para Noah.

– Criança, você tem um coração muito bom, está arriscando sua vida por nós… eu quase considerava ele como um avô que nunca conheci. O abracei.”

Fui até os orfanatos que o senhor Noah me indicou, forneci ajuda e alguns aceitaram, outros preferiam não aceitar por medo, eu entendia, mas dizia que se eles precisassem de alguma coisa, era só me procurar. Até que um dia eu fui visitar outro orfanato, lá se concentravam um grande número de crianças judias, crianças sobreviventes do campo de concentração.

Cada olhar, cada rostinho assustado de todos aqueles orfanatos me fazia ter vontade de levar todos para casa, mas eu não poderia, por isso com a ajuda de Noah e da família Rech eu tentei localizar a família da maioria daquelas crianças. Algumas eu consegui êxito, na maioria nem tanto.

Entrei no orfanato que estava visitando e oferecendo ajuda, vi as crianças brincando, apesar de tudo elas conseguiam se divertir de alguma forma, e isso é a coisa mais linda nelas, essa esperança sem fim, essa capacidade de se distrair dos horrores do mundo. Caminhei pelos corredores e avistei um casal de crianças sentados na escada, eles estavam quietos e com as cabeças abaixadas.

– O que eles têm? – perguntei para a dona do lugar e me aproximei das crianças.

– Eles não falam, quase não comem, foram encontradas semanas atrás nas ruas, famintos e assustados, a única coisa que sabemos é que eles vieram de Auschwitz, porque era a única palavra que eles falaram até agora, nem mesmo o nome deles a gente descobriu… – A mulher disse com um olhar de pena e preocupação.

As crianças tinham o mesmo tom de cabelo, castanho escuro e lisos, a menina ainda tinha as pontas onduladas, eles eram brancos, e possuíam marcas nas mãos ao que dava para observar.

– Oi… – disse me abaixando na frente deles e falando em hebraico, talvez eles não falassem alemão e muito menos inglês e devia ser por isso que ninguém conseguia se comunicar com eles. A menininha levantou a cabeça devagar e me olhou nos olhos. Seus olhos eram de um tom mais claro que o cabelo e estavam arregalados demonstrando o medo evidente – Oi… – repeti sorrindo para ela – Meu nome é Jenna… – ainda falava em hebraico, ela parecia estar me entendendo – Como se chama? – perguntei, mas ela não disse nada, só me olhava – Está com fome? Eu acho que tenho uma coisa aqui no bolso do casaco… – disse procurando uma barra de chocolate que estava comigo – Aqui! – disse pegando a barra e entregando para ela – Não conta pra ninguém, eu só tenho uma, está bem? – disse sorrindo para ela. A menininha pegou a barra com receio.

– Obrigada… – ela disse em um hebraico muito melhor do que o meu, mas disse quase como um sussurro.

– Você fala! – disse animada – Como se chama? – repeti a pergunta do nome.

– Gina… – ela disse baixinho e olhou para o lado, o menininho que estava sentado encostado nela havia levantado a cabeça também e vi que eles eram gêmeos. A mulher dona daquele orfanato estava ao meu lado e abriu um sorriso quando conseguiu obter o nome da menina.

– Gina! – disse sorrindo – Parece meu nome… – o menininho tinha o mesmo olhar castanho claro que demonstrava o medo – E você, como se chama? – perguntei olhando para ele.

– Ele se chama Joshua… – Gina disse depois de momentos de silêncio. Joshua olhava para a barra de chocolate ainda fechada na mão de Gina.

– São nomes muito lindos… – disse sorrindo para eles – Querem ajuda para abrir? – perguntei olhando para a barra de chocolate e Gina concordou com a cabeça e me devolveu o pacote – Joshua significa “o Senhor é minha salvação”… – disse abrindo a barra de chocolate e entregando para eles que comeram desesperadamente – Se eu não estou enganada, Gina significa…

– Jardim. – Gina disse com a boca cheia e me olhou.

– Isso mesmo… – disse sorrindo e olhei para a mulher ao meu lado. Me levantei.

– A senhora fala hebraico muito bem, tem origem judaica? – ela perguntou olhando para o casal de gêmeos que agora tinham nomes.

– Não, mas aprendi com um grande amigo… – disse olhando para aquelas crianças.

– Agora que sabemos o nome deles fica mais fácil para encontrar algum familiar, muito obrigada senhora… – ela disse animada.

– Não tem de quê. Gostaria de ajudar na busca pela família deles, senti uma ligação com eles muito boa… – em poucos minutos a barra de chocolate não existia mais, o que sobrou estava lambuzado nas bochechas deles e nas mãos.

– Toda a ajuda será bem vinda! – ela disse e eu voltei a me agachar na frente dos gêmeos.

– Posso fazer outra pergunta? – perguntei e Gina concordou com a cabeça.

– Quantos anos vocês têm? – Gina olhou para as mãozinhas e começou a contar os dedos.

– Oito. – Joshua disse depois de ver que a irmã estava demorando.

– Olá, Joshua… – disse para o menininho assim que ele resolveu falar.

– Olá. – ele disse me olhando nos olhos e logo depois esboçou um sorriso. Aquilo me deixou muito feliz – Obrigado pelo doce. – ele disse abaixando a cabeça.

– Não tem de quê! – eu queria abraçá-los, mas isso os assustaria.

Nas semanas seguintes voltava todos os dias para aquele orfanato visitar Gina e Joshua e ajudar na busca pelas famílias, tentava conversar mais com eles e descobrir mais alguma coisa que pudesse ajudar na procura. Com o tempo Joshua e Gina iam se soltando com a minha presença e eu me sentia conectada com eles de uma maneira surreal.

Depois de um tempo de buscas e pesquisas eu acabei descobrindo que toda a família dos gêmeos estava em Auschwitz e que as crianças foram as únicas sobreviventes. Eles passariam anos naquele orfanato assim como as outras crianças, até que alguém os adotasse, e como eu via a realidade daquele país com os judeus, eu sabia que seria difícil alguém adotar alguma criança de lá, e principalmente um casal de irmãos.

– A família morreu no campo de concentração e não há mais nenhum parente vivo por aqui, eles são os únicos sobreviventes… – disse entristecida para a senhora Gretel.

– Vamos cuidar bem deles, assim como vamos cuidar bem das outras crianças, Jenna… – ela disse e eu sabia que era verdade, mas eu tinha me envolvido tanto que me sentia mais uma vez derrotada por não ter conseguido ajudar achando a família daquelas crianças.

– Jenna! – Joshua disse assim que me viu, ele abriu um sorriso e foi correndo ao meu encontro, tive que segurar muito minhas lágrimas de emoção com aquela atitude dele.

– Olá, Joshua! – o peguei no colo e o abracei.

– Gina e eu temos um presente. – ele disse em hebraico e o coloquei no chão, Gina estava logo atrás de nós e mantinha as mãos para trás do corpo.

– Estou curiosa… – disse me agachando e ficando quase da altura deles. Foi quando Gina ergueu os braços e me entregou uma barra de chocolate. Não consegui segurar as lágrimas e naquele momento eu tomei uma decisão – Obrigada… – disse chorando.

– Jenna, você não gostou? – Joshua perguntou assim que me viu chorando.

– Eu amei… – disse tentando enxugar as lágrimas – Estou chorando de felicidade, venham aqui… – disse abrindo os braços e aguardando o abraço deles, eles correram para me abraçar. Beijei a testa dos dois e me levantei – Posso falar com a senhora? – disse em alemão para a senhora Gretel.

– Claro, querida, venha comigo até o escritório… – ela disse sorrindo.

– Eu já volto, está bem? – disse para Gina e Joshua – Vão brincar! – Entramos na sala de Gretel, ela me aguardava curiosa para saber sobre o que eu queria falar – Vou adotá-los. – disse decidida olhando para a barra de chocolate em minha mão e logo depois olhei para Gretel que já não tinha o mesmo sorriso de antes.

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Jack

Mais um ano estava para se encerrar, ou perto do encerramento e de repente eu tinha recebido notícias impactantes de Jenna. Na mesma hora que li a carta já escrevi uma resposta. Pedi para que ela viesse para a Itália o quanto antes, ela precisava me contar muita coisa.

Uma semana depois eu e Laura fomos buscá-la na estação de trem mais uma vez.

– Jen! – disse assim que a avistei e ela correu ao meu encontro.

– Jack! – ela me abraçou e logo depois abraçou Laura com força. Percebi que ela tinha olhado para a mão de Laura que ainda não possuía nenhum anel.

– Eu não vou aguentar chegar em casa para você contar direito essa história, comece a falar. – disse desesperado por detalhes.

– Estou curiosa também, Jen… – Laura disse ansiosa.

– Ok, vou contar… – ela disse sorrindo.

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– Uau… – disse assim que ela contou tudo sobre a viagem dela e sobre as crianças – Eles parecem ser encantadores… – Jen estava tão decidida em enfrentar Deus e o mundo para ter as crianças e aquilo a deixava tão feliz, que eu tinha que ficar feliz e estava, muito.

– São lindos… – ela disse abrindo a bolsa e tirando de lá uma fotografia – Eu tirei a fotografia para ajudar na busca pelos parentes… – as crianças eram lindas, tinham o olhar assustado, mas neutralizados pelo sorriso alegre na foto.

– Que fofura! – Laura disse olhando a foto, e Jen sorriu depois de beber um pouco do chá. Estávamos em uma cafeteria, resolvemos parar lá para comer alguma coisa enquanto Jen terminava de contar a história.

– Jen, mas como você vai conseguir a guarda deles? – eu não queria desanimá-la, mas tínhamos que encarar a realidade, adoção de crianças de outros países era muito difícil, adoção por mulheres solteiras era praticamente impossível e eu sabia que Jen por mais que não gostasse, teria que encarar aquela verdade.

– Estou vendo com a embaixada britânica o que posso fazer… – ela disse abaixando a cabeça.

– Me perdoe, Jen, mas seria mais fácil se você… Se casasse… – Laura disse e Jen a olhou confusa.

– Laura eu vou ter minhas crianças sem precisar de um marido. – Era o que eu mais desejava para Jen, conseguir a guarda dos gêmeos sendo mulher solteira.

– Case-se com Jack… – O que?

– O que? – eu e Jen dissemos juntos.

– Assim você terá a guarda das crianças com mais facilidade, Jen… – Laura tentava não chorar, mas era impossível.

– Laura eu não vou me casar com Jack para isso, eu vou conseguir meus filhos sem ter um marido, nunca mais diga um absurdo desses. – Jen estava séria.

– Laura eu jamais aceitaria isso, eu sei que seria mais fácil, mas eu não vou casar com Jenna, eu nunca vou te deixar. – disse ainda confuso sobre o que tinha escutado de Laura.

– Laura, eu ainda vou ser madrinha no seu casamento com Jack… – Jenna disse segurando a mão de Laura e de alguma maneira eu sentia que aquele era o momento para pedi-la em casamento. Por isso levantei da cadeira e me ajoelhei na frente de Laura.

– Jack, querido, o que está fazendo? – eu guardava a caixinha comigo, guardava o anel de noivado sempre comigo.

– Laura Donatti, aceitaria, por favor, se tornar a senhora Forlan? – abri a caixinha com o anel e Laura colocou a mão na boca de surpresa. Jen sorria e estava tão emocionada quanto eu e Laura – Eu não vou me casar com Jenna, eu vou me casar com você, Jen vai ter a família dela, e eu vou ter a minha com você, claro que… Se você aceitar…

– Eu aceito! – ela disse chorando e me abraçando, eu não poderia estar mais feliz. Coloquei o anel no dedo dela e ela me deu um beijo demorado. Logo depois voltamos a nos sentar ainda muito emocionados. Jenna enxugava as lágrimas, mas mantinha o sorriso no rosto.

– Eu juro que tentei falar para ele organizar um jantar especial… – ela disse sorrindo.

– Foi perfeito, não existiria momento melhor… – Laura disse segurando minha mão e a de Jen ao mesmo tempo – Obrigada, vocês são minha família também… – ela disse – E pelo o que vejo, logo, logo terei dois sobrinhos lindos!

– Com certeza! – Jen disse sorrindo e olhando para a foto dos gêmeos.

Capítulo 36