Capítulo 36

Matrimoni

Jack

O ano havia mudado, as coisas pareciam estar indo muito mais rápidas depois do fim da guerra, pelo menos era a sensação que eu tinha. 1946 havia chegado e com ele muitas novidades, boas e também ruins.

Jen havia voltado para a Inglaterra, mas ficava tempos na base, tempos na Alemanha e Polônia, ela tentava de tudo para ter a guarda das crianças, ia sempre visitá-las, assim como visitava o tal senhor Noah e a família Rech que a abrigou.

Jenna estava enfrentando uma batalha difícil de ser vencida, mas ela não desistiria, ela estava decidida em ser mãe, ser mãe de Joshua e Gina e eu sabia que ela só pararia de tentar caso morresse. Mas nenhum juiz, embaixador ou alguém desse nível jurídico estava disposto a dar essa vitória para uma mulher solteira. Ela me escrevi frustrada e cada vez mais com as esperanças sendo destruídas. Eu não sabia o que fazer para ajudar, não tinha a menor ideia do que eu poderia fazer, eu não iria me casar com Jen e eu sabia que ela entenderia aquilo. Eu a ajudaria com o que estivesse ao meu alcance e por enquanto eu não tinha nada ao meu alcance.

“É difícil ser mulher, Jack. Parece que nada dá certo para nós mulheres, se a gente tenta fazer algo parecido que os homens somos humilhadas de tal forma… Eu mesma que o diga, eu sou Coronel, mas isso não significa nada além de um título, eu nem sequer posso usar essa minha autoridade para ter meus filhos.

Estou cansada de não ter os direitos básicos que deveria ter. Eu quero tanto adotá-los, eu sou a única que quer isso e mesmo assim eles não querem deixar duas crianças desamparadas nas mãos de uma… Solteirona.

Eu não pretendo me casar para conseguir Joshua e Gina, eu vou lutar até não aguentar mais, mas eu vou ter eles sem precisar me casar, você vai ver e todos os outros também…

Mas me diga, como estão as coisas entre você e Laura, estão pensando no casamento ou nem tocam no assunto? Me mandem notícias, estarei esse mês na Inglaterra e depois voltarei para a Alemanha.

Te amo.

Jenna Miller”

Eu não sabia uma maneira de ajudar Jen com a questão das crianças, mas esperava que minha visita a alegrasse, ainda mais quando eu tinha algo para entregar para ela. Respondi a carta avisando que em uma semana eu estaria na Inglaterra com Laura para uma visita. E então nós dois entregaríamos para Jen o nosso convite de casamento.

Jenna

Vivia como um coelho, pulando de um lado para o outro, hora estava na Alemanha, hora estava na Inglaterra, o ano tinha virado e eu passei a virada com aqueles que queria muito já chamar de filhos. Mas não podia, não sem antes ter certeza de que conseguiria a guarda deles, que parecia mais distante de conseguir.

1946 chegou e nenhuma alteração na minha situação “materna” havia acontecido, eu tentava não desanimar, iria lutar até o fim para conseguir minhas crianças. Escrevia para Jack da Alemanha e da Inglaterra, eu morava nos dois países praticamente, até que recebi uma carta de Jack falando que ele e Laura me visitariam em breve.

Arrumei a casa e os esperaria na estação de trem de Londres, estava ansiosa. Tanto que fiz eu mesma a comida, seguindo as receitas da senhora Donatti, torcia para que Laura aprovasse.

Fui até a estação e o trem finalmente chegou.

– Jack! Laura! – disse sorrindo e fui de encontro com os dois – Como vocês estão? Fizeram boa viagem?

– Jen! – Laura me abraçou, o anel estava no dedo dela e eu não poderia ficar mais feliz em rever aquilo.

– Pequena! – Jack me abraçou em seguida – Fizemos uma ótima viagem! – ele disse sorrindo.

– E eu fiz uma ótima comida! – disse rindo – Espero que esteja ótima…

– Você cozinhou sozinha? – Jack fez cara de espanto e eu bati no braço dele.

– Andei treinando para sua informação. Meus filhos vão poder falar que a mãe deles sabe cozinhar muito bem, ok?

– Alguma novidade? – Laura perguntou.

– Ainda não, mas estou ensinando inglês e alemão para eles, assim quando eu conseguir a guarda eles vão se adaptar fácil à Inglaterra. – era meu maior sonho.

– Vão sim, pequena… – Jack disse solidário.

– Mas que surpresa boa ter vocês dois aqui! – disse caminhando com eles até onde o Jeep estaria estacionado.

– Na verdade, não viemos apenas para te visitar… – Laura disse assim que chegamos no carro e sorriu cúmplice para Jack.

– O que vocês estão aprontando? – eu sorria.

– Viemos para te entregar isso… – ela disse e ergueu um envelope.

– O que é isso? – peguei o envelope e quando o abri dei um grito de emoção e felicidade que assustou quem estava por perto – Meu Deus! Estou muito feliz por vocês! – disse vendo o convite de matrimoni (era o que estava escrito no cartão) deles. Abracei os dois ao mesmo tempo.

– E viemos para te convidar para ser nossa madrinha… – Jack disse sorrindo.

– Ai de vocês se não me dessem esse cargo importante! – disse ainda abraçando os dois – Parabéns, parabéns! Estou tão feliz por vocês, tão feliz!

+++

Jack

Laura e eu iríamos nos casar na fazenda do pai dela, os italianos são famosos por ter uma família enorme, cheia de primos e parentes, e com a família de Laura não era diferente. Minha noiva tinha dois irmãos mais velhos, Lorenzo e Francesco, eram respectivamente dois e três anos mais velhos que ela, muito engraçados e ciumentos.

Eu conquistei a confiança deles logo no início do meu namoro com Laura. Lorenzo e Francesco já eram casados e já tinham filhos, Francesco morava na fazenda do pai, ajudava a administrar os vinhedos e Lorenzo morava em Verona.

O casamento seria no início do verão, para aproveitarmos cada pedacinho de beleza daquele lugar que tive a oportunidade de conhecer alguns meses atrás. Depois passaríamos a lua de mel na América e ao retornarmos iríamos mudar para uma casa maior, que eu já havia comprado. Ficava perto do centro da cidade, perto do hospital que eu trabalhava.

Jenna seria nossa madrinha e Laura convidou um primo bem próximo dela para ser o par de Jenna, e eventualmente nosso padrinho de casamento, o nome dele era Luca.

Jen ainda não tinha conseguido nenhuma vantagem com o processo de adoção das crianças, mas tentava ficar bem animada para meu casamento, ela me escrevia sempre que dava e disse que mal via a hora de me levar ao altar. Foi um pedido que fiz a ela, já que ela era minha única família.

Um mês antes ela me mandou uma carta dizendo que iria para a Alemanha, mas que prometeria chegar antes do casamento. Fiquei preocupado, mas eu sabia que ela estaria no meu dia especial. Porém na véspera do meu grande dia eu não tinha recebido notícias nenhuma de minha irmã.

Iríamos nos arrumar cada um em um cômodo diferente na fazenda, e não ter notícias de Jenna estava me deixando muito preocupado, Laura também estava, mas o que poderíamos fazer? Eu tentava me concentrar no casamento, mas não conseguia, alguma coisa tinha acontecido, e eu temia que fosse algo ruim.

Tieniti calma… – Lorenzo estava no quarto ajudando a me arrumar, eu estava nervoso, não só pelo casamento, mas por não saber de Jenna.

– Estou tentando… – mas não estava conseguindo, eu tentava fazer o nó na gravata, mas nem aquilo eu conseguia fazer.

Jack! Jenna arrivò! – Francesco entrou no quarto ofegante, na certa ele tinha corrido para me dar a notícia.

– Fala para ela vir até aqui! – disse nervoso, mas um nervoso bom. Escutei a voz de minha irmã se aproximando e ela falava uma língua que eu não entendia.

– Jack! – ela disse na porta sorrindo de orelha a orelha e eu percebi que ela estava acompanhada.

– Esse é o dia mais feliz da minha vida… – disse assim que vi Joshua e Gina segurando as mãos de Jen. Gina com um vestidinho lindo vermelho e Joshua de terno e gravata, os dois a caráter para o casamento.

– Vão cumprimentar o tio Jack, meus amores! – ela disse e as crianças correram ao meu encontro, era como se eu já as conhecessem há tanto tempo, como se elas sempre tivessem sido de Jen, sempre tivessem sido meus sobrinhos.

– Como vocês são lindos! – eu disse chorando emocionado e Jen estava do mesmo jeito.

– Tio Jack, é seu casamento? – pelo o que via as aulas de inglês de Jen estavam dando certo, apesar de Gina ainda ter bastante sotaque, mas eles eram crianças, com o tempo pegariam o jeito da língua inglesa.

– Sim, é meu casamento! E sabe o que acontece nos casamentos?

– O quê? – Joshua perguntou sorrindo.

– Tem uma hora que alguém tem que levar as alianças até as pessoas que vão casar, vocês gostariam de levar as alianças para mim? – Jen chorava mais ainda.

– Quero! – eles disseram juntos.

– Podemos, mamãe? – Joshua disse para Jen que com certeza não pararia de chorar tão cedo.

– É claro que podem, meus amores! – ela se agachou na frente deles – O que acham de irem brincar com o tio Lorenzo lá fora um pouquinho, a mamãe já vai lá, só preciso conversar com o tio Jack antes, está bem? – eu sabia que ela não queria se afastar nem por um minuto das crianças.

– Eles podem ficar aqui, pequena… – disse olhando para eles sorrindo – Jen, como? Quando? – eu queria saber de tudo.

– A senhora Gretel me chamou com urgência para o orfanato, disse que tinha feito algo por mim que poderia até ser errado, mas que me deixaria feliz. Por isso eu fui correndo para lá. Ela tinha conseguido novos documentos para Gina e Joshua, uma certidão de nascimento nova para os dois já que as originais estavam perdidas, e aí nessas certidões constava meu nome como mãe deles… – ela estava emocionada só de lembrar – E mais… Consta nessa nova documentação que o pai deles era o Harry… – eu a abracei forte – Eu consegui meus filhos… – ela chorava no meu abraço.

– Laura já sabe? – perguntei chorando também.

– Eu vim literalmente direto para cá, chegamos agora pouco… – ela disse rindo e enxugando as lágrimas – Preciso me trocar para ser uma madrinha a sua altura… – ela disse olhando para suas roupas.

– Vá se arrumar com Laura, você já aproveita e apresenta os sobrinhos para ela… – disse sorrindo.

– Até já, já… – ela disse pegando as crianças e indo até o quarto que Laura estava se arrumando.

+++

Jenna

Laura estava incrivelmente linda, seu vestido parecida de uma princesa, Gina estava encantada, via os olhos de minha filha brilharem conforme Laura conversava com ela e Joshua e rodava para mostrar o vestido para Gina.

– Jen, eu estou tão feliz por você, estou tão feliz por todos nós… – ela dizia com a voz embargada, mas se ela chorasse estragaria a maquiagem.

– Não chore… – eu disse sorrindo e tentando não chorar também já que tinha acabado de fazer a maquiagem – Vou colocar meu vestido, crianças, fiquem aqui um pouquinho… – disse pegando minha mala que tinha o vestido de madrinha que a senhora Gretel tinha feito questão de fazer para mim, por isso eu fiquei mais tempo do que o previsto na Alemanha. Ele era azul marinho, não tinha mangas, era decotado… Marilyn Monroe tinha entrado na minha vida na forma de estilo, era um vestido bonito, chegava a ser um pouco ousado, longo, mas nada que fosse tirar a atenção da noiva. Laura estava radiante.

– Jen… – ela disse assim que me viu saindo do banheiro – Você está linda!

– Ora… – eu ficava vermelha de vergonha, fui até o espelho do quarto e coloquei meus brincos com pingentes de pérolas, meu cabelo estava curto, eu havia cortado de novo, meus cachos por sorte não tinha se desfeito, faltava apenas um batom, o qual optei por um vermelho.

– Luca está solteiro… – ela disse rindo e pegando o buquê.

– Então a escolha foi intencional? – disse fingindo indignação.

– Mamãe, como a senhora está linda! – Joshua disse se aproximando de mim.

Antes de eu saber sobre o que a senhora Gretel estava aprontando, eu sempre ia visitar aqueles que se tornaram meus filhos, e em uma dessas visitas Joshua perguntou se eu queria ser mãe deles, eu não poderia falar que estava há tempos tentando aquilo, eu tinha medo de lutar e no fim não conseguir a guarda deles então tive que manter segredo até o dia que recebi os documentos, mas respondi a ele que era um sonho, mas também era uma questão complicada. Foi quando Gina perguntou se um dia poderia me chamar de “mãe”, então a questão da minha identificação como “mamãe” foi até que fácil para os dois.

– Obrigada, meu amor, o senhorzinho está deslumbrante! – disse em inglês.

– Deslum… – eles ainda não tinham pegado muitas palavras novas – Deslum…

– Você está lindo, foi isso o que eu quis dizer, meu amor… – ele ainda tentava falar a palavra difícil.

– …bante! – com alguns errinhos aqui e ali.

– Isso mesmo, Joshua! – disse sorrindo – Meus amores prestem atenção no que mamãe vai falar, eu vou ter que levar o tio Jack até o altar, enquanto vocês já vão estar lá na frente esperando. Na hora de levarem as alianças a mamãe vai indicar o caminho para vocês, é só vocês caminharem até onde mamãe vai estar esperando, tudo bem? – expliquei o que eles iriam fazer.

– Sim! – os dois disseram juntos e a porta do quarto se abriu mostrando o senhor Donatti a espera de Laura, emocionado.

 – Não chore, senhor, se não ela vai chorar… – disse tentando evitar aquilo, mas era uma missão impossível.

– Laura… – ele não tinha palavras.

– Vou deixar vocês a sós se preparando, vou até Jack, está na hora dessa cerimônia começar… Venham crianças.

Deixei Gina e Joshua na primeira fileira de cadeiras logo em frente ao altar montado para o casamento, disse que logo estaria lá de novo e voltei para buscar Jack.

– Vamos, vamos, Doutor! – disse entrando no quarto. Ele estava lindo, apenas com uma gravata mal amarrada.

Jack

Jenna estava simplesmente magnífica, e eu tinha que me lembrar que estava literalmente no dia do meu casamento.

– Jen… – eu estava sem palavras.

– Jack… – ela disse vindo até mim – Mas que gravata é essa? Que nó é esse?

– Estava nervoso, não consegui amarrar direito… Todos já chegaram? – disse enquanto ela desfazia o nó que eu havia feito e refazia do jeito dela.

– Todos estão à espera dos noivos, e eu vim aqui para te buscar… – ela disse terminando – Pronto… – dei um beijo demorado na bochecha dela – É seu casamento, Jack Forlan… – ela ficou corada.

– Te amo, obrigado por existir e nunca me deixar, e obrigado pelos sobrinhos, obrigado por tudo! – ela me deu um abraço longo e forte.

– Não me faça chorar, Jack, essa maquiagem deu trabalho… – ela disse rapidamente olhando para cima e piscando rápido para que as lágrimas não saíssem – Agora vamos, tenho que casar meu irmão… – dei o braço para ela que segurou e saímos do quarto.

+++

Eu havia entrado, Jen tinha me levado até o altar, e aquela expectativa da entrada de Laura corroía meu estômago de nervosismo.

– Mantenha a calma… – Jen disse ao meu lado.

– Nem a guerra me deu mais nervoso do que hoje…

– Era a adrenalina falando no seu corpo, é claro que a guerra te deixou mais nervoso… – ela segurava a risada do meu comentário idiota.

– Por que essa demora? – eu estava muito impaciente.

– Eu vou socar sua cara aqui mesmo se não parar… – a gente praticamente cochichava. Então a marcha nupcial tocou e eu fiquei congelado.

Laura apareceu no início/final do corredor, todos naquele enorme jardim se viraram para ver a noiva entrando. Eu continuava congelado, mas eu sabia que as lágrimas estavam caindo dos meus olhos. Laura parecia uma rainha, Laura era uma rainha, ela estava linda, magnífica e conforme se aproximava eu via que ela também chorava. O mundo ficou em silêncio, nem a marcha nupcial eu conseguia escutar mais, todos haviam sumido, eu só via Laura, caminhando na minha direção. Ela estava cada vez mais perto, então eu consegui me mover e caminhei até ela, o pai dela a entregou para mim.

– Bem-vindo à família, Forlan… – ele disse chorando e eu não conseguia parar de sorrir.

Levei Laura até o altar e a cerimônia iria começar.

Jenna

Eu tentava não pensar em outra coisa além do casamento de Jack, mas involuntariamente eu me pegava pensando em como seria se Harry estivesse vivo, como teria sido nosso casamento, de repente senti uma brisa durante a cerimônia, de alguma forma eu sabia que ele estava ali comigo, eu sentia tanta a falta dele.

Estava na hora de levar meus filhos para o final do corredor para que eles entrassem com as alianças. Saí de fininho do altar e chamei Gina e Joshua para me acompanharem.

– Lembrem-se, mamãe estará ali na frente, é só ir até a mamãe devagar levando essa almofadinha, certo?

– Certo. – Joshua disse empolgado.

– Eu amo que você é nossa mãe… – Gina disse me pegando de surpresa, eu estava agachada na frente deles e ela me deu um abraço bem espontâneo.

– Minha linda… – tinha que conter as lágrimas – Eu amo vocês! – abracei os dois – Vamos lá levar as alianças pro tio Jack? – eles sorriram empolgados.

– Vamos!

A música para a entrada das alianças começou a tocar e eu tinha voltado para o altar para esperar pelos meus filhos, eles entraram no corredor e sorriam para todos ao redor, eles estavam muito felizes com aquele momento e eu mais ainda, Gina e Joshua levaram as alianças para Jack que pegou e abraçou meus filhos. A cerimônia estava sendo toda em italiano, o que significava que eu não estava entendendo nada, mas entendi o momento das trocas de votos e juramentos perante o padre que estava lá, entendi também a benção das alianças e o momento em que eles diziam que prometeriam se amar para sempre. Até que o padre disse algo em italiano que eu deduzi que fosse “eu vos declaro marido e mulher” e aí Jack beijou Laura muito apaixonado, todos aplaudiram.

Era hora da grande festa ao nível italiano, seria um dia para nunca mais esquecer com tanta coisa boa que aconteceu.

Capítulo 37