Gen estava no centro histórico de Colônia como sempre fazia quase todas as manhãs, principalmente de sábado. Estava preparada para sua caminhada matinal e já tinha andado bons quilômetros naquele dia quando entrou em uma lanchonete para comprar uma garrafa de água e dar uma pausa nos exercícios físicos.
Foi logo que levantou, na manhã daquele sábado, que Dennis percebeu que Lisa poderia ter sido um pouco mais específica com relação ao lugar que ele poderia encontrar Gen. O centro histórico de Colônia era gigante, mesmo a cidade sendo pequena e muitas pessoas estavam por lá para mais um almoço e passeios. Como já havia sido combinado na tarde anterior, Oliver deu a manhã de folga para seus atores e a equipe do filme, mas eles retornariam as gravações logo depois do almoço.
Sem muita força para levantar e ainda tonto das cervejas da noite anterior, Dennis cambaleou até chegar ao banheiro do segundo andar e jogar uma água no rosto. Depois de relembrar a dica de Lisa sobre a rotina de Gen para os sábados ele despertou correndo e se vestiu procurando seu celular para ver o horário. Já passava das 11h, ele nem tomou café da manhã, passou pela sala voando, não parando para escutar o comentário de Louis e chamou um táxi para o centro histórico.
Era como procurar um singular grão de areia na praia, Dennis tinha poucas horas para tentar achar Gen “por acaso” e voltar para as gravações. Revirou o centro histórico por completo até que não podia mais enrolar para voltar ao set, já eram 13h30 e Oliver não perdoava atrasos, ainda mais quando já tinha dado a manhã de folga para a equipe.
— Sobre o que é o filme? – ele escutou uma voz atrás dele quando se aproximava do lugar das gravações.
— É um drama… – Dennis disse em inglês tentando não sorrir muito para não transparecer sua felicidade de ver Gen.
— Então você tá na equipe? – ela caminhava ao lado dele, seus cachos estavam presos no topo da cabeça, o headphone no pescoço, sua roupa era esportiva e apesar de ser morena, Gen estava vermelha de tanto praticar exercícios físicos.
— Sim… – ele disse sorrindo – A propósito, que bom que cantou ontem! Muita gente estava esperando por aquele momento…
— Percebi, mas vocês precisam dar uma chance pra Zoë! Eu fui até o fim do mundo dessa cidade pra achar aquela mulher! – Gen ria e bebia água.
— Eu dei! Ela é uma excelente cantora! – Dennis disse se defendendo – E hoje, é ela que vai cantar? Você? Alguém novo?
— Isso sempre será uma surpresa, senhor cliente! – Gen parou no alambrado do set.
— Dennis, me chame de Dennis! – ele estendeu a mão para cumprimentar Gen.
— Maria Eugênia! – Dennis ficou confuso com o nome, mas sentiu o toque da mão macia de Gen na sua – Mas aqui ninguém tem conseguido falar meu primeiro nome, nem o segundo direito, então eu achei que falar Gen ia facilitar a vida de todo mundo! Eugênia… Gen… Entendeu?
— Maria Eugênia… – Dennis tentou falar o nome da cantora que conversava com ele.
— Viu… Gen é melhor e é mais curto! – Gen riu da tentativa de pronúncia de Dennis.
— Mas é um nome bem bonito! – ele disse sabendo que suas bochechas estavam vermelhas.
— Dennis! – Oliver mais uma vez cortava o assunto de Dennis com Gen.
— O trabalho te chama! – Gen disse rindo – Arrasa, senhor cliente!
— Te vejo de noite? – Dennis não conseguiu segurar a pergunta dentro de sua cabeça.
— Vai virar cliente premium, senhor cliente Dennis? – Gen gargalhou.
— Acho que sim… – Dennis se permitiu entrar na brincadeira.
— Bom, então você vai descobrir hoje a noite!
— Espero não me decepcionar…
— Longe de mim decepcionar alguém, só meus professores de matemática, física, química, a mulher da lojinha que eu não comprei nada…
— Gen, você é uma figura! Espero poder te ver hoje! – Dennis disse sabendo que Oliver já tinha chamado sua atenção mais duas vezes.
— O sábado é uma caixinha de surpresas, senhor cliente! Até mais! – Gen voltou a colocar seus fones rosa – Arrasa! – ela gritou e já tinha voltado a correr pela rua.
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Gen chegou ao bar mais cedo que o normal naquele sábado. Lisa estava limpando o recinto com mais três funcionários quando Gen desceu as escadas animada, já de banho tomado e seus cachos secando naturalmente.
— Ok, eu trouxe uma coisa… – Gen entrou no Holzbunker quase saltitando.
— Espero que seja sua voz para cantar… – Lisa falou vendo a amiga.
— Isso é uma surpresa, mas preciso da ajuda de vocês… – Gen apontou para a superfície e voltou a subir as escadas – Esse é o Gulliver, que nem no livro… – Gen ria das referências que fazia – E o Gulliver está aqui para mudar todo o sistema de som do bar antes de iniciarmos o expediente!
— Gen, quando você diz mudar o sistema de som…
— Eu digo que comprei um novinho! Muito melhor e o som, meus queridos, o som vai ser como se estivéssemos no Rock In Rio! – Gen falava animada olhando para Lisa e depois para Gulliver, o rapaz do som.
— Mas, Gen… Como comprou isso? Digo, não sei se temos caixa para pagar… – Lisa se preocupava com a impulsividade da amiga.
— Lisa, lembra da nossa primeira conversa que tivemos quando você falou pra eu trabalhar aqui? – Gen puxou Lisa para o canto da rua e deu sinal para Gulliver e os outros funcionários ajudarem com os novos equipamentos.
— Que você não ia aceitar pagamento, só a hospedagem e comida já estavam de bom tamanho, e mesmo assim eu insisti e te paguei? – Lisa falou se recordando da primeira conversa com Gen.
— Exatamente e eu guardei esses salários que não queria e resolvi que hoje compraria um novo sistema de som para o bar, o dinheiro retornando para onde nem devia ter saído! – Gen dizia animada.
— Gen… – Lisa sorriu – Eu não sei nem como te agradecer…
— Me agradeça ajudando a montar, são muitos aparelhos e vamos precisar de toda ajuda possível!
— Você não existe! – Lisa abraçou a amiga.
— Me agradeça também parando de fumar, nossa que horror! – Gen disse retribuindo ao abraço da amiga.
— Essa parte é mais difícil, mas vamos lá montar esses aparelhos de som!
— Bom, eu tomei a liberdade de usar o instagram do bar pra fazer algumas promoções pra hoje pra ir pedindo pra galera escolher possíveis playlists… – Gen disse voltando para o bar com Lisa e mostrando o celular para a amiga – Uma galera está querendo Elton John e eu não fazia ideia de que fosse ser um sucesso aquela noite, mas não pretendo repetir a dose agora, por isso pensei de hoje manter o ritmo agitado e dançante intercalando músicas dos anos 80 e do Elvis…
— Então vai cantar?! – Lisa dizia carregando uma grande caixa de som.
— E deixar de estrear esse sistema de som novinho? É óbvio que vou cantar! Mas Zoë vem também! – Gen respondeu animada.
— Vai ser perfeito! Você está fazendo muito pelo bar, Gen, nunca vou saber agradecer direito e não, não vou parar de fumar tão cedo… – Lisa falou vendo Gen abrir a boca pra falar.
— Gen, Elvis?! – Mike descia o para o bar subterrâneo com sua guitarra dentro da capa.
— Não gosta? – Gen perguntou receosa.
— Eu amo! Você é um gênio! Vamos logo ensaiar… O que está acontecendo aqui? – Mike olhava para as pessoas segurando fios e caixas de som pelo bar todo.
— Está acontecendo nossa preparação para nossa grande performance, Mike! – Gen sorria radiante.
Na sala da casa da equipe e atores do filme, Dennis se olhava no espelho na parede de entrada e arrumava seu topete como de costume. A casa parecia uma república com tantas pessoas sendo recebidas, mas longe de ser para um fim acadêmico, a reunião e aglomeração eram para fins culturais.
— Me diz que você pegou o número dela enquanto ficou conversando antes das gravações… – Louis falava sentado no sofá e olhando para Dennis muito concentrado no penteado.
— Claro que não, pra que pegaria? – Dennis dava os retoques finais na camisa azul.
— Ah não sei… – Louis disse rindo – Vai pegar hoje a noite, pelo menos?
— Que tal vocês se arrumarem logo? – Dennis disse se virando para Louis e Chris.
— Hoje a gente vai numa boate, mas aproveite a noite com sabedoria e, por favor, só entre de novo nessa casa com o número dela… – Louis falou rindo do amigo.
— Até amanhã! – Dennis ignorou o comentário de Louis, colocou a carteira preta de couro no bolso da calça e saiu da república de artistas em direção ao bunker de madeira.
No topo da escada, Gen avistava uma pessoa se aproximando do final da rua sem saída, ela estava aquecendo a voz quando Dennis se aproximou sorrindo de orelha a orelha.
— Chegou cedo, senhor cliente! – ela olhou para o pulso sem relógio, mas sabia que era cedo para o expediente do final de semana.
— Quis garantir meu lugar… – Dennis não desviava do olhar brilhante de Gen.
— Fez muito bem, porque hoje a noite promete! – Gen olhou para o celular na mão de Dennis que apitava sem parar – Alarme?
— Não… – Dennis desbloqueou e viu várias mensagens de uma única pessoa: Louis.
— E seus amigos? Cansou de divulgar nosso bar? Ou quer a cerveja só pra você? – Gen riu vendo Dennis olhando confuso pra tela do telefone.
— Bom, eles resolveram ir para os concorrentes hoje, mas eu sou fiel! – Dennis tinha visto vários áudios mandados por Louis.
— Seu amigo não gosta de digitar, pelo jeito… – Gen olhou curiosa para a tela do rapaz – Desculpa, não evitei… – ela logo desviou o olhar – Será que é sacanagem que ele tá te mandando? – ela riu e Dennis sentia a ardência nas suas bochechas.
— Só tem um jeito de descobrir… – ele ameaçou apertar o play do áudio – Está pronta para escutar possíveis coisas inapropriadas?
— Nasci pronta! – Gen sorriu e se aproximou de Dennis para ouvir melhor o áudio.
“Pede o número da Gen!”
— Eu escutei meu nome, mas como eu não sei alemão posso ter entendido errado… – Gen disse rindo e olhando nos olhos assustados de Dennis – Pela sua cara era meu nome mesmo… O que ele disse?! Me fala, por favor!
— Louis é daquelas crianças de 28 anos que não crescem nunca… – Dennis tentava fazer parar os áudios que eram reproduzidos na sequência, para a sorte dele todos em alemão.
“Pede o número da Gen!”
— Ei, esse foi em inglês! – Gen disse rindo – Você quer meu número?
— Meu Deus… – Dennis agradecia a fraca iluminação do final da rua por não mostrar a cor de tomate cereja que ele expunha no rosto – Ignora ele…
— Então não quer meu número? – Gen sorria.
— Não é que… Você vai cantar hoje? – ele disse desesperado pra mudar de assunto.
— Só se me responder se quer meu número ou não… – Gen erguia uma sobrancelha.
— Gen, o Louis é um retardado… – Dennis tentava reparar a brincadeira do amigo.
— Então não quer meu número…
— Quero… Digo, se você quiser passar… – ele disse rápido para não se arrepender.
— Hum… Vou pensar! – Gen sorriu – Venha, senhor cliente, hoje vai ser um espetáculo! – ela disse pegando no braço de Dennis para puxá-lo até o bar revestido de madeira, sem saber como reagir àquela situação, Dennis só fez o que seus pés o mandavam fazer: caminhar seguindo Gen.
— Dennis! – Lisa avistou o ator descendo com Gen.
— Olá, Lisa! – ele disse ainda sendo puxado por Gen até as mesas na frente do palco – Valeu pela dica ontem, mas quem me achou foi ela… – ele falou em alemão para Lisa que riu.
— Eu tenho uma regra, senhor cliente… – Gen parou de andar e apontou para ele sentar na cadeira – Prefiro que falem em inglês na minha presença, porque quando falam em alemão sabendo que estou escutando eu já acho que estão me xingando…
— Longe de mim te xingar… – ele disse sorrindo para Gen que subiu para o palco.
— Ele agradeceu Lisa pela dica de ontem, mas que foi você quem o encontrou hoje… – Mike traduziu para Gen que olhou para Dennis sorrindo de canto e semicerrando os olhos.
— Ah foi, é? – ela olhou para Lisa – Gostaria de se explicar, Lisa?
— Não, obrigada! – Lisa respondeu.
— E você, senhor cliente? – Gen olhou para Dennis sentado.
— Vai me passar seu número se eu me explicar? – Gen arregalou os olhos por alguns momentos e começou a rir.
— Lisa, passe pra ele… Tenho um show pra iniciar… – Gen piscou para Dennis que estava mais surpreso que antes quando mais uma vez externalizou seu pensamento na frente e para Gen.
— Gen disse que hoje não vai cantar a noite toda e como ela fez muito por nós, dei o dia de folga pra ela amanhã… Ela gosta de ir até a Catedral de domingo… – Lisa disse ao lado de Dennis e falava baixo em alemão enquanto escrevia num guardanapo o número de Gen.
— Inglês, por favor… – Gen disse no microfone.
— O número é daqui? – Dennis disse olhando o papel com números em caneta azul.
— Sim, Gen pegou o chip logo que chegou… Agora vamos obedecer ela, porque eu não gosto de ver a Gen brava… – Lisa se levantou – Gen, quero você arrasando!
— É só o que eu faço, bebê! – Gen piscou para Lisa e iniciou os trabalhos musicais da noite.
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O bar se enchia aos poucos naquela noite de sábado quando Gen anunciou mais uma vez a presença de Zoë e avisou que era ela quem iria continuar o show pelo restante da noite. Com a mesma animação que na noite anterior, Zoë agradeceu os aplausos da plateia e retomou à playlist da amiga. Sem perceber que estava atento à movimentação de Gen, Dennis viu seus olhos a seguindo para a cozinha e como se pressentisse que ela iria embora, resolveu se adiantar e pagar a conta no caixa. Outra funcionária estava recebendo os pagamentos naquele momento. Sem tempo para uma conversa, Dennis digitou a senha do cartão e segundos depois já subia as escadas para fora do bunker.
— Então você é desses? – a voz de Gen ecoou atrás dele enquanto ele andava lentamente pela rua – Pega o número das pessoas e nem fica pra ver o show todo…
— Sou desses que nem deveriam beber tanto assim numa semana só… – ele disse parando e esperando Gen chegar até ele, ela estava com a bolsa de couro no ombro – Não vai fazer a parte final do show?
— Hoje não… – eles caminhavam juntos – Mas o que achou? Percebeu alguma coisa de diferente?
— Percebi que o som estava espetacular, não que antes não estivesse, mas hoje estava diferente… – Gen sorria largamente.
— Era essa a intenção! Eu comprei um sistema de som novinho pro bar!
— E foi uma ótima compra! – Dennis disse sorrindo, mas não olhando para Gen, ele sentia que o assunto ia se encerrando – E amanhã? Vai cantar?
— Amanhã tenho uma folga!
— Então vai poder descansar finalmente… – instantaneamente Dennis se arrependeu de dar uma resposta como aquela, deveria continuar o assunto, era o que se passava em sua cabeça.
— Ou eu posso dormir o que sempre durmo e quem sabe você me chama pra sair, sei lá, me explicar que história é essa de você me procurar por aí… – Gen olhou para Dennis que estava sem reação – Em todo o caso, vou ter meu sono da beleza, espero acordar e ver uma mensagem de um número novo, quem sabe… – A gente se vê, senhor cliente! – Gen quase ria descaradamente quando ficou na ponta do pé e deu um beijo na bochecha de Dennis antes de seguir para o lado esquerdo da rua.
Sem saber ao certo como manter uma respiração compassada, Dennis se viu no meio da avenida que dava entrada para a rua do bar, conseguiu ainda chamar um uber para voltar para casa. Ficou olhando para o número em caneta no guardanapo que Lisa tinha dado para ele no início da noite, digitou na tela de seu celular e salvou com o nome composto de Gen: Maria Eugênia.
Os que não tinham saído já estavam em seus quartos dormindo ou fazendo qualquer outra coisa que não exigia a interação de grupo. Dennis subiu ainda atordoado com as emoções daquela noite e se deitou na cama. Olhava para o nome de Maria Eugênia na conversa não iniciada no whatsapp, queria mandar um “oi”, mas parecia pouco e muito simples. Por alguns momentos desejou que Gen mandasse a mensagem, mas logo se lembrou que ela não tinha o número dele, era ele quem teria que tomar a iniciativa daquela vez.
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A Catedral de Colônia (Kölner Dom) era uma imponente construção e principal ponto turístico da cidade alemã, conhecida não só por sua estrutura gótica de meados do século XIII, mas por resistir a muitos bombardeios durante a Segunda Guerra e pela fama de ser o “sarcófago” dos restos mortais do Reis Magos desde o século XVII. A fachada era de impressionar até os menos religiosos e o interior não ficava para trás. Em frente da grande entrada de torres de 150 metros de altura, havia um grande pátio, as festas de Carnaval da cidade eram celebradas ali, assim como os festivais Natalinos.
Por ser domingo e um dos dias mais santos para os religiosos, a Catedral se encontrava repleta de turistas e moradores da cidade. Os guias trabalhavam também de domingo, pontos turísticos muito famosos não tinham muito descanso, era o caso da igreja que Maria Eugênia olhava sentada em um banco no pátio próximo a entrada.
— Ninguém nunca me chamou pra ir à igreja, ninguém que não fosse minha mãe, é claro… – Dennis disse se aproximando de Gen e se sentando ao lado dela no banco.
— Ora, não percebeu que eu vou te evangelizar?! – Gen olhou para Dennis e riu.
— Eu já sou batizado, sinto te informar…
— Então vou ter que ligar pro padre e cancelar tudo… – ela olhava para ele sorrindo também com os olhos – Oi.
— Oi… – ele respondeu e viu o rosto de Gen virar para a entrada da igreja – Mas então, a gente vai assistir a alguma missa ou…
— Não! – Gen gargalhou – Não acredito que achou que fôssemos assistir a uma missa, eu sou louca, mas nem tanto!
— É que eu realmente não entendi quando você me respondeu ontem falando, vou pra igreja amanhã…
— E você veio mesmo assim? E se a gente fosse assistir a alguma missa? – seus olhares se encontraram de novo.
— Bom, pelo menos ia ter certeza que você não iria me matar e esconder meu corpo…
— Muita gente já foi assassinada na igreja, sabia? – Dennis riu – Não, só achei um bom ponto de encontro e eu já fiz minha visita dominical lá dentro, só estava te esperando mesmo.
— Então vai à missa? – Dennis perguntando vendo Gen se levantar, logo ele se levantou também.
— Não, quer dizer, eu fui na hora que estava tendo uma missa, mas não presto atenção… Que Deus me perdoe… – ela riu – Mas então, senhor cliente, Dennis, esteve me procurando ontem de manhã?
— A gente vai mesmo precisar falar disso? – Dennis se sentia corando, ele caminhava ao lado de Gen para fora do pátio.
— Não, relaxa! Então você é da equipe do filme, o que exatamente você faz lá?
— Eu protagonizo o filme…
— Nossa! Estou ao lado de um super astro do cinema alemão! – Gen ria – Tem paparazzi seguindo a gente?
— Não, claro que não! – ele riu – Eu não sou um super astro, ainda, mas estou trabalhando pra isso…
— Tenho certeza que você está querendo ser modesto, porque acabei de ver um flash vindo ali daquela árvore… – Gen apontou para a árvore à frente dos dois.
— Sério?
— Não! – ela gargalhou – Mas vá se acostumando, logo mais não vai ter um dia de sossego, vai ter que controlar sua cara até quando estiver espirrando…
— Eu que te digo isso! Há quanto tempo é cantora?
— Hum… – ela fingia calcular na cabeça – Desde que Lisa me contratou pra cantar ao vivo no bar…
— Mentira, você não é cantora profissional? – Dennis encarava Gen surpreso.
— Eu sei, os heróis decepcionam… Sinto muito te decepcionar, criança… – Gen passou a mão no rosto de Dennis como se estivesse consolando o rapaz – Você é tão branco que fica vermelho com muita facilidade!
— E você é muito… – ele tentava achar a palavra certa ao mesmo tempo em que tentava não demonstrar que o gesto de Gen o fazia arder nas bochechas.
— Muito… – Gen estava atenta – Pensa bem, estava quase indo te pagar um doce…
— Espontânea… – ele disse desistindo de não corar – Bom, você não é daqui, ou é?
— O que acha? – Gen ergueu uma sobrancelha, os dois já tinham voltado a caminhar pelas ruas de Colônia.
— Acho que não é nem da Alemanha…
— Como ousa falar isso? – Dennis arregalou os olhos – Calma, só estou brincando… Eu não sou alemã, mas me sinto alemã!
— Então você é de onde?
— De todos os lugares! – Gen sorria – Próxima pergunta!
— O que faz da vida, além de cantar muito bem?
— É só o que eu faço da vida, está dizendo que minha profissão não é uma profissão digna?
— Eu não vou cair nisso de novo… – Dennis sorriu – Você disse que não era cantora até Lisa te contratar, então quero saber o que você fazia antes disso…
— Antes disso eu já fiz tantas coisas…
— Se formou em alguma faculdade ou curso?
— E importaria se eu não tivesse me formado?
— Você vai rebater as minhas perguntas com outras perguntas? – Dennis ergueu uma sobrancelha.
— Touché… – Gen sorriu – Eu tenho algumas faculdades sim… E antes de ser cantora eu exercia essas faculdades na prática…
— E teria algum problema se eu perguntasse quais são, já que você gostou de enfatizar que tem algumas, no plural? – Gen sorria para ele largamente – Bom, matemática, física e química não é… – o celular de Dennis tocou.
— É seu amigo? Ele já sabe que te passei meu número? – Gen tentava ver quem era na tela do celular do rapaz.
— É ele sim, mas não vou atender, vamos continuar nosso passeio…
— Tá com medo do que ele vai falar, é?
— Claro que não, vou por no viva-voz, você vai ouvir tudo agora!
— Não vou entender nada mesmo… – Dennis atendendo a ligação que foi em alemão, fazendo Gen tentar decifrar o que os dois falavam e se Dennis estava falando que estava com ela no momento.
— Certo… – ele disse depois que desligou a chamada – Você tinha algum passeio específico pra hoje?
— Sair com o cara que pediu meu número não é um passeio específico?
— Espontânea, de novo… – Dennis tentava disfarçar – Enfim, o Louis, meu amigo inconveniente disse que vai ter uma dinâmica com a equipe hoje, e quando tem isso sempre tem algumas brincadeiras de teatro, a galera chama foodtrucks pra ficarem por perto, quem estiver passando na rua pode participar…
— Eu topo! Se é que você está me convidando…
— Estou! Não fica longe daqui, podemos ir a pé, o que acha?
— Vamos! Mas antes vou te pagar o doce que falei… Sou uma mulher de cumprir as promessas.
— Mas eu não pedi que me prometesse nada…
— Dennis, não foge do roteiro que criei na minha cabeça, você tem que aceitar o doce, que vai ser o meu favorito e aí você me oferece um pedaço e eu como metade, porque eu vou comprar só um…
— E se eu te comprar um pra não ter que dividir?
— Aí não estaria sendo o passeio que eu imaginei, mas eu ia adorar que me pagasse um doce!
— De onde você veio, Maria Eugênia? – ele se enrolou para falar o nome dela, mas fez questão de usar o nome duplo naquela hora – Porque desse mundo você não é! Espera, você está vermelha agora? – ele disse vendo Gen ficar corada e tímida depois do comentário que fez.
— Não esquenta, o posto de super palmito ainda é seu… – ela riu ficando mais vermelha.
— Ufa, achei que já estava querendo roubar meu maior talento!
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Artes Cênicas por todos os cantos do mundo tinham um objetivo central: expressar. Seja o que for, expressar um sentimento, uma arte, uma cultura, a junção de todos esses quesitos. Os que estavam no ramo da atuação sabiam se expressar como ninguém, sempre vistos como pessoas mais soltas, pessoas mais suscetíveis a uma boa convivência. Os que mantinham isso quando iam para as telas de cinema e ganhavam a fama eram poucos, mas a essência estava sempre ali, para em momentos como os que Dennis levava Gen, resgatarem esse objetivo que pode ter adormecido.
A equipe do filme era grande, estavam divididos em muitas áreas da cidade. Oliver era um diretor que se preocupava com manter a essência de todos sempre viva, fazê-los sempre relembrar o motivo da profissão deles para além de ganhar milhões com uma superprodução que ganharia as telas do cinema alemão. Os grupos se espalhavam pelas ruas do centro histórico tão conhecido por Gen e tentavam atrair principalmente as crianças para brincadeiras, dinâmicas, atuações improvisadas com muita risada.
— Eu gosto desse… – depois de apresentar rapidamente Gen para seus colegas de equipe, Dennis a levou para onde o grupo de Louis fez um pequeno círculo na calçada e atraía a atenção dos visitantes e curiosos de plantão – É o espelhamento, você deve conhecer, mas eu gosto que o Louis nunca faz o espelhamento direito…
Louis e outra mulher da equipe estavam de frente um para o outro, uma sinfonia era tocava baixinho perto da caixa de som que estava próximo aos dois. A mulher começou a famosa técnica do teatro e, a princípio, Louis a imitava com perfeição.
— Para de querer difamar seu amigo… – Gen disse baixo olhando para os dois se imitando.
— Não, longe disso, repara, o Louis começa a sentir a música num nível além do que ele pode controlar e… – Dennis apontou para o amigo imitando bem pouco sua colega de dinâmica que não parecia surpresa e logo os dois estavam em uma dança improvisada, mas muito sincronizada com as batidas da música.
— As pessoas querem dançar, dá pra ver, olha como elas movimentam alguma parte do corpo discretamente… – Gen apontava as pessoas ao redor da performance de Louis e da outra mulher, a música estava mais alta e fazia com muita gente se sentisse atraída para fazer o mesmo que os atores.
— Vamos dar o gatilho para a iniciativa, vem! – Dennis puxou Gen pela mão.
— Vai ser uma vergonha, você tem uma carreira a zelar e eu vou ser a culpada por manchar seu nome!
— Então por que ainda está me acompanhando? – Dennis ergueu uma sobrancelha.
— Ah, é assim? Se solta aí, pé de valsa! – Gen começou a dançar perto de Louis rindo sem parar.
— Boa, Gen! – Louis puxou Gen pelo braço e os dois começaram a dançar juntos, Dennis fez o mesmo com Jess, a amiga de elenco dos dois, e em pouco tempo os mais tímidos se soltavam com o grupo na calçada, muitos filmavam e riam – Vai ficar cada vez mais difícil pro Dennis parar de falar de você agora, mas tudo bem eu aguento!
— Você não presta, sabia? – Gen disse rindo e sendo rodada por Louis.
— Sabia! Volte pra lá, se não o Dennis pisa no meu pé de propósito… – ele empurrou Gen de leve para perto de Dennis e os pares foram trocados.
— Ora ora, pé de valsa! – Gen dançava com Dennis que ria cada vez mais.
— E aí, gostando? – ele rodopiava Gen no meio da calçada.
— Bastante! – a música se encerrou e uma nova dinâmica se iniciaria – Você dança bem, senhor cliente!
— É um dos meus talentos… – ele disse respirando ofegante depois da brincadeira. Gen olhava pra ele do mesmo jeito – O que foi?
— Nada, desde quinta que tô pra te falar que seu sorriso é ridiculamente bonito!
— Bom, ainda bem que eu já estou vermelho de ficar dançando, né…
— Não, é sério, quando você respondeu minha pergunta nada a ver sobre conhecer o Elton John e sorriu me deu um mini ataque cardíaco, porque seu sorriso é ridiculamente bonito.
— O que seria um sorriso ridiculamente bonito? – Dennis caminhava para um dos foodtruck na rua.
— Não sei explicar, é tão bonito que chega a ser ridículo, acho que é isso… Não, espera… – Gen ria sem parar – Ai me ajuda aqui eu tô me enrolando toda!
— Quando alguém se enrola desse jeito quer dizer uma coisa…
— O que seria? – Gen perguntou tentando parar de rir de nervoso.
— Que está na hora de comermos! – Dennis a viu revirando os olhos bem rapidamente – Ou quer dizer uma coisa diferente de onde você vem?
— Não, claro que não… – ela sorriu e observou Dennis pedir um lanche no caminhão de comida e minutos depois ele voltou com uma embalagem de papel – Pra viagem?
— Sim, vem! – ele caminhou pela calçada até chegar em um dos famosos jardins de Colônia, se sentou na grama e Gen o acompanhou – Eu pedi um tradicional, não sabia do que gostava e você não me disse nada…
— Tá ótimo! Eu como de quase tudo! – Gen o olhava.
— Então… Eu sei que você ficar rindo de nervoso daquele jeito não é fome, mas é que eu não queria que o Louis ou qualquer outra pessoa daquele elenco traidor me visse te beijando e atrapalhando todo o nosso esquema… – o sorriso de vitória no rosto de Dennis serviu como uma vingança aos momentos que Gen o deixou sem reação.
— E eu que sou a louca da espontaneidade… – Gen viu Dennis se aproximar dela sorrindo – Sorriso ridículo… Você sabe que se sair na mídia sua reputação acabou, né?
— Só fecha os olhos, Gen… – ele disse rindo antes de selar seus lábios com os de Gen num beijo calmo – A gente sabe fazer leitura corporal no teatro e você não sabe nem um pouco disfarçar quando revira os olhos… – Dennis disse depois de um tempo beijando Gen – Tipo agora que você não esconde sua cara de “ah pronto”…
— Desculpa, eu não sei disfarçar mesmo, mas então, a gente pode comer ou não?
— Me diz você! – ele ria.
— Começou a atuar desde quando? – Gen disse abrindo a embalagem de viagem dos lanches e entregou um para Dennis e pegou o outro.
— Desde pequeno, mas profissionalmente tem poucos anos… Fui “descoberto” mesmo com 25 eu acho…
— E você teria quantos anos agora?
— 57 não está óbvio? – Gen gargalhou – Trinta. E você?
— Eu fui descoberta agora mesmo, com 28 e meio… Eu estava pensando aqui, hoje é meu dia de folga, mas queria sair pra beber, topar ir pro bar e beber mais um dia essa semana? Leve em consideração que eu trabalho no bar, mas eu não bebo, então eu estou há muitos dias sem uma gota de álcool…
— Você quer que eu vá pra um bar pelo quarto dia seguido? – Dennis falava de boca cheia.
— Se for te convencer a aceitar eu digo que faço um show…
— Vai me arrastar pro bar com a promessa de um show que você deveria fazer por obrigação porque é seu trabalho?
— Não é minha obrigação porque hoje eu estou de folga, mas eu posso dar o ar da minha graça no palco se isso for te fazer aceitar a ir beber comigo.
— Eu tive uma ideia melhor, que não envolva sua reputação no seu ambiente de trabalho… – Dennis sorriu – Vamos em um bar diferente, um karaokê, assim você bebe e canta e se ficar muito bêbada pelo menos não vai assustar seus clientes mais fiéis que estão acostumados a te ver linda e encantadoramente sóbria!
— Você vai beber junto? – Gen sorria.
— Eu faço esse esforço, Gen, fazer o quê… – ele revirou os olhos rindo.
Dennis voltou para a casa que estava hospedado algumas horas depois com um sorriso muito grande no rosto que denunciava tudo para os que sabiam do que estava acontecendo com o ator.
— Você tá parecendo um adolescente idiota desse jeito! – Louis ria ao ver Dennis entrar na casa.
— Pegou ou não? – Chris perguntava animada.
— Olha pra cara de retardado dele, é claro que pegou! – Louis ria.
— A gente vai pra um bar karaokê de noite, querem ir junto? – Dennis conseguiu falar.
— Você quer que a gente vá?! – Louis ria – Ou tá convidando por educação?
— Bom o convite é da Gen, se ela convidou por educação eu não sei… – Dennis falou olhando o celular.
— Eu aceito ir, quero ver como o galã aqui vai se comportar agora que oficialmente pegou a paquerinha dele… – Louis disse se levantando do sofá.
— Eu vou me comportar bem, já ela eu não garanto nada, ela disse que quer beber até não poder mais… – Dennis ficava vermelho com muita facilidade.
— Então vou fazer companhia pra ela nesse caso! – Chris disse rindo.
— Vá se arrumar bonitão, o tanto que vai demorar pra arrumar o topete já vai dar a hora de irmos! – Louis disse batendo no ombro de Dennis que subiu para tomar banho.
Perto do bar, Gen entrava na casa de Lisa, sua anfitriã desde que tinha chegado em Colônia. Tentando disfarçar o dia que teve, ela subiu para o quarto tentando não se fazer ser percebida por Lisa que ainda estava na casa.
— A senhorita vai me explicar que cara de bobinha é essa? – Lisa apareceu no quarto de hóspedes que Gen dormia.
— Eu saí com o Dennis como bem sabe.
— E ficaram?! – Lisa dava pulinhos empolgados.
— Bom, ele beija muito bem… – Gen jogou o travesseiro em Lisa que gritou animada – Para de agir como se tivesse 14 anos! – ela ria.
— Ok, eu percebi o interesse dele em você desde o primeiro dia no bar… – Lisa falou – Bom ele te falou que é ator? Ele é bem famosinho na capital menina, olha o instagram dele, mais de sei lá quantos mil seguidores.
— E você acha que não reparei que tiraram foto dele comigo hoje? – Gen sorriu tímida – Fingi que era brincadeira, mas eu vi um cara atrás de uma árvore tirando foto dele comigo… Enfim, vamos sair hoje e ia te perguntar se você não pode pedir pra alguém de cobrir pra você ir com a gente…
— Meu Deus, eu queria muito! Mas você sabe que sem mim o bar não funciona, né? Ainda mais depois que meus pais resolveram deixar tudo por minha conta e foram viajar por aí! Você seria uma filha perfeita pra eles!
— Ou não! – Gen riu – Ok, a gente ia pro bunker, mas ele pensou por mim e falou que talvez não fosse bom eu beber no meu ambiente de trabalho… Tive que concordar…
— É verdade, melhor irem pra um lugar que ninguém te conheça… – Lisa ria – Tá, e o que mais fizeram?
— Como assim? A gente conversou, deu uns beijos, conversou, mais beijos…
— Essa é minha garota!
— Bom, ele insistiu em vir me buscar, então dei seu endereço pra ele, aí mais tarde ele vai passar aqui, mas acho que você já vai tá no bar.
— Vou, mas aproveita muito e, por favor, juízo! – Lisa saiu do quarto.
O horário de vida noturna na cidade começava por volta das 21h. Foi às 22h que Dennis mandou uma mensagem para Gen avisando que já tinha chegado e que estava esperando na parte de fora da casa. Gen deu um último retoque na maquiagem e na roupa, respirou fundo e saiu da residência da amiga.
— Eu vou pronta pra cantar Elton John, porque é quase que uma obrigação pra mim… – Gen disse saindo de casa e vendo Dennis de pé ao lado do táxi que os aguardava. Dentro do carro Louis e Chris faziam comentários em alemão sobre Gen estar linda e muito inusitada com o vestido preto de mangas compridas com grandes ombreiras coloridas e brilhantes – Estava esperando o dia certo pra usar minha customização…
— Está linda! – Dennis disse vendo Gen se aproximar cada vez mais, ela tinha prendido o cabelo, o coque no topo da cabeça deixava seus cachos verdes espetados em todas as partes.
— Vai dar selinho? – Louis falou em inglês de dentro do carro alto o suficiente para Gen escutar e revirar os olhos rindo sem jeito.
— Não. – Gen respondeu já próxima de Dennis e o beijando calorosamente.
— Meu Deus! Essa mulher não existe! – Chris gritou de dentro do carro. Louis falou em alemão com Dennis assim que ele e Gen entraram no carro e o rapaz ficou muito mais vermelho que o habitual.
— Ó, eu tenho uma regra! – Gen disse no meio de Louis e Dennis, Chris estava no banco do carona na frente.
— Nada de alemão na presença dela, Gen acha que a gente tá xingando ela… – Dennis adiantou a regra de Gen para os amigos.
— Nesse caso deixe-me traduzir para a senhorita… – Louis falou em inglês.
— Não! – Dennis o cortou e Gen o olhou debochada.
— Ah, mas vai traduzir sim, fala Louis… – ela disse olhando para Louis, Chris gargalhava do banco da frente.
— Eu apenas disse que se estava desse jeito que esperava que o Dennis tivesse trazido camisinha… – Louis falou como se Gen não fosse engasgar de tanto rir e Dennis não fosse querer enterrar a cabeça no asfalto.
— Não tem problema se ele não trouxe, eu tenho, Louis… – Gen conseguia reverter a situação rapidamente.
— Todos concordamos que a Gen é melhor nas piadas de sacanagem? – Chris dizia rindo.
— Sim, sem dúvida… – Louis disse tão vermelho quanto o amigo, era perceptível mesmo dentro do carro – Tem mesmo? – ele perguntou baixo para Gen que fez sinal de positivo com o polegar discretamente – Ah, mulher… – Louis ria.
— Bom, eu pesquisei e tem alguns bares karaokê aqui em Colônia… – Chris falava – Optei por um que tem uma sala pra cada grupo, então vai ser só a gente se toparem, ou querem passar vergonha na frente de mais pessoas?
— A Gen nunca vai passar vergonha, nós que vamos ser humilhados… – Dennis disse rindo.
— Você não me viu cantando depois de um copo de álcool, senhor cliente… Eu topo passar vergonha na frente de mais pessoas!
— Então, vamos mudar a rota… – Chris disse falando em alemão para o motorista o novo caminho.
O bar karaokê estava tão cheio quanto o Holzbunker deveria estar àquela hora. Era um karaokê coletivo, quem quisesse cantar que subisse no palco e escolhesse a música, todos poderiam ver, criticar e rir da apresentação. O grupo escolheu uma mesa e fez alguns pedidos de bebida enquanto uma mulher cantava uma música de um grupo alemão conhecido para os habitantes da região. Gen estava maravilhada, não tinha conhecido outro bar em Colônia porque sempre estava trabalhando no bunker.
— Eu vou cantar uma agora… – ela disse animada vendo que a música se encerrava.
— Vai ser muito bom poder fazer o contraste depois e jogar nas redes sociais como “expectativa e realidade”… – Dennis disse rindo, mas encorajando Gen a subir em um palco diferente para pessoas totalmente diferentes das que frequentavam o bunker.
Como prometido, Gen iniciou sua apresentação com Elton John e talvez fosse de se esperar que ela seria muito bem aplaudida quando a música se encerrou.
— Agora só volto lá depois de muita bebida e vamos ver se essas pessoas ainda vão me aplaudir! – ela disse voltando para a mesa que seu grupo estava e bebendo de uma vez o copo com cerveja que Dennis tinha separado pra ela.
Chris foi a segunda do grupo a se arriscar depois de algumas doses de “coragem líquida” e a performance da atriz não poderia ter sido mais divertida. Já razoavelmente bêbada e muito mais solta que o normal, Gen subiu novamente ao palco de madrugada para outra música que ela tinha certeza de que seria desastrosa, ela não estava tendo muita noção depois do álcool, e cantou sentindo que tinha decepcionado todos que lá estavam.
— E é por isso que eu prefiro não cantar… – Louis disse depois que Gen voltou pra mesa, mais uma vez ovacionada pelos clientes do bar.
— Vocês filmaram? Eu quero ver se fui péssima ou horrível! – Gen ria.
— Gen, você só cantou melhor que quando chegou, é isso… – Chris falava sorrindo – Agora chega de humilhação, ok?
— Ok… – Gen disse tímida.
— A gente vai lá fora fumar, bora? – Louis disse levantando.
— Meu Deus, vocês fumam? – Gen disse horrorizada e olhou para Dennis.
— Só socialmente… – ele disse rindo – Vou ficar aqui com a Gen, se ela quiser ficar, claro…
— Juízo… – Louis disse rindo e saindo com Chris do bar.
— Nossa você fuma, heróis decepcionam mesmo… – Gen fingia estar sentida.
— Só socialmente e eu estou aqui com você, ei! – Gen o beijou de novo depois que viu que estavam a sós, sem os amigos para fazerem piadas ou brincadeirinhas.
— Eu me sinto alterada o suficiente para ter noção e ao mesmo tempo saber que não tenho muita noção… – Gen disse encerrando o beijo com um selinho.
— Quer um doce? – Dennis riu.
— Quero. – Gen disse sorrindo.
— Seu sorriso está ridiculamente bêbado… – ele ria.
— E o seu continua ridiculamente bonito, senhor cliente. Bom eu sei onde tem um ótimo doce, mas isso implica na gente deixar seus amigos aqui…
— Vou mandar uma mensagem pra eles… – Dennis riu.
— E eu vou pagar nossa parte da conta.
Na saída do bar Louis e Chris viram Dennis e Gen saindo e rindo, Gen piscou para Louis que soube na hora o que ela quis dizer e não conseguia parar de rir. O uber deixou Gen e Dennis na casa de Lisa.
— Eu achava que você ia me levar pra algum lugar que tinha doce… – Dennis falou rindo e entrando na casa com Gen.
— Na geladeira da Lisa tem bolo, e foi ela que fez, é muito bom…
— E de graça! – Dennis seguiu Gen até a cozinha.
— Um pouco de glicose no sangue pra gente não perder a noção, né? – ela disse colocando o bolo em cima da mesa e dando um garfo para Dennis comer junto com ela.
— Posso perguntar por que não quer perder a noção? Os melhores sonos são quando a gente bebe demais, claro que vem a ressaca depois, mas são os melhores sonos…
— É verdade, mas a bebida te faz ficar lerdo, Dennis… – Gen levantou e pegou o pote com o bolo para guardar – Melhor guardar pra Lisa ter o que comer amanhã, né…
— Me faz ficar lerdo? Por quê? – Dennis perguntou levantando e jogando o garfo na pia, Gen revirou os olhos – Ah…
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Era cedo ainda, o horário habitual de muita gente levantar para trabalhar, pessoas que não trabalhavam de noite. A segunda-feira iniciava para muitos e iniciou para Dennis que tinha que gravar logo na parte da manhã, o celular dele começou a tocar o alarme que ficava cada vez mais alto e em um pulo assustado Gen se sentou no colchão.
— Meu Deus, o que é isso? – ela disse tentando achar o barulho.
— Meu celular, desculpa, desculpa… – Dennis ainda sonolento também procurava o celular que estava caído no chão perto da calça que ele tinha usado na noite anterior.
— Desliga isso antes que a Lisa venha te matar! – Gen sussurrava alto e ria.
— Achei… – Dennis pegou o celular e desligou na mesma hora.
— Obrigada, Deus, pelo silêncio… – ela disse voltando a deitar na cama, mas logo se sentou de novo e olhou para Dennis do lado direito do colchão – Meu Deus, você tá aqui!
— Não era pra eu estar? – Dennis ficou preocupado.
— Era. Quer dizer, não sei… – Gen olhou pra ele que ria da situação que se encontrava com ela – Bom, levando em consideração o final de semana, nada mais aceitável que você tenha dormido aqui.
— Dormido… – Dennis sorriu.
— Ah, cala a boca! – Gen voltou a se deitar e ficou virada pra ele.
— Bom, já que já acordei, vou indo… – Dennis tinha apoiado a cabeça no braço esquerdo e olhou Gen com os olhos pesados de sono – Que tal um almoço juntos?
— Esqueci que você é uma pessoa com horário normal de trabalho… – Gen mantinha os olhos fechados e a fala lenta.
— Sou e tenho que passar na casa que a gente tá ficando pra trocar de roupa, tomar um banho… – Gen abriu os olhos – Almoço?
— Senhor cliente, você saiba que ontem você complicou toda a minha vida… – ela sorria.
— Por quê?
— Muitos motivos… – ela bocejou e sentou no colchão de novo – Vem, vou te dar um café da manhã antes de você ir…
— Não, Gen, não se preocupa com isso, eu saio sem fazer barulho, depois só não esquece de trancar a porta…
— Cala a boca. Vem. – ela se levantou da cama e pegou uma camiseta no guarda-roupa, prendeu o cabelo que estava todo embaraçado e foi pro banheiro jogar uma água no rosto e escovar os dentes.
— Gen, volta a dormir, tá cedo pra você, eu sei me virar… – quando voltou ao quarto viu Dennis vestido com a roupa da noite anterior.
— Eu tenho tanta inveja de cabelo de homem… – ela disse se aproximando de Dennis e passando os dedos no cabelo loiro do rapaz – Eu tenho cinquenta mil tipos de produtos pra cabelo, você apenas dormiu e olha como seu cabelo acorda sedoso e brilhante!
— Bom, acho que depois desse elogio me resta te dar um selinho… – foi o que Dennis fez – Bom dia, finalmente.
— Você gosta de café puro? Leite quente? Temos de tudo aqui… – Gen disse sorrindo depois do gesto de Dennis e saindo do quarto cautelosa para descer as escadas.
— Gen, já disse que… – Dennis riu de Gen revirando os olhos impaciente – Café, só café…
— Ótima resposta!
Era perto das 8h da manhã quando Dennis entrou na república de artistas tentando fazer o mínimo de barulho possível para que ninguém percebesse que ele estava chegando naquela hora.
— Ora, bom dia, gatão! – Louis estava na cozinha e tomava seu café da manhã com mais pessoas, todos estavam quase prontos para mais um dia de gravações.
— Dormiu bem? – Chris perguntou tentando não rir, era impossível.
— As olheiras dele dizem que não dormiu… – Louis mordia a torrada.
— Vem tomar café da manhã pelo menos… – Chris disse rindo junto com todos os outros na cozinha.
— Gen já me deu café, obrigado. – Dennis disse vermelho e subiu para tomar uma ducha.
