Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá. Para além da intertextualidade, minha terra tem cinco regiões e cada uma delas com sua diversidade de cultura e de sociedade que montam um país rico em natureza, rico em criatividade, mas pobre de governo, pobre de ajuda interna. Minha terra de nascença tem prédios altos, selva de pedra é o nome pejorativo, tem carros de todos os tipos, barulho, trânsito e poluição, tem parques bonitos, o Beco do Batman, lugares que nunca visitei pois dessa terra eu cedo saí, dessa terra eu não me lembro muito mais do que os dias que vou para lá visitar um pouco da minha família em datas comemorativas.
Uma nova terra se mostrou para mim, no auge dos meus cinco anos e meio, era uma terra, que aos olhos de uma criança, já era pequena e que as únicas memórias restantes são vagas como o jardim com um coqueiro na frente da casa, uma cachorrinha que anos depois foi roubada, vizinhos que eram adultos, amigos de escola que não falavam direito comigo por eu ser de outra cidade, essa nova terra tinha uma praça, o colégio que sofria bullying por se chamar Renne Egg e que me fez passar um dos primeiros bullyings na vida por ter que alisar o cabelo pra foto da escola e por deixar eu e outra garota de fora de algumas brincadeiras por sermos “gordas demais”. Essa terra tinha festas juninas grandiosas e gratuitas, tinha um povo que falava diferente e que por isso eu achava que eram todos italianos. Tinha muitas ladeiras e um shopping com dinossauros, um clube que todo final de semana eu ia para nadar e fazer trilhas, uma terra quente que eu morei até me darem a maravilhosa notícia de que voltaria para minha terra de nascença.
Minha terra tem prédios, um bairro com acidentes de esquina, uma rua em U, duas avós, uma em cada canto da rua, trânsito para chegar até a escola que a pé era 15 minutos, mas que como era tudo muito perigoso, tínhamos que ir de carro. Minha terra tinha um colégio que das pessoas eu consigo me lembrar quase de todas, tinha mais bullying, tinha matérias difíceis, tinha o esquema de chegar mais cedo na escola para descer para a quadra externa e pegar todas as moedas que caíam dos bolsos dos alunos quando eles faziam Educação Física se recusando a usar o uniforme adequado e colocavam o dinheiro do lanche na calça de tectel. Um colégio cheio de passagens secretas, moderno e que eu apenas me lembro de como foi difícil dar tchau mais uma vez quando me levaram para outra terra.
A nova terra tinha coisas novas, bullyings antigos, e tinha minha total aversão ao interior. Uma paulistana legítima no auge da sua pré-adolescência não podia se dar ao luxo de querer bancar a pessoa mais legal do mundo. Minha terra tinha um colégio que a princípio fazia todos os tipos de bullying, mas que me ensinou que dentro de mim tinha o poder de liderar, e no final dos anos do fundamental eu tinha virado o jogo, entre altos e baixos. Nessa nova terra tinha outro colégio, o Inferno Verde como era conhecido, tinha alienação, lavagem cerebral e tinha até alguns intercambistas. Nessa nova escola tinha divisão de alunos por nota e a educação física ficava por conta da academia que a escola incluía nas contas da mensalidade, academia que eu visitei no máximo 5 vezes nos três anos que fiquei lá.
Essa nova terra é a que eu tenho mais lembranças, foram 10 anos de interior, de pessoas que falavam “cachórra” e que puxavam o “r” de uma maneira que eu zombava bastante, mas que hoje faz parte do meu sotaque misturado. Nessa terra eu passei pela adolescência, passei pelo início da fase adulta, fiz faculdade, trabalhei, construí um pouco do que sou hoje, superei o orgulho e essa terra é o que eu hoje chamo de “minha terra”, a terra que me acolheu e que apesar das idas e vindas, foi a terra que me criou. Logo depois recebi a notícia pelos meios internéticos de que uma nova terra me aguardava, uma terra distante, uma terra que eu estava insegura de viver, ainda mais sabendo que era a primeira terra que iria mudar sozinha.
Minha terra tem cinco regiões, cada uma delas diversificada em sociedade e cultura. Das terras que vivi, visitei e passei, a nova terra era tão diversificada quanto as outras, e por quatro anos eu voltei a ser orgulhosa, eu voltei a me fechar. É difícil, pode parecer que não, mas uma mudança é sempre difícil e eu posso me considerar especialista em mudanças. Mudar para o sul foi um baque, foi aprendizado, foi um rebuliço de coisas que nem se eu ficasse aqui horas escrevendo, eu conseguiria contar metade do que foi a mudança para essa terra. O lugar que tem coxinha de carne, tem caqui (podre) de chocolate, tem coisas que eu nunca vi nem quando visitei os dois extremos do país, a chamada Rússia Brasileira, a terra do café, a terra do lago no meio da cidade, do governador que faz de tudo para acabar com a vida do professor, a terra da Universidade Estadual que está caindo aos pedaços e que nada é feito para sua melhoria, a terra das pessoas que puxam mais o “r” do que na terra de Votorantim ou na terra de São José dos Campos, a terra que eu conheci baladas, barzinhos, vida noturna, passeatas, manifestações políticas e culturais, a terra da minha liberdade, da minha independência. Onde fiz amigos de todos os lugares, tamanhos e idades, todos os gêneros e gostos, todos os tipos de políticas e que ajudaram a quebrar meu orgulho, que me acolheram e que vai ser incrivelmente difícil dar tchau mais uma vez.
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, tem praias lindas, regiões muito chuvosas e regiões de muita seca, minha terra tem carnaval, oktoberfest, festa de São João, ano novo carioca, natal com trilha sonora de Roberto Carlos e Michael Jackson, minha terra tem vegetação, tem floresta Amazônica, tem cerrado, tem Jalapão, tem divisas com outros países, tem muitos estados. Minha terra tem pessoas. Tem pessoas de todos os tipos, e eu conheci algumas pessoas nessa minha vida jovem de “andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz, guardando as recordações das terras onde passei, andando pelos sertões e dos amigos que lá deixei”.
Minha terra não é espaço físico, é mais como o Sertão de Guimarães Rosa, minha terra é personagem, é cada pessoa que me passou por mim seja de maneira rápida, seja de maneira que dura anos e que vai durar muito mais. Minha terra é esse Brasil, porque dele eu ainda não saí, e até que eu saia um dia para fazer seja lá o que for eu quero ter comigo pessoas, pessoas que guardo na memória e no coração, pessoas para rir, chorar, cantar, dançar, brigar, gritar, pessoas.
Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá.
