Capítulo 4

Bala perdida

Jenna

Passei o resto da manhã fazendo alguns relatórios dos soldados sobreviventes, Jack havia me ajudado em boa parte das papeladas, mas ele tinha outros afazeres, por isso eu tive que terminar os relatórios sozinha. 11h, hora do almoço, a corneta já havia tocado. Fui até o refeitório, peguei a bandeja com a comida e me sentei em uma mesa afastada, sozinha.

Não que eu não gostasse de ninguém, é só que depois que os soldados me conheciam melhor, eles ficavam com um pouco de medo da minha pessoa, ainda mais quando eu agredi o soldado Chill. Jack almoçava mais cedo que eu, por isso eu sempre ficava sozinha. Bom, acabei de mudar meus conceitos. Caminhando na minha direção um soldado se aproximou.

– Posso me sentar com a senhorita? – Sparks perguntou.

Fiquei olhando para ele, certa de que aquilo era loucura, ele não parecia estar com medo de mim, muito pelo contrário, ele estava falando diretamente comigo, só achei estranho porque mais nenhum outro soldado havia feito aquilo antes.

– Claro, soldado Sparks. – fiz sinal com a mão para que ele se sentasse à minha frente.

– Por favor, a Tenente-Coronel pode me chamar de Harry… – ele disse enquanto se sentava.

– Ok, Sparks. – ele riu timidamente por eu insistir em chamá-lo pelo sobrenome – O que te traz à minha mesa?

– Te vi sozinha, achei que a senhorita gostaria de companhia…

– Por favor, “senhorita” é para garotas delicadas. – disse sorrindo.

– Ok… Tenente-Coronel. – ele se corrigiu – Com todo o respeito, a senhori… A Tenente-Coronel não tem cara e nem pose de que é delicada…

– Obrigada. Eu acho… – disse – Então você acha que eu preciso de companhia?

– Não, é que… Bom… – ele estava se enrolando para falar, só podia ser medo das minhas atitudes.

– Atrapalho? – Jack apareceu atrás de mim e me deu um susto que eu pulei da cadeira, me fazendo ser percebida em todo o refeitório.

– Ai Jack! Que susto! – disse.

– Desculpe-me, Tenente-Coronel… – ele não parava de rir – Já está dando broncas em outros soldados?

– Não. Sparks sentou aqui para me fazer companhia.

– Capitão. – Sparks bateu continência para Jack que apenas balançou a cabeça.

– Hum… Pensei que você iria bater nele por ele ter batido em você… – Jack ainda mantinha a mania de super proteção e ciúmes.

– Já disse que aquilo foi uma ótima simulação e que eu não vou bater nele por ter feito um bom trabalho. O que foi que nós conversamos mais cedo?

– Tudo bem! Não está mais aqui quem falou. – ele levantou as mãos na altura do peito mostrando rendição – Só vim avisar que os soldados já estão aguardando para os próximos treinos, Tenente-Coronel.

– Obrigada por avisar Capitão, eu já estou indo.

– Te espero lá, Tenente-Coronel. – Jack disse e se levantou bateu continência e se dirigiu para fora do refeitório.

– Bom, temos que ir Sparks, me acompanha? – levantei da cadeira.

– Claro senhor… Digo, Tenente-Coronel! – iria ser difícil para ele se acostumar.

Sparks e eu chegamos até a tenda de treinos.

– Senhores. Fila, por favor! – eu disse e os soldados fizeram a fila.

– Muito bem, hoje de manhã, vocês viram uma simulação muito bem elaborada por um grupo de cinco soldados. Agora, vamos para o treinamento de verdade. Como os senhores podem ver, temos aqui uma bancada com armas, elas estão carregadas com balas de verdade. A primeira coisa que vocês irão fazer é aprender a recarregar a arma, mirar e atirar. Capitão Forlan. – me dirigi até Jack que já estava com uma arma na mão.

– Soldados, peguem uma arma cada um e me sigam. – Jack disse e se retirou da tenda sendo seguido por mim e por todos os soldados que já haviam pegado as armas, fomos até um campo de alvos, onde tinha bonecos de palha e algumas frutas que faziam os papéis dos inimigos.

– Primeiro, para recarregar a arma vocês terão que empurrar essa parte para frente… – empurrei a parte da arma que havia me referido – Colocar as balas uma por uma… – coloquei algumas balas – E empurrar para trás a parte aberta. – fechei o compartimento das balas – Façam o mesmo.

Os soldados começaram a imitar meus movimentos com a arma e quase todos conseguiram concluir a primeira parte da tarefa no menor tempo possível.

– Muito bem, agora a parte da mira. – disse – Posicionem a arma à frente do peito de vocês, mirem no alvo com um olho fechado primeiramente, depois abra o outro olho para se certificar de que a mira está correta, assim que tiverem o alvo na mira, apertem o gatilho, sem hesitar! – disse e Jack fez a demonstração para eles, acertando em cheio o meio da cabeça do boneco de palha. – Posicionem-se de frente para os alvos. – pedi e os soldados se posicionaram – Mirem! – eles miraram – Atirem! – Uma sequência de balas saía das armas deles, muitos erraram as miras, poucos foram os que acertaram em cheio.

– Vocês precisam ser rápidos, cautelosos e treinar melhor a mira de vocês. – Jack disse se dirigindo aos soldados – Vocês venham comigo… – ele pediu para que um grande grupo de soldados o seguisse para o outro lado da área dos alvos, eram os soldados que haviam errado a mira, incrível a capacidade que Jack tinha de saber exatamente quem havia errado e acertado, era por isso às vezes eu pedia para que o Capitão me ajudasse nos treinos.

– Muito bem, vocês, se posicionem de novo! – disse para os cinco soldados que haviam sobrado, incluindo Sparks, eles se posicionaram de frente para os alvos – Quero agora uma sequência de cinco tiros estratégicos, ou seja, em locais que se fossem uma pessoa de verdade, os tiros pudessem ser fatais, como por exemplo, cabeça, peito, pescoço… – disse – Mirem e atirem! – os soldados começaram a atirar nos alvos, assim que todos terminaram com a sequência eu cheguei mais perto deles – Muito bom. Com o tempo a mira de vocês vai se aperfeiçoando e a agilidade também, voltem para a tenda e peguem as facas que estão lá! – pedi e os soldados foram até a tenda.

Enquanto isso Jack explicava mais uma vez para o grupo dos quinze soldados que não tinha acertado a mira na primeira vez como mirar corretamente. Ele tinha mais paciência que eu. Os soldados faziam um semicírculo ao redor de Jack, todos virados para mim. Jack pediu para que eles apenas treinassem a mira, os soldados então, levantavam a arma, miravam e abaixavam a arma, e faziam isso várias vezes. O grupo dos soldados que eu havia pedido que pegassem as facas havia voltado, pedi para que eles também fizessem um semicírculo ao meu redor e comecei a explicar o que eles iriam fazer em seguida.

– A faca, é um instrumento utilizado apenas para última opção, o uso dela requer muito mais habilidade do que com uma arma, pois com a arma você pode acertar seu inimigo de longe, já a faca, você terá que ter uma boa mira, ou usá-la numa briga corpo a corpo. Os pontos estratégicos para que a pessoa morra através de um golpe com a faca são: o pescoço, cortando a garganta, o coração, mas vocês terão que saber exatamente onde acertar a faca, e na cabeça. – eu dizia enquanto ia posicionando a faca em minha mão nos pontos específicos do meu corpo.

Continuei explicando para eles, mas de repente escutei o barulho de um tiro que estava vindo do grupo que Jack comandava, segundos depois caí no chão.

– Jenna! – Escutei Jack gritando.

Tinham me atingido na coxa, doía e saía muito sangue, tentei apertar o ferimento com minha mão para impedir que o sangue saísse, a dor era insuportavelmente forte, tentava segurar minhas lágrimas, mas estava ficando cada vez mais difícil.

– Tenente-Coronel! Ah meu Deus! Ajudem-me a pegar ela! – Sparks falava desesperado.

– Aonde pegou o tiro? – Jack chegou perto de mim e eu só consegui olhar para minha coxa – Ah meu Deus! Chill, você está suspenso! E quanto aos outros soldados, voltem para as tendas de vocês! – Jack gritava – Calma, vai ficar tudo bem! – ele tentava me acalmar – Vou levantar você, se segura nos meus braços, ok? – ele disse e eu assenti com a cabeça, incapaz de falar alguma coisa, com cuidado Jack pegou em minhas pernas, mas acabou batendo no ferimento o que me fez soltar um gemido de dor e algumas lágrimas que eu tentava segurar – Desculpa! – ele me ajeitou no colo dele com a ajuda de Sparks que resolveu ficar para me ajudar.

Jack me levou até a enfermaria e me colocou em uma maca.

– Pegue naquele armário um pouco de gazes, álcool e esparadrapos! – Jack dizia para Sparks, que foi o mais depressa possível em busca dos primeiros socorros.

– Aqui está, Capitão! – Sparks disse colocando a bandeja com as coisas que Jack pediu ao meu lado na maca.

– Vou ter que tirar sua calça, Jen… – a dor era tanta que eu não conseguia nem protestar por Jack estar usando meu apelido, quanto mais de tirar minhas calças, apenas assenti com a cabeça. Com cuidado, ele foi abaixando minha vestimenta, sendo mais delicado na parte que estava o ferimento, mas não contive um gemido de dor – Pegue uma pinça, Sparks!

– Aqui, senhor! – Sparks havia pagado a pinça e entregado para Jack que colocava minha calça no chão.

– Jen, a bala está alojada na sua coxa, tenho que tirar. – ele me olhou como se a minha dor fosse a dor dele, assenti mais uma vez com a cabeça.

Jack havia feito medicina, antes de entrar para o exército, esse era um dos motivos que eu sabia que ele estava fazendo a coisa certa ao cuidar do meu ferimento.

– Não posso te dar morfina, pequena… – ele disse e eu fechei os olhos deixando mais lágrimas caírem – Toma, morda isso, prometo que vai ser rápido! – ele disse e me entregou um rolinho de pano, que eu coloquei na boca e mordi com força.

Jack pegou a pinça, se abaixou um pouco para ficar na altura do ferimento, com cuidado ele segurou minha coxa e segundos depois ele colocou a pinça dentro dela, me fazendo gritar de dor, sorte que o som foi abafado pelo pano em meus dentes. Jack revirava a pinça na minha coxa tentando achar uma parte da bala que não escorregasse na pinça, isso só aumentava minha dor. Quando ele finalmente conseguiu fixar a bala na pinça e começou a puxar para fora eu achei que não iria sobreviver. Não pensei duas vezes e apertei com força a mão de Sparks que estava posicionada ao meu lado na maca, deixando ele surpreso e eu mais aliviada por transmitir minha dor para outra pessoa.

– Pronto, pronto, agora é só desinfetar e fazer o curativo… – Jack dizia enquanto colocava a bala na bandeja e pegava a gaze umedecida com álcool – Aguenta só mais um pouquinho, Jen! – ele disse e logo em seguida começou a passar a gaze com álcool no ferimento, eu gritei mais ainda e a mão de Sparks já estava sem circulação, alguns momentos depois Jack pegou uma linha e agulha para dar os pontos no ferimento, eu chorava como uma criancinha, simplesmente porque era alérgica à morfina. Depois de costurar minha coxa, Jack ainda colocou uma faixa ao redor da mesma para imobilizar minha perna – Pronto, acabou… – ele disse e olhou para onde minha mão estava, na mesma hora soltei a mão de Sparks e comecei a enxugar minhas lágrimas.

– Obrigada, Jack… – eu disse – E obrigada a você também, Harry… – os dois ficaram um tanto surpresos quando pronunciei o primeiro nome do soldado.

– Não tem de quê. – Sparks sorriu.

– Soldado, você está dispensado. – Jack disse para Sparks que logo em seguida bateu continência e saiu da enfermaria – Me desculpa, pequena? – Capitão Forlan disse.

– Desculpar pelo o quê? – respondi enquanto recuperava o fôlego.

– Eu devia ter ido para um lugar mais afastado, eu pedi para que eles apenas treinassem a mira, mas aquele Chill sem querer apertou o gatilho…

– Está tudo bem, Jack… – falei um pouco cansada.

– Não, não está! A culpa foi minha, se eu…

– Jack. – peguei na mão dele – Está tudo bem… – eu disse olhando nos olhos dele – Estou viva e amanhã já voltarei aos treinos.

– De jeito nenhum! Uma semana é pouco para você repousar! Eu sou médico e exijo que me obedeça! – rebateu ele com um tom de indignação.

– Vai usar da sua autoridade agora? – disse e sorri levemente para ele.

– Vou. Se eu ver que a senhorita me desobedeceu eu cutuco a sua ferida literalmente! – ele levantou um de seus dedos para cutucar de verdade.

– Está bom, doutor! – disse enquanto levava minha mão por cima do meu ferimento para proteger, fiz isso por impulso já que ele estava me ameaçando.

– Tenho que ir agora avisar seu pai, não saia daqui viu? – ele disse e pegou um lençol para cobrir minhas pernas sem calça.

– E tem como? – ri.

– Não. – ele disse e saiu da enfermaria.

Enquanto eu o via desaparecer refletia comigo mesma pensando que se eu fiz todo aquele escândalo por conta de uma bala alojada em minha perna, imagine a dor que George sentiu. Como seria ter sido socorrido em meio aquele caos? Meu coração se apertou um pouco enquanto eu novamente levava, por impulso, meus dedos sobre a região em que fui acidentalmente baleada.

Capítulo 5