Capítulo 6

Para sempre minha

Harry

Ver o pai morrendo e a mãe sendo capturada por nazistas era frustrante, amedrontador, traumático e tudo de ruim que se pode imaginar. A guerra traumatizava a todos. E estava me traumatizando cada dia mais.

“- Filho, nós temos que nos mudar… – minha mãe disse e seu tom de voz era um tanto aflito, assim como seu olhar.”

Eu era natural da Inglaterra, meu pai também, mas minha mãe era polonesa. Eles se apaixonaram muito antes da II Guerra estourar, em uma das viagens de meu pai ao redor do mundo. Meu pai conheceu minha mãe em um museu na Polônia e foi paixão à primeira vista, para ambas as pessoas.

Meu pai contava que a primeira vez que viu minha mãe, foi como se o cupido tivesse acertado a flecha do amor em cheio no peito dele. Achei engraçado ele falar aquilo, mas foi romântico. Um dia pretendia conhecer uma mulher que me encantasse assim como mamãe encantou meu pai.

Minha mãe dizia que quando viu papai olhando para ela no museu ficou sem graça, mas tentava disfarçar quando olhava para ele, seu pensamento naquele dia era para que ele se aproximasse e puxasse assunto com ela e como se ele tivesse lido sua mente, meu pai se aproximou, eles se conheceram, tomaram um café juntos e se tornaram grandes amigos. Dois anos depois eles se casaram e mais três anos seguintes eu nasci.

Quando eu tinha dois anos nos mudamos para a Polônia para que minha mãe pudesse tomar conta de meus avós que estavam muito doentes, e permanecemos por lá mesmo depois de meus avós terem falecido. Até estourar a II Guerra. 1º de setembro de 1939. A Polônia fora invadida pelos alemães dando início a mais assustadora guerra no mundo.

Desde aquele dia minha mãe não dormia direito. O motivo? Ela era judia. Assim que se iniciou a guerra de fato meus pais decidiram voltar para a Inglaterra antes que fosse tarde demais. Partiríamos na manhã seguinte até a França e de lá iríamos para a Inglaterra.

“Tudo estava ocorrendo como os conformes enquanto íamos para a estação de trem na Polônia. Compramos as passagens e já estávamos quase embarcando quando de repente soldados nazistas surgiram no local. Começou a correria e eles não tinham piedade. Eram frios e cruéis. Sem remorso matavam as pessoas que entravam na frente deles, eles sabiam exatamente quem eram os judeus e os capturavam.

– Vamos sair daqui! – disse para meus pais enquanto os alemães não tinham nos vistos e os puxei pelos braços.

Começamos a correr em direção à saída mais próxima do lugar, mas eles nos avistaram e começaram a correr em nossas direções. Dois soldados nos alcançaram e pegaram minha mãe pelos braços que chorava e gritava tentando resistir.

– Soltem-na! – meu pai gritou e foi ao encontro deles.

– Pai, não! – gritei, mas já era tarde, um dos alemães atirou nele e ele caiu morto no chão. Corri na direção que eles levavam minha mãe – Mãe! – gritei, ela apenas olhou para mim chorando.

– Vai! Fuja! Não fique aqui meu filho! Fuja! – ela gritava e chorava.

– Não! – eu disse ainda correndo na direção dela, um dos soldados me deu um chute na barriga.

– Não vai querer ter o mesmo fim que seu pai, não é? – ele disse enquanto eu estava caído no chão, me levantei depressa e continuei indo ao encontro deles. O soldado sem paciência me chutou de novo e apontou a arma para mim.

– Harry, vai embora! – minha mãe gritava – Fuja!

– Cala a boca! – o soldado disse para minha mãe e deu um soco no rosto dela. A raiva tomou conta de mim. Eu me ergui de novo, mas o soldado atirou em minha perna.

– Harry! – minha mãe gritou.

– Disse para você ir embora! – ele ainda tinha a arma apontada para mim, minha perna doía e sangrava muito.

– Vai, Harry… Vai… – minha mãe dizia – Eu te amo filho, agora vai!

Incapacitado de andar, correr ou me mexer, vi aqueles soldados nazistas levando minha mãe para longe de mim para sempre. Com dificuldade cheguei até onde estava o corpo de meu pai. As lágrimas rolavam pelo meu rosto.

– Isso não vai ficar assim… – disse com ódio – Não vai!

Médicos apareceram no lugar, me ajudaram com minha perna. Semanas depois eu embarquei para a França e de lá fui para a Inglaterra, fiquei com minha tia durante os anos que se seguiram depois de perder meus pais.”

Digamos que o ódio tomou conta de mim desde aquele dia. Uma sede de vingança. Queria poder destruir todos aqueles nazistas. Fazê-los provarem do próprio veneno. Nem mesmo meu namoro com Juliet me ajudava a superar aquilo. Depois de três anos tive que terminar, não queria dar falsas esperanças para ela. Estávamos juntos apenas para eu não me sentir sozinho. Não a amava de verdade, ela era mais uma amiga do que de fato uma namorada. Meu coração nunca batera tão forte por ela, na verdade nunca batera tão forte por nenhuma mulher. Até 1942.

“Garota mata seis nazistas com uma faca de confeiteiro”

Era a manchete principal no jornal daquela manhã. Peguei o jornal do chão e o levei para dentro da casa de minha falecida tia. Herdara aquele lugar e morava sozinho desde então. Sentei-me no sofá e comecei a ler a notícia.

“Jenna Miller. Uma bela e destemida jovem, evitou que pessoas inocentes morressem nas mãos de seis nazistas que atacaram uma padaria no subúrbio inglês.

Ao perceber o possível ataque terrorista, a jovem que tomava seu café da manhã na padaria não hesitou em pegar uma faca do confeiteiro também dono do lugar e dar um fim definitivo nos nazistas logo depois que eles se manifestaram para o ataque. Ágil e rápida, Jenna evitou um desastre maior e salvou a vida dos inocentes judeus que estavam naquele lugar.

Pesquisando mais sobre essa jovem, descobrimos que ela é filha do Coronel Patrick Foster e o mesmo disse que sempre a treinou desde pequena para ocasiões como aquela. O exército britânico está avaliando a possibilidade de levar Jenna Miller para alguma divisão para que ela treine os soldados para a guerra. Se tudo ocorrer como os conformes, Jenna Miller poderá ser a mais jovem e primeira mulher militar no mundo. Sua ajuda será de grande valor durante essa guerra que ainda assusta a todos.”

Uma mulher militar? Uma jovem que matou seis soldados nazistas com uma faca de confeiteiro? A coragem daquela garota me chamou a atenção. Torcia para que dessem um cargo para ela no exército, era merecido, mais que merecido! Jenna foi muito mais corajosa e ágil do que muitos soldados que se dizem capacitados para esse tipo de serviço.

Havia uma foto dela no jornal também. Ela era linda. Cabelos longos, lisos e castanhos escuros assim como seus olhos, ela tinha postura até para tirar foto e aquele sorriso de Monalisa me fez ficar encantado na hora. Eu tinha que procurar saber mais sobre aquela garota. A coragem dela me impressionava!

Pesquisas e mais pesquisas e eu sabia quase tudo sobre aquela jovem. Semanas depois o jornal publicou outra notícia sobre ela.

“Jenna Miller, a garota que matou seis soldados nazistas com uma faca de confeiteiro, ganha um cargo no exército. Ela é a mais jovem e primeira Tenente-Coronel mulher dessa guerra. Será designada para instruir e orientar os soldados das 6ª e 7ª divisões britânicas.

Críticas de alguns militares mais antiquados não foram nada boas, obviamente que ela sofrerá preconceito, mas se a jovem continuar com a determinação e a autoridade que tem, ela vai longe. Na próxima semana ela já se dirige para o quartel general.”

Sabia que ela iria conseguir! Se não dessem um cargo para ela no exército seria muita injustiça. A garota era incrível! E digamos que depois de pesquisas feita sobre ela eu acabei me interessando pela mais nova Tenente-Coronel do exército britânico. As notícias se espalhavam pelo mundo e já lia mais manchetes falando sobre mulheres se tornando mais ativas na guerra, nenhuma outra com um cargo no exército como Jenna, mas elas estavam mudando o mundo.

Eu ainda não havia sido convocado para o exército, mas queria ser chamado o mais rápido possível. O motivo? Vingança. Entrando no exército iria para a guerra e assim mataria todos os nazistas que estivessem a minha frente. Vingaria a morte de meus pais acabando com aqueles seres que os tiraram de mim tão cedo.

Até então meu coração estava repleto de ódio e sede de vingança. Mas com o tempo esse ódio e essa vingança se transformariam em outro sentimento. Com o tempo eu descobriria que não valeria a pena me vingar, aquilo não traria meus pais de volta. Então se eu fosse para o exército seria pelo amor a minha pátria. Deus salve o Rei!

“1943.

Na semana anterior haviam me convocado para o exército e seria designado para alguma das diversas divisões inglesas de soldados. Estava no caminhão junto com outros rapazes fardados.

– Sabe para qual divisão estamos sendo designados? – perguntei para o rapaz a minha frente.

– Sexta. – disse o rapaz com ar de superioridade.

– Prazer, sou Harry Sparks! – disse me apresentando.

– Brian Chill. – ele disse sem muitas emoções, resolvi parar com a conversa.

Não me lembrava ao certo qual era a divisão que a Tenente-Coronel Miller fora designada, mas lembrava vagamente que era ou 6ª ou 7ª divisão.

Descemos do caminhão e nos mandaram para uma tenda. Todos estavam conversando entre si até que duas pessoas surgiram naquele lugar.

– Façam uma fila e se virem de frente para mim. – era ela! A Tenente-Coronel do jornal!

– Tem uma mulher aqui! – um soldado disse surpreso ao meu lado.

– Por favor, façam a fila. – ela disse sem paciência e respirando fundo. Devo dizer que ela estava linda de farda. Autoritária, eu estava encantado com aquela pessoa esbanjando poder militar na frente dos soldados.

– Até que ela é bem bonita! – outro soldado disse mais para o final da fila. Vi a Tenente-Coronel revirando os olhos e olhando para o Coronel pedindo ajuda.

– Senhores, formação da fila, por favor. – o Coronel disse e nós formamos a fila e ficamos em posição de sentido, eu já estava desde o começo, mas os outros soldados só obedeceram às ordens do Coronel – Eu sou o Coronel Patrick Foster. Comando a sexta e a sétima divisão britânica de soldados. Essa aqui ao meu lado é a Tenente-Coronel Jenna Miller, vocês devem obedecê-la agora, pois ela é a instrutora de vocês. – dizendo isso ele se retirou da tenda. Olhei para a Tenente-Coronel que tinha um perceptível e maléfico sorriso no rosto.”

Não me importava o quão irrelevante fosse minha presença para a Tenente-Coronel. Eu estava contente por ter sido designado para a divisão que ela estava. Poderia me aproximar dela, conhecer mais sobre sua vida e tentaria conquistá-la. Estava decidido. Naquele instante o amor à pátria se tornou amor por outra coisa, mais especificamente por uma pessoa.

Tenente-Coronel Miller. Aparentemente seria bem difícil conseguir êxito em conquistar aquela jovem. Mas eu estava apaixonado desde o dia que li a primeira matéria no jornal sobre ela. Faria o possível e o impossível, mas aquela mulher seria minha. Para sempre, minha.

Capítulo 7