Capítulo 5

Visitas e revelações

Jenna

Estava naquela enfermaria, deitada naquela maca olhando para o teto do lugar quando escutei a porta se abrindo e passos um tanto apressados vindos em minha direção, a cortina que separava meu leito dos outros fora aberta e vi meu pai a minha frente.

– Filha! Capitão Forlan me contou o que aconteceu, como você está? – meu pai disse preocupado.

– O pior já passou pai, estou melhor – eu disse.

– Às vezes eu me culpo por ter deixado você entrar para o exército, eu sei que você é forte minha filha, mas só de saber que você está correndo perigo e agora que o Capitão me contou sobre a bala perdida eu…

– Pai, está tudo bem, estamos no meio de uma guerra, é normal que as pessoas levem tiros por aí…

– Mas não minha filha que está na base militar! – ele disse sério.

– Pai o senhor tem que parar de me tratar como se eu não soubesse me cuidar, você mesmo me deu um voto de confiança para estar aqui. Assim que eu estiver recuperada irei voltar a instruir os soldados.

– Filha… – ele tinha um olhar de dor.

– Não adianta me impedir, Coronel… – eu disse tentando o impedir de falar mais alguma coisa ou mais algum sermão.

– Tudo bem… – ele disse respirando fundo – Mas tome mais cuidado da próxima vez. E não se preocupe quanto ao soldado Chill, já conversei com ele e o suspendi por uma semana.

– Pai, você não devia ter feito isso… Chill apesar de ter sido ignorante comigo é um bom soldado, ele será útil em todos os treinos. – disse.

– Mas ele atirou em você!

– Não foi de propósito… Eu acho… – disse insegura.

– Como assim “você acha”? – meu pai perguntou.

– Bom, é que eu o agredi hoje mais cedo, acho que o senhor reparou no ferimento do rosto dele quando foi falar com o soldado…

– Foi você quem quebrou o nariz dele? – Meu pai disse, porém não estava bravo, era como se estivesse… Orgulhoso?

– Sim… – disse timidamente – Ele me desrespeitou, achei justo que ele sofresse por isso…

– Olha, filha, não vou mentir para você e falar que não sinto orgulho de saber que você fez isso, mas é errado e você sabe disso melhor que ninguém. Chill agora tem muito mais ódio de você do que já tinha quando chegou aqui pela manhã, e eu não queria nem pensar nisso, mas eu acho que ele se aproveitou da distração de Jack e atirou de propósito na sua perna…

– Você acha que ele seria capaz de fazer isso só porque eu quebrei o nariz dele? – perguntei.

– Não só acho como tenho quase certeza… Vou ficar de olho nesse soldado e qualquer ameaça dele para você, me avise imediatamente!

– Não se preocupe pai, vai ficar tudo bem. – disse.

– É o que eu espero, tenho que ir agora, eu volto aqui mais tarde para saber como você está, está bem?

– Sim, Coronel! – bati continência e ele se retirou.

Já devia ter umas duas horas desde que Jack e Sparks me trouxeram para a enfermaria para fazer o curativo na minha coxa, não aguentava mais ficar naquela maca, mas Jack havia me proibido de sair de lá. Só porque ele era médico iria mandar em mim? Não acho justo. Resolvi ficar sentada na maca para ver se o ferimento ainda doía como antes. Era uma dorzinha chata, mas nada insuportável comparado com o momento do tiro e com Jack retirando a bala da minha perna. Eu podia muito bem andar, mancando, mas eu podia. Resolvi me levantar da maca amarrando o lençol na minha cintura já que estava sem calças, estava quase colocando o pé no chão quando escutei a cortina se abrindo novamente.

– Não acredito que você está desobedecendo às ordens do médico… – falou alguém com uma voz um pouco familiar.

– Chill? – me virei para me certificar de que era o soldado que estava lá.

– Boa tarde, Tenente-Coronel. – ele disse.

– O que faz aqui? – perguntei olhando ao redor e procurando algo com que pudesse me defender se ele tentasse alguma coisa.

– Um “boa tarde” em primeiro lugar iria ser muito legal de sua parte… – ele estava abusando da sorte.

– Boa tarde, soldado. – disse sem paciência – O que está fazendo aqui?

– Vim ver como a senhorita está… – ele disse olhando para minha perna.

– Estou aleijada se é isso que você quer saber.

– Acho que estamos quites agora. – ele sorriu.

– Você fez de propósito?! – perguntei enquanto tentava me acalmar internamente.

– Não. Mas vendo e analisando as circunstâncias você está com um “defeito” e eu também… – eu iria matar ele da próxima vez.

– Diz logo o motivo de sua presença aqui antes que eu lhe proporcione um defeito fatal. – eu queria matá-lo naquela hora.

– Já disse, vim ver como a senhorita está. – ele se aproximou da maca – E pedir desculpas…

– E por que você acha que eu perdoaria você?

– Não faço ideia, mas não custa tentar.

– Você é muito engraçadinho para o meu gosto. – disse seca.

– É sempre bom ter senso de humor, não acha? – ele ergueu uma sobrancelha.

– O senhor poderia se retirar, por favor? – ou eu mataria ele se ele desse mais um passo para perto de mim.

– Posso ver seu ferimento? – que abusado.

– Você não escutou o que eu disse?

– Foi profundo? – ele ignorou o fato de eu ter mandado ele ir embora.

– Se retire daqui, soldado.

– Foi em qual perna? – ele queria morrer.

– Você está me escutando? Saia daqui, soldado Chill.

Ele ficou parado à minha frente me olhando nos olhos. Percebi que ele não iria embora tão cedo, a não ser que eu mostrasse o ferimento para ele e o perdoasse.

– Foi nessa perna. – disse e levantei um pouco do lençol mostrando apenas o local da bala perdida – Pronto, o senhor já pode se retirar.

– Nossa… Foi profundo, me desculpe mais uma vez, Tenente-Coronel. – ele disse assim que viu o curativo.

– Ok, agora se retire, por favor. – pedi e ele se retirou, não sem antes se desculpar pela terceira vez.

Abusado. Brian Chill era um soldado abusado e sem medo do perigo, ainda mais quando se trata de uma mulher de TPM. Voltei a me deitar na maca, mas não porque estava obedecendo às ordens de Jack, voltei para a maca porque… Porque eu queria ficar na maca. Cruzei os braços e fiquei olhando para a parede a minha frente. Fiquei mais um bom tempo sem fazer nada. Eu odiava ficar sem fazer nada, poderia estar treinando, ou fazendo relatórios, mas não, eu tinha que ficar na maca porque tinha levado um tiro na coxa! Jack tinha razão, minha TPM estava atacada naquele dia.

Mais uma vez, a cortina do meu leito se abriu.

– Espero que você tenha vindo até aqui para me entreter, porque sinceramente, é muito ruim ficar sem fazer nada! – disse para o soldado a minha frente.

– Vim ver se a Tenente-Coronel precisava de alguma coisa… – Sparks disse disfarçando o sorriso.

– Preciso. Preciso sair daqui! – antes de enlouquecer.

– O Capitão Jack deu ordens de que…

– Eu não recebo ordens de Jack, ele recebe ordens de mim. – interrompi Sparks.

– Com todo o respeito, Tenente-Coronel, mas se a senhorita não recebe ordens dele… Por que ainda está deitada nessa maca? – ele disse e eu fiquei sem resposta.

– Porque… Porque… – eu tentava arranjar um jeito de me explicar, mas as palavras ou as desculpas simplesmente evaporaram de minha cabeça.

– Não precisa se explicar, eu acredito que a senhorita está aqui ainda porque não tem uma calça para vestir e sair da enfermaria… – ele disse sorrindo depois dessa tentativa de explicar os meus motivos por ainda estar na maca.

– Exatamente! – eu disse concordando – Por que me defende, Sparks? – dessa vez foi ele quem ficou sem resposta.

– Porque… A senhorita pode achar que todos os homens dessa base militar são iguais, ou seja, que têm preconceitos por ter uma superior mulher… Mas eu não sou como eles…

– Não disse que você era como eles. – o olhei nos olhos.

– Mas pensou. – ele disse autoritário, mas logo abaixou a cabeça como se estivesse arrependido – Desculpe.

– Sparks… Harry… – ele olhou para mim – Você tem que parar com essa mania de se desculpar a toda hora. – eu disse sorrindo.

– Seu sorriso é bonito… – ele disse corando logo em seguida e me deixando vermelha também.

– O… Obrigada… – senti meu rosto arder. Maldito seja como ele conseguiu?

Ficamos em silêncio. Envergonhados. Aquele silêncio estava me incomodando.

– Ah sim, já ia me esquecendo… – Sparks quebrou o silêncio – Trouxe uma calça para a senhorita… – ele me entregou a peça de roupa.

– Obrigada, Sparks. – eu disse recebendo a calça – Você não se incomoda de… – apontei para a cortina.

– Ah, claro que não. – ele disse e foi para o outro lado da cortina a fechando em seguida para que eu pudesse me vestir, mesmo ele já tendo me visto sem calça horas atrás.

Retirei o lençol que cobria minhas pernas e fiquei sentada com as pernas para fora da maca. Comecei a colocar a calça. Tive que segurar um gemido de dor quando sem querer bati com certa força no local da bala, fechei os olhos engolindo o choro e continuei vestindo. Depois de vestida resolvi que já era hora de eu sair daquele lugar. Atrevi-me a colocar a perna sem ferimento no chão com cuidado. Logo em seguida coloquei a outra, mas a dorzinha que eu achava ser suportável se tornou insuportável de novo, eu perdi o equilíbrio e caí da maca fazendo barulho e assustando Sparks.

– Tenente-Coronel?! – ele abriu a cortina rapidamente – Ah meu Deus! O que aconteceu? – ele dizia enquanto ia para onde eu estava no chão e estendia o braço para que eu me apoiasse nele.

– Eu perdi o equilíbrio… – disse me segurando no braço dele.

– A senhorita não devia ter levantado! – ele dizia preocupado enquanto me colocava sentada na maca novamente.

– Obrigada… – agradeci pela ajuda – Mas é que eu não aguento mais ficar aqui!

– Sei que a senhorita não gosta de receber ordens, mas é para o seu próprio bem. – ele dizia e continuava preocupado, podia ver naqueles olhos verdes.

Fiquei olhando nos olhos dele enquanto ele demonstrava sua preocupação e ajeitava o meu travesseiro.

– Obrigada mais uma vez… Harry. – disse assim que ele terminou de me ajustar na maca novamente.

– Não tem de quê, senhorita. – ele disse um tanto corado, me olhando nos olhos.

Ficaríamos assim por mais algum tempo se Jack não tivesse aparecido.

– Boa tarde, pequena… – ele dizia enquanto entrava na enfermaria e ia desmanchando o sorriso assim que avistou Harry – Soldado. – ele olhou para Harry.

– Capitão. – Sparks disse batendo continência.

– O que faz aqui? – Jack perguntou sério.

– Vim trazer uma calça para a Tenente-Coronel…

Jack olhou para minha perna já vestida e para Harry que estava próximo de mim.

– Você… – ele olhava para calça e para Harry.

– Não, Jack. Eu vesti a calça sozinha. – disse antes que ele tivesse outro ataque de ciúmes.

– Hum… – ele ficou mais tranquilo – Como você está?

– Bem… Estaria melhor se pudesse sair daqui. – disse como uma menina teimosa e desobediente responderia.

– Você sabe que não pode, apesar de já ter desobedecido às minhas ordens, não é?

– Como você sabe? – como ele sabia?

– Jen, te conheço melhor do que ninguém aqui e tenho certeza que você já tentou se levantar.

– Tudo bem, você me pegou…

– Caiu no chão, não é? – ele perguntava sorrindo.

– Caí. – falei e fiz um pequeno bico com os lábios.

– Mas é teimosa, só aprende na prática! – Jack disse me advertindo.

– Sparks me ajudou a levantar. – disse.

– Hum… – Jack encarou Harry por alguns momentos e depois voltou sua atenção para mim – Te trouxe um remédio que irá amenizar a dor. – ele me entregou o remédio e eu tomei – Vou te levar para seu quarto agora.

– Ah finalmente vou sair daqui! – disse agradecendo aos céus o que fez Jack e Harry rirem.

– Vem, pequena… – Jack estendeu o braço, me pegou no colo. Harry nos seguiu.

Eles me levaram até meu dormitório. Andamos em silêncio o tempo todo. Às vezes eu gemia de dor e os dois me perguntavam se eu estava bem.

– Saí de uma cama para ficar em outra… Que destino… – retruquei fazendo bico novamente quando ele me colocou em minha cama.

– Você só sabe reclamar? – Jack disse fingindo impaciência e Harry riu.

– Obrigada, Jack… – eu disse sorrindo.

– Por nada, Tenente-Coronel. E é bom que você não tente sair dessa cama. – Jack me advertiu e eu revirei os olhos – Eu volto mais tarde para te trazer sua janta, certo? – assenti.

Harry

Saímos do quarto da Tenente-Coronel.

– Precisamos conversar, Sparks. – Jack falou parando no corredor.

– O que o senhor quer falar comigo? – perguntei confuso.

– Siga-me até meu escritório. – ele disse e voltou a andar, resolvi não desobedecê-lo. Entramos no lugar – Sei o que você pretende, soldado. – Jack disse me encarando.

– Sabe… O que? – perguntei ainda confuso.

– Percebi desde o primeiro instante que você chegou aqui e viu a Tenente-Coronel. – ele disse.

– Não estou entendendo aonde o Capitão quer chegar…

– Saiba soldado, que é extremamente difícil, quase impossível de amolecer o coração da Tenente-Coronel a ponto de fazê-la se apaixonar por alguém. – Agora eu entendia onde ele queria chegar.

– Capitão… – comecei a falar, mas fui interrompido.

– Sparks, vi a maneira como você olhou para ela, pelo jeito o senhor já andou pesquisando sobre a vida dela também, mas eu o alerto, se pretende continuar com isso, saiba que é mais fácil você enfrentar Hitler e voltar ileso do que fazer Jenna se apaixonar por você. – era uma espécie de aviso com ameaça.

– Sou interessado na Tenente-Coronel desde quando li a matéria sobre o ataque à padaria, comecei a pesquisar mais sobre ela, quando soube que fui designado para a sexta divisão e vi quem era a instrutora dos Praças, não pude deixar de ficar contente. – disse.

– Vai por mim soldado, sei que suas intenções são boas, mas desista dessa missão. – Jack falou.

– Com todo o respeito Capitão, mas por que eu desistiria?

– Porque como eu já disse, é quase impossível obter sucesso nessa tarefa.

– O senhor disse quase não disse que era totalmente impossível, eu não irei desistir…

– Se eu fosse você eu desistiria.

– Me dê um motivo para eu fazer isso, um motivo plausível.

– Acredite em mim soldado. Jenna não é de se apaixonar tão facilmente… – Jack disse.

– Como o senhor pode ter tanta certeza disso? – perguntei mesmo já sabendo a resposta.

– Porque eu já tentei! – ele disse impaciente – Eu já tentei fazer com que Jenna se interessasse por mim… Na verdade, estou tentando isso já tem um ano!

Fiquei em silêncio, ao que tudo indicava, Capitão Forlan gostava da Tenente-Coronel e se fosse para ter uma “disputa” por ela, ele já estava muitos passos a minha frente, afinal de contas, ele era o melhor amigo dela, ele era o mais íntimo dela nessa base militar e eu era apenas o novo soldado que tinha esperança de que ela se interessasse pela minha pessoa.

– Capitão, sinto muito te dizer isso, mas eu não irei desistir de conquistar a Tenente-Coronel.

– Então que vença o melhor, soldado. – ele disse isso e estendeu a mão para mim.

– Que vença o melhor. – eu disse apertando a mão do Capitão e me retirando do local.

Capítulo 6