Capítulo 37

“Atenção: Guerra”

Jack

Eu havia conseguido minhas tão merecidas férias do hospital, iria ser uma viagem e tanto, todos nós estávamos muito empolgados. Jen estava em casa havia uns dias, ela ajudava Laura a cuidar das crianças, tanto as minhas quanto as dela.

Quatro anos haviam se passado, uma nova década estava começando, era o início dos anos 1950 e pela primeira vez em muito tempo faríamos uma viagem de família decente. Laura havia me presenteado com dois lindos filhos, Ricco que nasceu um ano depois do nosso casamento e a nossa caçula, com poucos meses de vida, Antonella. Gina e Joshua se adaptaram muito bem à Inglaterra, Jen tinha desistido da mudança para a América, o recomeço dela estava sendo com uma nova família e ela não poderia estar mais feliz. Todos nós estávamos muito felizes.

Jen logo depois do meu casamento voltou para a Inglaterra e se afastou um pouco do exército, ela passou a se dedicar aos filhos, mas continuava cuidando da parte burocrática do regimento e nunca deixou de ser uma das melhores Coronéis que eu já havia conhecido. Ela era dura quando tinha quer ser, mas na maioria das vezes era a manteiga derretida mais fofa que eu já vi.

Gina e Joshua tinham completado seus treze anos e estavam cada vez mais lindos, eles adoravam brincar com Ricco e tinham um cuidado especial com Antonella, éramos uma família completa apesar de tudo o que já tínhamos passado. Iríamos para a França. Era uma viagem que Jenna estava planejando há tempos fazer, principalmente para finalmente usar a boina que Belle havia dado para ela antes do dia D, ela guardou para usar em um momento especial, e não havia momento mais especial do que aquele. Faríamos um passeio por toda a Paris.

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– Finalmente uma visita à França como se deve fazer! – Jen dizia realizada enquanto caminhávamos perto da Torre Eiffel esperando nossa vez de conhecer aquele lugar magnífico.

– Por que, mamãe? – Joshua perguntou perto dela.

– Mamãe veio para a França na guerra, meu querido… – lembrar daquele dia fez Jenna sentir calafrios.

– Era assim? – Gina perguntou.

– Não, agora está muito melhor… – disse acompanhando eles e segurando Antonella nos braços enquanto Laura ajudava Ricco a andar.

– Eu gostei daqui, é bonito. – Gina disse sorrindo olhando para torre que parecia cada vez mais alta conforme nos aproximávamos.

– Realmente… – Jen estava deslumbrada.

– Vamos subir! – Laura disse pegando Ricco no colo e fomos fazer nossa visita.

Do alto daquele lugar, Paris parecia tão pequena, mas mostrando toda a sua imensidão de beleza. Eu lembrava de como Belle falava da sua amada França, aquilo me deixava com saudades, se de alguma forma ela estivesse por lá, acho que ela ficaria contente de nos ver.

– É muito alto! – Jen disse com receio de se aproximar da beirada da Torre, mas eu sabia que ela queria ver Paris daquele lugar.

– Cuidado, Pequena, não se incline muito… – eu disse preocupado quando a vi se inclinando no parapeito para olhar para baixo, foi quando uma rajada de vento bateu e fez a boina de Jen voar.

– Ah não! – ela disse se entristecendo em seguida.

– Vamos descer e procurar… – disse tentando consolá-la.

– Seria clichê demais acontecer algo como aconteceu com Belle… – ela deu uma risadinha – E alguma alma caridosa ter achado minha boina e me devolver… Mas vamos procurar, de todo jeito, foi muito especial usá-la aqui… – ela tinha certeza de que não iria mais ver a boina. Mas descemos para procurar mesmo assim.

Jen andou no redor da torre na parte de baixo na busca pelo chapéu, e nada.

– Jack, olhe! – ela disse sorrindo e aliviada apontando para frente assim que avistou um rapaz segurando a boina e resolveu se aproximar para pedir de volta.

– Oi… Com licença, essa boina é minha… – Jen dizia com vergonha, ela estava desesperançosa de encontrar o presente que Belle havia lhe dado antes da Guerra, mas desceu com a ideia de procurar até não poder mais. Era um presente muito significativo para ela.

– Olá! De longe eu não conseguia ver seu rosto, mas deduzi que fosse a senhorita que havia sem querer deixado a boina cair… – o rapaz era negro, alto e sorria para Jen enquanto estendia a boina para entregá-la, seu inglês tinha sotaque britânico.

– Grata! – Jen estava sem jeito, eu, Laura e as crianças estávamos um pouco afastados esperando por Jenna.

– Me perdoe a intromissão, mas a senhorita não é a Coronel Jenna Miller? – Jen era conhecida no mundo inteiro por sua história e trajetória militar, mas após a guerra sua fama foi aos poucos sendo guardada.

– Sim… – fazia tempo que não via minha melhor amiga e irmã de coração ficar tão sem jeito, e vermelha de vergonha – E você é? – achei que ela iria se esquecer de ser educada e perguntar o nome do rapaz.

– Isaac. Isaac Montgomery! – ele disse e não sabia como, mas o sorriso dele abriu mais ainda e logo em seguida ele bateu continência – É uma honra conhecer a senhorita!

– Ora… – Jenna estava nitidamente sem palavras – Imagina… E não precisa bater continência, digamos que eu estou “aposentada”… – ela disse fazendo aspas com os dedos.

– Respeito pelos meus superiores em primeiro lugar! – ele disse e logo percebi que aquele porte todo dele era de um militar – Capitão Montgomery, força aérea britânica! – ele estendeu a mão para cumprimentar de fato minha irmã.

– Muito prazer… – ela disse o cumprimentando e sorrindo nitidamente – Descansar… – ela brincou assim que viu que o tal de Montgomery permanecia em posição de sentido.

– O que a traz para Paris? – ele estava interessado, ora, não é todo dia que podemos ter alguns minutos de conversa com Jenna Miller, no meu caso era todo dia e todas as horas, modéstia à parte.

– Tio Jack, por que a mamãe está conversando com aquele moço? – Gina perguntou assim que viu a mãe parada um pouco mais a frente.

– Aquele moço parece que conhece sua mãe… – disse para minha sobrinha.

– Mamãe está namorando? – Joshua também não estava entendendo, não contive minha risada. Vi Jenna se virando para nos procurar discretamente. Resolvi ir até ela, mas não queria interromper a conversa que parecia estar agradando ambas as pessoas, tanto Jen, quanto o tal de Montgomery.

– Achou a boina! – disse me enturmando com Antonella no colo, as crianças estavam ao meu lado e Laura logo atrás com Ricco também no colo.

– Jack! – Jenna disse sorrindo de orelha a orelha – Esse é o Isaac Montgomery, da Força Aérea Britânica! – ela estava animada.

– Muito prazer! – ele disse estendendo a mão para me cumprimentar.

– Jack Forlan! – disse cumprimentando o rapaz que aparentava ter minha idade, tomando cuidado para não deixar Antonella de mau jeito.

– O famoso Capitão Forlan! Vocês são lendas! – ele disse sorrindo – Coronel… – ele se dirigiu para Jenna.

– Ora Isaac, já disse que me aposentei, pode me chamar de Jenna… – ela disse envergonhada.

– Perdão, senhorita… Me permite te fazer um convite para um café? – até mesmo eu fiquei surpreso com toda aquela rapidez.

– É… – Jenna não tinha o que falar, mas sorria timidamente.

– Mamãe você está namorando esse moço? – Joshua ainda estava curioso e um pouco enciumado, digamos que o início da adolescência deixa os meninos assim.

– O quê? Não! – Jen não sabia se ria ou se tentava se esconder de vergonha – Me desculpe Isaac, esse aqui é meu filho, Joshua, e essa é minha filha Gina… – ela disse apresentando as crianças – Aquela ali é minha cunhada Laura, meu sobrinho Ricco e essa coisa linda aqui é Antonella… – ela disse passando a mão levemente no cabelo de Antonella.

– Filhos? Me perdoe Jenna, eu não sabia que era casada, perdoe minha audácia… – percebi mais do que antes que havia muito interesse de Isaac em Jenna, tentei não rir para não estragar o resto da história.

– Não… – Jenna também não sabia o que fazer – Não há motivos para se desculpar Isaac, está tudo bem… – ela ficava vermelha ao falar, as crianças não entendiam nada.

– Muito prazer, crianças! – Isaac disse se abaixando para cumprimentar meus sobrinhos e logo depois acenou para Laura que estava ao meu lado naquela hora – Seu marido… Não veio para a viagem? – ele perguntou curioso e também por educação enquanto se levantava.

– Não… Eu não sou casada, Isaac… – eu estava doido para saber como aquilo iria terminar, ela se afastou um pouco da gente, mas ainda conseguia escutar a conversa, as crianças voltaram a brincar sem entender o que estava acontecendo – Gina e Joshua são sobreviventes do Holocausto… – ela disse baixando o olhar e vi Isaac olhar para as crianças e sorrir.

– E você os adotou… – os olhos dele brilhavam com aquilo.

– Sim… É uma longa história… – ela dizia sem jeito.

– Se me permite perguntar… A senhorita não precisou de um marido para a adoção? – ele perguntava sem jeito e olhava para as crianças.

– Eu era noiva… Meu noivo morreu depois do dia D… Bem é uma longa história… – ela dizia olhando para os filhos e sorrindo – Renderia muitas conversas… – ela olhou para ele – Se ainda quiser tomar um café, posso começar a contar… – por aquela eu definitivamente não esperava, estava tão animado e feliz com aquilo que meu sorriso ia de orelha a orelha assim como o de Isaac.

– Será uma honra ouvir… – ele disse olhando nos olhos de Jenna.

– Só preciso avisar meu irmão… – ela não precisava me avisar de nada, eu tinha escutado tudo e no momento que ela se virou para mim eu apenas sorri e fiz sinal para que ela fosse com Montgomery para tomar um café.

– Vai, eu e Laura cuidamos das crianças… – disse baixinho e vi Jenna se envergonhar e sorrir.

Isaac Montgomery em um gesto de cavalheirismo e cordialidade deu o braço para Jenna que aceitou e os dois foram caminhando pela calçada até entrarem em uma cafeteria logo ali perto.

– Querido, Jenna parece tão bem agora, não é? – Laura disse ao meu lado sorrindo.

– Ela não parece, querida, ela está… – olhei de novo para a cafeteira que Isaac e Jenna estavam – Ela merece toda a felicidade do mundo e posso sentir que depois de tanto sofrimento, essa felicidade está chegando cada vez mais para ela… – voltei meu olhar para minha esposa – Vamos, vamos cuidar dessas crianças e tomar um sorvete! – disse para meu filho e meus sobrinhos.

– Vamos! – eles disseram juntos e fomos caminhando pela rua como uma grande família que depois de anos de luta e guerra poderíamos, enfim, despojar da paz.

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Jenna

Voltamos para casa depois de uma viagem inesquecível até a França, e pela primeira vez em muito tempo eu não estava com medo de manter contato com Isaac como tive medo de manter contato com Steve, ele era um rapaz muito gentil e um ótimo amigo.

Gina e Joshua tinham ido para a escola, e eu arrumava algumas coisas em casa depois de uma manhã no batalhão cumprindo meu papel de Coronel, até que entrei em meu quarto. A luz do sol batia na minha janela e ao lado dela eu via o carvalho branco de Harry cada dia mais magnífico. Eu havia plantado a outra semente no jardim de casa, seria o lugar perfeito para aquela árvore e para que um dia meus filhos pudessem ter seu próprio refúgio assim como eu tive o meu perto da base.

Fiquei olhando a paisagem da janela, aquela vista linda que eu tinha todas as manhãs, era como se Harry nunca tivesse me deixado e sempre olhasse por mim e pelos nossos filhos. Me virei para olhar o quarto que estava bagunçado e vi uma caixa no canto da cama, o que seria aquilo mesmo?

Me aproximei e abri a caixa, vi os presentes que tinha ganhado nos últimos anos, de aniversário e de Natal, até que encontrei o diário que Jack havia me dado no meu primeiro aniversário sem Harry e meu pai, decidi pegá-lo e dar uma folheada. Ainda estava todo em branco, então me veio uma ideia na cabeça. Peguei uma caneta e me sentei na cozinha com o diário aberto em cima da mesa. E então escrevi a primeira frase.

[War]ning – Atenção: Guerra

– É um excelente trocadilho com as palavras… – disse depois de escrever a frase – [War]ning… – repeti aquele trocadilho e sorri, logo em seguida continuei escrevendo.

“Diário é um termo que representa a rotina, muitos o usam para contar seus maiores segredos, para desabafar e manter um diálogo com, digamos, seu ‘eu’ interior.

Meu nome é Jenna Miller e esse é o meu diário, onde eu vou contar a minha rotina durante os anos que definiram o mundo na chamada II Guerra Mundial. Por isso ‘atenção!’ vamos voltar para a Guerra…

O ano era 1942 e era meu primeiro dia como Tenente-Coronel da sexta e sétima divisão britânica militar…”

A campainha tocou depois de eu ter ficado horas escrevendo, fui atender e era Isaac, tínhamos marcado um chá da tarde na minha casa e pelo jeito, já era a hora. O recebi e o levei até a cozinha.

– [War]ning? O que é isso? – ele disse vendo o diário em cima da mesa aberto na primeira folha.

– Isso? – disse e me aproximei do caderno – São meus planos para o futuro… – o olhei sorrindo.

– Está escrevendo um livro? – o sorriso dele era tão bonito quanto ele.

– Talvez… Venha, vamos fazer esse chá… – disse guardando o diário em uma gaveta da cozinha e voltando aos meus afazeres daquela tarde.

Fim